4.5.19

A campanha de Costa



«De repente, fez-se luz. Percebeu-se o que pretendia António Costa com a mudança radical e repentina na proposta do Governo para a Lei de Bases da Saúde, que tinha resultado de uma negociação em que ele próprio participara. Havia pressões e Costa aproveitou a oportunidade. Precisava de criar o ambiente político para a campanha que tem na cabeça. Ele quer o melhor de dois mundos. Depois de ter as vantagens do apoio da esquerda, quer as vantagens de não o ter. Depois de uma maioria sem maioria, quer recuperar o voto útil que morreu quando mostrou que era possível governar com os votos do BE e do PCP sem ficar em primeiro. Um bom final de mandato da ‘geringonça’ impedia a dramatização. Com o cenário montado, era preciso fazer esquecer a lealdade por vezes dolorosa com que os “irresponsáveis” do Bloco e do PCP aprovaram quatro orçamentos que foram além das exigências europeias. E para a dinamitação da ‘geringonça’ teve de remover Pedro Nuno Santos do lugar de pivô.

O segundo ato da farsa foi-lhe oferecido por Rui Rio. Como há limites para o contorcionismo, António Costa sabia que BE e PCP não podiam mudar a sua posição de sempre quanto à reposição da carreira dos professores. Tanto o sabia que aceitou, em dois orçamentos sucessivos, a norma que estipulava que apenas o tempo e o modo da reposição dependeriam da disponibilidade orçamental. Saiu-lhe a sorte grande com a cambalhota da direita, que Rio e Cristas vão pagar cara. E veio o terceiro ato: a ameaça de demissão que, a poucos meses das eleições, é apenas um ato de campanha eleitoral. E com ela, uma aldrabice descarada: que a decisão do Parlamento significa um aumento de 800 milhões, incomportável para o Governo. À falta de um PEC IV para repetir o choradinho socrático, optou-se pela mentira. O que foi decidido não tem prazos nem calendário. O único impacto é a contagem dos dois anos, nove meses e 18 dias, até 2020, que o próprio Governo sempre mostrou disponibilidade para pagar. O que mudou foi a oportunidade de Costa arrancar com a sua campanha eleitoral.

Apesar de BE e PCP o terem deixado governar quase sem sobressaltos estes quatro anos, o velho PS quer rédea solta. Só que António Costa não vai ter maio¬ria absoluta. Vai governar com quem depois deste truque de última hora a pensar, como é seu hábito, apenas nos próximos meses? Esta é a pergunta dramática que nos vai fazer na campanha para nos sacar o voto. Em nome de uma ambição pessoal demasiado pequena para as circunstâncias, Costa montou uma encenação que atira por terra uma mudança histórica na política portuguesa, que a esquerda europeia via como exemplo. Este seria o único legado decente de uma geração falhada de políticos à esquerda. Porque, infelizmente, tudo em António Costa é tática, nada em António Costa é convicção. Isso é coisa que toda a gente de dentro do PS me avisa há anos. Foi a ‘geringonça’ que salvou o PS do destino dos restantes partidos socialistas europeus. Terá de ser uma nova geração de políticos a impedir que o calculismo continue a deitar tudo a perder. Ao apostar todas as fichas num fim triste para a ‘geringonça’, Costa semeia a desilusão e o desalento nos que apoiaram esta solução política. Mesmo que consiga vitórias circunstanciais, a derrota é brutal. E é por isso que, esta semana, António Costa se juntou à tralha do passado.» 

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3.5.19

No dia em que se inventou uma crise


Pete Seeger faria hoje 100 anos e creio que é adequado ouvir-se isto.


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Nova Iorque (2)



Longo dia a percorrer uma ínfima parte desta cidade, a rever uns tantos ícones, a passar por outros que não conhecia.

Ficam algumas imagens, com realce para as três primeiras: no Ground Zero, Freedom Tower e Memorial (dois espelhos de água com a dimensão da base de cada uma das torres e com todos os nomes dos que morreram no 11 de Setembro, numa e na outra).

Além disso: estação PATH no World Trade Center (obra de Calatrava), Catedral de St. Patrick e imagens de simples prédios.

E pronto: amanhã… Lisboa.







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1.5.19

Nova Iorque (1)



Já cá cheguei e só dei umas voltas aqui pelo «bairro» de Time Square.

