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3.9.25
14.8.25
A armadilha da eficiência tecnológica
«Vivemos num tempo em que a tecnologia promete tornar tudo mais fácil, rápido e eficiente. Temos aplicações para organizar o dia, ferramentas de inteligência artificial para escrever emails, e instrumentos de automação para responder a mensagens, planear projectos e organizar a nossa vida. A palavra mágica é “eficiência”. A produtividade nunca esteve tão ao nosso alcance; pelo menos, essa é a promessa. Mas há um problema silencioso a crescer por trás desta ideia de eficiência constante: quanto mais fazemos, mais se espera que façamos. É a chamada armadilha da eficiência tecnológica.
A lógica parece simples: se uma ferramenta nos permite fazer em meia hora aquilo que antes levava duas, então ficamos com mais tempo livre, certo? Errado. O que acontece, na prática, é que esse tempo "ganho" é rapidamente preenchido com mais tarefas, mais expectativas e mais pressão para continuar a produzir. Raramente é dedicado a actividades ligadas ao lazer ou repouso. Isto faz com que a tecnologia, em vez de nos libertar, nos empurre para uma espécie de “corrida infinita”. Esta corrida pode conduzir a frustração, a uma sensação de que nunca estamos a fazer o suficiente, mesmo quando estamos constantemente ocupados e, no pior dos cenários, a burnout. A pergunta que se impõe é simples: corremos para onde, mesmo?
O nosso cérebro, essa máquina complexa de lógica, emoções e memórias, não está preparado para esta produtividade contínua. À semelhança de outros estímulos, sempre que completamos uma tarefa — por mais pequena que seja — há libertação de dopamina, o neurotransmissor associado à motivação e prazer. Esta “recompensa instantânea” dá-nos uma sensação momentânea de realização e sucesso. No entanto, como qualquer outro circuito que é constantemente estimulado, torna-se viciante. Queremos repetir. Queremos mais.
O problema? O cérebro não distingue automaticamente entre uma tarefa relevante e uma irrelevante (este é um exercício activo de planificação) e, portanto, trata tudo como “check, check, check”. Riscar coisas da lista torna-se, assim, uma espécie de droga leve da vida moderna. Passamos o dia em busca de mini-vitórias: a responder a e-mails, a agendar reuniões e a tratar de “coisas rápidas”, enquanto deixamos para depois (ou para nunca) o que realmente exige foco, pensamento profundo e concentração.
Esta urgência do presente e hiperprodutividade, alimentada por apps e alertas constantes, tem um custo significativo nos nossos cérebros. Pode levar a uma diminuição da memória de trabalho e do controlo cognitivo (ou seja, a capacidade de organizar os pensamentos e controlar as emoções e comportamentos), uma maior dificuldade em filtrar informações irrelevantes e falta de atenção generalizada, o que pode conduzir a um aumento da fadiga mental e do stress. E estas consequências refletem-se não só a nível individual como institucional e social.
A tecnologia, concebida com o intuito de reduzir a carga cognitiva, está a criar novas formas de tensão mental, a fomentar práticas de disponibilidade constante e, paradoxalmente, a reduzir a capacidade de decisão e autonomia humanas. Está a gerar uma espécie de stress digital omnipresente que, gradualmente, esbate a linha, já ténue, entre produtividade e tempo de repouso.
Ou seja, esta promessa de que seremos mais produtivos graças à tecnologia é, na melhor das hipóteses, ingénua. Na pior, uma armadilha bem montada. Para quê responder a mais emails? Para quê termos reuniões mais curtas que nos deixam com tempo para mais reuniões? Não será que estamos a sacrificar tempo de qualidade, pensamento crítico, e até saúde mental, em nome de uma produtividade utópica que nunca se completa?
Em neurociência, já se sabe que a resolução de problemas complexos e a criatividade precisam de tempo de inactividade, ou seja, de ócio produtivo, de momentos em que o cérebro descansa e vagueia. É nesses intervalos de “preguiça” e “procrastinação” que muitas das melhores ideias surgem. Por isso, como é que mudamos esta tendência?
Talvez o segredo esteja em usar a tecnologia não para acelerar a vida, mas para abrandar onde for possível. Contrariar o velho ditado “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”! E isso implica reaprender a parar, a priorizar e, se necessário, recalibrar a bússola interna de forma a enganar o algoritmo que guia esta aparente busca pela eficiência.»
6.4.25
90 metros de perigo
«São 90 os metros que todos os dias percorremos distraidamente nos feeds das redes sociais. O número é surpreendente e passa despercebido face à sedução que entretém o nosso cérebro.
Esses 90 metros equivalem à altura da Estátua da Liberdade. (…)
É cada vez mais fácil ser-se enganado. Nesses 90 metros diários de scroll, o que escolhemos acreditar pode ter um impacto muito maior do que imaginamos, sobretudo em tempos das verdades alternativas trazidas pelas campanhas eleitorais.»
13.12.24
A vida tal como ela não é
«Somos um planeta inteiro de turistas japoneses. Lembram-se, certamente, há muitos anos, quando só se conseguiam fotografias com máquinas para o efeito. Eram caras e conferiam estatuto. Os pais aprendiam a fotografar o melhor que conseguissem, a fim de registar a evolução da família, com as férias em lugar especial. Era preciso saber focar, ajustar a luminosidade, ter intuição, olho e velocidade para apanhar o instantâneo dentro de um movimento. Fotografava-se com fé. A cruzar os dedos, na esperança de que tivesse ficado bem, o que só se saberia semanas depois, após a revelação em casa da especialidade.
