11.11.23

Vasos e vasos

 


Vaso de vidro branco e amarelo, com sobreposição azul e verde. Decoração com nenúfares. Cerca de 1900.
Émile Gallé.

Daqui.
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Que nada vos falte!

 

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Dia delas

 


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Democracia minguante

 


«A demissão de António Costa tem traços contraditórios. Por um lado, revela uma hipersensibilidade em relação às palavras de um comunicado da Procuradoria-Geral da República, anunciando um futuro inquérito, em foro do Supremo Tribunal de Justiça, às afirmações de alguns dos envolvidos no caso do lítio e do hidrogénio verde, arrastando o ex-PM neste imbróglio. Não será isto zelo excessivo, pois o PM apresentou a sua demissão sem ser arguido e sem conhecer o motivo que justificaria esse eventual inquérito? No sentido oposto, por outro lado, merece nota a total insensibilidade, diria mesmo astenia, do ex-PM perante os precedentes e os problemas com a Justiça de alguns dos envolvidos neste caso, mais próximos de si. Recordo que as irregularidades de João Galamba com o lítio foram reveladas pela investigação da jornalista Sandra Felgueiras, em 2019, num programa da RTP1. O mesmo vale para todos os sinais de alarme associados a Lacerda Machado ou Vítor Escária.

O mais preocupante, contudo, é verificar como a III República vai minguando à medida que nos aproximamos do meio-século da sua fundação. É verdade que a democracia representativa tem pouco mais de dois séculos. Foram políticos e pensadores como Alexander Hamilton e James Madison quem inventou os mecanismos constitucionais de pesos e contrapesos. Ao contrário de Rousseau, eles não subscreveram a tese de que a democracia só conviria a um "povo de deuses" (peuple de dieux). Hamilton e Madison acreditavam que uma boa Constituição poderia inclinar a favor do bem comum, a tensão permanente entre as forças morais que se agitam no coração dos homens. Hoje, a democracia norte-americana suscitaria angústia, e não esperança, aos Pais Fundadores dos EUA. O Congresso transformou-se num leilão legislativo entre tribos, todas elas vinculadas a poderosos interesses económicos, que funcionam como a fonte do poder real, que só ritualmente reside no voto popular. Com a existência de centros globais de poder económico, inchados em 40 anos de orgia neoliberal mundial, a arcaica corrupção transformou-se numa subordinação sistémica dos Estados aos negócios, ao Big Money. Por isso, as democracias voltam as costas aos perigos existenciais. Por isso, cada vez mais as políticas públicas são míopes, ignorantes, contraditórias e hipócritas. No caso português, as decisões onde o voto dos cidadãos ainda conta um pouco são cada vez mais exíguas. Na política monetária, financeira, agrícola, de pescas, transferimos soberania total para Bruxelas e Frankfurt. Em todas as outras, a transferência é parcial, mas crítica. Em matéria de Defesa, os governos do bloco central estão há duas décadas a destruir as Forças Armadas, uma instituição que se confunde com a existência de Portugal. Deixámos esse assunto à NATO, como deixámos a política externa à CE, que nos dita as sanções que Lisboa deve lançar contra países com os quais mantemos relações diplomáticas.

Quando um país já não tem anéis, sobram os dedos. Sempre houve gente nos governos capaz de trocar o interesse público por 30 dinheiros. Agora trata-se de espoliar pessoas dos seus bens e destruir a biodiversidade para enriquecer uma minoria em nome de álibis "verdes". No passado, o poder de interesses influentes arruinou a ferrovia, plantou autoestradas para ninguém, e pontes nos sítios errados. Agora querem fazer de Portugal o Congo europeu do lítio e do hidrogénio. Não é só mais uma crise do regime. O país está cada vez mais vulnerável.»

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10.11.23

Palácios

 


Palácio Gresham (actualmente Four Seasons Hotel), Budapeste, 1907.
Arquitectos: Zsigmond Quittner e József Vágó.

Daqui.
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10.11.1948 – Mário Viegas

 


Mário Viegas festejaria hoje os 75, mas morreu novo, muito novo, antes de chegar aos 48. Fundou três companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e só quem for muito jovem não se recordará das séries televisivas «Palavras Ditas» (1984) e «Palavras Vivas» (1991).

Celebérrima ficou a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros:



Mas existiu também um Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP (candidatou-se também à Presidência da República).



E inesquecíveis:




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José Luis Carneiro

 


Tem ar de ser bom pai de família.
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Um país em suspenso

 


«O país está a dar um salto mortal, a desenhar o movimento no ar, sem que alguém possa prever como vai aterrar. Vai ficar em suspenso até novas eleições, em Março de 2024, e até que as várias instâncias judiciais, com especial incidência no Supremo Tribunal de Justiça, concluam o processo judicial que conhecemos a 7 de Novembro. Só nessa altura iremos perceber se eram justificadas as razões que levaram à queda de um primeiro-ministro que era suportado por uma maioria absoluta.

