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3.1.25

O ciclo que se abre

 


«Não é a frase que vai ser mais comentada. Para esse fim, o Presidente deixou outras frases ou expressões, as do “bom senso” e da “cooperação estratégica”. Ou aquela do ser português é ser universal. Camões fica bem num discurso de Ano Novo. O Eça vai para o Panteão na próxima semana, mas não calha bem numa mensagem destas.

As citações de Eça sobre a pátria calhavam melhor junto à frase de que se vai falar pouco, a que mais preocupa Marcelo: os 50 anos do 25 de Abril foram “o fim de um ciclo”.

Não haverá ninguém mais preocupado do que o Presidente com isto. Nota-se de cada vez que fala. Sabe que o primeiro-ministro o ouve pouco e que o líder do PS quase não o ouve. E sabe que os dois não partilham dessa preocupação, no sentido em que acham que tudo se há de recompor, à maneira de um ou de outro.

Para eles, os 50 anos não foram o fim de nenhum ciclo. Estão seguros de que o ciclo é deles e que há de ser parecido a ciclos de outrora. No círculo do primeiro-ministro ainda se cita o exemplo de Cavaco Silva em 1985, que arrancou minoritário e marcou Portugal durante dez anos seguidos. No círculo de Pedro Nuno acredita-se que o momento de desforra vai chegar.

O problema não está nos protagonistas, mas em quem se desforra de quem. PS e PSD acham que se desforram um do outro, quando há muita gente propensa a desforrar-se dos dois. E muita mais indiferente a que essa desforra prossiga.

As circunstâncias são novas. Não se trata da tecla batida de a democracia estar em perigo, mas de uma coisa menos tangível: a democracia está a mudar, desde 2019, quando a fragmentação partidária irrompeu em São Bento. Em 2024 essa fragmentação passou a ser estrutural.

E agora, o que é uma maioria neste novo cenário? Que nível de compromisso ou colaboração existe entre quem pode somar maiorias? Como se faz uma reforma? Como se garante a estabilidade e a previsibilidade que o Presidente da República invocou na sua última mensagem?

Eram perguntas simples no ciclo que se fechou. São perguntas sem resposta no ciclo que se abre. O tal em que pode mesmo haver um PR que não é apoiado nem por PS nem por PSD. Não é fácil caminhar com rumo num terreno que se desconhece. O primeiro passo é reconhecer que o terreno é novo.»


5.10.24

A redução da política às corridas de cavalos

 


«Um dos aspectos mais empobrecedores do comentário político – e por cá há mais comentário do que análise – é o tratamento da política como uma espécie de corrida de cavalos. Quem ganha e quem perde, quem sobe e quem desce, quem tem positiva ou tem negativa, quem tem boas notas e quem tem negativa. Muitas vezes este tipo de pódio para apostas é reforçado pela atribuição de notas como se fosse um exame escolar, um dos vários mecanismos de infantilização que circula numa sociedade em que se é “jovem” aos 35 anos. Do ponto de vista mediático esta simplificação resulta, mas, como hoje o contínuo político-mediático tirou autonomia à decisão política, é relevante analisar as perversidades que isso introduz no debate público, ou seja, na democracia.

Marcelo Rebelo de Sousa foi o introdutor deste tipo de comentário político, dando notas e tendo um papel activo naquelas secções dos jornais com setas para cima e para baixo. Esta simplificação analítica vinha em pacote com secções como “Gente” e com a cenarização, que introduzia uma ficcionalização da política, mas permitia uma enorme vantagem comunicativa.

A outra escola do jornalismo português, a do Independente, era precursora da deslocação para a direita de muita da comunicação social, mas com um forte elitismo cultural e uma afirmação de superioridade social. Estes dois últimos aspectos decaíram com o fim do jornal, mas o primeiro acentuou-se. A junção destas duas escolas acentuou o domínio da direita na comunicação social, trazendo a valorização do protagonismo individual e uma ecologia de temas que valorizava a competição, o psicologismo e o sucesso, em detrimento das questões sociais. A moda e o espírito de rebanho, muito influentes no jornalismo menos qualificado, fizeram o resto. Os pobres, o mundo do trabalho, as desigualdades eram os “feios, porcos e maus” da moda, face aos influencers e aos meninos bonitos das empresas, como Zeinal Bava.

O mecanismo das corridas de cavalos é de um enorme simplismo, porque nem sempre quem “sobe” ganha, ou quem “desce” perde, e nem sempre quem “sobe” ou “desce” está verdadeiramente a “subir” ou a “descer” fora do mundo mediático. A complexidade da acção política, a complexidade da sociedade, as diferentes “recepções” dos sucessos ou falhanços, desaparecem da interpretação, cada vez mais de forma e menos de substância.

As duas escolas tendiam a reduzir a política àquilo a que se chama protagonismo, que valoriza as personalidades, a liderança, e diminui e menoriza a acção colectiva. Aliás, de uma ponta à outra, este tipo de mecanismos competitivos do comentário favorece o individualismo e apaga a complexidade da acção humana e o “ruído do mundo” weberiano. O mundo das redes sociais assenta neste tipo de visão, a que acrescenta uma enorme capacidade de insulto, calúnia e uma indústria da maledicência, ou seja, é eficaz para o “mal”, a que se soma uma incapacidade analítica e um papel quase inexistente do “bem”.

A forma como todo o processo do Orçamento tem vindo a ser tratado é um exemplo deste tipo de mecanismos. Pode-se, como é evidente, fazer um balanço de ganhos e perdas, e é evidente que o PS perdeu porque ficou sem margem de manobra e foi obrigado, entre uma chuva de insultos, a tomar posições que não desejava (escrevo ontem, nunca se sabe o que pode mudar hoje).

Temos os homens e as mulheres, mas falta a paisagem. Embora se fale do “interesse nacional”, toda a gente percebe que é pura retórica e que essa coisa abstracta está de fora não só da actuação dos políticos como da cobertura mediática, que é o que verdadeiramente lhes interessa por razões eleitorais e de formação (a actual geração de dirigentes políticos nasceu e cresceu no contínuo político-mediático). O que falta no julgamento analítico do que se passa com o Orçamento inclui, para começar, o próprio Orçamento em si, que não se reduz às duas medidas polémicas. Quanto do que lá está corresponde a visões diferentes e, no limite, antagónicas da política, supostamente separada pela ideologia, sim, pela ideologia? Eram estas as medidas de identidade para o PSD e para o PS e em que modo a sua alteração, ou recusa, altera o sentido político e ideológico do documento? Quem beneficia ou perde com elas? Como fica a economia, a sociedade, a democracia e por fim, a política neste processo?

Tudo isto apareceu fragmentariamente, mas sempre ofuscado pelas personagens, Montenegro, Pedro Nuno Santos, o Presidente. Mesmo o PS e o PSD, já para não falar do Chega, do PCP, do BE, do Livre, do PAN, personagens menores, ao lado da CGTP, UGT, CIP e CAP, estão no cenário, mas não na acção. Terá sido mesmo assim? Duvido, o interior do PS teve um papel, representados por comentadores sem excepção moles perante o Governo, os “interesses” organizados estão sempre presentes, mas são cavalos invisíveis, que têm tanto mais poder quanto menos se fala deles.

