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25.8.23

Espanha mostrou-nos como se deve lidar com o assédio sexual

 


«A forma como as autoridades espanholas responderam ao assédio sexual flagrante, que vitimou a estrela de futebol Jennifer Hermoso, é uma lição importante para as empresas e organizações em geral, em todo o lado: Tomar medidas contra o infractor mesmo quando a vítima não se queixa.

Políticos proeminentes, incluindo o primeiro-ministro em exercício Pedro Sánchez e o ministro do desporto Miquel Iceta, e dirigentes desportivos, criticaram Luis Rubiales, o presidente da federação de futebol do país, por ter dado um beijo indesejado nos lábios de Hermoso depois de a Espanha ter vencido a Inglaterra na final do Campeonato do Mundo, na Austrália.

Depois de ter começado por considerar os críticos como "idiotas e estúpidos", Rubiales emitiu tardiamente um pedido de desculpas numa declaração em vídeo: "Porque as pessoas se sentiram magoadas com isso, tenho de pedir desculpa, não há alternativa."

A resposta da própria Hermoso à controvérsia foi inicialmente hesitante. De acordo com o Athletic, numa transmissão em directo do balneário após o jogo, a atleta disse às colegas de equipa que lhe perguntaram sobre o beijo: "Sim (aconteceu), mas eu não gostei." A federação divulgou então um comunicado, citando Hermoso como tendo dito que não tinha qualquer problema com "um gesto mútuo que foi totalmente espontâneo devido à imensa alegria de ganhar um Campeonato do Mundo". Alguns relatos em Espanha dizem que Hermoso foi pressionada a aparecer no vídeo de desculpas gravado por Rubiales, mas que recusou.

Esta situação será familiar para as vítimas de assédio em todo o lado, porque é difícil falar num local de trabalho tóxico — um inquérito realizado pela Deloitte em 2023 revelou que apenas 59% das mulheres que afirmaram ter sido assediadas comunicaram o facto aos seus empregadores, contra 66% no ano passado.

E quando os incidentes são relatados por terceiros, as vítimas são frequentemente pressionadas a negar que a ofensa ocorreu — e a ajudar o infractor a livrar-se da responsabilidade. Isto permite que os empregadores lavem as mãos de qualquer responsabilidade e não façam nada quanto à toxicidade do ambiente de trabalho.

Se Rubiales e a federação estavam a contar com a relutância de Hermoso em denunciar o assédio para desanuviar a controvérsia, calcularam mal. Em vez de colocar o ónus de apresentar uma queixa formal sobre Hermoso, o chefe do conselho desportivo do Governo disse que tomaria medidas disciplinares contra Rubiales se a federação de futebol não o fizesse. A liga espanhola de futebol feminino profissional apresentou uma petição ao conselho para desqualificar o ex-jogador como presidente da federação. "O facto de um patrão agarrar a cabeça de uma funcionária e beijá-la na boca é, simplesmente, inaceitável", declarou a liga num comunicado.

O apoio de tantas entidades poderosas parece ter finalmente dado a Hermoso a confiança necessária para dar o próximo passo. Na quarta-feira, a jogadora emitiu um comunicado dizendo que o FUTPRO, o sindicato dos jogadores, estaria a agir em seu nome. O sindicato, por sua vez, disse que as acções de Rubiales "jamais devem ficar impunes".

Os pedidos de demissão de Rubiales estão a aumentar, antes de uma reunião de emergência da direcção da federação na sexta-feira. Com a simpatia da opinião pública a favor das mulheres, e não apenas devido à sua vitória, a federação tem agora a oportunidade de fazer uma limpeza completa. Não há dúvidas de que as espanholas jogam num ambiente tóxico. A estrela americana Megan Rapinoe chamou a atenção para o "profundo nível de misoginia e sexismo" daquela federação. E Rubiales não é o único dirigente sob os holofotes: o treinador Jorge Vilda está a ser alvo de escrutínio por causa de um vídeo em que parece tocar no peito de uma assistente enquanto celebra o único golo do jogo final.

No período que antecedeu o Campeonato do Mundo, 15 das melhores jogadoras do país escreveram à federação pedindo para não serem convocados para a equipa devido à gestão pouco profissional dos treinadores. Entre outras coisas, as jogadoras disseram que os treinadores exigiam que eles mantivessem as portas dos seus quartos de hotel abertas até a meia-noite e inspeccionavam as suas malas após as saídas. Jennifer Hermoso não estava entre as que escreveram a carta, mas manifestou apoio às que o fizeram.

