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17.12.25

A saga das afirmações de um ministro

 


Ontem, estive umas horas fora da net e, quando voltei, já tinha caído o Carmo e a Trindade vacilava. Vi logo os dois vídeos, o manipulado e o completo, e fui lendo dezenas de interpretações.

Hoje vi uma entrevista de ontem na TVI cuja leitura aconselho. Concluí provisoriamente o seguinte: a complicação é grande, duvido que funcione, mas isso não é o mais importante: Montenegro deve agradecer a este ministro inteligente que ele esteja a tentar concretizar um projecto de direita pura e dura, baseado na sacrossanta “liberdade de escolha”, com toda a parafernália de “vouchers” e similares. A procissão ainda não saiu do adro.

15.11.25

O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação

 


«A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial,” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.

Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.

Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.

O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.

Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.

A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.

Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.

Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é a sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.»


29.7.25

Educação sem corpo

 


«Há um estranho consolo em discutir programas escolares em julho. A sala está vazia, os quadros limpos, os corredores silenciosos. E é nesse silêncio que surgem as polémicas mais ruidosas: mudanças no currículo, ameaças ao futuro da juventude, fantasmas ideológicos escondidos em parágrafos. Desta vez, o que se discute é o lugar da sexualidade na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Ou, mais exatamente, o seu apagamento.

Diz o Governo que não se trata de censura, que é só uma pequena reorganização. A sexualidade passará a integrar a área da saúde, dissolvida num domínio mais amplo, mais técnico, mais asséptico.

A reação foi previsível: gritos de alerta, colunas inflamadas, indignação moral de um lado e do outro. Como se a escola estivesse prestes a tornar-se campo de reeducação progressista ou, inversamente, reduto do puritanismo restaurado. Como se uma aula de quarenta e cinco minutos por semana — quando existe — fosse o campo de batalha final da nossa consciência cívica.

É que o problema é esse: a aula muitas vezes não existe. A Fenprof estimou que, no último ano letivo, mais de um milhão de alunos ficaram sem professores em pelo menos uma disciplina. O Ministério não conseguiu desmentir, mesmo depois de ter encomendado um estudo à KPMG queterminou em incógnita. Não sabemos quantos alunos têm professores, mas sabemos que as aulas de Cidadania vão ser reformuladas. Reformuladas, ainda que para muitos não sejam sequer leccionadas.

Discutimos um subgrupo de uma disciplina que estatisticamente não chega à sala. É um debate na torre de marfim, onde se discute com seriedade algo que não existe com regularidade. Não é reforma nenhuma. É distração.

A eliminação da sexualidade deste programa não é um acidente técnico, nem um simples erro de formulação. É um gesto. Um piscar de olho. Uma forma de dizer à extrema-direita que estão estamos atentos aos receios que os atormentam. O Governo, neste caso, prefere evitar o alarme das famílias do que enfrentar o analfabetismo emocional. Prefere agradar a quem se ofende com a palavra “sexo” do que ensinar a diferença entre toque e violência, entre desejo e coação, entre intimidade e vergonha.

Dizer que a educação sexual nas escolas é doutrinação ideológica não é só falso; é perigoso. A sexualidade, enquanto tema educativo, não nasce da agenda woke, dos anti-cristo, nem da militância progressista. Está consagrada, como bem lembrou a Susana Peralta, em tratados internacionais, normas da OMS, estratégias europeias sobre saúde reprodutiva. Desde 1990 que a Convenção sobre os Direitos da Criança exige que os Estados protejam os mais novos através de educação sexual. A Unesco atualizou em 2018 os seus standards, lembrando que ensinar sexualidade não é ensinar comportamento, é ensinar consciência cognitiva, emocional, física, social.

Quando se fala de sexualidade nas escolas, fala-se de prevenir abusos. De ensinar o que é consentimento. De nomear o corpo para que o corpo não se torne tabu. Fala-se de proteger. De informar. De cuidar.

A educação sexual não serve para inculcar ideologia. Serve para impedir silêncio. Onde não se ensina, perpetua-se o risco de ignorância, de violência, de culpa mal dirigida. O risco de crescer sem saber o que é, sem conseguir nomear, sem amparo.

