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20.12.21

O Estado xenófobo, torturador e assassino

 


«Quando em Março de 2020 o cidadão ucraniano Ihor Homenyuk foi morto por servidores públicos, ninguém deu por isso porque andava toda a gente cheia de medo da covid-19 que tinha acabado de chegar. Alguns jornalistas não deixaram cair o assunto – nomeadamente Joana Gorjão Henriques aqui no PÚBLICO – e o ministro da Administração Interna foi chamado ao Parlamento. Mas a mais cristalina das verdades é que, com a população e os actores políticos centrados no vírus, no exacto momento do acontecimento, não houve um clamor nacional. Esse clamor só viria a acontecer uns nove meses depois, quando Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu a demissão de Eduardo Cabrita – embora depois tenha negado que fosse esse o objectivo da frase que disse: “Quem protagonizou o passado provavelmente não tem condições para protagonizar o futuro”.

O crime da tortura de imigrantes em Odemira por agentes da GNR, noticiado pela CNN Portugal, é outro crime de Estado que corre o risco de ficar submerso durante muitos meses, entre o caso Rendeiro, o caso Manuel Pinho, o congresso do PSD, as legislativas e o Natal. Se Eduardo Cabrita fosse ministro da Administração Interna, é provável que alguém já se lembrasse de pedir a demissão. Mas já não é. Deixou de servir de bode expiatório e ninguém se vai lembrar de, em fim de Governo, pedir a demissão de Francisca Van Dunen, uma ministra que já anunciou que mesmo que o PS ganhe as eleições vai deixar de o ser, e que acumulou a pasta da Administração Interna com a Justiça só porque sim.

Já sabemos que em Portugal as forças policiais podem torturar e não perdem o cargo de responsáveis pela autoridade do Estado, como aconteceu com os agentes condenados na esquadra de Alfragide. Sobre a tortura dos imigrantes de Odemira, Marcelo Rebelo de Sousa pediu na sexta-feira justiça célere, mas veio rapidamente apelar a que não se confunda torturadores e instituição GNR – “Os crimes ou infracções cometidos por elementos de uma força não podem ser confundidos com a missão, a dedicação e a competência da generalidade dos seus membros”. Mas foi também Marcelo que em Janeiro admitiu, no podcast “Perguntar Não Ofende” de Daniel Oliveira, que existia um problema grave no país, que definia como “um problema de cultura cívica, que não é necessariamente de uma instituição” no tratamento de imigrantes e estrangeiros. Um problema de xenofobia reconhecido pelo Presidente da República – para quem existem “sectores da sociedade portuguesa, atravessando várias instituições, que verdadeiramente não assimilam o espírito da Constituição, que é o espírito da igualdade e da integração e da inclusão”.

O Ministério Público considerou que os agentes da GNR que actuaram em Odemira “agiram em manifesto ódio pelos visados”, “ódio esse claramente dirigido às nacionalidades”. Ou, como disse o deputado do PSD Duarte Marques ao PÚBLICO, “comportaram-se pior do que animais”. A justiça vai seguir o seu curso mas, em vésperas de eleições, importa saber o que cada partido pretende fazer para acabar com a xenofobia e tortura praticadas por representantes da autoridade do Estado. A democracia tem 47 anos e passou demasiado tempo a assobiar para o lado.»

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30.9.20

Um crime sem atenuantes

 


«A morte de um cidadão estrangeiro em instalações de um serviço público, alegadamente provocada por agressões bárbaras e com requintes de crueldade, é abominável em qualquer país onde exista um resquício de Estado de direito. 

O tratamento desumano e degradante a que foi sujeito o cidadão ucraniano Ihor Homenyuk no Centro de Instalação Temporária do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) do aeroporto de Lisboa, no dia 12 de Março, não motivou a indignação que merecia nessa altura, por força do alarme social que a chegada da pandemia começava a alimentar. 

Este caso mancha a reputação de um serviço com pouca notoriedade pública, associado a uma enorme burocracia, cujos funcionários terão encoberto o caso, e mancha a imagem do próprio Estado. A morte de Ihor Homenyuk pode ter sido uma excepção, mas os contornos do caso permitem supor que nestes centros de instalação temporária o uso da violência não é algo inédito. 

