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22.8.24

Três séculos é pouco tempo

 


25.5.23

A sobrevida dos condes de Ferreira & C.ª

 


«No quadro da exposição Vento (A)mar, os artistas Dori Nigro e Paulo Pinto apresentaram a instalação Adoçar a Alma para o Inferno III que discute o passado escravocrata do conde de Ferreira e que, por isso mesmo, viram a sua exposição censurada pelo Centro Hospitalar do Conde de Ferreira, tutelado pela Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP). Foi através do dinheiro sujo do tráfico esclavagista, à custa da vida de cerca de 10 mil pessoas negras, que se construiu o Hospital do Conde de Ferreira, 120 escolas primárias e que foram apoiadas inúmeras obras sociais, como as Misericórdias. Não tendo demonstrado em vida ser um homem de “causas sociais”, Joaquim Ferreira dos Santos ter-se-á dedicado às mesmas, postumamente, com o objetivo de limpar o seu nome que, com a abolição, ficara publicamente manchado, como muitos dos que enriqueceram com o tráfico. Nada que trabalhos como Conde de Ferreira & C.ª, de José Capela, já não nos tivessem mostrado há vários anos ou que projetos recentes como Joaquim – O Conde de Ferreira e Seu Legado, de Nuno Coelho, não discutam.

Ora, no que aos dias de hoje diz respeito, é grave que o conde de Ferreira continue a ser apresentado como um benfeitor, glorificado na estatuária, na toponímia e noutros meios de memorialização. É inadmissível que hoje se beneficie desses equipamentos e serviços e se continue a fazer de conta que não se sabe das origens escravocratas da sua “caridade”. E o que é mais grave ainda é que instituições como o referido centro hospitalar se sintam à vontade para censurar trabalhos artísticos que colocam essas continuidades coloniais a nu. Esperemos que a instituição recue e se demarque rapidamente da decisão do seu administrador e do seu diretor clínico – Ângelo Duarte e Nuno Trovão –, peça publicamente desculpa e se posicione do lado certo da história, reabra o acesso à instalação e inscreva de uma vez por todas na sua “memorália” o envolvimento escravocrata do seu patrono. Esperemos também que a Câmara Municipal do Porto, a Direção-Geral das Artes e outras instituições com responsabilidades não fiquem em silêncio. Ou será pedir muito ao país da vocação para o diálogo entre os povos?

Este caso remete-nos para a necessidade de olhar o racismo não só como algo que violenta pessoas racializadas, mas também enquanto relação que beneficia pessoas brancas, no passado e no presente, isto é, enquanto “privilégio branco”. São poucos aqueles que vão rompendo este silêncio. Alguns, corajosamente, expuseram as origens escravocratas da fortuna das suas famílias, como é o caso de Francisco Sousa, que se considera um “afro-beneficiário”, ou de Catarina Demony, jornalista que realizou recentemente o documentário Debaixo do Tapete. Há também quem, como o meu colega e amigo Pedro Varela, investigue as origens escravocratas e coloniais das fortunas de grupos poderosos, como a família Ulrich ou o empresário, apoiante do partido Chega, João Maria Bravo. Aline de Biase Albuquerque, por sua vez, tem estudado o caso de Ângelo Francisco Carneiro, que, de traficante de pessoas escravizadas, passou a visconde de Loures. O seu palacete em Loures é hoje a morada do Grémio Literário.

Este é um debate melindroso para famílias e grupos com responsabilidade no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, não só pela nódoa simbólica, mas por poder vir a “despertar” maior contundência nas reivindicações por reparações materiais. Se há quem se sinta incomodado e critique um suposto desvio “subjetivo” da luta antirracista, eis que tem aqui a oportunidade de mergulhar na “objetividade” das continuidades coloniais em Portugal. Não é?»

