10.4.21

É normal, mais do que normal

 

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Meu país desgraçado

 


Sebastião da Gama chegaria hoje aos 97.

Meu país desgraçado!…

E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

In Cabo da Boa Esperança
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Sócrates: liberto de mais de 20 crimes, sim. Mas corrompido, apesar de tudo

 


Ouvi as mais de três horas das declarações de Ivo Rosa, até às 2h da madrugada li e ouvi dezenas (sim, dezenas) de analistas / comentadores com opiniões para todos os gostos e paladares, vejo as redes sociais cheias de convicções sem dúvidas, sendo que as «moralistas» me irritam especialmente.
Como é meu hábito, deixo aqui um texto, não porque me identifique necessariamente com tudo o que está escrito, mas porque me parece um resumo razoável de factos e algumas conclusões tão óbvias como dizer que o rei vai nu.

«O juiz de instrução Ivo Rosa destruiu quase por completo quatro anos de investigação do Ministério Público e, pelo caminho, também o trabalho feito pelo seu colega de tribunal Carlos Alexandre, que foi o magistrado que ao longo desses anos foi validando e promovendo buscas, escutas e outras diligências. Mas Ivo Rosa destruiu também a tese do ex-primeiro-ministro de que não foi corrompido. Ironicamente, a hipótese de vir a ser condenado em julgamento parece ter-se tornado muito mais forte depois desta sexta-feira.

No longo resumo da decisão de mais de seis mil páginas que tomou sobre quem vai e quem não vai a julgamento na Operação Marquês, Ivo Rosa não poupou nos rótulos com que classificou a acusação construída por sete procuradores contra o ex-primeiro-ministro José Sócrates, o seu amigo Carlos Santos Silva, o antigo banqueiro Ricardo Salgado e os outros arguidos do processo. De forma cirúrgica, o juiz de instrução percorreu os principais factos que suportavam os crimes de que o ex-primeiro-ministro e o ex-presidente do BES vinham acusados — “especulação”, “fantasia”, “falta de lógica”.

Os três pilares do processo, que diziam respeito aos três crimes de corrupção imputados pela equipa do procurador Rosário Teixeira a Sócrates, caíram por terra. De acordo com o juiz, nenhum desses três crimes estão sustentados em prova sólida. Segundo Ivo Rosa, não existem indícios de que o ex-primeiro-ministro tenha influenciado o chumbo da OPA da Sonae sobre a Portugal Telecom em 2007, a favor do Grupo Espírito Santo (GES); tenha interferido na atribuição de qualquer obra pública ao Grupo Lena; ou tenha sido cúmplice de Armando Vara, quando este era administrador da CGD, na concessão de um empréstimo para a compra do resort de luxo Vale do Lobo, no Algarve.

Em qualquer dos três enredos, a prova foi considerada inconsistente, vaga ou mesmo inexistente porque foram outros decisores — e não ele, Sócrates — que tiveram influência nessas matérias e não há testemunhos a corroborar a tese do Ministério Público sobre o papel decisivo do ex-primeiro-ministro. Inclusive, foi desconsiderada a forma como Paulo Azevedo, do grupo Sonae, contou como tudo aconteceu nos bastidores da OPA da PT, em que o empresário descreveu a forma como o governo boicotou a tentativa de tomada de controlo daquela empresa de telecomunicações, quando o Estado era ainda um dos seus acionistas de referência, detentor de uma golden share.

SEM DÚVIDAS DE QUE O DINHEIRO NÃO FOI EMPRESTADO

No entanto, embora tenha feito essa espécie de terraplanagem à espinha dorsal do despacho de acusação que o Ministério Público proferiu em outubro de 2017, Ivo Rosa acabou por contrabalançar isso com outra conclusão: com base na análise que fez a todo o processo ao longo de mais de dois anos para poder chegar à decisão instrutória que deu a conhecer esta sexta-feira, Sócrates foi efetivamente corrompido, ainda que não seja possível provar por que razão isso aconteceu.

O juiz não acreditou nas explicações dadas pela defesa sobre o dinheiro que ao longo dos anos Sócrates recebeu do seu amigo Carlos Santos Silva, empresário que foi administrador do Grupo Lena, um conglomerado de empresas de construção e obras públicas.