Uma boa câmara fotográfica pendurada ao pescoço provocava curiosidade e alguma inveja. Depois vieram os japoneses e democratizaram. Nasceram marcas mais acessíveis ao bolso e à aselhice. Claro que não só de um mesmo país. Lá dos orientes. A expressão turistas japoneses era um óbvio lato sensu. Designava os que apareciam pela Europa a disparar a tudo o que mexia ou imóvel permanecia há séculos. Eram molhos de turistas em frente aos históricos monumentos, a carregar nos gatilhos sem cessar. Comentávamos duas coisas, se bem se recordam. Que iam de certeza ficar com uma tralha enorme de fotografias iguais. E, acima de tudo, que pareciam mais interessados em gravar o momento do que em vivê-lo. Adiavam para o diferido. Veriam depois, quando regressassem a casa.
Algumas décadas passadas, somos todos esse turista. Já nem vou à declaração que se tornou, ela própria, um cliché: hoje está toda a gente agarrada ao telemóvel, a toda a hora. E sim, está. Deixou de ser indicativo de juventude, de modernidade, de nova geração para novos tempos. Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável. Tal como o meu pai. Como certamente o meu avô, se ainda andasse por cá. É uma máquina maravilhosa, pelas possibilidades cada vez mais infinitas. Cliché número dois: é o mundo na palma da mão. O que me preocupa é o hipnótico. Talvez seja coisa minha, pois que tenho sérios problemas com a sensação de falta de controlo. Não gosto de me meter num carro que não serei eu a conduzir. Tal como sempre foi o único real desconforto com os aviões.
Aflige-me o que não depende de mim. Por isso refiro a palavra hipnose. Há toda uma biblioteca de Alexandria com relatos de assombrosas sessões em que pacientes com traumas fundos resolvem muito assunto da cabeça e coração com uma boa hora em que foram conduzidos por um doutor que hipnotiza. Não é para mim. Não, não é por receio de deixar sair muitos segredos. Não tenho muitos, muito menos dos interessantes. É mesmo porque não acredito. E julgo saber que a hipnose tem de encontrar um mínimo de recetividade. Salvam-se, espera-se, as boas intenções terapêuticas, mas ninguém pode negar que há um manobrador e um manobrado.
É aqui, nesta curva, nesta intersecção, que coloco o telemóvel, ou as tecnologias, por atacado. Espero conseguir sempre perceber o ponto, a linha perigosa em que deixo de retirar da máquina o que me interessou para permitir-lhe que seja ela a retirar-me comando, ou mesmo vontade. Quando a máquina, depois de anos a aprender as minhas buscas, me começa a alimentar à boca saborosas coincidências. Turistas japoneses? Gente que nos espantava porque só parecia interessada em ver o mundo num ecrã? Que grava em vez de viver? Por favor. Hoje é autorretrato da Humanidade inteira. Vejam qualquer imagem do público que enche pavilhões ou estádios em concertos. Um mar de luzinhas. Em permanência. Poucos olham para o palco com os olhos de ver, olhos para absorver, para transformar mais tarde numa memória gratificante, daquelas que com o tempo se modificam, como as nuvens arrastadas pelos ventos lá em cima. E como essa sucessão de incertezas sobre o que vivemos afinal nos dava espaço para construir, moldar, remendar sentimentos. Já ninguém quer isso. Não vão aos concertos para sentir ou viver, ou para experimentar estados de alma. O estado de alma limita-se à frieza de um profissional de TV em serviço. Música após música, escolhem o filtro, a cor, as legendas sim ou não. Estão a realizar um filme que não veem. Nem no momento, nem depois. Ou alguém me quer convencer que estas filmagens infindas de concertos serão depois apreciadas com muita calma em casa? Serão esquartejadas em clips, stories, reels, fotos com efeitos, cuja finalidade (que começou logo na compra do bilhete) é dizer aos companheiros da rede social: eu estive aqui, eu estive lá. O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir. Também tenho centenas de fotos de pequenos-almoços de hotel. Não me lembro bem o que comi ou se me soube bem. Mas aqui está a prova. Nunca saímos do quadro de Magritte — isto não é um cachimbo. As pessoas sorriam, que parvoíce, é perfeitamente um cachimbo. Não era. Era a pintura de um cachimbo.»
9.6.23
Um mundo de nerds?
Num restaurante onde estou a almoçar, uma jovem mãe e três filhas, que devem ter entre 5 e 8/9 anos, chegaram, sentaram-se e abriram imediatamente a artilharia digital: a mãe ficou pelo telemóvel, cada miúda tem um grande tablet. Gostava de saber se alguma teve provas de aferição digitais, mas não tive lata para perguntar. Não conversam, o mundo mudou.
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8.2.23
ChatGPT?
É hoje, é hoje! Não quero morrer estúpida e vou tentar perceber como isto vai contribuir para a minha felicidade. Para já, estou em fila de espera tal é a afluência de novos curiosos!
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17.6.22
O Google na NATO?
A Big Tech
“Por que é que a NATO precisa de integrar não só a Finlândia, mas também o Google”, escreve o israelita Shlomo Kramer, grande empresário de segurança informática, na revista Fast Company.
Explicita no subtítulo: “Se quereis a paz no mundo, pensai menos na Inglaterra, na França e na Alemanha, e mais no Google, Apple e PayPal.”
