29.7.23

Cerâmicas

 


Detalhe de uma decoração de cerâmica na Villa Schiffer, Budapeste, 1910-1912.
Arquitecto: József Vágó.
Fábrica de Cerâmica Zsolnay.

Daqui.
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29.07.1890 – O dia em que Van Gogh morreu

 


Tudo se sabe sobre este extraordinário pintor nascido nos Países Baixos, mas prefiro recordar a sua estadia em Arles porque voltei a passar por lá há poucos anos.

Foi em Arles que o pintor se exaltou com a luz do Sul e pintou muitos dos quadros que tão bem conhecemos, desde os famosos girassóis aos ciprestes, à casa amarela onde viveu, ao célebre quarto, ao autoretrato com a ligadura depois de ter cortado a orelha por causa de uma forte zanga com Gauguin – 185 quadros entre Fevereiro de 1888 e Maio de 1889.

Depois do corte da orelha, a população considerou-o cada vez mais louco e exigiu o seu internamento definitivo no Hotel de Deus da cidade, misto de asilo e hospital. O claustro está hoje intacto (foto no topo deste post), tal como ele o pintou. Pediu depois para ser transferido para um hospital psiquiátrico perto de Saint-Rémy-de-Provence e regressou mais tarde aos arredores de Paris.

Se não o tratou bem em vida, Arles tira hoje todo o partido possível da estadia de Van Gogh nas suas terras.




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Pedro Tamen



 

Deixou-nos há dois anos. Faz-me falta.
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O caminho perigoso do Presidente da República

 


«O Presidente, quando da “crise Galamba”, percebeu que não tinha condições para dissolver o Parlamento e por isso não teve outro remédio senão aceitar o facto consumado que o primeiro-ministro lhe colocou sobre a mesa. Fez então uma declaração de hostilidade ao Governo, anunciando que a partir desse momento ia ser particularmente vigilante sobre os actos da governação. Já de si esta declaração é politicamente inaceitável, porque, das duas uma, ou o Presidente tinha sido até então complacente com o Governo e fechava os olhos àquilo com que não concordava, o que não era suposto, se os assuntos fossem sérios; ou ia de algum modo “vingar-se” de António Costa, criando-lhe todas as dificuldades para a sua governação. A partir desse momento, o Presidente, todas as vezes que falava, e como se sabe ele fala muito, criticava o Governo, com mais ou menos dureza. E passou também a fazer essas críticas nos textos de promulgação dos diplomas. Passou a haver, mais do que já havia e com uma nova hostilidade, uma espécie de metadiscurso presidencial sobre a governação que não está de todo implícito no modo como no nosso sistema constitucional funciona o “semi” no “semipresidencialismo”.

Em si, este procedimento não é novo. Já houve vários casos com Eanes, Sampaio e Soares, menos com Cavaco, em que os presidentes e os governos entram em rota de colisão. Em muitos casos, dos quais o mais paradigmático foi o segundo mandato de Soares, esse confronto era completamente público e com um elevado grau de hostilidade. O congresso que Soares organizou contra o Governo de Cavaco Silva e as “presidências abertas” correspondiam a uma contínua manifestação de confronto político. Sampaio despediu Lopes por “indecente e má figura” e dissolveu uma Assembleia em que este tinha maioria, mas presumia que o eleitorado lhe dava razão, como deu.

Marcelo está a fazer uma coisa diferente e num certo sentido pior, está a contragovernar, não só por pensamentos, como por palavras e, acima de tudo, com obras. Independentemente do julgamento que se possa fazer sobre o diploma do Governo a propósito das carreiras dos professores, ele é um acto legítimo de governação. É suposto que, quer o Presidente concorde ou não com o diploma, não o vete em função dessa discordância, porque não é o Presidente que governa. Que verifique a sua constitucionalidade, muito bem, que faça um julgamento no limite sobre a sua “perigosidade social”, pode fazê-lo, mas já na linha vermelha de uma opinião de governação cujas consequências não é ele que gere, nem no passado, nem no presente, nem no futuro.

