Mostrar mensagens com a etiqueta gov2014. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta gov2014. Mostrar todas as mensagens

31.12.14

Passos Coelho versus Anthímio



«Diz o líder do PSD, com o casaco de PM, que este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte. Passos recorre à metáfora do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica e, obviamente, vamos aproveitar porque é terreno fértil para isso e dá menos trabalho.

Passos quer ser o Anthímio de Azedo, mas esquece-se que a relação dos portugueses com o falecido baseava-se na confiança. O Anthímio acertava algumas vezes. As previsões do PM estão sempre fora de prazo. Mesmo que não houvesse nuvens negras, o que vemos é um acentuado arrefecimento nas prestações sociais, com aparecimento de fome na faixa costeira ocidental, e o vento vai continuar a soprar fraco a sul de Berlim. (...)

Para terminar, e não deixar dúvidas que já estamos em plena campanha, na passada terça-feira, num almoço em Cascais, Passos Coelho, com a justificação que as campanhas se ganham cá dentro, pediu aos colegas do governo para viajarem menos. Ele lá sabe, mas logo, agora, que os aviões desaparecem, acho péssima ideia não deixar a malta do governo ir viajar. Mas percebo a ideia do Passos: podia parecer que estão a fugir (para um sítio com nuvens ainda menos negras).

Bom ano, mesmo.»

João Quadros

27.12.14

Precipício ou areias movediças?



Mais um importante texto de José Pacheco Pereira, no Público de hoje: Prefere cair por um precipício ou afundar-se em areias movediças? É longo, ficam aqui alguns excertos:

«A bancarrota de Sócrates, que existiu mesmo, with a little help from my friend Passos Coelho, foi o equivalente a deitar Portugal por uma ravina abaixo, o “ajustamento” de Passos é o equivalente a atirar Portugal para um pântano de areias movediças. Os dois são momentos complementares da mesma crise social, cultural, económica e política que assola o país desde 2008, e que é, em parte, um reflexo de uma crise europeia mais vasta. Em parte, mas não só.

Há componentes nacionais que nos caíram em má sorte, e que têm a ver com uma conjugação muito especial de incompetência, ideias erradas, superstições e dolo. No dia em que se fizer uma verdadeira história destes últimos seis anos, só colocar o que cada um dos protagonistas pensava, disse ou fez numa sequência cronológica correcta mostrará como se foram destruindo todas as oportunidades, afunilando o caminho e tentando secar com zelo todas as alternativas. O problema é que essa tarefa de criar o deserto à volta teve eficácia, porque a política da terra queimada tem efeitos destrutivos e diminui de facto as opções dos que a ela sobrevivem. (...)

Alguém pensa que este modelo atamancado em 2011-2, assente acima de tudo no “gigantesco aumento de impostos”, pode subsistir sem esses impostos? A herança de Sócrates foi um Tesouro vazio que dava para três meses, a herança de Passos Coelho é um “ajustamento” que só tem efeitos porque depende de um enorme assalto fiscal. Não existe “ajustamento” à Passos Coelho sem impostos elevadíssimos, centrados no trabalho e no consumo. Sem esses impostos tudo vem abaixo como um castelo de cartas, porque nenhuma transformação estrutural foi feita nem na economia portuguesa, nem no Estado. E as que foram feitas na sociedade, principalmente o empobrecimento selectivo da classe média, são todas inibitórias de qualquer genuíno crescimento.

O país foi gerido como o jogo de SimCity – primeiro gastou-se de mais, depois empobreceu-se de mais. Primeiro, o mayor virtual encheu a cidade de quartéis de bombeiros e esquadras da polícia, parques e circos ambulantes, com os índices de popularidade a aumentar. Depois veio a bancarrota e o novo mayor inverteu a receita, desatou a aumentar os impostos, cortou os serviços públicos. A cidade do SimCity começou a cair aos bocados, os incêndios a aumentarem, o crime alastrando, as pessoas a emigrarem. Não são duas políticas distintas, são duas faces da mesma política, uma o espelho da outra, ambas com efeitos perversos desastrosos para o país.

Pensam que houve muito mais sofisticação do que a que é preciso para “jogar” SimCity? Não, foi mesmo assim, com ideias simplistas e erradas, e toneladas de pseudo-ideologia no lugar da ignorância. Vamos pagar muito caro, estamos a pagar muito caro. Querem morrer rapidamente ou ficar muito feridos, caindo por uma ribanceira ou enterrando-se num pantanal?»
,

26.12.14

Comissão Europeia «desiludida» com o governo?