Embora os arguidos tenham dito que Santos Silva emprestou 567 mil euros a Sócrates e que o ex-primeiro-ministro já devolveu 250 mil euros, o magistrado afirmou serem sólidos os indícios de que foram entregues a Sócrates um total de 1,7 milhões de euros. E que nada justifica tantos levantamentos e entregas em numerário. Se o que estivesse em causa fosse simplesmente um empréstimo entre amigos, “nada impedia que tivessem sido feitos por transferência bancária”. Ivo Rosa também considerou como relevante o modo como Sócrates e Santos Silva usavam uma linguagem codificada, mostrando uma preocupação em esconder a circulação de dinheiro.

“Houve um mercadejar do cargo do primeiro-ministro”, admitiu o juiz, assumindo que não tem dúvidas que todos aqueles pagamentos de Santos Silva a Sócrates significam que houve, efetivamente, um crime de corrupção passiva cometido pelo ex-primeiro-ministro enquanto foi titular desse cargo político, ainda que não haja indícios sobre os actos concretos que tenham estado na sua origem — ou seja, que possam identificar as contrapartidas do dinheiro recebido e levados a julgamento como prova.

No entendimento do juiz, esse crime de corrupção já prescreveu, mas não os esquemas usados para fazer chegar os subornos ao corrompido. Isso explica dois dos três crimes de branqueamento de capitais com que Sócrates foi pronunciado (o terceiro diz respeito ao modo como pagou ao professor Domingos Farinha para que este o ajudasse a fazer a sua tese de mestrado em Paris) e um dos três crimes de falsificação de documentos (um contrato de arrendamento para o apartamento de Paris, propriedade do amigo Carlos Santos, onde chegou a viver) pelos quais terá também de responder em julgamento (sendo que os outros dois têm, mais uma vez, a ver com a tese de mestrado e Domingos Farinha).

Ivo Rosa não teve contemplações com o Ministério Público, mas ao não deixar Sócrates sair totalmente impune, o sinal fica dado: se um juiz de instrução como ele — visto por muitos como decidindo normalmente a favor dos arguidos — ficou convicto de que o ex-primeiro-ministro foi corrompido, que dúvidas disso terá o tribunal coletivo que agora o irá julgar?»

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9.4.21

Justiça – som do fim deste dia

 



Afinal, foi assim.
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Justiça

 


09.04.2021 – 14:00. Vai começar uma longa tarde. E eu que fui ao supermercado e me esqueci de comprar pipocas!
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Joe Biden, o perigoso esquerdista

 


«Washington, o símbolo do capitalismo, anda por estes dias a dar lições à Europa que fundou o Estado social. O plano de recuperação da economia desenhado pela administração Biden empurra a “bazuca” europeia para um canto envergonhado e o FMI, o monstro protagonista de tantos planos de austeridade por esse mundo fora, vem agora, na sequência da crise da covid, apelar a uma justiça tributária que crie impostos especiais para quem lucrou com a pandemia.

O sistema político americano é diferente do europeu e particularmente do português: no Partido Democrata que elegeu Joe Biden cabe um largo espectro de militantes do Partido Socialista, do Partido Social Democrata e até parte do CDS “fofinho”, aquele que rejeita coligações com o Chega. E é esse Partido Democrata que propõe agora uma revolução para uma reforma global da taxação das multinacionais, de forma a que as grandes empresas mundiais paguem os impostos devidos aos países onde lucram. Uma mudança que, a ser convenientemente aceite pela Europa, mudará a economia mundial em favor dos mais pobres.

“As empresas não vão conseguir esconder os seus rendimentos em paraísos fiscais como as ilhas Caimão ou as Bermudas”, disse Joe Biden ao apresentar o plano de aumento de impostos directos sobre as empresas para financiar o seu megaplano de investimento de combate à crise económica e as novas regras para impedir que a riqueza criada num sítio desapareça rumo a um paraíso fiscal.