Por isso, o verdadeiro escândalo não é o que está escrito nos novos documentos. É o que não está. Não há professores, não há aulas, não há garantias. Mas há zelo na escolha dos temas de uma disciplina para agradar aos pais de Famalicão e a ideólogos radicais da direita radical. Há prudência calculada. Há medo de desagradar a quem grita mais alto.

A escola pública é, por definição, plural. E essa pluralidade exige coragem de se ensinar o que custa, de nomear o que incomoda, de incluir o que se prefere esquecer.

Apagar a sexualidade das aulas de cidadania, é mais do que uma opção pedagógica, um gesto simbólico que retira o corpo da formação do cidadão. Como se a cidadania pudesse ser ensinada sem desejo, sem limite, sem toque e os alunos fossem espíritos puros a flutuar acima do corpo que habitam.

É sempre mais fácil falar de polémicas que não se concretizam do que resolver os problemas reais que já estão em curso. E é por isso que discutimos o conteúdo de uma aula que ninguém tem. Enquanto isso, no mundo real, os alunos esperam por professores que não chegam. E os seus corpos, esses, não esperam por ninguém.»


25.7.25

Entre o diploma e a exclusão: o paradoxo da juventude portuguesa

 


«Vivemos um momento de aceleradas transformações civilizacionais. A revolução tecnológica redefiniu as condições de vida da juventude contemporânea, criando um panorama de possibilidades educacionais, profissionais e existenciais que seria impensável há cerca de uma década. A geração atual beneficia de conquistas significativas: maior acesso ao ensino, uma sociedade que lhe salvaguarda a liberdade de expressão e recursos digitais que permitem explorar múltiplos percursos formativos. Assim, num plano teórico, encontra-se numa posição privilegiada para construir trajetórias de sucesso e de realização pessoal.

No entanto, e paradoxalmente, essa aparente abundância de possibilidades e recursos não se traduz necessariamente em estados de realização pessoal, serenidade existencial ou integração social efetiva. A simples multiplicidade de opções não assegura, automaticamente, o desenvolvimento de competências para navegar com sucesso num mundo de crescente complexidade. Durante o processo fundamental de construção identitária e autonomização gradual, os jovens necessitam de estruturas de apoio consistentes, de referências claras e de orientação adequada para conseguirem transformar as oportunidades formais em trajetórias sustentáveis de realização pessoal e integração social.»

Continuar a ler AQUI.

23.7.25

Relvas e a frase da noite

 


«Era a última pessoa que esperava que falasse de Ensino Superior.»

2012:



Até onde está disposto a ir, Luís?

 


«Depois das exibições securitárias, criticadas pela Provedoria de Justiça e para as quais a comunicação social tem dado o seu forte contributo (segundo o Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, o número de crimes registados pelas autoridades diminuiu 1,3% neste século, enquanto subiu 130% nas primeiras páginas dos principais jornais) e do encontro quase perfeito com o Chega na política de imigração (combatendo instrumentos fundamentais para a integração), o governo quer retirar das aprendizagens essenciais da disciplina de cidadania e desenvolvimento tudo o que tenha a ver com sexualidade e saúde sexual e reprodutiva.

Não vou debater a contradição entre a ideia de que as outras culturas se devem integrar nos “nossos valores” ao mesmo tempo que se diz que a escola não deve transmitir valores e educar, que isso é do foro privado e familiar. Quando interessa, os valores são comunitários, quando deixa de interessar, são do foro privado. Só que a escola não é apenas lugar onde se recebem conhecimentos científicos, é lugar de construção de comunidade. Mas o que aqui está em questão é um pouco mais básico do que isto: saúde pública e cuidado mínimo.

Sei onde se fazia a educação sexual na geração dos nossos pais: os homens iam às “meninas”, as mulheres esperavam pelo casamento. Sei onde se recebia educação sexual na minha geração: em conversa de amigos, revistas “especializadas” e em informação de emergência quando uma amiga ou namorada tinha de fazer um aborto clandestino. Sei onde se faz hoje: na Internet e a ouvir influencers. Com raríssimas exceções, nunca foi nem é em casa. Estou disponível para debater o modelo da disciplina de cidadania (mais do que os conteúdos, a forma e a formação de quem a dirige), mas seria mais fácil se o debate não recuasse décadas. Sobretudo quando aumenta a violência no namoro e a misoginia entre os jovens rapazes.