Quando vim pela primeira vez a esta cidade, já lá vão algumas décadas, percebi que se considerasse que ela era o centro do chamado mundo novo. Nada de semelhante existia. Hoje, quando deambulei um pouco por aqui, senti que isso acabou: não me saem da cabeça as imagens de Pequim, novíssimo, esmagador. Goste-se ou não, Manathan envelheceu, Pequim está na força da vida.
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Washington



Deixei Toronto com -1ºC e vim encontrar Washington a subir até aos 28… Nunca cá tinha estado e gostei de ver, ao vivo e a cores, monumentos e locais que nos são completamente familiares, por boas e por más razões.

É tudo como imaginamos, o Capitólio, a Casa Branca com meia dúzia de protestos contra Trump por perto, mas também um «Build The Wall» (bem tentei, com insistência, que quem o segurava se explicasse, mas permaneceu estático e não me respondeu…), o Obelisco/Monumento de Washington, o Memorial Lincoln, em cujas escadarias Luther King fez o famoso discurso «I have a dream», etc., etc., etc.

Vi dois outros memoriais interessantes, um dedicado aos veteranos da Guerra da Coreia e outro aos da Guerra do Vietname, mas falarei deles mais tarde.

O que se segue? Um pouco de Filadélfia e depois… «We’ll always have New York».






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30.4.19

Carta ao Secretário-Geral do PS


Sou uma das subscritoras desta Carta. Tem mais de uma centena e meia de assinaturas e podia ter muitas mais não fosse a urgência do que está em causa.

LEI DE BASES DA SAÚDE
CARTA AO SECRETÁRIO-GERAL DO PS

Sob a forma de Apelo aos deputados da Assembleia da República, enviado em Fevereiro do corrente ano, esta Carta é agora dirigida ao secretário-geral do partido socialista, considerando os últimos desenvolvimentos sobre a discussão da Lei de Bases da Saúde.

A Lei de Bases da Saúde que em breve irá ser votada na Assembleia da República há-de representar a garantia de que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) passa a contar com um enquadramento jurídico que o defende, protege e promove. Para o efeito, o serviço público de saúde exige que lhe sejam dadas as condições políticas para poder cumprir plenamente a sua missão. A principal dessas políticas consiste na inequívoca distinção entre o que é público e o que é privado. 

Neste aspecto, a proposta do governo, representando uma considerável melhoria relativamente à lei de 1990, mantém, no entanto, equívoca aquela distinção, quando consagra a possibilidade de os estabelecimentos públicos de prestação de cuidados de saúde públicos terem gestão privada, mediante esta formulação “A gestão dos estabelecimentos prestadores de cuidados de saúde é pública, podendo ser supletiva e temporariamente assegurada por contrato com entidades privadas ou do sector social”.

O principal argumento avançado para esta modalidade de gestão, conhecida por parcerias público-privadas, tem consistido nos supostos ganhos de eficiência da gestão privada quando comparada com a gestão pública. Nada mais falso, uma vez que os estabelecimentos com gestão pública estão obrigados à cobertura universal e geral, enquanto os estabelecimentos com gestão privada só estão obrigados à cobertura contratual.

Por esta razão, mas também porque o actual contexto político é particularmente favorável ao estabelecimento de fronteiras precisas entre os sectores público, privado e social, os subscritores desta CARTA dirigem-se ao secretário-geral do partido socialista no sentido de se opor a esta formulação, propondo que a gestão dos estabelecimentos do SNS seja pública. É que as PPP configuram um inequívoco conflito de interesses entre quem opera no mercado dos cuidados de saúde e gere simultaneamente estabelecimentos do sector público.

Existem saberes, capacidades, competências e instrumentos de gestão suficientes para que a gestão do que é público seja pública. Reconhecendo a legitimidade da iniciativa privada na saúde, consideramos que cabe ao Estado a gestão das unidades que constituem o seu SNS. A Lei de Bases da Saúde que vier a ser aprovada deve reconhecer essa realidade e consagrar no seu articulado  a gestão pública do que faz parte da esfera do SNS.

28 de Abril de 2019

Subscritores:

Adalberto Casais Ribeiro (ex-director-geral da ADSE), Adelino Fortunato (economista), Afonso Moreira (médico), Aguinaldo Cabral (médico), Alberico Costa Alho, Albertina Costa (assistente social), Alberto Lopes (encenador), Alda Sousa (investigadora), Alfredo Barroso (jornalista), Amândio Silva, Américo Figueiredo (médico), Ana Benavente (professora universitária), Ana Campos (médica), Ana Drago (socióloga), Ana Feijão (médica), Ana Gomes (deputada do PE), Ana Jorge (ex-ministra da Saúde), Ana Loff (enfermeira), Ana Matos Pires (médica), Ana Prata (professora universitária), Ana Sara Brito (enfermeira), André Barata (professor universitário), André Biscaia (médico), André Freire (politólogo), António Faria Vaz (médico), António Fernando Amaral (enfermeiro), António Manuel Vieira da Silva (enfermeiro), António-Pedro Vasconcelos (cineasta), António Rodrigues (médico), António Teodoro (investigador), Aprígio Ramalho (militar de Abril), Armando Brito de Sá (médico), Arménio Carlos (dirigente sindical), Artur Sarmento, Frei Bento Domingues, Carlos Brito (ex-deputado), Carlos Matos Gomes (militar de Abril), Carlos Mendes (músico), Carmelinda Pereira (activista política), Cipriano Justo (médico), Corália Vicente (professora universitária), Cucha Carvalheiro (actriz), Daniel Adrião (economista), Daniel Sampaio (médico), Daniel Oliveira (jornalista), Diana Andringa (jornalista), Domingos Lopes (advogado), Eduardo Milheiro (médico), Elísio Estanque (sociólogo), Eurico Figueiredo (médico), Fátima Guimarães (professora), Fernando Canhão (engenheiro), Fernando Fradique, Fernando Gomes (médico), Fernando Martinho (médico), Fernando Rosas (historiador), Francisco Crespo (médico), Francisco Fanhais (músico), Francisco Louça (economista), Franco Charais (militar de Abril), Galopim de Carvalho (consultor científico), Gregória von Amann (médica), Guadalupe Simões (dirigente sindical), Hélder Costa (encenador), Helena Figueiredo (funcionária pública), Heloísa Santos (médica), Irene Flunser Pimentel (historiadora), Isabel Abreu (farmacêutica), Isabel Cruz Oliveira, Isabel Santos, Jacinto Oliveira (enfermeiro), Joana Lopes (gestora), D. Januário Torgal Ferreira, João Camargo (investigador), João Fernandes (enfermeiro), João Gama Proença (médico), João Lavinha (investigador), João Rodrigues (médico), João Valente Nabais (professor universitário), Jaime Correia de Sousa (médico), Jaime Mendes (médico), Jorge Espírito Santo (médico), Jorge Martins (médico), Jorge Silva Melo (encenador), José Aranda da Silva (ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos), José Carlos Martins (dirigente sindical), José Carlos Santos (enfermeiro), José Castelo Gama (professor), José Diogo Gonçalves (arquitecto), José Guimarães Morais, José Luís Forte (procurador da república jubilado), José Manuel Boavida (médico), José Manuel Calheiros (professor universitário), José Manuel Mendes (presidente da Associação Portuguesa dos Escritores), José Manuel Silva (ex-bastonário da Ordem dos Médicos), José Maria Castro Caldas (economista), José Munhoz Frade (médico), José Ponte (professor universitário), José Reis (economista), José Zaluar (professor universitário), Júlia Jaleco (professora), Maria Teresa Alegre Portugal (professora), Júlio Machado Vaz (médico), Lisete Fradique (enfermeira), Luis Bernardo (investigador), Luís Januário (médico), Luís Gamito (médico), Luís Lucas (actor), Luís Natal Marques (economista), Luísa d’Espiney (enfermeira), Manuel Carvalho da Silva (investigador), Manuel Loff (historiador), Manuel Lopes (enfermeiro), Manuel Machado Sá-Marques (médico), Manuela Amaral (enfermeira), Maria Alice Gomes (terapeuta), Maria Augusta Sousa (ex-bastonária da Ordem dos Enfermeiros), Maria de Jesus Valeriano (enfermeira), Maria de Lourdes Delgado Rainho (dona de casa), Maria de Fátima Mendes (médica), Maria Deolinda Barata (médica), Maria Deolinda Portelinha (médica), Maria do Céu Guerra (actriz), Maria do Rosário Gama (ex-dirigente da APRE), Maria Eugénia Alho (médica veterinária), Maria Eugénia Santiago, Maria Fernanda Dias (enfermeira), Maria Guadalupe Portelinha (professora), Maria Helena Caldeira (professora universitária), Maria Helena Simões (enfermeira), Maria Isabel Ramirez Sanchez (enfermeira), Maria João Andrade (médica), Maria José Dias Pinheiro (enfermeira) , Maria Manuel Deveza (médica), Maria Tengarrinha (artista), Mariana Avelãs (tradutora), Mariana Neto (médica), Marisa Matias (deputada do PE), Mário de Carvalho (escritor), Mário Jorge Neve (médico), Mário Laginha (músico), Marta Cabral Martins, Marta Lima Bastos (enfermeira), Martins Guerreiro (militar de Abril), Nídia Zózimo (médica), Paulo Fidalgo (médico), Pedro Freire (fisioterapeuta), Pedro Lopes Ferreira (professor universitário), Pezarat Correia (militar de Abril), Pilar del Rio (jornalista), Raquel Varela (historiadora), Ricardo Sá Fernandes (advogado), Rogério Gonçalves (enfermeiro), Rui Bebiano (historiador), Rui Carlos Santos (enfermeiro), Rui Pato (médico), Rui Tavares (historiador), Rui Vieira Néry (musicólogo), Sandra Monteiro (jornalista), São José Lapa (actriz), Sara Proença (médica), Sofia Crisóstomo (farmacêutica), Teresa Dias Coelho (artista plástica), Teresa Fradique, Teresa Gago (médica dentista), Teresa Laginha (médica), Teresa Pizarro Beleza (professora universitária), Vasco Lourenço (militar de Abril)