A resposta da federação foi criticar as jogadoras e apoiar os treinadores, liderados por Vilda. "A federação está em primeiro lugar", disse Ana Alvarez, responsável pelo futebol feminino na federação, exigindo que as jogadoras que protestavam pedissem desculpa se quisessem voltar à equipa. Este é um testemunho da gravidade da situação que, confrontados com a escolha entre participar no Campeonato do Mundo — a última ambição de qualquer jogador de futebol — ou recuar, 12 das 15 manifestantes escolheram a segunda opção. O facto de Hermoso e as suas companheiras de equipa terem ganho o torneio nestas circunstâncias é quase um milagre.

Por muito que mereçam elogios por terem agido contra Rubiales, as autoridades espanholas têm de assumir a responsabilidade pelo seu próprio papel nos maus-tratos infligidos às jogadoras. Se, na altura, Sanchez, Iceta e o conselho desportivo do Governo se tivessem pronunciado energicamente a favor das jogadoras em protesto, a federação poderia ter sido obrigada a fazer uma limpeza à casa.

Depois de terem feito o que estava certo em relação a Hermoso, as autoridades deveriam agora estender essa consideração a todo o futebol feminino em Espanha — e dar mais um exemplo salutar para as organizações de todo o mundo.»

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
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13.4.23

Boaventura, ainda

 


Em 2018, a argentina mapuche e ativista Moira Ivana Millán contou, num programa de rádio, um caso de assédio de BSS a que terá sido sujeita em 2010. Ontem, foi publicado no Youtube este vídeo com um resumo da situação.

O depoimento na rádio, longo e com âmbito mais geral, pode ser ouvido aqui.


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Boaventura: em nome dos nossos valores, não!

 


«Que me recorde, nunca escrevi sobre denúncias pessoalizadas de assédio que não tivessem chegado à Justiça. Não é pudor, é função. Faço comentário político e nele, o que me interessa, são as questões difíceis e interessantes que movimentos como o #MeToo levantam. Sobre isso fui escrevendo bastante, expondo as minhas esperanças e receios. Esperança num movimento emancipatório que terá efeitos estruturais na mais antiga das relações de opressão. Receios, pelo risco que significa para conquistas fundamentais, como a do direito a um julgamento justo, à defesa e à presunção de inocência. “A vítima tem sempre razão” é um argumento que nunca me conquistou porque não pode conquistar quem acredite no Estado de Direito. O estatuto de vítima não é prévio.

Num volume coletivo da prestigiada editora académica Routledge, “Sexual Misconduct in Academia”, uma portuguesa, uma belga e uma norte-americana, que têm em comum a passagem pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, publicaram um capítulo que, não identificando a instituição ou os alegados assediadores (tratados como “The Star Professor” e “The Apprentice”), tornaram facílimo chegar aos seus nomes.

Podem levantar-se dúvidas quanto ao “anonimato frágil” que permitiu chegar tão facilmente aos visados sem as consequências judiciais de os nomear (estes vão avançar com queixas por difamação), à mistura de casos vividos pelas próprias com a reprodução de “rede de murmúrios”, à pouca clareza da natureza dos vários assédios e abusos ou a tudo isto ser feito a coberto de um artigo académico. Quanto ao último ponto, corresponde a uma cultura que torna as fronteiras entre a ciência e a experiência pessoal difusas, o que mais não é do que honestidade intelectual. Em antropologia, isso faz-se de forma intencional e pensada, aliás. Tudo aqui está numa fronteira que levanta questões éticas e jurídicas complicadas. Seja como for, é impossível ignorar.

A Academia é um espaço especialmente propenso ao abuso de poder. Pela sua organização fortemente hierarquizada, pela importância do domínio intelectual e funcional do “mestre”, pela crescente precariedade dos investigadores e porque a fratura geracional e de poder tende a coincidir com a de género, graças à chegada tardia, mas significativa, das mulheres a um mundo que era dominado por homens.