O aumento dos impostos sobre as empresas de 21% para 28% é acompanhado da subida da taxa de imposto mínima aplicada aos lucros globais, como aqui explica Sérgio Aníbal, que tem por base os lucros declarados aos investidores com base em operações feita em todo o mundo e não apenas os lucros contabilizados nos Estados Unidos.

A América está a olhar para a situação presente como uma efectiva Grande Depressão, enquanto a Europa arrasta lentamente os pés, como é mais ou menos costume – embora se tenha aprendido alguma coisa depois do desastre da crise financeira. Não deixa de ser interessante que a revolução neokeynesiana nos chegue agora da América, que parecia ter esquecido o “New Deal” há muito. Mas nem sempre as coisas em política são lineares: John Maynard Keynes, que é actualmente o economista inspirador de muitos socialistas, não era do Partido Trabalhista britânico, mas do Partido Liberal. E também do Partido Liberal era William Beveridge, fundador da London School of Economics e autor do famoso Relatório Beveridge, o documento que esteve na base da criação do Estado social no Reino Unido (posto em prática pelo Governo trabalhista de Clement Attlee e não destruído por Churchill). A Europa social tem agora muito que aprender com a América capitalista.»

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8.4.21

Jacques Brel – seriam 92

 


Brel nasceu em 08.04.1929. É um ritual a que regresso quase todos os anos: recordar que Jacques Brel seria hoje um velho se não tivesse adormecido demasiado cedo: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps» – disse ele



Um dos meus monstros mais do que sagrados, com um registo especial: tive a sorte de o ver e ouvir, em pessoa, era ele jovem e eu muito mais ainda... Em Lovaina, na Bélgica, num espectáculo extraordinário a que se seguiu, já na rua, uma cena de pancadaria entre valões e flamengos, com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada. Tudo porque Brel, em terra de flamengos, insistiu em cantar um dos seus êxitos – Les Flamandes – onde uma parte das suas compatriotas não é muito bem tratada. Ele era assim.




Algumas das minhas preferidas:







E a inevitável:


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Butão, esse país maravilhoso



 


«O país budista no extremo leste dos Himalaias faz fronteira com a China e a Índia e tem 23% da sua população abaixo do limiar de pobreza. A pandemia do novo coronavírus tinha potencial para arrasar o Butão e tirá-lo do ranking de país mais feliz do planeta, mas o governo liderado por um primeiro-ministro que também é médico conseguiu travar a disseminação do vírus. Foi decretada uma rigorosa quarentena de 21 dias a quem entrasse no país, foi montado um plano de rastreamento de contactos de pessoas infetadas e foram distribuídos kits com desinfetantes, máscaras e analgésicos, doados pela Índia.»
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257 anos para a igualdade de género

 


«O World Economic Forum (WEF) prevê que, a nível global, ainda tenhamos de esperar 257 anos para atingir a igualdade económica entre mulheres e homens. As desigualdades de género criadas pela pandemia podem atrasar ainda mais este processo. Os dados já disponíveis sugerem que a desvantagem das mulheres no mercado de trabalho pré-pandemia se agravou, uma vez que as mulheres concentram maiores perdas de rendimento e uma sobrecarga de tarefas domésticas.

As mulheres são a maioria da força de trabalho dos setores mais afetados pela pandemia – a Restauração, os Alojamentos Turísticos e a Moda e Acessórios –, com 58%, 57%, e 84% de trabalhadoras, respetivamente. Estes setores tiveram uma quebra nas compras com meios de pagamento eletrónico superior a 80% entre em abril de 2020 e de 2019. Estes números da SIBS Analytics mostram que é provável que os trabalhadores destes setores tenham também sido severamente prejudicados. Na primeira edição do relatório “Portugal, Balanço Social”, que resulta de uma parceria da Nova SBE com a Fundação La Caixa, o Bruno P. Carvalho, a Susana Peralta e eu tentamos perceber quem são estes trabalhadores. Dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, que agregam informação dos trabalhadores do setor privado, mostram que são sobretudo pessoas com salários baixos e vínculos precários.

