6.6.20

06.06.1968 – Maurice Béjart em Lisboa



Foi há 52 anos que Maurice Béjart deu um concerto em Lisboa, que estaria na origem da sua expulsão do país..

«Em 6 de Junho morreu Robert Kennedy, vítima de um atentado que tivera lugar dois dias antes. Nessa mesma noite, em Lisboa, Maurice Béjart apresentou o seu «Ballet du XXe. Siècle», no Coliseu dos Recreios absolutamente repleto. Assistimos a um magnífico «Romeu e Julieta». Durante a última cena, ouviu-se gritar, repetidamente, "Façam amor, não façam guerra!". Simultaneamente e em várias línguas, eram lidas notícias sobre lutas, revoltas e injustiças. Foi arrepiante a emoção vivida na sala que se levantou em aplauso prolongado. Béjart veio então ao palco para afirmar que Robert Kennedy fora “vítima de violência e de fascismo” e para pedir um minuto de silêncio “contra todas as formas de violência e de ditadura”. Com a maior parte dos espectadores de pé, renovaram-se os aplausos, com mais força e com mais entusiasmo.

Informado do sucedido, Salazar proibiu os espectáculos seguintes e ordenou que Béjart saísse imediatamente de Portugal. Franco Nogueira cita uma nota distribuída à imprensa pelo Secretariado Nacional de Informação:

“Foram dirigidas à juventude exortações derrotistas e tomadas atitudes de especulação política inteiramente estranhas ao próprio espectáculo. Perante a luta que teremos que manter em defesa da integridade nacional, não pode consentir-se que uma companhia estrangeira aproveite, abusivamente, um palco português para contrariar objectivos nacionais.”

Béjart nunca se referiu a Portugal. Mas Salazar era bom entendedor e bastava-lhe menos de meia palavra para perceber – como nós – que Béjart quisera deixar um sinal de solidariedade aos antifascistas portugueses.

Momentos raros como este funcionavam para nós como bálsamo e como estímulo. Ajudavam-nos a não desanimar.» (*)

(*) Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007, pp. 118-119.

Alguns minutos de «Romeu e Julieta»:


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Cortázar


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Big brother



«A crise pandémica que vivemos acelerou a corrida tecnológica no mundo ocidental. Inúmeros estudos apontam para as mudanças que ocorreram nas relações laborais e sociais num curto espaço de tempo. É inegável que as sociedades foram "obrigadas" a adaptar-se, mas também é verdade que todas as implicações decorrentes dessa adaptação devem ser cuidadosamente analisadas, em particular no que respeita aos impactos para o trabalho.

Esse é um debate que está por fazer para além das evidências e é fundamental que seja feito. Há, no entanto, uma área tecnológica que tem sido protagonista e cujas implicações estão muito além das promessas vendidas. Refiro-me às chamadas aplicações de rastreio. Governos, um pouco por todo o mundo, acenam com a solução tecnológica para controlar os contágios por coronavírus, mas será mesmo assim?

As aplicações de rastreio têm sido apresentadas por vários governos como uma espécie de magia: com a sua introdução consolida-se a perceção de que se está a fazer alguma coisa, mesmo que não seja o caso. Nesta conceção de "solucionismo tecnológico" esbate-se o debate sobre as reais medidas de combate ao vírus, como sejam o alargamento dos testes à população, a necessidade de melhorar as condições de prestação de cuidados de saúde ou a necessidade de contratação de mais profissionais de saúde. Um exemplo claro dos problemas associados ao recurso às aplicações é o que se passa nos Estados Unidos, onde a aceitação de partilha de dados vem com o prémio de se ter vantagem nos tratamentos médicos.

Mas há muitos mais problemas escondidos pelo véu da urgência. Especialistas de vários quadrantes apelam aos riscos associados a estas tecnologias. Vigilância em massa, numa espécie de big brother em versão sanitária, violação da legislação da proteção de dados, violação de direitos humanos, abusos de entidades patronais sobre os seus trabalhadores, confidencialidade dos dados não relacionados com o rastreio da doença, apropriação de dados pessoais por empresas do setor privado e as utilizações abusivas para favorecer o negócio, o reforço dos poderes dados às grandes plataformas como a Google e a Apple são apenas alguns dos problemas já mencionados.

