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17.9.25

Catarina Martins

 


1.9.25

Perceções, pacotes e vídeos: a regressão da propaganda

 


«Poucos dias depois de ter feito uma longa intervenção, na qual dedicou poucos minutos aos incêndios, em parte para se queixar de estar a estragar a transmissão televisiva da festa do Pontal, Montenegro deve ter sido aconselhado pela sua agência de comunicação a marcar um Conselho de Ministros especial para aprovar mais um pacote. É isto que faz há quase dois anos. Nada há que um PowerPoint não resolva.

Pôs a gravata preta, aceitou responder a umas perguntas, assumiu a sua responsabilidade pela percepção injusta sobre a sua responsabilidade (que é uma forma muito particular de assumir responsabilidades) e aqui vai disto: em poucos dias, passámos de sete minutos num discurso de quase uma hora para uma estratégia para a floresta para os próximos 25 anos. Como não há milagres, era, em grande parte, rebranding de matéria herdada para ocupar o sonoro até mais uma crise de perceções passar.

Um dia depois de se ter percebido que nenhuma das 45 medidas incluía os bombeiros, o governo anunciou uma medida para os bombeiros – uma majoração nos seus rendimentos e promessas sobre o estatuto dos bombeiros. Ao rebranding teve de ir fazer acrescentos, à medida que se notaram as falhas da pressa.

Poucos dias antes, foi Ventura que saiu das redes e acordou para um tema pelo qual não podia responsabilizar os imigrantes – mais tarde, depois de puxar pela cabeça, lá apareceu a comparação entre os supostos subsídios dados aos imigrantes e o que recebem os bombeiros voluntários. Se Montenegro caça com pacotes, Ventura caça com vídeos. E desta vez esmerou-se.

No primeiro que vi, recebia, na sede do partido, mantimentos para quem combatia os fogos. Atendia jovens e transportava os mantimentos de forma mais ou menos irracional. Anotava o que faltava, limpando da testa suor inexistente, depois de tanto esforço de notário. Descia escadas transportando pesos, apesar de o elevador do prédio ser visível. E enchia carrinhas, sendo que filmavam lá de dentro. O esforço de realismo era semelhante ao de uma novela venezuelana dobrada. Nenhuma pessoa com cérebro funcional podia sequer ter dúvidas da encenação.

No segundo vídeo que vi, o Super Ventura, que há poucos dias ainda mal tinha dado pelos incêndios, saiu do estúdio e foi para o “terreno”. Ele e um estagiário, de cócoras, camisas impecáveis, atacaram afanosamente uma pequena labareda na base de um eucalipto. Não fosse um momento heroico, poderia pensar-se que era um gozo a bombeiros e cidadãos que andaram a lutar contra os fogos para salvar casas e vidas. No fim, depois de um dia de luta contra os incêndios, Ventura teve o seu momento sentimental para dar festas a um cão que, com faro infalível, não se aproximou da farsa. A ele, o algoritmo não engana. Uns dias depois, ainda vi mais um momento de ação do líder do TikTok, a transportar fardos de palha.

Depois de ver o seu líder apagar uma perigosa labareda, os trolls da extrema-direita nas redes sociais dedicaram-se a tentar desmentir a participação de imigrantes no verdadeiro combate às chamas. Aquele que não se faz de camisinha para o funcionário que trata das redes filmar.

Olha-se para aquilo e pergunta-se se alguém pode realmente acreditar no que vê. Depois, lembramo-nos de que a versão portuguesa do ataque à faca a Bolsonaro e o ataque a tiro a Trump foi o ataque de azia a Ventura, que lhe valeu uma cobertura exaustiva nas televisões e um crescimento imparável nas intenções de voto. Se o espetáculo que deu naqueles dias resultou, porque não havia de resultar a Leni Riefenstahl em versão “Duarte e Companhia”? Parece que o eleitorado aceita que, na nossa pequenez, merecemos uma versão de baixo custo.