Como é possível que um ser humano esteja manietado durante 15 horas numa sala, onde terá sido agredido com um bastão metálico por três funcionários do SEF, que se encontram em prisão domiciliária, sem que mais ninguém se tivesse apercebido da gravidade do que ali se estava a passar? Como é possível que a morte natural tenha sido aventada na certidão de óbito, quando o seu corpo apresentava vários tipos de lesões grosseiras? 

Ihor Homenyuk morreu devido a um misto de negligência e de barbaridade, seja nas medidas de contenção de que foi alvo, extremamente excessivas, seja no acompanhamento que deveria ter tido e não teve, seja na verificação do óbito. Nesta cadeia de falhas sucessivas, ninguém se salva. Não há dúvida possível. 

O que se passou naquele centro de instalação temporária viola a convenção internacional dos direitos humanos e revela um profundo desrespeito pela vida de um semelhante enquanto estava sob custódia policial. Não há atenuante que possa ser invocada para justificar este crime hediondo, num país que teve o discernimento de regularizar todos os imigrantes com processos pendentes no SEF até 18 de Março deste ano. 

É obrigatório que a Inspecção-Geral da Administração Interna feche o inquérito que o ministério ordenou que abrisse, com as devidas consequências no SEF, e que a investigação e acusação do Ministério Público, que deve ser divulgada ainda esta semana, ajudem a Justiça a encerrar este caso com a dignidade que o Estado negou a Ihor Homenyuk quando este chegou a Lisboa com um simples visto de turista.» 

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11.3.18

Segurança policial e Direitos Humanos



«O recentemente divulgado relatório do Comité Europeu para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa, que visitou Portugal em 2016, critica Portugal por abusos de violência policial, com particular descriminação racial por parte das forças de segurança. Ao mesmo tempo que aponta a sobrelotação dos estabelecimentos prisionais e das condições de habitabilidade dos mesmos, sem que investigações transparentes e independentes se façam, não obstante as queixas.

Tenho alguma experiência na matéria e até escritos sobre o assunto. Revisito por isso, aqui, alguns dos problemas que se colocam fundamentalmente à condição humana dos encarcerados e ao atávico comportamento violento das polícias nas esquadras a que são conduzidos os cidadãos, a maioria das vezes de forma ilegal, por não haver indícios de infracção, aliás situação expressamente consignada na lei e na prática tantas vezes omitida.

Na minha condição de “advogado de causas”, que fui na Ordem dos Advogados, defendi, no regime da ditadura do Estado Novo, alguns cidadãos vítimas dessas violências, praticadas impunemente pela polícia e junto dos tribunais fiz a denúncia do que se passava. Num desses julgamentos, o juiz era Godinho de Matos, magistrado íntegro e corajoso, que então absolveu o réu e, no final, disse ao chefe de polícia presente: “Não é a primeira vez que aqui aparece, mas se o fizer outra vez, tomo medidas para encerramento da esquadra e diligências sobre uma rigorosa inspecção ao comportamento policial." Referia-se então ao que se passava na esquadra da Praça da Alegria, verdadeiro açougue dos presos para aí levados, principalmente nas comemorações do 1.º de Maio. Sou testemunha destes testemunhos judiciais destes massacres e ofensas corporais sobre os detidos e lembro aqui o meu colega, José Roque, também ele defensor de muitos desses presos, quase sempre provindos da mesma esquadra.

Mas o que é inquietante é que hoje, num Estado de Direito, a condição de um detido sofra as violências de uma polícia sem formação cívica e ausente das inquietações dos direitos humanos. Pela actualidade do tema, permito-me, aqui, o seu enquadramento, num Estado de Direito como o nosso.



16.11.12

Carga policial: aos costumes disseram nada



Dos partidos com representação parlamentar, PSD, CDS e PS tomaram uma posição clara sobre a actuação da polícia nos incidentes da passada quarta-feira: louvaram-na, como seria de esperar. Dos outros três, dois remeteram-se ao silêncio (PCP e Verdes) e um (Bloco) a um insistente «nim», nomeadamente nas pessoas dos dois novos coordenadores, em entrevista que deram ontem à RTP (ouvir desde o início até ao minuto 4:43): limitaram-se a sublinhar a importância da greve e a afirmarem-se contra toda e qualquer violência – foi curto. Silêncio também das organizações sindicais.

