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14.6.24

O dia seguinte

 


«As eleições foram para a “Europa”, mas os resultados parecem sempre ser adequados para leituras “nacionais”. Entre empates, vitórias e derrotas, os seus efeitos são relevantes para os próximos meses da política portuguesa.

O PS sai vitorioso. E isso tem como consequência que a estratégia de oposição e a própria liderança de Pedro Nuno Santos saiu reforçada. Os muitos que nos últimos três meses andaram a tentar forçar os socialistas a viabilizar políticas e orçamentos do governo das direitas, ficaram (momentaneamente) paralisados. O problema do resultado das europeias para o PS é hoje outro - é que para essa estratégia de alternativa ao grande bloco das direitas lhe faltam hoje parceiros com quem construir uma maioria social de esquerda.

Já a AD não conseguiu capitalizar os sucessivos anúncios de medidas pelo Governo de “dar tudo a todos” e a aposta em Sebastião Bugalho não rendeu - o jovem comentador não conseguiu trazer de volta ao PSD o voto tresmalhado dos jovens liberais. Pelo contrário, a IL conseguiu com Cotrim de Figueiredo ter o grande resultado da noite. A esquerda à esquerda do PS viveu (mais) uma noite difícil - e as palavras de alívio das lideranças do Bloco e do PCP aquando da eleição de cada um dos seus eurodeputados pareceram ignorar que a perda eleitoral se tem vindo a acentuar neste espaço político desde 2019. Creio que não é cedo para admitir essa perda, se houver coragem de assumir algumas mudanças políticas. Aliás, ou estas esquerdas encontram uma fórmula que lhes permita politizar e representar o mal-estar social que se acumulou na sociedade portuguesa nos últimos anos, ou ficarão reduzidas a franjas minoritárias, que pouco conseguem influir nas políticas e nos debates nacionais. Hoje, o risco não é a eventual perda de identidade política, é antes a irrelevância no quadro nacional.

Já a estrondosa derrota do Chega, reduzida a metade do resultado das legislativas, não pode deixar de ter consequências no curto prazo. Ao contrário da extrema-direita pelo continente afora, o Chega não tem, e não quer ter, um discurso ou sequer uma ideia digna desse nome sobre a questão europeia e da pertença ao euro. Também por isso, Ventura não conseguiu mobilizar o eleitorado que tinha ido buscar à abstenção nas legislativas. Mas o custo dessas ausências - de ideias e de eleitores - é que ficou com a sua estratégia nacional comprometida. A partir de dia 9 de junho, é ao Chega, e apenas a este partido, que passa a ser apresentada a fatura sobre a aprovação do próximo orçamento de Estado e vida futura do governo da AD.

No domingo, Ventura ficou entre a espada e a parede. Por um lado, até Outubro não há tempo suficiente para se instalar um clima de mal-estar à direita contra a AD, que aliás governará até lá em registo de campanha eleitoral permanente. Por isso, os custos de deitar abaixo um governo de direita e abrir a hipótese de regresso da esquerda ao poder podem revelar-se fatais para Ventura. A pressão para apoiar o Orçamento - e não chega sequer a abstenção - será significativa. Por outro lado, se viabilizar o Orçamento torna-se co-responsável pelos fracassos e fraquezas que, mais tarde ou mais cedo, o Governo da AD vai exibir. Portanto, é risco o voto de protesto que, na extrema-direita, é contra tudo e contra todos. Mesmo assim, se a cadência política se mantiver em velocidade de cruzeiro, o entendimento entre AD e extrema-direita parece hoje inevitável.

E de França, chega-nos o sinal. O líder d’Os Republicanos, a direita conservadora e tradicional francesa, anunciou a intenção de estabelecer uma coligação eleitoral com a extrema-direita de Le Pen, para as eleições relâmpago que Macron marcou no rescaldo das ondas de choque das europeias. Esse anúncio fez os republicanos entrarem em convulsão interna, mas a mensagem é clara - à direita acabou a estratégia do cordão sanitário.

Estranha é esta Europa. Parece hoje mais fácil abrir o caminho para poder aos nacionalismos neofascistas do que impor políticas sociais e redistributivas que respondam ao mal-estar acumulado pelos efeitos de quatro décadas de neoliberalismo.

