Depois do texto de Helena Pato, aqui publicado, agora este, do próprio JT, com base em apontamentos escritos na prisão de Caxias, entre a noite do 25 de Abril e a libertação (*).
«O inimigo» - segredava-me uma voz interior. Mas, mesmo com esforço, não vejo o inimigo naquele homem que pretende mostrar-se seguro e dominador, mas que é vulgar, pegajoso, mole, quase grotesco. Até a fria lâmina do olhar de um ou outro agente obriga apenas, não á defesa, mas a um esforço para saber o que está para além desse olhar. Faço-o, como sempre, apenas por curiosidade. E, tal como das vezes anteriores, logo percebo que muitos dos que se apresentam seguros e dominadores oscilam quando se vêem observados no fundo.
À medida que as horas correm, vou sentindo modificar-se a atitude dele. Endurecendo sempre. A última coisa que disse, num grito, já a noite avançava pela madrugada, foi uma ameaça de morte.
Havia muito de absurdo em tudo aquilo, com uma mistura de farsa e tensão intolerável.
Lá fora, na noite, o forte era uma massa sem contornos. Mas não dava a impressão de estar adormecido.
Depois de sair da carrinha, no pátio interior, ao subir as escadas, ao atravessar os corredores silenciosos, sentia-se, quase se poderia apalpar a tensa expectativa. Redobrados cuidados, maior vigilância no sector da incomunicabilidade para onde me levaram. Isolamento. Cela 51.
À medida que as horas correm, vou sentindo modificar-se a atitude dele. Endurecendo sempre. A última coisa que disse, num grito, já a noite avançava pela madrugada, foi uma ameaça de morte.
Havia muito de absurdo em tudo aquilo, com uma mistura de farsa e tensão intolerável.
Lá fora, na noite, o forte era uma massa sem contornos. Mas não dava a impressão de estar adormecido.
Depois de sair da carrinha, no pátio interior, ao subir as escadas, ao atravessar os corredores silenciosos, sentia-se, quase se poderia apalpar a tensa expectativa. Redobrados cuidados, maior vigilância no sector da incomunicabilidade para onde me levaram. Isolamento. Cela 51.
Está na minha frente, imóvel e duro, alto, louro de barba e cabelo, pés afastados, no meio da cela. Uma G3 pendente da mão. Dois outros, atrás, um de cada lado, também armados.
Tudo fora precedido do estrondo da porta do fim do corredor, aberta com violência, do pisar cadenciado das botas até à frente da minha cela, do rangido agudo da fechadura. Avançara na minha direcção e assim ficara, especado.
Tudo fora precedido do estrondo da porta do fim do corredor, aberta com violência, do pisar cadenciado das botas até à frente da minha cela, do rangido agudo da fechadura. Avançara na minha direcção e assim ficara, especado.
Talvez nunca pensasse que fosse desta maneira. Não, nunca pensara. Sempre pensei que fosse uma coisa suja, revolta, misturada de angústias e de medos, de estrangulamentos no estômago, de voz apertada na garganta, de vertigens que nos secam a boca e nos fazem perder a noção do tempo que fica como um novelo confuso e denso. Pensei que nos arrastassem para o pátio, brutalmente, entre gemidos, gritos e choros. Pensei que fosse apenas um momento, terrível mas breve: que nos olhássemos ainda uns aos outros, admirando a coragem de alguns, vendo o medo dos outros; que fizesse apelo a todas as energias, mas que seria muito difícil. Vacilava. Seria com certeza uma coisa rápida, fulgurante. Colocar-nos-iam lado a lado. Talvez no momento decisivo conseguisse levantar a cabeça, talvez dobrasse as pernas apenas depois dos tiros partirem. Estava a ver-me, num esforço de antecipação, para me preparar quanto possível. O isolamento da cela pesava cada vez mais.











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