«A Comissão Europeia (com o FMI e o Governo) instalou a era do vazio e do cansaço em Portugal. E agora está espantada com os resultados desastrosos. Três anos depois a CE está desiludida com a "capacidade reformista" do Governo.

Mas a sua miopia é evidente: as "reformas estruturais" assentam sempre no mesmo ponto: as reduções salariais no Estado. Depois dispara sobre o aumento residual do salário mínimo, como se isso pudesse ser o factor que não faz descer o elevado desemprego. Critica a falta de reformas na educação e na justiça. E fala, como sempre, das rendas da energia. Três anos depois a CE diz o mesmo de sempre. Como se não tivesse estado aqui e não o continue a fazer como representante dos credores. (...)

O que a CE patrocinou foi a criação de um vazio social, de uma era sem presente nem futuro. Onde só resta aos portugueses ou trabalhar barato (a "desvalorização interna") ou emigrar. E depois fala-se do envelhecimento da população, do nacionalismo radical emergente, e do desemprego que não mexe. Como política europeia estamos conversados. A CE não tem autoridade moral para criticar os dislates do Governo. Patrocinou-os, defendeu-os e continua a considerar que é desta força que a Europa poderá voltar a ser um bloco importante em termos mundiais. A sua desilusão parece lágrimas de crocodilo. O resultado da sua acção é evidente: dissolveu uma sociedade e ajudou a criar uma ainda mais fechada, com menos possibilidades de mobilidade social, mais pobre (em termos económicos, culturais e morais) e instável. Ou seja: acertou no que restava dos pilares da democracia. E depois ainda está "desiludida" com o Governo...»

Fernando Sobral

21.12.14

Tea party em S. Bento



«Finalmente, Passos desatou a língua e começou a proclamar, sem eufemismos, o seu programa. Não aquele programa social-democrata escrutinado nas eleições, mas sim o programa fundado nas suas crenças pessoais, jamais escrutinado pelo seu próprio partido e muito menos pelo povo português. Fá-lo com uma euforia inaudita, qual cabo de guerra já derrotado e acossado no seu Bunker que, de súbito, lesse nos astros um sinal da divina Providência. Cercado dos escombros e ruínas da “destruição criativa”, partilha agora connosco, diariamente, em voz alta, o sonho duma radiosa vitória final: a promessa duma revolução milenar, que trará a redenção a Portugal, à Europa e a toda a humanidade. (...)

Com a privatização integral das funções do Estado, o governo, o parlamento e os demais órgãos de soberania tornar-se-ão supérfluos. Serão substituídos por uma ou mais empresas de multisserviços, que desempenharão eficientemente as tarefas requeridas, pagas caso a caso pelos indivíduos que delas careçam. Cada um por si. Nunca mais haverá “todos a pagar para o benefício de alguns...” (...)

Uma tal cruzada surpreende pela sua retórica extremista, pois rompe necessariamente com ambas as bandeiras da sua família política – não só a “social”, mas também a “democrata”. Não esqueçamos a matriz fascista do primeiro “laboratório” do neoliberalismo (o Chile de Pinochet), onde o Estado instaurou uma ditadura terrorista para impor a privatização integral da economia.

Tão levianamente radical como o discurso de Passos, nos dias de hoje, só mesmo o do tea party nos EUA. Este ainda não chegou à Casa Branca, mas já se instalou em S. Bento.»

Mário Vieira de Carvalho
. 

19.12.14

Procrastinar



«Olhando para trás, para o início de 2014, o que me apetece dizer é que este foi um ano perdido. O Governo deixou muito por fazer e, nos últimos meses, as indecisões, os atrasos e a falta de capacidade de concretização tornaram-se regra. É como se a ideologia reinante fosse a procrastinação – não faças hoje o que não te apetece que aconteça amanhã. (...)

Este é, sobretudo, o ano daquilo que não aconteceu – mesmo que alguns episódios laterais, como o caso da corrupção nos vistos gold, a queda do BES e de Ricardo Salgado e a detenção de José Sócrates possam parecer indícios de mudança. Lamento muito ter opinião contrária – tudo isto foram distracções, areia lançada para a ventoinha de forma a tornar a visão menos clara e fazer esquecer a falta de mudanças de fundo. Nada do que se passou faz mudar o regime, embora até possa ser justo que algumas coisas tenham acontecido. (...)