Os tempos de escuridão aproximam-se. Preparemo-nos.

PS - A pedido da Direção do DN esta é a minha última crónica. Estou certa que nos encontraremos mais à frente. Foi um prazer ter estado aqui todas as semanas.»


10.6.24

Quase tudo na mesma, com o Chega mais entalado

 


«As últimas eleições europeias foram em 2019. A realidade política era radicalmente diferente. O PS estava em crescimento e o PSD, separado do CDS, em grandes dificuldades; ainda havia “geringonça” e Bloco e CDU ainda valiam quase 17%; o Chega, ainda sem existência formal, teve de concorrer numa coligação às cavalitas de outros partidos; a IL dava os primeiros passos; e o Livre estava longe de qualquer eleição. É, por isso, enganador comparar este resultado com os de então. Apesar de serem eleições diferentes (a começar por um universo mais restrito de eleitores), as legislativas estão tão próximas que é impossível não as ter como referência, se queremos fazer alguma leitura política da noite de ontem. Até a semelhança dos resultados o demonstra.

Disse, na sexta-feira, na SIC Notícias, que o normal seria a AD alargar a sua vantagem em relação ao PS. Saiu de uma vitória em legislativas muito recente, o que dá sempre gravitas à liderança. Ao fim de três meses, vive o habitual estado de graça (que não teve no primeiro mês). A sucessão de anúncios de medidas, num clima de campanha governativa, tenderia a favorecer Bugalho. O cabeça de lista da AD não se pode queixar da falta de empenhamento do primeiro-ministro, enquanto tal. Pelo contrário, o PS saiu de uma derrota recente e tem estado sob grande pressão para ser a muleta do governo.

Qualquer resultado que não correspondesse a um aumento desta diferença só poderia ser explicado, disse-o há dois dias, pelos cabeças de lista das duas principais forças. A conclusão é que Pedro Nuno Santos acertou ao escolher Marta Temido e Luís Montenegro falhou ao escolher Sebastião Bugalho. Uma lição de humildade para a bolha mediática.

Luís Montenegro, sendo primeiro-ministro, tem a sua liderança firme e não precisava de vencer. Também Pedro Nuno Santos, se tivesse perdido, não corria risco de ser defenestrado. Mas entraria mais frágil na difícil situação em que o PS se encontra. Quando olhamos para os círculos eleitorais, percebemos que os socialistas restauram a distribuição habitual d mapa nacional.

O único partido que pode cantar vitória é a IL, o que até vai em contraciclo com a sua família política europeia. Fica claro que, em eleições com maior abstenção, a IL é quem consegue levar os seus eleitores às urnas, para o que não será estranha a sua composição sociocultural. Por outro lado, grande parte deste resultado deve-se a Cotrim Figueiredo, o que demonstra o erro da mudança de liderança.

Mas a única verdadeira notícia destas eleições é o travão na ascensão do Chega. Fica claro que este partido depende dos índices de abstenção. Ou seja, que, ao contrário do que muitos pensam, o eleitorado da extrema-direita portuguesa não é mais militante do que os restantes. Pelo contrário. Rita Matias responsabilizou o “sistema”.

Apesar das derrotas relativas, BE e PCP mantêm representação, o que, com a não eleição do Livre (que é de novo vítima das suas primárias, que cria um inevitável divórcio entre a direção partidária e o candidato, que Rui Tavares nem tentou disfarçar), tem relevância para o futuro da esquerda portuguesa. A fragmentação partidária deste espaço, acompanhada por uma perda de votos, pode vir a ser fatal para este espaço político. Como se viu, o Livre, que roubou muito voto ao BE, podia ter sido responsável pelo desaparecimento de todos estes partidos no Parlamento Europeu. Como aconteceu em Espanha ou França, a esquerda ainda vai sofrer bastante antes de se refundar.

Quanto ao PAN, não estamos apenas perante uma derrota circunstancial, por escolha de um mau candidato. Com o crescimento do Livre, o espaço ecologista está a ser ocupado e estamos a assistir às exéquias dos animalistas. O PAN é passado.

