Dado o relevo que tinha sido dado ao papel destes Conselhos quando o presidente foi eleito, não é de somenos importância o protesto concertado dos responsáveis de muitas das maiores empresas do país e as declarações com que as justificaram. Talvez acções destas tenham mais peso do que se pensa num país como os Estados Unidos.
A título de exemplo, eis a carta que Ginni Rometty, CEO da IBM, enviou aos empregados daquela Companhia:
Disbanding the U.S. President's Strategy and Policy Forum
Ginni Rometty
Team:
By now, you’ve seen the news that we have disbanded the President’s Strategy and Policy Forum. In the past week, we have seen and heard of public events and statements that run counter to our values as a country and a company. IBM has long said, and more importantly, demonstrated its commitment to a workplace and a society that is open, inclusive and provides opportunity to all. IBM’s commitment to these values remains robust, active and unwavering.
The despicable conduct of hate groups in Charlottesville last weekend, and the violence and death that resulted from it, shows yet again that our nation needs to focus on unity, inclusion, and tolerance. For more than a century and in more than 170 countries, IBM has been committed to these values.
Engagement is part of our history, too. We have worked with every U.S. president since Woodrow Wilson. We are determinedly non-partisan – we maintain no political action committee. And we have always believed that dialogue is critical to progress; that is why I joined the President’s Forum earlier this year.
But this group can no longer serve the purpose for which it was formed. Earlier today I spoke with other members of the Forum and we agreed to disband the group. IBM will continue to work with all parts of the government for policies that support job growth, vocational education and global trade, as well as fair and informed policies on immigration and taxation.
Esta era a pergunta que gostava de fazer hoje ao novo presidente da República, só para ver se respondia que estava cheio de «afectos» (ninguém estava…) ou «com todos os portugueses» (o que teria sido uma verdadeira solução para a quadratura de um complicado circulo). Responderia, muito provavelmente, que se encontrava no Expresso a escrever notícias – a resposta sempre pronta que tem para perguntas sobre tempos mais ou menos incómodos.
Eu sei muito bem por onde andei: primeiro no meu local de trabalho, desde o almoço nas imediações do Ralis a tentar ver em que paravam as modas, durante o resto do dia em concentrações, por ruas de Lisboa, convocadas nem sei como, e que desembocaram ali para os lados das Janelas Verdes e da Infante Santo. Mas recordo sobretudo o dia seguinte e uma Assembleia Geral de Trabalhadores da empresa em que então estava – a IBM –, numa sala absolutamente à cunha, com mais de 400 pessoas, na qual foi aprovado, quase por unanimidade, um texto que talvez pareça hoje saído de uma série de ficção:
Moção
As forças dos monopólios e dos latifundiários lançaram mais um ataque contra o processo revolucionário iniciado no 25 de Abril.
Aproveitando-se da impunidade com que actuaram no 28 de Setembro, da presença entre nós de agitadores internacionais ao serviço dos potentados económicos, tentaram mais uma vez fazer regressar o fascismo com todo o seu cortejo de crimes de exploração e opressão.
Mais uma vez os trabalhadores se ergueram aos milhares, com os seus sindicatos e com os partidos verdadeiramente democráticos e defenderam, na rua, a liberdade de levar a Revolução até às últimas consequências.
Os trabalhadores da IBM, pondo-se ao lado da massa dos trabalhadores portugueses, exigem:
1 – Castigo exemplar para os contra-revolucionários.
2 – Expulsão dos agitadores estrangeiros que tentam levar o nosso país para a guerra civil.
3 – Aplicação imediata de medidas económicas e sociais que, retirando aos monopólios e latifundiários o poder de que ainda efectivamente dispõem, tornem realmente irreversível o processo revolucionário.
4 – Proibição de todos os partidos que efectivamente estão do lado da reacção.
O que se seguiu em Portugal é conhecido:
11 de Março marca o início do PREC, que viria a durar oito meses e meio – até ao 25 de Novembro. Quem já era adulto lembra-se certamente dos ambientes absolutamente alucinantes, sobretudo a partir de 14 de Março quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e da maior parte das companhias de Seguros. E não se julgue que foi só a chamada extrema esquerda a aplaudir essas medidas:
«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoiou-as, embora prevenindo que "substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa".
