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9.1.26

De desacordo em desacordo, mas…

 


«A intervenção dos EUA na Venezuela mudou a agenda da reunião do Conselho de Estado, que se reúne esta sexta-feira, tornou-se tema da campanha presidencial e mostrou mais uma rutura no ‘centrão’ nas políticas de soberania e diplomacia. (…)

Governo e PS mostraram discursos muito diferentes na reação à intervenção na Venezuela, com o Chega a estar mais próximo da reação do Executivo. O Governo, sobretudo pela voz do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, encontrou aspetos “benignos” na ação de Trump. (…)

“Os fins não justificam os meios”, escreveu, também logo no sábado, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestando que “condena qualquer intervenção na Venezuela à margem da ONU e do Direito Internacional”.»


18.10.25

PS: assim não vai longe

 


«PS vai apresentar propostas para grupos que há muito beneficiam da atenção positiva do partido de Ventura: bombeiros e ex-combatentes.»

Daqui.

A identidade perdida do PS

 


«No centro da crise da esquerda em Portugal está o PS. O PS, mesmo apesar de as suas políticas reais muitas vezes não se distinguirem das da direita, era o grande depositário dos votos à esquerda em Portugal. Juntava-se-lhe o PCP nos seus tempos passados por baixo, e o Bloco por cima. O PS era o partido da governação, e em determinadas circunstâncias agregava a si o PCP e o Bloco, como a fronteira ao voto no PSD, criando uma separação com a direita e, ocasionalmente, com o centro-direita.

Mesmo quando não tinha o PCP e o Bloco ao seu lado, mesmo quando estes o atacavam, o PS era o muro eleitoral que impedia a direita de chegar ao poder ou a limitava no exercício do poder. Mesmo quando perdia eleições, estava lá e era um muro fiável pela sua dimensão. Tinha fissuras e tentações, mas não era possível o descalabro da esquerda sem o PS tombar. E o PS está a cair, eleitoralmente, politicamente e ideologicamente, e arrasta atrás de si o Bloco e o PCP. Apenas o Livre tem resistido.

A vaga de direita não começou agora, mas de algum modo mudou qualitativamente com a aparição do Chega. O Chega é o grande revolucionário do sistema político-partidário e, embora não tenha acabado com o bipartidarismo, enfraqueceu-o na sua utilidade para o partido do Governo, que agora tem sempre duas opções. Este processo é também favorecido pela deslocação à direita do PSD desde os tempos da troika, com o abandono dos últimos sinais da social-democracia da sua génese. Este processo foi agravado pela tentativa de competir com o Chega, adoptando a sua agenda. Os resultados não têm sido brilhantes.

Há hoje vitórias eleitorais do PSD sobre o PS, a mais importante é a que traduz a ocupação do voto urbano pelo PSD. Mas há igualmente vitórias políticas e ideológicas. A vitória táctica mais relevante foi a de interiorizar no PS os argumentos da direita sobre a crise dos socialistas. A ideia de que o PS tem perdido por causa de uma sua putativa radicalização e esquerdização entrou no lugar-comum, mas está longe de ser verdadeira. O PS não se radicalizou, bem pelo contrário, e mesmo o anterior secretário-geral foi o que inverteu o sentido útil da política de imigração, o que não é de somenos.

A chantagem política e ideológica do aparelho comunicacional da direita, cada vez mais forte, passa pelo apoio às claras ou disfarçado a José Luís Carneiro, a António José Seguro e, nas autárquicas, a Ricardo Leão, em Loures, e, pela divisão em Lisboa, a João Ferreira, do PCP. A que se soma uma clara chantagem política sobre o Orçamento e, em linhas gerais, a qualquer entrave que o PS possa colocar às políticas do Governo.

Hoje, a mínima afirmação de qualquer política que pareça vagamente merecer o nome de socialista é imediatamente classificada de “ideológica” versus técnica, e “radical”. E quando se analisa o conteúdo dessas políticas hoje consideradas “radicais”, são políticas que não são mais do que de centro-esquerda ou sociais-democratas, que há alguns anos ninguém classificaria como “radicais”.