Não parece que este diploma esteja ao nível da legislação francesa sobre a idade da reforma que provocou os grandes tumultos na rua, embora não custe admitir que não resolve os conflitos com os professores, e não acabará com as greves nas escolas, mas esse julgamento é um puro acto de governação para o qual o Presidente não foi eleito. Aliás, o Presidente foi mais longe sugerindo que as duas áreas, educação e saúde, deviam ser privilegiadas nos gastos do Estado em salários, mesmo que isso crie uma situação de desigualdade com outros sectores da função pública. Em teoria percebe-se, mas de novo essa opção é do domínio da governação e não cabe ao Presidente interferir nas prioridades, certas ou erradas, de um poder que não é o seu. Se o diploma não acaba com as lutas dos professores, o que é uma presunção razoável, a disparidade de critérios criando desigualdades gritantes na função pública é igualmente um factor poderoso em abrir outras frentes de conflitualidade. “Porque é que eles têm essas medidas e nós não temos?”

Acresce que tenho a séria suspeita de que um certo afã despesista dos dinheiros públicos que vai do Chega, passa pela IL e pelo PSD, e termina agora no Presidente teria como consequência que o Governo, ao fazer crescer o défice, deixaria de ter “contas certas” e haveria uma fronda de críticas, que agora não podem fazer, logo em seguida. É curioso ver como os partidos que nunca gostaram dos funcionários públicos, em particular dos professores, e que estavam sempre a falar do despesismo do Estado na sua máquina agora querem tudo, repor integralmente aquilo que cortaram aos professores, reformados, pensionistas – lembram-se da troika e do Governo Passos-Portas-troika? O que é interessante é ver que são os mesmos que são ainda hoje um eco da senhora Lagarde na necessidade de contenção de salários e, em plena contradição, querem agora a política que sempre criticaram. O que os afecta é que o PS tem sido mais eficaz nessa política de “contas certas”, cuja acção tem muito mais continuidade com a da direita no poder do que podem admitir.

Como presumo que o Chega, o PSD e a IL, como o Presidente, não se tornaram esquerdistas no despesismo, esta contradição vem muito mais de uma lógica de oposição em todos os azimutes, ou, no caso do Presidente, de exorbitar as suas funções para “pôr o Costa na ordem”, do que de uma posição de fundo. É por isso que a contragovernação do Presidente gera instabilidade social, ou talvez a secreta esperança que Costa, não conseguindo governar, mande tudo às malvas, para ver se alguém consegue ganhar uma eleição ao PS.»

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28.7.23

Vasos húngaros

 


Vaso «Túlipa». Pécs, Hungria, por volta de 1900.
Fábrica de Cerâmica Zsolnay.


Daqui.
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Ainda podemos parar o pior

 

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JMJ – Cada tiro, cada melro

 

«Em Portugal, vão realizar-se pelo menos cinco touradas durante o período da Jornada Mundial da Juventude. Sem clemência.» (JN)
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Causa Pública: vem aí um think tank para a esquerda que gostou da “geringonça”

 


«Não é um “clube de apoio a Pedro Nuno Santos” nem um grupo de convívio de nostálgicos da “geringonça”, embora estejam lá pessoas que defendem a candidatura, no futuro, de Pedro Nuno a secretário-geral do PS (embora outras nem por isso).

É verdade que, entre os membros da Causa Pública, “há uma avaliação positiva sobre o período dos acordos parlamentares à esquerda”, como diz ao PÚBLICO o economista Ricardo Paes Mamede, um dos fundadores. No entanto, a repetição da “geringonça” “não está no centro das actividades” da associação e “nem é o mínimo denominador comum”.

Afinal, então, o que vai ser a Causa Pública, a que também já pertencem os deputados socialistas Alexandra Leitão (que faz parte da comissão instaladora), Pedro Delgado Alves e Isabel Moreira?

Segundo Ricardo Paes Mamede, o think tank Causa Pública surgiu da “ideia de ter uma entidade capaz de produzir reflexão e propostas sobre política pública da mesma forma que a Sedes o faz no campo conservador e o Mais Liberdade no campo do neoliberalismo”.

A Causa Pública aparece, assim, com a ideia de, para além de promover a reflexão, “apresentar propostas de soluções de governação em várias áreas”. Ou seja, fazer menos “política” e mais “políticas” – aquilo que em inglês se chama “policies” e não “politics”.

“Há pouco trabalho sistemático no sentido de discutir, consensualizar e propor soluções de políticas públicas”, diz Paes Mamede, que ficará a coordenar a área de políticas económicas do novo think tank.

As primeiras reuniões começaram no início do ano – e nelas participou activamente o antigo ministro socialista do Planeamento João Cravinho – e há dois meses a Causa Pública registou-se como associação. O manifesto será apresentado em Setembro, numa sessão pública, assim como o grupo de fundadores, que deverão ser cerca de 100.