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14.9.22

Do bicentário do Brasil e da tentativa de apagar a presença de África nas américas

 


«O tratamento mediático mainstream tanto no Brasil como em Portugal, seu antigo colonizador, do bicentário da independência do maior país da América Latina foi, de um modo geral, uma demonstração de uma irrefutável verdade histórica: as elites ocidentalizadas (o adjetivo é político-cultural) globalmente hegemónicas são profundamente racistas e eurocêntricas. Não nos deve espantar, pois, que ajam como se a importância de África e dos africanos para a construção do mundo moderno fosse inexistente.

Não me refiro ao pedido das autoridades brasileiras para que Portugal enviasse, a título de "empréstimo" (?) o coração de D. Pedro II para, supostamente, ser venerado pelos brasileiros (será que eles, a braços com uma profunda crise civilizacional instaurada pelo bolsonarismo e às vésperas de uma eleição decisiva, que pode interrompe-la ou mantê-la, o fizeram mesmo?). De igual modo, não comentarei os vários textos que li na imprensa portuguesa enaltecendo, com um saudosismo bacoco, a "obra" do Portugal colonial no Brasil.

A questão de fundo é a omissão deliberada do seguinte facto crucial: o papel determinante do trabalho de milhões de africanos escravizados na construção do Brasil, dos quais, lembro, cerca de 80% eram provenientes de Angola. De igual modo, é impossível deixar de mencionar os milhões de cadáveres dos povos originários locais e dos africanos levados à força para o território brasileiro. A "obra" colonial de Portugal no Brasil - assente, diga-se, numa invenção criada pelos portugueses em São Tomé e Príncipe e que se espalharia pelo mundo de então, nomeadamente nas américas, a "tecnologia da plantação" - é, pois, tributária do sangue de todos esses homens.

O facto é que, pesem embora as deliberadas e estruturais (o que é a mesma coisa) políticas de destruição dos brasileiros de origem negro-africana, os mesmos continuam a ser até hoje a maioria demográfica do país. Além do seu contributo económico à construção do Brasil, o seu papel para a formulação da cultura e da identidade brasileiras é absolutamente incontornável. As principais marcas do Brasil ainda hoje são negras: o samba, o Carnaval e Pelé. Além disso, e graças principalmente ao trabalho das novas gerações de intelectuais afro-brasileiros surgidos como resultado das políticas públicas dos governos Lula, começam a ser resgatadas as contribuições de várias outras figuras negras para a própria independência, bem como para a construção do Brasil, em diferentes áreas.

Essas contribuições foram liminarmente ignoradas, de um modo geral, quer nas comemorações oficiais do bicentenário do Brasil quer nas repercussões do assunto na imprensa dominante, no país e fora dele. Por isso, o jornalista, escritor e produtor cultural Tom Farias recordou, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, que a ideia de comemorar os 200 anos de vida do Brasil como país independente "não se coaduna com a ideia de liberdade de homens e mulheres negros e negras - de ontem e de hoje". O título do artigo antecipa o seu conteúdo: - "Uma independência sem negros não vale a pena".

A maka é que as elites historicamente hegemónicas em todos os países da América Latina são descendentes dos antigos colonizadores portugueses e espanhóis, sendo responsáveis pela reprodução, após as respetivas independências, não apenas da ideologia, mas igualmente das mesmas estruturas de dominação herdadas do passado. Lembro-me, a propósito, de um conhecido meu colombiano a quem um dia perguntei pela situação dos negros no seu país, ao que ele me respondeu que na Colômbia não havia negros. Confesso que, por instantes, fiquei sem saber como reagir, tendo sido acometido de sentimentos contraditórios.

A verdade é que a contribuição negro-africana para a constituição de novas nações no continente americano e no Caribe, para a consolidação e universalização do capitalismo e para a edificação da modernidade não carece de demonstração. Apenas de honestidade para reconhecê-lo e valorizá-lo devidamente.»

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22.8.22

É daqui que vimos

 


280 anos é pouco tempo.