Este é o ano em que se completam quatro décadas sobre a mudança de regime, em 1974. Seria curioso estudar quanto dessas décadas foi tempo perdido, agora que temos quase tanto tempo de democracia como de ditadura. Hoje, finalmente, começamos a ter uma ideia de que, em termos de país, a nossa mudança foi fraca, pouco produtiva e que gerou muita corrupção e um sistema político-partidário mais do que suspeito. Não é um bom retrato de quem entra nos quarentas.»

Manuel Falcão
. 

10.12.14

Ainda sobre mexilhões



«Nos últimos dias, a imaginação liberal de Pedro Passos Coelho tem andado tão activa como a do professor Pardal. É uma agradável mistura de darwinismo social e de Schumpeter em versão Anita no Jardim Zoológico.

Como ideólogo, Passos Coelho garante assim um lugar privilegiado na elite portuguesa. Em poucos minutos, o primeiro-ministro conseguiu alargar a teoria do mexilhão, mostrando quem era o alvo da crise: a classe média. Foi ela que se atolou no meio de impostos e cortes de retribuições. E assim ela desceu ao nível do mexilhão.

Segundo Passos Coelho, a crise também não agravou as desigualdades: serviu para as "corrigir". Ou seja, a desigualdade foi alargada a muitos mais portugueses, abrindo-se um fosso cada vez mais visível entre quem tem e quem não tem. Em vez de ascensão social criou-se o fenómeno do decair social, rumo a uma sociedade de "low-cost", cada vez mais visível e onde todos lutam contra todos pela sobrevivência. Mais importante, Passos Coelho sorriu magnânimo ao dizer que os donos do país estão a desaparecer. (...)

Os liberais portugueses acantonados à volta do Governo são muito originais: com a carga fiscal brutal e o desemprego afundaram a mobilidade social. Destruíram qualquer tipo de segurança dos cidadãos. Atiraram todos para o nível do mexilhão. E ainda riem quando falam disso.»  

Fernando Sobral

9.12.14

Corrupção e desigualdades


O texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de Dezembro:

«Crise económica, crise social. Um Orçamento de Estado para 2015 que insiste na austeridade e no empobrecimento, uma dívida astronómica e impagável em democracia, desigualdades gritantes e crescentes, um desenvolvimento adiado, a multiplicação de casos de corrupção. Só quem não compreende o quanto as sociedades são ecossistemas se espantará com a coincidência, e interligação, de todas as vertentes do colapso que estamos a viver.

O ano de 2014 vai terminar marcado por múltiplos casos do foro judicial, que farão transitar para os anos seguintes complexos processos de investigação, julgamentos e sentenças que envolvem figuras e instituições ligadas ao poder económico, financeiro e político. Os chamados "caso GES/BES", "caso dos vistos Gold" ou "caso José Sócrates", juntando-se a outros que se sucederam num passado recente, envolvem, entre outras, suspeitas ou acusações de práticas criminosas, de gestão danosa, de fraude fiscal, de branqueamento de capitais e de corrupção.

Seja qual for o desfecho dos processos, apurem eles matéria susceptível de condenações ou ilibações, anunciam-se procedimentos complexos, mais morosos do que seria desejável e com imbricamentos que tenderão a extravasar o campo estritamente judicial, como é o caso do campo mediático. Com a ajuda deste, e com alguns órgãos de comunicação social useiros e vezeiros na substituição da investigação jornalística por fugas ao segredo de justiça, assim degradando o jornalismo e corroendo a justiça, instalou-se um clima de "directos" que nada acrescentam senão ansiedade e comoção, e que disfarçam mal a (contudo compreensível) ausência de informação.

Juntemos à pressão do imediatismo ansiogénico as fortes emoções antagónicas suscitadas quer pelo combate político quer pela competição nos negócios, tudo isto numa situação de quatro anos de profunda crise económica e social e de percepção pública do quanto ela deve à corrupção e ao poder dos grupos económicos na acção política, e será fácil compreender como depressa de cavaram trincheiras onde se acantonaram posições fechadas, e como tantas opiniões e convicções se transmutaram em certezas inamovíveis, por vezes com laivos justicialistas.» 