Repito o que já disse ontem: não se trata, de modo algum, de bater palmas a quem atirou pedras, mas sim de perceber por que razão essas pessoas não foram isoladas assim que começaram (era fácil, se se tratava de meia dúzia de arruaceiros, como disse o ministro Miguel Macedo) e, sobretudo, de repudiar e pedir explicações quanto à carga indiscriminada que se seguiu. Era o mínimo que esperaria ver da parte de muitos – em vão, infelizmente, pelo menos até agora.

Que eu tenha lido, só a Amnistia Internacional se posicionou inequivocamente, reprovando o «comportamentos violentos por parte de um pequeno grupo de manifestantes», mas condenando «o uso excessivo da força por parte da Polícia de Segurança Pública (PSP) contra manifestantes que pacificamente exerciam o seu legítimo direito de protesto» e exigindo «a abertura de um inquérito às circunstâncias em que decorreu a actuação das forças de segurança, bem como os termos em que foram efectuadas detenções».

Será que é tão difícil assim «arrancar» mais posições razoáveis e inequívocas como esta? Porquê exactamente? Não se percebe o que aí vem em termos de repressão? Está- se à espera de quê para prevenir, na medida do possível?

Entretanto, há textos que vale a pena ler: 

* Uma longa reportagem no Público de hoje: Quem é que atirou a primeira pedra?
 
* No «Passa Palavra»: A quem serve o triunfalismo? 
 Deste, destaco o último parágrafo que transcrevo:

6.12.11

As polícias que não nos defendem – perguntas a um ministro


O Ministério Público afirmou ontem publicamente que o «alemão detido na greve geral não é procurado pela Interpol». Mais: «De acordo com a Lusa, a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL) adianta na página da Internet que Manuel Beck, detido no dia da greve geral junto à Assembleia da República, não é procurado pela Interpol, nem tem mandados pendentes na Alemanha.»

Durante onze dias, o ministro da Administração Interna e a direcção da PSP mentiram aos portugueses. Digo-o sem pestanejar: mandados de captura não são realidades imateriais como o fado e nenhum dirigente responsável pode andar por aí a espalhar boatos desta índole para justificar acções no mínimo duvidosas, apenas para «se defender» e acicatar o ânimo dos cidadãos.

Num país decente, isto seria o suficiente para que Miguel Macedo tivesse pedido a demissão ontem mesmo, para além de muitas outras razões relacionadas com a actividade das chamadas forças da ordem (?...), no passado dia 24 de Novembro… No Facebook, nasceu, há algumas horas, uma Página onde se exige, «obviamente», a demissão de Macedo e de Guedes da Silva.

Logo à noite, às 22:00, o ministro é entrevistado na TVI24. Num país decente, o jornalista fará certamente algumas das perguntas sugeridas hoje em alguns blogues.

Nuno Bio, no Portugal Uncut:

Sobre os acontecimentos da Calçada da Estrela:
Versão policial:
Foi detido um cidadão alemão por polícia à paisana porque era procurado pela Interpol, tinha agredido barbaramente um polícia junto às grades que ficou ferido com gravidade e porque este "alemão" era procurado por outra agressão à polícia na Alemanha.

Factos:
O ministério público informou hoje que o "alemão" não era procurado pela Interpol e que não havia qualquer caso pendente na Alemanha. A polícia sempre informou que naquele dia tinha ficado UM e só UM agente ferido com gravidade. O agente ferido na Calçada da Estrela é esse polícia ferido, esteve a ser assistido no local pelos seus companheiros e foi transportado numa ambulância.

Perguntas:
Porque é que a polícia disse que o detido era procurado pela Interpol?
Porque é que a polícia disse que o detido tinha agredido antes da detenção um polícia de forma bárbara?
Porque foi efectivamente detida essa pessoa?
Como confiar nos relatos que a polícia faz? Se a polícia mente quando presta declarações no dia seguinte aos acontecimentos, sem pressão, como se pode manter confiança política nos seus comandantes?