Há quem tente compreender o fenómeno dizendo que há uma pedagogia a fazer. Que há coisas que, para uma determinada geração, não passavam por assédio e hoje são vistas como tal. Posso ser sensível a isso e até acho que, no meio de tudo, se tem de ir explicando como os limites mudaram (e ainda bem). Mas não sejamos ingénuos. Nem me parece que seja nessa fronteira que as acusações a Boaventura Sousa Santos se fazem, nem me parece que, em geral, o abuso de poder seja assim tão difícil de identificar por pessoas inteligentes e informadas. Não é por acaso que acontece de cima para baixo e nunca de baixo para cima – é a consciência do privilégio que permite ao chefe ou ao “mestre” avanços que o subordinado ou o “aprendiz” nunca se atreveriam a tentar.

Os lugares de que não ouvimos falar são obviamente os piores. Aqueles onde a opressão é ainda mais profunda: as empresas, onde a democracia nem sequer se aproxima da porta e o assédio é muitas vezes bem menos dissimulado, porque a situação de quem o sofre é muito mais precária. E quanto menos qualificadas e mais vulneráveis são as vítimas, mais violento é o abuso. Essas não têm plataforma. Mas que outras a tenham e abram o caminho para uma autêntica revolução de costumes.

Basta passear pelas redes sociais e pelos jornais de direita para perceber que a identidade de um dos visados (Boaventura Sousa Santos) e a inclinação política do centro de investigação tornou este episódio muito interessante mesmo para os que, em todos os outros momentos, mostram desprezo pelo #MeToo. Usam a mesma estratégia que recentemente critiquei aos que instrumentalizaram a proximidade de André Ventura a um padre suspeito de abusos para atingir o líder da extrema-direita: discordam dos métodos e da agenda, mas fazem um intervalo oportunista nas suas convicções.

Até agora, a reação do CES tem sido boa. O seu comunicado distingue-se da reação do principal visado: “Sendo as diversas formas de desigualdade, violência e abuso (moral e sexual) problemas transversais às organizações, o CES não se coloca fora desta discussão importante nem se demite da responsabilidade que tem na promoção efetiva de um ambiente de trabalho científico mais igualitário e livre de todas as formas de assédio.” Para investigar o caso, anunciou a criação de uma comissão independente composta por dois elementos externos com competências reconhecidas no tratamento de processo análogos, um dos quais presidirá, e pela Provedora do CES (também externa).

Ao contrário do que se pensa, há muitas subculturas no CES e, segundo julgo saber, a atual direção até é bastante autónoma da figura historicamente tutelar que ajudou a fundar a instituição. Saberão que os efeitos de uma reação menos do que exemplar não serão os mesmos que se sentiram perante o comportamento vergonhoso da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a quem ninguém, apesar de manifestações de alunas, parece querer cobrar nada.

Porque a cultura é outra, é outra a exigência e serão outras as consequências. Um dos fatores apontados, no artigo, para a ausência de queixas e consequências é que “o centro é o Professor Estrela e se o Professor Estrela cai... a instituição cai com ele.” Uma fonte citada pelo artigo (indispensável) de Fernanda Câncio diz: “O CES é mais do que isto, mais do que o ‘Professor Estrela’ e o seu ‘Aprendiz’”. Se assim é, este é o momento para o provarem.

Comecei por dizer que não me recordo de ter escrito sobre pessoas concretas. Nem pensava romper essa regra. Não tenho dúvidas que parte da pessoalização mediática se deve ao posicionamento político de Sousa Santos. E ao prestígio internacional que tantas vezes, por mera conveniência política, lhe foi negado. Mas isso é inevitável. Também somos julgados pela nossa incoerência. Aliás, esse é um dos elementos centrais do artigo: “o fosso entre a teoria e a prática”.

As posições ideológicas de Boaventura Sousa Santos e de Bruno Sena Martins (conheço e tenho proximidade política com os dois e, com o último, até partilhei um blogue há uns anos) são mesmo o que me leva a escrever sobre o tema. Ou melhor: a utilização, nas respostas que deram ao “Diário de Notícias”, das suas convicções políticas para se defenderem de acusações que não são políticas.