Esta corrida acabou? Não me parece. Mas vai haver outras, pode-se sempre apostar e são um bom entretenimento.»


26.7.24

Elogio da política

 


«É uma dança macabra. Ao ritmo das exigências mediáticas, as figuras dos principais partidos rodopiam para justificar e enquadrar a sua “atitude responsável” face ao orçamento. No contrapasso, à espera de uma qualquer novidade, artigos de jornal e sucessivos diretos dão nota das grandes intrigas ou dos pequenos deslizes dos protagonistas. Mais para o final da semana, comentadores e cronistas criticarão os políticos pela superficialidade do debate e, claro, por sucumbirem à politiquice. Assim é, de facto, mas para dançar o tango são precisos dois.

A meses da apresentação do documento, a política nacional está capturada. Dia após dia, sucedem-se as mesmas questões. Quem aprovará o próximo orçamento? A troco de quê? Da direita a parte da esquerda, todos querem estar na fotografia: ensaia-se um suspense “praticamente impossível” sobre o voto para mostrar “disponibilidade negocial”. A barganha orçamental horroriza-se com as diferenças ideológicas e dispensa grandes mundivisões. Encara com naturalidade que qualquer partido, de qualquer espectro político, o Chega ou o PS, viabilize o projeto da direita.

Haverá quem pense que esta foi a forma de governar inaugurada em 2015. Engana-se. A geringonça foi um acordo há quatro anos, entre forças que negociaram longamente e assumiram objetivos partilhados, claros, ainda que limitados no tempo e no modo. O entendimento não foi renovado em 2019, quando a falta de coincidência entre projetos políticos inibiu novos acordos.

É estranha e perigosa a ideia de que a participação dos partidos no processo orçamental só existe se houver negociação para viabilizar o documento. Não tem de ser assim e não deve ser assim. Essa visão reduz o trabalho parlamentar a uma guerra de claques — e, se for para isso, já há uma bastante ruidosa. Mais bizarro ainda é a tentativa de imposição de um novo senso comum, que naturaliza o apoio a uma governação de sentido oposto, desde que haja “sucesso na negociação” de meia dúzia de propostas a incluir ou excluir.

Não quero ser mal interpretada. É claro que o Parlamento é um lugar para procurar aproximações e até consensos: eles acontecem todos os dias, com geometrias diversas, sobre os mais variados temas. Mas o Parlamento na democracia é, antes de mais, o lugar de comparência das alternativas políticas, onde se confrontam ideias e mundividências. Uma democracia composta por versões aproximadas do mesmo algoritmo perde potência, desvitaliza-se, torna-se uma câmara corporativa, uma arena para a alternância de interesses, sugerindo que uma alternativa só pode sê-lo contra a própria democracia. Se “não há alternativa”, não há política. Se não há política, só sobra politiquice.

O programa do PSD, que o governo já recusou “desvirtuar” no Orçamento, carrega uma visão ideológica, política e cultural sobre Portugal. Carrega essa visão sobre o papel do Estado, sobre o trabalho, sobre a redistribuição de riqueza, sobre a organização da economia e sobre os direitos sociais. Não é apolítico, como nada é. É um programa de uma direita neoliberal. E tanto cumpre algumas promessas eleitorais de caráter social (apresentadas como “medidas de pacificação social”) como executa elementos da política para a imigração da extrema-direita. As escolhas já consumadas para privatizar a saúde, para abdicar estruturalmente de receita fiscal em benefício dos mais ricos ou para liberalizar o alojamento local não são business as usual. São medidas que deixarão marcas profundas no país, na economia, na vida das pessoas que partilham Portugal.

O impasse em que muitas democracias ocidentais estão enredadas não é circunstancial e não será solucionado por fracos arranjos temporários de geometria parlamentar subordinados às conveniências de calendário de lideranças partidárias. Neste difícil contexto histórico, o risco é mesmo a falta de escolha, por força da naturalização do programa ideológico da direita, pela diluição do confronto na coreografia inconsequente e pela descredibilização das políticas transformadoras de esquerda.

Perante tudo isto, “quem aprovará o orçamento?”. A pergunta é crucial, mas não pelas razões que embaraçam protagonistas e entretêm cronistas e comentadores. Não é conversa de políticos, é a política de um país.»


23.3.24

'Left in the wilderness'

 


«Ao contrário do que por aí se diz, nem sempre o descontentamento desagua em formas de protesto, seja em voto ou manifestações de rua. Na verdade, o descontentamento só se transforma em protesto se alguém o politizar. É sempre necessário que alguém avance e seja capaz de o descrever, de identificar causas e culpados, propor soluções e mudanças, liderar a forma como o protesto irrompe. Por isso, e porque a politização não é toda igual, a questão central da política é sempre quem é que politiza o sentimento de mal-estar que se pressente na sociedade.

A meio da década passada era possível desenhar uma geografia do protesto social que tinha diferenças importantes na Europa. As reações populares às diferentes receitas e doses de austeridade impostas após a grande crise financeira de 2008 exibiam sinais políticos contrários. No norte e centro europeus, crescia o populismo de direita, tingido de racismo e xenofobia. Da Finlândia à Holanda, passando pela Alemanha e o seu reforço em França, assistimos ao crescimento eleitoral dos partidos de extrema-direita. No sul da Europa, pelo contrário, era no campo político da esquerda que o protesto nascia. Em Espanha, logo em 2011, assistimos à explosão do movimento de rua do 15M, protagonizado por jovens e que veio a desaguar na formação do Podemos. Na Grécia, o Syriza tomava dianteira na esquerda depois do colapso do centro-esquerda do PASOK e ganhava as eleições em 2015. E também em Portugal, em 2016, a esquerda transformou em votos a onda de protestos que agitaram os anos do governo da troika e, na sua sequência, a “esquerda à esquerda” dos socialistas participou pela primeira vez no suporte a um governo em quase 50 anos de democracia constitucional.

A interpretação do cisma do protesto na Europa era que a Sul ainda se guardava a memória dos regimes autoritários que aqui vigoraram até ao último quartel do século XX e prevalecia uma tradição de mobilização ancorada à esquerda, que foi quem os combateu. A esquerda parecia ainda deter as organizações sociais e as sociabilidades capazes de politizar e organizar o protesto social. Essa rede de pertenças e organizações vinha de trás – da tradição dos sindicatos, das organizações culturais, das vivências partilhadas nos locais de trabalho e nos bairros residenciais. A esquerda entranhava-se numa cultura popular. Ela era parte dessa mesma cultura popular no quotidiano que vinha de um tempo com menos canais de televisão, menos ofertas culturais no “mercado”, e em que não havia nem internet, nem redes sociais.

Em 2018, quando os coletes amarelos irromperam nas ruas de França, o mais surpreendente era o sinal percetível de uma imensa raiva popular, mas que desta vez não se ancorava nas organizações sociais de esquerda. Quem acompanhou essa explosão notava a novidade de um protesto de rua algo disperso, incoerente na sua agenda política, mas pela sua significativa violência no espaço público parecia bastante permeável à infiltração da extrema-direita. Subitamente, e contra a tradição europeia do pós-guerra, parecia ser a direita a ser capaz não apenas de politizar o mal-estar popular, mas de assumir explicitamente a radicalização dos protestos nas ruas.