Acresce ainda o dado que nos chega dos países que já têm aplicações em funcionamento, que é o da sobreconfiança dos utilizadores. Dados mostram que nestes países, como é o caso da Coreia do Sul, a descarga da aplicação traduziu-se num incumprimento das normas de segurança, uma vez que os utilizadores passaram a ter uma perceção errada de proteção.

Numa altura em a maioria dos países da União Europeia, incluindo Portugal, estão envolvidos no desenvolvimento destas aplicações, não é ainda tarde para recuar. Parece cada vez mais evidente que não só não são necessárias como não substituem as reais respostas à crise pandémica. Abrir esta porta é como abrir a caixa de Pandora. Daqui não virá nada de bom.»

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5.6.20

Os americanos não estão parados


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Depois do morcego e do pangolim, agora as martas?




Se, por cá, isto chega aos gatos é que vai ser um grande drama…

«As autoridades de saúde holandesas ordenaram que o abate de cerca de 10 mil martas (visons) comece esta sexta-feira em quintas onde foram relatados surtos de coronavírus, pela possibilidade de terem infetado pelo menos dois funcionários.»

«Martas são suspeitas de infetarem pelo menos duas pessoas numa quinta no sul do país. Decisão foi adiada até que ativistas de direitos dos animais sejam ouvidos por um juiz.»
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Tristes, moralistas e todos sábios



«Era uma terra bonita, em retângulo, que o mar docemente lambia.

Porém, esta língua de terra era habitada por gente triste, macambúzia e sempre desconfiada. E porque triste e desconfiada era empedernidamente moralista. Desde o zé das iscas de cebolada até ao eminentíssimo professor catedrático de qualquer coisa, todos se mostravam mais impolutos que Catão, o velho. Talvez melhor: ao lado deles Catão era uma lambisgoia, um safardanas, um tipo sem espinha dorsal. Em resumo: um verdadeiro energúmeno, um abjeto ser moral.

E tudo isto se passava sem discussão, porquanto cada um se considerava intocável. Um verdadeiro ser moral puro. Incontaminado. Tinha-se conseguido alcançar a pureza moral. E ai daquele que ousasse dizer: talvez não seja bem assim. De supetão todos lhe caíam em cima, sem dó nem piedade. Porque um verdadeiro triste e moralista, em caso algum, pode admitir que, ao seu lado, alguém mande às malvas a tristeza e se assuma feito das mais banais virtudes e vícios. Daqueles vícios que doem e fazem corar as donzelas ou os infantes, todos eles também moralmente puros. Admitir isso seria a desordem, o caos social, a destruição dos templos e a subversão moral. E os habitantes daquela terra sabiam disso, porque as mais altas esferas lhes diziam que eles eram os "melhores do Mundo", logo, o que defendiam era o que estava certo, desde o princípio dos tempos.

E um dia veio uma tempestade de peste. Igual a tantos milhares de outras com que a humanidade tem convivido e sobrevivido. E uma outra qualidade apareceu. Todos se tornaram sábios. Todos, sem exceção, ficaram a saber projetar, com sofisticados cálculos matemáticos, como se iria desenvolver a pandemia. E a informação, verdadeira ou falsa, pouco importa, porquanto, razoavelmente sabe-se - tem-se até medo de empregar o termo razoável em declinação de advérbio - que nestes tempos de medo construído, qualquer informação é logo tida como verdade proferida pela boca dos deuses. Sábios em epidemiologia, virologia, infecciologia, psiquiatria, psicologia, estatística, matemática aplicada e tudo sempre sustentado em "estudos". Categoria epistemológica que deve acompanhar um sábio que se preze. E como por encantamento aquele lindo pedaço de terra tornou-se no território mundial mais densamente povoado de sábios. Muitos deles sustentados na valência do "achismo", mas nem por isso menos sábios. E apareceu de tudo. De tudo, mas sábio.

