8.11.25

Chocolate

 


Jarro para chocolate, de porcelana, pintado à mão, desenho floral com papoilas vermelhas e guarnição de ouro. 1900-1905.
Limoges, D & C (Delinieres & Cie), França.

Daqui.

Catarina na Bosch



 

Edmundo Pedro: seriam 107

 


Tive o privilégio de ser sua amiga, de gostar muito de conversar com ele, de ler muitos dos seus textos por vezes antes de serem publicados. Quando fez 99, referimos a festa inevitável que teria lugar para assinalar os 100 – festa que já não existiu.

Retomo um resumido «percurso existencial», de que gosto muito, escrito pelo próprio:

«Comecei a trabalhar aos doze anos numa oficina de serralharia. Daí em diante, interrompi o curso diurno da Escola Industrial Machado de Castro e passei a estudar à noite. Aos treze, entrei para o Arsenal da Marinha. Aí conheci dois vultos cimeiros do movimento operário de então, meus colegas de trabalho na oficina de máquinas do Arsenal: António Bento Gonçalves e Francisco Paula de Oliveira. Este último viria a celebrizar-se sob o pseudónimo de “Pavel”.

O primeiro era então Secretário-geral do PCP, o segundo Secretário-geral da Federação da Juventude Comunista. Ambos exerceram no meu espírito uma influência determinante.

Filiei-me na Juventude Comunista aos treze anos, pouco depois de ser admitido naquela empresa do Estado.

Fui detido pela primeira vez pela polícia política no dia 17 de Janeiro de 1934, pouco depois de ter completado os 15 anos de idade, por estar envolvido na preparação da tentativa de greve geral que deflagraria no dia seguinte. A minha primeira detenção está, pois, estreitamente ligada ao movimento de protesto contra a liquidação do sindicalismo livre. Esse movimento ficaria conhecido na história das lutas operárias como o «18 de Janeiro». Pela minha acção na preparação desse evento, fui condenado pelo Tribunal Militar Especial, acabado de criar por Salazar, à pena de um ano de prisão e à perda dos «direitos políticos» durante cinco anos…

Logo que fui libertado, retomei a oposição à ditadura como militante da Juventude Comunista. Em Abril de 1935 fui eleito, com Álvaro Cunhal, entre outros, para a direcção da Juventude Comunista.

Preso, uma vez mais, em Fevereiro de 1936, sob a acusação de ser dirigente da JC, acabaria, em Outubro desse ano, por ser deportado para Cabo Verde, onde fui estrear o tristemente célebre Campo de Concentração do Tarrafal. Ao fim de nove anos, regressei a Lisboa para ser, de novo, julgado no Tribunal Militar Especial. Depois de ter aguardado julgamento, ao todo, durante dez anos, fui condenado, por aquele tribunal de excepção, à pena de vinte e dois meses de prisão correccional, acrescida da perda dos «direitos políticos» pelo período de dez anos!

Ao longo de todo tempo que mediou entre o fim de 1945 e o 25 de Abril de 1974, conspirei sempre contra a ditadura. De forma especialmente activa, a partir da campanha para a Presidência da República do general Humberto Delgado, durante a qual comecei a preparar, com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, um movimento insurreccional que pusesse fim à ditadura.

Estive envolvido, com o grupo inspirado por Fernando Piteira Santos, no «12 de Março» de 1959. Mas, dessa vez, não fui referenciado na polícia política.

Dois anos depois, no dia 1 de Janeiro de 1962, tomei uma parte muito activa no chamado «golpe de Beja», ocorrido na madrugada daquele dia, no Quartel de Infantaria Três, aquartelado na cidade de Beja. Depois daquele movimento ter abortado, fugi para o Algarve onde fui detido, em Tavira, na manhã desse mesmo dia, junto com Manuel Serra e o então capitão Eugénio de Oliveira. Pela minha intervenção nesse movimento fui condenado, em 1964, a três anos e oito meses de prisão maior e à perda do «direitos políticos» pelo período de quinze anos. Cumpri quatro anos de cadeia. Fui libertado no fim de 1965.

Aderi ao Partido Socialista, por intermédio de Mário Soares, em Setembro de 1973. Sou, portanto, um dos fundadores daquele partido.

No primeiro congresso realizado na legalidade, em Dezembro de 1974, fui eleito para a sua Comissão Nacional e, em seguida, para a sua Comissão Política. Fui integrado no seu Secretariado Nacional em 1975. Em 25 de Abril de 1976, nas primeiras eleições legislativas, fui eleito Deputado pelo PS. Exerci esse cargo durante onze anos. Em 1977/78, fui designado Presidente da RTP. Actualmente continuo no PS, mas como militante de base.

Ninguém na minha família escapou à repressão salazarista. O meu pai estreou comigo o Campo de Concentração do Tarrafal. Esteve ali, tal como eu, cerca de nove anos. Foi, reconhecidamente, o mais perseguido de todos os presos daquele presídio de má memória. É considerado o mártir do Tarrafal. Morreu no exílio, em França, dois anos antes do 25 de Abril. A minha mãe esteve detida durante longo tempo por ser militante do PCP. A minha irmã Gabriela, que fugira de Portugal para evitar ser detida pela sua actividade no âmbito do movimento estudantil, morreu em Paris, aos vinte anos, na emigração política. Um irmão meu, o João Ervedoso, foi assassinado no âmbito de uma manifestação estudantil, por um provocador ao serviço da polícia política, quando tinha acabado de completar catorze anos. O meu irmão Germano, o mais novo dos três, entretanto falecido, esteve detido durante três anos por envolvimento na preparação da tentativa insurreccional de Beja. A minha própria mulher, para não fugir à sina da família, também experimentou os cárceres da polícia política.»
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Os cristãos cruéis

 


«As pessoas deviam ler o programa do Chega. É um documento bem elaborado, consistente entre os seus diversos pontos, e traduz a prática do partido. Ele assenta, nos seus pontos programáticos essenciais, na ideia da “auto-responsabilidade”, uma ideia que tem origem no liberalismo económico, associada a uma interpretação cristã pós-reforma, muito comum nas igrejas evangélicas.