É esse o maior risco deste salto, o de que os portugueses sejam chamados a fazer as suas escolhas no escuro, sem poder aferir devidamente das suspeitas levantadas sobre a governação de um dos maiores partidos da democracia portuguesa. Os protagonistas do PS vão mudar, há muitos outros assuntos importantes para o país, mas os eleitores, com grande probabilidade, vão fazer as suas escolhas sob o signo deste caso, sem que ele esteja devidamente aclarado. O Presidente quer devolver “a palavra ao povo sem temores”, mas é preciso sublinhar que, estando a democracia a funcionar, não está a operar nas melhores condições.

Entende-se por isso mal que o Presidente não tenha tido no seu discurso uma palavra de exigência em relação à actuação do poder judicial. O país precisava, neste momento, de saber que o poder político, sem que isso signifique uma interferência, não está paralisado na sua capacidade crítica de avaliar a conduta do Ministério Público e da Procuradoria-Geral da República.

Marcelo Rebelo de Sousa decidiu em coerência, dentro dos seus poderes e sem grande margem para decidir de outra forma. Apresentou cinco razões para o fazer que são avisadas, e que, como não poderia deixar de ser, reflectem a sua visão do momento que o país vive. Mais frágil na sua ideia de que a natureza do voto de 2022 estava necessariamente personalizada no primeiro-ministro, quando o poder emana do Parlamento, onde está sentada uma maioria absoluta, mais consistente na ideia de que é necessária “maior clareza e mais vigoroso rumo para superar um vazio inesperado”. Perante este vazio, o PS não mostrou capacidade para montar a defesa da sua ideia de que não eram necessárias eleições antecipadas.

Apesar de torcer um pouco o espírito da Constituição, o Presidente também faz bem em adiar a exoneração do primeiro-ministro, permitindo que se conclua, com a aquiescência do maior partido da oposição, o processo orçamental em curso. O país precisa de continuar a funcionar para, o mais depressa possível, voltar a assentar os dois pés no chão.»

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9.11.23

Aveiro

 


Casa da Antiga Cooperativa Agrícola, um dos primeiros exemplos de Arte Nova de Aveiro, com azulejos pintados à mão oriundos da Fábrica da Fonte Nova. 1913.
Arquitecto: Francisco Augusto da Silva Rocha (possivelmente).

Daqui e não só.
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09.11.1975 – «O povo é sereno, é apenas fumaça!»

 


Há 48 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro, os ânimos andavam bem exaltados.

PS e PPD, secundados por CDS, PPM e PCP(m-l), convocaram uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro, com o lema: «Pinheiro, em frente, tens aqui a tua gente!». O Terreiro do Paço encheu-se, mas ninguém recordaria hoje o facto (todos os espaços se enchiam, dia sim dia sim…) sem as granadas de fumo e de gás lacrimogéneo e mais alguns tiros que deflagraram durante o discurso de Pinheiro de Azevedo. Iniciativa de autoria não muito clara e objecto de acusações cruzadas, mas que foi um enorme susto para muitos e gáudio para a esquerda da esquerda que viu a cena em casa, em directo televisivo.

«O povo é sereno, é apenas fumaça!», gritou o então primeiro-ministro, numa tirada que ficou para a pequena história dos últimos dias do PREC e que pode ser ouvida neste vídeo:


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Foi há 34 anos

 


09.11.1989 – O dia em que caiu um muro. Muitos outros se ergueram entretanto.
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Falta de experiência

 


Este homem não tinha a casa da mãe, de um tio, até da sogra, para esconder isto e guardou estes trocos no gabinete de S. Bento? Faltou-lhe experiência: há mais de cinquenta anos, escondi eu um copiógrafo a stencil num sótão da avó do Mário Murteira.
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Centristas do PS: enfrentar ou acomodar Pedro Nuno Santos?

 


«É certo que Pedro Nuno Santos vai avançar para a liderança do Partido Socialista. Tem o trabalho interno feito e a profecia da sua liderança tende a autorrealizar-se. Se é o melhor candidato do PS contra Luís Montenegro é um debate diferente, menos linear do que parece a quem julga que o comportamento do eleitorado segue um compasso ideológico e eleitoral perfeito. Mas não saltemos etapas, que antes disso há as diretas do PS.

Seguindo o que parece ser a lógica – que nem sempre é a melhor conselheira para fazer previsões –, o Presidente da República reservará a dissolução para depois da aprovação do Orçamento de Estado, para não ficarmos meio ano em duodécimos, e marcará as eleições dando tempo ao PS para escolher a nova liderança e haver campanha eleitoral. Parto do princípio que o PSD perdeu a oportunidade de mudar a liderança, mas é partido que nos habituou a surpresas.

