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17.1.20

Semana mais curta só favorece quem ganha bem



«Os ganhos para a saúde e conciliação familiar dos trabalhadores são apontados como benefícios diretos da redução de horários. Mas, pese embora as experiências positivas, quer o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina no Trabalho (SPMT), Jorge Barroso Dias, quer Fátima Lobo, psicóloga das organizações e professora da Universidade Católica de Braga, defendem que não é líquido que a redução de horários resulte em ganhos para os profissionais.

Porquê? Num país de baixos salários, trabalhar menos um dia por semana ou menos horas por dia não se traduz, necessariamente, em maiores períodos de lazer ou de dedicação à família. A medida, acredita Jorge Dias, abre caminho à acumulação de vários empregos para alcançar melhores rendimentos e, por isso, “a maior desgaste dos profissionais e sacrifício familiar”.

É por isso que para o presidente da SPMT “a redução dos horários não pode ser dissociada da questão salarial, sobretudo num país como Portugal, onde o salário mínimo é baixo e o médio também”. Fátima Lobo corrobora: “Eventuais impactos na saúde ou na conciliação familiar só se fariam sentir em grupos com salários elevados.” “Para quem vive no limiar da subsistência, e são muitos os portugueses nesta situação, a semana de quatro dias até poderia resultar numa sobrecarga de trabalho. A tendência é para encontrar trabalhos complementares.” Enquanto a questão salarial não for alterada, diz, “de pouco servem medidas desta natureza”.

E mesmo no aumento da taxa de natalidade, outra das áreas que segundo os teóricos tem a ganhar com a alteração dos tempos de trabalho, a economista e docente da Universidade de Évora, Maria Filomena Mendes, especialista em questões demográficas e ex-presidente da Associação Portuguesa de Demografia, diz-se cética. O que mostram os estudos é que “o adiamento da decisão de ter filhos está primeiro relacionado com o rendimento — uma remuneração compatível com as expectativas — e depois com a estabilidade profissional, por oposição à precariedade, e não tanto com o horário de trabalho”, alerta.

Quem já testou o modelo de quatro dias

Microsoft. A subsidiária japonesa da multinacional tecnológica conduziu uma experiência durante um mês, ao longo do qual encerrou os escritórios da empresa naquele país à sexta-feira. O resultado foi um aumento de 40% na produtividade dos trabalhadores.

Uniqlo. Também no Japão, país onde há uma expressão para classificar aqueles que morrem por excesso de trabalho — karoshi —, a marca de roupas Uniqlo implementou em 2015 um projeto experimental que permitia aos trabalhadores das suas lojas, a tempo integral, trabalharem 40 horas semanais em quatro dias. Esta foi a estratégia encontrada pela empresa para impedir que os trabalhadores passassem a tempo parcial para conseguir uma melhor conciliação familiar.

Perpetual Guardian. Na Nova Zelândia esta consultora financeira é uma das precursoras da semana de quatro dias que implementou após uma experiência bem sucedida, com ganhos de produtividade e motivação significativos para os trabalhadores. Há um ano que os funcionários trabalham 30 horas por semana e têm um dia de folga semanal remunerado.

Basecamp. A empresa norte-americana de webdesign pratica uma semana de trabalho de 32 horas e durante os meses de verão permite que os funcionários concentrem este horário em apenas quatro dias. “Não se trata de trabalhar mais rápido, mas com mais eficácia”, explicou Chase Clemons, cofundador da empresa, em entrevista ao canal CNBC onde referiu que esta forma de organização ajuda os funcionários a concentrarem-se nas tarefas realmente relevantes.

Amazon. O gigante de comércio eletrónico testou em setembro de 2016 o modelo da semana de 30 horas, em que alguns funcionários trabalhavam de segunda a quinta-feira, mas neste caso, ganhando 75% do salário, embora mantendo todos os benefícios. Ainda não divulgou resultados da experiência.

Shake Shack. A cadeia de restauração americana começou a aplicar em março de 2019 a semana de trabalho de quatro dias nas suas unidades de Las Vegas. O modelo está em fase de teste e atinge apenas um terço dos restaurantes da cadeia, mas “os resultados são promissores” permitindo a alguns funcionários reduzir, por exemplo, as despesas com a creche dos filhos, garantiu Randy Garutti, diretor executivo da empresa, à Business Insider. Para o gestor a medida é muito motivadora para as equipas.

Svartedalens. A instituição de cuidado a idosos sueca colocou os enfermeiros a trabalharem apenas seis horas por dia, quatro dias por semana. O resultado foi um aumento de produtividade dos enfermeiros, melhoria dos cuidados prestados e diminuição das baixas por doença entre os profissionais.»