Kramer tem um argumento forte. Os colossos do Silicon Valley têm uma capitalização análoga à de países do G7: a Apple tem uma capitalização de 2,18 biliões de dólares, enquanto o PIB italiano é de 1,9 biliões.
Mais: “As multinacionais que geram grande parte do nosso crescimento económico têm a capacidade tecnológica – para não falar do orçamento – para projectar e promover o tipo de dissuasão rápida e eficaz que nenhum governo consegue facilmente fornecer.” As grandes empresas são capazes de fazer melhor e muito mais depressa. E têm, de facto, maior liberdade de acção perante a lei.
Dá o exemplo do PayPal. Quando esta plataforma de pagamentos digitais suspendeu a actividade com a Rússia, o golpe para muitos operadores de comércio electrónico russo foi mais forte do que qualquer outra sanção. Outro exemplo conhecido é o facto de Elon Musk ter ligado à Ucrânia a sua rede de satélites Starlink, com um papel efectivo no campo de batalha.
Seria chocante a ideia de ver os CEO das mega-empresas sentados à mesa do G7, ao lado do Presidente americano ou do francês, ou reunidos com os comandantes militares.
O que Kramer anuncia é uma era de muito maior de interpenetração entre o Estado e a Big Tech, coisa que a China faz metodicamente. O Google acaba de renovar um gigantesco contrato com a Agência de Segurança Nacional americana (NSA).
Conclui em tom algo idealista, mas extremamente actual perante a barbárie reinante. “Aquilo de que precisamos não é de maiores investimentos na segurança informática. Sugerimos uma nova Convenção de Genebra sobre os limites aos objectivos da guerra informática, como hospitais, casas de repouso ou escolas. (…) A Big Tech é orgulhosa de ter transformado todas as indústrias. Chegou o momento de aprender a revolucionar a guerra.”
A geopolítica não desaparece, pelo contrário: ganha novos actores e actores privados. Um futuro inquietante.»
Jorge Almeida Fernandes
Excerto da Newsletter do Público (16.06.2022)
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29.3.22
6.2.22
O tecnofeudalismo e o Spotify
«É um dos grandes desafios para os próximos tempos. O que fazer para tornar os gigantes tecnológicos, que deixámos crescer sem qualquer enquadramento, eticamente mais responsáveis, justos e igualitários?
Nos últimos dias muitos congratularam-se por músicos como Neil Young ou Joni Mitchell retirarem a sua música do Spotify, por acolher o podcast de Joe Rogan, que emite falsidades e teorias da conspiração sobre a pandemia, iniciando um movimento de boicote em relação à maior plataforma de streaming. Claro que há razões para criticar a desinformação fomentada, mas nisso nada de novo. Já o vimos acontecer com Twitter, Facebook, YouTube e outros (mesmo se existe a diferença de o Spotify ser “patrão” de Rogan), com discussões sobre limites da liberdade de expressão ou a responsabilidade das plataformas em regular conteúdo.
Discussões válidas – mas nunca se vai ao centro da questão e que é de paradigma económico e de moderação política. Com as atenções a recaírem sobre a multinacional sueca, o que seria estimulante era ver muitos mais músicos — muitos deles lutando pela sobrevivência nestes tempos de pandemia, enquanto os gigantes tecnológicos foram amealhando milhões — erguer a voz para questionar o problema nuclear de plataformas como o Spotify: o valor residual que a maior parte dos criadores obtém a partir dela, a desigualdade e ineficaz política de distribuição de direitos.
O problema do Spotify é igual ao de outros colossos tecnológicos que foram crescendo à frente da legislação. O seu poder tornou-se categórico, hegemónico e pouco transparente. No início, éramos seduzidos pelo serviço barato, funcional e, julgávamos, neutral e livre. Mas há muito que se percebeu que agimos no espaço comercial de empresas cujo modelo de negócio é olhar quer para criadores, quer para utilizadores (e seus dados) como mero produto.
Na realidade, vivemos emaranhados num feudalismo dos tempos modernos. Sob o manto retórico do progresso e inovação, esconde-se muitas vezes o ancestral flagelo da dominação. Instalámo-nos no tempo medieval com as ferramentas da modernidade, por entre acumulação escandalosa de lucros, desigualdades inconcebíveis e um punhado de tecno-oligarcas que vão fazendo fortuna. A “nova economia” deu lugar a uma economia de submissão, de disparidades e restauração de monopólios.
Entre Neil Young e Joe Rogan, o Spotify escolherá sempre o lucro. A solução é, então, sair do Spotify, ou das redes sociais, ou boicotar a Apple, Google, Amazon e outros? Não parece que seja por aí, até porque estamos a falar de instrumentos de comunicação que se tornaram imprescindíveis. Mas é bom ter consciência do chão que se pisa. Entender que quanto mais participamos na vida dessas plataformas, mais serviços nos vão sendo oferecidos de forma a acentuar a dependência. Estamos perante um movimento de monopolização poderoso, em que a lógica é controlar tudo. E, quando algo está fora do controlo, comprar quem representa competição é o objectivo.
Não podemos escapar deste mundo, porque, individualmente, somos mais frágeis do que os algoritmos. Mas é possível reflectir sobre o modo como, colectivamente, nos podemos emancipar, preservando espaços de existência que não estejam dominados por este sistema. É uma discussão política e não tecnológica. Corrigir práticas individuais é possível, mas o repto é a própria estrutura de propriedade de empresas em que a actividade produtiva consiste na criação de valor sob a forma de dados.