Não faria demasiadas leituras nacionais. Estes resultados dizem pouco sobre o que poderia acontecer numas legislativas, caso o governo caísse. Mas não deixa de ter um efeito político. A AD deve começar a pensar se, mesmo sabendo que no fim do ano pode começar a faltar o dinheiro para o foguetório, será boa ideia jogar na roleta de uma crise política. A julgar pelo tempo absurdo que Montenegro ocupou na noite eleitoral, percebeu a dificuldade.

Mas o mais relevante foi termos ficado a saber que, com este resultado, não há um eleitorado indefetível que lhe permita fazer cair o governo sem correr um enorme risco. Ou seja, é sobre o Chega que a AD tem mesmo de começar a fazer pressão política.

A esquerda não tem, no entanto, grandes razões para respirar de alívio. O País mudou muito desde 2019. A maioria eleitoral de direita, que foi rara nestes 50 anos, não parece ser conjuntural. Ela tem um carater geracional, o que deve fazer a esquerda pensar na sua estratégia para lá dos jogos táticos de cada momento. Quando a direita resolver as coisas com a extrema-direita, como foi resolvendo em quase toda a Europa (e até nas regiões autónomas), a maioria será consistente e difícil de derrotar.

Como nota final, a deselegância de Montenegro. Para tentar ofuscar a derrota da AD com uma notícia sobre o apoio a António Costa para presidente do Conselho Europeu, Montenegro tomou conta do palco e deixou Bugalho sem tempo de antena nas televisões. Apostar nos jovens, para usar e deitar fora.

Sobre a única coisa para que estas eleições interessam, que são os resultados no conjunto da União e o que eles nos dizem do caminho que a Europa está a seguir, escreverei na próxima quarta-feira. A dissolução do parlamento francês e a demissão do primeiro-ministro belga são só o primeiro efeito do abalo que se espera no continente.»


8.6.24

Estão a reflectir?

 


Dia de cão

 


«Por sair ao Domingo, este espaço está sujeito à maldição dos períodos de reflexão eleitoral. Ainda há pouco mais de um ano, tal sucedeu com as presidenciais e eu derramei por aqui meia dose de queixumes e outro tanto mau feitio. E embora a autocitação costume ser vista como uma variante benigna de onanismo, seja-me consentido algum recurso a ela.

A reflexão imposta por lei é o produto directo e linear de uma transição democrática. Ao cabo de quase meio século de cidadania mutilada, o seu pleno exercício, pelos cidadãos em tirocínio que nós éramos, parecia aconselhar medidas dessas. Mas, trinta e tal anos e dezenas de votações depois, a sua subsistência é a manifestação de um puro paternalismo de Estado. "O Estado legislador já não protege o cidadão. Protege, sim, o estado administrador contra algumas maçadas técnicas." Cada um devia "ser dono e senhor do período de reflexão de que carece (se é que carece de algum)", porque o dispositivo, "concebido para defesa do repouso intelectual dos eleitores, só parece já salvaguardar o repouso físico dos candidatos".

Ora, porque assim não é, o dia de reflexão torna-se estranho, enevoado e penoso de viver. Há uma bruma anómala à nossa volta e parece que nos movemos numa second life onde cada olhar é um espanto e cada passo uma aventura. De manhã, no café, primam pela ausência os amigos e vizinhos mais político-dependentes. E os demais avatares que pontuam a esplanada são seres desconhecidos, translúcidos e dotados de sorrisos lentos e mãos que mexem como num espaço sem gravidade. É assim nas Amoreiras velhas, uma amável aldeia urbana, logo pela manhã. Mas é assim também em Campo de Ourique, cidade na cidade, bairro onde nasci e ao qual muito me liga ainda. (Por vezes, nem sei ao certo em qual moro. Em qualquer deles vem-me à mente uma frase provocatória do Lee Marvin/Liberty Valance, no clássico de John Ford: "Home is where I hang my hat", que eu peço licença para traduzir por "Eu moro onde penduro o meu chapéu").