Por cá, ainda houve quem tentasse uma mobilização semelhante. Foi um absoluto flop. Apesar de alguns milhares de “likes” nas redes sociais e das câmaras de televisão fazerem “diretos” da manifestação, apenas umas dezenas de pessoas se concentraram nesse dia no Marquês de Pombal em Lisboa. Mais recentemente, o Chega tentou lançar também protestos na rua, mas agora em versão de ameaça e intimidação ao pluralismo democrático, ao tentar cercar a sede de uma força partidária, o PS. Falhou estrondosamente.

A mudança eleitoral de 10 março, contudo, coloca-nos hoje duas questões. Primeiro, não sabemos bem o que seria agora uma convocatória deste tipo, de tão inebriados nos parecem os apoiantes da extrema-direita pelos resultados nas urnas. Segundo, a questão não é se a esquerda deixou de apontar as causas, os culpados, as soluções em relação aos problemas sociais das camadas populares, ou até de ter organizações capazes de polarizar o protesto. O que parece ter perdido é o ingrediente central da construção de um bloco social – o enraizamento na cultura popular e a presença nos espaços do quotidiano em que se faz socialização, se criam pertenças e se opera a politização. A esquerda bem pode dizer que o mal viver tem a sua origem na contenção salarial que prevalece quase uma década e meia depois da aterragem da troika; ou que os serviços públicos sofrem por falta de investimento. A narrativa da extrema-direita tornou-se mais forte para contar a história do presente e aponta outros culpados: as transformações sociais, as mudanças nas identidades; os novos fluxos migratórios; as “raças” e os pobres que merecem castigo.

Sabemos que as redes sociais e a comunicação social têm uma enorme importância na formação de opiniões. Sabemos que a presença da extrema-direita nas redes é financiada por interesses poderosos e empresários endinheirados. Sabemos do fascínio da comunicação social pelo culto do insulto e do disparate da extrema-direita. E sabemos que todos estes espaços são governados pela lei de que quem paga, manda. O que implica que nesses espaços a esquerda está sempre em desvantagem. Para contrapor a esses poderes fáticos, a esquerda tem de reinventar a sua presença na vida dos segmentos populares e entrar pelo seu quotidiano adentro. Já o fez em condições bem duras – contra a censura, a polícia política, as prisões e a violência do Estado Novo. Está na hora de se reinventar e organizar para essa politização. Se não fizer, estará perdida.

(PS: o título da crónica foi indecorosamente “roubado” a um excelente livro do Noel Thompson)»

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6.1.24

A destruição da razão

 


«Há muitos anos que escrevo sobre um dos factores que penso estar na origem da crise das democracias, o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução. Seguindo as tendências actuais, da ignorância agressiva, à culpabilidade afectiva, à colocação da racionalidade como uma coisa do passado e de velhos, sem capacidade de competir com o glamour da superficialidade, tudo puxando para baixo, a política foi pelo mesmo caminho de vulgaridade e comodismo.

Isso afecta a qualidade da democracia, e o contínuo político-mediático muda o carácter daquilo a que chamávamos jornalismo. Não adianta virem-me dizer que essa relação existiu desde sempre em democracia, porque a resposta é não.

Na forma actual, é um fenómeno recente porque não temos, de um lado a política, os partidos, os políticos e, do outro, os jornais, a rádio e a televisão, influenciando-se mutuamente pela mediação da chamada “opinião pública”, mas apenas um lado, o sistema político-mediático, em que cada vez mais os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação, mas que é pouco mais do que entretenimento afectivo, apagaram o ethos e o logos, a favor do pathos.

Mergulhadas numa pasta emotiva e lúdica, as pessoas são mais pobres na cabeça e remediadas no corpo. E como há quem saiba aproveitar-se disto, são usadas e perdem a liberdade de decidir. Isso aproxima o contínuo político-mediático de formas modernas de propaganda, chamada agora marketing político, em que, de novo, mais uma vez, a principal perda é a da autonomia da política, mas também do jornalismo. E facilita a manipulação por interesses sociais, económicos e culturais, nacionais e geopolíticos. A interferência russa nas eleições americanas de 2016 e no “Brexit”, o papel de empresas como a Cambridge Analitics, fornecendo estudos que permitem manipulações de grupos seleccionados, são mais a regra do que a excepção, e esse mundo só se combate pela cultura, pelo saber, e pela firmeza na acção.

O que se passa em Portugal, um pouco como na Europa, tem relação directa com o alimentar do populismo. Sim, os governos fazem asneiras, há políticos corruptos e apanhados em mentiras, tudo isto é verdade. Têm uma enorme responsabilidade. Mas nada disso seria tão eficaz a alimentar o populismo sem a existência deste contínuo político-mediático que produz a chuva de migalhas que alimenta a extrema-direita.

A informação torna-se muito pobre, a manipulação muita. Isto permite a quem tenha meios e recursos recorrer a profissionais da desinformação ou, no caso dos Estados, a serviços secretos, para obter resultados usando todas as técnicas, das fake news à inteligência artificial, para moldar segundo os seus interesses a opinião pública, logo, o voto.

No caso português, a dominação da vida mediática pela direita política não é de agora. Embora se continue a dizer que a maioria dos jornalistas são de esquerda, isso tem um pequeno papel face àquilo a que antes se chamava as ideias dominantes. Uma parte da nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas “fracturantes”, falando assim para pequenas minorias intelectuais urbanas, fazendo um enorme serviço à direita canalizando para as “guerras culturais” de elite a sua energia e deixando os milhões de portugueses, que são pobres, excluídos e explorados, fora de moda, o que também significa apagá-los da sua condição existencial num limbo comunicacional como “pobres, sujos e maus”. Esses portugueses não brilham no escuro como as novas vedetas do neocapitalismo triunfante, como as start-ups, os “unicórnios”, os empreendedores, os nerds das novas tecnologias, as influencers, heróis do jetset e das redes sociais. O resultado é que muitas ideias da direita política ficaram na moda, dominaram jornais e televisões, num terrível mecanismo de não-pensamento e de ignorância.

Veja-se um exemplo dos anos da troika, em que a chamada TINA, a ideia de que não havia alternativa a uma política de austeridade tendo como alvos os “de baixo”, se tornou na vulgata ideológica que políticos, jornalistas, lobistas repetiram da direita à esquerda. Quando alguém apresentava uma proposta, a primeira pergunta era “quanto custa?”, em vez de ser “qual o mérito da proposta?”, mesmo que custasse algum dinheiro. E poderia também ser “quem é que a vai pagar?”. “Quanto custa?” é uma pergunta que tem sentido, principalmente em tempos de escassez, mas teria de ser sempre a segunda pergunta, e não a primeira. A partir daqui estamos num terreno de legitimação da TINA, que depois se somava à apresentação selectiva de alvos nas despesas de segurança social, nos pensionistas e nos idosos, a “peste grisalha” que ameaçava o futuro dos jovens.