E o PS, mais por inacção do que por acção, tem-se deixado manietar por este cerco, que inclui o domínio cada vez maior da direita pela capacidade de classificar, nomear, “chamar nomes”. Uma comunicação social, hoje muito dominada pela direita, funciona como megafone para as classificações. O Chega insulta, o PSD e o CDS nomeiam, e o PS passa da afirmação à justificação.

É certo que há um vento de direita nas democracias que o populismo faz soprar mais forte, mas é também verdade que a esquerda tem muita responsabilidade na criação de condições para esse vento, em particular em Portugal. O resto da esquerda abriu também caminho para esta perda de identidade e correlativa fragilização. O Bloco nunca deixou de ser um partido de elite com causas de elite, e o seu abandono da luta social a favor das “causas fracturantes” ajudou a criar um mundo de espectáculo muitas vezes afrontoso ao cidadão comum. O PCP, que tinha na esquerda um quase monopólio da luta social, tornou-se um sindicato médio, preso nas suas metacausas pela posição a favor da rendição da Ucrânia, a que chama “paz”.

A actual crise da esquerda portuguesa não passa apenas pela sua crise de identidade, passa também por uma perda de coragem política, pela sua moleza numa ecologia política muito agressiva à direita. Como os democratas americanos face a Trump, que só agora começam a perceber que o medo e a voz baixa só fortalecem uma política que assume hoje a forma dominante de bullying.

Por tudo isto, ideias, políticas e métodos, a direita domina a governação e a política, o Chega controla a agenda e a “narrativa”, o PS voa tão baixinho que dizer que voa é um exagero, e hoje o consumo da política, fundamental, em democracia mudou-se para locais mal requentados como as redes sociais. Uma geração está a crescer nesta ecologia e não vai ser grande coisa.

Resistir é o único verbo com dignidade, vai ser duro, leva tempo e faz estragos, mas é a única maneira de travar a ascensão da brutalidade, da ignorância e de uma sociedade de pobres e excluídos, perdidos na sua invisibilidade.»


13.10.25

O anúncio da morte do bipartidarismo foi francamente exagerado

 


«À hora que escrevo, ainda nem todos os resultados estão fechados. Há troca de vitórias e derrotas entre o PS e o PSD. Sendo verdade que o PSD passa a ter as cinco maiores câmaras do País – Lisboa, Porto, Sintra, Gaia e Cascais –, conquistando três delas, e passa a ser o partido com mais autarquias (pouca diferença), não é menos verdade que o PS consegue ganhar novas capitais de distrito como Faro, Évora, Coimbra, Viseu e Bragança – Beja é perdida para o PSD, que também ganha Setúbal, à boleia de Dores Meira. O PS não venceu, mas é, destacadamente, a segunda força nacional.

Ao contrário do que muitos vaticinavam, o bipartidarismo não foi beliscado. As grandes disputas continuaram a ser entre os dois grandes e, apesar das importantes conquistas de Albufeira (o sétimo maior orçamento do país), o Chega fica-se por três câmaras, muito abaixo do PCP e até do CDS, e a léguas do que tinha conseguido em legislativas. Quando Ventura não é o candidato o Chega não penetra.

Quanto ao PCP, os ganhos (Sines, Montemor, Aljustrel e Sesimbra) não compensam as perdas. Não me refiro à perda de Serpa, Alcácer-do-Sal, Grândola ou Benavente, mas das duas únicas capitais de distrito que mantinha – Évora e Setúbal –, o que faz desta uma das piores noites autárquicas dos comunistas. Olhar para os resultados da CDU nas autarquias suurbanas de Lisboa também nos diz alguma coisa sobre a transformação do seu eleitorado. Irónico, é que o seu bom resultado em Lisboa tenha sido, numa noite má, determinante para a reeleição de Carlos Moedas (aliado ao resto da esquerda, haveria uma maioria absoluta para governar a cidade). Talvez volte a isto e ao instinto suicida de esquerda noutro texto.