Tenho, se me permitem o palpite, todas as dúvidas que esta opção tenha vindo do ministro da Educação. Porque o próprio tinha prometido, no início do mês, que nenhum dos 17 temas que até agora deviam ser abordados ao longo da escolaridade obrigatória iria desaparecer. Pelo timing e a coerência tática, a opção parece-me vinda de cima. Para responder ao ruido das redes sociais e da extrema-direita, não de preocupações transmitidas pelas escolas.

Sentindo que o PS está nas lonas e incapaz de ir à luta em qualquer debate, Montenegro quer fazer o pleno e destrunfar o Chega. A aproximação é tal, que o primeiro-ministro já deixou de fazer a equivalência entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, para a fazer entre o Chega e o PS, dizendo que o seu “não é não” era para os dois. Que não havia, portanto, uma separação civilizacional entre o PSD e a extrema-direita. Até inventou um Ventura que, acabado de ler nomes de crianças no parlamento, se estaria a moderar.

Já nem debato o oportunismo e a falta de valores de um sobrevivente. Fico-me pela tática. Não destrunfa coisa alguma. A cada nova vitória, o Chega trará novo tema, continuando a dominar a agenda. E se dominar a política é dominar a agenda, Ventura é rei e senhor.

Até ver, isto dá jeito momentâneo ao governo, porque assim nos põe a falar de tudo, menos de saúde e habitação, os dois problemas que mais preocupam o País. Mas, a longo prazo, continua a deslizar o país para a direita, até nem o PSD conseguir acompanhar. Ou talvez consiga. Essa é a incógnita que sobra: até onde está disposto a ir Montenegro? Qual é o seu limite? Suspeito que seja o seu próprio poder. Não mais do que isso.»


6.7.25

O «drama» das crianças imigrantes

 


«A “Class of Wonders”, startup portuguesa que, a partir de uma metodologia de gamificação, lançou dois jogos que facilitam a aprendizagem de numeracia e literacia, tem sido decisiva na integração de crianças migrantes ou filhas de pais estrangeiros e que contactam pela primeira vez com a língua portuguesa.»


8.5.25

O novo macarthismo é uma oportunidade para a Europa?



«Foram poucos minutos, mas os suficientes para o ato de resistência ser fotografado e partilhado. Hasteado numa residência estudantil de Harvard, um pequeno pano lembrava que a “liberdade de expressão inclui a Palestina”. A mensagem responde ao estrangulamento financeiro às universidades decretado pela administração Trump. Com base na acusação de inação perante o antissemitismo, Trump exige que alterem currículos com critérios políticos e pretende influenciar critérios na admissão de estudantes internacionais.

Quem não capitular perante o novo macarthismo sentirá, de forma ainda mais violenta, o apertar no torniquete dos cofres públicos. A Johns Hopkins despediu mais de dois mil funcionários após um corte de 800 milhões de dólares. A Universidade de Columbia cedeu, após ver congelados 400 milhões por causa dos protestos estudantis contra a ocupação de Gaza. Dos 25 estabelecimentos de ensino superior que mais financiamento federal receberam nos EUA em 2023, pelo menos 16 estão sob investigação. Entre estes, 10 estão a ser alvo de especial atenção por parte de uma task force governamental contra o alegado antissemitismo, tratando qualquer crítica a Israel como apologia do Hamas.

Rebecca Simmons, médica e investigadora há mais de 50 anos nos EUA,viu o seu projeto sobre complicações na gravidez entre mulheres negras e pobres bloqueado por uma ordem executiva que proíbe financiamento federal a estudos sobre diversidade. Como este, há centenas de casos semelhantes, com impacto direto na saúde pública e inovação médica.

Nem as universidades internacionais com protocolos com as americanas, como algumas portuguesas, são poupadas, exigindo a administração Trump o fim de políticas contra a discriminação ou o fim da investigação em áreas “sensíveis” como a saúde pública.

REVOLUÇÃO CULTURAL

Das grandes firmas de advocacia às cadeias de televisão, a capitulação perante as exigências autocráticas tem sido regra nestes loucos meses em Washington. Justiça seja feita a Trump: nem as instituições mais poderosas são poupadas. Pelo contrário, a sua capitulação é especialmente importante, exatamente pelo seu poder simbólico. Por isso o braço de ferro com Harvard se tornou tão relevante.

