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26.12.23

A tranquilidade de Costa não é a do país

 


«Na mensagem de Natal do ano passado, António Costa falou da solidariedade necessária para enfrentar as consequências da guerra, do aumento da inflação e dos juros – e das acrescidas dificuldades que tal cenário trazia às famílias, às empresas, às autarquias, ao Estado central. Sublinhou que havia razões para o país “ter confiança no futuro”, mas não deixou de falar dos problemas.

Neste Natal, o país de Costa pareceu quase tão brilhante como a árvore de Natal que lhe serviu de cenário. Em menos de cinco minutos, mencionou 13 vezes as palavras “confiança” e “confiar”. A quadra é dada a optimismos, mas, mesmo dando o desconto de já estarmos em campanha, e de poder ser difícil a um primeiro-ministro prestes a deixar de o ser falar do futuro sem ser de forma abstracta, é bom não perder a noção da realidade.

“Juntos vencemos as angústias da pandemia”, disse. "Juntos garantimos” que a tragédia dos incêndios não se repetiu, criou-se emprego, houve “redução da pobreza e das desigualdades”, equilibraram-se as contas públicas, acelerou-se a transição energética… e continuou.

Sem prejuízo de nuns indicadores ser mais evidente que o país tenha realmente melhorado substancialmente face a 2015 do que noutros, há uma frase na qual muitos cidadãos terão uma grande dificuldade em rever-se: “Recuperámos a tranquilidade no dia-a-dia das famílias.” Num ano de inflação e juros a níveis históricos, que degradam o poder de compra e a capacidade de pagar uma habitação digna, “tranquilidade” é coisa que falta em muitas casas.

Também é bom lembrar que a taxa de pobreza em 2022 baixou, sim, face aos valores de 2015, de 19% para 17%, mas é maior do que em 2019 ou em 2021 (16,6% e 16,4%). E o principal índice que mede as desigualdades da distribuição de rendimentos, o índice de Gini, voltou a subir em 2022 para níveis próximos de há oito anos (33,7 contra 33,9).

O país conseguiu iniciar o caminho para um novo modelo de desenvolvimento, desde logo com a redução, exemplar a nível europeu, do abandono escolar precoce e uma grande melhoria dos níveis de qualificações. E Costa pode e deve dizer que estas são armas essenciais para o futuro.

Mas num ano tão conturbado, e com umas eleições à porta que arriscam não trazer estabilidade, mencionar de passagem que "há problemas que ainda temos de ultrapassar” e “não desistimos de continuar a melhorar”, ignorando que em várias áreas a descolagem tem sido demasiado lenta e demasiado penosa para uma fatia importante da população, é um erro que alimenta o divórcio dos cidadãos de quem os representa.

A “tranquilidade” de Costa não é a de muitos portugueses.»

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25.12.23

Saudades quem as não tem?



Dos conselhos do dr. Rui Portugal, então subdirector-geral da Saúde, no Natal-Covid de 2020.
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Calma!

 

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Os vendedores do Natal

 


«Percorrendo aos encontrões corredores e escadas rolantes do Corte Inglês, depois de na véspera ter desistido - por correr o risco de asfixia - de comprar um pacote de leite, um pack de iogurtes biológicos, um cacho de bananas e outras necessidades básicas para sobreviver ao grande bacanal natalício num dos super-giga-hipermercados que rodeiam a capital, dei por mim a amaldiçoar o homem que inventou o Natal. Não o Jesus, coitado, que não só era um recém-nascido isento de quaisquer culpas como até - asseguram as boas fontes - isento do pecado original porque, como o nome indicia e foi astutamente detectado por Santo Agostinho, foi "concebido sem pecado". Se o Santo o diz, e na sua infinita sabedoria que fez dele um dos Pais da Igreja até se pode hoje detectar uma capacidade de olhar para o futuro e prever quase dois milénios depois "concepções sem pecado" feitas em provetas, bancos de esperma, inseminações artificiais e manipulações genéticas e até o milagre de conceber depois de morto, pouco resta senão acreditar porque, como avisava outro sábio, São Tomé, há coisas que só depois de vistas se podem acreditar.

E uma delas eram as bichas intermináveis para as caixas dos hipermercados nas vésperas de Natal. Os portugueses ganham mal. Mais de um terço dos portugueses estão no patamar da miséria. A desigualdade social em Portugal, medida através do instrumento analítico que serve para medir essas coisas e que os técnicos designam como "coeficiente de Gini", é uma das maiores da Europa. Portugal conseguiu diminuir essa desigualdade até 2019, mas desde então - e a culpa não foi só da pandemia - tem vindo a aumentar. Os Açores e a Madeira são as regiões onde é maior a diferença entre os que mais ganham e os que menos ganham. Onde há menos desigualdade, dizem as estatísticas, é nas grandes regiões urbanas, provavelmente porque é também aí que se concentram serviços públicos e privados e as grandes empresas.