Os governos sempre fizeram que faziam para responder aos momentos mediáticos. A oposição sempre tentou fazer que faria melhor se governasse. A demagogia e a manipulação nada têm de novo e a nossa direita, liderada pelo refugo político, parece ter-lhe um gosto especial – vejam como Carlos Moedas governa a capital há quatro anos, sem pegar na Câmara e largar a câmara. Mas nunca nada disto foi feito com tanto desrespeito intelectual pelos destinatários. Enganem as pessoas, mas não as tratem como imbecis. Esforcem-se.

A direita está mais estúpida? Os eleitores são mais ingénuos? Não. O escrutínio jornalístico é que tornava este tipo de exercício mais exigente. Se não fosse feito com o mínimo de profissionalismo, morria à nascença. Não é que o escrutínio já não se faça. Mas deixou de funcionar. Poucos querem saber do “jornalixo”.

Agora, procuram a manipulação direta, sem intermediários óbvios. É por isso que não estamos a assistir apenas a um retrocesso político e ético. O retrocesso é estético e cognitivo. Duas décadas de expansão das redes sociais parecem ter garantido uma notável involução da espécie. Para quem é, isto basta.»


27.8.25

Incêndios e despovoamento

 


«Nota-se hoje uma menor responsabilização dos políticos e da política pelos problemas dos incêndios. Quinta-feira passada, a ministra da Administração Interna afirmou (na RR): "quem tem a responsabilidade de decisão precisa de tranquilidade e de sossego". Se dissesse isto, uns anos atrás, era crucifixada. O primeiro-ministro anda "a resolver os problemas das pessoas" ("modernizando" o trabalho precário e mal pago e comercializando a nacionalidade), não consegue mais presença no terreno. E o presidente da República já não precisa tanto de selfies. (…)

É preciso proteger as pessoas, as suas casas e as aldeias. Sem dúvida! Mas, quando já não há mais nada a fazer significa que chegamos ao fim da linha. A retirada das pessoas pode tornar-se a antecâmara do abandono, do despovoamento. Elas, para habitarem numa aldeia precisam de ter trabalho, de atividades que lhes garantam meios materiais e serviços fundamentais. Não chega protegê-las na hora dos incêndios como os bombeiros procuram fazer, e bem.»

Na íntegra AQUI.

26.8.25

Estado de fumo

 


«Cheguei à minha aldeia, vizinha de Alpedrinha, na passada segunda-feira. O fogo já tinha descido encostas, galgado caminhos, desenhado no território uma geometria sem lógica, cheia de linhas de ameaça que os mapas não previam e que o vento reescrevia à sua vontade.

Os meus pais tinham decidido ficar. Na cidade, não se compreende o porquê. É perigoso, imprudente. Porque não fogem? Mas basta atravessar o país para perceber que ali, onde o socorro é incerto e o Estado é uma ausência ruidosa, a única estratégia é resistir. Quando não há garantias de que alguém virá proteger a casa, protege-se a casa. Porque as paredes ancoram. Porque, se elas caírem, arde também o que as rodeia. Ficar, nestas terras, também é proteger os outros.

As noites foram longas, tensas, dormia-se pouco. Dormia-se em turnos. Regavam-se os muros, as árvores, os caminhos, os telhados. As sirenes estavam longe, mas não sossegavam. À nossa frente, a Gardunha ardia em colunas que subiam e desapareciam como fantasmas. A cada rajada de vento, temia-se o desvio.

E, do outro lado, ninguém nos dizia o que fazer.

As aldeias organizaram-se como podiam. Homens com pás. Mulheres com baldes. Tratores a abrir caminhos improvisados. Grupos de Facebook a substituir o comando. Era ali que se anunciavam evacuações, que se mapeavam acessos, que se pediam braços. A informação não tinha centro, estava dispersa, vinha de mensagens, de boatos, de chamadas entre vizinhos. As juntas de freguesia publicavam comunicados em redes sociais. A GNR local, apesar de atenta, não sabia de nada. E assim se decidia: entre telefonemas, alertas, mãos no ombro. A logística da sobrevivência nascia da comunidade e não da estrutura.

