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2.1.26

NY: tomada de posse de Zohran Mamdani

 




29.12.25

Estados Unidos e ONU

 


«Os Estados Unidos anunciaram esta segunda-feira dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) para a ajuda humanitária da ONU — um décimo do financiamento anual que vinham a garantir nos últimos anos.

Nos últimos exercícios, o apoio humanitário norte-americano a programas das Nações Unidas atingiu cerca de 17 mil milhões de dólares anuais (14,5 mil milhões de euros), segundo dados da própria organização. Do total, entre oito e dez mil milhões correspondiam a contribuições voluntárias, a que se somam milhares de milhões pagos em quotas associadas à participação dos EUA na ONU.»


1.12.25

01.12.1955 – O dia em que Rosa Parks recusou levantar-se

 


No dia 1 de Dezembro de 1955, em Montgomery, a parte da frente de um autocarro reservada a passageiros brancos já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa Parks se levantasse e cedesse o seu na secção dos negros. Rosa recusou, foi presa e o seu acto passou a ser um marco importante na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. 

A história está bem resumida neste vídeo: 



E Pete Seeger não a esqueceu:




15.11.25

15.11.1969 - Washington: «Give Peace a Chance»



Em 15 de Novembro de 1969 teve lugar «Moratorium March on Washington», considerado o maior protesto anti-guerra da história dos Estados Unidos, contra o conflito que então tinha lugar no Vietname: uma manifestação quase totalmente pacífica de meio milhão de pessoas, que se integrou num vasto movimento que percorreu a América, de S. Francisco a Boston, e não só. Apesar disso e como é sabido, a guerra em questão iria durar ainda quase seis anos, até 30 de Abril de 1975.

No protesto de Washington participaram políticos como Eugene McCarthy, George McGovern e Charles Goodell e cantores como Peter, Paul and Mary, Arlo Guthrie, John Denver e Pete Seeger que interpretou a celebérrimo canção «Give Peace a Chance» (lançada por John Lennon na Primavera desse ano), juntamente com os outros cantores e com a multidão que a terá repetido durante dez minutos.


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7.11.25

Mamdani, socialista e radical

 


«E eis que um raio de luz e de esperança vem dos EUA. Não apenas de esperança para os nova iorquinos, mas também para aqueles que à esquerda ainda acreditam que o caminho não está em nos parecermos com a direita. Que acreditam que a obsessão com o centro e a moderação nos tornam desinteressantes, desnecessários e nos afastam de quem queremos representar e defender. Mamdani assumiu-se sempre, orgulhosamente, como socialista, num país onde parecia proibido ser-se socialista. Nunca teve medo de ser apelidado de radical, nem se esforçou por parecer moderado - a nova doença da social-democracia. Os tempos não são favoráveis à esquerda em lado nenhum do mundo, com excepção de algumas bolsas de resistência, mas o caminho não pode ser a desistência da esquerda e do socialismo democrático. A social-democracia tem de ser capaz de se reinventar, mas, até para o poder fazer com sucesso, precisa de fazer a sua auto-crítica. Ao longo de décadas, fizemos coisas extraordinárias, que mudaram a vida de muita gente. Mas não podemos ignorar que chegamos ao presente com demasiadas famílias em dificuldades. São demasiados os portugueses que beneficiaram pouco do crescimento económico que temos tido, apesar do seu trabalho. São demasiados os portugueses que lutam todos os dias para que o seu salário chegue ao fim do mês. São demasiados os que fazem das tripas coração para pagar a renda ou a prestação da casa. Demasiados os que se levantam todos os dias, de madrugada, para apanharem autocarros à pinha para irem trabalhar para as grandes cidades em troca de um salário que mal chega para viver. Demasiados jovens sem capacidade económica para se autonomizarem, apesar de terem estudado e de trabalharem. Enquanto olharmos para esta realidade, e nos limitarmos a responder com as coisas fantásticas que fizemos, sem termos a capacidade de assumir que as nossas políticas não foram suficientes para mudar a vida destas pessoas, nunca voltaremos a ter a sua confiança. Nem seremos capazes de reinventar as nossas políticas. Os de cima não têm razões para estarem zangados, a vida não lhes corre mal. Mas o povo, que confiava na social-democracia para os defender, tem.»