Niagara



A última paragem em terras do Canadá foi nas magníficas Cataratas do Niagara e não vale a pena discutir se são mais bonitas do que as de Iguaçu ou do que as de Vitória, porque são todas diferentes mas esmagadoras.

As que revi ontem estavam especialmente violentas para a época, devido ao longo Inverno e à mais do que fria pseudo Primavera. Há gelo em Abril onde já não devia existir, água a mais que impede que certos percursos sejam executados, que actividades programadas para agora só tenham início, talvez, no início de Junho, como é o caso dos passeios no barco «Hornblower», que permitem vistas impressionantes.

Não faltou o belo arco-íris completo… Deixo aqui algumas pálidas imagens da realidade.

Hoje… será Washington.




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29.4.19

Toronto



Tinha passado uns dias nesta cidade há trinta anos e notei agora, como era de esperar, muitíssimas diferenças, tanto no número de arranha-céus no centro financeiro e comercial, como de grandes torres para habitação nas periferias. Não vi então, ou não me lembrava, do edifício da câmara municipal (um cilindro cortado em duas partes assimétricas) que já não é recente mas ainda provoca polémicas – eu gostei. Como gostei do belíssimo tecto, assinado por Calatrava, de um subterrâneo com dois quilómetros e meio de corredores com dezenas de lojas, nove hotéis e seis estações de metro, onde se está protegido do frio no Inverno e do calor no tempo quente: os Verões também não são fáceis.

Regressei ao ainda chamado bairro português, mas que o é cada vez menos, já que os 400.000 chineses que por aqui vivem agora já têm quatro Chinatowns que se vão estendendo e «encolhem» o espaço que era ocupado por outros: a Augusta Street podia ser em Pequim ou em Xian… Mas sempre tomámos uma bica e comemos uns pastéis de nata um pouco manhosos na Caldense BaKery.

Cereja em cima do bolo: almoço no restaurante giratório da CN Tower, com uma vista espectacular que as imagens dificilmente reproduzem.

Tudo isto com Sol (!!!) e uns mais do que razoáveis 10ºC, quando a previsão, há dois dias, era de menos de metade, com chuva e até um pouco de neve. Os climas andam realmente loucos!






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28.4.19

1000 Ilhas?



Na verdade são bem mais do que mil as ilhas que formam o arquipélago Thousand Islands, situado no Rio S. Lourenço e onde andei ontem, num desvio no caminho para Toronto. Os termómetros marcavam então 4ºC, feels -1ºC, mas o barco em que vi uma parte do dito arquipélago era fechado ou eu não estaria aqui para contar.

As ilhas constituem uma fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos (até há uma ponte pedonal de 90 metros que une os dois países), são na realidade 1875, algumas com mais de 100 quilómetros quadrados de superfície, outras minúsculas. Muitas têm casas de férias, desertas agora porque o tempo não tem ajudado e o rio está tão agitado e tão cheio que quase chega a algumas janelas (vê-se bem numa das imagens).

O que há de mais sensacional é o Castelo Boldt (duas primeiras fotografias), cuja construção teve início em 1899 por George Boldt ter decidido dá-lo como prenda à mulher Louise. Porque esta morreu repentinamente em 1904, o magnata americano, então diretor geral do celebérrimo hotel Waldorf-Astoria de Nova Iorque, abandonou o projecto, este esteve parado durante 73 anos, foi retomado e pensa-se que venha a estar concluído em… 2047. Entretanto, o que está feito pode ser visitado por turistas na época alta.

Foi um dia diferente, sem cidades, e antes de chegar àquela, enorme, em que agora estou: Toronto.






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