Nos dias de hoje, o contínuo político-mediático é um excelente instrumento para a manipulação do justicialismo, que sabe para quem orientar as suas fugas de informação – jornalistas e órgãos de comunicação –, escolhendo o tempo dessas fugas para obter ou efeitos políticos ou efeitos de autojustificação dos seus actos quando fez asneiras, mas acima de tudo escolhendo os interlocutores das fugas que sabe que lhes darão de imediato a máxima publicidade e as apontarão aos alvos escolhidos. Antes de alguém parar para pensar e ver o que há de substancial, já títulos e frases estão por todo o lado e a sua impressão não é apagável.

É que, no passado, a política em democracia era suposto servir o bem-estar das pessoas, e o jornalismo a informação e o escrutínio do poder. Hoje, o sistema político-mediático serve interesses e intenções dos poderosos, mas deixa as pessoas comuns com menos liberdade e menos poder. É, para alguns, trabalho bem feito. Para a democracia, é péssimo.»

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23.12.23

2023, o ano do fim de um ciclo

 



«Quem olhar para Portugal, apenas no plano da política orçamental e financeira do Estado, até fica com a impressão de que 2023 foi um ano que correu bem. As contas públicas fecham com um excedente orçamental de 0,8%, estando previsto que será de 0,2% em 2024. Depois do choque de uma crise inflacionária, a inflação baixou para 1,6% em Novembro, prevendo-se que seja, em média, de 2,9% para o ano. A dívida pública baixou para 103% do PIB este ano, devendo ficar em 98,9% do PIB em 2024. Isto quando o desemprego se mantém na casa dos 6% e o emprego cresceu a níveis inéditos. Isto, friso, depois de uma crise inflacionária nascida com a pandemia de covid-19 e muitíssimo agravada com a guerra provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.

Mas, de repente, tudo parece estar diferente na política portuguesa. O ano político, que começou assente na estabilidade de uma maioria absoluta, termina com a certeza de que haverá eleições legislativas antecipadas a 10 de Março, assim como de que, mesmo que o PS venha a ganhar nas urnas, o seu líder é agora Pedro Nuno Santos e não António Costa, após o primeiro-ministro em gestão se ter demitido, em 7 de Novembro, depois de ter sido divulgado, em comunicado do gabinete da Procuradoria-Geral da República, que estava a ser investigado no âmbito da Operação Influencer.

É certo que a demissão de António Costa não aconteceu apenas por causa do comunicado da Procuradoria-Geral da República. A investigação tem como arguido o seu ex-chefe de gabinete Vítor Escária e foram feitas buscas, na residência oficial, à sala do chefe de gabinete, cargo que está no centro do poder governamental do primeiro-ministro. Para já nem falar dos 78 mil euros em notas que foram apreendidas pelo Ministério Público na sala do chefe de gabinete, em envelopes dentro de livros e caixas de vinho.

Foi um final de mandato de primeiro-ministro inédito, depois de António Costa estar já no seu terceiro Governo e ao fim de oito anos. Mas se olharmos para o filme do ano político, salta aos olhos o clima de instabilidade governativa que caracterizou o ano, preenchido com demissões de membros do Governo e eivado de polémicas. Para se ser exacto, aliás, os terramotos governativos começaram a 10 de Novembro de 2022, com a demissão do secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, Miguel Alves, acusado de crime de prevaricação, enquanto presidente da Câmara de Caminha.

A 24 de Dezembro, o Correio da Manhã noticia que a então secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, recebera uma indemnização de meio milhão de euros, quando deixou de ser administradora da TAP, o que levou a que o ministro das Finanças, Fernando Medina, a demitisse a 27 de Dezembro. A polémica que este caso provocou foi desgastando o Governo e provocou que, a 29 de Dezembro, o ministro das Infra-Estruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, se demitesse, assumindo a responsabilidade política, mas reconhecendo, cerca de três semanas depois, em comunicado, que autorizou, por Whatsapp, o pagamento da indemnização. Já a 5 de Janeiro a secretária de Estado da Agricultura, Carla Alves, demite-se, depois de o Correio da Manhã noticiar que tinhas as contas bancárias arrestadas, no âmbito de um processo judicial contra o seu marido, Américo Pereira, antigo presidente da Câmara de Vinhais.

A turbulência não acabou por aqui. Viveu-se uma guerra entre Presidente da República e o primeiro-ministro que tiveram um confronto violento em torno do caso João Galamba. Na sequência do caso da indemnização a Alexandra Reis e no âmbito das inquirições parlamentares sobre a gestão da TAP, no final de Abril, o ministro das Infra-Estruturas, João Galamba, demite um adjunto, Frederico Pinheiro. Uma demissão que envolveu agressões no ministério e os serviços secretos a irem a casa deste recuperar um computador. Perante o inusitado da situação, o Presidente da República pede a demissão de João Galamba, mas o primeiro-ministro não o demite, afrontando a vontade de Marcelo Rebelo de Sousa.

Em planos como o da gestão orçamental, António Costa foi um bom primeiro-ministro. Veja-se o elogio que lhe fez o Presidente da República, na quinta-feira, na cerimónia de cumprimentos de Natal, em Belém. Aguentou o país e apostou no Estado social e na protecção das empresas dos trabalhadores e dos cidadãos mais vulneráveis, durante a pandemia de covid-19 e desde o início da guerra na Ucrânia. Assim como teve um papel activo na União Europeia, tendo estado no centro da construção de políticas comuns.

Mas António Costa é o último primeiro-ministro e líder político português de uma estirpe, de uma tradição política que vêm da fundação da democracia portuguesa. Foi formado numa forma de fazer política que já não existe. Cresceu numa época em que não havia — nem na lei, nem na opinião pública — a exigência de transparência e o escrutínio de hoje – no bom e no mau sentido.

António Costa pertence à geração de 80, quer dizer, das pessoas que estavam na casa dos 20 anos, nessa década. Dos que já eram adolescentes em 25 de Abril de 1974. Os actuais líderes dos partidos parlamentares são das gerações de 90 e de 2000. Rui Rocha tem 53 anos, Rui Tavares tem 51 anos, Luís Montenegro tem 50 anos, Paulo Raimundo tem 47 anos, Pedro Nuno Santos tem 46 anos, Isabel de Sousa Real tem 43 anos, André Ventura tem 40 anos e Mariana Mortágua tem 37 anos. Pertencem, cresceram e amadureceram já num mundo novo. Têm outra mundividência e outra formação cultural.

Em 2023, consumou-se uma etapa da política portuguesa. O novo ciclo, que se iniciará em 10 de Março, é mais do que uma mudança de governo e de primeiro-ministro. Até porque estas novas gerações que vão liderar a política do país, cresceram, formaram-se e amadureceram num mundo em que a política é feita de forma mais epidérmica, mais de reacção, menos de reflexão, mais de negação e de rejeição, menos de diálogo e aproximação de propostas políticas para o país solidamente negociadas. Um mundo político e comunicacional dominado pela força das redes sociais, onde campeia a mentira, a histeria, o insulto, onde dominam a superficialidade, os radicalismos, os sectarismos, a agressividade, a demagogia e os populismos.