Em 2018, na Restauração, o salário bruto médio era 761€/mês e 78% dos trabalhadores recebiam menos do que o salário mediano nacional (867€). A proporção de contratos de trabalho a termo certo (e, portanto, mais precários) no setor dos Alojamentos Turísticos é de 48%, quase o dobro da média nacional. A Restauração concentra também um maior número de trabalhadores com escolaridade básica e mão de obra estrangeira. Além de estarem numa situação à partida mais frágil, com a pandemia, e uma vez que a maior parte destas atividades não são compatíveis com teletrabalho, estes trabalhadores terão perdido rendimentos (ou mesmo o emprego).

Algumas profissões são compatíveis com teletrabalho, o que permitiu a muitos trabalhadores destas profissões manterem o seu nível de rendimento. Ainda assim, estes trabalhadores não foram imunes ao impacto da pandemia. Em muitos casos, custos de telecomunicações, água e energia foram transferidos do empregador para o trabalhador. Além disto, o confinamento torna mais difícil a separação da vida profissional e familiar, e pode amplificar o stress e ter importantes impactos na saúde psicológica. As mulheres foram particularmente sobrecarregadas, por exemplo porque são elas quem mais cuida de crianças e dependentes em casa. Já antes da pandemia, o Inquérito às Condições de Vida e do Rendimento (ICOR), disponibilizado pelo INE, mostrava que, em 2019, entre as que trabalhavam menos de 30 horas semanais, 11,5% apontam o tempo despendido com o trabalho doméstico e a cuidar de crianças como uma razão (face a apenas 0,6% dos homens) e apenas 1,3% afirma estar a estudar ou a receber formação (face a 16% dos homens).

A pandemia não ajudou. Um estudo representativo que entrevistou 800 mulheres italianas antes e depois do início da pandemia sugere que a carga de trabalho doméstico aumentou para as mulheres, enquanto que os homens aumentaram o tempo com os filhos, mas não o tempo dedicado a outras tarefas domésticas. Inquéritos realizados no Reino Unido, em março de 2020, mostram que as mulheres cuidam dos filhos independentemente de trabalharem ou não, enquanto os homens cuidam mais dos filhos quando não estão a trabalhar. Também nos Estados Unidos, um inquérito realizado numa semana de junho de 2020 mostra que 12,7% das mães, contra apenas 2,8% dos pais, não estava a trabalhar devido ao fecho de escolas e creches. Os autores estimam que este fenómeno contribuiu para o aumento em quase três pontos percentuais da taxa de desemprego entre mães de crianças pequenas. Em Portugal, segundo os números do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), até agosto de 2020, as mulheres tinham menos probabilidade de regressar ao trabalho depois de se inscreverem no centro de emprego.

A pobreza já afetava mais as mulheres antes da pandemia. Em 2019, ser pobre em Portugal significava ganhar menos de 6014€ por ano (isto é, 501€ por mês). Em média, 18% das mulheres vivia abaixo deste limiar (versus 16,5% dos homens). A taxa de pobreza atinge os 34% em famílias monoparentais, onde em 85% dos casos o adulto é uma mulher. Antes da pandemia, segundo a OCDE, mesmo quando trabalhavam, as mulheres ganhavam menos – em média, uma mulher ganha 0,73€ por cada 1€ ganho por um homem com o mesmo nível de escolaridade. O nascimento do primeiro filho é um dos determinantes desta disparidade salarial. Um relatório de 2016 do Institute for Fiscal Studies mostra que, no Reino Unido, as mulheres ganham 0,90 libras por cada libra ganha pelos homens antes do nascimento do primeiro filho e apenas 0,75 libras quando o filho chega aos 12 anos. Quando os filhos atingem 20 anos de idade, as mães têm, em média, menos quatro anos de trabalho remunerado do que os pais.

A perda de rendimentos, a precariedade laboral e o aumento o trabalho doméstico não remunerado podem apagar anos de conquistas na igualdade de género. O mito de que o homem providencia e a mulher cuida continua a atrasar-nos. Daqui a 257 anos, nenhuma de nós estará cá para celebrar.»