Pedro Nuno Santos no Facebook.

Um sorriso derrotou os milionários

 


«Zohran Mamdani não venceu os republicanos, pouco relevantes em Nova Iorque. Venceu a velha guarda democrata. Mesmo depois das primárias, os apoios do partido, como o da governadora, foram envergonhados. E a oligarquia que apoiou Trump juntou-se a Cuomo. Mesmo assim, perderam. O jovem Mamdani nunca perdeu o foco: o custo de vida. Numa cidade onde a renda média anda pelos €4000 e uma creche custa metade disso, propôs congelamento das rendas controladas, creches e autocarros gratuitos, financiado por um aumento de 2% nos impostos dos mais ricos dos mais ricos. Quase tudo o que propôs existe por essa Europa fora. Só que a defesa do que se aproxime de um Estado social redistributivo é, nos dias que correm, heresia.

O tabloide “New York Post” previu o êxodo de um milhão de nova-iorquinos. Musk, que beneficiou de quase mil milhões de bónus fiscais de Cuomo, usou o X para espalhar teorias da conspiração. O governador do Texas falou de “jihadismo radical”, os bots de direita encheram as redes com imagens do 11 de Setembro. A capa da “The Economist” pôs Mamdani na mesma prateleira de Trump, porque defender acesso a creches, transportes e bens essenciais mais baratos é equivalente a atacar a democracia e o Estado de direito e mandar encapuçados caçar imigrantes na rua. Quem ousar alimentar a esperança numa mudança na ordem das coisas, apresentada pelos poderes que a sustentam como natural, é tratado como extremista e populista. A ameaça foi a de sempre: os bilionários ou as empresas vão fugir. “Já gastaram mais dinheiro contra mim do que eu os quero taxar”, ironizou Mamdani.

87% dos eleitores de Mamdani votaram por causa dele, só 12% contra o oponente. Já do lado de Cuomo, 46% votaram por causa dele, 49% contra o oponente. Anotem: a repulsa pelo inimigo não chega. À impressionante e milionária campanha de destruição de caráter Mamdani respondeu com programa. O seu otimismo combativo mobilizou 100 mil voluntários e produtores de conteúdos nas redes. Foi a campanha mais profissional desde Obama. Mas foi mais do que isso. Em vez de impor soluções, Mamdani passou meses a escutar. Cedeu o microfone a nova-iorquinos comuns. Logo depois da vitória de Trump, perguntou-lhes das razões desse voto. Em vez de gritar, explicou. Usou a linguagem das pessoas normais para falar dos problemas das pessoas normais. Começou com 1%, acabou com 50% da maior mobilização numa eleição municipal desde 1969.

O “primeiro muçulmano mayor de Nova Iorque”, como disse quem continua a não perceber o que aqui é disruptivo, nunca caiu na tentação das trincheiras identitárias. Procurou o voto da classe trabalhadora e teve vitórias expressivas nos bairros latinos e asiáticos, onde Trump tivera um resultado histórico. Não precisou de se esconder. Assumiu-se socialista e abriu o discurso de vitória a citar Eugene V. Debs, um sindicalista e socialista da transição para o século XX. Quando lhe perguntaram qual o primeiro país que visitaria como mayor, não respondeu, como todos os outros, Is¬rael, para acalmar a influente comunidade judaica assustada com um muçulmano. Perante a armadilha, respondeu o óbvio: que tinha muito para fazer em Nova Iorque. Uma sondagem da CNN revelou que um em cada três judeus votou nele.