Quanto a Sena Martins, parece-me que usar a cartada da etnia, por ser chamado “aprendiz”, é uma fuga do essencial. Mas a reação que incomoda é mesmo a de Boaventura. Primeiro, “não resiste” a tentar desacreditar uma das autoras. Socorrendo-me da sua linguagem, diria que sabe bem a "linha abissal" que o separa daquela que, como subalterna, chama “insolente”. Exercício que repetiu numa longa carta aos alunos, tentando destruir a reputação da autora. Depois, tenta puxar a esquerda para o seu lado: “O objetivo é lançar lama sobre quem se distingue e luta por um mundo melhor. O neoliberalismo está a roubar a alma da solidariedade e da coesão social e criar subjetividades que canalizam os seus ressentimentos para acusações de que sabem não poder haver contraditório eficaz.” E queixa-se de “cancelamento”.

Surgiram, no 40º aniversário do CES, em 2018, vários grafitis: “Fora Boaventura. Todas sabemos.” foi o menos agressivo. Isso até foi determinante para o encontro destas três autoras. Apesar das suspeitas sobre ele parecerem mais generalizadas do que este artigo, Boaventura Sousa Santos é tão inocente como qualquer outro e assim tenho tratado todos os casos (incluindo os dos padres suspeitos de abusos, que apenas têm de ser suspensos por causa da idade das suas potenciais vítimas). Boaventura tem direito à sua defesa e estarei tão atento a ela como às acusações. Não tenho sobre este tipo de casos uma posição diferente da que tenho sobre outros. Não sou um justiceiro. Até porque, em tempos recentes, vi alguns inocentes serem crucificados e, no fim, ninguém lhes foi pedir desculpa.

Mas a defesa de Boaventura é de Boaventura. Só sua. Se usa as causas emancipatórias da esquerda e o neoliberalismo (e até a resistência a uma substituição perversa do anticapitalismo por lutas identitárias) para se defender de uma acusação de abuso, usa todos os que estão nesses combates em sua defesa, tentado fazer de nós seus reféns. E aí, desculpem-me, tenho de dizer: em nosso nome, não! Pelo menos não em meu nome. Até porque não há qualquer indício, por mais leve que seja, de uma motivação política para a acusação que lhe é feita. Se existe, é em sentido inverso: a vontade de construir um pensamento verdadeiramente “pós-abissal”. Como Boaventura defende há tantos anos.»

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7.4.22

Entrou na FDUL um século que por lá se desconhecia

 


«O Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) criou uma comissão paritária de três alunos e três professores que criou um canal aberto a relatos de más práticas dos docentes. O resultado foi perturbante para quem nada sabe da casa: em apenas 11 dias, denúncias de 29 casos de assédio moral, 22 de assédio sexual, oito práticas discriminatórias de sexismos, cinco de xenofobia e racismo, um de homofobia. No total, 70 denúncias, 50 delas validadas como relevantes. A maior pare dos casos de assédio aconteceu presencialmente, mas também há utilização das redes sociais do e-mail. Incluem 31 docentes, o que corresponde a cerca de 10% dos professores a assistentes.

A decisão de criar este canal não veio do nada. E a prova é que ninguém ficou surpreendido. Casos em que houve muitas queixas e até assunção de culpa não tiveram consequência para além de pedidos de desculpa. E os mecanismos existentes pareciam não resultar. Porque o problema é mais profundo. E não serão manuais de boas práticas que o resolverão. A cultura de impunidade, numa faculdade onde se ensina a lei e a sua aplicação, resulta de uma cultura de poder. Que vai muito para lá do assédio.

A punição dos responsáveis e o acompanhamento das vítimas é fundamental. Mas o mais importante é o aviso à navegação que dá o primeiro sinal, ainda tímido, de que a cultura que sobreviveu a décadas de democracia está finalmente em perigo. E isto só acontece porque as alunas (e também os alunos) da FDUL não nasceram na FDUL, não foram educadas na FDUL, não foram formatadas pela FDUL. Vêm de um país e de um mundo que mudou enquanto a FDUL permanecia parada.

Estou a dizer que é uma faculdade de assediadores e abusadores? Não. A maioria estará longe disso. Mas, porque tenho várias pessoas (muito) próximas que passaram por lá há trinta anos e recentemente (sem que nada tivesse mudado nestas três décadas), sei que a cultura desta faculdade é indutora do abuso. E não me refiro apenas ao abuso machista. Esse é a ponta do iceberg, por ser mais destemido, temerário e alarve. Mais transversal e aceite na cultura patriarcal portuguesa. Falo da cultura de ensino, de avaliação, de autoritarismo e de endogamia. Uma cultura que recusa a autonomia dos alunos e o uso do poder com responsabilidade e moderação. Que promove a competição tóxica em vez da cooperação. A FDUL, vamos abreviar, não tem uma cultura democrática. Não é a única. Mas, talvez pela sua visibilidade, é das mais flagrantes.