Seja como for, a grande notícia desta noite eleitoral é que, havendo muitas notícias, não houve qualquer terramoto e o país mudou menos do que as legislativas faziam pensar.»


28.9.25

O PS na sua «retração»

 


«Estudo de especialista da GfK Metris mostra que partido enfrenta uma “retração eleitoral sem precedentes”. Em 122 concelhos, os socialistas estão sob alerta “elevado ou “crítico”.»


9.9.25

Moedas mentiu

 


«Além do ex-primeiro-ministro António Costa, assinam a nota Alberto Martins, Augusto Santos Silva,Eduardo Ferro Rodrigues, Guilherme Oliveira Martins, Luís Capoulas Santos e Nuno Severiano Teixeira.

Estes antigos ministros justificam ter subscrito esta nota por uma questão de "dever".

"Não podendo Jorge Coelho defender-se, é nosso dever defender a sua memória", frisam.»

Daqui.


2.8.25

Fotografia de família do Conselho Estratégico do PS

 


Li a lista dos conselheiros, tenho ali pelo menos um amigo, mas com franqueza: é assim que querem «salvar» o PS?

Não sei se a maioria já tem reumático (ou pior…), leio que mulheres só representam um terço (tudo bem, não sou feminista assanhada), mas JOVENS, JOVENS, quantos? Já não sou muito exigente: abaixo dos 40?

Com aquela espécie de amiba que escolheram para SG, esperavam outra coisa?

19.7.25

19.07.1975 – Mário Soares na Fonte Luminosa




No seguimento do chamado «caso República», depois de muitas peripécias, o jornal saiu para a rua em 10 de Julho de 1975, com o nome de um director nomeado pelo MFA (e não com o de Raul Rego). Os ministros socialistas que faziam parte do IV Governo Provisório (Mário Soares, Salgado Zenha e Almeida Santos) pediram a demissão, e foram seguidos pelos do PSD, o que provocou a queda do Governo e a sua substituição pelo seguinte – o quinto e último presidido por Vasco Gonçalves –, que tomou posse em 8 de Agosto.

Entretanto, no dia 19 de Julho, o PS organizou a famosa manifestação da Fonte Luminosa – marco importante na história daquele Verão quente de 1975.

Foi António Guterres que organizou o comício, no qual discursaram vários dirigentes socialistas, sendo Salgado Zenha o penúltimo e Mário Soares a encerrar, com um discurso violentíssio contra o PCP e o governo de Vasco Gonçalves. Alguns excertos desse discurso (tirados de O Portal da História).

«O dia de hoje foi um dia grave na história do nosso povo. Depois de uma campanha alarmista de boatos sem precedentes, de uma ‘intentona’ artificial, de uma falsa conjura com intenção de enganar o povo; depois disso, organizaram-se barreiras para impedir que o povo dos arredores de Lisboa, deputações do povo de Portugal viesse aqui manifestar-se livremente, em favor da liberdade, da democracia, do socialismo. (...)

É uma cúpula de paranóicos, a direcção do PCP. É uma cúpula de irresponsáveis a dos dirigentes da Intersindical, que não representam o povo português. E as Forças Armadas, dando cobertura a esses irresponsáveis, indo acreditar que havia uma marcha sobre Lisboa, que nunca existiu – que só existiu na cabeça desses paranóicos – constituíram também graves responsabilidades. (...)

Dizemos que a reacção não passará, mas digamos também que a social-reacção não passará. Temos dito, e prova-se na prática da nossa acção política quotidiana, que nós não somos anticomunistas. Quem está a provocar o anticomunismo, como nem Caetano nem Salazar foram capazes de provocar é a cúpula reaccionária do PCP. (...)

A situação portuguesa é de tal maneira grave, o ambiente requer um Governo de salvação nacional e de unidade das forças políticas, que nós dizemos daqui ao Presidente da República e ao Conselho da Revolução que o primeiro-ministro designado para constituir o 5.º Governo Provisório não nos parece ser neste momento um factor de coesão e de unidade nacional. Portanto dizemos-lhes, com a autoridade de sermos um partido maioritário na representação do povo português, que será melhor eles escolherem uma outra individualidade que dê mais garantias de apartidarismo real, para que possa formar um governo de coligação nacional. (...)