O primeiro ponto do programa, intitulado “primado da moral”, é histórica e ideologicamente falso. Não há nenhuma “tradição civilizacional portuguesa” que pressuponha “que o primado moral da auto-responsabilidade antecede e determina tudo o resto na condição humana”. Nem há, “no campo religioso, a auto-responsabilidade deriva da matriz milenar judaico-cristã e, no campo intelectual, deriva da matriz milenar greco-romana”. Bem pelo contrário.

No segundo ponto, o sujeito é o Chega e, por isso, a declaração programática da “legitimidade moral” da sua posição apenas ao partido responsabiliza. E a frase é mais clarificadora do modo como a direita radical populista vê a sua função.

O Chega “assume que os inevitáveis encargos impostos à condição humana devem ser remetidos para o interior de cada sujeito individual ou colectivo, para a sua consciência e conduta pessoal, familiar, institucional, partidária, comunitária, nacional, humana”. Esta frase diz tudo – podíamos traduzi-la da seguinte maneira, inteiramente fiel ao seu conteúdo: se és pobre, a culpa é tua, se és sujeito a qualquer violação dos teus direitos, se és explorado, se és vítima de discriminação ou de qualquer forma de violência, a culpa é tua. São os “inevitáveis encargos impostos à condição humana”.

Os pontos seguintes do programa explicam por que razão “a solidariedade deve estar subjugada à auto-responsabilidade considerando que a inversão dos termos gera parasitismo social, subsidiodependência ou dependência da ajuda externa dos Estados com a consequente perda de autonomia, liberdade e dignidade de indivíduos e povos que, no limite, conduz à destruição das economias e à corrupção das democracias.”

Não é preciso ir mais longe, está de novo tudo dito. Por isto é que a extrema-direita, a direita radical populista assenta num ataque à “empatia” e à “compaixão”, que consideram a origem da fraqueza e da crise da “civilização ocidental”. Como Elon Musk disse várias vezes, “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”. Ou Charles Kirk, santo e mártir do trumpismo, que adorna uma T-shirt usada por Rita Matias: “Eu não suporto a palavra empatia, na verdade penso que a empatia é um termo new age construído e que faz muitos estragos.” Aqui, empatia está por simpatia, e por compaixão, termo também atacado pela direita radical populista, ao exemplo do trumpismo.

Para eles, a sociedade assenta no primado do mais forte, e os mais fortes ganharam essa condição por via da “auto-responsabilidade”, sendo que os mais fracos só são fracos ou porque não trabalham, ou porque se entregam ao “parasitismo social” e à “subsidiodependência”.

Estes homens e mulheres consideram-se cristãos, fotografam-se de joelhos nas missas, marcam encontros para a saída das igrejas e tem o apoio, para o Chega e o ADN, da crescente comunidade evangélica, ironicamente resultado do afluxo de imigrantes brasileiros.

O cristianismo tem muitos crimes na sua história, mas, nos nossos dias, a Igreja Católica e muitas comunidades luteranas e protestantes dão um papel relevante à “empatia” e à “compaixão” e já têm falado com toda a clareza na defesa dos mais fracos, em particular dos imigrantes, de uma forma que se percebe que é claramente contra o populismo anti-imigrante do Chega. Eles são contra os cristãos cruéis que se pavoneiam nas missas e depois olham com asco e desprezo os seus irmãos mais fracos, mais pobres, e conhecendo, em particular os evangélicos, a Bíblia, não querem aprender nada com ela.

Na verdade, quer no Antigo Testamento, nos ensinamentos do profeta Miqueias, quer no Novo Testamento, a fonte próxima do cristianismo ocidental, a ideia de “amar o teu próximo como a ti mesmo” é essencial. Não é um comentário de um qualquer profeta ou evangelista, é Jesus que aparece a dizê-lo, respondendo em seguida sobre “quem é o meu próximo?”. E Jesus responde com a Parábola do Bom Samaritano (no Evangelho de Lucas):

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes tiraram-lhe as roupas, espancaram-no e foram embora, deixando-o quase morto. Aconteceu estar a descer pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando eu voltar pagarei todas as despesas que tiver’.”

Não custa perceber que face ao homem caído, vindo de uma guerra qualquer, fugindo da miséria e da fome, tentando atravessar meio mundo para mandar dinheiro para a sua família – como fizeram os portugueses emigrados na França e Alemanha –, tudo feridas do mal viver, o sacerdote e o levita que “passaram para o outro lado”, desprezando qualquer “compaixão”, são legítimos militantes do Chega. E o Bom Samaritano não é – é da turma da “empatia”.

Eu sou ateu, conheço a história do cristianismo, sei de muitas crueldades cometidas em nome de Jesus, mas também sei que nessa herança vem também a Parábola do Bom Samaritano e que muitos cristãos fazem tudo para a viver. Eles não fazem parte dos cristãos cruéis que hoje cultivam o desdém pela “compaixão”.»


7.11.25

Mamdani, socialista e radical

 