A maior incógnita é o que fará a ala centrista do PS, que concentrou boa parte do poder nesta década. Ela tem, neste momento, dois problemas. O primeiro é antigo: falta de protagonista. Fernando Medina, com qualidades políticas, não ganha uma concelhia do PS. Ana Catarina Mendes é vista como uma apparatchik. Mário Centeno nem é militante do PS. Augusto Santos Silva sonha com outros voos e não teria facilidade em ganhar. Marta Temido não conhece o PS, onde entrou há pouquíssimo tempo. Só o vazio lhe daria espaço.

O único que parece viável e que já mostrou disponibilidade é José Luís Carneiro. Sereno, mas apagado, simpático, mas insosso. Tem a vantagem de vir do PS profundo. Terá alguma capacidade de mobilizar o partido. Suficiente para vencer Pedro Nuno Santos? Duvido mesmo muito. Parece-me um nome para queimar e marcar terreno para a oposição interna.

A este problema, junta-se outro: é a ala centrista, perto de Costa, que está mais ferida com este processo. Se querem que seja tema, é um deles que avançará.

A pergunta é se a ala centrista quer correr o risco de medir forças e partir o PS em vésperas de eleições, quando o partido ainda sonha manter o poder, ou prefere apostar no cavalo que já vai à frente? Se Pedro Nuno Santos ganhar o país, o poder fica garantido e isso ainda é o que conta para os socialistas. Se perder, esperam que frite na oposição e só depois arranjam sucessor.

Na realidade, os centristas até têm alguns argumentos. E quanto a isto, nunca tive qualquer ilusão: Pedro Nuno Santos vai correr para o centro. Para vencer a desconfiança de alguns setores perante a imagem de “radical” (ser social-democrata é, hoje, sinal de radicalismo) e impulsivo, precisa do apoio e do empenhamento de centristas do partido. O que lhes dá poder junto do futuro líder. Precisa do apoio simbólico de figuras como Francisco Assis (importante para fora), ou tutelares como Carlos César (limitado por ser Presidente). E de gente que esteve próxima de António Costa, sem ser propriamente o seu círculo mais próximo.

A escolha dos centristas será entre o confronto e a acomodação. Entre medir forças com forte risco de perder (o que ganharia com isso, neste momento?), dividindo o partido em vésperas de eleições, ou fazer valer o seu peso e o seu carimbo de “moderação” para impor alguns limites a Pedro Nuno Santos. A questão é se o PS continua mais racional e gregário do que o PSD ou se mergulha no mar agitado destes tempos. Há alguns sinais, mas saberemos isso muito brevemente.

Deixo de fora cenários mais esdrúxulos que correm por aí, como a de transformar Mário Centeno numa espécie de Emmanuel Macron lusitano, com os efeitos políticos que tragicamente vimos em França. Mesmo em fantasia, há especulações plantadas a que não devemos dar alimento.»

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8.11.23

Jarros

 


Jarro de vidro Arte Nova, com montagem dourada em latão. Cerca de 1900.
Val Saint-Lambert & Orivit.

Daqui.
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Marcelo tem o futuro nas mãos

 

«Cabe ao presidente zelar pela estabilidade política e pelo cumprimento da Constituição. Mas, neste momento de profunda crise institucional, cabe sobretudo a Marcelo Rebelo de Sousa a espinhosa missão de avaliar aquilo que poderá ser menos danoso para o futuro de Portugal e dos portugueses. Não é tarefa simples.»

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Edmundo Pedro: seriam 105

 


Tive o privilégio de ser sua amiga, de gostar muito de conversar com ele, de ler muitos dos seus textos por vezes antes de serem publicados. Quando fez 99, referimos a festa inevitável que teria lugar para assinalar os 100 – festa que já não existiu.

Retomo um resumido «percurso existencial», de que gosto muito, escrito pelo próprio:

«Comecei a trabalhar aos doze anos numa oficina de serralharia. Daí em diante, interrompi o curso diurno da Escola Industrial Machado de Castro e passei a estudar à noite. Aos treze, entrei para o Arsenal da Marinha. Aí conheci dois vultos cimeiros do movimento operário de então, meus colegas de trabalho na oficina de máquinas do Arsenal: António Bento Gonçalves e Francisco Paula de Oliveira. Este último viria a celebrizar-se sob o pseudónimo de “Pavel”.

O primeiro era então Secretário-geral do PCP, o segundo Secretário-geral da Federação da Juventude Comunista. Ambos exerceram no meu espírito uma influência determinante.