Em resposta à chantagem, Harvard decidiu enfrentar Trump, garantindo que prefere perder 2000 milhões de dólares vindos dos cofres federais do que abdicar do controlo da instituição e da liberdade de definir os seus currículos. Claro que o desafogo financeiro da universidade mais rica do mundo, com um orçamento anual de 50 mil milhões de dólares, ajuda a alguma resistência. Mas o reitor sabe que tem muito a perder, como a isenção fiscal de que beneficia, vital para apoios privados. Até agora, nem isso demoveu a instituição, que sente também a responsabilidade de defender as restantes faculdades sem o seu músculo financeiro, de enfrentar a administração Trump em tribunal. O que está em causa, com este corte financeiro, não é tanto o funcionamento da universidade, mas o dos seus centros de investigação médica. Dos 9000 milhões de dólares que Harvard recebe do Estado, 7000 destinam-se a onze hospitais em Boston e Cambridge.

Os EUA estão a viver uma guerra cultural inspirada, na sua lógica, no estertor de Mao: a purificação do sistema político contra a imposição de um quadro de valores, não natural, pelas elites que dominam o sistema contra a vontade do povo. J.D. Vance não podia ter sido mais claro: “as universidades são o inimigo”. Vance, ele próprio formado em Yale, argumenta que a verdade e o conhecimento nos EUA têm sido moldados pelas universidades com base numa tirania. E perguntou: “Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?” Quebrar as universidades é fundamental para impor uma nova hegemonia cultural.

A guerra cultural americana já não é meramente simbólica. Atacar as universidades serve três propósitos: destruir uma das últimas barreiras institucionais ao autoritarismo, castigar quem não se ajoelha e consolidar o ressentimento das bases contra as “elites do saber”. Trump segue o guião da Hungria, onde Orbán fez o mesmo, quebrando sem dificuldade a resistência das universidades, agora transformadas em fundações com amplo controlo político.

Vive-se, por cá, o mito da ausência de Estado no domínio tecnológico e científico norte-americano. A eficácia da chantagem de Trump, usando o corte de apoios públicos, desmonta a fantasia.

O investimento federal nas universidades ascende a 60 mil milhões de dólares, um valor trinta vezes superior (atualizado à inflação) às transferências anteriores à Segunda Guerra Mundial. Foi a corrida pela descoberta da bomba nuclear, um esforço titânico que juntou dezenas de investigadores das maiores universidades e institutos, que abriu o caminho para o financiamento de projetos de larga escala. A Guerra Fria, a conquista do espaço, a nova fronteira tecnológica, tudo foi consolidando o apoio público à investigação aplicada que abriu caminho a quase todas as grandes inovações do nosso tempo.

As empresas privadas investem quantias astronómicas em inovação aplicada. Mas ela repousa em décadas de investigação em ciência base que permite, anos depois, a massificação de produtos ou novas tecnologias. A nova geração de vacinas usadas para combater a Covid-19 foi possível graças à pesquisa e ao desenvolvimento efetuados nos anos 60 do século passado.

RIO

Consoante o ranking, 16 ou 20 das 25 melhores universidades do mundo estão nos EUA. Tirando uma breve aparição de Zurique, só as do Reino Unido, com três dos lugares cimeiros, se destacam nas europeias. Nenhuma de uma União Europeia que tanto fala em ciência e inovação. A China, pelo contrário, tem uma ou duas (e Singapura uma).

Não está escrito em pedra que as melhores universidades e centros de inovação fiquem sempre no mesmo país. A Alemanha foi o centro académico até 1933, e deixou de o ser com a perseguição aos judeus e à liberdade de expressão, essencial para o trabalho académico, dando origem a uma fuga de cérebros prontamente acolhida pelos EUA.

Mais de 75% dos investigadores que responderam a um inquérito conduzido pela Nature admitem abandonar os EUA para poder prosseguir o seu trabalho na Europa ou no Canadá. Algumas universidades europeias já sentem o aumento do número de candidaturas do outro lado do oceano e, como sempre, alguns estão mais acordados do que outros. Doze governos escreveram uma carta à comissária europeia da Inovação, defendendo uma estratégia concertada para tentar captar talento internacional para as universidades do continente. Entre esses países encontramos a França, Espanha, Alemanha ou Grécia, mas, como é evidente, nem sinal de Portugal.