É nesse ambiente equívoco, feito de trocas de olhares entre gente vagamente conhecida, que se gera uma forma bizarra de cerimónia cívica, por força da qual ninguém diz nada que remotamente evoque as eleições iminentes. Como se a opinião de um pudesse lesar, ou contagiar, o outro. Ou o juízo deste, que na véspera teria sido de seu inteiro direito, fosse hoje um abuso ou uma agressão. A meio do dia, já quase preferimos não conhecer ninguém. É certo que, quando eu nasci, também não conhecia cá ninguém. Mas, demasiadas décadas depois, um exercício de quase regresso ao útero materno violenta uma vida inteira de direitos adquiridos. É maçador, embaraçoso - enfim, em sentido próprio, um atraso de vida.

Ignoro que remédio lhe dão os mais destemidos. Por mim, recolho às vantagens práticas de uma resposta tímida e timorata à situação: recolho a casa. Onde não terei serenidade psicológica para ler, nem vertigem activista para escrever. Olharei bovinamente para a televisão, na esperança (sempre) vã de ver passar, por entre as pálpebras a meia haste, o relance de um candidato, a sombra de um eleitor ou, ao menos, o olhar cúmplice de um "pivot" de telejornal a transmitir-me qualquer coisa que se assemelhe, já não a solidariedade, mas pelo menos a um pouco de compreensão. Em vez disso, porém, serei bombardeado com desastres de viação, fogos frustrados, crimes passionais e patetices ditas "sociais" de "celebridades" que o não são. Com sorte, terei talvez o comendador Berardo a explicar mais uma iniciativa altruísta. Ou até um dirigente da oposição a dizer que exige ao poder o que não pode dar e um governante a dar-me aquilo que já é meu. Depois, terei minuciosas e por vezes ininteligíveis notícias sobre acontecimentos políticos, mas da Europa e do Mundo, onde a maldição não chega. E, logo que se tenha dado despacho a quase vinte minutos de electrodomésticos, automóveis, detergentes, telemóveis e supermercados, servir-me-ão os eventos do mundo admirável da época das transferências no futebol nacional.

Está escrito, vai ser assim. E, pelos vistos, até que a morte nos separe.»

Nuno Brederode Santos
Diário de Notícias, 15.07.2007

7.6.24

Ursula von der Leyen: um discurso terrível

 




𝐐𝐮𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐭𝐞𝐫𝐫í𝐯𝐞𝐥, 𝐨𝐧𝐭𝐞𝐦 𝐧𝐨 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐨, 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚çã𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐩𝐨𝐢𝐨 à 𝐏𝐚𝐥𝐞𝐬𝐭𝐢𝐧𝐚 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐫𝐨𝐦𝐩𝐞𝐮 𝐨 𝐬𝐞𝐮 𝐝𝐢𝐬𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐧𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐦í𝐜𝐢𝐨 𝐝𝐚 𝐀𝐃. 𝐍ã𝐨 𝐚𝐜𝐡𝐨𝐮 𝐦𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫 𝐚𝐫𝐠𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐫𝐚𝐫 𝐚 𝐑ú𝐬𝐬𝐢𝐚 𝐚 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐞𝐦 𝐭𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐥𝐢𝐛𝐞𝐫𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚çã𝐨!

Chega: cenas de uma campanha

 


4.6.24

Perguntar não ofende, mas já quanto a responder…

 




Gastei uma hora a ouvi-lo porque se trata de alguém perigosamente inteligente que exercerá funções de direita, extrema se necessário, onde quer que venha a mover-se.

A viragem à direita na Europa

 


«Aproximam-se as eleições europeias e, no que se refere a política partidária, o destaque pré e pós-eleitoral irá recair com grande probabilidade na performance da direita radical. É expectável que os grupos europeus que habitam o espaço mais à direita do espectro político tenham um resultado coincidente com o ganho de poder que os vários partidos nacionais têm vindo a obter nos respetivos parlamentos dos Estados-membros.

Importa saber que existem diferentes grupos políticos europeus que, por sua vez, agregam diferentes partidos europeus (dos quais fazem os vários partidos nacionais de cada Estado-membro). Usando o exemplo do partido de direita radical português, o Chega faz parte do ID Party (Partido Identidade e Democracia) e o ID Party é membro do grupo europeu ID (Identidade e Democracia).