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16.1.20

Call centres: incubadores de precariedade



«Na semana em que sabemos que a Altice vai recrutar mais 2000 operadores de call center, é importante relembrarmos que estes operadores são o exemplo paradigmático da precariedade na juventude dos nossos dias. São autênticas máquinas de criação de precários e assumem a dianteira na tendência da desregulação do mercado de trabalho. É desregulação o termo a aplicar e não flexibilidade.

Os call centers que proliferam pelo país, empregando milhares de pessoas, muitas delas jovens e ainda estudantes, aproveitam-se da incerteza no mercado de trabalho para conquistar, através de prémios e remunerações que posteriormente não se confirmam, jovens universitários que saem do ensino superior ainda com grandes dificuldades económicas e sem perspectivas de emprego na sua área de formação. São muitos os ainda universitários que desempenham este tipo de funções para angariar mais uns trocos, facilitando um pouco as contas caseiras.

Deste modo, as empresas que exploram estes call centers não têm de se preocupar com a reivindicação insistente destes trabalhadores por melhores condições de trabalho, porque eles próprios assumem a coisa como temporária e fugaz. Mas é assim que estas empresas prosperam, com recurso a mão-de-obra temporária, recorrendo de forma abusiva, na minha opinião, a empresas de recrutamento de trabalho temporário, lançando mão de forma desmesurada ao contrato de trabalho temporário que inflige o sentimento de insegurança a todos estes operadores. Ademais, estas empresas têm técnicas de persuasão e motivação que fariam corar de vergonha qualquer charlatão profissional.

Por diversas vezes, à porta de um call center onde distribuía documentos, era confrontado com as maravilhas deste trabalho por parte dos chamados supervisores, que insistiam na existência de uma real possibilidade de crescimento profissional e progressão de carreira no seio destas empresas. É uma técnica interessante que o novo capitalismo usa para dividir trabalhadores que consiste em criar uma teia de falsas hierarquias, distribuindo alegados cargos de poder a que atribuem o nome de supervisores. Na realidade, os detentores destes cargos são trabalhadores como os outros, desempenhando praticamente as mesmas funções e auferindo praticamente o mesmo rendimento. São criadas equipas que competem entre si, na persecução de mais vendas e mais contratos celebrados, instituindo um sistema de metas e objectivos que alimentam o espírito competitivo entre operadores.

As condições de trabalho são deploráveis, obrigando estes trabalhadores, que não beneficiam de qualquer protecção laboral, a atender muitas chamadas de uma empreitada, com pausas reduzidas, horários rotativos e muita pressão para celebrarem contratos. É um trabalho que se centra nos resultados e não no caminho que se percorre para os obter, constituindo assim um desvio da natureza real de um verdadeiro contrato de trabalho. Aliás, os contratos nem sequer são celebrados com a empresa que tem a necessidade de integrar estes trabalhadores, mas sim pelas empresas de recrutamento, fazendo que estes trabalhadores sejam trabalhadores de ninguém. É o que gosto de chamar de capitalismo sem rosto.

Se empregar pessoas é algo positivo e necessário, mais importante é perceber que o trabalho tem de ser realizado em condições dignas de estabilidade e remuneração, sob pena de deixarmos perpetuar estes moldes de contratação que a mais ninguém beneficia além das grandes empresas que retiram lucros obscenos às custas de milhares de precários.»

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7.11.19

Os contentores de Odemira


Helena Roseta:



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8.9.19

Uma mudança radical no padrão de emprego? Alguém acredita?



«Um dos aspetos mais importantes dos últimos quatro anos, para além da recuperação de rendimentos, foi a criação de emprego. Entre 2015 e 2019 houve mais 361 mil empregos por conta de outrem, o que é um dado muito positivo. Este crescimento do emprego não mudou, infelizmente, a estrutura do nosso mundo laboral nem o padrão de precariedade. Estamos, neste campo, em meados de 2019, como estávamos em 2011 e em 2015, com quase nenhuma variação. Portugal tem mais contratos de trabalho, mas o nível de contratos não permanentes permanece muito acima da média europeia, com os jovens a sofrerem particularmente desta condição. Por isso mesmo foi tão surpreendente a sugestão de António Costa, num dos últimos debates televisivos, de que estaríamos perante uma mudança de paradigma no mundo do trabalho, com uma alteração do padrão de precariedade, declaração supostamente sustentada no facto de que “dos 350 mil postos de trabalho criados, 92% foram contratos definitivos”. Seria bom que estivéssemos perante essa alteração de fundo. Mas não estamos.

O que dizem as estatísticas oficiais

Os dados do Inquérito ao Emprego do INE (Instituto Nacional de Estatística), divulgados em cada trimestre e que são de consulta pública, mostram-nos muitas coisas. Nenhuma delas aponta para uma mudança do padrão de precariedade, antes pelo contrário.