«E eis que um raio de luz e de esperança vem dos EUA. Não apenas de esperança para os nova iorquinos, mas também para aqueles que à esquerda ainda acreditam que o caminho não está em nos parecermos com a direita. Que acreditam que a obsessão com o centro e a moderação nos tornam desinteressantes, desnecessários e nos afastam de quem queremos representar e defender. Mamdani assumiu-se sempre, orgulhosamente, como socialista, num país onde parecia proibido ser-se socialista. Nunca teve medo de ser apelidado de radical, nem se esforçou por parecer moderado - a nova doença da social-democracia. Os tempos não são favoráveis à esquerda em lado nenhum do mundo, com excepção de algumas bolsas de resistência, mas o caminho não pode ser a desistência da esquerda e do socialismo democrático. A social-democracia tem de ser capaz de se reinventar, mas, até para o poder fazer com sucesso, precisa de fazer a sua auto-crítica. Ao longo de décadas, fizemos coisas extraordinárias, que mudaram a vida de muita gente. Mas não podemos ignorar que chegamos ao presente com demasiadas famílias em dificuldades. São demasiados os portugueses que beneficiaram pouco do crescimento económico que temos tido, apesar do seu trabalho. São demasiados os portugueses que lutam todos os dias para que o seu salário chegue ao fim do mês. São demasiados os que fazem das tripas coração para pagar a renda ou a prestação da casa. Demasiados os que se levantam todos os dias, de madrugada, para apanharem autocarros à pinha para irem trabalhar para as grandes cidades em troca de um salário que mal chega para viver. Demasiados jovens sem capacidade económica para se autonomizarem, apesar de terem estudado e de trabalharem. Enquanto olharmos para esta realidade, e nos limitarmos a responder com as coisas fantásticas que fizemos, sem termos a capacidade de assumir que as nossas políticas não foram suficientes para mudar a vida destas pessoas, nunca voltaremos a ter a sua confiança. Nem seremos capazes de reinventar as nossas políticas. Os de cima não têm razões para estarem zangados, a vida não lhes corre mal. Mas o povo, que confiava na social-democracia para os defender, tem.»

Pedro Nuno Santos no Facebook.

Luís Marques Mendes: Os portugueses querem mais um ovo no mesmo cesto?

 



07.11. 1913 – Albert Camus

 


Um sorriso derrotou os milionários

 


«Zohran Mamdani não venceu os republicanos, pouco relevantes em Nova Iorque. Venceu a velha guarda democrata. Mesmo depois das primárias, os apoios do partido, como o da governadora, foram envergonhados. E a oligarquia que apoiou Trump juntou-se a Cuomo. Mesmo assim, perderam. O jovem Mamdani nunca perdeu o foco: o custo de vida. Numa cidade onde a renda média anda pelos €4000 e uma creche custa metade disso, propôs congelamento das rendas controladas, creches e autocarros gratuitos, financiado por um aumento de 2% nos impostos dos mais ricos dos mais ricos. Quase tudo o que propôs existe por essa Europa fora. Só que a defesa do que se aproxime de um Estado social redistributivo é, nos dias que correm, heresia.

O tabloide “New York Post” previu o êxodo de um milhão de nova-iorquinos. Musk, que beneficiou de quase mil milhões de bónus fiscais de Cuomo, usou o X para espalhar teorias da conspiração. O governador do Texas falou de “jihadismo radical”, os bots de direita encheram as redes com imagens do 11 de Setembro. A capa da “The Economist” pôs Mamdani na mesma prateleira de Trump, porque defender acesso a creches, transportes e bens essenciais mais baratos é equivalente a atacar a democracia e o Estado de direito e mandar encapuçados caçar imigrantes na rua. Quem ousar alimentar a esperança numa mudança na ordem das coisas, apresentada pelos poderes que a sustentam como natural, é tratado como extremista e populista. A ameaça foi a de sempre: os bilionários ou as empresas vão fugir. “Já gastaram mais dinheiro contra mim do que eu os quero taxar”, ironizou Mamdani.

87% dos eleitores de Mamdani votaram por causa dele, só 12% contra o oponente. Já do lado de Cuomo, 46% votaram por causa dele, 49% contra o oponente. Anotem: a repulsa pelo inimigo não chega. À impressionante e milionária campanha de destruição de caráter Mamdani respondeu com programa. O seu otimismo combativo mobilizou 100 mil voluntários e produtores de conteúdos nas redes. Foi a campanha mais profissional desde Obama. Mas foi mais do que isso. Em vez de impor soluções, Mamdani passou meses a escutar. Cedeu o microfone a nova-iorquinos comuns. Logo depois da vitória de Trump, perguntou-lhes das razões desse voto. Em vez de gritar, explicou. Usou a linguagem das pessoas normais para falar dos problemas das pessoas normais. Começou com 1%, acabou com 50% da maior mobilização numa eleição municipal desde 1969.

O “primeiro muçulmano mayor de Nova Iorque”, como disse quem continua a não perceber o que aqui é disruptivo, nunca caiu na tentação das trincheiras identitárias. Procurou o voto da classe trabalhadora e teve vitórias expressivas nos bairros latinos e asiáticos, onde Trump tivera um resultado histórico. Não precisou de se esconder. Assumiu-se socialista e abriu o discurso de vitória a citar Eugene V. Debs, um sindicalista e socialista da transição para o século XX. Quando lhe perguntaram qual o primeiro país que visitaria como mayor, não respondeu, como todos os outros, Is¬rael, para acalmar a influente comunidade judaica assustada com um muçulmano. Perante a armadilha, respondeu o óbvio: que tinha muito para fazer em Nova Iorque. Uma sondagem da CNN revelou que um em cada três judeus votou nele.

A derrota da esquerda não está na incapacidade de vencer no terreno da extrema-direita, está na incapacidade de impor o terreno onde luta. E a grande vitória de Mamdani foi, antes de tudo, derrotar os termos do debate impostos pelos que, nas suas palavras, querem “convencer quem ganha 30 dólares à hora que o seu inimigo é quem ganha 20”. Uma sondagem da CNN à boca de urna dizia que a maior preocupação dos nova-iorquinos era o custo de vida (57%), depois a segurança (22%) e só depois a imigração (10%). Contra algoritmos e agendas mediáticas, pôs a vida das pessoas no centro da política. Falando a linguagem das pessoas. E apresentando-se como a esperança contra um sistema de que elas estão visivelmente cansadas. A vitória de um socialista na capital da finança prova que é possível. Veremos se, ao nível local, também é possível libertarmo-nos do colete de forças das inevitabilidades construídas. Mamdani não venceu porque gritou mais alto. Nem porque fez um excelente trabalho nas redes. Venceu porque não teve medo de dar esperança, essa arma subversiva contra um desalento que definha a democracia, paralisa o povo e engorda a extrema-direita. Quando a esquerda perceber que é disso, e não da gestão cínica da derrota, que as pessoas têm fome, talvez volte a existir. Como disse o novo mayor socialista da capital simbólica do mundo, o futuro não tem de ser uma relíquia do passado.»