Falei com um homem da Enxabarda. Contou-me que estava em casa quando o irmão ligou: os pais, numa aldeia mais a norte, estavam a ser evacuados. Subiu para a mota e foi. Chegou já com o fogo a cercar. Passou horas com uma pá, porque não havia água. Não havia bombeiros. Não havia ordens. A aldeia resistiu porque as pessoas estavam lá.

A sensação era a de um país sem Estado. Sentia-se que a promessa de proteção estava diluída em discursos. Lá, entre o plano e o incêndio, há uma distância onde só cabem os corpos.

Durante dias, a terra queimava e o Primeiro-Ministro permanecia no sul. Mergulhos, sorrisos, fotografias partilhadas entre fagulhas, a fórmula 1. As imagens cruzaram-se. E o país viu. Não foi só infeliz. Foi desadequado. Foi injusto. Há momentos em que o poder não pode estar longe, mesmo que não tenta nada para oferecer. Há presenças que se exigem pela sua própria existência.

O discurso do Pontal foi a confirmação de uma ausência prolongada. Um reflexo de governo fechado sobre si, como se a sua função fosse gerir o tempo mediático. Um sinal de que, por vezes, o exercício do poder esquece que o país não se resume às luzes de Lisboa.

Dias depois, quando o fogo ainda não parece dar tréguas mas as cinzas já deixam ver a paisagem queimada, chega o Governo. De gravata preta e rosto solene, o Primeiro-Ministro aparece, em Viseu, com o semblante esperado. Diz que lamenta “a percepção”. Mas não lamenta os seus erros. Diz que compreende “a sensibilidade”. Mas não reconhece o abandono. E anuncia medidas. São dezenas. Muitas têm nome de plano. Outras de promessa. Quase todas parecem responder à mesma lógica: tapar os buracos deixados pelas chamas. Ajudar quem perdeu. Indemnizar o que ardeu. Compensar a ausência com apoios. É o ritual habitual: o país arde, o Governo aparece, as câmaras registam, os papéis circulam.

Mas há um problema antigo nisto tudo: as ajudas tardam, e a prevenção nunca chega. E há a memória da família de Avelino Mateus Ferreira, morto em 2017, que três anos volvidos ainda não tinha recebido as indemnizações prometidas. Ainda há casas por reconstruir, caminhos por limpar, planos por cumprir. E, enquanto isso, os incêndios regressam. Repetem-se. Reescrevem os mesmos lugares com a mesma fúria. E o que se escuta da política é, invariavelmente, o mesmo som de sempre. Só se ouve depois da tragédia.

Arder não é excepção. Tornou-se, para Portugal, uma forma de agosto. E talvez isso nos diga mais do que gostaríamos.

Dizem-nos que o clima mudou. E é verdade. Mas a meteorologia não explica tudo. Portugal arde duas, três, quatro vezes mais do que os países vizinhos que têm a mesma secura, o mesmo calor, o mesmo verão. Há algo de estrutural na nossa fragilidade e que foi sendo tecido ao longo de décadas, à sombra do crescimento rápido e do abandono lento.

Somos o país da paisagem esquecida. Das encostas entregues a quem nelas consiga lucrar. Das árvores que ardem depressa porque crescem depressa. Uma floresta desenhada como conomia. A monocultura tornou-se o nosso modelo de ocupação. E o eucalipto o nosso símbolo de urgência: cresce, rende, arde.

(É uma anomalia no mediterrâneo. Espanha concentra as monoculturas de eucaliptos na Galiza — onde começou o fogo que se alastrou para território nacional — e nas Astúrias. Outra exemplo é Itália, que vê a maior parte da sua área rural ocupada por latifólias.)

Mas há outras árvores, e há outras formas de pensar o território. Folhosas autóctones, mosaicos de gestão, margens ripícolas que travam, desacelaram o fogo. Não é utopia nenhuma. É ciência, pode ser práctica, pode ser política. Se houver vontade de a fazer.

Mas fazer isto exige tempo. E dinheiro. E uma palavra que a democracia raramente pronuncia: continuidade.