O desafio consiste em encontrar soluções que passem pela intervenção política, enquadrando o funcionamento destas plataformas, segundo a lógica dos serviços públicos. A política terá de assumir, com pinças, um papel de moderação em modelos de negócio de estruturas empresariais em que os critérios comerciais não obedecem aos princípios do bem comum. A pressão a desencadear é essa. Caso contrário, nada de substancial mudará.»
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12.12.21
PJ e Cagapitos
O Facebook está cheio de profundos conhecedores da Polícia Judiciária, que se desdobram em troca de galhardetes porque há uns que a consideram «uma das melhores do mundo» e outros «mais uma vergonha» deste jardim à beira mar afogado.
Pois eu associo-a sempre à palavra «cagapitos» e passo e explicar. Nos idos de 70, a dita PJ vivia ainda numa era pré-informática e coube-me a função de ajudar outros a desenvolverem as primeiras aplicações num computador do Ministério da Justiça. Foi necessário criar uma modesta base de dados para testes e inventar nomes para hipotéticos criminosos a serem carregados com múltiplas culpas. E foi aí que surgiu o Cagapitos como o mais importante de todos, o mais rico e mais suspeito, aquele a quem atribuíamos mais crimes para termos a certeza de que o sistema estava à altura e não implodia.
O que nunca previmos? Que o Cagapitos fosse preso em pijama, a milhares de quilómetros de distância, e que isso fosse um acontecimento nacional que ocupasse o Povo durante vários dias.
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24.10.21
15.8.21
Uma vida pela frente
«Na nossa juventude, nós e o nosso grupo restrito de amigos sabíamos imenso sobre cinema, música, arte e literatura. Líamos extensivamente sobre os filmes, já que tínhamos de esperar meses, quando não anos, até os conseguirmos visionar na Cinemateca ou, depois da meia-noite, na televisão. Não era então como é hoje, em que todos os filmes e toda a música do mundo — toda a produção humana, na realidade — estão à distância de um gesto digital. Este acesso, dizem pessoas da minha geração, sendo indiscriminado, provoca uma homogeneização “perigosa”; sem curadoria, todo este saber se transforma em não-saber.
Hoje em dia, eles, os jovens, consomem coisas, não ouvem, nem lêem, realmente, como nós fazíamos. Pergunto se é preferível a existência de um grupo pequeno de gente excepcionalmente culta a uma larga maioria de gente suficientemente culta. Ah, mas o problema é que os jovens de hoje não são nada cultos, antes pelo contrário, tudo lhes escapa porque andam sempre enfiados no telemóvel.
O que eventualmente assusta de facto a minha geração é que à era do nicho, da excepcionalidade e da curadoria, se suceda uma era irrestrita, a partir da qual parece ser impossível superar a mediania. Lamentamos que estejam a desaparecer tantas coisas que conhecíamos bem, coisas profundas e notáveis, substituídas por outras que, inscritas na grande superfície digital, nos parecem demasiado acessíveis para importarem. Daí que, numa suposta atitude crítica, muitos de nós tenham rejeitado ou adiado a infoliteracia. Por este andar, enquanto lastimamos o que se vai perdendo, pode o mundo tornar-se um sítio melhor — bem debaixo dos nossos narizes.
A partilha de sistemas e de informação, facultada pelos computadores que temos hoje no bolso, poderá vir a resultar na produção de inteligência colectiva, diversa e colaborativa, feita por humanos, para humanos, assegurando equidade e transparência — na sua génese, conceitos próximos dos nossos ideais de juventude. Sim, assusta ver seres com uma vida pela frente a passar tanto tempo ao telemóvel, mas torna-se menos temível se pensarmos que parte importante do seu futuro, e do nosso, passa pela destreza, inteligência e imaginação com que saibam usar as actuais tecnologias. Receamos que lhes fiquem a faltar outras competências, tão fundamentais — aos nossos olhos, mas não aos deles. Tem sido sempre assim: se viajarmos até à nossa própria juventude, sem a romantizar, vemos com clareza o quanto todos crescemos ao arrepio dos preceitos dos nossos pais. E os nossos pais dos deles.
Corre na Internet a citação de um artigo, de 1999, de Douglas Adams, em que o escritor e humorista cria três breves regras em que procura descrever a relação das gerações com a tecnologia: “1. Qualquer tecnologia que exista quando se nasce é vulgar e apenas parte natural da forma como o mundo funciona. 2. Qualquer tecnologia inventada entre os 15 e os 35 anos é nova, excitante, revolucionária e eventual oportunidade profissional. 3. Tudo o que for inventado depois dos 35 anos é contra a ordem natural das coisas.” Estas regras cómicas, sem rigor estatístico, talvez estejam certas nisto: os jovens, ainda que em toda a sua ignorância, são a força verdadeiramente revolucionária em campo. Têm do seu lado a maior e mais legítima motivação de todas, a de viver uma vida longa e boa, num planeta ameno. Arregaçar as mangas e juntarmo-nos a eles seria tão educado e bem-disposto da nossa parte.»