Mostram-nos, que o saldo da criação de emprego por conta de outrem é claramente positivo: havia 3 milhões 723 mil empregos por conta de outrem no segundo trimestre de 2015; há 4 milhões e 85 mil empregos por conta de outrem no segundo trimestre de 2019. A diferença são mais de 350 mil postos de trabalho.

Mas na proporção entre os contratos efetivos (contratos sem termo, permanentes) e contratos precários (nas múltiplas modalidades de contratos não permanentes, de que a maior fatia são os contratos a termo certo) não há nenhuma alteração nem nenhuma melhoria que se veja, para lá das pequeníssimas flutuações de conjuntura. Nos trabalhadores por conta de outrem, os contratos precários têm sempre, com ligeiríssimas variações de décimas, a mesma percentagem, em torno dos 21%. E se recuarmos antes de 2011 também.



Ou seja, independentemente de algumas flutuações que podem ser assinaladas, o padrão do emprego em Portugal não mudou com este Governo. Poder-se-ia até dizer que, proporcionalmente, houve menos contratos a prazo em 2012, mas isso tem uma explicação óbvia: foi o ano em que se destruiu mais emprego, e os primeiros contratos a morrerem foram evidentemente os mais precários.



21.7.19

Concertação não é câmara alta



«Há validade e seriedade política no argumento do Partido Socialista (PS), de não se dispor a aprovar legislação laboral que não tenha sido "consensualizada" na Concertação Social? Não. E o PS e o Governo sabem bem que o argumento não tem sustentação.

Conceituados constitucionalistas, juristas do trabalho, investigadores e académicos de várias formações, grande parte dos atores sociais que participaram na Concertação Social e ex-governantes da área do trabalho reconhecem que esse importante órgão de consulta e concertação tem, desde a sua génese, entorses conceptuais, estruturais e orgânicas e que, muitas vezes, foi instrumentalizado por governos. Além disso, funciona com uma representatividade imposta, sem qualquer aferição inicial e ao longo dos 35 anos da sua existência, por motivos políticos. A Concertação Social nunca foi, mas hoje está ainda mais longe de ser, um espelho fidedigno das relações laborais em Portugal.

O primeiro-ministro, António Costa, afirmou ao "Público" a 7 de dezembro de 2015: "Tal como não temos uma visão limitada do diálogo político ao "arco da governação", também não temos o diálogo social limitado às confederações patronais mais uma confederação sindical", rematando a análise do tema dizendo, "ninguém queira transformar a Concertação Social numa câmara alta com poder de veto sobre as decisões da AR".

O PS explora a necessidade de submissão das reformas laborais à Concertação Social - a instituição mais pensada na lógica do velho arco da governação - como modo de travar reformas de sentido mais progressista. O PS raramente afirma discordar das reformas laborais que vota desfavoravelmente. Diz apenas que os parceiros sociais ainda não se pronunciaram ou se pronunciaram desfavoravelmente. Ao refugiar-se na posição dos parceiros sociais, protege-se da posição insustentável que seria assumir, abertamente, a rejeição de direitos fundamentais na área laboral.

Com este comportamento, o PS diz aos portugueses que nunca será possível fazer reformas laborais de sentido progressista em Portugal, mesmo que a maioria da população tenha transmitido um sinal implícito nesse sentido através do seu voto. Submeter todas as reformas laborais à Concertação Social é assegurar que só há dois caminhos possíveis: ou a estabilização dos desequilíbrios, como agora fez, ou o aprofundamento desses desequilíbrios. As duas opções, em conjunturas diferentes, agradam a Bruxelas, à Direita e a todos os que objetivamente apostam nos baixos salários, na precariedade, na descaracterização da negociação coletiva, na colocação de toda a no lado dos trabalhadores como caminhos para o sucesso do "mercado de trabalho". A recente afirmação de António Costa à "Visão" (11/07), "assumimos, perante o presidente Cavaco Silva, que respeitaríamos os compromissos conseguidos em Concertação Social", confirma por que lado ele optou nesta revisão de leis laborais.

Não teremos mudança qualitativa da nossa matriz de desenvolvimento com o Governo aliado à elite empresarial mais conservadora - que continua a dominar a economia e o emprego - e a não valorizar os trabalhadores da Administração Pública, mesmo que faça muitos discursos apelativos e qualitativos aos setores mais inovadores.

Coloque-se o tema da Concertação Social e o do trabalho, em força, no debate eleitoral.»

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2.7.19

O combate à precariedade não pode ser verbo de encher



«Foi ontem publicado o decreto-lei que permite a quem trabalha para o Estado faltar de forma justificada, até 3 horas, no primeiro dia de aulas das crianças.

É uma importante medida de conciliação entre a vida familiar e laboral, embora não seja suficiente para responder ao problema. Sobretudo, estamos ainda muito longe ainda de reverter a progressiva perda de direitos laborais, que tem na precariedade o seu exemplo mais gritante.