É preciso repetir programas de atração, como o que os EUA levaram a curso no pós-guerra (Operação Paperclip), mas desta vez em sinal contrário. A Europa ainda tem uma vantagem em relação à China: é vista como um espaço de liberdade de pensamento, crítica e investigação.

Como avisa Bruno Maçães no Perguntar Não Ofende, a liberdade não chega (nem é certo que, em algumas áreas, isso seja assim tão relevante para os cientistas). A diferença salarial e de investimento em investigação é enorme. É preciso investir e coordenar investimento.

Primeiro Macron, depois Von der Leyen, foram bastante agressivos no discurso sobre a captação de talento das universidades norte-americanas. “A Europa deve continuar a ser a pátria da liberdade académica e científica”, disse a presidente da Comissão Europeia, na apresentação do programa “Escolhe a Europa”. Garantindo que a União Europeia já apoia investigadores que venham para o espaço europeu, atribuindo um complemento à sua bolsa, anunciou “um novo pacote de 500 milhões de euros para 2025-2027, para tornar a Europa um pólo de atracção para os investigadores.” Dá pouco mais 150 milhões por ano para todos os países europeus. Para que se perceba a gota no oceano, mesmo com os cortes de Trump, os EUA continuam a investir 7000 milhões só em Harvard.

Primeiro Macron, depois Von der Leyen, foram bastante agressivos no discurso sobre a captação de talento das universidades norte-americanas. “A Europa deve continuar a ser a pátria da liberdade académica e científica”, disse a presidente da Comissão Europeia, na apresentação do programa “Escolhe a Europa”. Garantindo que a União Europeia já apoia investigadores que venham para o espaço europeu, atribuindo um complemento à sua bolsa, anunciou “um novo pacote de 500 milhões de euros para 2025-2027, para tornar a Europa um pólo de atracção para os investigadores.” Dá pouco mais 150 milhões por ano para todos os países europeus. Para que se perceba a gota no oceano, mesmo com os cortes de Trump, os EUA continuam a investir 7000 milhões só em Harvard.

Também aqui, o bom aluno português decide ficar para trás. Se a situação já não era boa com o anterior governo, agoratemos o orçamento mais baixo da Fundação Ciência e Tecnologia desde 2018. De nada nos serve ter investigadores internacionais com vontade de vir para Portugal se os nossos centros estiverem lotados de precários a trabalhar sem reconhecimento. Não é só uma questão monetária, mas também de estatuto, autonomia e ambiente favorável à investigação.

Ou encaramos a produção de saber como um fator de diferenciação e qualificação da economia, ou continuaremos condenados a olhar para o sucesso dos outros, a depender de monoculturas de baixo valor acrescentado, como a do turismo, e a baixar o IRC na esperança de que assim nasçam flores no deserto. É uma escolha que devia passar pela campanha eleitoral.»

17.4.25

Harvard como exemplo de resistência

 


«Aconteceu mais uma iniciativa da Administração Trump que julgávamos impensável: o ataque à liberdade, ao pluralismo e à produção de conhecimento científico nas universidades. Todas as ditaduras, sem exceção, passam por aí. Recordemos a Revolução Cultural chinesa, o nazismo na Alemanha, Portugal no tempo da ditadura ou, mais recentemente, a Hungria e a Turquia. Sempre o mesmo padrão e o mesmo resultado: despedimento de cientistas e professores, encerramento de departamentos, desmantelamento de projetos de investigação. Não imaginámos nunca que o mesmo acontecesse nos EUA, onde a ciência beneficiou da liberdade académica e do acolhimento de milhares de investigadores fugidos de países com regimes autoritários.

Obama veio a público condenar as ingerências da Administração Trump na vida das universidades, sublinhando que “Harvard deu o exemplo a outras instituições de ensino superior”. Harvard soube rejeitar as restrições à liberdade académica e garantir que todos os seus estudantes continuassem a beneficiar de um ambiente de reflexão intelectual plural.