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8.6.21
O Continente, o ludismo e como pôr a tecnologia a trabalhar para todos
«Foi anunciada, com grande excitação, a abertura de uma nova loja do Continente totalmente tecnológica, sem caixas. Ou seja, com menos trabalhadores. Essa é a sua verdadeira modernização. Boa para os acionistas, não sei se com grande vantagem para os clientes (pensem o que ganhámos com o atendimento automático telefónico, sem contacto com pessoas, no apoio ao cliente). Não há nada de surpreendente aqui. Depois da mecanização do trabalho fabril, este é o tipo de emprego que vai desaparecer: os trabalhos repetitivos de baixo rendimento, em que a tecnologia parece ser mais barata do que a mão de obra. Os trabalhos de custo baixo e menos repetitivos – como a limpeza de quartos de hotéis ou algum trabalho de minúcia na agricultura – são mais baratos quando feitos por imigrantes sem direitos do que o investimento que seria exigido em tecnologia.
A formação marxista que recebi na juventude livrou-me de um discurso moral sobre este tipo de dinâmicas que alguma esquerda adota para falar de “especuladores” ou “empresários sem escrúpulos”. E é por isso que, quando um empresário me diz, para parecer um bom samaritano, que ao contrário de mim criou imensos empregos, só consigo sorrir. Um empresário cria tantos empregos como um trabalhador que mantém a empresa sustentável e produtiva. Não é um ato benemérito. O empresário cria os empregos necessários para produzir o que o mercado parece querer ou poder consumir. Se criar um a mais ele vai desaparecer. Quem cria emprego em atividades que visam exclusivamente o lucro é o mercado. Eu escrevo neste jornal porque há quem me queira ler (ou anunciantes que não se importam que eles me leiam). No dia em que isso não aconteça deixarei de escrever.
O empresário diz isto porque quer ganhar superioridade moral num debate que não é moral. Só que eu não acho que um empresário padeça de qualquer inferioridade (ou superioridade) moral por buscar o lucro. Eu nem sequer acredito num capitalismo socialmente responsável ou ambientalmente sustentável. Acredito em políticas públicas, desenvolvidas pelo poder político, que levam a que ele se torne uma e outra coisa. Porque o poder político é moralmente superior ao poder económico? Não. Porque os eleitos representam o conjunto da sociedade e o seu dever é zelar pelos interesses da grande maioria com critérios de Justiça. Quando não o fazem, aí sim, há uma falha moral. O dever dos gestores é servir os interesses dos acionistas. Mesmo quando, conhecendo-se a sua alarvidade social e laboral, fingem que estão preocupados com o país, como faz o senhor da Ryanair. Os que não o fazem, dentro dos limites da lei, estão em falha profissional.
Os empresários querem reduzir custos. Desse ponto de vista, o seu objetivo é criar menos emprego, não mais. Mesmo que percebam que uma sociedade sem emprego não consome os seus produtos, nenhum vai pôr a sua empresa a cumprir esse papel. É por isso que a ambição pessoal, sem regulação pública, não tende para o equilíbrio, mas para o caos. Cabe ao Estado pensar no bem comum e até na sustentabilidade da economia. E é por isso que é absurdo transformar os empresários, por mais competentes que sejam, em oráculos da nação para políticas públicas. É como esperar que um pasteleiro seja dietista. Não é bondade ou maldade, competência ou incompetência. É perceber a função de cada um.
Resumindo: não tenho qualquer crítica moral a fazer a um gestor que decide abrir uma loja sem trabalhadores para poupar dinheiro aos acionistas ou provar que esse caminho tem sustentabilidade. São os acionistas que ele defende, não os trabalhadores. Muita gente reagiu à notícia dizendo que não vai usar estas lojas. Podem não o fazer no início, acabarão por o fazer no fim. Como fazem com a Via Verde e com imenso trabalho mecanizado em que já nem pensam. A resistência à mecanização como discurso político tem um nome: ludismo. Um movimento que, nos primórdios da industrialização e antes de os socialistas terem dado à resistência uma perspetiva mais sistémica, se dedicava à destruição de máquinas em protesto. Não resultou então, não resultará agora.
Mais uma vez, o debate não é moral. A tecnologia não determina as escolhas políticas, apenas as condiciona. É a forma e os objetivos como é usada que decidirá quem perde e quem ganha. Ela tende a acentuar as derrotas e as vitórias que já existem, a não ser que o Estado, que todos serve, atue. Não estava escrito em lado nenhum que a tecnologia que permitiu a Uber servisse para contornar as leis laborais. Como se vê em decisões recentes de tribunais, como no Reino Unido, é possível travar esse caminho. É a ausência de lei ou leis feitas à medida da Uber (a do governo português, por exemplo) que o permitem.
Cabe ao Estado e aos políticos pensar na forma de os desenvolvimentos tecnológicos beneficiarem o conjunto da população, e não apenas os donos das empresas. Que sirvam para trabalharmos todos menos horas e ganharmos mais, e não para criar uma massa de desempregados e uma população que concentra em si horas absurdas de trabalho para o desenvolvimento tecnológico que já atingimos.
Há quem defenda que os impostos sobre o trabalho passem a ser impostos sobre a tecnologia. Não acho que seja o caminho. É uma forma dissimulada de ludismo. Apenas atrasa o desenvolvimento tecnológico dos países que façam essa opção. É, a prazo, insustentável. A ideia mais interessante que ouvi, desenvolvida por António Brandão Moniz (sociólogo especialista nestes temas), foi a de beneficiar as empresas que conjugam desenvolvimento tecnológico com investimento em formação e reconversão profissional, prejudicando as que não o fazem. Uma política fiscal que sirva para a expansão e modernização e para acrescentar valor ao que se produz, e não apenas para reduzir custos. Porque é mau reduzir custos? É excelente, se servir mais gente. E não basta dizer que reduzir custos baixa preços ao consumidor. Isso de pouco serve se ficarmos todos desempregados.