6.11.25

06.11.1919 – Sophia

 


Chegaria hoje aos 106.

Assim vai o SNS

 


«Não é possível convocar serviços mínimos para responder ao protesto dos médicos tarefeiros ao trabalho na urgência. Caso avance a paralisação, os hospitais ficam de mãos e pés atados e o impacto será “enorme”, antecipa o bastonário dos médicos. Governo é criticado por sindicatos, pela Ordem e pelos administradores hospitalares.»


06.11.1975 - «Olhe que não! Olhe que não!»

 


Nem os seus dois intervenientes, nem muitos dos que assistiram àquele que foi o mais célebre debate da nossa democracia, estão cá hoje para o recordar. Os outros nunca esquecerão o frente-a-frente, entre Soares e Cunhal, há meio século. Durou quase quatro horas – uma eternidade impossível de repetir nas televisões apressadas que hoje temos – e o país parou para ver e ouvir.

A poucos dias do 25 de Novembro, eram mais do que raros os pontos de acordo entre Soares e Cunhal. Dessa noite ficou para a história uma frase com que Cunhal respondeu a Soares quando este afirmou que o PCP dava provas de querer transformar Portugal numa ditadura: «Olhe que não! Olhe que não!»





Texto com alguns excertos do que foi dito:


Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, pp. 382-383. 
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Zohran Mamdani e Zack Polanski: uma fórmula para a regeneração da esquerda?

 


«Esta quarta-feira, dia 5 de Novembro, foi feita história. Sensivelmente um ano depois da eleição que colocou Trump de volta na Casa Branca, a cidade de Nova Iorque, a maior dos EUA, elegeu Zohran Mamdani. Um candidato progressista e um declarado socialista democrático, cuja campanha abalou o establishment democrata e ecoou por todo o mundo. A sua premissa foi simples: baixar o custo de vida, indo ao encontro das preocupações mais gritantes do cidadão comum: as contas que faz ao fim do mês.

Por outro lado, a Grã-Bretanha vive, também ela, uma profunda transformação no seu panorama político. A vitória de Zack Polanski na liderança dos Verdes britânicos, pautada por uma agenda igualmente progressista e assumidamente de esquerda, trouxe ao partido um aumento em 80% da sua militância e as sondagens já colocam os ecologistas como a segunda força política. Será esta a bala dourada de que a esquerda mundial precisa?

Não é novidade que, a um nível global, a esquerda tem vindo a perder terreno. Nos seus escombros, erguem-se projectos autoritários de extrema-direita que se multiplicam sem horizonte de fim. A mensagem progressista tem vindo a tornar-se defensiva — face a uma clara ameaça ao regime democrático, a esquerda acantonou-se na sua defesa, na salvaguarda de um sistema cada vez mais obsoleto e incapaz de dar resposta às necessidades de saúde, habitação ou salários do grosso da população.

Não obstante, existe também uma esquerda conivente, tanto com o status quo, como com a ascensão do populismo à direita: uma esquerda que desiste de o ser e dilui-se no centro político, desistindo do Estado Social (como o Labour de Keir Starmer), ou, por outro lado, uma esquerda que coopta a narrativa anti-imigração para o seu próprio espaço discursivo (veja-se o exemplo dos sociais-democratas dinamarqueses ou o BSW alemão).

Mamdani e Polanski são, neste contexto, uma verdadeira lufada de ar fresco. Primeiramente, na sua comunicação (onde existe uma grande aposta no digital). Ambos praticam uma comunicação próxima das pessoas: directa e de fácil compreensão, largando formalismos e termos técnicos. A sua mensagem é simples e apresenta soluções progressistas e socialmente justas para o dia-a-dia, sejam elas um aumento de impostos aos super-ricos, transportes públicos gratuitos ou a garantia universal de cuidados de saúde. E não, não deixam de falar de liberdade social — o feminismo e os direitos LGBTQIA+, temas que a extrema-direita procurou envolver em polémica, não desaparecem do discurso do que aparenta ser esta nova geração de políticos. Muito pelo contrário, são postos em cima da mesa e defendidos justamente, embora não figurem no seu argumentário principal, que tende a cingir-se, de um ponto de vista geral, a questões económicas e de justiça social.

No entanto, a liderança de Polanski e a campanha vencedora de Zohran Mamdani não se cingem ao boletim de voto. Ambas mobilizam. A esperança num futuro mais risonho, insuficiente por si só, quando aliada a verdadeiros objectos de desejo político (que ressoam com as preocupações diárias das pessoas) torna-se um forte instrumento de encontro. Em apenas meses, a campanha de Mamdani mobilizou milhares de voluntários para a sua campanha porta-a-porta, cidadãs e cidadãos que, muitos deles, nunca se tinham envolvido na política. O mesmo sucede com Zack Polanski, no que concerne aos militantes dos Verdes britânicos, cujo número aumentou exponencialmente nos últimos meses, dada a mensagem abertamente progressista e de esquerda do partido (não largando, contudo, o pendor europeísta).

Em tempos de escurecimento democrático, uma luz ao fundo do túnel emerge. Este crescente clarão não é, contudo, uma solução milagrosa e fácil de emular. É escusado dizer que cada realidade política é única, mas urge esclarecer que este novo “modelo” de fazer política soçobra numa importação fragmentada. Não basta, a um político, publicar uma série de vídeos dinâmicos em formato curto; é preciso conteúdo.

Embora exista um grande foco na campanha digital, o que torna a mensagem de Mamdani e Polanski verdadeiramente ímpar é o seu pendor progressista, de esquerda e, talvez o mais importante, ofensiva. Esta esquerda está a trazer os jovens de volta para o seu campo político. Está a reinventar-se e a reinventar o sistema a favor do cidadão comum. Está a enxotar os autoritarismos. E, do nosso lado, seja do Atlântico ou da Mancha, está na hora pôr mãos à obra.»