Sobre a actuação do dia 24 no Parlamento.
Versão policial:
Houve um grupo de pessoas que deitaram as grades abaixo e a polícia actuou de forma proporcional, contida e competente para sanar o problema e garantir que a AR não fosse invadida.
Houve manifestantes que foram violentos e a polícia usou o bastão e procedeu a detenções.

Factos:
De todos os vídeos, testemunhos e fotos constata-se que as grades caíram, que houve pessoas que tentaram ocupar de forma exaltada mas pacífica as escadarias e que a polícia intervêm à bastonada para garantir o estabelecimento do perímetro de segurança inicial.
Nas fotos em que são vísíveis "manifestantes" a entrarem em "vias de facto" com a polícia são claramente identificados dois homens um com casaco azul e outro com casaco castanho que noutras fotografias estão a prender manifestantes e um jornalista do jornal i.

Perguntas:
O que faziam policias à paisana dentro da manifestação? Isto é normal num estado democrático?
E porque estavam esses polícias exactamente no local dos confrontos e a tomar posições activas na contenda?
O que se entende por uma acção contida, proporcional e competente por parte das forças policiais quando as acções mais violentas são perpetradas por polícias à paisana?


Sobre a exemplar actuação da polícia e as infiltrações
Perguntas:

Qual o sentido de colocar policias à paisana numa manifestação num estado democrático? Qual o objectivo?
Onde fica a linha entre prevenção de actos violentos e a interferência nos legítimos movimentos de contestação social?
O que vai fazer relativamente aos agentes à paisana, infiltrados nas manifestações e que têm papel de agentes provocadores na primeira linha da manifestação?
Porque foi tão célere o comando da polícia e o ministro a concluir que a actuação policial tinha sido exemplar quando no dia seguinte surgiram tantas provas de situações mal explicadas e de falsidades nos relatos dos acontecimentos? Porque abriram um inquérito de averiguações quando já tinham as conclusões?
Compactua com o tom de ameaça que o (ainda) comandante Guedes da Silva utiliza?

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Fernanda Câncio no Jugular:

1.quantos agentes à paisana estavam na manifestação de 24 de novembro?
2.quem são esses agentes (não, não quero os nomes, quero saber a que corporação pertencem, que treino têm, etc)?
3. qual o enquadramento legal (com citação de lei, por favor) da presença de agentes à paisana em manifestações?
4. mais concretamente:
a) qual o objectivo dessa presença?
b) que mandato tem?
c) podem ir armados? com que armas?
d) se acharem que devem 'agir', não têm de se identificar como polícias e de dizer o nome se lhes for perguntado? (recordo que a deputada ana drago tentou saber quem eram os homens à paisana que batiam numa pessoa -- o jovem alemão que era supostamente procurado pela interpol mas que afinal não era -- e não lhe foi dito; recordo que há mais de 20 anos a lei exige que todos os agentes policiais andem com uma plaquinha com a identificação, para que cada cidadão saiba não só que está perante um agente policial mas possa também identificá-lo pelo nome.)
5. se se provar que efectivamente houve agentes da psp ou da gnr ou de outro 'corpo' ou 'agência' governamental a agir como agentes provocadores na manifestação, que tem o ministro a dizer e que tenciona fazer em relação a isso?

A ler também: Daniel Oliveira, O governo usa a polícia para instigar a violência? e Manuel António Pina, Um estranho silêncio
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29.11.11

Violência policial no dia da greve geral

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As imagens das barreiras derrubadas junto da escadaria da Assembleia da República são conhecidas, o vídeo com a agressão policial na Calçada da Estrela talvez não tenha sido suficientemente visto e revisto.



O ministro da Administração Interna considera que «a Polícia não pecou por excesso», mas, desde então, muitos não desistiram da tarefa de reconstituir a sequência dos factos e os eventuais motivos desta agressão, levada a cabo por polícias à paisana, contra uma pessoa não armada e que nem sequer resistiu. A PSP apressou-se a afirmar que se tratava de um perigosíssimo alemão procurado pela Interpol, o que é totalmente falso (tão perigoso que está em liberdade…)

Pode e deve ser lido aqui um resumo detalhado do que está em causa.

A ler, também, o Comunicado do Grupo de Apoio Legal para o 24N, ontem divulgado.
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