A derrota da esquerda não está na incapacidade de vencer no terreno da extrema-direita, está na incapacidade de impor o terreno onde luta. E a grande vitória de Mamdani foi, antes de tudo, derrotar os termos do debate impostos pelos que, nas suas palavras, querem “convencer quem ganha 30 dólares à hora que o seu inimigo é quem ganha 20”. Uma sondagem da CNN à boca de urna dizia que a maior preocupação dos nova-iorquinos era o custo de vida (57%), depois a segurança (22%) e só depois a imigração (10%). Contra algoritmos e agendas mediáticas, pôs a vida das pessoas no centro da política. Falando a linguagem das pessoas. E apresentando-se como a esperança contra um sistema de que elas estão visivelmente cansadas. A vitória de um socialista na capital da finança prova que é possível. Veremos se, ao nível local, também é possível libertarmo-nos do colete de forças das inevitabilidades construídas. Mamdani não venceu porque gritou mais alto. Nem porque fez um excelente trabalho nas redes. Venceu porque não teve medo de dar esperança, essa arma subversiva contra um desalento que definha a democracia, paralisa o povo e engorda a extrema-direita. Quando a esquerda perceber que é disso, e não da gestão cínica da derrota, que as pessoas têm fome, talvez volte a existir. Como disse o novo mayor socialista da capital simbólica do mundo, o futuro não tem de ser uma relíquia do passado.»


21.10.25

Bernie Sanders

 


«Este momento não é apenas sobre a ganância de um homem, a corrupção de um homem ou o desprezo de um homem pela nossa Constituição. É sobre as pessoas mais ricas da terra que, na sua insaciável ganância, sequestraram a nossa economia e política para se enriquecerem às custas das famílias trabalhadoras.»

Bernie Sanders no Facebook.

20.10.25

Contra Trump

 


Manifestações NO KINGS em cidades norte-americanas: sete milões de pessoas.

16.10.25

Jornalismo nos EUA

 


«As principais marcas americanas de comunicação social mostram-se unânimes na crítica ao Ministério da Defesa norte-americano, liderado por Pete Hegseth, depois de terem recebido deste departamento novas “regras” para o acompanhamento noticioso do que se passa no Pentágono. Em consequência, dezenas de repórteres entregaram os seus “passes” de acesso ao edifício e decidiram abandonar os seus postos, em protesto.»


15.9.25

Trump, Xi Jinping e TikTok

 


Se, há poucos anos, soubéssemos que os dois gramdes do mundo iriam negociar a sério sobre uma mini-rede social, nem entenderíamos de que falavam. É a vida…

Daqui.

23.8.25

23.08.1927 – Sacco & Vanzetti

 


Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados do homicídio de duas pessoas, nos Estados Unidos, e acabaram por ser condenados à pena de morte e electrocutados em 23 de Agosto de 1927, apesar de, cerca de dois anos antes, uma outra pessoa ter confessado ser autora dos crimes.

Na sessão do tribunal em que a sentença da condenação foi lida, Vanzetti incluiu o seguinte nas suas longas declarações finais:

«I would not wish to a dog or to a snake, to the most low and misfortunate creature of the earth. I would not wish to any of them what I have had to suffer for things that I am not guilty of. But my conviction is that I have suffered for things that I am guilty of. I am suffering because I am a radical and indeed I am a radical; I have suffered because I am an Italian and indeed I am an Italian...if you could execute me two times, and if I could be reborn two other times, I would live again to do what I have done already.»

Nunca pararam as reacções e os protestos contra um caso que, com toda a sua trama, passou a funcionar como um símbolo de desrespeito flagrante pelos princípios da justiça na América.

Deu origem a um filme, inspirou escritores, pintores, músicos como Woody Guthrie. Joan Baez viria a consagrar uma das canções mais divulgadas, até Dulce Pontes interpretou «The Ballad of Sacco e Vanzetti», etc., etc.