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7.4.21

O silêncio é de ouro

 

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07.04.1893 - Almada Negreiros

 


Almada Negreiros nasceu em S.Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893. Na minha última viagem pré-Covid, visitei e almocei na casa onde nasceu, na Roça Saudade, a 1.500 metros de altitude, da qual o pai era Administrador. Com dois anos, Almada Negreiros veio para Cascais e passou a viver com a família da mãe que ficou em S. Tomé e morreu pouco depois.

Ver NESTE POST de 2020 alguns vídeos, nomeadamente um com um excerto da entrevista que concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969.
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Marcelo e os 7 de Abril

 


As memórias do Facebook recordam-me que Marcelo disse o que está na imagem num 7 de Abril – de 2020.

Afirmou hoje que «Para a semana temos mais números e vamos ver se corre bem até esse momento de decisão e se depois correm bem os 15 dias seguintes, porque isso significaria correr bem o mês de Abril e podermos entrar em Maio numa outra onda, uma boa onda.»

Esperemos que, em 7 de Abril de 2022, Marcelo já esteja a dar mergulhos no Guincho.
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Quer saber como se polariza o debate? Leia títulos de jornais

 


«A técnica do extremista político (a que por facilidade se tem chamado “populista”), num tempo em que as redes sociais contribuem para a polarização, é dizer ou escrever coisas polémicas e esperar que a indignação siga o seu caminho. Mesmo que ela seja mal fundamentada, garante atenção. As reações negativas são o seu melhor promotor. Não o tornam apenas protagonista do debate, conseguem que as coisas inaceitáveis que ele diz ganhem o estatuto de tema fraturante, centro de confronto e polémica, passando a ser ele a definir a agenda política. Até estarmos todos a discutir os temas que ele escolhe como relevantes, nos termos que ele define como oportunos e quase sempre em torno das simplificações e caricaturas que ele próprio desenha. Não falta, aliás, quem esteja disponível a corresponder ao adversário desejado, para ser a sua antítese. Porque aceita que seja o extremista a definir os termos em que se faz o confronto.

Como é que os extremistas (não confundir com radicais) descobriram esta técnica? Não descobrindo coisa alguma. Limitaram-se a aproveitar as regras impostas pela comunicação social. Não foram eles que inventaram os títulos polémicos e enganadores em busca de cliques para notícias que tinham tudo para ser sóbrias. Não foram eles que fizeram da exceção a regra, seguindo a máxima de que há notícia quando o homem morde no cão, não quando acontece o oposto. Uma coisa que fazia sentido quando não tínhamos ciclos noticiosos de 24 horas, com um matraqueamento tal que conseguimos convencer um país inteiro que a norma agora é os homens morderem os cães, ao contrário do que acontecia no passado.

Não foram os extremistas políticos que inventaram a lógica do debate prós e contras, que reduz os confrontos a dois lados contrastados e inconciliáveis. Seja qual for o tema. E já nem sequer são apenas (ou especialmente) os colunistas de extrema-direita que vivem de artigos de opinião que se esgotam nos títulos e que sugam de qualquer tema o que de mais polémico ele possa ter. E se não for polémico, o mais descarado “whataboutismo”, recurso preguiçoso de todos os preguiçosos.

É possível que qualquer pessoa que escreve e fala com frequência no espaço público já tenha cedido a esta facilidade, mas há quem faça disto carreira. E que seja aplaudido pelo “desassombro”, a “coragem”, a “frontalidade”, a “liberdade”. Ser polémico ou inaceitável, chocante ou abjeto, passou a ser uma qualidade profissional. No passado, tinha de se juntar a estes atributos uma enorme qualidade argumentativa. Assim, sim, compreendia-se a vantagem diferenciadora: defender bem o que é difícil de defender, que a maioria recusa, exige ser melhor do que os outros. Agora, não é preciso nada. Só a reação indignada. A cultura de trincheira fará o resto, com dois exércitos reativos prontos para se digladiarem em torno de pouco mais do que nada.