É interessante pensar que a FDUL foi e é uma das principais incubadoras da elite política portuguesa. Perceber como representa muitos dos seus vícios e tiques. E é perturbante pensar que é dali que saem muitos dos nossos juízes e procuradores. Ajuda a explicar muitas coisas que nos chocam numa justiça que parece parada no tempo.

Li, numa rede social, uma aluna a queixar-se que um professor teria dito numa aula que não deviam protestar porque davam má imagem à faculdade. Educação para a cidadania, mas ao contrário. Pois é isso mesmo que devem fazer: dar má imagem da faculdade. Porque só isso levará a instituição a reagir. E a trabalhar para mudar a sua cultura e afastar os verdadeiros responsáveis por essa má imagem. A boa imagem consegue-se com transparência e esforço, não com opacidade e cumplicidade.

Isto não se passa, obviamente, apenas nesta faculdade. Um estudo de 2019, da Federação Académica de Lisboa, sinalizava que o assédio é um problema relevante nas instituições de ensino superior. O que aconteceu à FDUL acontecerá a cada vez mais instituições portuguesas, académicas ou não. Uma nova geração que cresceu num mundo globalizado, numa democracia madura e numa sociedade mais igualitária vai-lhes entrar pela porta adentro, mudar os móveis e partir algumas janelas. Antes de tudo, serão, como estão a ser, um tipo de mulheres que estes professores nunca conheceram, que não foram ensinadas a ignorar e sorrir quando são assediadas. Mas, em geral, jovens que não compreendem o mundo que estes gerontes, alguns novos demais para o serem, tentam preservar. Boa altura, quando atingimos mais anos de democracia do que de ditadura, para isto acontecer.

Fica uma nota positiva: apesar de tudo, esta comissão paritária e este canal foram criados pela própria FDUL. Isso aconteceu, graças à existência de um Conselho Pedagógico mais plural, a que concorreram várias listas. O que prova que a democracia faz milagres, mesmo em corpos caducos. Até os pode rejuvenescer.»

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21.4.21

Como é fazer parte dos 97%?

 


«Se as palavras fossem categorizadas nos dicionários tal como nos laboratórios, de acordo com o seu grau de nocividade ou inflamabilidade, seria caso para dizer que o medo é uma substância extremamente corrosiva, altamente tóxica e facilmente explosiva.

O ano de 2020 e os primeiros, mas tão longos, meses de 2021 podem ser facilmente caracterizados pelo medo sentido pela população. Seja ele pelo receio gerado perante as incertezas criadas no contexto de pandemia, ou por todos os problemas estruturais a níveis social, cultural, político e económico, que se agravam com o passar de cada mês. O dia de amanhã é uma total incógnita e, para quem tenta fazer contas à vida, é impossível não se corroer, a cada segundo de cada minuto, com tudo aquilo que se passa e, principalmente, com o que não se passa à sua volta.

Este último ano foi também de protestos, não só contra os novos desafios que têm surgido, mas, simultaneamente, contra todos os problemas pré-existentes na nossa sociedade, que se tendem a agravar.

No início de Março de 2021, o desaparecimento da londrina Sarah Evarard, de 33 anos, chocou a Inglaterra e o resto do mundo. Porém, de acordo com o The Guardian, o caso não é “incrivelmente raro”; isto porque a insegurança na rua é usual na vida de uma mulher e o assassinato de Sarah Everard veio apenas reafirmar essa realidade.

Todas nós já saímos de casa de amigos depois de anoitecer, já nos questionámos se deveríamos ir ou não a pé para casa, e acabámos por fazer um telefonema para não caminharmos totalmente sozinhas. Sempre com muito cuidado, a observar e interpretar o ambiente que nos envolve como se a nossa vida dependesse disso porque, muitas das vezes, depende.

Depois da morte da jovem inglesa foi conduzido um estudo para averiguar a percentagem de mulheres que já foram alvo de assédio sexual na rua em Inglaterra e, nesse seguimento, conclui-se que 97% das mulheres, entre os 18 e os 24 anos, já tinham sido alvo de abusos em espaços públicos. Desde cedo aprendemos a lidar com esta realidade porque “é normal”. Uma em cada dez mulheres na União Europeia já foi vítima de assédio sexual, sendo que o risco é superior para as jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos, o que só nos afasta, dia após dia, da nossa meta, cujo prémio final é a igualdade de género.