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29.6.25

Oiçam a Meryl Streep

 


Zohran na capital do Capitalismo

 


«Zohran Kwame Mamdani. É o nome do favorito à presidência da cidade com mais judeus em todo o mundo, fora de Israel. O muçulmano pró-palestiniano, ugandês de origem indiana, que chegou ao país e à cidade com sete anos e tem 33, desconhecido de todos há quatro meses, quando tinha 1% nas sondagens para as primárias democratas, é a estrela inesperada, depois de ter vencido Andrew Cuomo, ex-governador do estado. Conotado com Cortez e Sanders, Mamdani passou as semanas seguintes às presidenciais a visitar os bairros onde Trump teve o melhor resultado de um republicano em décadas. Numa cidade onde 70% dos eleitores são democratas, ouviu sempre o mesmo: Trump fala do custo de vida e das dificuldades dos trabalhadores. A resposta de Mamdani foi uma campanha com foco, centrada no controlo do preço da habitação, em autocarros gratuitos, cuidados de saúde, creches para todos e mercearias municipais em cada bairro a proposta mais ridicularizada (até por cá). Estas lojas que compram alimentos por grosso e estão isentas de IMI existem no Kansas ou no Wisconsin e vão ser lançadas em Chicago e em Atlanta. Para financiar estas medidas promete, ao mesmo tempo que Trump anuncia baixar os impostos aos ricos cortando programas públicos de saúde para os mais velhos e mais pobres, criar uma taxa adicional sobre os fundos e sobre os cidadãos mais ricos da cidade mais rica do país mais rico do mundo. O Presidente chamou-lhe “lunático 100% comunista”, mas há analistas republicanos preocupados com um democrata que fala do custo de vida.

O tom otimista e cheio de esperança e humor num espaço público zangado, de inclusão quando a exclusão marca os nossos dias, conquistou as redes sociais. Mais do que a estética e a forma humana e desconcertante de fazer campanha, o sucesso de Mamdani resulta da capacidade de nunca sair da sua agenda, mesmo quando os outros se concentram na criminalidade ou na imigração. E de tentar reconectar os democratas, embevecidos com o sucesso de uma economia com níveis de desigualdade semelhantes aos que conduziram à crise de 1929, com a sua tradicional base eleitoral. Numa reportagem no “NYT” para perceber o voto em Zohran, uma das entrevistadas conta como, trabalhando numa corretora em Wall Street, não consegue comprar uma casa como a que o seu pai comprou com o salário de motorista. É verdade que são eleições locais. Mas isso também é um dado interessante. No Texas, bastião republicano, os democratas governam as quatro grandes cidades. De Londres a Paris, de Barcelona a Berlim, a esquerda europeia resiste na política local. O eleitorado parece acreditar em soluções progressistas na escala onde sente que ainda há alternativas.

Numas primárias em que votaram quase um milhão de pessoas, Mamdani venceu Cuomo, acusado de escândalos sexuais, e deverá defrontar Eric Adams, o atual presidente, um democrata acusado de corrupção que se passou para o lado de Trump em troca da queda das acusações. Assim está o campo democrata, cuja cúpula financeira investiu dezenas de milhões em anúncios contra Mamdani, usando as suas críticas a Israel, mas pensando no seu programa fiscal e so¬cial. Cinco meses passados da tomada de posse de Trump, a liderança democrata continua sem saber como reagir. Entre o silêncio e a omissão, a maioria do partido parece resignada e à deriva. A exceção é a ala de Mamdani, Sanders e Cortez, que junta centenas de milhares de pessoas pelo país fora. Os democratas norte-americanos e a esquerda europeia têm de decidir se continuam a responder à agenda do ódio ou se têm a sua própria agenda, em torno da desigualdade na distribuição de rendimentos e na incapacidade de as classes médias viverem nas suas cidades. Só que isso exige coragem perante o poder do dinheiro, que encontrará em mínimos de decência sinais de lunática radicalidade.

Scott Rechler, um dos maiores proprietários de Nova Iorque e financiador de Cuomo, explicou o que está em causa: “Queremos ter uma liderança que fale do que é Nova Iorque. É a capital do capitalismo.” A elite democrata, dominada pelos grandes proprietários imobiliários, prepara a reação: pode arranjar um terceiro candidato (talvez o derrotado Cuomo) e irá angariar 100 milhões de dólares para uma campanha esmagadora. Bill Ackman, um bilionário dos fundos especulativos apoiante de Trump, que doou 500 mil dólares a Cuomo, pode acabar por apoiar Eric Adams. Esta é uma das mensagens de Zohran Mamdani: um candidato dos cidadãos enfrenta os candidatos do dinheiro que compra a democracia na cidade. Imagine-se o poder simbólico de este confronto acontecer no centro do mundo.»