EDP e impostos

 


5.11.25

A ameaça vinda da China

 


«A Bosch em Braga tem, nos próximos seis meses, 2500 trabalhadores em lay-off devido à escassez de componentes para peças eletrónicas. Se a Autoeuropa ficar mais de oito dias sem fornecimento de semicondutores, a produção vai ser obrigada a parar, afetando 19 empresas e cerca de dez mil trabalhadores do parque industrial. A fábrica da Stellantis em Mangualde, que pesa 27% na produção automóvel, corre os mesmos riscos. A dependência excessiva da China coloca Portugal e outros países europeus numa situação periclitante.

A gravidade e plausibilidade deste cenário são elevadas. O setor automóvel contribuiu com 42,6 mil milhões de euros para a economia, representando 7,7% da faturação da totalidade das empresas. Em 2024, gerou 17,8% das receitas fiscais do Estado português. Vamos mesmo ter um excedente de 0,3% este ano e de 0,1% do PIB em 2026? A economia terá um crescimento acima dos 2% no próximo ano?»

Continuar a ler AQUI.

05.11.1941 – Art Garfunkel

 


Art Garfunkel nasceu eem Nova Iorque. Chega hoje aos 84 este este cantor americano, neto de judeus que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX. 

É quase indissociável de Paul Simon, naquele que foi um dos duos musicais, que mais significativamente marcou várias gerações. Conheceu Paul na escola, quando ambos participaram em «Alice no país das maravilhas», na festa de encerramento do 6º ano do ensino básico, e continuaram colegas até ao fim do Secundário.

Em 1963, apresentaram-se oficialmente como «Simon and Garfunkel», publicaram um primeiro álbum no ano seguinte, mas foi em 1965 que emergiram para o mundo com The Sound of Silence. Continuaram juntos até 1970 e decidiram então seguir cada um o seu caminho, curiosamente depois do maior sucesso de sempre: Bridge over Troubled Water.

Reapareceram episodicamente, como em 1981 no famosíssimo concerto no Central Park de Nova Iorque, numa série de espectáculos «Old Friends», em 2003 (nos EUA), seguida por uma outra, internacional, que culminou no Coliseu de Roma com cerca de  60.000 espectadores.

Art Garfunkel também gravou muito sozinho, mas é com Simon que é geralmente recordado.









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Sim, foi possível

 






Pela boca morre a ministra

 


«Estávamos em janeiro de 2024, quase há dois anos, quando Montenegro anunciou com a habitual prosápia um plano de emergência para a saúde, para aplicar nos primeiros 60 dias de governação. Uma vez eleito primeiro-ministro, o dito programa foi aprovado e garantiu-nos que, já com Ana Paula Martins aos comandos, "os portugueses iriam ter razões para confiar no SNS". Ano e meio decorrido, os problemas do sistema de saúde acotovelam-se, a ministra desdobra-se em declarações contraditórias e para o primeiro-ministro tudo se reduz a uma "querela comunicacional".

Como é óbvio, as dificuldades do sistema de saúde não começaram hoje e não se resolvem amanhã. Ora, o primeiro equívoco de Montenegro foi sugerir de forma imprudente que se resolviam problemas estruturais com pensos rápidos, aplicados em 60 dias. Os resultados estão à vista. Como se não bastasse a demagogia, entretanto a ministra da Saúde acrescentou uma camada grotesca aos obstáculos preexistentes.

Questionada no Parlamento sobre a morte de mais uma grávida, Uma Caimi, Ana Paula Martins afiançou com terrível frieza que podia "assegurar que maioritariamente são grávidas que nunca foram seguidas durante a gravidez, que não têm médico de família, grávidas recém-chegadas a Portugal, com gravidezes adiantadas, que não têm dinheiro para ir ao privado. Grávidas que algumas vezes nem falam português, que não foram preparadas para chamar socorro, por vezes nem telemóvel têm".

A declaração já foi várias vezes glosada, mas há um dever moral de denunciar o grotesco quando com ele somos confrontados. Sabemos que Umo Caimi estava legal em Portugal, foi acompanhada durante a gravidez pelo SNS — inclusive no hospital ao qual se dirigiu — e as reações dos familiares e amigos revelam que seria uma pessoa "preparada para chamar socorro". O que também sabemos é que Ana Paula Martins, perante uma dificuldade, não hesitou: encostou-se à narrativa de que os problemas dos serviços públicos são culpa dos imigrantes.

É por isso que a morte de mais uma grávida esta semana é particularmente aterradora. Não só evidencia sinais de negligência, como é um exemplo trágico de como as narrativas políticas têm consequências. Era como se se estivesse a aguardar pela confirmação ministerial de um diagnóstico que se vinha insinuando: o SNS é assolado pelo turismo de saúde, há um conjunto de utentes que combinam défices de qualificações com iliteracia médica, transformando-se num risco para si próprios. No fundo, Uma Caimi foi vítima do seu oportunismo — viera para Portugal à última hora, com uma gravidez avançada e apresentara-se num hospital público quando já nada havia a fazer.

Só que a história da sucessão de grávidas que enfrentam problemas no SNS parece ser outra. A de um sistema que frequentemente tem dois pesos e duas medidas: negligencia as mulheres pobres e as mulheres imigrantes, enquanto protege aquelas que "têm dinheiro para ir ao privado", para recuperar, de novo, as palavras da ministra.

Estou convencido de que, quando olharmos retrospetivamente para o momento que vivemos, a saliência que a imigração ganhou no debate público destacar-se-á como sintoma de um processo de desagregação social, cavalgado politicamente. Mas também descobriremos que a fixação com os imigrantes era, afinal, parte de uma ofensiva mais vasta que obedecia a uma sequência previsível: primeiro os imigrantes, depois as minorias e, no fim, as mulheres. No que é também uma história grotesca que se repete.»