A necessidade mais imediata é corrigir as desigualdades que persistem entre o público e o privado. Não se trata apenas desta nova medida de conciliação. Tanto no combate à precariedade como no salário mínimo, é preciso que os progressos na área laboral abranjam igualmente os trabalhadores do Estado e do privado. É um erro pensar que os interesses de ambos são contraditórios ou concorrentes. Pelo contrário, a justiça e decência com que o Estado trata os seus trabalhadores deve e pode servir de critério para os setores empresarial e social. Para que tal aconteça, o exemplo do setor público tem que ser acompanhado de alterações concretas ao código laboral, que combatam a precariedade, protejam os vínculos laborais e o salário.

Apesar do seu discurso bem-intencionado, foi na legislação laboral que a ação do Partido Socialista mais deixou a desejar nesta legislatura. Em primeiro lugar porque não quis reverter as medidas "de exceção" impostas pela troika e criticadas pelo próprio PS no passado. Os cortes nas compensações por despedimento, nos dias de férias, no valor do trabalho suplementar - tudo isto é salário -, bem como os entraves à negociação e contratação coletiva, foram reafirmados na lei, com votos do PS, do PSD e do CDS.

Por outro lado, houve medidas importantes de combate à precariedade no privado que acabaram desvirtuadas pelo acordo que o Governo fez com os patrões na Concertação Social, e que já foi secundado pela Direita. Neste acordo, deve ser referido o alargamento (em prazo e abrangência) quer dos contratos orais de curta duração, quer do período experimental das pessoas à procura de primeiro emprego e desempregados de longa duração. Ao aceitar reforçar estes regimes de exceção, o PS aceitou reforçar os mecanismos de precarização, dirigidos àqueles que já são os mais frágeis: desempregados e jovens.

Há muito tempo que sabemos que os baixos salários e a precariedade são um entrave ao desenvolvimento do país. Era tempo de passar das palavras aos atos e começar a desenhar a dignidade que queremos para amanhã.»

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17.4.19

Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

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18.1.19

Robôs e outras coisas que vale a pena discutir



«Absorvido pelas agendas particulares que determinam a discussão pública, o país passa muitas vezes ao lado dos verdadeiros desafios do futuro próximo. Como o que um estudo da CIP põe em questão, ao alertar para a destruição de 1,1 milhões de postos de trabalho no curto prazo de uma década por força das mudanças em curso com a digitalização e robotização da economia.

Não é ficção científica, e mesmo que os mais cépticos tendam a encontrar alguma dose de exagero, os desafios com que a actual geração que trabalha ou a que se prepara para entrar no mercado laboral se confronta ameaça mudar radicalmente o mundo que conhecemos. Discutir as consequências dessa mudança nos empregos, na política, na geografia das cidades ou nas rotinas do quotidiano é uma obrigação.

PUB O impacte da robotização vai causar mudanças em todos os países desenvolvidos e se as perspectivas do estudo dirigido pela consultora McKinsey apontam para a destruição de mais de 20% dos postos de trabalho existentes, é porque Portugal continua sustentado num modelo de desenvolvimento que tolera vastas zonas de arcaísmo em que predominam os salários baixos. Muitos dos seus trabalhadores (uns 700 mil) poderão dispor de alternativas. Outros talvez não – porque o que se augura só em parte poderá ser uma destruição criativa. Muitas empresas e ofícios deixarão de fazer sentido.

É verdade que Portugal está mais bem preparado do que nunca para a quarta revolução industrial, como avisou o primeiro-ministro. Talvez – porque as exigências dessa revolução implicam uma noção de velocidade e de ruptura que tornam a era do vapor um idílico pôr-do-sol.

Mantendo as marcas da sociedade dual que o sociólogo Adérito Sedas Nunes detectou nos anos de 1960, com segmentos de produção científica e de organização empresarial do primeiro mundo com vastas camadas de população sem o ensino secundário a trabalhar em empresas ineficientes, Portugal vai sofrer um choque que ditará o seu próximo ciclo de desenvolvimento.

Entretidos com a próxima greve, o conflito politiqueiro ou com as indignações do dia das redes sociais, os portugueses estão a passar ao lado destas ameaças (e das suas oportunidades). Era bom que, para lá das medidas anunciadas pelo Governo, houvesse novas acções de formação, novos currículos escolares, mais estímulos à reconversão empresarial ou mais aposta na ciência.

Para lá chegarmos, porém, teremos de acreditar que no próximo ciclo político haverá oportunidade para discutir o país e não apenas a agenda da constelação de estrelas e de cometas que gravita em torno do Estado.»