Viver nesta condição torna-se tóxico, a constante necessidade de alerta, a antevisão do que se passa à nossa volta, o calcular dos possíveis desfechos das diversas vezes que somos abordadas, até mesmo compreender qual é a reacção mais adequada a adoptar para que se evite qualquer tipo de tragédias.

Há quem me oiça e diga “Que exagero, foi só um assobio”, mas da última vez, depois do assobio veio um apalpão, depois de um olhar veio uma pequena, mas para mim muito longa, perseguição, e não me consigo deixar de questionar “O que é que vai acontecer? O que é que devo fazer? Será que vai ser hoje? Até onde é que esta situação pode escalar?”. E finalmente expludo. Expludo e como todas as outras mulheres que são alvo de abusos na rua, chego a um ponto de ruptura e digo “Basta!”.

O assédio sexual não existe só na sua forma física, mas diz respeito a “todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afectar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador”, define a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Todas as “pequenas” mas grandes acções contribuem, de alguma forma, para a deterioração da dignidade feminina e da sua segurança em espaços públicos.

Cabe a cada um de nós, enquanto cidadãos, informarmo-nos e tentar compreender o que se passa à nossa volta e de que forma é que os nossos actos podem estar a contribuir, mesmo que de forma passiva, para agravar ou eternizar a violência da qual as mulheres são alvo. Vivemos numa sociedade que apresenta os seus preconceitos de base, cuja profundidade muitas das vezes não conseguimos avaliar, mas que não é por isso que deixam de estar presentes no nosso dia-a-dia, ou que não são responsáveis pela normalização de comportamentos abusivos e degradantes à condição humana.

É importante procurarmos fomentar conversas de consciencialização junto de rapazes e de homens, aliados essenciais para que se possa combater estas atrocidades. Começa por ouvirmos os testemunhos das mulheres à nossa volta e procurarmos debater junto da nossa família e amigos sobre todos os comportamentos responsáveis pela perpetuação deste ciclo de violência, para que estes também o façam junto das pessoas que os rodeiam. As palavras não são ocas, acarretam os seus significados e. tal como se faria num laboratório, é importante expormos os riscos às quais estão associadas.

A informação e a educação permitem-nos chegar mais longe, desconstruir problemas de fundo e, acima de tudo, neutralizar o pior elemento químico presente no dicionário, a ignorância, essa que tão sorrateiramente vem de mão dada com o medo.»

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20.4.21

Contra a síndrome do silêncio? Parar de aceitar o inaceitável

 


«É mais fácil dizer que as mulheres mentem do que responsabilizar os abusadores. É mais culpabilizar e descredibilizar as vítimas do que confrontar e condenar agressores. É mais fácil o linchamento público da vítima do que não compactuar com uma sociedade que as silencia. A luta das mulheres e dos homens que respeitam as mulheres, não é por vingança que a vingança não nos merece, é por justiça.

Em 2017 a personalidade do ano para a revista Time foram “as vozes que lançaram um movimento”, as pessoas que denunciaram casos de assédio e abuso sexual. As campanhas #MeToo e Time´s Up derrubaram a ideia normalizada de que o assédio sexual, o abuso e a violação eram uma contingência do ser-se mulher. Essa mudança aconteceu pela enorme força colocada em movimento pelas mulheres ao começarem a falar. Harvey Weinstein acabaria condenado a 23 anos de prisão por crimes sexuais.

O movimento #MeToo teve a virtude de dar uma voz coletiva às mulheres. De as empoderar. Esse foi o seu grande feito. Há uma lógica de empatia, de identificação: mulheres de todo o mundo deixaram de se sentir sós.