Ricardo Paes Mamede, economista e cronista do PÚBLICO, é independente. Paulo Pedroso, que, tal como a ex-ministra Alexandra Leitão, é da comissão instaladora, foi ministro da Solidariedade e dirigente do PS, mas há uns anos desvinculou-se do partido.

Também Ana Drago pertence à comissão instaladora – é hoje independente, depois de ter sido militante e deputada do Bloco de Esquerda. Era a líder do Fórum Manifesto (movimento sucessor da Política XXI de Miguel Portas) que integrava o Bloco de Esquerda e que abandonou o partido em Julho de 2014, juntamente com Rogério Moreira (que também faz parte da comissão instaladora do novo think tank) e o professor e investigador Nuno Serra.

O antigo secretário-geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva, o comentador Daniel Oliveira (antigo militante do PCP e do Bloco) e o bloquista João Teixeira Lopes também integram a Causa Pública, que conta ainda com a participação de alguns militantes comunistas.

As políticas da Habitação ficam a cargo de Ana Drago; as do Trabalho sob a responsabilidade de Carvalho da Silva; Alexandra Leitão fica com as políticas de Justiça, direitos, liberdades e garantias; José Reis com as políticas do território.

A Causa Pública vem preencher um espaço que, segundo os dinamizadores, está por preencher. “O espaço de debate público sobre alternativas à governação actual é hoje dominado pelos conservadores, representados, por exemplo, pela Sedes e pelo espaço liberal que se revêem na Fundação Mais Liberdade”, argumenta Ricardo Paes Mamede. “É preciso que aqueles que se revêem numa governação à esquerda, e que defendem que é possível ir-se mais longe, afirmem esses propósitos”, defende o economista.

O novo think tank tenta pôr novamente o PS a “falar” – ou, pelo menos, alguns dos seus destacados militantes – com os partidos à sua esquerda, pela primeira vez desde o afastamento gradual entre PS, Bloco de Esquerda e PCP, na sequência das eleições legislativas de 2019. Foi aí que o PS obteve uma maioria relativa e dispensou os acordos escritos – desejados pelo Bloco, mas que o PCP também não queria.

Depois da maioria absoluta obtida em Janeiro pelo PS, o diálogo institucional só não parece mais distante do que nunca porque até Outubro de 2015 era considerado pura e simplesmente impossível.

Este será um fórum para reabilitar o diálogo à esquerda. É aqui que entra a conexão com Pedro Nuno Santos, que, no programa da sua candidatura a secretário-geral no pós-costismo, obviamente defenderá conversações pós-eleitorais à esquerda. No entanto, Ricardo Paes Mamede avisa que a Causa Pública está longe de ser um espaço de apoio ao “pedro-nunismo”: “Uma certeza que lhe dou é que, mesmo no núcleo dinamizador inicial, as pessoas têm posições diferentes relativamente ao próximo ciclo político.”»

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JMJ - A Caminhada da Vergonha

 


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27.7.23

Vaso quadrado

 


Vaso quadrado translúcido, decorado com camada de flores, folhas e caules com detalhes esmaltados.
Emile Galé.

JMJ e CML

 

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As prioridades do presidente. Mas quem decide é o Governo


 

«O veredicto do presidente da República sobre o diploma da aceleração na progressão na carreira dos professores era a última grande decisão que se esperava antes da ida do país político a banhos. Marcelo Rebelo de Sousa já tinha feito saber que pedira esclarecimentos ao Executivo e decidiu anunciar que tinha devolvido o diploma sem promulgação ao Governo quando o primeiro-ministro estava num avião, a regressar de Timor. Para já, Governo e PS optaram por ficar em silêncio, mas é deles a palavra final.

O presidente da República enumerou um conjunto de problemas do diploma, desde logo o facto de na Madeira (onde governa o PSD) e nos Açores (aqui por iniciativa do anterior Governo PS, fez questão de lembrar) a contagem do tempo de serviço congelado estar a ser feita de forma faseada e gradual, o que considera ser uma “clara desigualdade de tratamento face aos professores do continente. Mas o texto em que justifica a não promulgação do diploma serviu, sobretudo, para apontar aquelas que, em seu entender, devem ser as prioridades da governação (por sinal, as que têm tido mais contestação): educação e saúde. Na sua justificação, o chefe de Estado desmonta um dos principais argumentos do Governo para não poder responder às exigências dos professores: o que isso iria significar em termos de acréscimo da despesa pública no futuro. Marcelo, o constitucionalista, alega que os estatutos das carreiras dos professores e dos profissionais de saúde não podem ser comparados com os de outras carreiras da administração pública, mesmo as especiais, deitando por terra um dos principais argumentos do Executivo. E diz que essas duas carreiras “deveriam ser prioridades se quisermos ir muito mais longe como sociedade desenvolvida e justa”.