Continuar a ler aqui.
.

3.12.14

A transcendente causa dos sacos de plástico



Vai intensa a discussão sobre o projecto de reforma do IRS, que devia ter sido votado hoje, e com toda a razão: estão em causa medidas que afectarão – e muito – a vida dos portugueses, a partir do próximo mês.

Mas não posso deixar de sorrir ao ler que uma das propostas de alteração feitas pelo PS (sem que, no momento em que escrevo, saiba se foi ou não aceite pela coligação PSD/CDS) diz respeito a uma taxa a aplicar à compra de sacos de plástico. Na versão inicial do documento, cada cliente de hipermercados ou lojas passaria a pagar 1 euro por saco, o PS propõe que esse valor seja alterado para 20 cêntimos (IVA incluído, nos dois casos).

Não consigo vislumbrar a transcendência da causa defendida pelo partido rosado, já que ninguém, por mais pobre ou dificilmente remediado que seja, é obrigado a recorrer aos objectos em causa. Terá sempre por casa uns saquitos de pano ou poderá procurá-los nos baús das avós.

Será que os PS está a apoiar a Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos que teme o «eventual ‘fecho’ das empresas envolvidas, desde as empresas que comercializam as matérias-primas, às indústrias que fabricam os sacos, às empresas que os comercializam, às superfícies comerciais que os utilizam, às unidades de recolha e selecção de resíduos plásticos e aos organismos que reciclam esses resíduos». Custa-me a crer... Se assim for, os nossos vindouros rir-se-ão muito desta iniciativa, como nós nos rimos hoje da existência da licença de isqueiro, em tempos que não deixaram saudades, que tinha como objectivo proteger a indústria de fósforos.

Também pode acontecer que algo me escape, mas...

Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Alexandre O'Neill 
.

2.12.14

Do Provedor ao Ministro



Vale a pena gastar alguns minutos com a leitura de uma carta, datada de 19 de Novembro, que o Provedor de Justiça enviou ao Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social sobre «Medidas contrato emprego-inserção e contrato emprego-inserção».

Dois excertos, entre muitos possíveis:




Há muito que os Precários vêm a chamar a atenção para este escândalo. Fazem-no agora, uma vez mais, respaldados pela posição do Provedor de Justiça:

. 

27.11.14

Barril de pólvora


«Portugal está sentado em cima de um barril de pólvora. O desastrado Coiote usava-os na perseguição ao Papa-Léguas, só que normalmente era ele que explodia. Mas os desenhos animados permitiam que o Coiote renascesse sempre.

Portugal talvez tenha mais dificuldades em ressuscitar deste ano em que a "destruição criativa" prometida pelo Governo está a transformar-se numa "destruição maciça". Sócrates não consegue ser o mata-borrão de tudo. A OCDE diz tudo sobre o que existe e espera do País: Portugal vai continuar a ser "pobre" e "desigual". A tão aclamada desvalorização interna, como factor de competitividade, acelerou o processo sem contemplações. (...)

A corrupção tornou-se hoje um "reality-show" só à espera de um Herbert von Karajan capaz de pôr todos os instrumentos e vozes a cantar em uníssono. O barril de pólvora está montado. Só falta acender um pequeno rastilho. Caminhamos para um país mais fechado e ainda mais pobre. Onde a língua franca, a confiança, implodiu. E a questão é que a pobreza é económica e financeira, mas também política e cultural.

Aquilo que se adivinha é um Inverno sem fim. Nem o mítico Bloco Central, que alguns já dizem poder vir a salvar a Pátria em nome de um "consenso" cheio de bafio e bolor, colará estes cacos que políticos e burocratas que se movem como elefantes criaram por aqui. Por aqui criou-se o deserto onde pouco ou nada cresce e há quem ainda tenha a coragem de lhe chamar paz.»

Fernando Sobral

21.11.14

Nova mediocridade



«Há algumas semanas, a directora do FMI, Christine Lagarde, cunhou um novo termo: "the new mediocre". A nova mediocridade tinha a ver, claro, com a economia global e a incapacidade de gerar crescimento.