Porém, as notícias relatam também as dificuldades de outras universidades e a forma como estão a capitular (“Economist”, 12 de abril). Não surpreende, porque a história mostra-nos que as universidades, mesmo quando tentam, não conseguem resistir por muito tempo a regimes ditatoriais, tendo de se adaptar para sobreviver. Mas a história mostra também que, sem liberdade académica, em regra, as universidades sobrevivem sem pujança e com degradação da sua atividade. Sobretudo quando conheceram ambientes de maior autonomia e pluralidade. A crise da universidade em Portugal na fase final do Estado Novo, depois de expulsões sucessivas de cientistas e de estudantes, é um exemplo que não devemos esquecer.

As universidades e os sistemas científicos necessitam, para se desenvolverem, de autonomia e de investimento. Em nenhum país do Mundo a ciência se desenvolveu sem fortes investimentos públicos. É o caráter público do financiamento que permite o seu florescimento e, simultaneamente, garante a sua autonomia. Porém, essa é também a sua grande fragilidade. Quando o Estado usa o seu poder de financiamento para coartar a liberdade, para interferir e determinar ideologicamente o que deve ser ensinado, quem deve ser professor, quem pode ser estudante, é quase impossível evitar a capitulação.

Por saber tudo isto, fica a pairar uma pergunta com sabor amargo: até quando e como vai Harvard ser um exemplo de resistência? As forças do mal são mesmo muito poderosas.»


13.4.25

Inaceitável! A liberdade académica não responde a interrogatórios ideológicos

 


«Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo, esperando que seja o último a ser comido.
Winston Churchill

Há momentos em que o silêncio institucional é cumplicidade. E este é um desses momentos. A revelação de que a Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, enviou às universidades portuguesas um questionário ideológico — exigindo respostas sobre “agendas climáticas”, “relações com partidos comunistas e socialistas”, ou “estratégias para preservar mulheres das ideologias de género” — representa uma violação frontal da liberdade de pensamento, da autonomia universitária e da soberania científica do Estado português.

Este não é um episódio menor. É uma tentativa clara e deliberada de condicionar a atividade académica com base em critérios políticos e ideológicos impostos por uma potência estrangeira. A reação do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, expressa pelo seu presidente, Paulo Jorge Ferreira, é inequívoca: as perguntas enviadas foram “intoleráveis”. Mas isso não basta.

É imperativo que o Governo português, as universidades e a sociedade civil se pronunciem com firmeza: Portugal não tolera inquisições ideológicas.

Mais inquietante ainda é o contexto em que tudo isto ocorre. Portugal investe, anualmente, milhões de euros em parcerias com instituições norte-americanas como o MIT, Carnegie Mellon e a Universidade do Texas em Austin. Essas colaborações — com aspetos positivos — tornam-se perigosas se não forem acompanhadas por mecanismos robustos de proteção da liberdade científica e de escrutínio político.

Colocam-se agora questões que não podem mais ser adiadas: as instituições envolvidas nestas parcerias também receberam este tipo de questionário? E, se ainda não o receberam, estarão imunes a este tipo de pressão? E, caso o venham a receber, como reagirão as instituições portuguesas e o próprio Governo: manterão a dignidade, ou cederão a condicionalismos inaceitáveis?

O que está em causa não é apenas a autonomia da universidade X ou Y. É o modelo de sociedade que queremos defender. O questionário enviado às universidades portuguesas não é um gesto isolado. Inscreve-se numa lógica crescente de exportação ideológica e de pressão sobre instituições académicas, que visa normalizar a intolerância e o controlo do pensamento sob o pretexto da segurança ou da “neutralidade de valores”. Esta ofensiva — herança de uma Administração Trump que procura minar ativamente os consensos científicos e os valores democráticos — continuará a ter ramificações concretas, mesmo após a sua saída formal do poder.

Não nos enganemos: este tipo de práticas, se não forem travadas, corroem as democracias por dentro. Começam nos questionários e terminam em censura e autocensura, na exclusão de temas incómodos e no silenciamento de vozes críticas. E quando isto acontece dentro das universidades, que são — ou deviam ser — os últimos redutos de liberdade de pensamento, é o próprio regime democrático que entra em falência lenta.