O MFA que faça pois atenção, porque a hora é de autocrítica, é de emendar os erros passados. E esse MFA que iniciou esta revolução que foi chamada justamente a mais bela da Europa, uma revolução das flores, esse MFA se escutar a voz do Povo, tem todas as condições para, aliado ao Povo, poder salvar ainda a nossa revolução que está em perigo, porque há aqui e ali manchas de contra-revolucionários que querem polarizar à sua volta o descontentamento provocado pelo sectarismo e pelo fanatismo intolerável dos sociais-reaccionários que são a direcção do PCP». (...)

Este foi um dia de vitória. Tenhamos confiança no futuro, tenhamos confiança no nosso Povo. A revolução está em marcha e não pára.

Venceremos!»
.

16.7.25

O preço da “abstenção” socialista

 


«Com o entendimento entre PSD e Chega no que há de fundamental na lei da nacionalidade e nas mudanças na imigração, que teve como extra outro no IRS, não faz sentido continuar a falar do “não é não”. Morreu. E, com esta morte, alterou-se o xadrez político.

Até agora, Montenegro fazia um jogo de dupla chantagem, em que atirava para o PS e para o Chega a responsabilidade de qualquer crise política, mesmo que fosse, como foi a última, procurada por si. Com o resultado eleitoral, percebeu que o Chega nunca será punido. Isto poderia levá-lo a entender-se com o PS, mas teme entregar a oposição ao Chega, onde é muitíssimo mais eficaz do que o PS, e insuflá-lo. Por isso, o jogo mudou.

Tudo o que é essencial é negociado com o Chega, sobretudo o que é essencial para o próprio Chega. Onde deveria haver um cordão sanitário, o Chega é o interlocutor, assumindo o próprio PSD, em estilo sempre ligeiramente menos agressivo, a agenda da extrema-direita. Até porque, como já escrevi, esta agenda desvia atenção dos dois grandes falhanços do governo: saúde e habitação. Quando chegar a hora de aprovar a fatura, encosta o PS à parede, responsabilizando-o por uma crise. A postura colaborativa do PS (sem que o PSD esteja disponível para essa colaboração) tornará difícil a Carneiro fazer qualquer corte nessa altura. Teria de trabalhar nesse corte agora.

A estratégia de José Luís Carneiro é esperar por uma crise para pôr as garras de fora. Seja uma crise económica, seja uma crise política por Montenegro ser arguido. Quanto à primeira, se e quando ela chegar, é o Chega que estará preparado para colher os louros. Ventura tem garras que Carneiro nunca terá. Quanto à segunda, acontecerá o mesmo, com a agravante de ainda não ter sido compreendida a escolha de Amadeu Guerra para procurador-geral da República. Quem não percebeu, reveja o papel a que se prestou, com a absurda abertura de um processo a Pedro Nuno Santos nas últimas eleições.

É bom recordar que o entendimento com a extrema-direita não resulta da moderação do Chega. Pelo contrário. Foi o PSD que se aproximou, como se pode verificar neste artigo do Expresso. No passado, o PSD esteve, com mais ou menos discordâncias, alinhado com os mesmos valores do PS nos debates sobre a nacionalidade e a imigração. Até chegar ao governo, o PSD só votou ao lado do Chega uma vez nestes temas. Só no final do ano passado se começou a aproximar da extrema-direita. Até chegar à semana passada, em que o alinhamento se tornou geral, com Montenegro a dizer que o Chega “é um partido que tem apresentado pontos de vista que, de uma forma genérica, se enquadram em mais regulação e mais capacidade de integração”. No essencial, o pacote legislativo do governo integra a agenda do Chega.

Esta clarificação nasce do resultado eleitoral, das vantagens em haver manobras de diversão (que venha o debate sobre as burcas e os “ocupas”) para a ausência de resultados no que é importante e da convicção de que o PS, desta vez, não quer fazer a oposição. Voltou às “abstenções violentas”.