(Eduardo Galeano, Los hijos de los días)
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29.12.18

Uma entrevista de leitura obrigatória




Relatórios da administração colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império português.
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14.11.18

A atrocidade, o mundo e Portugal



«Ainda estamos longe de um pedido de desculpas ao mais alto nível, que um dia acontecerá. Até lá, devemos perceber melhor o tráfico de escravos do Atlântico e como Portugal e os portugueses se envolveram. Um caminho que nos ajudará a melhor perceber o mundo global de hoje e reconhecer o quanto foi feito à custa da repressão dos mais fracos. Um passado que nos põe de sobreaviso sobre a necessidade de se resolverem problemas actuais, à escala global. O mundo pode e deve ser diferente.

Os dados são claros. Entre 1500 e 1875, foram embarcadas nas costas de África cerca de 12,5 milhões de pessoas escravizadas, tendo chegado ao seu destino, na sua esmagadora maioria às costas das Américas, cerca de 10,7 milhões. No mesmo período, foram embarcadas 5,5 milhões de escravos para o Brasil, onde chegaram 4,9 milhões. Na última década do século XVIII, o pico desse tráfico, foram traficadas cerca de 80 mil pessoas por ano, morrendo 8.500 na viagem. A participação de Portugal e do Brasil, enquanto colónia, nesta gigantesca operação tem de ser entendida.

A descoberta do Atlântico deu lugar a um império que pôs Portugal entre as nações mais abertas ao comércio transoceânico. Um bom indicador desse relevo é o valor do comércio por habitante. Desde 1600, Portugal encontrava-se à frente da Espanha, com ou sem o comércio de prata e ouro e, a partir de 1700, ombreava com a Inglaterra e a Holanda, só sendo significativamente ultrapassada por estas nações em finais do século XVIII.

O tráfico de escravos por navios portugueses de Portugal ou do Brasil era todavia proporcionalmente maior do que o comércio de ouro e de mercadorias. O que explica esse maior envolvimento de Portugal? O facto de ser o colonizador de uma parte significativa da costa ocidental de África e do Brasil é uma explicação necessária mas não suficiente, pois quem colonizava, como a história o demonstra, não estava escrito na pedra.

Para responder cabalmente àquela pergunta, é preciso compreender que o tráfico de escravos se inseria numa complexa rede de comércio que envolvia várias partes do mundo. Não se tratava simplesmente de navios que saiam de Lisboa, aportavam nas costas africanas, viajando depois para o Brasil carregados de escravos, para depois regressarem a Lisboa com açúcar ou ouro. Era mais do que isso e são várias as ideias sobre o assunto.

Uma delas [narrativas] , baseada na investigação sobre negócios efectuados, navios embarcados ou histórias concretas de negociantes, introduz um circuito mais complexo. Fala-nos de navios, saídos de Lisboa, carregados de panos vindos da Índia, usados para pagamento dos escravos na costa africana, depois traficados para o Brasil, onde os negociantes locais os pagavam com prata, adquirida a troco de ouro no Rio da Prata, na actual Argentina, prata essa que era depois remetida para Lisboa, usada para pagar os panos comprados na Índia e assim fechar o círculo. Os capitais deste comércio podiam ser portugueses, brasileiros, indianos, espanhóis, ingleses ou holandeses, seguindo os fluxos financeiros de então, cada vez mais globais. Deve aqui acrescentar-se, para melhor compreensão dessa rede, que a Índia tinha a prata como principal meio monetário.

Nesta história, entram os comerciantes e traficantes de Lisboa e do Brasil, os traficantes africanos, os colonos espanhóis do Rio da Prata, os comerciantes indianos, e os capitalistas de várias origens. Toda uma rede global em que os africanos escravizados se viram envolvidos, enquanto elo mais fraco. Esta visão alargada do tráfico de escravos mostra a complexidade da operação e a multiplicidade das responsabilidades. Mostra também que a globalização, deixada ao mercado livre, com responsabilidades mútuas e repartidas, sem peias, sem política, pode levar e levou a resultados assim. Essa é sem dúvida uma lição da História.