Leio na imprensa de referência e oiço nos espaços de comentário televisivo um enorme incómodo com a polarização da política e da sociedade. E a responsabilização das redes sociais por isso. Ou dos partidos de extrema-direita ou até “antissistémicos”. Mas foi a lógica concorrencial dos media, que pede espetáculo em vez de reflexão, grotesco em vez de inteligência, apenas ajudada pelas redes sociais, que tornou este discurso mais apetecível para quem queira ter algum sucesso mediático. Foi a comunicação social mainstream que alimentou o debate polarizado e deu valor comercial à afirmação chocante. A política veio depois.»

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6.4.21

A vida é cheia de imprevistos

 

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A Censura que já tivemos

 

De um texto sobre António Alçada Baptista:

«E não resisto a um episódio que me contou, passado com a censura, quando dirigia a revista O Tempo e o Modo. Em 1964, Sophia de Mello Breyner traduziu de um modo sublime o Hamlet, de Shakespeare. A versão é uma obra-prima da língua portuguesa. O António considerou dever publicar um excerto na revista. Mas era necessário enviar as provas tipográficas à Comissão de Censura. Apesar de a revista ser das mais martirizadas pela censura (tendo sofrido a proibição de cerca de metade dos textos que, entre 1963 e 1969, foram a exame), ele achou que naquele caso não haveria problemas de maior. Enganou-se, porém. O texto de Sophia veio totalmente cortado. António Alçada ficou incrédulo. Afinal, era um texto clássico do século XVII. Pegou no telefone e falou ao coronel dos serviços de censura. Eram coronéis reformados que normalmente estavam encarregados dessa triste tarefa... Do lado de lá, o censor confirmou o corte total e António, com uma infinita paciência, explicou o absurdo da situação. No entanto, o inabalável coronel insistia. Era assim, e pronto, não havia volta a dar... E lá veio a justificação. A alusão no diálogo a um Marcelo, certamente teria razão perversa. Falava-se então muito da sucessão de Salazar, e o nome que já circulava era o de Marcelo Caetano... O censor estava certo de que havia nessa referência uma ardilosa intenção política... Não se conformou, porém, António Alçada - e, palavra puxa palavra, acabou por conseguir um corte parcial... A fala de Horácio no I Ato, depois de um galo cantar, terminava assim: "O fantasma avança. Para-o! Fá-lo parar Marcelo!" E foi esta a única frase proibida.»
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06.04.2011 – Passava já das oito e meia da noite



 

«Passava já das oito e meia da noite quando o então primeiro-ministro, José Sócrates, falou ao País e confirmou o pedido de ajuda.»

Foi há 10 anos.
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Os adultos são chamados à sala

 


«Numa altura em que o Centro Europeu de Controlo de Doenças (CECD) coloca Portugal em primeiro lugar na situação epidemiológica relativa à pandemia, apenas ultrapassado no continente europeu pela Islândia, e iniciada ontem a segunda fase do desconfinamento, resta-nos apelar ao sentido cívico de todos para que não voltemos a ser os piores do mundo e para que, deste modo, possamos começar a recuperação de uma cavada crise económico-financeira e social.

Todas as organizações que se dedicam meritoriamente ao apoio aos mais carenciados dão nota de números crescentes de pedidos de auxílio, que abrangem já a classe média, e que demandam, de todos, uma constante atenção para com o outro. Só o Banco Alimentar, nos primeiros seis meses de funcionamento da Rede de Emergência, valeu a mais de 60.750 pessoas. Neste ponto, estou em crer que a nossa secular História, como nos tem demonstrado, não deixará de ser a massa unificadora de uma sociedade coesa e solidária.

Todavia, os sinais são deveras preocupantes. No seu mais recente relatório (World Economic Outlook), o Fundo Monetário Internacional (FMI), já em Abril, assume que os efeitos económicos da pandemia implicam e implicarão consideráveis perdas de médio prazo, embora, como sempre, mais salientes nos países menos desenvolvidos. Estima-se, não obstante, que os efeitos não serão tão gravosos quantos os advenientes da crise das dívidas soberanas, iniciada em 2008, e que por cá pôs o país perto da bancarrota e trouxe-nos a troika de volta.