E deste jeito, de um dia para o outro, todos continuaram tristes, o que está de acordo com a sapiência - pode lá conceber-se um sábio alegre -, e seguiram sendo moralistas, o que também é consonante com a sapiência - pode lá imaginar-se um sábio doidivanas e estarola viciado. E, novamente, assim, por mor da agressiva natureza, se percebeu que as qualidades dos habitantes, daquela terra abençoada, eram infinitas. "Gaudeamus"! (Rejubilemos!)»

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4.6.20

Pequim, 04.06.1989


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A morte de Maria Velho da Costa e o que se seguiu



Este texto foi publicado hoje no Facebook por João Sedas Nunes, filho da escritora:

«Minha mãe morreu ao começo da noite de dia 23 de maio em casa. Por imperativo legal, na madrugada de 24 o seu corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal para se proceder à autópsia que determinaria a causa de morte e despistaria a presença no organismo do Covid-19. Já depois de ter facultado às autoridades que intervieram no processo todos os dados que me foram solicitados (incluindo número do telemóvel), por duas vezes indaguei se deveria contactar o Instituto de Medicina Legal para apurar quando poderia resgatar o corpo. Por duas vezes foi-me categoricamente dito que me deveria abster dessa iniciativa, aguardando comunicação do Instituto de Medicina Legal que seria realizada mal a autópsia fosse concluída.

Ontem, dia 3 de junho, cerca das 17:00, isto é, quase 11 dias transcorridos desde o episódio atrás descrito, por iniciativa privada, "descobri" que os procedimentos da autópsia haviam sido finalizados no dia 25 de maio, estando dessa data em diante o corpo em depósito no IML a aguardar que a família o fosse buscar.

Honestamente, neste inqualificável processo de retenção quase diria obscena do corpo de minha mãe numa qualquer câmara frigorífica no IML não sei a quem imputar a responsabilidade principal. Às autoridades presentes no local do óbito - agora, a posteriori, tenho de pôr a hipótese de que me tenham informado erradamente - ou ao Instituto de Medicina Legal?

Em qualquer caso, há aqui algo profundamente errado no modo como o Estado, num momento tão delicado, organiza a relação com a família. Seja qual for a origem da falha, espelha um princípio de indiferença pelo sofrimento dos cidadãos na hora do passamento dos seus grandes afectos. Trago isto a público (enfim, tanto quanto este estaminé é público), não para demandar reparação (ou pedido de desculpas), mas para contribuir para a tomada de consciência de uma forma extrema de desrespeito que dificilmente pode ser "compreendida" sem invocar a impunidade do funcionário que, investido de um poder de Estado, não prestas verdadeiramente contas a ninguém. Contribuir, pois, para tornar intolerável a persistência da gramática do desprezo na ação realizada em nome do Estado e do bem comum.»


P.S. - As exéquias de Maria Velho da Costa realizar-se-ão a partir de sábado, dia 6 de junho, na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa. Às 17:30 iniciar-se-á o velório. No dia seguinte, domingo, às 15:00, terá lugar uma missa, a que se sucederá a cremação, às 17:00, no Cemitério dos Olivais.
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Desafios de um vírus viajante



«O novo coronavírus viaja, por isso é fundamental saber com rapidez e precisão por onde ele anda. É uma das razões pelas quais os recentes surtos na região de Lisboa não podem ser debelados apenas com mais testagem. O teste é uma fotografia, válida no momento, mas não conta uma história e nada nos diz sobre o futuro. É útil, mas não chega.

Soube que está a ser desenvolvido em Porto Alegre, com tecnologias de comunicação e inteligência artificial, um modelo em quatro dimensões que mostra em tempo real a evolução da pandemia. O modelo é de adesão voluntária. Desconheço ferramentas destas em Portugal, mas sei que o seu uso tem sido imposto em países asiáticos. Creio, no entanto, que a alternativa, hoje, não é só entre regimes autoritários e regimes democráticos. É entre conhecimento com respeito pela cidadania, que não existe na China, e obscurantismo com regressão civilizacional, que está a explodir dramaticamente nos EUA e no Brasil.