É por isso que a recente recomendação do Conselho da União Europeia sobre segurança da investigação (2024) não pode ser ignorada. Os Estados-membros são chamados a proteger os seus sistemas científicos contra interferências externas e riscos híbridos. Portugal tem aqui uma obrigação moral e política de agir — não apenas em defesa dos seus investigadores, mas em defesa da própria democracia europeia.

A ciência não se submete a inquéritos ideológicos. A liberdade académica não responde a embaixadas. E a soberania de um país não se negoceia em troca de favores culturais ou bolsas de investigação. O que está em causa não é uma mera troca diplomática. É a linha que separa uma sociedade livre de um Estado sabujo.

Não basta indignar-nos. É preciso traçar limites. Claros. Públicos. E inegociáveis.»


31.8.23

Centenas de quilómetros para...?

 


«Para a classe docente, o ano escolar começa já nesta sexta-feira, 1 de Setembro. Determina a legislação que rege os concursos de professores que os docentes de carreira ainda sem colocação ou serviço atribuído terão de se apresentar, no primeiro dia útil de Setembro, “no último agrupamento de escolas onde exerceram funções para aguardar nova colocação”.

Em respostas ao PÚBLICO, o Ministério da Educação destaca que “esta regra, que está fixada há muitos anos em todos os diplomas de concursos de docentes, salvaguarda o processamento de vencimento no mês de Setembro”. (…)

“É um desperdício de tempo e dinheiro. Até pode acontecer que esteja a ir para Lisboa já sabendo que fui colocada noutra escola, perto de casa. É um absurdo”, comenta Anaísa Mateus, que no ano lectivo passado deu aulas no Agrupamento de Escolas Queluz-Belas, mas que, entretanto, ficou vinculada ao QZP 1 (Norte litoral).

É o que se passa com todos os docentes da vinculação dinâmica: mesmo os que ainda não têm lugar numa escola, estão já vinculados a um dos dez Quadros de Zona Pedagógica existentes.»

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20.6.23

Preparamos os nossos filhos para viverem sem nós?

 


«Além de atividades como comer sentado à mesa, usar o banheiro e dormir a noite inteira — que ensinamos a nossas crianças ao longo dos primeiros anos de vida — há muitas outras informações e conhecimentos necessários de serem passados de mãe para filho, de ser humano mais velho para ser humano mais novo, que talvez estejamos deixando para trás.

A jornada de sobrevivência de quatro crianças na floresta amazônica na Colômbia, resgatadas após 40 dias de um acidente aéreo no qual três adultos morreram, incluindo a mãe delas, me tocou.

A grande heroína foi a irmã mais velha, de 13 anos, que conseguiu manter os mais novos com vida utilizando o que aprendeu com a mãe, no dia a dia, no trato com os irmãos. E isso me fez refletir se estamos realmente criando nossos filhos para sobreviverem caso não estejamos presentes.

Preparamos os nossos filhos para viverem sem nós? Temos treinado nossas crianças, especialmente nas grandes cidades, para que tenham posicionamento relevante na sociedade, o que é muito importante, mas atividades do dia a dia nem sempre têm feito parte dos ensinamentos de muitas famílias.

Não estar mais aqui não significa necessariamente morrer. Além disso, não estou defendendo um treinamento de sobrevivência na selva. Seja ela a natural ou a "selva de pedra". Podemos não estar presentes se precisarmos viajar por um tempo mais longo, ou se formos acometidas por problemas de saúde que nos impeçam de fazer atividades básicas ou nos levem a ser internadas.

Não gostamos de pensar na finitude humana — especialmente das mães — e ainda encaramos a morte como um tabu. Mas é preciso saber que não somos eternas. Essa questão me pegou muito forte quando, em 2022, precisei passar por duas cirurgias um tanto severas, que levaram 16 pedaços de mim.

Minhas meninas tinham, na época, 10 e 15 anos. Desde então — desde que a possibilidade de não estar mais presente na vida delas se tornou algo muito real mesmo que momentaneamente — tenho não apenas pensado no que é necessário ensinar, mas tratado disso de forma clara em nossas conversas, sem assustá-las.

Saber cozinhar, cuidar das próprias coisas, pensar duas vezes antes de fazer ou dizer algo, respeitar o seu corpo e as suas escolhas são ensinamentos necessários para a vida delas com ou sem mãe. Mas ter noção da sobrevivência básica vai além disso.

