10.7.21

Em Busca do Passado (não) Perdido – 3

 


Em vez de me sentir a voar sobre um ninho de cucos, não me importava nada de estar agora num pequeno avião a ver o Deserto da Namíbia, como em 2007.
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Uma boa pergunta


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Durante a semana o bicho não pega

 

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A juventude no declive do futuro

 


«Os sintomas de que estamos a viver, à escala mundial, a famosa "lacuna de engenho" (ingenuity gap) que foi proposta em 2003 pelo professor canadiano Thomas Homer-Dixon estão por toda a parte. Isso significa que, à medida que avança no tempo, a humanidade, como sujeito coletivo fragmentado e desorganizado, vai acumulando questões cruciais para as quais não aparenta ter qualquer solução. Os dois problemas insolúveis mais graves e omnipresentes, até pelo seu impacto global crescentemente mortífero, são a crise global do ambiente, de que a face mais visível é a emergência climática, e a ratoeira do mercado global neoliberal, que funciona como um buraco negro: fácil de nele entrar, mas praticamente impossível de dele sair inteiro. A partir daqui podemos declinar uma miríade de dificuldades menores, mas não menos bicudas e irresolúveis.

A questão da juventude e do que fazer com ela ameaça tornar-se num intratável nó górdio. Simbolicamente, a juventude representa as ambições do humanismo autónomo e glorioso, que a Europa produziu com a modernidade e a revolução científico-industrial, acabando por torná-lo em marca de planetário acesso livre. Na juventude habitava, simultaneamente, o ímpeto energético da mudança e o rosto do mito do progresso, hoje derrotado e caído num chão coberto pelas suas próprias ruínas. Infelizmente, o futuro já não canta nem pode ser representado como uma épica escalada de bom para melhor, em direção a um pico de plenitude potencialmente infinito. O futuro é hoje invisível, porque o nosso presente é um imenso planalto que ameaça desaguar num declive, cuja inclinação parece ser cada vez mais abrupta. É nessa planura inclinada para o abismo que a juventude mundial habita, com diversidade, mas sobretudo com convergência. É esta, aliás, que explica o sucesso internacional do protesto da jovem sueca Greta Thunberg. Filha da classe média, e cidadã de uma nação culta e próspera, Greta olhou duas décadas para diante e não gostou das semelhanças entre a Terra onde será uma mulher madura e as pinceladas de O Triunfo da Morte (1562), de Pieter Brueghel, o Velho. Mas ninguém sabe o que fazer com a juventude, como indicam os números astronómicos do desemprego juvenil, apenas agravados pela pandemia. Em maio, o desemprego juvenil (dos 16 aos 24 anos) na zona euro estava nos 17,5% (contra 7,9% do desemprego total). Em Portugal a diferença ainda é maior: 23% contra 6,4%. Não admira que a UE, que precisaria do dinamismo e da vitalidade da juventude para introduzir as reformas indispensáveis para a sua sobrevivência política, cada vez mais esteja entregue a pessoas que correm o risco da paralisia por excesso de prudência: a idade média da UE-27 está a caminho dos 44 anos (Portugal já está nos 45, a Alemanha nos 46).

As políticas de promoção da natalidade são o sintoma confirmativo de que os governos habitam numa bolha onírica. Em África, os jovens vivem na prisão de um presente marcado pela urgência da necessidade, podendo servir até como pedras de arremesso, como aconteceu recentemente com o "levantar" de fronteiras em Ceuta. Mas na UE é o vislumbre do gargalo de um futuro minguado o principal dissuasor demográfico. Até na China, apesar do PCC ter acabado em 2016 com a política do filho único, os nascimentos prosseguem em queda. Se ocorrer alguma positiva mudança de rumo, ela partirá da criatividade dos próprios jovens. Nunca das descosidas políticas públicas a eles destinadas.»

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9.7.21

Em Busca do Passado (não) Perdido – 2

 


Eu já vivi uma outra vida e não sabia. Há catorze anos, andei alguns dias pelas Cataratas de Vitória, em Livingstone, na Zâmbia. Com o calor que temos por cá, até a recordação refresca.
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Este certificado é confuso e não é para velhos

 


O certificado digital, que, na verdade, é apenas um simples documento de texto com um QR Code (um código de barras usado desde 2003), tem de ser de acesso simples e imediato para todos os que dele necessitem, novos e velhos.