Por enquanto, sabem-me a pouco as medidas postas em prática na grande Lisboa para fazer frente aos novos surtos. Não se iludam. O problema não é só do comportamento de (alguns) jovens. O problema é que o choque do coronavírus não é simétrico. Em Lisboa, nas primeiras semanas da crise, o contágio afectou sobretudo freguesias com uma população afluente que viajou nas férias de Carnaval. Com o estado de emergência e uma inteligente actuação da saúde pública, foi possível “achatar” a curva. Mais contraditória e difícil de gerir tem sido a retoma da actividade económica, social e cultural. Os casos começaram a subir em áreas com população mais pobre.

Economia e saúde pública não são antinómicas, mas só teremos uma retoma económica saudável se forem combatidas desigualdades estruturais: no acesso ao emprego com salário justo, nas condições habitacionais, na educação, no apoio aos mais novos e aos mais velhos, no combate às discriminações, no desenvolvimento científico, cultural e artístico, na protecção ambiental.

O plano de estabilização anunciado pelo Governo não pode ser apenas económico, tem de ter uma componente social forte. E não basta ouvir os parceiros sociais. Há largos sectores da sociedade portuguesa que não estão representados na chamada concertação social. Há medidas de fundo na área da habitação e da cultura que urgem.

Identificámos problemas graves nos lares de idosos e no aumento do desemprego. Não é altura de criarmos um forte sector empregador na área dos cuidados, valorizando qualificações, salários e instalações de apoio? Ou vamos continuar a forma como lidamos com a velhice, um feito demográfico extraordinário que afinal tratamos como se fosse um fardo social? Também sabemos que o “distanciamento social” é para manter (menos nos aviões, por escandalosa cedência europeia às companhias de aviação), mas como garanti-lo nos transportes públicos sem horários desfasados? Andamos a fechar cafés nos bairros pobres e culpamos os jovens, mas por que não demos já a máxima prioridade à retoma de actividades desportivas e criativas, tão importantes para essa faixa etária?

Podia continuar a exemplificar, mas o essencial é que a saída da pandemia seja um caminho rico de oportunidades e não uma porta aberta às desigualdades do costume. Não faltarão grandes resistências contra este caminho novo, mas este é o momento de o exigir.»

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3.6.20

Jantares românticos


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O «novo normal» já aí está e veio para ficar



Festejaram o Pimba em Paz no Campo Pequeno com 2.000 + 2.000 pessoas, presidente da República e primeiro ministro incluídos, e vão honrar o Camões só com 8 nos Jerónimos.

(Note-se que nada tenho contra uma cerimónia simbólica com 8 pessoas no 10 de Junho. O que não entendo são os apelos para que os jovens evitem grandes eventos e se «patrocine», pela presença, dois grandes espectáculos no Campo Pequeno.)
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Um vídeo esmagador



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O Momento Chernobyl de Trump e Bolsonaro?



«Não foi o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, que derrubou o regime soviético, que se viria a desagregar irreversivelmente com a queda do Muro, em 1989, e com o golpe militar, em 1991. O poder de Gorbachov, que já representava uma transição, fracassou cinco anos depois, no fim de um longo processo em que foi corroído por contradições internas, pelo esgotamento económico e pelo desgaste social, acentuado pela derrota na guerra do Afeganistão. O acidente foi somente um choque que se sobrepôs a essa exaustão. Mas, por isso, foi também um momento trágico que revelou a fragilidade do Kremlin, sobretudo pela tentativa de ocultação, pela revelação da impotência e pela impopularidade que multiplicou. O tempo de Chernobyl foi a mentira e a revelação da mentira e, com isso, o início do fim de uma era.

A pandemia pode ser o Momento Chernobyl da extrema-direita no poder em países poderosos, como os Estados Unidos ou o Brasil. O caso com maiores implicações internacionais será o de Trump que, nas suas deambulações justificativas e na verve desculpatória, revela uma obsessão pelo interesse económico de curto prazo contra a proteção das vidas. E aí entra o efeito Chernobyl: ele precisa de ocultar o desprezo pela população e, sobretudo, a sua calculista impotência perante a doença.