Uma maneira empírica e pouco científica de constatar essa desigualdade é o estudo de campo, como se diz em sociologia, a que fui obrigado nas bichas do hiper-super-gigamercado de subúrbio e do super-hiper-gourmet do Corte Inglês. E menciono o Corte Inglês não por ser particularmente exclusivo, mas porque - como outros estabelecimentos reputados e elitistas da capital - a sua fama e clientela o distingue e torna especialmente eficaz para efeitos de observação analítica, constatação sociológica e veredicto natalício.

Entre as bichas do super de subúrbio e as bichas do hiper do centro de Lisboa a diferença não era nem na densidade da multidão nem na sua qualidade embora, se fizesse alguma diferença ou fosse estatisticamente significativo, se pudesse desde logo observar os desníveis sociais atestáveis quer pela quantidade de fibras naturais - algodão, seda, lã, para nem mencionar outras origens animais menos consensuais como vison ou mesmo coelho presentes nas referidas bichas, por oposição à percentagem de fibras sintéticas. Roupa de plástico. Não, o que é estatisticamente significativo não é nem o cliente, nem as roupagens que envolvem o cliente - até porque, numa época de massificação de consumos e de imagens e de uniformização das multidões, o que distingue uns jeans baratos de outros caros é na maioria das vezes apenas uma etiqueta.

A massificação de usos e consumos atinge o apogeu no Natal - embora se possa admitir que a época pré-natalícia com a introdução das black fridays e a pós-natalícia com os saldos possam estar ao mesmo nível de consumo descontrolado. Mas há uma diferença. Não há black fridays de bacalhau ou rabanadas nem saldos de peru ou bolo-rei. O que caracteriza e é específico da orgia consumista do Natal é o que se põe na mesa, eventualmente na boca, e seguramente acabará nos sistemas de saneamento básico providenciado pelas autarquias. A comida. Ou o excesso dela. Compra-se comida com os olhos, com a imaginação, com a saliva mental de recordações de sabores passados. Compra-se comida a mais, numa glutonice democrática e universal e natalícia que a experiência e a ciência médica demonstra ser um exercício de desperdício e de abandono ao colesterol. Basta ver nas bichas o que as pessoas vão comprar.

Não. Quem inventou o Natal não foi Jesus. Nem Constantino, o imperador que decidiu transformar os rituais pagãos do renascimento na Natividade cristã. Nem sequer Dickens, apesar do talento e génio do escritor ter contribuído para mudar uma festa de família numa festa de solidariedade, paz e amor. Só até ao dia seguinte, claro. Não, quem inventou o natal actual, o natal das comezainas e dos excessos, foram os donos dos supermercados, os vendedores de comida e os vendedores de sais de frutos.»

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24.12.23

Bons conselhos

 

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Este sai sempre do baú

 

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Não digo do Natal

 

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Natal com musgo

 


«Nos invernos chuvosos da minha infância o musgo abundava junto aos ribeiros e não havia crise climática a ensombrar o ritual de o colocar no presépio. As figuras toscas e coloridas espalhavam-se pela sala dos avós e não faltavam elevações, pontes e outros efeitos para emprestar realismo ao cenário. Na noite de 24, o menino sorridente e de braços estendidos para o mundo era colocado no seu lugar até então vazio. Era fácil acreditar, porque na infância todas as possibilidades cabem dentro de nós.

Crescer é necessariamente ser cercado pela dúvida. No olhar sobre o Natal cancelado em Belém, na Cisjordânia, e sobre os destroços de Gaza onde milhares de crianças perdem a vida. No abandono dos sem-abrigo e de famílias inteiras encurraladas pelos preços altos da habitação. Na solidão de imigrantes explorados no trabalho ou olhados com desconfiança. No aperto de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, sem salário ou sem mesa farta.

Perdida a ingenuidade de outros tempos, a estrela não brilha a apontar caminhos nem se ouvem vozes serenas a anunciar a paz universal. Mas, sejam quais forem os mistérios - da fé ou do entendimento -, há sempre alternativas para procurar soluções e construir uma sociedade mais justa, mais humanista e em que todos possam ter direito a uma noite feliz.

Os populismos, extremismos e individualismos alimentam-se de medo. Se há prenda que vale a pena pedir no sapatinho, em vésperas de duas idas às urnas, é a liberdade de pensar sempre além do medo. Sem deixarmos que o azedume nos encolha. Se nos permitirmos ser inteiros, límpidos como nas noites em que tudo brilhava e parecia seguro, é possível que os sinos toquem. Não por magia, mas porque nós assim fizemos acontecer.»

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20.12.23

Não é fácil

 


Talvez criando um partido para concorrer às Legislativas…
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15.12.23

A época mais cruel do ano

 


O Natal é a época mais cruel do ano para muitos. Pensem nisso.
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