Imigrantes e crime

 


4.11.25

Luz não faltava

 


Candeeiro “CASA COLL i REGÁS”, Barcelona, 1910.
Arquitecto: Josep Puig i Cadafalch.

Daqui.

O colinho que damos a André Ventura

 


«Já não é a indiferença da maioria que abre alas à extrema-direita portuguesa; André Ventura é levado ao colo pelo Governo e pelas televisões. Este fim de semana, Ventura abandonou o estúdio queixando-se da CNN, mas esteve no canal a ser entrevistado por jornalistas e comentadores em agosto, voltou no mesmo formato em setembro, respondeu às perguntas de uma estrela do canal em outubro e foi questionado por um jornalista e dois políticos comentadores no sábado. Fico à espera do dia em que vão pedir a Montenegro e a Carneiro para entrevistarem Ventura!»


Falar para os abandonados

 


«Há exatamente uma semana, o primeiro-ministro montou um palco com oito bandeiras nacionais para equiparar a aprovação do OE à da lei da nacionalidade. Nesse dia, Leitão Amaro, que já acusara o PS de “reengenharia demográfica”, rebranding da teoria conspirativa ultrarradical da substituição, declarou, no parlamento: “hoje Portugal fica mais Portugal”. No espírito de festa com o Chega, podia ter acrescentado que "não é o Bangladesh".

Este é o PSD mais à direita de sempre, porque nem tem o álibi da crise, como Passos. Radicalizou-se porque o chão da política se inclinou. E qualquer político de centro-esquerda parece estar obrigado a dar provas prévias de moderação, sendo a abstenção o pináculo da sua existência. De cada vez que o faz, ajuda a deslocar o centro relativo para o espaço entre neoliberais e autoritários. Até Seguro, antigo líder do PS, ter medo de dizer que é de esquerda.

Para além das políticas da imigração e da nacionalidade, o governo tentou sucessivas propostas fiscais, do IRS Jovem às de “apoio” à habitação (que levaram ao previsível aumento dos preços), descaradamente reversivas. Mostrando o cinismo, o discurso do governo muda quando se fala de propinas, com o ministro da Educação a defender o seu aumento porque “a gratuitidade é regressiva”. Para baixar impostos aos ricos, a justiça fiscal não interessa, porque todos ganham. Para aumentar propinas aos pobres (quem tem memória sabe bem dos limites dos apoios sociais), a progressividade passa a ser o alfa e ómega da política. Progressividade fiscal dispensa progressividade nos direitos. É por isso que ela é tão importante. Isto, na realidade, não é novo na agenda do PSD.

E está na calha a mais agressiva contrarreforma laboral, a única verdadeira política com princípio, meio e fim deste governo (avisei para o extremismo competente da jurista escolhida, logo na tomada de posse do primeiro governo de Montenegro), que nem tenta disfarçar com qualquer procura de consenso. O extremismo está no conteúdo, de que já aqui falei. E está na forma. Sabendo que a proposta não pode ser início de conversa, recorreu à chantagem: ou a UGT negoceia qualquer coisa, para aparecer na fotografia, ou o único interlocutor será o Chega, no parlamento. É para isto que a extrema-direita serve: pôr o país a falar da burca enquanto ajuda a acabar com os direitos laborais dos que votam nele. Ajudar os de cima enquanto entretém os de baixo com os que estão mesmo no chão.

O PSD virou à direita porque o Chega e a IL ameaçaram o seu flanco direito. Da mesma forma, o PS virou à esquerda (por dois anos) quando BE e PCP tiveram, juntos, mais de 18%, o suficiente para Costa depender deles. PS e PSD não têm, como partidos de poder, grandes limites programáticos. A sua posição é determinada pelo lugar para onde fogem os votos (e os interesses).

Quem queira reequilibrar a política portuguesa tem de olhar para o polo em declínio: o da esquerda. Só o seu reforço conseguirá reequilibrar o sistema partidário e impedirá a convergência do OS, aproximando-se da radicalização da direita. E só ela pode travar a migração do voto popular desencantado para a extrema-direita.

Derrotada a ala esquerda do PS e sendo provável a derrota nas presidenciais, os partidos mais à esquerda devem refletir sobre o papel que querem ter. A erosão do PS apenas degradará o ambiente político para resistir. O futuro não é por aí.

Nem Livre, nem PCP, nem BE, reduzidos a menos de 9%, estão, por si só, em condições de criar um polo popular que se bata pelo voto atraído pelo Chega. Não está o Livre, porque a sua militância, organização, programa e liderança dirigem-se a um eleitorado urbano qualificado, podendo crescer um pouco, na melhor das hipóteses, com o desalento com o PS. Não está o PCP, porque lhe falta ginástica tática, tem demasiado lastro e é quem agora está a perder voto popular para a extrema-direita, que substitui por intelectuais radicalizados perdidos pelo BE. Não está o Bloco de Esquerda, bloqueado na sua queda, leveza estratégica e incapacidade de ganhar raízes no povo a que chegou em 2009 e 2015.

Não sei, nem é isso que agora interessa, quem pode construir este polo e o papel de cada um destes partidos. Sei que não é partindo o PS ou unindo pequenas forças que lá chegam. É fazendo o que o Chega fez: ir para lá dessas contas, criando “novo” eleitorado.

É falando para os desencantados. Para os que foram esquecidos pela promessa meritocrática, abandonados por um Estado que se degrada. Jovens forçados a viver em casa dos pais; populações rurais cercadas de abandono e extrativismo intensivo; licenciados empurrados para emigração por uma economia viciada em salários baixos e futuros precários; funcionários públicos desmotivados por anos de desprezo; moradores de bairros periféricos maltratados e subúrbios mal planeados; famílias que desesperam por consultas e creches porque os recursos públicos servem para dar borlas fiscais aos de sempre; pequenos empresários ultrapassados por chicos-espertos com bons contactos.

