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27.8.18

A revolta dos rohingya




A tristeza e a revolta que isto tudo me dá! Num dos mais belos países em que já estive, ainda por cima, e quando tanto era esperado da «Senhora», como carinhosamente chamavam a Aung San Suu Kyi. 
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18.8.18

As bodas de sangue dos rohingya



Ricardo Garcia Vilanova no Expresso de 18.08.2018:

«Os casamentos de menores não são nenhuma novidade entre os rohingya, que por tradição sempre casaram as meninas desde muito novas. No entanto, os casos multiplicaram-se de forma exponencial desde a última expulsão de mais de 700 mil pessoas desta comunidade de Myanmar (antiga Birmânia), em setembro.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM) tal facto também tem muito que ver com as condições deploráveis em que os refugiados se encontram nos campos do Bangladesh, com um racionamento dos bens alimentares que não chega para saciar a fome de todos os membros dessas famílias numerosas.

A OIM documentou matrimónios desta minoria muçulmana em que as noivas não tinham mais de 11 anos, e confirmou que muitos progenitores alegavam que o faziam forçados, a fim de disporem de mais comida para o resto da família.

O Expresso assistiu à boda de uma menor de 15 anos nos campos da área de Cox’s Bazar, a qual foi entregue pelos seus pais em casamento precisamente porque não recebiam uma ração de comida suficiente para sustentar toda a família.

A casa da noiva

Chegou o dia dela, é hoje o casamento, mas não parece que vá ser o dia mais feliz para Nur Fatema. A rapariga está sentada a um canto daquela que irá ser pela última vez a sua casa, a tenda que os pais ocupam no campo de refugiados de Kutupalong, Bangladesh.

Cabisbaixa e com um olhar perdido, quase melancólico, não consegue dissimular o desgosto. É muito jovem. Uns brincos dourados pendem-lhe das orelhas e do nariz, e repousa as mãos adornadas com henna em cima dos joelhos. Embora os adultos assegurem que tem entre 17 e 19 anos, ela corrige que não tem mais do que 15.

O pai, Abdur Rahman, conta que acertaram o matrimónio há dois meses com outra família conhecida da mesma aldeia onde viviam, em Myanmar. Explica que o fazem mais por necessidade do que por gosto.

“Dão-nos 30 quilos de comida duas vezes por mês (arroz, óleo, lentilhas), mas lá em casa somos sete e não chega para todos. Vamos casá-la porque temos problemas e ainda tenho outras duas filhas à espera de se casarem.”

A menina olha para ele com uma expressão de desprezo enquanto ajusta melhor o pano amarelo que lhe cobre a cabeça.

“Estás contente por te casares?”, pergunta-lhe alguém de repente. Num ato reflexo, ela morde os lábios por uns segundos de modo a não dizer o que realmente pensa. “Se a minha mãe está contente, eu também estou”, acaba por responder, satisfeita por ter encontrado palavras politicamente corretas.

Uma vintena de mulheres da família fazem companhia a Nur até que o noivo a venha buscar. Amontoam-se com as suas respetivas proles nos escassos metros ocupados pela tenda. Uma das tias dela, Hamida Begun, explica com orgulho que demorou mais de duas horas a desenhar-lhe o henna que traz tatuado nos braços e nas pernas. A maioria delas não dispõe de outra roupa senão a que trazem vestida, e por isso pintaram a cara com pigmentos amarelados para a ocasião.



19.9.17

Entretanto na Birmânia




Aung San Suu Kyi falou ontem sobre o drama dos rohingyas, como tinha anunciado. Quem quiser que lhe atire a primeira pedra, o que não é o meu caso: muito provavelmente está a fazer o que pode neste momento, num país a léguas de ser espelho das «nossas» democracias e onde ganhar eleições não significa varrer do poder real os sinistros militares, nem alterar a mentalidade de um povo massacrado durante uma eternidade. 
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17.9.17

Aung San Suu Kyi, de Cinderela da paz a Madrasta Malvada



Pelo mundo inteiro, e compreensivelmente, aponta-se o dedo a Aung San Suu Kyi pelo seu silêncio em relação aos acontecimentos de que está a ser vítima a minoria rohingya na Birmânia (a própria falará sobre o tema na terça-feira). A realidade não é simples, nem a preto e branco, e começam a ser divulgadas declarações que o sublinham.