A mecanização deste trabalho não é má, por si só. Ninguém sonha ser caixa de supermercado ou estar numa fábrica a fazer trabalho repetitivo. O ideal até seria que esta tecnologia nascesse, porque já ninguém aceita ser caixa de supermercado. A questão é se ao libertarmos os humanos desse trabalho conseguimos dar-lhe outro melhor, beneficiando-o. Para isso, é preciso uma política fiscal que desvie o dinheiro que apenas serviria para concentrar ainda mais a riqueza nuns quantos (é o que está a acontecer) e desemprego noutros para reconverter trabalhadores para trabalho mais qualificado, para reduzir horários ou criar um novo mercado de trabalho social e público. A questão não é como travar a tecnologia. É como pô-la ao serviço de todos - e não apenas de alguns. E isso cabe à política.»
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30.3.21
25.6.20
Isso é que era!
Se ainda usássemos uma coisa destas para andar pelas redes sociais, talvez pensássemos um pouco melhor antes de teclar (e não comentássemos TODOS os posts de um blogue, mesmo quando não temos nada de especial a dizer - esta vai com destinatário, sem grande esperança que entenda, confesso…)
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2.12.19
O Impacto da Revolução Tecnológica na Educação
«O impacto da chamada quarta revolução industrial no emprego tem sido amplamente debatido e discutido, dando origem a centenas de estudos e artigos de opinião com as mais variadas conclusões. Porém estes estudos exibem bastantes divergências no que respeita ao previsível impacto da tecnologia no número de empregos que virão a estar disponíveis num futuro a médio prazo, eles são geralmente convergentes num aspecto em particular: a importância de preparar os jovens e os adultos para um futuro onde tecnologias como o digital, a robótica, a inteligência artificial, a biotecnologia, os materiais e as nanotecnologias terão um papel importante.
O moderno sistema educativo, baseado no ensino massificado, onde turmas de alunos com idades semelhantes adquirem um conjunto de competências muito semelhantes definidas por currículos padronizados evoluiu nos últimos dois séculos e é por vezes designado de “modelo fabril”, por analogia às linhas de produção em série que caracterizaram a revolução industrial. Embora o mérito desta analogia tenha sido alvo de bastante discussão, não deixa de ser verdade que o actual modelo, baseado na ideia de uniformidade (“one size fits all”) se tem vindo a revelar progressivamente mais desajustado das necessidades dos estudantes e da sociedade, enfrentando pressões com diversas origens.
Por um lado, existe cada vez mais informação disponível na Internet, que permite aos estudantes terem acesso a aulas, seminários, textos e exercícios sobre as mais diversas matérias, o que torna as aulas puramente expositivas menos atractivas. Há 40 anos, um aluno de engenharia interessado em aprender, por exemplo, cálculo diferencial e integral ou mecânica clássica apenas tinha como opções sentar-se em aulas na universidade ou aprender directamente a partir do estudo individual de livros de texto. Hoje, existem centenas de recursos publicamente acessíveis. Acresce que estas novas metodologias, baseadas em sessões de aprendizagem curtas, interactivas e apelativas, são muito mais adequadas aos jovens de hoje, cuja capacidade de concentração em aulas expositivas mais longas é, em regra, inferior à das anteriores gerações, por força da constante e permanente exposição aos novos media.
Por outro lado, a importância da memorização ou do domínio aprofundado de temas muito específicos, em determinadas áreas técnicas e científicas, caiu com a permanente disponibilidade de recursos especializados, acessíveis à distância de um telemóvel, de um computador ou de um programa que execute um determinado conjunto de cálculos. Um especialista poderá sempre aceder a informação adicional sobre uma doença ou usar um programa para calcular o dimensionamento de uma estrutura, para dar apenas dois exemplos. A profundidade do conhecimento não perdeu importância, mas tornou-se mais relevante ter a capacidade de procurar informação adicional e específica sobre determinados temas do que memorizar dados específicos, métodos ou algoritmos.
Finalmente, existe uma crescente percepção da importância da interdisciplinaridade. Cada vez mais as organizações valorizam profissionais que aliam os conhecimentos da sua especialidade (seja ela engenharia, economia, medicina ou outra área técnica) com competência de trabalho em equipa, conhecimentos de outras áreas e capacidade de comunicação. Muitos dos desafios das organizações exigem abordagens interdisciplinares, porque a adopção com sucesso de novas tecnologias requer abordagens sociais, económicas e psicológicas adequadas.
O sistema educativo, em geral, e o sistema de ensino superior, em particular, tem sido relativamente lento a reagir a estes ventos de mudança. A Academia é muito conservadora e resiste, tenazmente, a alterações no modelo de ensino. Na esmagadora maioria dos casos, a formação numa universidade portuguesa de hoje é muito semelhante à formação de há quatro décadas, embora existam relevantes e meritórias excepções. Não só os currículos dos cursos são semelhantes ao que eram, muitos deles rígidos e permitindo aos alunos poucas alternativas, como as aulas são, em si mesmas, muito semelhantes às que eram leccionadas quando eu andei na universidade, no princípio dos anos 80. Existem excepções, naturalmente, e o curso de estudos gerais da Universidade de Lisboa, que dá aos alunos grande flexibilidade na definição do seu currículo, é uma dessas excepções, aliás muito bem documentada num livro da autoria de António Feijó e Miguel Tamen publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Num relatório da OCDE, sobre o ensino superior português, elaborado a pedido do governo e tornado público em 2018, pode ler-se que “Os programas têm tipicamente estruturas rígidas e são orientados para profissões específicas, permitindo aos alunos uma flexibilidade muito limitada na combinação de disciplinas. Adicionalmente, métodos centrados em aulas tradicionais, com um elevado número de horas de contacto são a norma.” A legislação criada com o Decreto-Lei n.º 65/2018, que extingue os mestrados integrados (cursos monolíticos de cinco anos), com excepção de uma minoria imposta por (muito originais) directivas europeias, veio permitir a diversas áreas, mas especialmente às engenharias, reformular os seus cursos para estarem mais de acordo com as modernas tendências e necessidades.