Mário Soares mostrou-se eufórico, considerando tratar-se de "um dia histórico, em que o capitalismo se afundou". Disse num comício que "a nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal".» (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28.)
Quem quiser conhecer ou recordar os acontecimentos do dia 11 tem à disposição três vídeos:
Por puro acaso, foi banco onde nunca tive conta e, menos por acaso, nem qualquer outro interesse ou negócio. Mas, no início da década de 90, por motivos profissionais, participei em muitas, longas e dolorosas reuniões naquela instituição, onde se discutia a aquisição à IBM de um novo mega sistema informático que nunca chegou a ver a luz do dia.
O Crédit Agricole era então quem mais mandava (ou quase...) no domínio em questão, era frequente que alguém se deslocasse de Paris a Lisboa para as ditas longas negociações, mas, a páginas tantas, foi decidido que era eu que tinha de fazer a viagem em sentido inverso para defender uma determinada solução, numa reunião com vários intervenientes franceses. Talvez já nem me lembrasse do facto, não se desse o caso de o evento ter acontecido no último andar da Tour Montparnasse e de eu ter tido assim a possibilidade de me deslumbrar com a mais bela vista possível de Paris (melhor que a da Torre Eiffel, sim), à hora certa: pouco antes do pôr do Sol. Inesquecível, inigualável. Fico a dever esta ao dr. Salgado, que seja para desconto dos seus pecados...
Homenagem lhe presto, eu, que pecadora me confesso, porque lhe resisti durante anos. Habituada aos grandes (main frames, com seu estatuto próprio) e ao sacrossanto VM/370, destas geringonças desdenhava. E mesmo quando passei a ter uma em cima da secretária, usava-a apenas como terminal (ou em emulação do mesmo, mais exactamente).
A IBM faz hoje 100 anos. Para além da minha declaração pessoal de interesses – trata-se da empresa onde passei os melhores 25 anos da minha vida, em termos profissionais –, julgo que é da mais elementar justiça assinalar a importância do seu contributo para o progresso tecnológico da humanidade, desde os primeiros anos do século XX.
Todos nos recordamos do primeiro choque que tivemos quando entrámos para a Companhia, no meu caso nos idos de 70: deparar, na secretária vazia que nos era destinada, com uma placa em que nos mandavam pensar.
À margem das comemorações institucionais, 300 colegas, e sobretudo ex-colegas, decidimos reencontrarmo-nos, há alguns dias, numa mega-almoço que nasceu numa conversa de Facebook. Foi tudo menos trivial.
Aqui ficam três vídeos que foram preparados para assinalar o centenário.
Para os mais interessados em pequenas histórias da História: pus agora um post no IBM-emórias, sobre a reacção ao 11 de Março naquela mulltinacional americana.
Vem isto a propósito do pedido de licença sem vencimento que Armando Vara terá feito à CGD, a ser concretizada se for eleito para a Administração do BCP.
Ou seja: para além de não haver um período de nojo (é assim que se chama) entre os dois «empregos» em instituições CONCORRENTES, o que já foi amplamente criticado, não só neste caso como no de dois outros adminstradores, Armando Vara quer manter-se ligado à CGD. Dizem os jornais que uma qualquer comissão do PS acha normal e eu nem percebo (ou prefiro não perceber) por que razão é que a dita comissão tem de achar o que quer que seja.
Num mundo empresarial normal e a sério, isto seria impensável. Para mim, que trabalhei vinte e cinco anos numa grande multinacional, é chinês.
E, a propósito, caríssimos ex-colegas da IBM que passam por aqui: conseguem imaginar-nos, mesmo há trinta anos, a pedir uma «leave of absence» para irmos direitinhos das nossas saudosas torres de Alvalade para a Unisys? Para a Microsoft? Ou lembram-se, como eu, dos problemas que houve em casos que, quando comparados com este, eram autênticas brincadeiras de meninos de coro?