É certo que a transição geracional não põe em causa a existência de valores éticos, nem a existência de filiações ideológicas. E é também verdade que muito de negativo, do que existia na forma de fazer política tradicional, permanece hoje em dia. Incluindo os jogos de aparelhos partidários – veja-se o que a IL fez com Carla Castro. Os partidos têm os mesmos vícios ou piores. Do mesmo modo, é seguro que neste novo ciclo não haverá mais democracia. Mas muito vai ter de mudar para que a política reganhe a confiança das pessoas. É, de facto, preciso uma nova forma de fazer política, com outra exigência, outra transparência, outro rigor ético – o que não significa justicialismo, nem moralismo, bem pelo contrário. Cabe à nova geração de dirigentes políticos começar essa tarefa.»

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20.2.23

José Medeiros Ferreira

 


Chegaria hoje aos 81. Faz falta.

Para informação adicional clicar AQUI.
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19.2.23

E se discutíssemos política a sério?

 


«Nos últimos meses não se tem discutido política, no sentido nobre da palavra, mas sim coscuvilhice, a que dificilmente se pode chamar política. Os grandes temas, no sentido de projecto de soluções ou interrogações sobre elas, não têm feito parte nem dos meios de comunicação, nem das redes sociais, nem do debate no Parlamento. Além do mais, isto é tóxico para a saúde mental e social das pessoas, já de si sujeitas diariamente às descrições da guerra e às dificuldades da vida quotidiana com a inflação e os anúncios de possibilidade de recessão. É a insegurança e o perigo que se respiram na sociedade.

Excepto um ou dois casos, que devem ser discutidos no contexto da orientação política, tudo o resto é actividade detectivesca, para servir interesses de combate político rasteiro. O esquema é conhecido e até já deu lugar a estudos académicos. Da parte das estruturas do Ministério Público há “fugas” de novidades ou de matérias que já deviam estar arrumadas. São publicadas em dois tipos de jornais com públicos bem diferentes, ou mesmo num pequeno jornal regional. Daí partem para as redes sociais, onde são alimentadas de dados e de comentários que não têm que responder a ninguém em termos de responsabilidade. E está feito um caso. As agências políticas vão trabalhá-lo. Os jornais sérios e as televisões não têm outro remédio senão pô-los também na agenda. Esta actividade detectivesca é muito mais rentável do que seguir o membro de um casal a mando do outro.

Eles pensam?

Entretanto, a oposição de direita não diz quais são os seus projectos e soluções para a situação actual. O que é que pensam em termos de industrialização do país? Não basta dizer que é necessário injectar dinheiro na “economia”. Qual economia? O que é que analisam em termos de inflação, da dívida pública, do risco da recessão? O que é que pensam da evolução da guerra europeia, da ajuda portuguesa, do papel da Europa?

Qual é o plano que têm em relação aos salários, às reformas? Que ideias concretas têm em relação à pobreza, que se estende a mais de um quarto da população? Qual é a posição que tomam e as soluções para as colocações, os vínculos e as carreiras dos professores? Qual o plano que defendem para salvar o Serviço Nacional de Saúde? O que pensam do número de camas hospitalares? E concretamente, o que propõem para fixar os profissionais deste sector no serviço público?

Que análise fazem, detalhadamente dos vários sectores de aplicação do PRR? Que proposta é que têm para diminuir a utilização de combustíveis fósseis? O que é que propõem para a Administração Pública?

Estou a falar de propostas concretas, com números, com avaliação do existente e soluções para o futuro. Não falo de protestos, críticas soltas, palavras de ordem, mesmo que ditas com veemência. Seria uma boa discussão, séria, nestas matérias. E tal como o primeiro-ministro disse a respeito dos casos, o Governo tem-se posto a jeito. Na Educação, na Saúde, nos salários, no funcionamento da Administração Pública, não estão à vista ou em curso soluções concretas e sólidas, apesar dos discursos estereotipados – finalmente há uma proposta na habitação.

E a oposição de direita não pensa, fala sem saber. No entanto, tem muito mais palco do que a oposição de esquerda. Este clima é muito propício a situações perigosas. É inegável que o neoliberalismo deu lugar a desigualdades crescentes. E o ostentado luxo dos muitos ricos faz nascer fantasias miméticas em cabeças mais simples dos pobres e mal remediados, que gostariam de ser assim e não só através das revistas de cabeleireiro e as histórias do jet set.

Organizações de extrema-direita mostram-lhes soluções e salvadores. Fazem-lhes ver que o capitalismo, limpo de “casos”, será bom e chegará a todos. Lembremo-nos do papel do juiz Sérgio Moro e da sua rede no Brasil, no lançamento do bolsonarismo. E não esqueçamos a tentativa de golpe de Estado, com militares, ocorrida há poucos meses na Alemanha e de que ninguém voltou a falar, excepto o jornal online setenta e quatro, num bom artigo. E da ascensão da extrema-direita em todos os países da Europa.

Há todos os ingredientes – mal-estar psicológico e social, política à base de “casos”, empobrecimento, dificuldades de acesso à administração pública, redes sociais sem filtro, a guerra e o seu armamentismo, poucas soluções reais à vista. Os protestos apresentados são espampanantes, apalhaçados, como foram sempre nesse quadrante. E vêm ao encontro do “até têm razão”, que ouve por aí quem anda na rua de olhos e ouvidos abertos.»

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13.11.22

Direitos e deveres dos políticos

 


«O espaço público tem sido dominado por notícias sobre incompatibilidades, investigações e suspeitas que recaem sobre políticos. No Governo, no Parlamento, nas autarquias locais. Não se trata de um assunto novo. Pelo contrário, os últimos anos têm sido pródigos neste tipo de agenda mais ou menos sensacio¬nalista, que é terreno fértil para fazer germinar o populismo e que afasta a atenção dos assuntos que verdadeiramente interessam ao futuro do país e que devem ser objeto de um debate coletivo e de uma análise séria e rigorosa.

Mas esta é, simultaneamente, uma matéria que se encontra no âmago do Estado de Direito democrático, não só porque o escrutínio e a credibilidade da classe política são essenciais à democracia, mas também porque aos políticos têm de ser garantidos os mesmos direitos que aos restantes cidadãos.

Os políticos têm os mesmos direitos que os outros cidadãos, mas têm mais deveres. Porque o povo os elegeu democraticamente para os representar em cargos em que podem influenciar ou até determinar o nosso futuro comum, porque utilizam recursos públicos e porque prosseguem fins de interesse público que nos dizem respeito a todos. Em suma, porque neles depositamos a nossa confiança.

Esses deveres inerentes aos cargos políticos resultam da Constituição e da lei, através da consagração de regras sobre incompatibilidades, impedimentos e deveres de conduta, além de tipos penais específicos. Do escrupuloso cumprimento destas regras depende o Estado de Direito democrático.

Mas a integridade do Estado de Direito depende também do respeito pelos direitos dos políticos enquanto cidadãos: presunção de inocência, direito de defesa, direito ao bom nome e à reputação, à imagem, à reserva da intimidade da vida privada e familiar, à proteção contra qualquer forma de discriminação ou perseguição.

A garantia destes direitos não impede o escrutínio e a transparência a que os políticos, atendendo à posição que ocupam, estão e devem estar sujeitos. Impede sim o populismo e a demagogia.