Enquanto se percebia que Pedro Nuno Santos desejava o lugar que os eleitores lhe destinaram (liderar a oposição), era preciso manter a tensão que lhe dificultasse essa escolha (e mesmo assim era sovado por comentadores que agora deixaram o PS, adormecido, em paz) e Montenegro tinha de manter o jogo duplo. Mal o PS se mostrou realmente disponível para um bloco central informal, Montenegro pôde descansar e dedicar-se apenas à relação com o Chega. E o Chega, tendo segura a liderança da oposição e o PS totalmente anestesiado, também se pode entender com o PSD. Não tem de competir com os socialistas.

Muitos acreditavam que se o PS se deslocasse para o centro para dar a mão ao PSD, salvaria a direita democrática. Pelo contrário, a política funciona como um balancé. Ao deslocar-se, o PS contribuiu para acentuar o desequilíbrio, permitiu que o PSD se deslocasse mais para a direita e, ao deslocar-se mais para a direita, normalizou as posições do Chega, tornando mais fáceis os entendimentos políticos. A estratégia defendida pelos falsos amigos dos socialistas levou o PS a anular-se e, com isso, a acentuar a perigosa rampa deslizante a que assistimos. Uma rampa que também influencia as posições do eleitorado. Até os autarcas do PS estão a ser levados nesta avalanche, como se vê em Loures, na Amadora ou em Benavente. Mas isso deixo para outro texto.

Esta posição do PS também contou com o contributo dos resultados dos partidos mais à esquerda, que deixaram de ser um risco no seu flanco esquerdo. O que quer dizer que a única forma de reequilibrar a política seria crescer, como acontece nos EUA, pode vir a acontecer no Reino Unido e aconteceu, no passado, em França e em Espanha, uma alternativa forte mais à esquerda. Por agora, não parece provável. O PCP está em defesa do forte sitiado, o BE está em coma e o Livre não tem implantação social e foco para cumprir essa função. Veremos se as coisas mudam, ou se a via portuguesa será a italiana, em que a esquerda não centrista desapareceu do espaço institucional, o que levou, como não podia deixar de ser, uma figura como Meloni ao poder. Seja qual for o futuro, a normalização do Chega acabou com os problemas da direita. O PSD já não paga, como se está a ver, qualquer preço por se entender com a extrema-direita, mesmo nas questões mais sensíveis. O que devia fazer a esquerda perceber que não tem de salvar quem nunca quis ser salvo. Tem de recuperar o lugar de oposição firme ao governo mais à direita da nossa história democrática. Tão à direita, que nem os valores básicos da fundação do PSD se mantêm intactos.

O papel da esquerda não é fazer oposição ao Chega. Não é tentar manter um cordão sanitário de que não resta qualquer vestígio. É ser a oposição a este governo. Tem até a vantagem de o chumbo do próximo Orçamento de Estado não poder resultar na dissolução do Parlamento. Se a esquerda não cumprir o seu papel, isto vai descambar ainda mais e ainda mais depressa.»


Artigo 13º

 


29.5.25

José Luís Carneiro

 


Esta luminária afirmou hoje isto. Como se todos os partidos não tivessem perdido votos para eleição de mais deputados. (Resultados totais: o PS teve mais 4313 votos do que o Chega…)

O PS que se cuide ao eleger este futuro(?) SG ou o trambolhão será maior ainda.


19.4.25

O desprezo e o incómodo dos partidos pela sua história

 

Arquivo Ephemera

«Tenho passado as últimas semanas a trabalhar numa grande exposição sobre um dos fundadores da nossa democracia, Francisco Sá Carneiro. E mais uma vez posso testemunhar a dupla maldita destes últimos 50 anos de liberdade, o desprezo e o incómodo dos partidos políticos portugueses pela sua história e, por essa via, pela história dos anos de liberdade dados pela revolução de Abril e os anos de construção de democracia dados pelos fundadores, um dos quais Sá Carneiro. Não é difícil compreender que, para além dos defeitos da ligeireza, superficialidade e ignorância instalada, com o seu repúdio da complexidade que vem com a história, há uma correlação entre a incomodidade e o desprezo pela própria história. Isto é válido para o PSD, PS e PCP.