Ora, como estamos nas vésperas da eleição presidencial e as escolhas de Trump são sobredeterminadas pela campanha, sendo este efeito Chernobyl a maior ameaça à sua recondução, todas as suas estratégias assentarão paradoxalmente em multiplicar a chernobylização da política. Para ocultar a ocultação, ele só tem um instrumento poderoso, a poluição política. Nesse sentido, o Presidente soterra o espaço comunicacional com guerras sucessivas, primeiro contra a China, depois contra os médicos, a seguir contra os governadores democratas, depois contra o Twitter, agora contra os protestos antirracistas. A informação pública vive assim em modo de sobressalto, provocado pela técnica angustiante que mobiliza o pânico em modo contínuo. É esta a batuta da sociedade do medo. Ou seja, Trump quer radioativar-se para sobreviver ao seu Chernobyl e, por isso, se esta analogia ilustra o perigo, não contará necessariamente a conclusão da história, sendo que a extrema-direita quer sair mais forte da pandemia aterrorizando a sociedade e impondo o autoritarismo como o novo normal.

Bolsonaro repete a estratégia mas em registo de milícia carioca, como não podia deixar de ser. É a família e os seus negócios que estão em causa e entende que tudo se conjuga numa conspiração universal para revelar os seus podres. Nesse confronto, resta ao Presidente recuperar a tradição do mandonismo das elites brasileiras e de um coronelismo que parecia exilado em telenovelas de cordel, mas a coligação que o suporta, de empresários que esperam as privatizações do petróleo a deputados interesseiros e a neopentecostais iluminados, começa a fraquejar. Mais uma vez, é o efeito Chernobyl: ele ignora ou esconde o perigo, promovendo a irresponsabilidade sanitária com a desenvoltura de um garoto que fuma o primeiro cigarro, e esse impudor tem um custo reputacional.

Uma revista médica de referência, "The Lancet", publicou este 9 de maio um editorial defendendo uma política de saúde pública no Brasil contra as investidas do Presidente: “Ele deve mudar drasticamente a orientação ou ser o próximo a demitir-se.” O médico e editor da "Lancet", Richard Horton, explicou à "Folha de São Paulo" porque critica tão duramente a estratégia Chernobyl do Presidente: “A política criada por Bolsonaro pode ser chamada uma guerra contra a ciência, e ela colocou o Brasil numa situação de grande risco. O país está certamente mais fraco e vulnerável por conta disso. Em vinte anos da "Lancet", acompanhámos o desenvolvimento da ciência no Brasil como um dos grandes sucessos do país, com polos internacionais de excelência. Os cientistas brasileiros são líderes globais em muitos domínios, e esse é um recurso poderoso no qual um país deve apoiar-se para o bem da sua população. E é nada menos que uma tragédia que o Governo não reconheça, abrace e apoie essa comunidade. É por isso que chamo ao comportamento de Bolsonaro uma traição ao seu povo. E isso é imperdoável.”

A palavra não é excessiva. Este Chernobyl, como o anterior, chega-nos pelos caminhos do acidente, mas a resposta tornou-se uma traição. Pode ser que Trump e Bolsonaro resistam, se conseguirem acumular a violência suficiente para submeterem os seus países. Não deixam de ser o que são, gente cuja mesquinhez não hesita perante a traição ao seu povo.»

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2.6.20

Imagens que ficam para a História



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O «novo normal»


«Olhar para Janeiro neste final de Maio é como tentar explicar a uma adolescente de 17 anos o que eram as páginas amarelas e que nelas se faziam pesquisas antes do Google.»


Helena Ferro de Gouveia no Facebook
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De «Frugais» a «Inteligentes»




Assim vai o mundo: dividir para reinar. Áustria, Austrália, Nova Zelândia, Israel, Dinamarca, República Checa e Grécia são os sete que se consideram «inteligentes».

«A Alemanha também terá recebido um convite (…). De Berlim, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, já se tinha antes mostrado crítico em relação a ideias de países irem abrindo fronteiras mais cedo para atrair turismo. “Precisamos de critérios comuns na Europa em relação ao recomeço da liberdade de movimento”, disse numa entrevista. “Um concurso europeu de quem permite as primeiras viagens turísticas vai levar a riscos injustificados.”»
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A procissão europeia ainda vai no adro



«Desta vez a União Europeia não pode seguir a sua própria doutrina nem aplicar as receitas que criou. As regras europeias - da proibição aos estados de investir em empresas nacionais aos múltiplos constrangimentos orçamentais - afundariam a Europa e por isso foram suspensas.