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09.07.1935 – Mercedes Sosa

 


Mercedes Sosa faria hoje 86 anos. Nasceu no Noroeste dessa extraordinária terra que é a Argentina, em San Miguel de Tucumán, cidade onde também num 9 de Julho foi declarada a independência do país (em 1816).

Quando a Junta Militar de Jorge Videla subiu ao poder e se foi tornando cada vez mais agressiva, Mercedes, considerada peronista de esquerda, foi detida durante um concerto em La Plata, em 1979, refugiou-se depois em Paris e em Madrid e só regressou a Buenos Aires, e ao magnífico Teatro Colón, em 1982.









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O que é novidade na falta de médicos?

 


«Um estudo revelou esta semana que o número de pessoas sem médico de família voltou a passar o milhão, o que não acontecia desde há cinco anos. Aliás, o tema foi então um centro da luta política, dado que o Governo eleito em 2015 tinha assegurado que haveria médico de família para cada pessoa sem falta até 2017, um compromisso importante e que revelava a sua preocupação com o reforço dos centros de saúde. Promessa solene, contas feitas, fracasso total. Nunca terá havido menos do que 700 mil pessoas sem médico de família e agora a situação piorou.

Como seria de esperar, a pandemia agravou a dificuldade, dado que exigiu muito mais do Serviço Nacional de Saúde, em condições de acesso mais difíceis. Entre março do ano passado e fevereiro de 2021, o número de consultas médicas presenciais nos centros de saúde terá diminuído em 46%, ou menos nove milhões de consultas, se bem que uma parte desse atendimento tenha prosseguido por via remota. No entanto, sempre que a consulta exige o contacto direto com os doentes, essa redução agrava os riscos de saúde. Esse impacto dificilmente podia ser minorado, nas condições em que pouco se sabia da doença e era preciso impor medidas prudenciais. Mas o desinteresse dos governos pelas condições estruturais do SNS agravaram uma fragilidade fundamental, que agora derrapou para números pesados.

A razão para a falta de médicos nos centros de saúde não é o inconveniente da deslocação para o interior, ou a inércia dos próprios profissionais. De facto, 709 mil das 1058 mil pessoas que não têm médico de família vivem na área de Lisboa e vale do Tejo. É na capital que faltam mais médicos. E faltam porque não há. Como se antecipava, este ano e no ano passado temos um pico de aposentações e os novos concursos ficam meio desertos, dado que os incentivos e a carreira assegurada a estes profissionais de há muito que não correspondem às necessidades do SNS. Já se sabia disso tudo.

Assim, é na gestão das capacidades profissionais que se revela a maior falha dos ministérios da Saúde (ou das Finanças, para ser justo não há ministra da Saúde que não saiba como resolver o problema). A evolução do número de médicos no SNS demonstra-o: ao longo de 2020, quando a pandemia explodiu, o serviço público foi sempre perdendo capacidade e em dezembro havia já menos 945 médicos do que em janeiro (foram recrutados alguns milhares de enfermeiras, mas ainda temos um rácio inferior ao da média europeia). Todo o ano de 2020, quando foram precisos mais profissionais para enfrentar o fluxo de doentes covid, foi um desastre, deixou-se andar. Entraram depois, só em janeiro, quase dois mil médicos que tinham terminado a licenciatura no verão anterior, iniciando então os seus estágios de especialidade. Entretanto, até maio já perdemos mais 400 médicos, tanto para a aposentação como para o privado. Todos os anos é assim e vai continuar a ser mês após mês. As promessas de novos concursos são entretenimento político.

A reforma estrutural que se impõe, e o nome aplica-se aqui, é de há muito conhecida: ir buscar médicos ao privado, oferecendo boas condições profissionais e criando carreiras com exclusividade que sejam a base do SNS. E, agora que vem uma “chuva de milhões” dos dinheiros europeus, como se diz, o Governo anunciou que a decisão sobre exclusividade é adiada. Será no dia de São Nunca, depois do almoço, para ser mais exato.»