«O silêncio a que Desmond Tutu se refere na carta aberta [que dirigiu a Aung San Suu Kyi] tem um nome: rohingya. Um nome que nem a líder da Birmânia nem o discurso oficial de todo o país autoriza que se diga em voz alta: rohingya, a minoria étnica que vive na zona Norte do actual estado birmanês de Rakhine, na fronteira com o Bangladesh, e que é tratada pelas autoridades como um grupo de cidadãos de 4.ª categoria – apesar de viverem há séculos naquela zona, os rohingya são considerados imigrantes do Bangladesh, não fazem parte da gigantesca lista de 155 minorias étnicas reconhecidas oficialmente na Birmânia e nem sequer são tratados pelo nome que o resto do mundo se habituou a ouvir nos últimos meses.

A maioria é muçulmana, num país onde os budistas dominam a paisagem, mas o muro de ódio que se ergueu entre os rohingya e o resto da Birmânia é muito mais nacionalista do que religioso – há muito que a maioria do país preferia que os quase 800 mil rohingya desaparecessem do mapa, se possível para o Bangladesh e de preferência para sempre.

A situação dos rohingya é tão dramática que é comum ouvir responsáveis das Nações Unidas e de organizações de defesa dos direitos humanos a referirem-se a eles como a minoria mais perseguida do mundo. Na Birmânia, são imigrantes do Bangladesh que devia voltar para terra deles; no Bangladesh, onde já estão mais de 300 mil refugiados, o plano do Governo passa por enviá-los para uma pequena ilha no Golfo de Bengala, a 60 quilómetros da costa, que fica debaixo de água entre Junho e Setembro por causa das monções e não tem uma única estrada.

A provação dos rohingya não é de agora, e é por isso que muitos admiradores da coragem e da integridade de Aung San Suu Kyi esperavam que a Nobel da Paz lhes desse a dignidade que reclamam assim que chegasse ao poder. Mas, um ano e meio depois de a antiga activista pró-democracia ter começado a governar o país, a situação dos rohingya só tem piorado – e a mistura de silêncios e de avales indirectos com que a conselheira de Estado tem comentado as operações do Exército birmanês no estado de Rakhine já fez com que muitos dos seus antigos admiradores tenham começado a pedir que lhe tirem o Nobel da Paz. (…)

O pensamento dos seus novos detractores é simples e linear: como a antiga activista foi elevada na Birmânia e no Ocidente à categoria de combatente pela democracia e pelos direitos humanos – o que lhe valeu os prémio Sakharov e Nobel da Paz, entre muitas outras distinções –, então o mínimo que se pode esperar dela é que seja uma voz forte contra a ofensiva do Exército birmanês na região onde vive a maioria dos rohingya. Como isso não aconteceu – e como entretanto a Comissão de Direitos Humanos da ONU e organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch afirmam que está em curso uma limpeza étnica a roçar o genocídio contra os rohingya –, o compromisso de Suu Kyi com os valores que lhe deram notoriedade em todo o mundo está a ser posto em causa. Por causa dessa pressão internacional, a líder birmanesa decidiu não ir à reunião da Assembleia-Geral da ONU, que começa esta segunda-feira – em vez disso, vai ficar na Birmânia a preparar uma comunicação ao país sobre direitos humanos.

Mas o silêncio de Suu Kyi em relação aos rohingya pode ser mais complicado do que parece à primeira vista, diz Gwen Robinson, especialista em política da Birmânia na universidade tailandesa de Chulalongkorn. Num texto publicado no diário Nikkei Asian Review, com o título Mitos e realidades por trás da crise em Rakhine, Robinson diz que a líder birmanesa está entre a espada e a parede, num país onde os militares continuam a exercer o seu próprio poder, e onde a maioria da população vacila entre a total indiferença e o ódio em relação aos rohingya.

“Internamente, com o ressentimento popular contra os rohingya enraizado na história conturbada da Birmânia, até o silêncio de Suu Kyi perante os excessos militares é visto como uma posição favorável à odiada minoria, enquanto internacionalmente esse silêncio tem sido retratado como uma concordância com a campanha dos militares”, diz a especialista. Segundo Gwen Robinson, Suu Kyi não tem qualquer tipo de ascendente sobre a forte e enraizada máquina militar da Birmânia e “tem medo de perturbar o equilíbrio de poder” e de “dar uma imagem de fraqueza dentro do país” – por outras palavras, uma posição forte contra os ataques do Exército birmanês no estado de Rakhine poderia precipitar um novo golpe de Estado militar, e o regresso à estaca zero para um país que começa a dar os primeiros passos em direcção à democracia.

É este também o ponto de vista defendido por outro Nobel da Paz, o timorense José Ramos-Horta, num texto assinado em conjunto com a australiana Janelle Saffin, sua antiga conselheira. “Ninguém está acima de culpas pelas violações dos direitos humanos que estão a ser cometidos no estado birmanês de Rakhine. Mas, ao apontar apenas o dedo à conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, a comunidade internacional está a permitir que os generais da Birmânia – que levaram o país à desgraça ao longo de décadas – fiquem em segundo plano a assistirem ao escalar da crise.”