França, que arde menos, começou a pagar o que chama o “custo da paisagem”. Aceitou que prevenir não é mais barato, mas é mais justo. Porque evita perdas que não se contam apenas em hectares. Contam-se em histórias, em casas salvas por uma pá, em noites acordadas com medo que o vento mude de lado.

Portugal já tem planos. Tem fundos. Tem palavras. O que lhe falta é densidade. A gravidade que obriga a pensar o território a partir do futuro. Não basta plantar. É preciso manter. Não basta manter. É preciso rever. E, sobretudo, não basta prometer. É preciso reordenar o olhar: da árvore para a floresta, da floresta para a aldeia, da aldeia para a terra.

Talvez o pacto de regime que o primeiro-ministro agora propõe venha tarde. Talvez não. Mas só será um pacto se aceitar o óbvio: uma paisagem que resiste custa. E não custa pouco.

Mas custa menos do que um país que arde todos os verões.»


25.8.25

Chiado 25.08.1988

 



Os brinca na areia

 


«Esta crónica não é sobre os falhanços do Estado no combate aos incêndios — seja pela falta de meios aéreos e terrestres, seja pela absoluta descoordenação. Não é, tão-pouco, sobre o crónico insucesso na prevenção — seja pela desordenação florestal, seja pela ausência de limpeza das matas. E também não é sobre as alterações climáticas — sejam as ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, seja a desertificação associada ao despovoamento. Sobre tudo isto muito se tem escrito, tanto nos últimos dias como ano após ano, desde que o fogo se tornou arma política. A lógica é sempre a mesma: para quem está na oposição, a culpa é de quem governa; para quem governa, a culpa é de todos, mas sobretudo do governo anterior.

Não sendo esta uma reflexão sobre o falhanço coletivo, importa sublinhar, ainda assim, que esta maneira de ser português prejudica profundamente as populações do interior. Mesmo aqueles que escapam sem a mais leve queimadura acabam vítimas do “deixa arder”. “Não tem paralelo”, afirma Marcelo sobre o que já se passou este ano, consciente de que morreram pessoas e arderam milhares e milhares de hectares. Ao ouvir o Presidente da República, fica-se com a impressão de que a brutalidade dos números de 2017 justifica tudo. Mas, muito antes disso, entre incêndios, aos do interior já lhes tinham retirado hospitais, escolas e agências bancárias. Construíram-lhes autoestradas de sentido único, rumo ao litoral, onde se concentram os empregos. E os que não conseguem fugir tornam-se um pouco mais pobres a cada ano que passa.

Génios do marketing político

Esta crónica é sobre os políticos que, de tão geniais, acabam por fintar-se a si próprios e a atirar a bola para o calçadão. Aqueles que estão sempre mais interessados em endrominar o povo do que em resolver os seus problemas. Os que, através dos pactos que propõem, tentam convencer-nos de que a culpa é precisamente dos mesmos com quem dizem querer pactuar. Do mesmo modo que os que agora são oposição se desfizeram em explicações que os ilibavam quando estavam no poder.

Os que, a meio do mês, estavam felizes e satisfeitos consigo próprios — com o pé na areia e o copo na mão — e se queixavam dos fogos que lhes estragavam a imagem festiva na televisão, não fazem um verdadeiro mea culpa: limitam-se a sacudir a água do capote. Pela análise do professor Marcelo, ficamos a saber que o grande plano é, afinal, muito semelhante ao que Costa apresentara — e que pouco ou nada resolveu. Pelo estremecimento de Marta Temido, ficamos a perceber que pode estar tudo colado com cuspe.

Fogo nas presidenciais

Antes da indignação coletiva que o ecrã dividido potenciou, o candidato presidencial Gouveia e Melo mostrou-se envergonhado com a avaria dos meios aéreos e pediu o fim do “Estado do improviso”. Logo surgiu o seu principal adversário, Rebelo de Sousa, estendendo a mão ao governo e garantindo que a coordenação era “espetacular”,enquanto o seu candidato, Marques Mendes, alinhava no politicamente correto que só permite discutir o combate aos incêndios quando já não houver nenhum incêndio para apagar.