Filiei-me na Juventude Comunista aos treze anos, pouco depois de ser admitido naquela empresa do Estado.

Fui detido pela primeira vez pela polícia política no dia 17 de Janeiro de 1934, pouco depois de ter completado os 15 anos de idade, por estar envolvido na preparação da tentativa de greve geral que deflagraria no dia seguinte. A minha primeira detenção está, pois, estreitamente ligada ao movimento de protesto contra a liquidação do sindicalismo livre. Esse movimento ficaria conhecido na história das lutas operárias como o «18 de Janeiro». Pela minha acção na preparação desse evento, fui condenado pelo Tribunal Militar Especial, acabado de criar por Salazar, à pena de um ano de prisão e à perda dos «direitos políticos» durante cinco anos…

Logo que fui libertado, retomei a oposição à ditadura como militante da Juventude Comunista. Em Abril de 1935 fui eleito, com Álvaro Cunhal, entre outros, para a direcção da Juventude Comunista.

Preso, uma vez mais, em Fevereiro de 1936, sob a acusação de ser dirigente da JC, acabaria, em Outubro desse ano, por ser deportado para Cabo Verde, onde fui estrear o tristemente célebre Campo de Concentração do Tarrafal. Ao fim de nove anos, regressei a Lisboa para ser, de novo, julgado no Tribunal Militar Especial. Depois de ter aguardado julgamento, ao todo, durante dez anos, fui condenado, por aquele tribunal de excepção, à pena de vinte e dois meses de prisão correccional, acrescida da perda dos «direitos políticos» pelo período de dez anos!

Ao longo de todo tempo que mediou entre o fim de 1945 e o 25 de Abril de 1974, conspirei sempre contra a ditadura. De forma especialmente activa, a partir da campanha para a Presidência da República do general Humberto Delgado, durante a qual comecei a preparar, com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, um movimento insurreccional que pusesse fim à ditadura.

Estive envolvido, com o grupo inspirado por Fernando Piteira Santos, no «12 de Março» de 1959. Mas, dessa vez, não fui referenciado na polícia política.

Dois anos depois, no dia 1 de Janeiro de 1962, tomei uma parte muito activa no chamado «golpe de Beja», ocorrido na madrugada daquele dia, no Quartel de Infantaria Três, aquartelado na cidade de Beja. Depois daquele movimento ter abortado, fugi para o Algarve onde fui detido, em Tavira, na manhã desse mesmo dia, junto com Manuel Serra e o então capitão Eugénio de Oliveira. Pela minha intervenção nesse movimento fui condenado, em 1964, a três anos e oito meses de prisão maior e à perda do «direitos políticos» pelo período de quinze anos. Cumpri quatro anos de cadeia. Fui libertado no fim de 1965.

Aderi ao Partido Socialista, por intermédio de Mário Soares, em Setembro de 1973. Sou, portanto, um dos fundadores daquele partido.

No primeiro congresso realizado na legalidade, em Dezembro de 1974, fui eleito para a sua Comissão Nacional e, em seguida, para a sua Comissão Política. Fui integrado no seu Secretariado Nacional em 1975. Em 25 de Abril de 1976, nas primeiras eleições legislativas, fui eleito Deputado pelo PS. Exerci esse cargo durante onze anos. Em 1977/78, fui designado Presidente da RTP. Actualmente continuo no PS, mas como militante de base.

Ninguém na minha família escapou à repressão salazarista. O meu pai estreou comigo o Campo de Concentração do Tarrafal. Esteve ali, tal como eu, cerca de nove anos. Foi, reconhecidamente, o mais perseguido de todos os presos daquele presídio de má memória. É considerado o mártir do Tarrafal. Morreu no exílio, em França, dois anos antes do 25 de Abril. A minha mãe esteve detida durante longo tempo por ser militante do PCP. A minha irmã Gabriela, que fugira de Portugal para evitar ser detida pela sua actividade no âmbito do movimento estudantil, morreu em Paris, aos vinte anos, na emigração política. Um irmão meu, o João Ervedoso, foi assassinado no âmbito de uma manifestação estudantil, por um provocador ao serviço da polícia política, quando tinha acabado de completar catorze anos. O meu irmão Germano, o mais novo dos três, entretanto falecido, esteve detido durante três anos por envolvimento na preparação da tentativa insurreccional de Beja. A minha própria mulher, para não fugir à sina da família, também experimentou os cárceres da polícia política.»
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A inflação da impunidade

 


«O primeiro-ministro, que sempre encolheu os ombros a crises éticas e casos de corrupção nos seus Governos, e que acaba de ser derrubado por um caso de corrupção que envolve directamente o seu chefe de gabinete e o seu melhor amigo na arbitragem de negócios, e que o envolve indirectamente a ele próprio. Deixou crescer esta sombra que agora o engoliu.