A decisão tem sabor a vitória para os sindicatos, dando-lhes alento para pedir novas negociações e fazendo depender disso um arranque de ano letivo com mais paz nas escolas. Mas todos - até o presidente - sabem que o Governo tem a faca e o queijo na mão. É improvável que o Executivo decida reabrir um processo negocial que se prolongou por vários meses quando pode simplesmente levar o diploma ao Parlamento e confirmá-lo com a maioria absoluta de deputados de que dispõe. Se quiser agradar ao presidente, preocupado em dar esperança aos atuais e futuros professores, não será difícil contornar aquela que é a principal exigência de Marcelo: a ideia de que este processo não se encerra definitivamente agora e que, no futuro, com outras circunstâncias, será possível retomar a questão. Mas em maioria absoluta - como se viu no episódio da demissão de João Galamba -, a última palavra não é de Belém.»

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26.7.23

Perfumes

 


Frasco de perfume, Chéquia, final do século XIX.
Ludwig Moser.


Daqui.
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JMJ: a fé que move montanhas?

 


Há muito que esperava que alguém se lembrasse de relacionar as JMJ com as pegadas carbónicas que deixarão. Mais: aqui ou em qualquer outra do mundo, não entendo como se põe um milhão de pessoas a circular, quando se sabe o que isso implica para o estado em que o mundo está.

Este texto do Expresso resume que «os peregrinos que virão a Lisboa para a Jornada Mundial da Juventude vão ter acesso a uma aplicação com uma calculadora que mede a sua pegada carbónica. A organização publicou um manual onde recomenda formas de compensar a poluição provocada pela viagem a Lisboa.» Não sei se alguém acredita na eficácia de tudo isto, mas copio o exemplo que é dado do que podia, e devia, fazer um grego para compensar uma viagem de ida e volta Atenas / Lisboa:

«1) A primeira sugestão é realizar a viagem casa-trabalho de comboio ao invés de carro pessoal durante dois anos, para um percurso de 10km (para estes cálculos a empresa usou fatores de emissão de comboio de 0,0235 kgCO2e/pessoa/km e de carro de 0,1815 kgCO2e/pessoa/km, duas viagens casa-trabalho de 10km/dia e 251 dias de trabalho/ano).

2) A segunda sugestão é aceitar o desafio de “ser vegetariano durante um ano” (para estas cálculos considerou-se uma redução das emissões de uma dieta omnívora, com elevado consumo de carne, de 3285kg CO2e/pessoa/ano para uma dieta vegetariana, de 1700kg CO2e/ pessoa/ano).

3) Finalmente, para compensar a totalidade das emissões da viagem, o manual recomenda “apoiar programas de conservação de árvores durante um ano, correspondente a 65 árvores (assume que cada árvore capta um valor médio de carbono de 26,6kgCO2e/árvore/ano)”.»

Eu sei que a fé pode transportar montanhas, mas não gosto de ser tratada como parva.

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Framboesas Ventura

 


«O mundo vive a caminho de um paradoxo cada vez mais próximo de ser irreversível: as temperaturas sobem brutalmente em todo o globo e com elas crescem os acidentes meteorológicos extremos - seca, precipitação diluviana e furacões. Tudo nos conduz a uma situação de desaparecimento do mais precioso bem para a nossa sobrevivência, a água, porque mesmo quando chove muito em pouco tempo, os solos estão esqueléticos e não a conseguem absorver. Por cá, estamos exatamente neste ponto: apesar de ter havido situações de cheias em algumas bacias hidrográficas em novembro, o solo absorveu pouca água e, depois disso, praticamente não choveu mais. Muitos agricultores gastam cada vez mais energia para tirarem água de poços ou das charcas que, ano após ano, se reduzem ou secam.