Generalizada a indignação pela festa que não foi suspensa, Marcelo percebeu que tinha de mudar de campo. Depois de fintar meio mundo em apoio ao governo, resolveu recuar e fintar o outro meio, apontando o dedo a quem “está em execução e decide em cima da hora [porque] muitas vezes chega tarde ou não percebe bem o alcance [da situação]".

Nestes tratados de hipocrisia e cinismo, há pelo menos uma coisa em que temos de concordar: andamos todos — com honrosas exceções — a fingir que existem soluções fáceis, dependentes apenas da boa-vontade de quem detém o poder em cada momento. Mas, depois de improvisarem no combate aos fogos, acabam sempre por ter de improvisar também na comunicação política, quando percebem que, por muito elaborado que seja, o spin nunca consegue sobrepor-se à realidade.

Os políticos tradicionais estão viciados em falar uns para os outros e perderam a capacidade de perceber o que sente e pensa o povo. Com a desculpa do que aprenderam em 2017, deixaram de ir para o terreno — onde estava Gouveia e Melo, não para atrapalhar o combate, mas para ouvir quem tudo perde. O almirante rapidamente se deu conta de como crescia a indignação das populações do interior, deixadas ao deus-dará no meio do fogo. Lembram-se do autarca de Arganil, desesperado, a gritar que tinha avisado que aquela “merda” ia acontecer? Foi no dia da festa, mas a festa ainda nem tinha começado!»


23.8.25

O país em modo de rescaldo

 


«Se mesmo António Costa, depois da absoluta tragédia que foi Pedrógão, teve condições para voltar a ganhar eleições, não há nada que indique que Luís Montenegro, com o tempo como aliado, não possa apagar os efeitos de um Verão desastroso. Há, no entanto, sinais que podem perdurar, independentemente dos esforços de contenção de danos feitos nos últimos dias.

Um desses sinais é o da inexistência da ministra da Administração Interna. É a segunda vez que Luís Montenegro escolhe uma titular para uma pasta estratégica que aos primeiros sinais de uma crise se mostra inexistente. É ele o responsável, mas é ela o rosto da ausência governamental, lapidarmente registada na fuga do “vamos embora”. O peso deste erro de elenco está não só no facto de ser uma pasta com dossiers sempre importantes, como a segurança ou a protecção civil, mas por ser a tutela de polícias e bombeiros. Ambas são forças com uma imensa implantação territorial, uma ligação forte à comunidade e onde o Chega tem conseguido uma boa implantação.

Outra marca perene é a de que o Governo é frágil a gerir crises. Já tinha sido assim com o apagão, foi agora com os incêndios. Muito hábil na refrega política, o executivo atrapalha-se quando a crise a gerir está no país e não nos corredores de São Bento, do Parlamento ou dos ministérios.

Para quem domina a comunicação pelo silêncio, Luís Montenegro tinha obrigação de saber quando é mesmo preciso falar. O contraste entre o primeiro-ministro que entrou nos telejornais para comunicar os resultados de uma banal operação policial e aquele que só ao fim de quase um mês de incêndios é que se dirigiu ao país é uma imagem que permanecerá.

Depois de tanta inacção, o anúncio apressado de tantas medidas — com o episódio caricatural das taxas moderadoras — também não ajuda a contrariar a imagem de que o executivo é mais guiado pela necessidade de resolver um problema político do que a de ir à essência das questões que fazem com que sejamos o país da União Europeia com a maior percentagem de território ardida.

E o pior de tudo é o que já cá estava e que nada do que aconteceu nos últimos dias irá dissipar. Um interior abandonado, um país centralista e com falta de planeamento, um dispositivo operacional desorganizado e políticos que, em vez de evoluírem com os erros cometidos no passado, acham que têm de começar tudo de novo para fazer prova de vida e mostrar iniciativa. Até à próxima crise.»