Manuel Carvalho
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11.1.19

Glovo e Uber eats ou os ladrões dos tempos modernos



«O capitalismo sempre quis colonizar o nosso tempo. A apropriação de cada um dos nossos minutos, marcados por esse instrumento violento chamado relógio, é uma arma poderosa para ditar e comandar a organização da vida pessoal, social e familiar.

A flexibilização do tempo de trabalho, através de formas de organização especialmente penosas para os trabalhadores, como o trabalho por turnos, o banco de horas ou adaptabilidade e a criação de novas modalidades contratuais (contrato de muito curta duração, intermitente, temporário) são expressão da adaptação da legislação laboral ao mercado e uma resposta às suas necessidades. Entretanto, corre-se atrás do prejuízo tentando mitigar os efeitos da lei do mercado, por via da proteção laboral, apelando-se à compatibilidade com direitos fundamentais protegidos constitucionalmente, enquanto se inventam novas formas de alcançar o objetivo de servir os interesses patronais com medidas espúrias e falsamente bem-intencionadas como um período experimental alargado para desempregados de longa duração com maior dificuldade de integração no mercado de trabalho. É este, aliás, o estado da arte, na discussão do novo pacote laboral em Portugal.

Surgem, diariamente, novos mecanismos de apropriação do tempo de trabalho e as tecnologias servem esse propósito. Enquanto se aumentam horários de trabalho por via de uma desconexão inexistente, com telemóveis que tocam a toda a hora, com e-mails que têm que ser lidos em qualquer lugar, com uma urgência empertigada que mata o direito ao descanso e ao lazer, dão-nos UBER eats e Glovo. Entregam-nos as compras em casa, dão-nos os medicamentos à boca, trazidos por um trabalhador explorado que pedala com uma bicicleta, para cima e para baixo, para ganhar um dinheirinho extra.

E convivemos, alegremente, com esta tranquilidade da vida moderna, que nos faz chegar uma pizza a casa, depois de um dia com horas a mais a trabalhar, sem pagamento de trabalho suplementar e sem descanso compensatório, que isso de cumprir a legislação laboral é para incautos e a internet é o paliativo.

Recordemos os "Tempos modernos", em que Charlie Chaplin nos mostrava o operário, alimentado por uma máquina frenética, de tempo contado, fustigado por uma linha de montagem infernal que lhe garantia tiques, em resultado de mimetização de tarefas a uma velocidade alucinante, que não se compadecia com pausas, a atirá-lo para acidentes de trabalho e doenças profissionais. É sempre o tempo que nos querem. E quem é dono dele é dono de tudo.

Na curta-metragem "Hola, buenas noches!", um distribuidor de comida ao domicílio, que presta funções através de uma aplicação móvel, fala-nos das suas condições de trabalho enquanto pedala durante 12 horas. E é difícil não as achar indecorosas.

Tempos modernos estes em que convivemos, com entusiasmo obsceno, com novas formas de exploração laboral à distância de um clique, a troco da usurpação do nosso tempo, esse tempo que é cada vez menos nosso.»

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31.8.18

Quase 2/3 dos jovens admitem prescindir de ter emprego fixo



Cátia Mateus no Expresso diário de 30.08.2018:

«Foi a “Forbes” quem lançou o alerta já no ano passado: em 2020 os millennials - a geração de profissionais nascida entre a década de 80 do século passado e a viragem do milénio - vão representar 40% da força de trabalho mundial. Em 2025 serão 75%. E mais do que os números, foi a análise realizada pela publicação de gestão que fez soar o alerta entre os gestores: “Quer se goste ou não, os millennials serão ativos críticos para a sustentabilidade dos negócios. Se eles não quiserem trabalhar para as vossas empresas, o vosso negócio morre”. O que a consultora Deloitte agora demonstra é que este afastamento das gerações mais jovens - não só da geração millennial, mas também da sua sucessora geração Z (nascidos entre 1995 e 2012) - já está a acontecer.

O mais recente Millennial Survey, o estudo anual da consultora que analisa a prestação desta geração no mercado de trabalho, agora divulgado, revela que globalmente os millennials e a geração Z estão menos leais às empresas, confiam menos nos seus líderes e na ética das organizações. O resultado desta descrença traduz-se em números: 62% dos profissionais encara a hipótese de trabalhar em regime de freelancer como uma alternativa ao emprego a tempo inteiro, apesar da instabilidade associada a modelos de trabalho flexíveis.

Esta nova realidade marca uma inversão face ao foco na estabilidade que caracterizou gerações anteriores. Os novos profissionais não só não querem “criar raízes” nas empresas, como se orientam por outros valores que não os da estabilidade. Segundo o relatório da Deloitte (sustentado em entrevistas a mais de 10 mil millennials e 1850 jovens da geração Z em 36 países), 43% dos profissionais nascidos na até à viragem do milénio ponderam abandonar o seu emprego atual nos próximos dois anos e para 72% é proibitivo permanecer cinco ou mais anos na mesma organização. Na geração Z não há referências a um horizonte temporal de cinco anos. Mas sabe-se que 61% dos nascidos a partir de 1995, que já estão no mercado de trabalho, querem mudar de emprega até 2020.