Mas é quase impossível acreditarmos nisto porque cada ida ao supermercado é um momento de percorrer corredores de abundância aparentemente eterna. A temperatura é agradável e os alimentos frescos não faltam. Todavia, ainda este ano, vi em Inglaterra (não num país do terceiro mundo) frutas e vegetais voarem imediatamente ao chegarem às prateleiras, além de, semanas a fio, não haver nem ovos nem tomates. E não, não é apenas o Brexit. A gripe aviária levou ao abate de milhões de aves pela Europa fora e várias cadeias de abastecimento vão sofrendo interrupções por falta de produtos devido a disrupções meteorológicas. Quem planta tomate fora de estufa sabe quão provável é acabarem queimados, dada a intensidade do calor e sol. Este ano, no Fundão, perdeu-se 70% da colheita da cereja por chuva fora do tempo. Instalar telas de proteção (ensombramento e chuva) são investimentos enormes para pequenas empresas. E os apoios do Governo não chegam para todos.

E assim chegamos aos frutos vermelhos da Costa Alentejana e ao "bordel" paquistanês invocado esta semana por André Ventura no debate sobre o Estado da Nação. A verdade é que não há mão-de-obra suficiente para trabalhar na agricultura (e em muitas outras coisas). Quantos portugueses desejam que os seus filhos fiquem ligados a um trabalho de sol a sol de salário mínimo? E todos somos contra o salário mínimo, exceto no supermercado e na inflação, que aí não, as laranjas ou os agriões têm de se manter a um preço baixo.

Sem imigrantes vamos gradualmente deixar de comer. Só a demagogia de André Ventura encobre isto aos portugueses que ele pretende domesticar. Claro que, organizar melhor a imigração é importante - e evitar redes de tráfico humano imprescindível -, mas pior seria se fechássemos as fronteiras. O preço da alimentação subiria em flecha. E então aí os populistas gritariam contra a inflação e a escassez. Porque esse é o problema de quem põe os neurónios a pensar num só problema de cada vez - só há consequências, nunca causas. Quer continuar a comer, dr. Ventura? Nacional ou importado de qualquer sítio?»

Daniel Deusdado (Excerto)
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25.7.23

Gargantilhas

 


Gargantilha para gato, composta por uma série de pequenos quadrados de cristal de rocha, ouro e diamantes, decorados com gatos e folhagens. Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa, cerca de 1906-1908.
René Lalique.

{Texto do Museu Caouste Gulbenkian sobre esta peça aqui.]

Daqui e não só.
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Erros deles, má fortuna

 


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Daqui, desta Lisboa

 

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O indicador e o polegar

 


«Um estudo recente realizado pela Universidade de Estocolmo, na Suécia, indica que 72% da população mundial vive em países considerados autocráticos. Somente 13% é governada por democracias plenas, índice comparável ao ano de 1986, antes da queda do Muro de Berlim, o que, desde logo, tem de obrigar-nos a colocar uma questão: então a luta contra o comunismo, organizado em torno da antiga União Soviética, não se destinava a implantar a democracia universal? Se era, então a humanidade falhou, pelo menos até agora.

O Ocidente Alargado - os seus políticos hegemónicos, os seus intelectuais orgânicos, os seus jornalistas e demais porta-vozes, bem como a maioria dos seus cidadãos - tende a apontar o dedo aos "outros" (os russos, os chineses, os africanos, os árabes, os "bolivarianos", seja lá o que isso for), culpando-os pela sua alegada incapacidade de viverem em democracia. O crescimento da Extrema-Direita nos seus países deveria obrigá-los a abandonar esse complexo de superioridade moral chamado "eurocentrismo", mas que ninguém espere que isso aconteça: a maioria dos democratas ocidentais não hesitará em aliar-se à Extrema-Direita e ao fascismo, caso os seus interesses de classe estejam em risco; já está a fazê-lo, um pouco por todo o lado.

Não me refiro unicamente a casos óbvios, como a aliança com países que estão entre a ditadura aberta e as "democracias" musculadas e autoritárias, como a Arábia Saudita, Turquia, Hungria, Israel e outros, para só mencionar os casos presentes. Também não me atenho apenas ao processo de normalização da Extrema-Direita nos países do Ocidente Alargado, o que pode levá-la, inclusive, a chegar ao poder ou próximo dele. Pergunto: quando um país com a tradição democrática, social e "internacionalista" da Suécia não hesita em trair um povo inteiro (os curdos) em troca da sua entrada na NATO, o que dizer do estado da democracia no Ocidente Alargado?