Não tenho aqui a lista completa e exata do que deveria ser ensinado, mas creio que o mínimo sobre se alimentar, cuidar do corpo e de si, evitar doenças, saber quando comer algo e que tipo de remédio tomar em emergências é essencial. São coisas que aprendemos com nossos antepassados e que precisamos prestar mais atenção se estamos passando para frente.

Não creio que a mãe colombiana tenha treinado as crianças para sua morte. Ela apenas transmitiu a seus filhos ensinamentos básicos sobre a existência humana, ligados especialmente à natureza. Além dos quatro pequenos guerreiros, essa mulher deixou uma lição: filhos não são um membro do nosso corpo, embora pareçam representar nosso coração. Eles são seres humanos que merecem viver e precisam ser preparados para a vida, mesmo que seja sem nós, mães.»

Exclusivo PÚBLICO/Folha de S.Paulo
O PÚBLICO respeitou a composição do texto original, com excepção de algumas palavras ou expressões não usadas em português de Portugal.

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9.6.23

Um mundo de nerds?

 


Num restaurante onde estou a almoçar, uma jovem mãe e três filhas, que devem ter entre 5 e 8/9 anos, chegaram, sentaram-se e abriram imediatamente a artilharia digital: a mãe ficou pelo telemóvel, cada miúda tem um grande tablet. Gostava de saber se alguma teve provas de aferição digitais, mas não tive lata para perguntar. Não conversam, o mundo mudou.
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26.5.23

Justiça para Vladimir Pliassov

 


«Era suposto que o corajoso artigo de Carmo Afonso que denunciava uma suposta “russofobia” em Portugal a propósito da expulsão de Vladimir Pliassov da Universidade de Coimbra suscitasse um coro geral de indignação. O país, entretido com os telefonemas de João Galamba ou as alegadas bofetadas de Frederico Pinheiro, preferiu passar ao lado de uma das mais bárbaras agressões aos direitos fundamentais em Portugal em muitos anos. É disso que se trata: ou o reitor de Coimbra nos oferece factos para justificar a demissão de Pliassov, ou a sua universidade renega a sua vocação humanista e converte-se num farol da justiça popular.

Já seria discutível que Pliassov, nascido na Rússia, cidadão português desde 2020, ligado a Coimbra durante 35 anos e a dar graciosamente aulas de língua e cultura russas, fosse expulso por delito de opinião. O problema é que esse presumível delito de fazer propaganda em favor de Putin não reúne qualquer tipo de provas. A “gravidade da situação” que levou o reitor Amílcar Falcão a despedi-lo inspira-se num artigo no Jornal de Proença assinado por dois “activistas” ucranianos.

Pliassov, ao contrário do que defendem a decência e o direito, não teve sequer direito de defesa. Bastou o artigo, um comentário de José Milhazes na televisão e a republicação no Observador para que uma universidade desse a sua investigação por concluída e passasse num ápice a acusar e a condenar liminarmente. Se Vladimir Pliassov fosse um português sem nome russo, seria sujeito a este processo sumário?

O caso torna-se ainda mais indigno depois de o PÚBLICO ter ouvido vários estudantes e todos terem confirmado que Pliassov não fez nada daquilo de que foi acusado. Ou depois de um artigo por ele assinado pedir para lhe ser concedido o elementar direito de defesa. Do lado da reitoria, fez-se silêncio. O silêncio com que se cobre a indignidade.

O que se passou é um ataque aos nossos valores, um insulto à democracia e ao estado de direito. Um crime, portanto, sustentado numa denúncia e baseado na distribuição de fitas ou na bibliografia de autores simpáticos a Putin – haverá censura por lá de Céline, de Nabokov, ou de Gorki, escritores dados a companhias pouco recomendáveis?

Está na hora de Coimbra assumir o que sempre foi na cultura portuguesa: um farol. Têm a palavra o reitor, os professores e também os alunos. Condenar para agradar à manada é o prelúdio dos totalitarismos. Ficar calado quando se suspeita de um crime contra um homem é cumplicidade e renúncia. Se, perante uma injustiça bárbara, a universidade se aninha, o país deve protestar. A agressão aos direitos de Vladimir Pliassov é um atentado contra todos. Não pode ficar incólume.»

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