26.6.25

O engenheiro do caos deixou tudo mais perigoso

 


«Já nem falo da violação do direito internacional como referencial mínimo de comportamento. É dele que dependem nações mais frágeis, como o Taiwan ou a Ucrânia, pelo menos na sua defesa política contra o regresso da lei do mais forte, ao gosto de Putin, Trump e Netanyahu, primos políticos e morais. Fico-me pelos resultados práticos da intervenção de Israel contra o Irão. Na sua rápida aventura iraniana, Israel teve vitórias simbólicas e práticas relevantes.

Conseguiu levar a guerra para dentro do Irão, depois de este passar décadas a combatê-lo através do apoio a guerras por procuração fora de casa.

Terá deixado em mau estado o sistema de mísseis balísticos iraniano, mas, em troca, o seu território foi bombardeado por mais do que rockets, uma experiência rara para as populações de Telavive e Jerusalém, o que mostrou a diferença entre o Irão e os outros alvos que Israel escolheu no passado recente. Imagino que, para a decisão de não continuar a guerra, terá pesado o impacto psicológico dos bombardeamentos.

Terá conseguido decapitar parte da liderança militar iraniana.

E mostrou que a aliança do Irão com a Rússia, demasiado enterrada na Ucrânia, e com a China, pouco dada a intervencionismos militares, é menos sólida do que parecia. Não sabemos, é verdade, o que aconteceria se a guerra fosse mais longe e estivesse em causa a circulação no estreito de Ormuz ou a sobrevivência do regime. Mas, depois de neutralizar o Hamas e o Hezbollah (quem acha que foram destruídos conhece mal aquela realidade), de ver cair o regime de Assad e de só restarem os hutis, no Iémen, esta prova de fogo, no momento em que o Irão está económica e politicamente mais fragilizado, foi importante.

O NARCISO E O ENGENHEIRO DO CAOS

Benjamin Netanyahu conseguiu, por fim, arrastar os Estados Unidos para uma guerra com o Irão. Era o sonho de uma vida. Mas, aí, a vitória foi pífia. As divisões dentro da base de apoio de Trump, o risco de ver o preço do petróleo disparar (e se o regime de Teerão tivesse sido encostado à parede, cometeria o suicídio económico de encerrar o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo do mundo, afetando a China, que é o seu principal destino) e a forte possibilidade de, com uma baixa americana, o envolvimento do homem que sonha com o Nobel da Paz se tornar incontrolável na escalada dos eventos levaram Trump a picar o ponto, fazendo os mínimos para cumprir o papel de aliado de Israel, apenas no que os Estados Unidos eram indispensáveis.

Como o Irão não desejava a escalada, as suas respostas foram sempre proporcionais e, no caso dos EUA, totalmente coreografadas. Para Trump, chegou para mudar o alinhamento da Fox News, que tinham Israel como estrela, alimentando o seu narcisismo. O problema de Netanyahu é ter pouco para dar e demasiado para pedir a Trump, que pensa em tudo como pensa nos negócios.

Havia um objetivo secundário, um extra desejado, que felizmente ficou pelo caminho: fazer o regime iraniano (ou o país) colapsar através de uma intervenção externa. Até se apresentaram soluções delirantes, como a do filho de Reza Pahlavi. Não é que eu não deseje o fim de uma ditadura teocrática e brutal. Mas talvez os engenheiros do caos devessem ter aprendido com os erros passados. Iraque, Líbia e Afeganistão foram as suas extraordinárias obras. No caso do Iraque, ela levou a centenas de milhares de mortes, ao nascimento do Estado Islâmico, à guerra civil na Síria, a uma crise migratória para a Europa, ao crescimento da extrema-direita.