Mas é mais do que isso. Em texto contundente publicado no passado dia 2 de julho e a que tive acesso pelas redes sociais, a jornalista brasileira Milly Lacombe traduziu em miúdos a célebre frase de Churchill sobre a relatividade da democracia. "Nos Estados Unidos, quando Hillary Clinton e Bernie Sanders concorriam por uma vaga na chapa democrática para enfrentar Donald Trump, em 2015, todas as artimanhas foram executadas para tirar Sanders do jogo. Como ele falava palavras do tipo "revolução" e dizia que iria para cima dos bilionários, Sanders não era um ator legítimo para a democracia estadunidense. Dançou. E Hillary perdeu para o nazifascista", escreveu ela, mostrando os limites da democracia (e, reafirme-se, a sua relação com a luta de classes).

Para evitar mal-entendidos, esclareço que não tenho quaisquer dúvidas em partilhar da certeza de Churchill segundo a qual a democracia, apesar das suas limitações, é o melhor regime disponível, pelo qual, por conseguinte, vale a pena lutar. Mas, tal como a maioria dos democratas do Sul Global, insisto em dois pontos: primeiro, democracia sem dimensão social não passa de ficção, o que a coloca numa situação de risco permanente; segundo, a democracia não pode ser implantada à força de canhões e drones a partir do exterior, como nos querem fazer crer os bem-pensantes democratas do Ocidente Alargado, incluindo a "Esquerda neoliberal", esse perverso oximoro dos nossos tempos.

A pergunta que tem de ser feita é: por que razão, 34 anos após a queda do Muro de Berlim, a democracia não avança? A atual crise universal da democracia tem várias causas, mas a principal, na verdade, é o ataque deliberado e estrutural do capitalismo tecno-financeiro à dimensão social de que a mesma carece para manter-se e desenvolver-se. A erosão do Estado de bem-estar social criado após o fim da 2.ª Guerra Mundial, a financeirização da economia, o uso desregulado da tecnologia e a globalização seletiva do capital explicam as várias crises, dúvidas, distúrbios e ataques internos à democracia; no plano externo, a retórica "democracia versus ditadura" em que o Ocidente Alargado insiste para justificar as suas intervenções em outros países mal esconde as lutas atuais pelo controlo dos mercados.

Nesta crise não há, pois, bons nem maus. Os diferentes atores deveriam lembrar-se de um provérbio camaronês, que aconselha a não apontar o dedo indicador a ninguém, para acusá-lo; nesses casos, o polegar vira-se sempre contra quem acusa.»

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24.7.23

Lamparinas

 


Lamparina em versão germânica de Arte Nova. Alemanha, 1900.
«Designer»: Albin Müller, fabricada por Kayserzinn.

Daqui.
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Machu Picchu e 24 de Julho

 


Foi num 24 de Julho (de 1911) que o explorador americano Hiram Bingham encontrou duas famílias que o levaram às ruínas da «velha montanha».

Ver post de 2022.
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Moçambique e 24 de Julho

 


Nasci numa rua com acácias vermelhas que nunca esqueci, na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo.

Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho, enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano, e portanto português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há vinte e poucos anos.
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A Espanha reentra numa nova fase de bloqueio político

 


«As eleições ditaram uma situação de bloqueio político que ameaça forçar um regresso às urnas. Com mais de 99% dos votos contados, Alberto Nuñez Feijóo e o Partido Popular venceram as eleições mas não têm uma maioria para governar. A soma dos deputados do PP e do Vox (extrema-direita) ficam longe da maioria absoluta de 176 deputados, ficando-se pelos 169. Também a soma do PSOE, de Pedro Sánchez, do Sumar (esquerda) e aliados independentistas fica abaixo da maioria.

Nenhum dos blocos tem “números” para governar. No entanto, Feijóo deverá reivindicar o direito de formar governo por ser o partido com maior representação parlamentar: 136 deputados contra 122 dos socialistas. E também Pedro Sánchez abrirá certamente negociações para permanecer no poder. Mas a formação de uma maioria alternativa em torno do PSOE exigirá mais apoios parlamentares do que os que obteve em 2019, agravando a sua dependência de nacionalistas e independentista.