A perspetiva de uma derrocada descontrolada das economias italiana e espanhola parece mesmo ter conseguido arrancar uma proposta à Comissão Europeia e as notícias multiplicam os biliões que a Europa irá entregar "sem condicionalidade", ou seja, sem austeridade. Mas será mesmo assim?

Quase metade dos 2,4 biliões (milhões de milhões) anunciados para salvar a Europa, já eram os fundos previstos no Quadro Financeiro de Apoio negociado após o Brexit e que, por sinal, penalizava bastante Portugal. Depois, há 540 mil milhões que vêm do pacote apresentado pelo Eurogrupo: são duas linhas de empréstimos, ou seja, mais dívida, sendo que uma delas foi até rejeitada pelo Estado português.

Temos, finalmente, os 750 mil milhões apresentados como "Nova Geração UE". Desses, 250 mil milhões são mais dívida e 60 mil milhões são garantias. Sobram os 440 mil milhões que interessa, porque são a fundo perdido. Parece muito mas representa, para toda a UE, metade do que a Alemanha anunciou para investir na sua economia. O plano é que a UE emita dívida própria no valor dos apoios a fundo perdido, dívida que depois será paga com impostos a lançar a nível europeu. Mas não sabemos se haverá consenso para isso. E se não houver? Nesse caso, segundo a presidente da Comissão, esse valor será cortado dos orçamentos europeus futuros, ou seja, é como se fosse dívida dos países.

De resto, duas outras dúvidas assombram este plano. O financiamento obrigará à negociação de um pacote de medidas com Bruxelas. Quais? Não sabemos. Por outro lado, este programa não impedirá o aumento generalizado das dívidas públicas. E quando a suspensão acabar, sabemos o que dizem as regras: dívida é austeridade.

Devemos então simplesmente confiar no instinto de sobrevivência do establishment europeu e da sua poderosa burocracia? Sabemos como a austeridade é um alicerce bem enterrado na estrutura ideológica de Bruxelas. E isto sem falar nos outros governos, alguns da família socialista europeia, como o da Suécia e da Dinamarca, que não farão a vida fácil aos "preguiçosos do Sul".

Sim, face ao currículo vergonhoso da UE, o programa é inédito. Mas isso não faz dele um bom programa. A verdade é que a procissão ainda vai no adro e não sabemos para onde levará. Fizeram bem, por isso, os governos italiano e espanhol que não desistem de lutar por melhores condições e mais garantias. Fez mal António Costa em declarar já que a proposta "está à altura do desafio que a Europa enfrenta".»

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1.6.20

A outra América




«Em vez de investir contra quem gritava palavras de ordem, Swanson retirou o seu capacete de protecção e poisou o seu bastão, perguntando à multidão: “O que querem que façamos?” A resposta fez-se ouvir: “Caminhe connosco!” E, no vídeo que registou o momento, o xerife parece não ter sequer pensado duas vezes: “Quero que isto seja uma parada, não um protesto. Vamos caminhar!”»
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Presidenciais 2021? O estado da arte




«Maioria dos portugueses (71%) concorda com a ideia sugerida por António Costa, e que deixaria socialistas sem candidato próprio, revela barómetro da Pitagórica para o JN e TSF. Interesse é ainda maior entre quem vota no PS (85%).»

«Esse movimento é desde logo visível na questão sobre o apoio do PS à recandidatura de Marcelo: o entusiasmo dos eleitores mais à Direita é bastante menor do que entre socialistas. Apenas 65% dos que votam no PSD, 62% dos que preferem "outros" (o que inclui os eleitores do Chega e da Iniciativa Liberal), e 57% dos votantes que restam ao CDS concordam com esta espécie de candidato do "bloco central".
Outra forma de detetar que a base de apoio a Marcelo se está a transferir da Direita para a Esquerda é na análise à avaliação do seu mandato. Os eleitores do PS (99%), BE (93%) e CDU (88%) destacam-se pela positiva, enquanto os eleitores de "outros" (25%), PSD (23%) e CDS (23%) lideram pela negativa.»
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1 de Junho?