Sempre defendi que os titulares de cargos públicos não podem ser condenados sumariamente a uma “morte política” por haver uma suspeita ou uma investigação em curso, independentemente da constituição ou não como arguido — que, aliás, no nosso ordenamento jurídico é sobretudo uma forma de conferir garantias de defesa a quem é investigado. Além disso, a constituição como arguido pode até resultar de eventos da vida privada que nada têm a ver com o exercício das funções públicas.

Existe, isso sim, uma dimensão de responsabilidade política (e não civil ou criminal) que recai sobre os titulares de cargos políticos e que impõe, na minha opinião, três obrigações principais quando os mesmos são objeto de investigação ou de suspeita: que sejam dadas explicações públicas claras, transparentes e compreensíveis por todos; que a situação não impeça ou prejudique o exercício das funções públicas que lhes estão confiadas; e que haja coerência no tratamento dos casos, tendo em conta as respetivas diferenças.

Da verificação destas três condições depende a credibilidade e a confiança na classe política. Exigir o cumprimento destas obrigações, sem acusações infundadas ou demagógicas instrumentalizadas a agendas populistas e extremistas, é contribuir para o reforço do Estado de Direito democrático.»

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2.7.22

Não sabe o que é o nó górdio? Se não sabe devia saber

 


«Ele há dias, em bom rigor cada vez mais dias, em que o meu interesse pela política corrente portuguesa, se não é nulo, é quase nulo. Não é uma atitude aconselhável, porque o desinteresse pela coisa pública não é uma atitude cívica que se deva ter, mas não consigo, pura e simplesmente não consigo, passar o dia a ouvir e a ler sobre as trapalhadas entre António Costa e Pedro Nuno Santos, ou sobre a tragédia da menina Jessica, ou sobre as “contingências” na saúde, ou as ciclópicas tarefas do novo líder do PSD. No entanto, em todas estas histórias há aspectos relevantes, seja a qualidade da acção governativa, seja o retrato da miséria física e moral do mundo da pobreza e a sua implícita violência, seja o conflito larvar entre corporações poderosas, interesses privados e, de novo, a incompetência da governação, ou sobre o dilema entre uma oposição dos decibéis ou uma oposição reformista num país demasiado pequeno e atrasado para poder ultrapassar os interesses instalados.

De novo, insisto, tudo isto é relevante e não merece indiferença, mas… a pasta informativa que nos é servida todos os dias transforma-o numa espécie de puré de batata, ou melhor num puré de maçã adornado por frutos vermelhos e uma pétala ou uma pequena flor por cima, como um pastiche da pseudo-comida francesa que por aí se come. E quando não é só isso, no meio do puré está um fio de veneno, com a crescente politização escondida da informação, que torna mais saudável ler o Abril, Abril, um site informativo do PCP que não engana ninguém, do que a mais sofisticada e profissional manipulação da Rádio Observador pelas manhãs. Isto para quem não seja seguidor de Mitridates do Ponto, como eu sou há muito tempo, e corra o risco de se envenenar mesmo a sério.

A culpa é dos jornalistas? Já foi mais do que o que é, porque, entretanto, o turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas - jovem aqui segue o critério do Konsomol - que cada vez são mais parecidos na visão do mundo, no vocabulário, no modo de viver entre si, na frequência de lugares, de restaurantes, de leituras, de “sítios”, do que vêem na televisão e ouvem na rádio, que se entendem como quem respira. É uma coisa que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos, uma comunidade de vida e cultura, uma redução da política a critérios mediáticos, uma espécie de contínuo entre a má política e o mau jornalismo feito de uma atenção quase obsessiva às chamadas “redes sociais”, de uma redução da complexidade a favor de um simplismo redutor, de uma pobreza vocabular de que resulta numa incapacidade expressiva e, por isso mesmo, ou uma brutalidade argumentativa ou uma sucessão de lugares comuns, muito pouco estudo e uma dose exagerada de comentários e debates televisivos.

Todos os rodriguinhos dos nossos tempos são absorvidos, quer como aspirações, quer como tabus, com um medo pânico e um não-pensar em relação às matérias proibidas, seja o racismo, seja a homofobia, seja a condição feminina, seja, noutra área de “negócios”, a interiorização da economia da troika, a começar pelo PS. A indiferença face aos estragos feitos à língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico, que só subsiste pela inércia cultural da ignorância, é mais difícil de mudar do que pôr-nos a todos a dizer “todes” para sermos politicamente correctos.

Viver vidas a sério, ou seja as que têm dificuldades e escolhas, não garante experiência, mas as vidas de plástico aproximam-se muito do mundo imbecil das/dos influenciadores das revistas do jetset. Esperem para chegar a praia e vão ver como é. Ler muito também não garante nem qualidade nem razão, mas ler pouco garante muita ignorância e, para quem vive num mundo com uma forte componente explícita de símbolos e escondida de interesses, resulta num modus operandi de rotina e incompetência e de serviço aos glutões que por aí andam e comem estes políticos e jornalistas ao pequeno-almoço.

Dizer isto é elitismo e sobranceria? Talvez. Mas tenho por mim a memória de José Medeiros Ferreira e um seu momento numa entrevista em que falou do “nó górdio”, e a jornalista perguntou-lhe o que era. Medeiros Ferreira irritou-se e respondeu: “Se não sabe devia saber”.»

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28.5.22

Olhem para Portugal, c…!

 


«Há um problema na actual disputa interna do PSD, que está bem longe de ser exclusivo desse partido, mas que se revela com maior nitidez neste tipo de confrontos. Portugal, o país onde vivem e para onde dirigem a sua acção política, está completamente ausente do seu discurso político. Hesitei antes de escrever “completamente”, mas voltei aos textos, entrevistas, manifestos e outras produções de campanha e perdi as hesitações. Aliás, ainda recentemente numa discussão com Nuno Melo no Princípio da Incerteza tive ocasião de dizer o mesmo a propósito da sua moção programática ao Congresso do CDS escrita em “burocratês”.

A raiz é a mesma: onde é que vão os políticos buscar o seu conhecimento e o seu discurso sobre o país? A quatro fontes, intrinsecamente ligadas entre si, a comunicação social, que é a dominante, a experiência da carreira política intrapartidária, e, em menor grau, a sua experiência profissional, hoje muito dominada, naqueles que têm maior currículo, pela linguagem burocrática europeia, dos planos, directivas, normativas, e, por fim, à sua “escola”, à sua educação. Poderia acrescentar a sua experiência de vida, mas ela é desde muito cedo dominada por aquilo que referi como fontes, e tão artificial fora disso que pouco traz para a acção política.

Felizmente para todos, eles já se formaram num mundo muito mais pacífico, não correram o risco da guerra colonial, nem da prisão ou de andar a receber bastonadas, nem de ser despedido e ficar na miséria, ou ser velho e ficar sem parte da pensão e da reforma, ou de ter que trabalhar nas limpezas às sete da manhã, ou de carregar baldes de cimento, ou estar a apertar uma peça de um carro todo o dia, ou a limpar doentes num hospital, a conduzir um autocarro em Lisboa, ou sequer a ter que dar aulas a adolescentes algures nos subúrbios. Ainda bem que é assim, mas convinha perceber o seu privilégio etário, geracional, social, porque a maioria do país vive assim.