As expectativas de Feijóo

Feijóo tinha expectativas muito altas. Visava a conquista de mais de 150 deputados ou, se possível, 160. O objectivo era poder governar sem uma coligação com a extrema-direita. Para isso precisava de somar mais mandatos do que os de Sánchez e seus aliados. Apostava num executivo minoritário que colocaria o Vox numa posição incómoda: não poder votar contra o PP e fazer ressuscitar Sánchez.

Para realizar este cenário, que durante semanas as sondagens consideraram possível, precisava de um resultado incontestável, de aquilo a que os analistas chamavam uma “maioria clara da direita moderada”. Acabou por obter uma vitória muito insuficiente. Ao contrário, a derrota do bloco da esquerda (PSOE e Sumar) sabe a triunfo para Pedro Sánchez. Uma derrota maciça forçaria a sua demissão. Agora vê reforçada a sua liderança no partido.

Feijóo tinha em mente uma outra táctica: pedir a abstenção do PSOE na investidura do seu governo, para evitar o acesso do Vox ao governo. A entrada da extrema-direita no executivo preocupa muito Paris e Berlim.

Abascal ri

Resta averiguar as consequências para o Vox. A extrema-direita desejava ter uma elevada votação que a tornasse incontornável na formação do governo em coligação com o PP. Na impossibilidade disso, como mostravam as sondagens, Santiago Abascal preferia secretamente uma vitória de Sánchez aliado a independentistas, o melhor cenário para o seu reforço eleitoral. A extrema-direita alimenta-se das crises e dos impasses do sistema.

Uma situação de bloqueio como a que se vai provavelmente viver é um terreno fértil para a demagogia populista. Ao contrário do anterior líder do PP, Pablo Casado, que adoptou muitos temas do Vox, Feijóo tornou-se numa ameaça real à extrema-direita. Começou a esvaziá-la. Mas a noite eleitoral devolve a Abascal alguns trunfos.

A Espanha entra numa fase de grande incerteza política e de difícil governabilidade. As eleições europeias de Junho de 2024 são o próximo grande marco político.»

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23.7.23

Baldes

 


Balde de champanhe em estanho banhado a prata. Alemanha,1906.
Fabricado por WMF.

Daqui.
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A Espanha antes dos resultados

 


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Espanha, hoje

 

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Serge Reggiani

 


Serge Reggiani morreu há 19 anos, em 23.o7.2004, e marcou certamente algumas gerações, mesmo em Portugal, antes de a língua francesa ir desaparecendo lentamente da vida dos mais novos. Pela interpretação, pelo encanto pessoal, pelo compromisso político, certamente pelos poetas que ajudou a conhecer ao divulgá-los nas letras de muitas canções.

Nasceu em Itália e ainda criança instalou-se com os pais em França para escapar ao fascismo. Começou como ajudante de barbeiro, inscreveu-se no Conservatório com 19 anos, estreou-se no teatro onde contracenou com Jean Marais, entrou em alguns filmes. Passou no entanto rapidamente à clandestinidade na Resistência francesa. Regressou ao cinema depois do fim da guerra, mas foi como cantor que se consagrou, a partir de 1964. Entre muitos outros, cantou Boris Vian, Rimbaud, Prévert e Appolinaire.

Algumas das canções a não esquecer:







E esta, obviamente:


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PP e Vox, os inesperados inimigos

 


«As eleições espanholas suscitam duas grandes interrogações. A primeira é saber se o Partido Popular confirmará o seu favoritismo e terá condições para governar. O PSOE, ao longo da última semana, alterou a sua táctica e passou a apostar na “não vitória” do PP, ou seja, num cenário de bloqueio que, em caso limite, poderia levar à repetição das eleições.

Segunda questão: no caso de o PP vencer, resta saber se será forçado a formar um governo de coligação com o Vox. A pergunta óbvia é se, nesse caso, Alberto Núñez Feijóo governará com o seu programa ou ficará dependente de Santiago Abascal. O confronto entre as duas direitas é muito mais complexo e, nestas eleições, terá mais consequências do que a batalha entre esquerda e direita.

Até à passada segunda-feira, as sondagens apenas admitiam como possível uma vitória do PP. Houve momentos importantes desde então, passando pelo debate a três (sem Feijóo), mas só teremos certezas neste domingo à noite. Para o PP, há uma grande diferença entre obter 140 deputados, o que não o emanciparia do Vox, ou 160, número que lhe daria “mãos livres”. Mas, repita-se, números só os teremos neste domingo à noite e só então vale a pena discuti-los.