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O racismo (não) é intolerável!



«Imagine-se por uns minutos o momento inaugural de genuína perplexidade de uma criança ao descobrir que algo de tão fútil como a cor da sua pele constitui um problema na sociedade onde vive. Que a cor da sua pele faz dela um alvo privilegiado de chacota, de insulto e de violência, não só por parte de outras crianças, mas também de adultos, não só no seu bairro, na sua cidade ou no seu país, mas em várias partes do mundo, não só na época em que vive, mas que é uma realidade que se perpetua há séculos. A incompreensão inicial transforma-se num ápice em profunda angústia. O racismo é um traumatismo.

A influência nefasta da carência afetiva precoce está, hoje, bem documentada. Em meados do século passado já René Spitz e Harry Harlow haviam demonstrado a importância da atenção, do carinho e do amor no desenvolvimento normal de uma criança e as repercussões na sua vida de adulto. Essa relação de reconhecimento e cuidado por parte do Outro é essencial e chega a condicionar a própria sobrevivência da criança. No entanto, as nossas relações afetivas não se limitam às figuras maternas ou paternas, estendem-se também a esta espécie de família alargada a que chamamos de sociedade. O racismo é uma das expressões mais cruéis e perversas dessa relação afetiva deteriorada. Para além da evidente rutura do contrato social, alicerçado sobre o valor da Igualdade, que constitui o racismo, para além desta rutura política abstrata, existe uma rutura mais íntima, mais profunda, mais encarnada. Afinal não somos uma família.

Esta primeira rejeição é arrasadora, desconstrói uma personalidade em desenvolvimento. A criança vai desde logo recorrer a estratégias para voltar a sentir a confiança inicial, para voltar a fazer parte da família. Convence-se de que, de facto, o problema é ela. O processo de racismo interiorizado está em curso. Mas aos poucos a criança, o jovem, o adulto entende que afinal pouco importam as estratégias, pouco importam os esforços, o problema continua visível, o seu corpo negro incomoda.

Ao longo dos séculos esse corpo (indissociável da mente) foi subjugado, martirizado, assassinado, invisibilizado, enviado para campos de trabalho, para as periferias, para as cozinhas, para as prisões, para as sepulturas. Como o corpo de George Floyd, torturado e assassinado por um polícia branco de Minneapolis em 2020, na autoproclamada “maior democracia do mundo”. O racismo é violência.

Derek Chauvin outorgou-se o direito de matar George Floyd em frente das câmaras porque tinha a possibilidade física e social de o fazer. A sociedade onde vive não considera que o racismo seja intolerável. A História e a justiça do seu país, as convicções racistas e supremacistas de uma parte importante dos americanos, inclusive do seu próprio Presidente, confortam-no na sua ação. É a mesma sociedade que permite em Nova Iorque que Amy Cooper ameace e proceda a uma falsa denúncia contra um homem negro à polícia. Esta mulher racista sabe em que sociedade vive.

Em Portugal, o polícia que brutalizou Cláudia Simões também sabe em que sociedade vive, tem consciência, por exemplo, que na última década nenhum polícia foi condenado por racismo. O deputado André Ventura conhece a sociedade em que vive, conhece o valor das vidas de ciganos e negros em Portugal. Sente-se confortável para exprimir, há anos, toda a sua ciganofobia, porque não somente não foi alvo de qualquer sanção à altura dos seus atos como ainda pôde entrar sorridente pela porta principal da Casa da Democracia. Ventura conhece a sociedade que lhe permite sugerir o regresso de uma deputada portuguesa negra para a sua terra, sem qualquer perda pessoal e política. Pelo contrário, sobe nas intenções de voto. Se o racismo fosse intolerável o deputado racista já teria sido expulso do Parlamento (aliás nunca lá teria entrado) e estaria no banco dos réus por incitação ao ódio racial, da qual a proposta de um plano de confinamento para a população cigana é mais um insuportável exemplo.