Sem dúvida que nos próximos dias, assim que o despudor se sobrepuser ao choque, os opinadores do PS virão dizer que esta investigação é um caso grave de "judicialização da política" e que é preciso travar os desmandos do Ministério Público - como era preciso travá-los quando o escrutínio judicial se aproximou dos terrenos pantanosos do financiamento político. Nisso encontrará, como sempre tem encontrado, estadistas igualmente preocupados no PSD (cujo líder, recorde-se, também tem o seu currículo de suspeitas).

Só que o problema não é esse: o Governo descurou sempre o cumprimento de mínimos de ética política e transparência de processos administrativos. Esticou a corda na tensão com a Justiça, desde logo deixando tudo por fazer na prevenção e combate à corrupção e atirando qualquer dúvida ou caso problemático para o Ministério Público e os tribunais.

Estamos longe de saber se as suspeitas que envolvem assessores, ministros e o próprio primeiro-ministro se confirmam ou não. Mas o caldo de cultura que permitiu esta nebulosa estrutural, esse veio mesmo do gabinete de António Costa.»

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7.11.23

Prédios

 


Entrada Noroeste do Centro Sullivan, Chicago, 1899.
Arquitecto: Louis Sullivan.


Daqui.
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𝐕𝐢𝐜𝐡𝐲𝐬𝐬𝐨𝐢𝐬𝐞 e 𝐍𝐞𝐬𝐭𝐮𝐦 𝐝𝐞 𝐌𝐞𝐥

 


𝐀 𝐕𝐢𝐜𝐡𝐲𝐬𝐬𝐨𝐢𝐬𝐞 𝐝𝐞 𝐚𝐧𝐭𝐚𝐧𝐡𝐨 𝐧ã𝐨 𝐩𝐚𝐬𝐬𝐨𝐮 𝐝𝐞 𝐍𝐞𝐬𝐭𝐮𝐦 𝐝𝐞 𝐌𝐞𝐥 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐬𝐨𝐩𝐢𝐧𝐡𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐌𝐚𝐫𝐜𝐞𝐥𝐨 𝐭𝐞𝐦 𝐚𝐠𝐨𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫.
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Pedro Nuno Santos

 


Ainda é cedo, ainda é cedo. Mas vai dando corda aos sapatos.
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Portugal, 07.11.2023

 


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Não cheira a liberdade… cheira a pus, necrose e excrementos

 


«É de conhecimento geral que o cirurgião geral, desde tempos imemoriais de barbeiro cirurgião, se move no meio dos humores: necessariamente pus, necrose e excrementos. Ainda há quem se disponha a fazê-lo com orgulho.

Sempre que necessário, estes médicos operários (operadores, segundo doentes e ou colegas com menos escolaridade) realizam horário extraordinário no serviço de Urgência e em outras valências (bloco operatório, consulta, internamento). São daqueles médicos antiquados que operam os doentes e desejam acompanhá-los, observá-los no internamento, avaliá-los com as mãos, saber como se sentem, perceber o seu sofrimento, estar lá, falar a mesma linguagem. Olham mais para o doente do que para o relógio. Não ouvem o seu estômago roncar, não atendem impreterivelmente o telefone ao cônjuge que o espera do outro lado. São estes seres sem limites, praticantes do desporto radical que é ser médico no SNS no séc. XXI.

Estes médicos ensinam e estão rodeados de aprendizes que raramente se preocupam excessivamente com o excesso incomensurável de horas extraordinárias realizadas. As horas extraordinárias são encaradas como solidariedade para com os colegas, com intuito formativo, e mesmo como dever, devido a constrangimentos organizacionais, como a “impossibilidade” em dimensionar um serviço de Cirurgia capaz de garantir o número de médicos necessários para assegurar a qualidade de um serviço de urgência.

Estes médicos vão cumprindo com vontade e dedicação as tarefas que lhes são propostas, dedicam-se à causa, como a generalidade dos colegas, com abnegação. Até que um dia param!

Param para pensar, fazer contas às horas dedicadas para lá do humanamente aceitável e tecnicamente aconselhável. Param, refletem e juntam-se ao movimento Médicos em Luta, sindicalizados ou não. Decidem entregar, em pleno exercício da sua liberdade, a recusa em realizar horas extras, em conformidade com o limite legal de 150 horas anuais, sob a forma de um documento escrito. As 150 horas anuais são rapidamente realizadas em cerca de três ou quatro meses. Um turno de urgência, para um interno (médico em formação) é de 12 horas, contudo é habitual, a partir do 4.º de 6 anos, fazer 24h; um cirurgião especialista tem em contrato 18h ou 24h normais, sendo que a jornada de trabalho na urgência é de 24h, ninguém faz 18h, por uma questão pragmática. A esta jornada desenfreada segue-se (não há muito tempo – foi um “direito” recente) um descanso de 6 a 8 horas. Os blocos são de 6 a 12 horas de jornada contínua e numa tarde de consulta observam-se, na melhor das hipóteses, 20 doentes com consultas teoricamente de 15 minutos.