O que é que sobra? O contexto desta situação é, em muitos casos, não em todos, uma vida feita na carreira política, com muitos jornais e quase nenhuns livros, muita televisão e “redes sociais” e objectivamente pouca cultura. Os políticos encontram na comunicação social (e vice-versa para os jornalistas) uma casuística superficial, ao ritmo e ao modo da “novidade” jornalística, que condiciona a “agenda”.

Portugal é um país pobre, pouco desenvolvido, muito inculto, pouco cosmopolita e não me é indiferente que seja assim, e eu prefiro quem o diz com clareza e não anda com a boca cheia de “transições digitais” e outros slogans da treta do “politiquês” actual. Tudo isto é ainda verdade, embora os últimos quase cinquenta anos de democracia tenham melhorado de forma drástica todos estes parâmetros, e tenha havido um progresso muito significativo, a partir de uma situação em que a pobreza era muito maior, o analfabetismo, a mortalidade infantil, o provincianismo e, valor dos valores, em que não havia liberdade e éramos servos de uns senhores muito bem vestidos e bem-falantes (havia excepções) e umas senhoras de cabelo com o colchão do Nicolau Tolentino dentro. Houve uma verdadeira revolução nestes cinquenta anos, mas estamos ainda muito longe de deixarmos de ser pobres, atrasados, incultos e provincianos. E, nalgumas coisas, estamos mesmo a andar para trás, principalmente nos valores da sociabilidade e na cultura.

Não vale a pena estar a falar da evidência da pobreza. Antes das prestações sociais, e mesmo depois, metade dos portugueses é pobre. Mas a pobreza não entra verdadeiramente no discurso político.

Enganados pela jactância da “geração mais bem preparada”, onde se pode fazer um curso universitário sem ler um livro, entregamo-nos a uma dicotomia entre o ensino amável, sem esforço, fofinho e o decorar à bruta coisas em grande parte inúteis e que são esquecidas no mês seguinte. Mas o falhanço da educação não entra verdadeiramente no discurso político.

Mas também andámos para trás. A civilidade diminuiu. O português abastardou-se. Bastaram dois anos de restrições e confinamentos – o que seria se fosse uma guerra a sério – para aumentar a agressividade nas ruas, os divórcios ou os lamentos porque os meninos não puderam ir a discotecas e a “saúde mental” da população se deteriorou. Está tudo cheio de “estados de alma”. Os mais relevantes actores da felicidade dos dias de hoje, dependurada em frases guturais e insultos no Twitter, ou na “noite”, são a Super Bock e o Facebook ou o Instagram. Mas a incivilidade e a incultura não entram verdadeiramente no discurso político.

Também não vale a pena falar da desvalorização do trabalho a favor dos unicórnios e das start-ups em incubadoras, e outras coisas que ficam bem nos discursos modernaços, onde parece que a riqueza é obra exclusiva dos empresários e não dos trabalhadores. Deviam ler o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, esse texto comunista, já que não querem ler Karl Marx onde também aprendiam alguma coisa. Mas o trabalho não entra verdadeiramente no discurso político.

Por aqui adiante. Encontram um átomo destas coisas nos textos prolixos da disputa no PSD, nos discursos da Assembleia, nos anúncios dos governantes? Nada (deixemos por agora o PCP, que é de outro planeta, e o BE, que é um asteróide perdido na sua órbita). Por isso, eu torno-me um imprecador e sigo o exemplo do Milhazes. Os excitados e indignados profissionais das redes sociais ficaram entre agradados e zangados porque o bom do Milhazes traduziu à letra uma imprecação de uma multidão num concerto na Rússia contra a guerra – o “c…” com que eu não vou colocar a digna redacção do PÚBLICO no dilema de saber se escreve a palavra toda ou não. Mas o que apetece dizer aqui é o mesmo: olhem para Portugal, a vossa terra, a vossa Pátria, o local onde dez milhões de pessoas esperam que sirvam o seu bem comum, a sua autoridade no voto, a sua liberdade, “c…”!»

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10.12.21

O novo atlas do poder

 


«A era pós-Guerra Fria acabou. O fim chegou lenta e repentinamente com a retirada abrupta e caótica dos Estados Unidos do Afeganistão.

Muitos europeus foram forçados a abandonar os seus sonhos de rumar a um “mundo único” governado pela interdependência económica e pela política multilateral. Mas eles não sabem o que vai acontecer. Nos últimos tempos, os analistas têm frequentemente escrito sobre o mundo a “voltar ao normal” e encorajando-nos a pôr de lado as estruturas geopolíticas mais tradicionais para entender os assuntos internacionais.

No final do século XIX, duas grandes teorias competiram para definir o mapa do poder do século XX. A primeira - melhor descrita pelo estratega naval americano Alfred Thayer Mahan - afirmava que as tecnologias emergentes dos enormes navios movidos a combustíveis fósseis implicavam que quem quer que detivesse o comando dos mares controlaria o mundo. O segundo foi exemplificado pelo teórico britânico Halford Mackinder, cuja teoria central afirmava que, na era dos caminhos-de-ferro, o poder fluía para aqueles que controlavam a grande massa de terra e os abundantes recursos naturais da Eurásia. Estas teorias implicaram diferentes mapas do mundo e diferentes estratégias para prosperar no século XX. Os alemães seguiram o mapa de Mackinder até a ruína final; os americanos usaram o mapa de Mahan e prosperaram. Independentemente do destino, é importante usar o mapa certo.

Então, que mapa de poder explicaria o mundo moderno? Os europeus esperavam que fosse definido por fluxos de bens e serviços, em vez de blocos geopolíticos, e pelos direitos dos indivíduos, em vez de Estados concorrentes. Tentaram construir um novo mundo baseado na soberania conjunta, na interdependência mutuamente benéfica e em normas que todos iriam aceitar. Mas a soberania nacional mostrou-se muito resiliente, a interdependência muito ambígua e as normas muito contestadas.

Ao mesmo tempo, o novo mundo não é simplesmente um retorno a velhos conceitos, uma projecção geográfica baseada na terra ou no mar. No mapa antigo, os estados eram entidades bem definidas que se protegiam da influência de outros. Fazia sentido, portanto, mapear o poder geograficamente. Num mundo globalizado, no entanto, a interdependência é uma realidade.

Numa era em que o conflito entre potências nucleares é muito perigoso, os Estados usam cada vez mais a interdependência uns contra os outros. O poder já não é definido pelo controlo da terra ou dos oceanos, ou mesmo pela influência normativa do “soft power”. Agora é definido pelo controlo sobre os fluxos de pessoas, bens, dinheiro e dados e por meio das ligações que estabelecem. À medida que os estados competem para controlar essas ligações e as dependências que elas criam, esses fluxos atravessam esferas sobrepostas de influência - moldando o novo mapa do poder geopolítico. O jornalista Thomas Friedman afirmou certa vez que a globalização levaria a um mundo plano. Mas, na realidade, o mundo é montanhoso e entrecruzado por redes nas quais alguns poderes são muito mais centrais do que outros. A natureza dos laços que os unem cria grandes oportunidades para exercer poder e influência.

