José Vítor Malheiros foi «dispensado» do Público, mas tem as redes sociais à sua disposição. Transcrevo o excelente texto que divulgou no Facebook:
«Nos últimos anos, quase sempre a propósito do aparecimento e do sucesso de certas organizações políticas nacionalistas na Europa, temos falado muito de populismo, tentando clarificar o conceito, debatendo o seu rigor ou ambiguidade, discutindo a correcção e utilidade da sua aplicação a esta ou àquela organização, a este ou àquele discurso, a esta ou àquela prática política.
O discurso de tomada de posse (não, não se diz inauguração) do presidente Donald Trump (custa a dizer, mas é o que o homem é) contribui para esclarecer a discussão porque é um perfeito exemplo de discurso populista, a exemplo de mais uns quantos feitos maioritariamente nos anos 30 do século passado.
A marca de água do populismo é a ideia de que a soberania reside no povo (até aqui estamos todos de acordo) mas que a vontade popular não se pode exprimir correctamente através dos sistemas de representação e de mediação da democracia representativa, pois estes foram capturados por elites que os deturparam, desviaram da sua função e os usam para seu benefício pessoal.
O discurso populista não avança propostas para melhorar a democracia e para a libertar das mãos dos grupos que capturaram os mecanismos de expressão da vontade popular e de governação democrática, mas apresenta sempre um grupo, um líder, como capaz de interpretar os desejos e sentimentos do povo e de os transformar em acção política de forma inorgânica.
A entidade “povo” (com este ou outro nome) aparece sempre no discurso populista como algo de puro e homogéneo, sem divisões ou interesses divergentes no seu seio, sem conflitos internos, e todos os problemas e divergências que aparecem na sociedade são atribuídos a inimigos externos, “outros” que não o povo. O populismo identifica em geral as elites “afastadas do povo” (os políticos, os media, os intelectuais, os artistas) como a causa de todos os problemas e obstáculos a eliminar para a “purificação” do sistema - usando com frequência um léxico higienista - e exige ainda inimigos externos que constituem o maior perigo, para cujo combate devem ser mobilizadas todas as forças.
A existência destes inimigos internos e externos justifica, por sua vez, por razões de eficácia, a concentração de poder nas mãos do líder e dos seus próximos, intérpretes esclarecidos da vontade do povo.
Não foi por acaso que não houve, no discurso de Trump, uma referência aos partidos, ao Congresso, a quaisquer outras organizações nacionais ou internacionais. O discurso não pretendia avalizar qualquer outra forma de interpretação da vontade popular que não fosse simplesmente o instinto do líder, não pretendia promover qualquer forma de exercício do poder que tivesse a mínima característica institucional ou fosse sequer escrutinável.