“O que se vota no domingo é bloqueio ou governo. Portagens de minorias ou uma maioria”, diz Feijóo. Ele conhece bem o imenso desgaste que o Governo de Pedro Sánchez sofreu com as querelas entre o PSOE e os seus aliados.

Para a esquerda, trata-se de travar uma reemergência do neofranquismo, encarnado pelo Vox. A extrema-direita de Abascal continua a ser anti-imigração, antifeminista, antieuropeísta e negacionista da mudança climática, com uma marca cultural neofranquista. Note-se que no debate a três na RTVE, Abascal não foi agressivo, evitou meter medo, defendeu todos os seus temas com aparente moderação. Para que serve um “Abascal que não mete medo?”, perguntou-se um colunista. Nada indica que o tom se mantenha depois da votação, ele que gosta da política do pior. E nada indica que deixe de denunciar “a direita cobarde” do PP.

A esquerda apostou em centrar a sua campanha na identificação do PP com o Vox, apesar do esforço de Feijóo para se demarcar de Abascal. Feijóo encarna uma posição moderada e rejeita o populismo da extrema-direita. Estará consciente de que as dinâmicas culturais e sociológicas da Espanha não favorecem um modelo social ultraconservador.

O objectivo político de Abascal é ser determinante na formação do próximo governo espanhol. Sonhava com a vice-presidência do governo, mas as suas expectativas foram baixando com as sondagens. O pior cenário que teme é o trinfo da estratégia do PP, que apela ao voto útil para não depender do Vox. Diz Feijóo: “O Vox e Sánchez são os mais interessados em que o PP não obtenha uma maioria.” Deste ponto de vista, Abascal está numa bifurcação. O que menos lhe interessa é um PP forte que não precise dele.

Escreve com ironia, no La Vanguardia, a jornalista Susana Quadrado: “Vamos à pergunta do milhão. Quer o Vox que ganhe Sánchez? Modestamente, quem isto escreve pensa que sim. A prioridade do Vox não é afastar Sánchez, mas mantê-lo na Moncloa [presidência do governo], atazanado pelas suas dependências parlamentares. O contrário deixa o Vox sem discurso e sem razão de ser. Abascal não quer um Feijóo forte que converta o Vox num apêndice desnecessário, antes deseja um Sánchez débil e com tutelas. (…) Perante um fracasso do PP, Abascal poderia erigir-se em salvador da pátria.”

Alarmes na Europa

Em várias capitais europeias, as eleições espanholas são um motivo de alarme. “Bruxelas está compreensivelmente nervosa com a ascensão da extrema-direita”, escreveu há dias no Guardian o colunista Simon Tisdall. “Um triunfo do Vox teria um fortíssimo eco através da Europa.” Para o autor, o Vox torna-se o kingmaker da Espanha. “Pela primeira vez, desde a era de Franco, a extrema-direita poderá ocupar lugares de governação.”

Políticos e figuras europeias têm apelado à exclusão do Vox. Ainda ontem, Gordon Brown, antigo primeiro-ministro britânico, publicou um dramático texto no Le Monde: “A capitulação perante a extrema-direita espanhola teria repercussões em todo o continente.” Deplora a aliança dos conservadores espanhóis com o Vox.

O que está em causa é a possibilidade de mais um partido de extrema-direita entrar para um governo europeu. Não é uma questão exclusivamente espanhola.

Na semana passada, Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana e líder do partido Irmãos de Itália (pós-fascista), interveio na campanha eleitoral espanhola através de uma mensagem vídeo, frisando que é “crucial” que o partido de Abascal desempenhe “papel importante” na formação do futuro governo espanhol. “Faltam dez dias para que os patriotas [cheguem ao executivo].” Aproveitou para denunciar: “Durante anos, contaram-nos o conto de fadas do modelo de fronteiras abertas [, o que resultou] na imigração maciça, como toda a gente pode agora ver.” Também não poupou os objectivos ecológicos europeus.

Meloni quer refazer o mapa político europeu, em cumplicidade com Manfred Weber, presidente do PPE. E quer ter um aliado directo dentro do futuro governo de Madrid: Santiago Abascal. Numa outra mensagem de apoio a Weber, acrescentou: “É muito importante que o Vox entre no governo de Espanha.” Um convite a pressões sobre Feijóo?

Moral da história: se Abascal entrar para o executivo de Madrid, será mais um drama europeu; se o PP dispensar os seus serviços, Bruxelas poderia deitar foguetes.»

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