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8.7.21

Conselho de Ministros de hoje



 

Eu ouvi toda a Conferência de Imprensa e fiquei convencida de que os nossos governantes têm um elevadíssimo grau de consideração pelo nosso QI, literacia e vocação especial para resolver puzzles. A complicação em que estamos metidos não se inventa, tudo tem limites!
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Edgar Morin, ainda

 



02.07.2021, seis dias antes de chegar aos 100 anos.
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15:15 – Balanço dos temas do dia nas redes sociais

 

- Vieira do Benfica para os meninos;
- Professor do Porto que manda tapar aluna se esta quiser fazer exame para as meninas.

Talvez os temas mudem depois do comunicado que sair da reunião do Conselho de Ministros…
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08.07.1921 – Edgar Morin

 


«Por estes dias fará cem anos Edgar Morin. É curioso que um dos pensadores decisivos da contemporaneidade se tenha, desde sempre, considerado um “autodidata”. Os seus pais desembarcaram como emigrantes em França, provenientes de uma cidade do império otomano. Eram judeus, de tradição sefardita, mas sem prática religiosa, que se exprimiam num espanhol antigo e em francês, sem nunca haver recebido a cidadania turca. Refletindo sobre as suas origens, Morin individua uma multiplicidade de raízes mediterrâneas, mas não propriamente um país, uma particular herança cultural ou uma tradição. Este facto, tornou-o disponível, até do ponto de vista biográfico, para procurar a verdade nas fontes mais diversas, sem nenhum tipo de reserva. Como ele conta, nunca sentiu operativo dentro de si um sistema imunitário de defesa.

Aos dez anos de idade, a morte da mãe fá-lo mergulhar numa experiência de luto, que de certa maneira moldará o que se torna um posicionamento mental, oscilante entre uma inquietação sem fim e uma esperança irreprimível. Ele viverá toda a vida tentando transformar esse contraditório balanço num movimento complementar, convicto de que cada polaridade transporta afinal consigo uma verdade: de um lado a dúvida sistemática e do outro a busca incessante de uma fé; de uma parte, o exercício metódico da racionalidade e, doutra, por exemplo, a abertura ao indizível entrevisto pela mística. Edgar Morin resume assim o seu itinerário: “Senti-me sempre chamado a construir um pensamento que me permitisse reconhecer e acolher as contradições, lá onde o pensamento dito normal não vê senão alternativas, e a descobrir as minhas verdades em pensadores que se nutrem de contradições.” Efetivamente, a sua ampla cartografia intelectual é marcada por uma heterogeneidade de referências que vão da literatura (Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Proust...) à ciência (Heinz von Foerster, Niels Bohr...), da espiritualidade (Jesus, Lao Tsé ou Buda) à filosofia (Heráclito, Pascal, Hegel, Marx ou Kierkegaard), do estrito campo científico à poesia (foi muito importante para Morin a convivência com alguns expoentes do movimento surrealista). Esta sua “fome omnívora de pensamento” forjou nele uma invulgar competência transdisciplinar que o conduziu àquele que constitui certamente um dos seus contributos centrais para o debate contemporâneo: a noção de complexidade.

E a complexidade é não só aquela verdade que nos forma, mas também aquela de que mais precisamos ganhar consciência. Por isso, segundo ele, o futuro obriga-nos a aprender a pensar dialogicamente, pois o que parece separado reenvia-nos, no fundo, à experiência da inseparabilidade. O mistério do humano constitui uma espécie de anel ininterrupto em que cada elemento reclama o outro: “O humano faz parte da vida e a vida faz parte do humano; o humano integra o mundo físico e este, por sua vez, o integra; o humano é indissociável da história do cosmos e esta não se conta sem o humano.” Do mesmo modo, cada um de nós é uma individualidade concreta, mas transporta em si a forma da inteira condição humana. Somos um só e somos todos. Porém, devemos saber, que esta compreensão da complexidade não é um automatismo, mas uma escolha ética. O planeta mundializado pelo atual regime da globalização, por si só, não nos torna mais unidos, solidários e fraternos. Temos de ser nós a fazer valer eticamente as implicações da diversidade e da unidade, reconhecendo, como sugere Morin, que a diversidade humana é um precioso património da sua unidade e a unidade humana é um bem inalienável da diversidade que nos caracteriza. O humanismo que Edgar Morin propõe é, assim, uma lição de inclusão e de esperança.»