Muitas vezes a macroeconomia parece pouco ter a ver com a realidade da vida diária, mas a mediocridade apontada por Lagarde acaba por se revelar mais vasta. Ela mostra o nivelamento por baixo a que assistimos nesta sociedade, da política à economia ou à cultura. A mediocridade tornou-se hegemónica, limitando a criatividade. Todos estamos reféns de vias únicas ("não há alternativas" dizem muito por aí), reinventando e homenageando o que teve sucesso no passado, onde não há espaço para a inspiração.

O afunilamento criado por esta mediocridade é visível numa Europa, teoricamente liderada por um homem que conviveu democraticamente com a governação de um país que era uma verdadeira "off-shore" (e ainda se fala da Madeira!) em concorrência com a fiscalidade de outros países da UE, tal como faz a Holanda ou a Grã-Bretanha. Esta mediocridade é também notória na política de austeridade como única via que leva a que os países mais pobres e endividados tenham de, para lá da chamada desvalorização interna, criar coisas como os vistos "gold" com exigências débeis. Só para conseguir dinheiro. (...)

Não é por acaso que a Europa vive o seu lento suicídio e que a criatividade está em Silicon Valley e não por aqui. Foi esta mediocridade que sempre tornou Portugal, com raras excepções, um lugar de emigração e de corrupção. Todo esse modelo medíocre está de regresso, o que é pena, porque este país teve possibilidades de ser um modelo de modernidade, inovação e criatividade. Mas preso nas mãos da mediocridade que ocupou o centro de tudo, o Estado, Portugal é o que se vê. "Viver não é necessário. Necessário é criar", dizia Fernando Pessoa. Nunca isso foi tão válido nesta nova mediocridade.»

Fernando Sobral

Vistos gold – As suspeitas não começaram há uma semana



«“Todos os clientes que nos procuraram para os ajudar a obter “vistos gold” queriam tudo menos o visto: pretendiam, tão só, que os ajudássemos a proceder a planeamento fiscal abusivo ou a legalizar dinheiro obtido por meios duvidosos”. (...)
O advogado [Miguel Reis] já tinha alertado quer o presidente do Instituto de Registos e Notariado – agora apontado como principal suspeito do caso da corrupção com os ‘vistos gold’ – quer o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, para a proliferação da procuradoria ilícita e da fraude fiscal nas conservatórias do registo civil.»

(Daqui)

20.11.14

Passos Coelho pilota um caça suicida



«A implosão de um sector central do Estado, o da segurança (a começar pelo SEF e pelo SIS), mostra que Portugal, hoje, se pode disfarçar de John Wayne, mas as suas pistolas são de plástico.

Nunca, como agora, foi tão notório o colapso estrutural do Estado português e isso temos de agradecê-lo a Pedro Passos Coelho e ao seu clube de iluminados. Eles quiseram fazer do País, à boleia da troika e da austeridade, um condomínio liberal que seria exemplo para o mundo.

O resultado é hoje uma terra de ninguém, onde desapareceu a segurança no Estado, em que tudo parece estar à venda (das empresas à moral), onde o futuro é todos os dias uma incógnita. Passos Coelho e o seu Governo criaram um sítio balcanizado, onde todos desconfiam de todos, em que todos (em nome da fuga ao fisco) são polícias de todos, em que a luta por um emprego acima do salário mínimo é um salto social. (...)

A incapacidade de fazer uma remodelação séria, o último fogo-de-artifício possível, foi desprezada pelo primeiro-ministro. Ele não guia um Titanic: pilota um caça suicida. Talvez por isso parte do PSD esteja em pânico, ciente de que a questão não é perder as eleições: será a forma como elas serão perdidas e o custo futuro que terão. O PSD está habituado a imolar os seus anteriores líderes com rigor sacramental. Mas o legado de Passos Coelho será mais difícil de varrer. É difícil esquecer a destruição de um País.»

Fernando Sobral

19.11.14

Passos Coelho e «O Leopardo» de Lampedusa



«Entre "O Príncipe" de Maquiavel e "O Leopardo" de Tomasi di Lampedusa há uma oposição clara. O Príncipe defende a acção política em busca do poder. Pelo contrário, o Leopardo acredita que é pela inacção que o poder se mantém.

Ou seja, num mundo onde os acontecimentos são por vezes ilusórios e superficiais, o poder, os interesses instalados e a subordinação mantêm-se e adaptam-se. Não admira que o príncipe de Salina, de "O Leopardo" considere que "tudo deve mudar para que tudo possa ficar na mesma". Na hora da queda de Miguel Macedo, Passos Coelho julga ser o Leopardo.