O que afasta esta geração?

Todos os estudos apontam na mesma direção: não é o dinheiro que move estes profissionais, ou melhor, não é apenas o dinheiro. Destas gerações de profissionais sabe-se que são mais ambiciosas do que as anteriores e que têm maior consciência do seu valor profissional. Mas sabe-se também que para eles, tão ou mais importante do que trabalhar para garantir um salário, é trabalhar de forma ética, com líderes inspiradores e em empresas que gerem impactos sociais positivos. E é aqui que as organizações estão a perder pontos na retenção dos millennials e Z's que preferem assumir os riscos de trabalhar de forma independente.

Mais uma vez, os números da Deloitte demonstram-no. 52% dos jovens profissionais ouvidos no estudo não reconhecem um comportamento ético nas empresas e 56% também não identificam qualquer interesse em criar impacto positivo na sociedade por parte dos líderes. Resultados que segundo Sério do Monte Lee, partner (sócio) da Deloitte, “devem servir de alerta para os líderes empresariais” porque, refere, as novas gerações “sentem que os líderes estão muito focados nas agendas das suas empresas e pouco preocupados com o seu contributo para a sociedade”.

Uma orientação que está a ditar o seu afastamento das empresas e não é de agora. Em 2014, num artigo publicado na Harvard Business Review, Julia Fetherston e Vilas Dahr demonstravam que “a maioria dos millennials acredita que as empresas, e não os governos, terão o maior impacto na resolução dos principais problemas sociais” e defendiam que uma das grandes ambições desta geração é ser parte ativa nesse processo. Uma visão também corroborada pelo partner da Deloitte que acrescenta que “para conquistar a confiança e lealdade destas gerações, as empresas devem encontrar formas de impactar positivamente as comunidades locais e forcar-se em questões como a diversidade, inclusão e flexibilidade”.

Organizações com um propósito e líderes com forte vocação social são parte do caminho para reter uma geração que em breve dominará o mercado de trabalho mundial. A outra parte, conclui o estudo, passa por “conduzir uma atividade que seja capaz de gerar um impacto positivo na sociedade e no ambiente, ser um acelerador de ideias, produtos e serviços inovadores, ter um plano de carreiras que desenvolva e melhore, na prática, a vida dos seus profissionais e construir um ambiente de trabalho inclusivo”.»
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13.6.18

120 euros / mês para licenciados?




Somos Grandes! Marcelo é capaz de ter razão: «Os Estados Unidos são um grande país, mas Portugal ainda é maior».


P.S. - Entretanto, a UA já alterou o anúncio da oferta de emprego e publicou um esclarecimento.
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31.5.18

Este país não é para novos



«António Costa comprometeu-se, no congresso do PS do passado fim-de-semana, a promover políticas no âmbito da habitação, educação e mercado laboral especialmente dirigidas aos jovens, tendo desafiado a concertação social a participar num “grande acordo para as novas gerações”. Paradoxalmente, a nova direcção do PS foi celebrada na comunicação social como “renovada e rejuvenescida” por ter diversos novos membros com menos de 50 anos.

Num relatório recente da OCDE, publicado em Abril, intitulado Youth Stocktaking Report, que podemos traduzir livremente por “Relatório de Inventário da Juventude”, é referido que as políticas dirigidas aos jovens definem normalmente como idade limite os 25 ou 29 anos. Como é bom de ver, chegada aos 50 anos, já passaram pelo menos 20 anos desde que uma pessoa deixou de ser “jovem”.

A tarefa de Costa é Hercúlea, como os números que cito abaixo, constantes no relatório da OCDE acabado de sair, ilustram. Este Portugal não é para os novos.

1. A taxa de desemprego em Portugal entre os menores de 25 anos é de 23,9%, três vezes maior do que a do grupo etário seguinte, entre os 26 e os 55 anos. De entre os jovens que têm emprego, cerca de dois terços têm contratos temporários. Por esta razão, mas não só, as mulheres têm o primeiro filho por volta dos 30 anos, quando já não são “jovens”.

2. A par da exclusão da economia, os jovens estão alienados do sistema político. Apenas 44% dos indivíduos entre os 15 e os 29 anos respondem “sim” à pergunta “Tem confiança no governo nacional do seu país?”. Há pior: na vizinha Espanha, apenas 27% dos jovens têm confiança no governo, e na Grécia 12%. Mas na Suíça, no Luxemburgo e na Noruega, os campeões da confiança juvenil, este número ultrapassa os dois terços. O panorama é igualmente pessimista quando olhamos para o interesse na política: 40% dos jovens não estão interessados na política e, consequentemente, a abstenção entre os jovens é mais elevada do que na restante população.