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7.7.21

Em Busca do Passado (não) Perdido – 1

 


Como as viagens para Marte já estão esgotadas, não me importava nada de estar agora no Vale da Morte, no Deserto de Atacama, por onde andei em 2011.
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À beira-mar plantados

 

«Não parece haver espaço para a sensatez. Ou se está com os fundamentalistas sanitários, que vislumbram a catástrofe em cada jantar tardio no restaurante ou convívio juvenil à beira-mar; ou se está com os negacionistas e os seus delírios sobre o ataque à liberdade por um Estado totalitário.

O espaço público foi contaminado por um discurso político polarizado, em que já não há síntese de opiniões divergentes, uma vez que não se negoceia com os inimigos ignorantes que estão do outro lado da barricada. Mas não tem de ser assim. Se não se querem ouvir uns aos outros, ao menos ouçam o presidente da República, que tem, entre outras, a vantagem recente da autoridade do voto popular. Já não estamos perante a ameaça desconhecida de março de 2020. Já não voltará a espiral de morte de janeiro deste ano. Já temos milhões de pessoas vacinadas e em particular os mais velhos e mais frágeis. Mas estamos na quarta vaga. E cresce a pressão sobre os hospitais. Prevenção em vez de proibição é o que se exige ao Governo. Responsabilidade individual em vez de histerismo é o que se exige a cada cidadão.»

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A nova Matriz de Risco

 


Daqui.
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Eu podia ser o Samuel Luiz Muñiz



 

«No passado dia 1 de Julho, Samuel Luiz Muñiz, um jovem homossexual, foi brutalmente agredido até à morte por um grupo de jovens homofóbicos, em Espanha. Ainda o mês o passado, o nosso país acordou com a notícia de um jovem trans português, que foi violentamente agredido em Inglaterra.

A brutalidade dos relatos que li chocaram-me profundamente. Fico aliás pálido de medo só de pensar que aquele jovem gay podia ser eu, ou tu que lês este artigo; podia ser qualquer pessoa que quer viver a sua vida de forma livre.

A comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, queer, intersexo, assexuais e outras identidades) continua, em 2021, a sofrer as mais variadas agressões possíveis e imagináveis. Muitas delas acabam em mortes, como foi o caso do Samuel.

Não é justo. Não é justo que alguém pelo simples facto de não se reconhecer no status-quo da heterossexualidade “cis" (cisgénero refere-se a pessoas que se identificam com o género que lhes foi atribuído à nascença) e se expressar de uma forma diferente seja impedido de ter o direito a viver.

Não é justo que alguém que queira demonstrar a sua livre autodeterminação não o possa fazer de forma segura no espaço público, colocando em risco a sua própria vida.

Os governos por todo o mundo têm o dever de implementar programas de sensibilização para todas as faixas etárias sobre a LGBTQIAfobia, os programas escolares necessitam de abordar estes temas. A população tem, de uma vez por todas, de abrir os olhos para esta realidade.

Segundo Observatório Contra a Homofobia (OCH), desde do início do ano mais de 76 pessoas LGBTQIA+ foram vítimas de ataques homofóbicos apenas na zona da Catalunha. Em Marrocos, milhares de gays estão em perigo enquanto são perseguidos através de aplicações de relacionamento.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, no Brasil, só em 2020 foram assassinadas 175 pessoas trans — um pesadelo que também assombra o nosso país. Ninguém, jamais, pode esquecer o caso da Gisberta e as fatais e reiteradas agressões que sofreu às mãos de um grupo de menores.

Enquanto isso, a Hungria faz retrocessos LGBTQIAfobicos na sua lei, com danos gritantes na vida da sua população. O Parlamento português terá brevemente a oportunidade de condenar as políticas nefastas de Orbán e, nesse dia, a população deste país irá saber quem são aqueles que, apesar de se apelidarem de democratas, estão, na realidade, ao lado do ódio.