Num artigo em que sublinham a fragilidade do processo democrático na Birmânia – com uma Constituição de 2008 que mantém os civis afastados das decisões ligadas à Defesa –, Ramos-Horta e Saffin condenam as atrocidades, acusam os líderes militares e pedem tempo para a Suu Kyi: “Dito de forma simples, criar uma cultura de respeito pelos direitos humanos e pelo primado da lei – há muito ignorado e violado na Birmânia – não vai acontecer de um dia para o outro.”»

3.8.17

Templos budistas e não só (12)




Pagode Shwedagon. Yangon (Rangum), Birmânia (2009).

O Pagode Shwedagon, com 98 metros de altura, está situado no principal centro religioso da Birmânia, numa plataforma em mármore de 5,6 mil hectares. É muito difícil dar uma ideia do que trata, entre o kitsh (quando lé entrei, chamei-lhe Disneylândia do budismo…) e o muito belo e único. O templo principal está rodeado por 72 edifícios dos mais variados tipos, incluindo quatro grandes templos que apontam para os pontos cardeais. A base do pagode principal é feita de tijolos cobertos com milhares de placas de ouro.



24.7.17

Templos budistas e não só (2)



Templos de Bagan. Birmânia (2009).

Foi de balão que vi as ruínas de Bagan – uma experiência inesquecível! Os templos ocupam 41 km2 e foram construídos entre o século XI e o XIII, quando Bagan era a capital do império birmanês. Julga-se que chegaram a ser 5.000, em 2014 foram oficialmente quantificados em 3.312. A região é sujeita a sismos e o maior dos últimos tempos, de 1975, provocou grandes estragos. Em 2016, um outro atingiu 185 templos. Em Bagan, a restauração é uma actividade contínua…



25.5.17

Transportes «fora da caixa» (4)



Ver nascer o dia, num destes balões, por cima dos milhares de templos de Bagan. Birmânia (2009).
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17.5.17

Gentes deste mundo (13)



Mulher-Girafa, Birmânia (2009).

Tal como na Tailândia, manda / mandava a tradição que as mulheres Padaung usassem anéis de bronze, em espiral, para esticar o pescoço e o tornar mais elegante. Moda com tendência para acabar, aparentemente, mas que «rende» em termos de turismo…
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25.8.16

Sismos destruidores


O sismo que abalou Myanmar não provocou muitas vítimas, mas danificou 185 templos de Bagan.

Estive lá há alguns anos, é um conjunto de monumentos único, visitei alguns. Sobretudo, vi-os de cima, dentro de um cesto pendurado num balão e nunca os esquecerei.


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23.11.15

Em verdade vos digo



Há 6 anos, andava eu neste táxi, nas margens do rio Irauádi, algures na Birmânia, bem mais divertida do que estou hoje aqui, à espera de vários Godots. 
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11.11.15

Birmânia – A vitória da «senhora»



Quando todas as notícias relatam uma vitória estrondosa do partido de Aung San Suu Kyi nas eleições da Birmânia, abre-se uma nova era num dos países mais castigados – e também mais extraordinariamente belos – do Sudeste asiático. O caminho será longo, «a senhora» não poderá ser presidente por ser casada com um estrangeiro e ter filhos de uma outra nacionalidade (!...), mas nada travou uma luta que tantos de nós temos acompanhado ao longo dos últimos anos.

Estive lá em 2009, quando Aung San Suu Kyi vivia em prisão domiciliária, ao fundo de uma rua com acesso vedado ao público. E quanto não daria para festejar agora tudo isto, de novo a bordo de um balão como estes, que pudesse sobrevoar os festejos populares e a esperança.

Está mais do que abalada uma ditadura nem sequer ditada por ideologia, mas por um poder férreo de militares sobre 56 milhões de pessoas, tendo como único objectivo o seu próprio enriquecimento e o luxo em que vivem as famílias e os respectivos amigos – à custa de uma corrupção generalizada e sem vergonha, enquanto a esmagadora maioria do povo vive num estado de pobreza extrema, visível em todos os detalhes, sem empregos, em cidades mais do que degradadas e desordenadas. Tudo isto num país riquíssimo em recursos naturais (gás, madeiras de várias espécies, pedras preciosas de primeira qualidade, etc., etc.) que são vendidos para todo o mundo porque é evidente que o boicote dos Estados não atinge as algibeiras dos comerciantes.

É verdade que alguns aspectos foram melhorando nos últimos tempos, mas tudo mudará mais depressa a partir de agora.




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