3. É possível que a confiança e interesse dos jovens aumentassem a confiança se a sua geração estivesse mais bem representada nas instituições de poder. Acontece que menos de 25% dos deputados têm menos de 40 anos, e apenas 2% têm menos de 30. Podemos pensar que os menores de 30 anos são demasiado imaturos para assumir cargos políticos no coração da democracia representativa, mas na Suécia, por exemplo, há 12,3% dos deputados nesse intervalo de idades. A idade média dos membros do governo reportada no estudo da OCDE é de 55 anos, dez anos acima da média da Islândia e Noruega, os países com governos mais jovens. Na administração pública há apenas 11% de funcionários abaixo dos 34 anos; é mais um indicador onde Portugal se destaca pela negativa; apenas a Polónia, Grécia, Itália e Espanha têm uma administração pública mais envelhecida.

4. Apesar de Portugal ter sido o primeiro país a ter um Orçamento Participativo Jovem, em 2017, ainda tem um longo caminho a percorrer nas políticas públicas de apoio à juventude. A OCDE preconiza uma abordagem transversal que envolva diferentes áreas de política, que vão do desporto, ao emprego, saúde ou habitação; em Portugal, o Plano Nacional da Juventude cumpre esta função. No entanto, este plano não tem metas quantificadas e não é sujeito a avaliações periódicas de metas, contrariamente ao que acontece na maioria dos países da OCDE. Há países que vão longe na cultura de avaliar políticas públicas. Na região belga da Flandres, todas as iniciativas legislativas susceptíveis de influenciar os interesses dos menores de 25 anos têm obrigatoriamente de ser acompanhadas por um “relatório de impacto nas crianças e jovens”. No Canadá, o impacto da legislação é calculado para diferentes grupos da população, definidos com base na idade, género, etnia e nível de educação.

5. No seguimento da publicação do Youth Stocktaking Report, a OCDE promove entre 18 de Maio e 18 de Julho uma consulta pública para avaliar a percepção dos cidadãos acerca da importância de ter um governo e administração pública “amigos da juventude”. Está aberto a qualquer pessoa e demora menos de cinco minutos a preencher, aqui.

A moção de António Costa termina com a frase “Esta é a visão da Geração 20/30”. Mas com a alienação económica, social e política das novas gerações, há um risco de que seja a visão das gerações mais velhas para a geração 20/30. Uma sociedade democrática madura tem obrigação de dar aos jovens o protagonismo do seu próprio futuro.»

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4.2.18

Triumph – Crónica do vazio depois da luta



As mulheres que já não são da Triumph.

«Durante 20 dias foram "as mulheres da Triumph", uma epopeia fabril como há tanto não se via, a ecoar hinos proletários e solidariedades nostálgicas. Agora estão em casa, os sonos ainda trocados das vigílias, a adrenalina em queda, a incerteza em alta. Crónica do vazio depois da luta.»
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2.2.18

Amazon? O Porto que se cuide…



If Workers Slack Off, the Wristband Will Know. (And Amazon Has a Patent for It.)

A Amazon patenteou uma pulseira que permite às entidades empregadoras seguir todos os passos dos seus colaboradores. Mais do que isso, a pulseira vibra sempre que tem a informação de que algo errado está a ser feito pelo funcionário.

. «What if your employer made you wear a wristband that tracked your every move, and that even nudged you via vibrations when it judged that you were doing something wrong? What if your supervisor could identify every time you paused to scratch or fidget, and for how long you took a bathroom break?
The online retail giant, which plans to build a second headquarters and recently shortlisted 20 potential host cities for it, has also been known to experiment in-house with new technology before selling it worldwide.
Current and former Amazon employees said the company already used similar tracking technology in its warehouses and said they would not be surprised if it put the patents into practice.»
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25.1.18

A Triumph, ainda




«À saída da reunião, vivia-se entre o “alívio” de poder seguir com a vida para a frente e a tristeza de largar a vida e os "amigos" que sempre conheceram. "Esta noite, em princípio, será a última de vigília. É um dia feliz e triste. Foram 28 anos aqui".»

Dói, e muito, que a insolvência da empresa onde se trabalhou durante décadas possa ser motivo de «alívio» e até de «felicidade». Terrível.
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24.1.18

Não #Triumpharam

#Triumphemos



A ler: Onde Marcelo não foi. 