Mas o racismo é tolerável dentro do Parlamento, é tolerável na sociedade portuguesa, na americana, na francesa, no nosso mundo. E tolerar o racismo é ser racista. É admitir a existência de cidadãos de segunda, que a justiça não seja igual para todas e todos. É aceitar que não façam parte da família. É permitir que a criança negra ao ser testemunha dos últimos instantes de respiração de Floyd seja também ela transportada para aquele chão e sufoque e chore sabendo que este não é nem o princípio nem o fim do pesadelo. O racismo é terrorismo.»

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31.5.20

Covid-19 e os vários episódios de uma telenovela à portuguesa



Andaram meses a falar dos velhos, a acusarem-nos de se juntarem em pequenos grupos, de se sentarem nos bancos dos jardins e, horror dos horrores, de tentarem jogar às cartas. 

Descobriram que, agora, os maus da fita são os jovens. Vai ser mais difícil confiná-los, até porque eles não ouvem as homilias diárias da ministra e da DGS.
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Justiça para George Floyd


O mínimo que podemos fazer é assinar ESTA PETIÇÃO.
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No saguão do teletrabalho



«Está em curso uma discussão sobre o teletrabalho muito suportada por opiniões superficiais, sem reflexão acerca do contexto económico, social e político em que vamos viver, sem suporte em estudo científico e empírico indispensáveis.

São, em grande medida, pronunciamentos embalados pelo fascínio da tecnologia e algumas tentativas de credibilizar objetivos particulares de curto prazo. O assunto é sério, tem de ser estudado, nas suas vantagens e inconvenientes, tomando a experiência forçada de muitos milhares de trabalhadores, mas muito para além do observável nessa experimentação.

Em pouco tempo emergiram vantagens e inconvenientes. Questões muito delicadas ao nível do uso do tempo, um dos bens fundamentais sobre o qual não podemos perder o controlo. Há que distinguir, e criar barreiras, entre tempo de trabalho e tempo pessoal para a vida plena em todas as suas dimensões. Concomitantemente, tornaram-se evidentes as dificuldades de gestão do espaço doméstico e a tendência para sacrificar condições de vida de elementos da família em favor da prestação de trabalho de outrem.

Num tempo em que tanto se fala da necessidade de trabalho em equipa, se constata a necessidade de maior socialização, em que é preciso reforçar o coletivo contra o individualismo exacerbado e, quando é imberbe a regulação e regulamentação do teletrabalho, há muito a estudar para que o seu incremento não venha a ser mais prisão, amputação das liberdades e fragilização da democracia. E como estruturar bem a gestão de equipas à distância? E quais os impactos na distribuição territorial dos/as trabalhadores/as e suas implicações?

Vamos viver (já estamos) um tempo em que imensas pessoas têm menores rendimentos e o elevado desemprego coloca os trabalhadores numa situação de fragilidade: os desempregados forçados a aceitarem trabalho sem poderem proteger-se minimamente; e quase todos os outros mais expostos a chantagens, porque há um exército de mão de obra disponível. Por outro lado, como se vai confirmando a cada dia que passa, o choque da pandemia só foi simétrico no susto inicial: as desigualdades e as vulnerabilidades estão a agravar-se e os poderes a desequilibrarem-se em desfavor dos trabalhadores.

A utilização do teletrabalho vai ser influenciada até pela geopolítica, num quadro de incremento da automação, debaixo de falsos determinismos tecnológicos, e com as plataformas digitais e outras a tentarem camuflar dependências hierárquicas e funcionais, gerando a ilusão de estarmos perante uma proliferação de "atividades" ocasionais substitutivas do emprego.

E como vai ser feita a desincrustação da crise nos planos sociopolítico e institucional? O Estado e as instituições vão sair com mais força? As instituições de intermediação e regulação imprescindíveis em democracia, como os sindicatos, vão ser defendidas e reforçadas nas suas missões ou desvalorizadas?

É preciso fazer-se a caraterização funcional das diversas profissões, analisar mudanças para a organização do trabalho na perspetiva patronal mas, de igual modo, do ponto de vista do trabalhador. Este estudo não pode substituir aquele que identifique as exigências e limites no espaço privado. O perigo de se desvalorizar o teletrabalho é real. E ele não pode tornar-se trampolim de transferência de responsabilidades.»

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Diário do Desconfinamento



O cão é o único que ainda não está em teletrabalho ou telescola.
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