Tanto que lutamos, tanto que exigimos ao longo de décadas a fio. E, mesmo assim, estes crimes hediondos continuam a ser uma constante pelo mundo. A luta LGBTI+ é uma luta de preservação dos direitos humanos. Milhares de pessoas por toda a Espanha levantam-se por justiça pelo Samuel, e que orgulho tenho nesta comunidade que não se cala e que continua uma luta tão digna.

Exige-se justiça para Samuel e para todos aqueles que sofrem com o preconceito. Este crime não pode cair no esquecimento. As pessoas que cometeram este horrível acto devem ser julgadas na justiça e serem responsabilizadas por este grave acto.

A sociedade tem de abrir os olhos para esta realidade que assombra milhões de pessoas por todo mundo, para que não caia nem mais uma única gota de sangue. Ontem foi o Samuel, amanhã poderei ser eu ou tu.»

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6.7.21

Efeitos colaterais

 


Este puto já anda, garantidamente, pelas redes sociais.
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Justiça dá a mão ao populismo

 


A onda populista ganha dimensão na Europa e também em Portugal. Ainda este fim de semana, não esqueçamos, André Ventura defendeu que se apurasse onde estão localizadas as comunidades subsiodependentes, a par da criação de um cadastro étnico-racial.»
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Os direitos humanos não são “imaginários”

 


«O primeiro-ministro afirmou esta segunda-feira que a União Europeia vai ter de “confrontar as diferentes visões que hoje existem” no seu seio. A declaração parece à partida pouco mais do que uma série de palavras de circunstância, em tudo semelhantes às que se pronunciam conselho após conselho, presidência após presidência. Mas está na hora de pôr de lado a rotina e de as associar à perigosa situação que retratam. A Europa está rapidamente a chegar ao momento em que tem mesmo de escolher uma entre as diferentes “visões” que nela se confrontam. Ou mantém a sua fidelidade à Carta dos Direitos Fundamentais e combate os que a contestam, ou cede à vaga autocrática de Viktor Orbán e seus acólitos e transforma-se num projecto contrário à sua própria essência e ideais.

A ameaça não é nova, mas ganhou uma dimensão assustadora. Pela primeira vez, primeiros-ministros das democracias europeias aproveitaram o Conselho Europeu de 24 e 25 de Junho para confrontar Orbán com a sua vergonhosa lei que discrimina os homossexuais. Depois, o Governo húngaro lançou uma campanha de propaganda paga em jornais contra debate sobre o futuro da Europa ou contra um imaginário “império europeu” (que o PÚBLICO, tal como vários outros jornais europeus, recusou publicar após uma viva discussão interna). Mais grave ainda, o primeiro-ministro esloveno, que agora preside ao Conselho da União Europeia, insurgiu-se no final da semana passada contra a suposta “imposição” de “valores europeus imaginários” ao seu aliado húngaro.

Quando princípios básicos da União são transformados em “valores imaginários”, deixa de haver espaço para dúvidas ou margem para ambiguidades. Se a Europa aceitar que a liberdade e a justiça são delírios da imaginação, estará a ressuscitar os seus piores fantasmas. Se tolerar “a discriminação em razão, designadamente, do sexo, raça, cor ou origem étnica ou social”, pelas opiniões políticas, nascimento ou orientação sexual, perde o sentido. Se não tiver mão firme contra os ataques à liberdade de expressão em países como a Eslovénia, será outra coisa qualquer, não a Europa que selou a paz no continente e mobilizou várias gerações de democratas e humanistas de diferentes matizes ideológicas nos últimos 70 anos.

António Costa tem, portanto, razão. Se a UE não for capaz de combater e vencer a hidra populista e iliberal que ano após ano vai ganhando espaço, a hidra continuará a crescer. Está na hora de confrontar húngaros, polacos ou eslovenos com as suas próprias escolhas: ou aceitam que os valores europeus são reais, vividos e partilhados como o cimento que faz a união, ou retirem-se do que dizem ser um mundo imaginário para viver a realidade da sua própria escuridão.»