Esta batalha por influência estende-se por sete terrenos: economia, tecnologia, pessoas, cultura, militar, clima e saúde.

No terreno económico, penalizações equitativas e acesso a mercados - juntamente com outras ferramentas económicas, como controlos de exportação, sanções e regulamentações de dados - tornaram-se o principal campo de batalha não militar da política de grande poder.

No terreno da tecnologia, as batalhas de hoje são sobre infra-estruturas digitais, matérias-primas essenciais e novos sectores, como a inteligência artificial (IA), o controlo dos fluxos de dados e o armazenamento, semicondutores, 5G e equipamentos móveis e tecnologia quântica, bem como a definição de padrões para novas tecnologias.

As alterações climáticas e a transição de uma economia movida a carbono também estão a mudar a dinâmica do poder no mundo de hoje. Uma grande proporção dos recursos remanescentes de petróleo, gás e carvão tornar-se-ão activos perdidos - com consequências potencialmente devastadoras para os principais exportadores.

No terreno das pessoas, Fiona Adamson e Kelly Greenhill argumentam que os “trabalhadores migrantes, refugiados, turistas, estudantes, expatriados e elites globais emergem como potenciais peças de um tabuleiro de xadrez estratégico no qual os estados competem por vantagem e influência”.

Novas tecnologias e novas alianças estão a mudar o equilíbrio de poder no terreno militar, onde os gastos no ano passado alcançaram a marca de 2 biliões de dólares (dos quais quase 40% contabilizados por um único país, os Estados Unidos).

A pandemia de covid-19 transformou o terreno da saúde num campo de batalha geopolítico. Os governos entraram numa competição feroz por produtos médicos que poderão ajudá-los a reduzir as taxas de doença e permitir que a actividade económica regresse ao normal. A saúde pública tornou-se um indicador central da eficácia governamental num momento de competição sistémica.

Em última análise, a capacidade de os estados usarem os seus recursos de poder tem muito a ver com normas culturais. Há hoje um clima de “descolonização cultural” - que substitui o universalismo da Guerra Fria e o “fim da história”.

Em conjunto, estes sete terrenos formam um novo mapa de poder. Demonstram que, no mundo moderno, o poder é exercido não por navios de guerra que passam por águas contestadas, mas por pessoas, bens, dinheiro e dados que passam pelos múltiplos domínios contestados da conectividade. Mapeando os terrenos do poder de novas formas, podemos entender melhor as acções e estratégias de uns e outros - e este pode ser o primeiro passo para descobrir como conviver mais pacificamente.

Se não lerem os mapas certos, os nossos líderes podem, literalmente, ver-se perdidos na nossa nova Era da Não-Paz.»

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1.12.21

Porque é que ainda os oiço?

 


«Estive a fazer uma lista das previsões realizadas nas últimas 72 horas pelos analistas, jornalistas e comentadores políticos que pululam por aí: são muitos, mas a esmagadora maioria pensa mais ou menos da mesma maneira, o que é monótono. Como espetáculo é mesmo uma maçada. Porém, por isso mesmo, é fácil fazer uma síntese do que encontrei:

António Costa pode ganhar as eleições legislativas de 30 de janeiro.

Rui Rio pode ganhar as eleições legislativas de 30 de janeiro.

Vai haver Bloco Central.

A crise política favorece o Chega.

A crise política prejudica o PCP.

A crise política afeta o Bloco.

O CDS vai desaparecer.

A Iniciativa Liberal pode subir.

Do PAN não se fala mas pode ir para um governo PS.

Vamos ter crises políticas sucessivas.

A seguir fui fazer uma lista das previsões falhadas e das notícias erradas nos últimos seis anos e que foram transmitidas ao povo português pelos tais analistas, jornalistas e comentadores políticos, essa pequena multidão freneticamente preocupada, minuto a minuto, com os destinos da Nação.

Lembrei-me destas:

Paulo Rangel ia ganhar as eleições internas do PSD e Rui Rio saia da vida política.

Fernando Medina ia ganhar as eleições na Câmara de Lisboa.

O PCP ia aprovar todos os orçamentos do PS.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, ia ser "remodelado".

Em eleições legislativas, Rui Rio iria ter o pior resultado de sempre do PSD.

Francisco Rodrigues dos Santos ia perder a liderança do CDS.

Nuno Melo ia conquistar o CDS.

O PSD de Rio não ia aceitar o apoio do Chega nos Açores.

O Chega ia roubar votos à CDU nas autárquicas.

A Iniciativa Liberal ia ter imensos votos em Lisboa.

António Costa ia remodelar o governo.

Passos Coelho ia voltar.

O PS ia conseguir aprovar todos os orçamentos da legislatura.

Em eleições legislativas, Rui Rio iria afundar o PSD.

Marcelo achava que Costa ia para Bruxelas.

Os cuidados intensivos não iam aguentar a pandemia.

O Serviço Nacional de Saúde ia entrar em colapso.

A ministra da Saúde, Marta Temido, ia ser "remodelada".

Passo Coelho ia voltar.

A Festa do "Avante!" ia espalhar a pandemia.

Iam faltar testes à Covid-19.

A União Europeia ia entregar vacinas rapidamente.

Luís Montenegro ia vencer Rui Rio.

Costa ia convencer Centeno a ficar no novo governo.

Rui Rio ia ser uma tragédia para o PSD.

A "geringonça", na segunda legislatura, ia ter um acordo escrito.

António Costa ia demitir-se por causa da lei de contagem do tempo de carreira dos professores.

O ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues ia ser "remodelado".

O roubo de Tancos ia ser classificado como "ato terrorista".

Joana Marques Vidal ia sair da Procuradoria-Geral da República.

Joana Marques Vidal ia ficar na Procuradoria-Geral da República.

Afinal, Joana Marques Vidal saiu mesmo da Procuradoria-Geral da República.

Passos Coelho ia voltar.

Assunção Cristas ia fazer do CDS o maior partido da direita.

Rui Rio ia perder para Santana Lopes.

Não ia ser possível aumentar reformas e pensões.

O IRS não ia baixar.

O Novo Banco não ia custar dinheiro aos contribuintes.

A União Europeia ia sancionar Portugal por causa das medidas da "geringonça".

O "rating" da dívida pública de Portugal ia descer.

Os juros da dívida iam subir.

Passos Coelho ia ficar na oposição.

Marcelo não ia aceitar as contas orçamentais de António Costa.

António Costa ia demitir o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

O PS não ia aceitar as exigências do PCP e Bloco.

A "geringonça" não ia cumprir os compromissos com Bruxelas.

A "geringonça" ia levar o país à bancarrota.

A "geringonça" só ia durar um ano.

Cavaco Silva não ia dar posse a um governo apoiado por PCP e Bloco.

Não ia haver governo PS.

Faço então um balanço sobre a utilidade, o rigor e a inteligência do jornalismo político português e, irritado, espanto-me com a minha estupidez de viciado em intriga palaciana: mas por que carga de água ainda oiço esta gente, que nada diz ao país?!»