Em 2024, prevê-se que o crescimento do PIB global seja 3% abaixo do expectável pré-covid. A contracção na indústria hoteleira e da restauração representa, em Espanha, perdas de 6% a 7% da riqueza nacional, o que não andará longe do que sucede em Portugal. Na educação, um estudo recente da OIT (Organização Internacional do Trabalho) verificava que 65% dos estudantes têm a percepção de menos aprendizagens com as aulas online, para já não falar nos dados de um estudo promovido pela UNESCO, Unicef e Banco Mundial, que aponta como principais problemas para os novos modelos de ensino-aprendizagem as circunstâncias de 68% dos estudantes do mundo não terem sequer acesso à electricidade, 65% à Internet e 58% dos professores não disporem ou estarem preparados para lidar com as novas ferramentas.

Donde, como nos vêm dizendo – e bem –, é suicídio que Portugal junte às crises sanitária e económica uma crise política. Para tal será essencial que o primeiro-ministro interiorize que não governa com maioria absoluta e que a forma como tem tratado alguns parceiros da anterior solução governativa é de uma altivez que, aqui e além, roça tiques autoritários que criticou a Cavaco ou de que também padeceu Sócrates. Em especial com o BE, é urgente refazer pontes, o que é sempre um caminho bilateral, evitando os afrontamentos públicos a que vimos assistindo. Tanto assim é que, se o PCP tiver mais um decepcionante resultado eleitoral, agora nas autárquicas, a cooperação que tem mantido com o PS pode entrar em colapso. Os comunistas têm um património secular de luta pelos interesses do país, por certo à luz dos seus ideais, de que discordo. Mas tal património pode ceder quando confrontado com a dura realidade de se tornar uma força política irrelevante e descaracterizada, tanto mais que a sua perda de força no terreno será proporcional à capacidade negocial com o Governo.

Numa palavra, as esquerdas devem, quanto mais não seja por dever patriótico, encontrar plataformas comuns de entendimento aptas a relançar a economia e o emprego. Nas últimas legislativas, o Povo português demonstrou que a “geringonça” era para continuar e o PS pré-pandemia acreditou que poderia criar uma crise política quando as sondagens apontassem para uma maioria absoluta. Tal não vai suceder até ao fim da legislatura.

A outra alternativa, de direita, não arranca, com um PSD ziguezagueante e um líder incapaz de se afirmar dentro e fora do partido. O argumento de que são os governos que perdem as eleições e não as oposições que as ganham só em parte procede, pois os eleitores, se não vislumbrarem ao menos um lampejo de caminho alternativo, deixam-se ficar. A lei mais cumprida no mundo é a do menor esforço ou da força da inércia. O CDS está moribundo, a IL não parece descolar dos valores já alcançados e as opções mais à direita nem merecem comentário.

Donde, como bem diz o Presidente da República, os próximos dois Orçamentos do Estado serão essenciais e espera-se de Marcelo que, como diz, tudo faça para segurar a maioria parlamentar, pela pragmática razão que ela é a única que já deu provas de funcionar. Por certo com erros ou imperfeições, mas, quando se faz a chamada, quem mais diz “presente”?»

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5.4.21

Myanmar

 


A violência continua, há centenas de mortos, mas a solidariedade do povo é uma realidade.
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Mais uma sondagem



 

Ver e ler AQUI.
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Quem não semeia, não colhe



 

«A pandemia tem contribuído para que a política se encaixe cada vez mais nos meandros de parte dos órgãos de soberania. Já muito da intermediação da política tinha passado para os media, virando comunicacional e perdendo bastante da ligação direta aos cidadãos.

Se antes da eclosão da pandemia a participação cidadã já era reduzida, esporádica e de pouca intensidade, incluindo nos movimentos sociais mais aguerridos, como no caso sindical, entretanto, diminuiu com as limitações óbvias de caráter sanitário.

A distância entre a cidadania e a política aumentou. Erradamente, a perceção que os cidadãos têm acerca do futuro é de descrença. É um fenómeno complexo e contraditório. Desconfiam, mas não rompem com as opções eleitorais que geram esse estado de alma; falta a coragem social.