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5.7.21

Joe Berardo versão 2007

 


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O que se pensava há um ano…

 


Há um ano, Daniel Oliveira escreveu isto (Expresso, 04.07.2020).
O que nós vivemos (ou não) para chegarmos ao ponto em que estamos hoje…
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Da (não) comunicação

 

Na continuação do post anterior a este:

«É oficial.

Não percebo mesmo NADA do que está a fazer a DGS, o Ministério da Saúde e o Governo em geral no domínio da comunicação sobre a pandemia. Espero que se trate de uma estratégia inovadora, de efeitos surpreendentes mas que sou demasiado limitado para apreender.

E não, não estou a falar apenas da informação para o público. Isso é uma ÍNFIMA parte do que significa "comunicação".

E não, não é de agora, da quarta vaga. Há muito, muito tempo que não percebo. E não, não sinto falta nenhuma da Graça Freitas, nem da Marta Temido, nem daquele disparate inverosímil mas muito elogiado que eram as reuniões do Infarmed.

E não, o que faz a esforçada Mariana Vieira da Silva quando lê as notas das reuniões do Governo com os horários de encerramento das coisas não chega. Nem de longe. Tenho a secreta esperança de que os tradutores de linguagem gestual digam "Ela agora está a dizer horários e coisas assim" e não percam tempo a traduzir tudo porque é inútil. Aliás, a própria ministra devia dizer, como nos resultados da lotaria publicados nos jornais, "Esta informação não dispensa a leitura das listas oficiais".

Sinto falta de tudo o que se devia ter feito desde o início e que nunca se fez. Já escrevi sobre isto e não me vou repetir. Digo só que um órgão de coordenação científica (não, não era para aparecer na tv) com um porta-voz que soubesse ouvir e soubesse falar dava jeito.»

José Vítor Malheiros no Facebook
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Fartinhos disto tudo

 


«Não devia ter mais de metro e meio a primeira utente que entrou para ser testada na manhã de quarta-feira e que, ao cumprimentar-me com um muito pouco singelo “estou fartinha desta merda toda”, me arrancou do estado de sonolência típico da primeira hora da manhã. Olhei para ela com atenção à procura de uma pista sobre a sua idade, mas a cara miudinha quase totalmente coberta pela máscara cirúrgica não me permitiu chegar a grandes conclusões. E foi aí que olhei para a ficha de inscrição e vi que, na data de nascimento, constava um curioso 29-11-1929, que me indicava que aquela senhora franzina e zangada, sentada na cadeira de testagem, tinha nascido na mesma terça-feira em que se iniciou a Grande Depressão. E se há coisa em que acredito é que a partir dos 90 anos se adquire uma espécie de imunidade diplomática que isenta as pessoas de filtrarem o que dizem para lá de um padrão mínimo.

Dito isto, e enquanto preparava o material para o teste de antigénio, perguntei-lhe de que é que estava farta afinal. E foi aí que ela soltou um suspiro e deixou escapar um “olhe, estou farta de não perceber nada disto e destas regras, pronto”. Nessa altura suspirei eu e tive vontade de lhe responder que o melhor era dar-me a mão porque já éramos duas a sofrer do mesmo mal. Mas em vez disso perguntei se podia ajudar e lá percebi que esta utente era só mais uma no grupo de milhares de portugueses inoculados com uma vacina cujo funcionamento desconhecem e que acreditam piamente ficar imunes à covid-19 após cumprimento de esquema vacinal.

E lá dei o meu melhor para lhe explicar que não é bem assim. Falei-lhe de dados, de estudos, de percentagens e variantes da forma mais acessível que encontrei. Mostrei-lhe um vídeo no YouTube e tudo. Sem paternalismos e sem aquela condescendência que as autoridades de saúde usam para falar à população que, atendendo ao tipo de discurso pelo qual optam, devem acreditar ser constituída essencialmente por oligofrénicos.

Sei que ninguém me pediu opinião, mas acredito piamente que o maior erro português ao nível da gestão da pandemia tem sido o desastre da sua comunicação, que, ano e meio depois do início do pesadelo, continua a ser miserável. Porque não chega que as pessoas saibam o que significa distanciamento físico ou qual a forma correcta de lavar as mãos. Os portugueses precisam de compreender o que motiva as decisões das autoridades de saúde, precisam de ser contextualizados e de uma educação para a saúde mais abrangente, mais estruturada e mais virada para a ciência.