O Instituto Superior Técnico encarou o desafio criado pela obrigação de transformar os mestrados integrados em cursos de primeiro ciclo (três anos) e segundo ciclo (dois anos) como uma oportunidade para modernizar o ensino da engenharia. No caso do Técnico, a alteração nos currículos incluirá mais interactividade do ensino e uma maior flexibilização dos cursos, permitindo aos alunos uma muito maior liberdade na escolha de opções e áreas de especialização fora da sua área central de conhecimento, como inovação, gestão ou comunicação. Os estudantes terão também, pela primeira vez, a possibilidade de escolher disciplinas de outras faculdades da Universidade de Lisboa, tais como Economia, Direito, Medicina ou Literatura.
Abordagens análogas estão a ser seguidas por outras escolas de engenharia portuguesas, entre as quais a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, as faculdades de ciência e tecnologia da Universidade de Coimbra e da Universidade Nova, a Escola de Engenharia do Minho e a Universidade de Aveiro, que integram, com o Técnico, o Consórcio das Escolas de Engenharia, criado no passado mês de Julho para coordenar e potenciar a capacidade educativa de Portugal nesta área.
Os alunos da área da engenharia que vierem a ingressar no ensino superior em Setembro de 2021 irão já frequentar um conjunto de cursos com currículos mais modernos e mais adequados às necessidades da sociedade do futuro, uma sociedade onde as tecnologias deverão colaborar com as outras áreas do conhecimento para endereçar com sucesso os grandes desafios da humanidade.
Nota: esta é a última crónica que escrevo na qualidade de presidente do Instituto Superior Técnico, uma vez que termino o meu mandato no fim de 2019, depois de oito anos à frente da instituição. Desejo à futura direcção do Técnico, na pessoa do próximo presidente, Prof. Rogério Colaço, as maiores felicidades.»
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8.11.19
As camisolas de Paddy Cosgrave
Parolice tecnológica? Sim, mas, sobretudo, Money, Money…
A ler: Nos souvenirs do Web Summit, há uma camisola de lã que custa 850 euros.
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7.11.19
Web Summit: vendedora de ilusões
«Segundo dados da Informa D&E, noticiados no transacto ano, cerca de uma em cada três startups portuguesas encerra ao fim de um ano. Entre outros factores, é apontada a falta de financiamento como um dos principais constrangimentos para o sucesso destas microempresas. Mas, afinal, o que nos traz a Web Summit? Além de um mediatismo vazio de conteúdo, o que pode realmente oferecer uma conferência que apresenta oradores como Tony Blair ou Ronaldinho? Ou mesmo o negociador da União Europeia para o “Brexit"?
Desde o início deste evento em Portugal questiono qual a sua real utilidade se não lavar a cara suja do capitalismo selvagem e pintá-lo como se de uma geração cool se tratasse. Actualmente, é cool ir à Web Summit, embrenhar-se por aplicações adentro e expurgar todos os males do mundo a partir de um computador. Vendem-se as mais burlescas ilusões de que se não formos nós a criar o nosso emprego ou a desenvolver a nossa microempresa (de preferência tecnológica) estaremos condenados para sempre a viver à luz de relacionamentos laborais arcaicos e caducos que mais não fazem do que contribuir para o desperdício de tempo, enquanto podíamos estar a realizar algo de mesmo importante para o planeta, para o mundo e para a sociedade.
É deste tipo de ilusões que se pretende alimentar a sociedade — aponta-se o caminho do instantâneo, do digital, porque o resto dá muito trabalho e não releva. Não ouvi ninguém na Web Summit a criticar as políticas de baixos salários praticadas pela Google ou pelo Facebook, dirão que é outra forma de trabalho e que, portanto, o conceito de remuneração será diferente. Mentira, onde há trabalho há necessariamente direito a um salário, a condições laborais e a uma relação laboral entre patrão e trabalhador. A Web Summit ajuda a mitificar a ideia de que não existem relações laborais como as que até aqui tinham lugar, até porque devemos ser cada vez mais flexíveis, a saltar de um desafio para o outro. Dizem eles desafio, dizemos nós explorações.
Na Web Summit não se paga a quem ajuda a construir o evento, são voluntários. Mas porquê voluntários? Não terão receita para poder pagar a trabalhadores? Ou estamos perante mais uma forma de exploração, desta feita dupla, pois consegue-se explorar pessoas economicamente, explorando o seu lado mais fantasioso, aquele que as leva a acreditar que estão realmente a contribuir para algo que pode fazer a diferença nas nossas vidas.