O tráfico de escravos terminou, em meados do século XIX, quando era ainda negócio rentável e por deliberada acção política, guiada pelo iluminismo e pela incipiente opinião pública de então.

Portugal, um dia que decida tomar a sua responsabilidade nesta história, estará em boas condições para recordar que a boa globalização é aquela que é bem supervisionada. E que, hoje como dantes, os dias são sempre de acção e não de contemplação.»

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20.7.18

Porque estamos em 2018



«O que eu gostava que algum primeiro-ministro, algum presidente deste país respondesse assim:

— Porque não um Museu das Descobertas/Descobrimentos?
— Porque estamos em 2018.

— Porquê encarar agora a escala de seis milhões de escravos que Portugal traficou no Atlântico?
— Porque estamos em 2018.

— Porquê estabelecer a relação entre o passado colonial português e o racismo contemporâneo?
— Porque estamos em 2018.

— Porque é que a recente estátua do Padre Vieira com indiozinhos é anacrónica, equívoca e ofensiva?
— Porque estamos em 2018.

— Porque é que quando falamos numa propensão dos portugueses para a mistura temos de falar na violação sistemática a que foram sujeitas as mulheres indígenas e negras?
— Porque estamos em 2018.

O que é que 2018 tem de especial? A confluência de muitíssimas coisas que há décadas não conhecíamos ou em que nunca tínhamos pensado, pontos de vista novos, antes sem espaço, sem voz, fontes que antes não tinham sido consultadas, um ror de coisas que muitíssima gente mais devia poder conhecer, se essas coisas, esses estudos, essas criações, essas correcções de fábulas perpetuadas ao longo de séculos, pudessem ser amplificadas.

Alexandra Lucas Coelho

Na íntegra AQUI.
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3.6.18

As descobertas de Oluale Kossola



«Ordenaram-lhe que se despisse. Disseram-lhe que lá para onde ia — lá para onde o levavam e que ele, se nem sabia de que porto partia, menos sabia a que terra haveria de chegar — havia muita roupa adequada à sua nova vida. Assim chegou, nu, depois da viagem terrível, porque a sede e a fome eram muitas, depois da viagem assustadora, porque toda aquela água, água a toda a volta, um oceano, portanto, era coisa que nunca vira, poderoso ao ponto de rodear o barco e de o manipular até não se perceber onde era o céu e onde era o mar.

Longuíssimos dias viajou com os amigos, os que vinham de antes e os que passaram a sê-lo por partilharem a mesma língua e o mesmo espaço exíguo. Não lhe deram a roupa prometida quando desembarcou. Nunca se sentira tão envergonhado, tão humilhado. Nu desceu do barco para ver dedos apontados e vozes erguerem-se com espanto e escárnio — “selvagem”, chamaram-lhe.

Tudo podia ter sido diferente. Teria sido diferente se ele tivesse ficado em terra em vez de chamar os seus segundos captores, que quase se esqueciam dele no meio da fuga apressada aos que primeiro o capturaram — mas os seus amigos estavam a ser levados e ele estava em terra desconhecida, sozinho e assustado. Teria sido diferente se a sua cidade não tivesse sido atacada à traição enquanto todos dormiam, triste madrugada aquela em que viu cabeças decepadas, corpos cortados com catanas ou crivados de balas, em que se viu e viu os seus agrilhoados e o seu rei decapitado por recusar a submissão. Mas não foi diferente. Foi como havia sido com tantos e tantas ao longo de tantos, demasiados, anos.