Reparem, não tenho nada contra Graça Freitas, mas acho inaceitável que comunique há tantos meses com os portugueses no mesmo tom que a minha mãe usa para ensinar o meu filho mais velho a atar os sapatos e que se assemelha muito a um “faz lá isto para seres um lindo menino crescido”. E ninguém me tira da cabeça que é esta comunicação errante, paternalista e desestruturada que tem feito engrossar as fileiras do negacionismo e que tem alimentado a retórica de quem não consegue deixar de achar que o seu umbigo é o centro do mundo.

Sei zero sobre comunicação profissional, entenda-se. Mas há mais de 11 anos que faço diariamente educação para a saúde e posso assegurar que a maioria das pessoas entende bastante bem o que lhe explicamos desde que tenhamos o cuidado de utilizar uma linguagem adaptada. É evidente que não vou perder tempo a explicar a um utente analfabeto de 90 anos o que significam ARN mensageiro ou vector viral. Mas garanto que é possível explicar-lhe o funcionamento da vacina, o que pode esperar após completar o esquema vacinal e o que sabemos até agora sobre cada uma das vacinas e a sua eficácia contra as diferentes variantes do vírus. O problema é que este devia ser um trabalho feito em massa pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) e pela sua comunicação porque, do lado dos profissionais que neste momento estão forçados a vacinar a um ritmo alucinante, não há qualquer hipótese de fazer ensinos tão estruturados de forma individualizada.

E depois instalou-se esta sensação de descoordenação e de navegação à vista que só retira força às autoridades de saúde. Com a história das compotas do Natal e de mais umas quantas mensagens inadequadas, a DGS e a sua comunicação transformaram-se mais em material para memes do que propriamente numa autoridade respeitada por todos.

E deixem-me dizer que acredito que, se queremos que as coisas sejam diferentes nesta nova “onda” e que o rato abandone a roda ainda antes de ela começar a girar de forma descontrolada, então a comunicação vai mesmo ter de mudar. Porque já não é só a minha primeira utente da manhã que está furiosa por “não perceber nada disto”. São milhares e milhares de portugueses.

Uma boa aposta seria que nos canais generalistas de televisão, nos programas da manhã e da tarde onde falam a toda a hora os senhores do Calcitrim e dos seguros de saúde, fosse colocado um representante da DGS a responder a questões sobre a pandemia. E comprar tempo publicitário em horário nobre para passar vídeos que explicassem as diferenças entre as variantes mais prevalentes no país, a vacinação e as restrições a que os portugueses estão sujeitos. Aliás, temos um canal público de televisão, não temos? Então que tal usá-lo para educar para a saúde e para a ciência? É que assim, lamento, mas não vamos lá.

De verdade que raros são os dias em que não tenho de aconselhar alguém a não fazer teste tão cedo. Diariamente chegam ao centro de testagem dezenas de pessoas que tiveram contacto de risco com um positivo há menos de 12/24 horas e que insistem em testar-se “quanto mais cedo melhor”. Todos os dias tenho de explicar a alguém que mesmo vacinado pode contrair o vírus e que, por isso, tem sim de ser testado se tiver estado exposto a um contacto de alto risco. Todos os dias tenho de explicar o que é isto da variante Delta e porque temos de nos preocupar com ela. E a DGS tem de ajudar neste trabalho. Trabalho esse que não se pode limitar a sites muito bem organizados por separadores. Até porque ainda há uma parte importante do país que não vai à Internet e que percebe melhor o Fernando Mendes do Preço Certo do que a Dra. Graça Freitas.

Os últimos dias têm sido novamente mais trabalhosos e começa a ouvir-se o sussurro de que, a continuar assim, muitos profissionais de saúde vão ter as férias em risco. Por aqui notamos um aumento na testagem e no número de positivos sem, felizmente, ainda se sentir um aumento de carga para o SNS. Mas era importante que a DGS falasse agora. Era importante que se investisse a sério nesta comunicação e que, finalmente, se deixassem cair os paternalismos e o medo de assumir as falhas.