As mudanças fazem-se para que nada mude, mesmo que o Governo cheire a bolor, que São Bento seja um centro político paralisado, que existam ministros como o da Educação e a da Justiça que tenham passado o prazo de validade como os iogurtes. Passos Coelho resiste a tudo, porque só quer ser reconhecido como o homem que "salvou" as finanças. Mesmo destruindo a vida dos portugueses. E é por isso que desvaloriza a necessidade de uma grande chicotada psicológica no Governo para poder, ainda, sonhar em ganhar as eleições.

Passos Coelho, ingenuamente, acredita que se perder em 2015 regressará depois, não como o Leopardo, mas como o Desejado. A política instalou-se hoje no mundo táctico, seja a nível de debate, de agenda ou do horizonte futuro. Passos Coelho, cujo núcleo político é indigente, pensa que a sua sobrevivência no futuro passa por observar, manipular os factos e mudar o menos possível. Acredita que assim, mesmo perdendo em 2015, ganhará mais tarde. É hoje claro que Coelho não tem nenhuma visão de uma política portuguesa ou europeia e é incapaz de resolver a crise porque não a compreende na sua complexidade. O seu único dogma é um liberalismo inexistente que ele quer aplicar a Portugal. Por isso, nada quer mudar no centro do poder. Porque a única remodelação necessária era Passos Coelho remodelar-se a si próprio.»

Fernando Sobral

18.11.14

O aviário faliu



«Os vistos "gold" eram as galinhas dos ovos de ouro deste Governo. O aviário faliu. A corrupção matou a galinha, porque ninguém mais vai confiar que ela tinha um tesouro dentro.

A corrupção aniquilou a credibilidade dos vistos "gold" portugueses, fez implodir um ministro e arrasou parte da elite policial do país, do SEF ao SIS. Sobretudo transformou em cinzas a credibilidade do Estado, permeável até ao mais nível do pecado da gula e da ganância. A tutela moral do Estado, em sectores cruciais como a justiça e a segurança, é agora uma chalaça. (...)

Os últimos meses estão a transformar Portugal numa comédia de horrores, transfigurando grotescamente aquilo que era a elite nacional. Cai o rei de copas, cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai tudo e não fica nada, cantava alguém. Não fica: nem autoridade do Estado, nem moral para se pilhar com impostos os rendimentos dos portugueses que trabalham e que deixaram de acreditar no que quer que seja.»

Fernando Sobral

16.11.14

Vistos – de ouro e com muitos quilates



Infelizmente, não tenho nenhuma casa para vender com direito a proporcionar vistos gold, ou ela já seria hoje chinesa e eu andaria por aí a dar a volta ao mundo, de preferência em cruzeiros aéreos, que é o que está a dar. Mas vou contar uma história.

Há poucos meses, soube de uma pessoa que comprou um andar na Expo, há meia dúzia de anos, e que foi contactada por uma imobiliária que pretendia adquiri-lo para depois o revender a um chinês. Foi oferecida uma quantia aparentemente astronómica pelo dito andar, que nenhum português pagaria, e que correspondia mais ou menos a três vezes o valor pelo qual tinha sido comprado.

Nem sei se o negócio se concretizou, mas lembro-me de pensar que havia algo de estranho no caso: com tantas casas à venda em Lisboa, por que motivo um comprador estaria disposto a pagar um tal preço, aparentemente inflacionado e bem superior aos 500.000 euros necessários para um gold? Desde há alguns dias, as minhas dúvidas adensaram-se: quanto, a mais da dita quantia, já altíssima, viria a ser pedido pela imobiliária ao comprador de Xangai ou de Pequim para que várias comissões pudessem ficar pelo caminho?

Ora bem: se até eu sei deste caso, ninguém em todo o circuito, de ministros a vendedores de imobiliárias, soube, desconfiou, pressentiu, que fenómenos deste tipo grassavam por aí? Ora... 
.

13.11.14

A atracção do ouro


É histórico, é milenar: poucos resistem ao ouro.


Foi também detido o presidente do Instituto de Registos e Notariado.