Existem dois grupos que agregam os principais partidos de direita radical europeus: o já referido ID, que inclui o Chega, os franceses da Rassemblement National (RN), os italianos da Lega, entre outros; e o ECR (Reformistas e Conservadores Europeus) que inclui partidos de direita radical como o Vox ou os Fratelli d'Italia, mas também partidos conservadores do espaço de centro-direita. A extrema-direita (que difere da direita radical pelas suas posições abertamente antidemocráticas, revolucionárias e elitistas) encontra-se, sobretudo, no partido europeu Alliance for Peace and Freedom – uma força política com pouca projeção e que não está inscrita em qualquer grupo.

Atualmente, é expectável que o Partido Popular Europeu (PPE) e o grupo dos Socialistas & Democratas continuem a ocupar as duas primeiras posições no parlamento. Mas é à direita do PPE que poderão surgir novidades transformadoras na política europeia. Há várias semanas, algumas sondagens indicavam que a votação conjunta do ID e ECR poderia ultrapassar a do PPE; atualmente, o cenário mais provável é o de que essa votação conjunta ocupe o segundo lugar à frente dos Socialistas & Democratas.

Mas fará sentido pensar em votação conjunta de duas forças cujos partidos membros nunca foram capazes de mostrar união? Existem alguns dados que sugerem um futuro em conjunto. Por um lado, os fatores de divisão entre este tipo de partidos estão cada vez mais mitigados, nomeadamente a questão do apoio à Rússia que era mais evidente no seio do ID, antes da invasão da Ucrânia. Por outro, o movimento crescente de "mainstreamização" da direita radical europeia parece uni-la na imposição de linhas vermelhas a posicionamentos mais extremos (como o da AfD) e na aproximação a soluções governativas com partidos do espaço de centro-direita como o PPE que, não por acaso, se mostra mais aberto à cooperação.

O sucesso de Meloni em Itália e na Europa tem atraído e inspirado tanto a cúpula do PPE – Ursula von der Leyen já entendeu que o peso eleitoral cada vez mais evidente à sua direita poderá ser-lhe útil na sua reeleição – como a cúpula do ID, considerando o caminho de moderação discursiva que Le Pen tem realizado ao longo dos anos com o objetivo último de vencer as presidenciais francesas de 2027.

Giorgia Meloni é o elemento-chave na união das direitas radicais e na sua aproximação ao PPE, mas há dois partidos de peso neste complexo este espaço político que podem complicar as contas e que, neste momento, não são membros de nenhum partido europeu: o Fidesz de Orbán, que mantém posições controversas relativamente à Rússia; e os alemães da AfD, o patinho feio da direita radical europeia, recentemente expulso do ID, que nos últimos tempos soma posições mais condizentes com o espaço ideológico da extrema-direita do que da direita radical.

No momento em que este artigo é escrito, existem negociações entre Le Pen e Meloni para formar um único bloco político. Independentemente do sucesso desta iniciativa, a Europa continuará a sua viragem à direita e é expectável que as próximas eleições europeias resultem em mais políticas de restrição à imigração e controlo fronteiriço, no enfraquecimento do Green Deal e, possivelmente, em menos consensos na gestão da política externa.

Entretanto, os desafios que a Europa enfrenta mantêm-se ou agravam-se. A UE é hoje um espaço político e económico que evidencia sinais preocupantes: não tem grandes empresas tecnológicas de referência (como os EUA ou a China), está dependente energeticamente de terceiros (nomeadamente da Rússia), não têm a capacidade de atrair cérebros para as suas universidades (como os EUA ou o Reino Unido) e precisa de, rapidamente, tornar-se autónoma na área da segurança e defesa – um tema crucial e interconectado com a Guerra na Ucrânia, o resultado das próximas eleições norte-americanas e o futuro alargamento da UE.»