Para Netanyahu, é indiferente. É do caos à sua volta que se tem alimentado. Para o resto do mundo, seria uma tragédia. O regime iraniano terá de mudar por dentro. Não sendo, ao contrário do que eram o Iraque ou a Líbia, uma ditadura unipessoal; tendo uma classe média relativamente forte e instituições mais sólidas, há condições para isso acontecer. Até havia bons sinais, com a crise económica e algumas cedências do moderado Masoud Pezeshkian. Veremos se, depois desta intervenção, não foi a linha dura dos Guardas da Revolução a reforçar o seu poder. Esperemos que não.

ADIADO POR MESES

Onde o ataque conseguiu pouco foi onde dizia que tinha de conseguir tudo. Segundo a Defense Intelligence Agency (DIA), a agência de informações do Pentágono, os ataques terão apenas atrasado o programa nuclear iraniano por alguns meses – as reservas de urânio do Irão não terão sido destruídas e uma das fontes até diz que as centrifugadoras estão praticamente intactas. Num país que é autossuficiente na capacidade de o refazer.

O ataque não aconteceu porque a bomba nuclear estivesse iminente. Netanyahu diz que está iminente desde 1995. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica e os serviços de inteligência norte-americanos nunca confirmaram evidências de que tal fosse verdade. O ataque foi decidido há um ano, aliás. Aconteceu agora por causa do enfraquecimento dos aliados iranianos e das condições operacionais. O sentido de urgência foi fabricado.

Este ataque pode ter conseguido outra coisa: uma machadada na participação do Irão no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e na sua participação séria em negociações, depois de Trump ter posto fim ao Joint Comprehensive Plan of Action, acordo que realmente susteve o plano nuclear iraniano (depois desta decisão, em 2018, o programa acelerou), e de ter bombardeado o país a meio de conversações.

A desnuclearização total do Irão, exigida por Israel, nunca acontecerá. Não é uma questão de regime, mas de Estado. O programa nuclear começou em 1954, com o Xá Reza Pahlavi e apoio de França e dos Estados Unidos. Por outro lado, o Irão está próximo de potências nucleares, como o Paquistão, a Índia, Israel e a China, sendo, com a Turquia (debaixo do guarda-chuva nuclear da NATO) e a Arábia Saudita (aliado preferencial dos EUA), a única grande potência sem instrumentos de dissuasão. Que lição tirou deste ataque? Que se tivesse a arma, não teria sido atacado.

A grande lição que o Irão pode tirar de tudo isto é que precisa de ter capacidade nuclear. Não obrigatoriamente a bomba, mas, como explicou Daniel Pinéu na entrevista que lhe fiz no Perguntar Não Ofende, uma capacidade de dissuasão latente. Na realidade, o TPN só funcionou contra eles. O caminho pode ser o de abandonar o TPN e a fátua que não lhes permite usar armamento nuclear. E fazer o mesmo que fez Israel: construir a arma em segredo, fora dos limites de qualquer tratado ou supervisão. O que leva à pergunta óbvia: ficámos mais ou menos seguros depois desta intervenção?»


23.5.25

23.05.1934 - Bonnie & Clyde

 


Bonnie Parker e Clyde Barrow morreram há 91 anos. Ela tinha apenas 23 anos, ele 25, mas, apesar de curtas, as suas vidas foram atribuladíssimas, recheadas de assaltos e assassinatos, até que eles próprios foram abatidos numa emboscada, numa estrada deserta, algures no estado da Louisiana – cravados de balas, cerca de cinquenta para cada um, segundo consta. 



Ficaram imortalizados no imaginário da história do crime norte-americano como Bonnie & Clyde e foram trazidos para o nosso por um magnífico filme de Arthur Penn (1967), com «som» de Serge Gainsbourg, e, também, por uma inesquecível balada cantada por Giorgie Fame. 




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9.5.25

Cábula para americanos perceberem

 


…o que é essa cena do XIV que colocaram à frente do nome do papa.