21.8.25

Ramos de giesta e alguidares

 


«"Fala-se em aumentar o investimento na Defesa. Como pode este país falar disso quando os nossos concidadãos têm que enfrentar o fogo com ramos de giesta, baldes, alguidares e mangueiras de regar o jardim?" A crítica, em forma de pergunta, foi feita por Xavier Viegas, um dos maiores especialistas em incêndios e professor jubilado da Universidade de Coimbra, na semana passada, no JN, quando as chamas já tinham livre trânsito no Centro e Norte do país, e enquanto todos assistíamos, em sucessivos diretos televisivos, que se mantêm desde então, ao desespero das populações de tantas aldeias com o fogo à porta, sem ajuda visível.

Foi há cerca de um mês que o primeiro-ministro explicou o impacto de antecipar, ainda este ano, a meta de investimento de 2% do PIB (a riqueza anual produzida no país) em Defesa: mais 1300 milhões de euros, que somam aos mais de quatro mil milhões que já se gastam todos os anos. Ou seja, o que Luís Montenegro propôs ao país é que o Orçamento do Estado reserve, todos os anos, mais de cinco mil milhões de euros dos impostos dos portugueses para a Defesa. Acresce que há um compromisso de chegar a 5% do PIB até 2035, ou seja, e a "preços" atuais, uma escalada de custos até aos 14 mil milhões de euros por ano.

Não há dúvida de que se vive um período de incerteza e confrontação. E que União Europeia (Portugal incluído) não pode continuar dependente de uma potência pouco fiável (os EUA de Trump) ou incapaz de se defender perante a ameaça de autocratas imperialistas (a Rússia de Putin). Mas, como em tudo, é preciso fazer as contas. Racionalizar, integrar, cooperar, até fundir, se necessário, o poderio militar europeu, antes de começar a gastar. E estabelecer prioridades para o combate. Começamos pelos caças, mísseis e navios, ou por garantir que há algo mais do que ramos de giesta, alguidares e mangueiras de jardim?»


O que são NbSs?

 


20.8.25

Não vamos embora

 


«À primeira vista, é "apenas" um gesto de inabilidade política, indelicadeza e desrespeito pelo escrutínio a que qualquer titular de cargo público está sujeito. Terminada uma curta declaração sobre os incêndios, a ministra da Administração Interna ignora uma pergunta dos jornalistas, levanta-se e dirige ao staff um sonoro "Vamos embora". O que acaba por ser, simbolicamente, uma síntese perfeita do que sucessivos governos têm feito ao país que arde e sofre as consequências do abandono.

O Estado tem ido embora, literalmente, de concelhos onde foram encerrados serviços públicos que eram essenciais para assegurar proximidade, conhecimento do território, qualidade de vida e dinâmicas locais de emprego. E tem ido embora a cada decisão que acentua assimetrias e concentra recursos e investimento em Lisboa - o que acontece em praticamente todas as áreas setoriais. Se analisarmos orçamentos e modelos de decisão e governação, somos um país profundamente centralizado e em que grande parte do território é, de facto, paisagem.»

Continuar a ler AQUI.

18.8.25

Lata, lata e mais lata

 


E um esforço titânico para não dizer isto com o seu sinistro sorriso.

No Pontal, um primeiro-ministro a brincar com o fogo

 


«No pior discurso de sempre enquanto primeiro-ministro (até a comunicação ao país sobre as apreensões de objectos furtados parece hoje, em comparação, uma ópera de Verdi) Luís Montenegro fartou-se de se queixar da “veemência” dos comentadores que são alegadamente mais “veementes” do que os políticos em funções.

Num discurso errático e “piegas” (com pena de si próprio e de quem o critica), o primeiro-ministro também se chorou pelo facto de as televisões, naquela quinta-feira negra, terem duas imagens ― uma “janela” aberta para os directos da Festa do Pontal, onde os ministros e dirigentes do PSD confraternizavam e bebiam à saúde do seu partido, e outra “janela” aberta para os incêndios que estão a devastar o país.

Luís Montenegro já nos tinha dado exemplos variados da sua falta de noção, como o processo Spinumviva demonstrou. O distanciamento dos portugueses em choque com os incêndios, que foi óbvio no discurso, foi mais um episódio de que o poder, muitas vezes, cega.