A crueza dos desafios faz ainda muita gente pender para o lado dos que apregoam o populismo de extrema-direita, embora saídos do sistema que dizem ser a vergonha. Nasceram e medraram no que chamam pântano e agitam bandeiras que geram oportunismos sociais nos desesperados e ou atingidos. Entre o levantarem-se e a raspadinha jogam nesta última.

Ao mesmo tempo, a revolução das mil fantasias tecnológicas fecha-nos para a realidade. Um clique, uma passagem dos dedos e eis que tudo está no ecrã. Falta a consciência da importância do relacionamento dos seres humanos.

Estoutro confinamento no mergulho virtual despido do encanto ou desencanto próprio da aprendizagem da socialização agrava o outro, reduz possibilidades transformadoras.

A política, neste contexto, torna-se ainda uma arte de maiores dificuldades para a democracia enquanto sistema e fica mais facilmente à mercê dos que a pretendem amordaçar. Quanto mais os cidadãos se afastarem da política, mais esta empobrecerá. O próprio valor da palavra se reduz, sendo a palavra o que nos distingue dos outros animais.

Assistimos ao diferendo entre a AR, o Governo e o PR. Parece que tudo se passa ali, entre aqueles atores, mais uns tantos comentários dos dirigentes partidários nos media.

Marcelo parece pretender deixar Costa à mercê do decidido na AR. Costa entende que o diploma viola a Constituição. Afinal, a convergência estratégica não se verifica neste caso, a mesma que levou Costa na Autoeuropa a lançar a candidatura de MRS. Este sobreleva a importância da estabilidade contra o que designa de duas crises – sanitária e social –, tentando esconder que a sua posição acrescenta combustível ao conflito institucional. Marcelo deixou o governo minoritário mais só. Joga outro jogo. Já não poderá ser candidato.

Talvez o PS não tenha interiorizado que sem acordos tácitos ou expressos com as esquerdas não pode governar, salvo se virar o azimute.

Marcelo é um político hábil, batido, endurecido por mil batalhas e tem em mente algo. A espera é uma arte.

O PSD votou com as esquerdas; há eleições em outubro, precisa de muito mais do que o que tem feito. Procura nas camadas médias mais necessitadas apoios eleitorais.

As esquerdas reclamam mais apoios aos atingidos duramente pela crise. Se há dinheiro para o Novo Banco, por que não pode haver para quem está totalmente desamparado?

Os cenários fazem-se entre estes protagonistas. Aqueles a quem a política se destina olham desconfiados à espera. Talvez aguardem pelos que lhes “ofereçam” mundos e assim não tenham que se esforçar, como se tal fosse possível.

Neste mar alto de tantos jogos talvez saiam vencedores os manobristas. Só a intervenção dos cidadãos quebraria este risco.»

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4.4.21

Marcelo não chegou a tempo

 

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Páscoa – dúvidas legítimas

 


- Pai, o que é a Páscoa? 
- Ora, Páscoa é …uma festa religiosa! 

- Igual ao Natal? 
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus e na Páscoa a sua ressurreição. 

- Ressurreição? 
- Ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido? 

- Mais ou menos... Mãe, Jesus era um coelho? 
- Que parvoíce é essa? Estás-te a passar! Coelho? Jesus Cristo é o Pai do Céu! 

- Mãe, mas o Pai do Céu não é Deus? 
- É filho! Jesus e Deus são a mesma coisa. Vais estudar isso na catequese. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. 

- O Espírito Santo também é Deus? 
- É sim. 

- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo? 
- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mãe entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém. 

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa? 
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos. 

- O coelho põe ovos? Não era melhor que fosse galinha da Páscoa? 
- Era, era melhor, ou então peru. 

- Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Em que dia é que ele morreu? 
- Isso eu sei: na Sexta-feira santa. Morreu na Sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de aleluia. 

- Um dia depois portanto! 
- Não, filho - três dias! 

- Então morreu na quarta-feira. 
- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ouve, já me baralhaste todo! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois! 

- Como !?!? Como !?!? 

- Pai, qual era o sobrenome de Jesus? 
- Cristo. Jesus Cristo. 

- Só? 
- Que eu saiba sim, porquê? 

- Não sei não, mas tenho um palpite que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não achas?
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04.04.1968- He had a dream

 

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