Em Portugal falar na sua própria voz não é muito o hábito, uma denúncia é uma coisa muito íntima, dolorosa, há muitas mulheres que temem a exposição e a denúncia pública, com boas razões. Este fim-de -emana numa entrevista televisiva a atriz Sofia Arruda quebrou o silêncio. “Uma mão, um cumprimento que ficava no sítio que não era suposto. Um beijo que me deixava um bocadinho constrangida, mas às tantas tu pensas que se calhar a pessoa é assim, muito afetuosa, e ficas a sorrir timidamente e afastas-te. Mas depois disso ia passando para intervenções mais diretas, de dizer que estava bonita, que me tinha visto não sei onde (…) quando comecei a ficar mais desconfortável com a situação tive de pegar no telefone e disse que se fosse uma reunião ou um almoço de trabalho a minha agente iria comigo. Se não fosse essa intenção então não haveria qualquer almoço ou jantar. Essa pessoa disse ok e desligou o telefone. Depois, mais tarde, durante as gravações, estava na maquilhagem e a pessoa chegou, agarrou-me no braço e perguntou-me ao ouvido se era a minha última decisão. Eu disse que sim e ele respondeu-me que nunca mais ia trabalhar ali”. O que acabaria por acontecer. “Sei que fui vítima, mas sentia-me culpada porque pensava se em algum momento tinha dado a entender alguma coisa. Mas tinha a certeza que não tinha dado, que nunca tinha permitido qualquer tipo de aproximação que não fosse profissional dentro do local de trabalho”.

O que seguiu nas redes sociais foi o catálogo do previsível: “Porque só fala agora?”, “porque não diz o nome?”, “porque não foi à PSP?”, “isso é um não-assunto”. E estes são os comentários mais “benévolos”. É mais fácil dizer que as mulheres mentem do que responsabilizar os abusadores. É mais culpabilizar e descredibilizar as vítimas do confrontar e condenar agressores. É mais fácil o linchamento público da vítima do que não compactuar com uma sociedade que as silencia. A luta das mulheres e dos homens que respeitam as mulheres, não é por vingança que a vingança não nos merece, é por justiça.

Quando uma mulher conta uma experiência como esta a primeira coisa que devemos fazer é não duvidar dela, “essa dúvida não deve ser alimentada pelo facto de a pessoa ter demorado anos a falar. Uma experiência de assédio não prescreve. Vive no corpo da vítima até à sua morte. Nem todas as pessoas conseguem reconhecer imediatamente o assédio. Nem todas as pessoas têm uma estrutura pessoal, mental, emocional, profissional para o denunciarem. Nem todas as pessoas conseguirão, alguma vez, denunciá-lo”, escreveu na sua página de Facebook a atriz Sara Barros Leitão.

O testemunho de Sofia Arruda é de uma enorme coragem, como antes o fora o de Catarina Furtado, e parece ter espoletado o tão necessário #MeToo português. Mulheres mais ou menos anónimas partilharam nas redes sociais as suas histórias de assédio sexual e muitos homens reconheceram que o assédio não é uma bagatela, é um abuso de poder, uma consequência de uma sociedade laboral assimétrica, resultado da desigualdade de oportunidades, e de um mundo dominado por homens e determinado pelas decisões de homens.

Importa não se cair na tentação colectiva de pedir que a pessoa diga o nome do agressor. “Primeiro: não precisa. A vítima só deve contar até onde estiver preparada para contar. Não é o facto de haver um nome que irá alterar o que aconteceu. Segundo: apesar de o nome não ser público, pelo menos por enquanto, não significa que não se saiba quem é. Como dizer isto de forma clara? Toda a gente no nosso meio sabe quem é. De colegas a equipas, de canais a comunicação social”, continua atriz Sara Barros Leitão.

O #MeToo não é uma “moda” como o tentam descartar muitos homens aterrorizados, é um movimento contra a impunidade que protege os agressores e deita fora as vítimas. Já há uma censura moral contra os agressores – nós sabemos quem eles são - , eles sabem que esses comportamentos são inaceitáveis, falta agora criar-se “redes de apoio e solidariedade, respeitando o tempo das vítimas, respeitando as suas histórias, e, sobretudo, resistindo à sórdida tentação de querer narrativas mais violentas, mais trágicas, o que acaba por desvalorizar as micro-agressões, deixando, assim, centenas de vítimas a sentir-se ainda pior com o que lhes aconteceu por não encontrarem, sequer, ali espaço para a sua história”.

A sociedade tem que ser um lugar seguro para mulheres, não um lugar onde assediadores e agressores continuem a escrever artigos de jornal, a trabalhar nas televisões, a chefiar departamentos, a perseguir mulheres. Que sociedade queremos? Basta de condenação moral, queremos consequências. Obrigada Sofia.»

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