É mobilizando, não tenho receio de o dizer, o ressentimento. Mas essa mobilização serve para unir o que a extrema-direita divide. Como espero que o mostre hoje Zohran Mamdani, candidato a mayor de Nova Iorque (voltarei a ele na edição impressa), com o seu "otimismo implacável", nas palavras de Stephen Colbert, o "populismo" de esquerda não é simétrico ao de direita, mas pode ser vencedor.

Os que julgam que a resposta está em ceder ao ataque aos trabalhadores imigrantes (como tentou e falhou a alemã Sahra Wagenknecht) não percebem que a derrota não está na incapacidade de vencer a extrema-direita no seu terreno, está na incapacidade de impor outro campo onde lutar. Porque andamos a discutir burcas e nacionalidade perante uma crise da habitação de proporções estruturais? Porque não se consegue sintetizar a nova lei laboral em algumas das suas medidas chocantes, mostrando como o Chega está sempre do lado do mais forte?

Como se vê em França, nos EUA e até na Alemanha, há espaço para crescer, sobretudo entre os jovens. Um bom começo é falar menos dos heróis de 1975 e mais para os desencantados de 2025. De tanto defender conquistas, a esquerda deixou de conquistar os descontentes da situação. É isso que está a matá-la.»


A Ministra da Saúde, ainda

 


3.11.25

Dizem que é ministra de um Governo de Portugal

 


A ministra inventou acusações e suspeitas graves, como se sabe pela história agora revelada.
Só uma simples pergunta: já pediu desculpa, em privado e em público, sobre o seu acto? Irá fazê-lo? O que passará pela sua cabeça e, já agora, pela de Montenegro? E mais não digo.

Presidenciais?

 


A ameaça vinda da China

 

«A Bosch em Braga tem, nos próximos seis meses, 2500 trabalhadores em lay-off devido à escassez de componentes para peças eletrónicas. Se a Autoeuropa ficar mais de oito dias sem fornecimento de semicondutores, a produção vai ser obrigada a parar, afetando 19 empresas e cerca de dez mil trabalhadores do parque industrial. A fábrica da Stellantis em Mangualde, que pesa 27% na produção automóvel, corre os mesmos riscos. A dependência excessiva da China coloca Portugal e outros países europeus numa situação periclitante.

A gravidade e plausibilidade deste cenário são elevadas. O setor automóvel contribuiu com 42,6 mil milhões de euros para a economia, representando 7,7% da faturação da totalidade das empresas. Em 2024, gerou 17,8% das receitas fiscais do Estado português. Vamos mesmo ter um excedente de 0,3% este ano e de 0,1% do PIB em 2026? A economia terá um crescimento acima dos 2% no próximo ano?»

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Passos Coelho vai ser o unificador da direita

 


«O regresso de Pedro Passos Coelho era para acontecer antes: uma eventual derrota de Luís Montenegro nas europeias abriria o caminho a que o ex-primeiro-ministro se voltasse a candidatar à liderança. Só que, entretanto, António Costa demitiu-se, houve novas legislativas antes das europeias, Montenegro ganhou e o retorno de Passos ficou em banho-maria.

Foi há precisamente 10 anos que Passos Coelho (em aliança com o CDS de Portas) foi o "candidato a primeiro-ministro" mais votado. Nessa época, o PS não era especialmente forte, mas a esquerda era-o e, com a maioria de esquerda no Parlamento, António Costa conseguiu formar governo com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda e remeteu Passos à oposição.

Os dias de Passos na oposição foram duros. São sempre, mas ainda mais quando já se foi primeiro-ministro, com o novo governo em estado de graça. A frase “vem aí o diabo” – a sua previsão sobre a gestão das contas públicas pelo governo PS – marcou esse tempo. O diabo não veio. Agora, Passos avisa para novo diabo, desta vez com um Governo PSD.

Passos podia ter ido trabalhar para um sítio qualquer e, neste momento, estar a ganhar muito dinheiro. Oportunidades destas nunca faltam a antigos primeiros-ministros. Não o fez: manteve-se professor universitário, com um salário que qualquer antigo primeiro-ministro haveria de considerar baixo: pouco mais de 2000 euros.

As suas intervenções públicas têm confirmado uma aproximação ao discurso do Chega – desde o combate às aulas de cidadania ao mais recente apontar do risco de “os portugueses se sentirem estrangeiros na sua terra”.

É um facto que o Governo também se tem aproximado do discurso do Chega, mas há uma diferença – Passos é contra o “não é não”. A sua relação com André Ventura é conhecida. Foi Passos que indicou Ventura para candidato do PSD à Câmara de Loures e que não lhe retirou a confiança depois do discurso anti-ciganos, ao contrário do que fez Assunção Cristas, na altura líder do CDS.

Com Pedro Passos Coelho na liderança do PSD será fácil um acordo de governação com André Ventura. Ventura é fã de Passos: seria o único candidato presidencial que admitia apoiar, depois da desilusão com Gouveia e Melo. Passos não quis ser candidato a Belém, mas agradeceu o apoio de Ventura (ao contrário do que fez Gouveia e Melo). Quando lhe perguntaram se sentia incomodado com este anunciado apoio, respondeu, a 20 de Setembro: “Porque é que eu havia de ficar incomodado com alguém que diz que votava em mim e me apoiava sempre que me candidatasse? Não estou a ver por que é que havia de ficar incomodado”.

Na sexta-feira, Passos Coelho fez uma crítica violenta ― e uma verdadeira demarcação ― ao Governo de Montenegro e ao Orçamento, crítica com a qual até o secretário-geral do PS se identificou. “Chegámos ao fim das margens de manobra que nos permitem adiar decisões importantes. Agora, não vale a pena haver mais cálculos eleitorais nem perder tempo com preocupações distributivas”, disse Passos, criticando as “habilidades orçamentais para salvar o ano” e defendendo um crescimento que não seja apenas por via do consumo.

Tem havido um crescendo nas críticas de Passos a Montenegro. As eleições foram em Maio e o avanço de Passos para o poder (em coligação com Ventura) pode parecer a muitos uma coisa fora de tempo.