Já agora:

As trabalhadoras da antiga Triumph, estão desde 5 de janeiro, em vigília à porta das instalações da fábrica, para lutarem pelos seus direitos. São mulheres, guerreiras que merecem o nosso apoio.
Criou-se um conta solidária para dar conta ás suas necessidades.
Por favor apoiem obrigada.
NIB: 0036 0160 99100083668 86
IBAN: PT50 0036 0160 99100083668 86
SWIFT/BIC: MPIOPTPL
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6.1.18

O Pedrógão social



«Entrando no terceiro ano do seu Governo, António Costa garantiu este Natal que “o emprego está no centro da nossa capacidade de conquistar o futuro. Não apenas mais, mas melhor emprego. Essa é a prioridade que definimos para o ano de 2018”. Ele sabe que, no país mais desigual da UE, tem pendente um Pedrógão social que nos incendiou as vidas desde, pelo menos, 2010. É numa paisagem de devastação social quotidiana que continuam a viver milhões de portugueses. As muitas expectativas que esta experiência política trouxe (o primeiro Governo desde 1976 que se compromete a reverter uma tendência permanente de 40 anos de precarização do trabalho) têm produzido mais uma sensação de alívio que uma mudança efetiva. Os escombros continuam à mostra. Na sua mensagem de Natal de há dois anos, Costa reconhecia já que "Portugal apenas poderá preparar-se e vencer os desafios do século XXI com mais crescimento, melhor emprego e maior igualdade." O problema é que continuamos a ficar pelo crescimento de que qualquer liberal falaria, e à espera ficamos de "melhor emprego e maior igualdade".

É o que abundantemente mostra o Observatório das Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais: "a consolidação da recuperação económica" tem revertido a precarização do trabalho. "O peso dos contratos permanentes nos contratos assinados desde 2013 continua a ser diminuto (cerca de 34% dos novos contratos vigentes em outubro de 2017)", e isto depois de, só nos dois últimos anos do governo Passos (2013-15), terem passado de 71,8% para 68% no setor privado. A crise não destruiu apenas contratos precários; com ela se aproveitou para destruir muito emprego que era estável. Além disso, não só a precariedade não recuou, mas ela "é acompanhada por uma degradação da remuneração média dos novos contratos permanentes (837 euros mensais brutos no final do primeiro semestre de 2017)". Nos contratos não permanentes, "o Salário Mínimo Nacional [apresenta-se] crescentemente como a remuneração de referência" (Retoma económica: o lastro chamado precariedade, Barómetro das Crises, n.º 18, 05.01.2018).

Não é assim que se demonstra da capacidade alguma de "conquistar o futuro" de que fala Costa. E o Governo sabe disto: há meses, Vieira da Silva, que insiste em "não demonizar os contratos de curta duração [de três-seis meses] que, por vezes, são necessários, principalmente numa economia com mais fatores de sazonalidade", reconhecia que "a dimensão em que eles existem em Portugal é claramente excessiva. [Somos] o segundo ou terceiro país da Europa que tem mais contratos deste tipo”. O ministro "não [se esquecia] que ainda estamos longe do emprego que existia antes da sequência de crises que Portugal viveu" (entrevista DN/TSF, 06.08.2017), e é mesmo importante que não o esqueça porque ele governa "o país da União Europeia onde a diferença entre o grupo dos 10% com salários mais elevados e o grupo dos 10% com salários mais baixos é maior, sendo os dos 10% mais elevados cerca de cinco vezes superiores (a média na UE é 3,5 vezes). Se a comparação for feita entre o grupo dos 1% com salários mais elevados e o grupo dos 10% com salários mais baixos, a diferença aumenta já para 12 vezes".

Os anos da crise e da troika (2010-15) vieram agravar tudo: segundo dados da OIT, "a parte dos salários e ordenados no PIB diminuiu de 36,8% para 34,1%, enquanto a parte do Excedente Bruto de Exploração, que reverte para os patrões, subiu de 41,3% para 43%". Como sublinha Eugénio Rosa, a "inversão destas tendências" verificada no primeiro ano de Governo Costa (2016) foi "pequeníssima" (0,1%). É a relação direta entre precariedade e desigualdade e pobreza que faz com que ele nos prometa "não apenas mais, mas melhor emprego". Só falta é que não se esquive a fazer o que o PS continua a recusar ao fim de dois anos no Governo: revogar "a caducidade automática dos Contratos Coletivos do Trabalho", usada pelos patrões para precarizar o que não ainda não é precário, e repor "nas leis do trabalho o princípio do tratamento mais favorável que", antes da troika e desde Marcelo Caetano, antes mesmo do 25 de Abril, "proibia, a nível dos contratos individuais de trabalho, que os patrões pudessem impor aos trabalhadores condições piores do que as constantes da lei do trabalho" (Eugénio Rosa, A repartição do rendimento entre o Trabalho e o Capital agravou-se em Portugal durante a crise, 02.04.2017). Se não o fizer, o Pedrógão social continuará aí.»

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