Ce n'est qu'un début? Isso é que era bom! 
,

11.11.14

Orçamento de pobreza


Texto de Sandra Monteiro, em Le Monde Diplomatique (ed. Portuguesa) deste mês:

«A principal aposta tem de ser nas empresas e na iniciativa privada, porque o Estado tem escassez de recursos e uma dívida muito elevada para pagar, o que obriga a continuar a reduzir o défice e a conseguir excedentes primários que permitam reduzir a dívida», afirmou a ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque na sessão de encerramento, a 1 de Novembro, da V Convenção Social-Democrata do Distrito de Setúbal. É um resumo muito elucidativo do quadro de escolhas que o Orçamento de Estado para 2015 reflecte, em absoluta continuidade com os vários orçamentos de austeridade a que o país tem sido sujeito. A dívida, muito elevada, cada vez mais elevada – é esse o negócio do crédito e dos juros –, é «para pagar». Canalizar os recursos para esse pagamento serve de «justificação» à retirada do Estado das suas missões sociais e do investimento público e de «legitimação» da prioridade dada à iniciativa e interesses privados. As metas orçamentais definidas, mesmo que todos saibam que são irrealistas, não servem para afrontar os tratados que as impõem nem para escolher a democracia e o bem-estar social contra a ditadura do défice, mas antes para justificar o enésimo reforço da austeridade.

De facto, o que o governo de Pedro Passos Coelho propõe para 2015 é mais um orçamento de pobreza. Austeridade sobre austeridade, empobrecimento sobre empobrecimento, desespero sobre desespero. A soma dos anos não é puramente quantitativa; é qualitativa e mostra uma comunidade em colapso. Palavras agora usadas pelo primeiro-ministro como «rigor», «responsabilidade», «recuperação» ou «sustentabilidade» são areia lançada para os nossos olhos. Pretendem impedir-nos de ver, mas causam sobretudo dor, tal é o choque com a realidade do desemprego, da precariedade, dos baixos salários, da emigração forçada, da carência e da pobreza.

As políticas de austeridade condensadas na proposta de Orçamento de Estado para 2015, escolhendo o partido dos credores financeiros e dos que lucram com a arquitectura monetária e dos tratados europeus, acentuam os problemas da economia e a trajectória de empobrecimento do país. Causam nova pobreza e desistem de retirar dela os que foram para lá atirados. Portugal, além de ser dos países mais desiguais, tem níveis cada vez mais assustadores de pobreza. Os dados mais recentes do Eurostat indicam que, em 2013, estavam em risco de pobreza ou exclusão social 2,88 milhões de portugueses, ou seja, 27,4% da população. O risco de pobreza traduz situações de «privação material severa» ou de inserção num «agregado familiar com baixa intensidade de trabalho», afectando de forma muito particular, porque há muitos anos superior ao do resto da população, o segmento dos que têm menos de 18 anos de idade. Com efeito, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2013 o risco de pobreza afectava 31,6% das pessoas dessa faixa etária. Mas, segundo o INE, este risco não se distribui de forma homogénea: penaliza sobretudo as crianças com pais menos escolarizados, chegando aos 37,5%, em 2012, nas famílias em que os pais só completaram, no máximo, o ensino básico – além de se agravar no caso de famílias numerosas ou monoparentais.»

(Continuar a ler AQUI).
.

10.11.14

Um comediante que tenta ser ministro?



«Dentro de António Pires de Lima, acredita-se, há um político sério que se procura libertar. Entretanto, temos um comediante que tenta ser ministro. Nada que admire neste Portugal que oscila entre ser um "reality show" deprimente e uma "stand-up comedy" patrocinada pelo Governo. (...)

Sabe-se que um político do século XXI não precisa de dizer coisas importantes. Pode até alterar a história a seu favor, confundindo Michael Phelps com Catherine Deneuve. Mas é isso que torna ainda mais brilhante a prestação de Pires de Lima no Parlamento. Ele conseguiu criar a verdadeira sociedade do espectáculo, que os Situacionistas tentaram em vão impor na França de 1968. Transformou a economia numa "stand-up comedy". Depois disso a análise política séria sobre a economia tornou-se uma piada de café. Em que alguém conta piadas para se rir sozinho.

Pires de Lima abriu as portas de par em par para que gerir a economia em Portugal se torne uma galhofa. No fundo, ele, depois da sua prestação no Parlamento, mostrou que deseja ser aliviado das suas responsabilidades governamentais. Para se dedicar à comédia, a sua vocação há muito reprimida.»

Fernando Sobral