Porque no fundo, tal como a senhora pequena e franzina que nasceu na terça-feira negra, estamos todos, mas mesmo todos, muito “fartinhos desta merda”. E para algumas pessoas a tentação de acreditar no discurso que mais lhes convém começa a ser demasiado forte para resistir.»

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4.7.21

If you are going to San Francisco

 


Uma bela casa vitoriana em S. Francisco.
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Edgar Morin

 


100 anos daqui a quatro dias.
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Apolo 70

 


Notícia muito triste. Vamos perdendo fatias do nosso passado.

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A cascata de dominós

 


«Em tempo de paz, nunca, como ao longo desta pandemia, os governos de todo Mundo despejaram tanto dinheiro sob a forma de crédito e subvenções sobre as economias. O dinheiro veio de onde sempre vem - dos bancos centrais e do crédito. Dado que as economias continuaram a funcionar, embora a meio gás, não se verificaram, em geral, situações graves de escassez de abastecimento, a não ser do bem mais precioso nestas circunstâncias - os cuidados de saúde. Tinha de ser assim e, por isso, nem o mais ferrenho dos liberais teve coragem de protestar contra "o despesismo". Pelo contrário, quase todos, incluindo os liberais, protestaram, mas só contra a falta de apoios públicos.

No processo de construção de respostas aos impactos da pandemia, o Governo português destacou-se como um dos que mais apostaram nas moratórias, em detrimento de subvenções. Na altura, a opção (controversa) foi justificada com a necessidade de não se aumentar a dívida pública. Agora, que as moratórias estão a terminar, talvez o caminho seguido se confirme como irracional.

Moratórias são uma forma de crédito. No fundo, significa "não pagas agora, pagas depois com juros". Subvenções são transferências unilaterais do Estado para as empresas e as pessoas, também financiadas a crédito. É um facto que no fim da linha está sempre o crédito, no entanto, existe uma diferença importante entre moratórias e subvenções. No caso das moratórias, a responsabilidade pelo pagamento diferido no tempo incumbe a cada devedor em separado, é individualizada. No caso das subvenções, essa responsabilidade incumbe ao Estado, ou seja, a todos nós, mutualizando assim a dívida.

Como muito bem é explicado no Barómetro n.º 23 do Observatório Sobre Crises e Alternativas (*), o Governo ao optar pela individualização da responsabilidade da dívida jogou no "alívio presente", gerando "riscos financeiros futuros". O total das moratórias atinge quase 40 mil milhões de euros: um pouco mais de 60% são empréstimos a empresas e quase 40% empréstimos a famílias. É cerca de três "bazucas". Impõe-se uma intervenção política cuidadosa e ofensiva no seu acompanhamento e gestão, entretanto dificultada pela pulverização individualizada de devedores.

No nosso entender, o Governo fez uma opção errada. No lugar de uma dívida mutualizada que o país teria de enfrentar coletivamente, temos agora uma multidão de dívidas privadas a que cada um por si, uns mais do que outros, terá de fazer face. Na situação criada, cada um dos endividados pode ser comparado a um dominó na posição tem-te não caias. Os condicionalismos da recuperação da atividade económica provocarão a queda de alguns dos endividados, desequilibrarão outros e induzirão problemas no setor bancário. O resultado será, porventura, uma cascata de dominós cujas consequências serão bem piores que os impactos de um acréscimo da dívida pública.

Neste quadro, as políticas em socorro dos setores mais afetados devem ser acompanhadas por outras de estímulo aos setores capazes de induzir arrastamento económico com potencial de criação de emprego com qualidade. Todavia, é preciso ter em conta a especificidade do tecido empresarial do país - onde é muito grande o peso das pequenas e médias empresas - e, ainda, considerar as condições concretas de cada território.

Não é fácil, mas é possível, meter travões na cascata de dominós que está montada.

(*) Frade, C.; Santos, A. C. e Teles, N. (2021) A moratória de crédito a empresas e famílias: alívio presente, riscos financeiros futuros, Barómetro das Crises, n.º 23. Lisboa: Observatório sobre Crises e Alternativas»

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