Mostrar mensagens com a etiqueta igre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta igre. Mostrar todas as mensagens

20.3.13

Francisco, papa dos pobres?



Ao ler que, em Chipre, a Igreja Ortodoxa põe o seu espólio à disposição do governo para salvar a economia, é-me impossível não «regressar» ao Vaticano e não rebobinar as centenas de horas televisivas que nos entraram pela casa dentro, nem deixar de pensar nas dezenas ou centenas de páginas de jornais que pagámos, para seguirmos, até à exaustão, tudo o que se relacionou com a eleição do novo papa.

Não que o personagem não seja simpático, bem pelo contrário, mas pela demasiada importância que está a ser dada a símbolos secundários que não são mais do que isso mesmo – símbolos – , como sapatos castanhos e não vermelhos, cruz de ferro, mitra já usada, etc., etc., etc. E, também, a todas as ilacções feitas a partir da sua proverbial modéstia, das viagens em transportes públicos ou da comida que fazia sozinho, algures em Buenos Aires.

Bem mais importante será talvez retermos algo do que já foi dizendo e que pode resumir-se numa das suas primeiras exclamações como papa: «Como quereria uma Igreja pobre, ao serviço dos pobres!» O que pode vir isto a significar concretamente, como pode esta frase ser mais do que uma afirmação virtuosa e apenas reveladora de um estilo próprio de retórica?

Dê-se tempo ao tempo e não se espere, obviamente, que o Vaticano e todos os seus quase incomensuráveis bens sejam vendidos, em hasta pública, ou hipotecados para diminuir a fome no mundo, durante as próximas semanas. Mas ouvir uma frase destas, no estado em que o mundo está, dita em Roma, que é bem mais coração da Europa e da sua história do que Bruxelas, não deveria poder deixar de ter consequências palpáveis. Porque fausto e fortuna não rimam, nem nunca rimarão, com pobres e com pobreza. Será por aqui que algo de novo acontecerá, que poderá vir a tal «revolução» do papa Francisco?

Sem cinismo, nem sarcasmo, e embora que com pouca esperança, estou genuinamente expectante. Até porque só assim posso tentar compreender o entusiasmo que por aí vai com este novo papa, mesmo entre empedernidos ateus e agnósticos.
.