As startups portuguesas não têm conseguido vingar porque, mais uma vez, estão a competir com o grande capital, ou seja, se te endividas ou gastas o pouco que tens na criação de uma destas microempresas tecnológicas, és rapidamente arredado por aquelas que realmente contam com financiamento de milhões para levar a cabo o seu objectivo. Com isto, fizeram-te perder um ano ou dois da tua vida, vendendo-te a ideia de uma economia tecnológica florescente que, no fundo, apenas floresce para os mesmos de sempre e, quiçá, roubaram-te uma ou outra ideia que ruma direitinha para o seu sucesso. Não seria inédito.
A Web Summit não é mais que uma espécie de centro de turismo tecnológico. Não deixa de ser turismo porque não produz nada.»
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18.2.19
Provar do veneno no meio da tempestade
«Quando o Presidente chinês foi recebido como um herói pelas autoridades portuguesas, uma das cerimónias mais notadas foi a assinatura de 17 protocolos e acordos entre as duas partes. Havia de tudo: entre os donos e as suas empresas, fica sempre bem, como foi o caso entre a Three Gorges e a EDP ou entre a State Grid e a REN, com a particularidade que não deixa de ser notada de haver mais uma oficialização da relação estabelecida pela privatização e venda ao Estado chinês, a propriedade da energia portuguesa passa a ser uma questão diplomática; entre a CGD e o Banco da China; entre a RTP e uma congénere; com universidades para o ensino do mandarim; de exportação de uva de mesa; e, para mostrar que não se esquece a boa vontade partidária, entre as câmaras de Tinjin e de Setúbal. Mas o acordo mais importante, rubricado sob os sorrisos do nosso primeiro-ministro e do Presidente chinês, foi entre a Altice/MEO e a Huawei, o gigante chinês que está a investir na tecnologia 5G, e que assim cresceria em Portugal na base desta parceria.
Posso, quero e mando
Poucos dias depois desta feliz assinatura, a diretora financeira da empresa chinesa e filha do seu presidente foi detida no Canadá, havendo um procedimento para extradição para os Estados Unidos. A acusação, que talvez seja o que menos importa, é de violação das sanções norte-americanas contra o Irão.
O Governo dos EUA faz assim demonstração de dois poderes. O poder de perseguir criminalmente quem quer que seja e onde quer que seja em função das suas próprias decisões (a União Europeia recusou as sanções contra o Irão, em função de um acordo de que os norte-americanos se retiraram por ordem de Trump) e a vontade de preservar o controlo sobre uma tecnologia de ponta, que será decisiva para os processos de automação no futuro imediato. Alegando riscos de segurança para o seu país, os governos da Austrália, Nova Zelândia, Japão e Reino Unido anularam ou impediram os contratos com a Huawei para o fornecimento de serviços nesta área. A Universidade de Oxford rescindiu acordos com financiamentos para projetos de investigação, patrocinados pela empresa. E outros aliados de Washington seguiram o exemplo. Deste modo, o Governo português (e o francês) ficou numa posição difícil, e aliás declarou que não acompanhava as sanções contra a empresa.
A alegação norte-americana é que, tendo sido criada por um engenheiro que no passado trabalhou para as forças armadas chinesas, a Huawei é suspeita de criar portas por onde possa entrar a espionagem chinesa nos equipamentos que vende. A partir daqui, sem factos, mas com estas suspeitas, não se sabe mais nada.
Uma interpretação para este processo é que as autoridades trumpianas temem que a Huawei, que é a empresa mundial que regista mais pedidos de patentes internacionais e é desde há seis anos o maior fornecedor do mundo em comunicação móvel (200 milhões de smartphones vendidos no ano passado, 110 mil milhões de dólares de vendas de equipamentos), venha a liderar a inovação num sector estratégico e, por isso, pretende barrar-lhe o caminho usando todos os meios ao seu alcance.
Um mundo bipolar
Ora, é evidente que o controlo de tecnologias de comunicação permite um poder especial, como se verificou quando, em benefício de Trump e de outros, a Cambridge Analytica acedeu a quase noventa milhões de perfis do Facebook, que utilizou em campanhas políticas. Assim, o que está em causa não é propriamente a nacionalidade da empresa e o controlo pelo governo do partido, mas antes o facto de esse poder eventualmente se exercer na fronteira tecnológica, com riscos militares e estratégicos a prazo curto. O problema é mesmo ser tecnologia de comunicação, pois é certo que, ainda há pouco, a relação destas empresas com o Partido Comunista Chinês não pareceu impressionar muito os reguladores norte-americanos quando a Three Gorges passou a dominar a EDP, que controla a energia em Portugal e que, aliás, também tem instalações importantes nos Estados Unidos.
Este conflito tem ainda outra implicação mais vasta. Caminhamos para um mundo em que se podem vir a delimitar duas redes distintas de internet, a norte-americana e a chinesa. A Huawei já dirige redes que representam um terço da população mundial, particularmente na Ásia. A ofensiva de Washington pode portanto ser lida como um ataque preventivo. Os canhões do protecionismo disparam agora com proibições e tutela de contratos. Não deixam de ser letais. Mais uma vez, esta dupla escolha seria um desastre para a Europa.»
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4.10.18
Web Summit?
«Daqui por 10 anos, pessoas de todo o mundo continuarão a ter de viajar milhares de quilómetros, deixando a correspondente pegada ecológica, para se encontrarem em Lisboa para discutir e celebrar a tecnologia. Nessa altura, ao que parece, a tecnologia ainda não lhes permitirá reunir à distância.»
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