26.5.24

Sebastião e os frangos do KFC

 


«A sociedade do espetáculo que o PSD promove através de um concorrente do Big Brother de nome Sebastião Bugalho é uma sociedade em que as imagens funcionam como meio de dominação através dos meios de manipulação da opinião, os mass media. (…)

Os especialistas em marquetingue do PSD conhecem os impulsos que levam seres comuns a disporem-se a tudo para sair do anonimato e sabem que criar uma imagem é mais fácil sobre uma tábua lisa do que sobre uma superfície rugosa e com inscrições anteriores. (…)

Estamos, com este concorrente, a ser atraídos pelo espetáculo de um jovem armado de certezas, disposto a tudo, a iniciar-se numa montra do Bairro das Luzes Vermelhas, não em Amesterdão, mas em Bruxelas, que é perto e mais moderno.»

Carlos Matos Gomes

Ler a texto na íntegra AQUI

19.5.24

Ventura e amigos

 


Numa convenção do partido espanhol Vox, de extrema-direita, em Madrid, que reúne hoje na capital espanhola dirigentes da direita radical europeia e americana, na pré-campanha das eleições para o Parlamento europeu.

«𝐎 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐢𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚, 𝐀𝐧𝐝𝐫é 𝐕𝐞𝐧𝐭𝐮𝐫𝐚, 𝐩𝐞𝐝𝐢𝐮 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐝𝐨𝐦𝐢𝐧𝐠𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐔𝐧𝐢ã𝐨 𝐄𝐮𝐫𝐨𝐩𝐞𝐢𝐚 𝐜𝐨𝐦 "𝐟𝐫𝐨𝐧𝐭𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐟𝐨𝐫𝐭𝐞𝐬" 𝐞 𝐬𝐞𝐦 "𝐞𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐦𝐚𝐬𝐬𝐢𝐯𝐚 𝐝𝐞 𝐢𝐦𝐢𝐠𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐬𝐥â𝐦𝐢𝐜𝐨𝐬 𝐞 𝐦𝐮ç𝐮𝐥𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬" e disse estar convencido de que será o próximo primeiro-ministro de Portugal.» - 𝐮𝐦𝐚 𝐚𝐟𝐢𝐫𝐦𝐚çã𝐨, 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬, 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐫á 𝐫𝐞𝐩𝐞𝐭𝐢𝐫 𝐧𝐚 𝐀𝐑 𝐬𝐞𝐦 𝐪𝐮𝐞 𝐀𝐠𝐮𝐢𝐚𝐫 𝐁𝐫𝐚𝐧𝐜𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐭𝐚𝐧𝐞𝐣𝐞.


17.5.24

As mentiras que nos chegam

 


«A Europa está ansiosa. Inquieta com o processo eleitoral que a envolve em junho, apreensiva com o desfecho das presidenciais norte-americanas em novembro. A polarização e a radicalização crescem à custa de mais manipulação. Estamos todos atentos? Preocupados, sim. Preparados, nem por isso.

Ficaríamos todos a ganhar se a desinformação fosse a grande derrotada no sufrágio para o Parlamento Europeu. Mas, os dados que nos vão chegando não são otimistas.

Para perceber bem o fenómeno, sobretudo em ambiente digital, atente-se, como exemplo, ao seguinte: uma rede que operava no TikTok para amplificar narrativas favoráveis aos extremistas da Alternativa para Alemanha tinha meio milhão de seguidores distribuídos por 32 contas falsas.

Sabemos, à partida, que as eleições europeias são propícias à abstenção, o que agrava ainda mais o cenário. A Europa não vive apenas uma guerra bélica, vive um conflito de informação. O Serviço Europeu para a Ação Externa prova-o. Há mais de 80 países que tentam interferir nas eleições europeias, incluindo a Rússia e a China.

O fenómeno gigantesco não tem fronteiras. Uma outra organização tentou, a partir do Egito e da Suécia, manipular o discurso sobre a guerra entre Israel e o Hamas. Era seguida por mais de um milhão de pessoas através de 200 perfis falsos.

O combate às chamadas operações secretas de influência devia ser uma prioridade. Em Portugal, por exemplo, a ERC vai ter um sistema de alerta sobre desinformação, a UE lançou uma série de ações e as plataformas tecnológicas garantem reforçar o controlo.

Mas também cabe aos candidatos às europeias dar ao assunto a relevância que merece, credibilizando as instituições. Não podemos dar mais espaço à mentira.»

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