Mas uma sombra paira sobre o primeiro-ministro. Até agora, que seja público, Luís Montenegro ainda não deu os esclarecimentos ao Ministério Público no âmbito da averiguação preventiva do caso Spinumviva. A 19 de Setembro o primeiro-ministro disse que “iria aproveitar a tarde para tentar reunir os documentos que foram solicitados e enviá-los o mais rápido possível”. É verdade que Montenegro disse, a 8 de Outubro, que enviou elementos, mas devem ter-se perdido pelo caminho e não terão chegado ao destinatário.

É muito difícil conceber que não venha a ser aberto um inquérito-crime tendo em conta o que está em causa. É certo que os portugueses não são um povo muito exigente com a transparência dos seus políticos e a vitória de Montenegro em Março funcionou como uma espécie de absolvição em tribunal popular. Mas ficou muito por esclarecer.

A dúvida é se Montenegro terá condições de continuar primeiro-ministro se o Ministério Público abrir o inquérito. Num cenário em que as condições não estejam reunidas, é óbvio que Pedro Passos Coelho é o primeiro da fila para a sucessão (Carlos Moedas nunca se candidatará contra o ex-primeiro-ministro). E já sabemos que Passos faz o acordo com o Chega.»


Ponto de Fuga

 



Via António Brito Guterres:

«Cansámos de não faze nada perante um debate público tão inclinado. Hoje, qualquer passo para o contrariar é muito. Dois amigos aproveitam os seus encontros semanais para deixar interrogações e pensamentos. Neste primeiro episódio debatemos o futuro da esquerda não capitalista em PT. Das legitimações existentes ao espaço aberto pela negligência. Que dissidências andam aí? De Mandani a Connolly.»

2.11.25

Mais oportuno é difícil

 


2 de Novembro no cinema: Visconti e Pasolini

 


Luchino Visconti poderia chegar hoje a uns mais que improváveis 119 anos, mas, infelizmente, morreu antes de completar 70. Foi sempre um dos meus realizadores de eleição e seria grande a tentação de recordar aqui muitos dos seus filmes. Limito-me a três, mais do que trivialmente óbvios.

Rocco e os seus irmãos (1960):





O Leoprado (1963)




Morte em Veneza (1971):




E foi também num 2 de Novembro, de 1975, que morreu Pier Paolo Pasolini. Com uma vida atribulada e mais do que polémica, e uma morte trágica, deixou-nos alguns belíssimos filmes, entre os quais «O Evangelho segundo S. Mateus», de 1964, certamente aquele que mais me marcou e de que me recordo melhor.

A surpresa generalizada com que este foi recebido quando apareceu, de um Pasolini marxista, ateu e anticlerical (até condenado anteriormente por blasfémia), mereceu-lhe o seguinte comentário: «Se sabem que sou um descrente, conhecem-me melhor do que eu próprio. Posso ser um descrente, mas sou-o com a nostalgia de não ter uma crença». O filme foi «dedicado à querida, alegre e familiar memória do papa João XXIII» que morreu antes de poder vê-lo.

Um belo Cristo, mais revolucionário do que pastor, que provocou a ira de alguns críticos e o entusiasmo de muitos outros.


..

Jorge de Sena, 02.11.1919

 


Quanto mais se agacham

 


«Esta semana trouxe-nos indicações da intricada situação política em que o nosso país se encontra. A comunicação, devidamente mediatizada, do primeiro-ministro (PM) na passada terça-feira à noite, a propósito da aprovação na generalidade da proposta de Orçamento do Estado, e da aprovação da lei da nacionalidade, consubstanciou-se, por um lado, numa sessão implacável de fritura do Partido Socialista (PS) e, por outro lado, numa exaltação do seu êxito na adoção de conteúdos da agenda da extrema-direita.

Há quem considere que o PSD não trairá o projeto democrático constitucional, que toma aquela agenda de forma instrumental para enfraquecer o Chega. Isso seria mau só por si. Porém, os factos mostram-nos que a opção do Governo se ancora numa estratégia demolidora para a democracia. Os ensaios desta via experimentados em múltiplos países são desastrosos. A ação política reduzida ao conjuntural vai de queda em queda até se instalar um ditador.

Existe um enorme desfasamento entre os temas que tomam relevância política na agenda mediatizada, e aquilo que é necessário para resolver os problemas concretos das pessoas. A agenda que o Governo e as forças que o apoiam mediatizam é uma construção a partir de perceções manipuladas e carregadas de ideologia, em que só existe o imediato. Se conseguirem instituir esta prática governativa, o regime será posto em causa.

O que vemos, entretanto, no campo da ação política concreta? Um autêntico exército de térmitas, instigado pelo Governo e seus aliados neoliberais e neofascistas, atua rápido nas áreas vitais. Na saúde, há conversa sobre a defesa do SNS, mas este definha, os privados têm mais negócio e são anunciados novos cortes. No ensino, cresce o setor privado enquanto os problemas estruturais se agravam, o corpo docente envelhece e tem cargas horárias inaceitáveis, e não há especialistas para acompanhar uma população escolar de múltiplas nacionalidades. No plano laboral, está em marcha um ataque aos direitos dos trabalhadores e ao sindicalismo, com total desprezo por quem trabalha. Esta semana foi feita a indecorosa proposta de aumento do subsídio de refeição para os trabalhadores da Administração Pública em dez cêntimos por dia, o preço de meia carcaça.

Neste quadro, o PS, ao optar pela abstenção na votação, na generalidade, da proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2026, permitiu à extrema-direita encenar oposição. Ora, são exatamente essas forças que estarão com o Governo na implementação do seu programa, suportado por este Orçamento. O que justifica, então, o voto do PS? Medo de eleições? Mas nos próximos nove, dez meses não há essa possibilidade.

Desiludam-se os defensores de alternativas com mais do mesmo. A luta pela democracia vai ser longa e dura. Há muitas pessoas, em imensos espaços, que começam a expressar a necessidade de mais discussão e de se utilizar mais a rua.»