Obrigaram-no então a descer e ouviu rostos diferentes exclamarem numa língua estranha: “Selvagens!” Viu como aqueles que lhe chamavam selvagem eram eles mesmos selvagens destituídos de honra, fazendo estalar chicotes nas costas de todos, e os homens aguentavam, mas não aguentaram quando o chicote tocou a pele de uma das mulheres. Lembra-se de explodirem nesse momento, de imobilizarem o selvagem, de lhe roubarem o chicote, de estalarem o chicote nas suas costas. Lembra-se dessa pequena vitória.

Cudjo Lewis, foi esse o nome que ganhou naquela terra. Nela trabalhou de sol a sol durante vários anos, alombando com as mercadorias que os barcos levavam pelos rios por toda a extensão daquele território desconhecido. Trabalhou enquanto chegavam aos seus ouvidos histórias de uma guerra feroz, uma guerra que, dizia-se, um dos lados combatia para libertá-lo a ele e a todos os que haviam sofrido o mesmo destino.

Muito tempo depois, uma mulher tocou à porta da casa que Cudjo Lewis construíra. Ouvira falar dele e queria registar a sua história. Ele contou-a desde o início. As correrias e as escaladas às palmeiras, as preparações para se tornar soldado, a guerra traiçoeira em que não teve tempo para ser soldado, apenas cativo. As barracas em que mantiveram os prisioneiros até chegarem estrangeiros que os viram, um a um, escolhendo quem levariam para longe, sobre o mar. Contou-lhe da viagem e da sede insuportável que sentiu, do trabalho de sol a sol, dos soldados que acenaram do outro lado do rio, anunciando-lhes que eram livres. Contou como ele e os seus planearam trabalhar para pagar uma viagem de barco de volta a casa, como perceberam que nunca conseguiriam reunir dinheiro suficiente para o fazer. Como decidiram, então, fazer daquele pedaço de terra estranha o seu lar.

Escolheram como líder um dos nobres da nação que atacara a cidade de Cudjo, ele próprio tornado cativo. Quando o homem que os obrigara a trabalhar gratuitamente durante anos se recusou a ceder-lhes um terreno para se instalarem, trabalharam até reunirem dinheiro para o comprarem. Nesse terreno construíram casas, construíram uma escola e uma igreja. Chamaram a uma dessas casas “Casa Grande” — deixaram-na vazia: seria para qualquer família que passasse por dificuldades e precisasse de um tecto.

A escritora ouviu e registou tudo. Ouviu Cudjo Lewis falar da mulher que viera parar àquela terra da mesma forma que ele, e dos seis filhos que ali tiveram. Ouviu Cudjo Lewis dizer-lhe o nome com que nascera, Oluale Kossola, na esperança de que o seu relato chegasse a casa e alguém lá se lembrasse dele ainda. Ouviu Oluale confessar-lhe que desejava morrer a sonhar com a mãe que nunca mais vira desde o dia em que foi acordado pelo ataque da nação vizinha, manchada na honra e manchada de sangue, mas enriquecida pela venda dos seres humanos que capturava a outros humanos que os levavam mar fora.

Conta-se que Timothy Meaher, de Mobile, Alabama, tinha decidido comprar escravos por causa de uma aposta, pondo assim em marcha toda a engrenagem que alcançou a costa africana a milhares de quilómetros de distância. Apostou que conseguiria contornar a proibição de tráfico humano inscrita em lei e trazer uns quantos seres humanos de África para escravizar nos Estados Unidos. Meaher ganhou a aposta. Já Oluale Kossola, nascido no que é hoje o Benim, ganhou as suas descobertas.

Quando Zora Neale Hurston o entrevistou para criar Barracoon, obra cuja edição foi recusada no seu tempo e que surge agora, por fim, cinco décadas após a morte da sua autora, estávamos em 1930. Em 1930 nascia a minha avó. O meu avô era uma criança de cinco anos. A vida de Oluale Kossola, o último sobrevivente do último barco negreiro, não foi há muito tempo. Foi ontem. Corrijo: é hoje.»

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