Será legítimo pedir o mesmo a um sr. jornalista? A um carpinteiro? A um operário fabril? A um piloto? São estes os médicos que no SNS recebem os acidentes de viação, às 5h da manhã, e que nesse momento, com 22h acumuladas, estão no estado equivalente a uma taxa-crime de alcoolemia. Deseja isso para si, para os seus familiares? Eu não!

Aqui começa o odor... algum bafio mas que a generalidade de nós desconhece. É um cheiro que não se entranha, nem nos para, pois grande parte de nós nasce após 1974. Ingenuamente, democracia, liberdade, igualdade de género são dados adquiridos por esta geração de médicos obreiros, com grande reverência para com as gerações prévias que lutaram por estes direitos. Portanto, nós somos aqueles que sempre que encontramos um desvio a estes princípios – para connosco, para com um colega ou para com a classe inteira – consideramos ter o dever de o denunciar e de garantir que não se repita. Os desvios a estes princípios têm sido inúmeros e sinuosos, merecedores de queixas a entidades para tal indigitadas. Por vezes ocorre-nos se seria mais simples continuar a trabalhar todas estas horas, numa espécie de alienação coletiva. Era mais prático, mais útil, meter a cabeça debaixo do jugo do carro de bois, mas parámos para pensar. Estamos exaustos, muito! Esta é a nossa vida, a nossa profissão a nossa luta. Vários serviços de Cirurgia Geral estarão fechados à Urgência. Até quando? Não saberemos…

Talvez até deixarmos de ouvir um “sim, mas…” Uma ameaça velada a quem diz "sim" diariamente, com orgulho e abnegação, a quem paga do seu (parco) bolso para publicar em revistas indexadas, quem paga do seu (mediano) bolso cursos que custam milhares de euros (por vezes um salário inteiro), a que diz que sim, dando a cara e o seu esforço incondicional por todos os portugueses.»

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6.11.23

Fachadas

 


Detalhe do topo da fachada da Câmara Municipal de Kiskunfélegyháza, Hungria, 1909-1911.

Daqui.
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06.11.1975 - «Olhe que não! Olhe que não!»

 


Nem os seus dois intervenientes, nem muitos dos que assistiram àquele que foi o mais célebre debate da nossa democracia, estão cá hoje para o recordar. Os outros nunca esquecerão o frente-a-frente entre Soares e Cunhal, em 6 de Novembro de 1975. Durou quase quatro horas – uma eternidade impossível de repetir nas televisões apressadas que hoje temos – e o país parou para ver e ouvir.

Há 48 anos, a poucos dias do 25 de Novembro, eram mais do que raros os pontos de acordo entre Soares e Cunhal. Dessa noite ficou para a história uma frase com que Cunhal respondeu a Soares quando este afirmou que o PCP dava provas de querer transformar Portugal numa ditadura: «Olhe que não! Olhe que não!»





Texto com alguns excertos do que foi dito:


Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, pp. 382-383. 
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«Discurso de Sua Excelência o Chefe de Estado de Alfama»

 


De Luís Vargas no Twitter.
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Presidencial embaraço

 


«O diálogo entre o Presidente da República e o chefe da missão diplomática da Palestina em Portugal, durante o bazar diplomático, revelou, antes de tudo, uma enorme insensibilidade política e humana de Marcelo Rebelo de Sousa. Dizer, quando morrem milhares de civis palestinianos em Gaza, “não deviam ter começado” é, ao contrário do que aconteceu com as declarações de António Guterres na ONU, uma forma de responsabilização das vítimas. Porque lhes atribui uma culpa coletiva pelos massacres do Hamas (“o vosso lado”). Ainda por cima, sem qualquer condenação destes bombardeamentos, que parecem ser vistos com uma reação compreensível, não desproporcionada.

O fim de semana que dedicou ao recorrente “Marcelo explica Marcelo” não foi uma correção. Passou dois dias a dizer o oposto do que dissera. Na Feira da Golegã, disse tudo o que não lhe ocorreu dizer quando falava com um diplomata em público. Em Belém, até se juntou a uma manifestação, deixando-se fotografar ao lado de bandeiras da Palestina, para, com um excesso desnecessário num Presidente, tentar apagar o excesso anterior. Infelizmente, o que conta, num assunto internacional, é o que diz para fora, em inglês, a um diplomata, não o que diz para dentro, para se desdizer em português perante a opinião pública nacional.