Pode-se fazer uma festa no meio de um velório? Em algumas culturas, sim. Em Portugal, não acontece. Quando o Governo exige aos imigrantes que respeitem “a nossa cultura” está a falar de não beber enquanto decorre um velório ou, antes pelo contrário, de aproveitar a ocasião para se divertir ao máximo? Convém esclarecer, já que os imigrantes seguramente vão ficar baralhados.

Não houve Governo durante os incêndios. À última hora, alguém (talvez o Presidente da República que foi tão crítico ― e bem ― da forma como o Governo PS lidou com os incêndios de 2017) deve ter explicado ao primeiro-ministro que a ausência de comando político durante uma crise nacional como os incêndios é um problema.

A somar a isto, ver as imagens, nas revistas sociais, de um “Montenegro mais magro” a mergulhar nas águas do Algarve enquanto o país ardia transmite uma percepção de alheamento. No caso, não foi só percepção, atendendo à demora em accionar a ajuda internacional.

É interessante como um Governo tão preocupado com as “percepções” sobre a imigração e sobre a segurança, que acabou de tornar a lei dos Estrangeiros tão dura que foi considerada inconstitucional, não se importa com as outras percepções sobre a sua ineficácia política em relação aos incêndios. Ou importou-se na vigésima quinta hora, quando Montenegro anunciou que ia suspender as férias, já num gesto de tentar remediar o irremediável.

Quem ouviu Montenegro criticar as televisões por “preencherem os ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal” viu, naquele discurso, um grau elevado de descolamento da realidade. Torna-se ainda mais absurdo quando vindo de uma pessoa que, no passado, exigiu um “pedido de desculpas” a António Costa pelos incêndios durante o mandato do antigo primeiro-ministro.

Montenegro sustentou, no discurso do Pontal, que é possível “fazer a festa” e acompanhar o que se passa no terreno. Pois, mas as percepções de que ninguém está a acompanhar a sério foram evidentes. E, já agora, também era possível comemorar o 25 de Abril e chorar a morte do papa Francisco – aliás, com muito mais propriedade – e Montenegro suspendeu as festividades.

Ainda bem que o primeiro-ministro cancelou as férias. Como se provou pelo discurso e toda a parafernália do Pontal, não estavam a ser reparadoras.»


A tragédia que espere

 


Se Marques Mendes ainda fosse comentador de serviço no Domingo à noite, com um outro partido no governo, chovariam constelações de críticas. Como está convencido de que vai ser Presidente, sai-lhe isto:

"Há um tempo para tudo e este não é ainda o tempo de fazer um balanço, uma avaliação ou de fazer críticas por mais legítimas e pertinentes que elas sejam."


30.7.25

Centenas de horas com imagens de fogos nas TVs

 

𝐀𝐮𝐝𝐢ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬, 𝐟é𝐫𝐢𝐚𝐬, 𝐢𝐧𝐜𝐨𝐦𝐩𝐞𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐠𝐮𝐢ç𝐚 𝐧ã𝐨 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚𝐦 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐬𝐚𝐛𝐞: 𝐚𝐬 𝐓𝐕𝐬 𝐞𝐬𝐭ã𝐨 𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐢𝐧𝐜𝐞𝐧𝐝𝐢á𝐫𝐢𝐨𝐬, 𝐣á 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐫𝐦𝐚𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐝𝐞 𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐜ê𝐧𝐝𝐢𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐞ç𝐚𝐦 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐚 𝐧𝐨𝐢𝐭𝐞 𝐞 𝐪𝐮𝐞 𝐬ó 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐦 𝐭𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐠𝐨 𝐩𝐨𝐬𝐭𝐨.

16.6.24

As feridas do Interior

 

«Completa-se amanhã mais um ano sobre o incêndio que mais vítimas causou no país e é provável que o tema entre pouco no espaço mediático, visto que o 10 de Junho já passou por Pedrógão. Ouviram-se odes ao país inteiro, à ruralidade, à coesão social e à resiliência. Prometeu-se que será desta que as medidas para corrigir assimetrias serão concretizadas e que as políticas de valorização da metade mais esquecida do país não ficarão na gaveta. Para o ano, muito provavelmente, voltaremos a ouvir reflexões idênticas.»