Não me estou a referir aos historiadores e aos militantes ou ex-militantes que escreveram memórias, mas ao desprezo objectivo das direcções partidárias não só pelo seu património arquivístico, que ou menosprezam ou escondem, como pelas suas publicações sem qualidade, mal-amanhadas e censuradas. Todas as técnicas clássicas de manipulação da verdade são usadas, desde a mentira, à omissão da verdade até à sugestão de falsidade. O caso do PCP é clássico, não só pela ocultação dos arquivos, como pela sistemática manipulação de uma história “oficial” que não suporta qualquer critério de verificação histórica. Não é preciso ir mais longe do que notar que a sua imprensa oficial, como é o caso do Em Frente!, publicado pela sua direcção legítima e que substituiu o Avante! no período do Pacto Germano-Soviético, nunca seja mencionado. A razão não é a legitimidade do jornal como órgão do PCP, mas sim o que lá vem escrito sobre a colaboração da Alemanha nazi com a URSS, até à invasão de 1941.

O PS é, de todos os partidos que mencionei, aquele que é menos dependente de uma história “oficial” e, por isso, está mais à vontade, não só para ter conservado muitos materiais na Fundação Mário Soares, como para aceitar mais controvérsia sobre a sua história e personalidades. Com facilidade aceitará, mesmo de forma irónica, o seu cartaz de 1975 que diz “PS, partido marxista” ou o Coro de S. Carlos a cantar o hino do PS… a Internacional.

O PSD não tem idêntico à vontade, em grande parte porque dificilmente aceita os seus documentos fundadores, que lhe são particularmente incómodos no plano do conteúdo, e que menoriza como sendo apenas uma adaptação retórica ao radicalismo de 1975, para impedir a ilegalização do partido. Já tive ocasião de dizer como isto é insultuoso para a memória e a acção de Francisco Sá Carneiro, que sabia muito bem o que queria muito antes do ano de 1975. Antes do 25 de Abril, em vários escritos, e numa célebre entrevista a Jaime Gama da República, explicou o seu programa em termos claros e nunca o alterou até à sua morte em 1980. Afirmou-o sempre, em textos programáticos do PPD, em discursos partidários e parlamentares, na tentativa muito séria para entrar na Internacional Socialista, na preocupação de nunca colocar o PPD/PSD como cabeça de uma frente de direita, mesmo com a inclusão dos Reformadores na Aliança Democrática genuína, a da Bayer.

Sá Carneiro era anticomunista, e actuou como anticomunista, mas não era anti-socialista, mesmo quando combatia o PS. O PPD, e depois o PSD, na sua prática política combatia sem hesitações o PCP, no 25 de Novembro, na atenção aos retornados, na sua preocupação com a manipulação informativa, com o papel das pequenas empresas, com a liberdade de imprensa, informação e organização, e tudo isto faz parte da “história não escrita” com plena participação de Francisco Sá Carneiro. O mesmo acontecia com uma preocupação central que era a institucionalização de uma democracia plena, civil, assente nos partidos e no voto popular e não em “pactos” que davam aos militares poderes fora da democracia.

Mas tudo isto não afectava a sua identidade política que tinha três fontes, o liberalismo político, o personalismo cristão e a social-democracia, cada uma correspondendo a um dos elementos do seu pensamento, a liberdade de homens como Herculano ou Garrett, que lutaram com armas na mão contra os absolutistas, a doutrina social da Igreja e uma interpretação da pessoa humana na filosofia de Emmanuel Mounier, e a social-democracia de Bernstein e Kautsky, do Programa do SPD de Bad Godesberg, no seu tempo a de Olof Palme e Willy Brandt. É por isso que em todos os documentos iniciais o PPD é colocado como partido de “centro-esquerda”.

É incómoda? A história não é amável com a sua manipulação.»