Este conflito é um continuo de décadas. Não é simples dizer quando ele começa e acaba. Para a população que vive nos territórios ocupados ou cercada por muros, nunca esteve interrompido, na realidade. No último mês, foram mortos, por colonos armados pelo governo israelita, mais de 120 palestinos na Cisjordânia, onde supostamente não se desenvolve o conflito. Já se pode dizer que foram os israelitas que começarem aí uma guerra ou só começará quando houver uma resposta mais violenta de quem legitimamente vive naquelas terras?

Dar o contexto, como fez o secretário-geral da ONU e Marcelo diz ter concordado, só pode ter um objetivo: identificar os problemas políticos a resolver, coisa que Marcelo não fez, porque se dirigiu a um representante da Autoridade Palestiniana, que tem tido uma postura pacífica, responsabilizando-o por aquilo pelo qual nunca poderá ser responsabilizado. E nunca deixando de condenar todas as formas de violência sobre civis, coisa que o Presidente não achou necessária, não tendo, depois de referir sete vezes os massacres do Hamas, uma palavra de empatia para com milhares de vítimas em Gaza.

É sabido que a política internacional não é a praia de Marcelo e pode haver alguma ignorância à mistura. Talvez não saiba que, sendo o diplomata representante da Autoridade Palestiniana, deverá, muito provavelmente, ser membro ou próximo da Fatah. Que os dirigentes do seu partido em Gaza foram perseguidos e mortos pelo Hamas, em 2007. E que Netanyahu e os seus aliados sempre viram esta vitória dos islamistas contra os laicos como uma excelente notícia para Israel (espero tratar deste tema esta semana, aqui).

Imagine-se representar aqueles que se têm batido pela via pacífica, mesmo durante uma ocupação, ser responsabilizado na rua pelos seus compatriotas por isso apenas ter oferecido três décadas de derrota e ainda receber um puxão de orelhas condescendente de um chefe de Estado visivelmente pouco conhecedor da realidade no território. A Autoridade Palestiniana é a única força moderada neste conflito. Entalada entre radicais, precisa de apoio internacional, não de ralhetes.

A conversa de Marcelo, feita como Presidente da República, num momento oficial, vinculando o Estado português, está desalinhada com as intervenções públicas do governo português e até dos principais responsáveis europeus e norte-americanos, os mais incondicionais aliados de Israel. Ou seja, Marcelo conseguiu ser mais radical do que aqueles que, podendo travar os crimes de guerra a que assistimos em Gaza, não o fazem. Talvez porque a nenhum deles passe pela cabeça ter um bate-boca com um diplomata em frente às câmaras de televisão sobre um tema com esta sensibilidade. Se Portugal tivesse algum poder, esta recorrente e crescente falta de aprumo institucional do Presidente seria um problema grave para o País. Assim, é “só" um enorme embaraço.

Tirando um fim de semana de contorcionismo político do Presidente, o incidente não terá qualquer consequência política. Não apenas porque Portugal é diplomaticamente irrelevante neste assunto, mas porque as declarações do Presidente, banalizadas até à vulgaridade, se tornaram, elas próprias, irrelevantes. É uma “marcelice”, dirão muitos encolhendo os ombros. E isso não é apenas um problema para Marcelo. É um problema para a Presidência e, por isso, para o país.»

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5.11.23

Mosaicos

 


Colunas de mosaico do Palácio da Música Catalã, Barcelona, 1905-1908.
Arquitecto: Domenech i Montaner.

Daqui.
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05.11.1941 – Art Garfunkel

 


Art Garfunkel nasceu em Nova Iorque e chega hoje aos 82. Neto de judeus que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX, ainda não parou.

Embora tenha gravado muito sozinho, é quase indissociável de Paul Simon, naquele que foi um dos duos musicais que mais significativamente marcou várias gerações. Em 1963, apresentaram-se oficialmente como «Simon and Garfunkel», continuaram juntos até 1970 e decidiram então seguir cada um o seu caminho.

Mais informação e quatro vídeos AQUI.
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Dilemas morais e valores da democracia

 


«Já não é a primeira vez que escrevo artigos contra minha vontade. Tudo está tão inquinado, a dramaticidade real – demasiado real – do que se está a passar é tal que de pouco valem as palavras. Há milhões delas no ar, a maioria das quais furiosas, sectárias, combatentes de um lado ou do outro, algumas de lados imaginários, outras de puro oportunismo e aproveitamento, muitas irresponsáveis e algumas mesmo criminosas, que a tentação de ficar calado é grande. Mas há um pecado mortal, a acedia, mal traduzido na lista dos pecados por “preguiça” e eu não queria acrescentar mais um à longa lista dos meus outros pecados. E por isso lá vou falar daquilo a que se tem chamado o “conflito israelo-palestiniano”.

A clareza moral pode condicionar a análise, mas dificilmente a permite sem perder essa mesma clareza. Do ponto de vista moral as coisas são muito simples: o ataque do Hamas é absolutamente condenável e muitos aspectos da resposta israelita em Gaza são igualmente absolutamente condenáveis. São as duas coisas moralmente equivalentes? São. O Hamas queria matar israelitas e fê-lo com uma enorme crueldade, porque queria; os bombardeamentos a Gaza matam crianças, mulheres e homens, designados por “civis”, por indiferença, e entre o assassinato por volição ou o assassinato por indiferença não há distinção moral.

Se ficarmos apenas neste terreno, a disponibilidade para matar intencionalmente pode aparecer mais evidente no Hamas, mas os israelitas sabem muito bem que o que estão a fazer vai para além das necessidades militares e mostram o mesmo desprezo pela vida dos outros, dos inocentes. Para o Hamas todos os israelitas são culpados, para a resposta de Israel todos os palestinianos, crianças, homens e mulheres, podem ser mortos às dezenas para atingir um comandante do Hamas, porque são os “outros”, os do lado errado, ou seja, também são culpados.

O que tem de profundamente errado o diálogo absurdo do Presidente da República com o representante diplomático da Autoridade Palestiniana é a frase: “Desta vez foi alguém do vosso lado que começou.” E, mesmo quando precisou com um “alguns de vocês”, é exactamente o “vocês” que coloca na acção do Hamas a culpa de todos os palestinianos. Ele está a falar com alguém do sector moderado da Palestina, que reconheceu o Estado de Israel, e que o Hamas vê como traidor e inimigo e que sente como “seus” os que o Presidente classifica de “vocês”, como é de todo natural. Se alguém nesta situação, com as pilhas de mortos inocentes atrás, me dissesse que tenho de ser “cauteloso, inteligente e pacífico”, eu passava-me certamente.

O terreno da moral é fundador, mas o “ruído do mundo” vai para além dele. Uma pessoa bem formada não esquece o dilema moral, mas a realidade é mais complexa e bastante menos clara e é aí que as opções são de outra natureza.

Significa isso que os actos do Hamas e os de Israel são politicamente equivalentes? Não, não são. O que é que significa aqui “politicamente”? Significa a entrada em jogo da polis, da civilização, de um conjunto de valores que tem que ver com a liberdade e a democracia e que são escolhas humanas de formas de viver e de se organizar, imperfeitas, mas distintas. E é por isso que, quando entramos nos motivos e nas circunstâncias, as coisas começam a complicar-se. O ataque do Hamas é um acto de pura vontade que se exerce pela pura maldade. A ambiguidade da frase de Guterres sobre o “vácuo” é condenável, porque atribui uma razão a um acto inaceitável à luz do direito e dos valores daquilo a que chamamos precariamente “civilização”. Se o Hamas atacasse militares, podia-se falar de “ocupação”, mas quando massacra civis a condenação não tem contexto.

Daí vem o direito de Israel de se defender como Estado e de assumir a defesa dos “seus”, e, dada a natureza de uma organização como o Hamas, comparável ao Daesh na visão apocalíptica do Islão, isso pode significar persegui-los e, na verdade, matá-los em combate. Só isso e não é pouco, mesmo com baixas “colaterais”. Colaterais significa poucas, indesejadas e inevitáveis.

Para além disso, por imperfeita que seja hoje a democracia israelita, e por corrupto, racista e intolerante que seja o seu actual Governo, a maioria da população comporta-se na sua acção política como “nós”. Não é irrelevante este “nós”, porque significa uma partilha de valores sobre a “polis” que, num mundo hostil, de ditaduras, de perseguições religiosas, de extermínio do “outro”, de lei da força e do poder, defende essas coisas muito precárias como a liberdade e a democracia.

É por isso que Israel, sob o comando de um governo como o de Netanyahu, pode ganhar a guerra ao Hamas, pode perder tudo nessa vitória – os valores de cidadania, do direito, de humanidade, de prestígio na opinião dos amigos do país, incluindo a própria segurança a médio e longo prazo de Israel. E é o que está a acontecer e não é junto dos que gritam “Palestina, do rio até ao mar”, mas dos que viam no Estado de Israel uma democracia, que vem para as ruas para travar o ataque de Netanyahu aos juízes, que é forte militarmente por absoluta necessidade e que podia, podia, podia ter encontrado na solução dos “dois Estados”, assente em garantias para Israel e compensações justas para os palestinianos, um esboço de paz para a região. Não é só culpa de Israel, mas cada vez mais é também culpa de Israel.»

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Isto não se inventa

 


Mas é a realidade.
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