13.4.24

Mercados

 


Mercado Central de Valência,1914.
Arquitectos: Alexander Soler e Francesco Guardia.


Daqui.
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13.04.2015 – Nove anos sem Eduardo Galeano




Esse grande uruguaio nasceu em Montevideu, em 3 de Setembro de 1940, quis ser jogador de futebol mas acabou como escritor com mais de 40 livros publicados.

Andou a fugir de ditaduras. Em 1973 foi preso depois do golpe militar no seu país, exilou-se na Argentina, mas com o golpe militar de Jorge Videla, em 1976, viu o nome colocado na lista dos «esquadrões da morte» e partiu para Espanha. Só 9 anos mais tarde regressou à cidade que o viu nascer.






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O governo da AD e descida de IRS para totós

 


Perante a notícia que abana o mundo político desde ontem, até o insuspeito director do Expresso veio pedir desculpa.



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Portugal está mal

 


«Quase ninguém tem saudades do Governo do PS e quase ninguém tem especial entusiasmo com o Governo do PSD-CDS. Claro que há sempre um grupo de fãs que contraria esta apreciação, mas são tão equivalentes que se anulam um ao outro. A realidade é que apenas os eleitores do Chega têm alguma coisa para celebrar, porque na prática são os únicos que podem dizer que ganharam nas eleições. A sensação de cansaço existe e é reforçada pela consciência de que o país está ingovernável.

Para utilizarmos a classificação tradicional de esquerda-direita-centro, que só o arcaísmo da política portuguesa permite ser instrumental, o centro está em grande parte destruído, a esquerda está em refluxo e a direita está em ascensão. Só que a direita que está em ascensão está bloqueada porque o seu sector mais dinâmico, o Chega, não pode governar e o que acedeu ao Governo está impotente, porque, se fizer o que quer, cai. Todos sabem que a questão das eleições a prazo é quase inevitável, e ninguém actua sem ter isso em consideração. É um jogo de sombras em que quase tudo o que se diz é ficcional e a probabilidade de sermos governados não pelo mérito das medidas, mas pelo seu papel na manutenção do Governo ou na eficácia da oposição é total.

A situação portuguesa não resulta apenas da acção dos políticos nacionais, porque processos idênticos se verificam noutras democracias. No caso português, um dos aspectos é a destruição do centro político, que é ao mesmo tempo uma autodestruição e o resultado de um processo de radicalização com outros protagonistas, principalmente a nova direita populista. Este efeito é potenciado pela subordinação do contínuo político-mediático aos critérios de audiências e da nova politização da imprensa, rádio e televisão.

Essa direita que cresceu não é “fascista”, como erradamente é classificada, não é o renascer de qualquer movimento antigo, embora haja países como a França, a Itália e a Espanha onde tal sucede, mas uma nova entidade que vai buscar ao populismo a sua força, tem uma agenda mais que conservadora, reaccionária, mas que acima de tudo mobiliza sentimentos de ressentimento, rejeição, desapossamento, perda de dignidade, desalento e desesperança que nasceram no terreno da democracia. Estes não são inteiramente explicáveis pelo marxismo, mas podem ser percebidos em parte por uma nova forma de “luta de classes”. O problema é que as “classes” são outras e a “luta” é diferente e há uma forte componente daquilo a que os marxistas chamavam “superestrutura”, autónoma da “infra-estrutura” nos seus mecanismos. O que faz crescer o Chega não é a perda de rendimentos dos seus eleitores, mas a ameaça da perda da identidade percebida, como “portugueses”, como “trabalhadores”, como “patrões”, como machos e brancos e vagamente cristãos.

A diferença está na forma do sentimento subjectivo, mais do que objectivo. Muitas vezes não se trata de perda de rendimentos, mas mais de perda de estatuto. Não é a mesma coisa ser operário ou ser estafeta ou criado de café, ser operária ou doméstica, ser gaspeadeira ou empregada de balcão de supermercado, ser militar ou segurança, principalmente quando se desejava ser uma coisa, ou se tenha sido outra coisa e se seja agora outra, com menos direitos, precários, e mais dependente de um patrão ou de uma grande empresa anónima e distante, ou “trabalhar” no sentido cada vez mais antigo do termo. E à sua volta, nos cafés, nas conversas, sentados num jardim, ou num escritório ou repartição, ou no meio dos violentos e do bullying nas escolas, ferve-se de raiva contra os “outros” e os “políticos” que lhes dão a “eles” o que nos negam. E a radicalização funciona como o horror ao vácuo, ou como a água e a gravidade, escorre para onde se deixou ficar um vazio, para o Chega e em parte para o PSD.

A destruição do centro em Portugal verifica-se essencialmente na mutação do aparelho do PSD, mais do que em muitos dos seus militantes. Muitos membros do PSD não fazem a mínima ideia de como a elite do partido está hoje longe do pensamento genético do partido, do pensamento de Sá Carneiro. Sá Carneiro não considerava importante a existência de um grande partido ou de uma frente de direita, bem pelo contrário, via isso como um empobrecimento, para usar um eufemismo, e um risco do sistema democrático, e disse-o explicitamente. Uma das razões por que a actual AD nada tem a ver com a original não é apenas o patético PPM dos nossos dias, que é conveniente esconder num armário fechado, mas a vontade de Sá Carneiro de incluir o PS no projecto inicial da AD, que, mais do que um programa económico e social, tinha um programa institucional centrado na democratização do regime. A intenção falhou e por isso estavam lá os Reformadores, e um PPM mais revolucionário nas suas causas até que o PSD. Mas a preocupação que fracassou não foi a de fazer um “bloco central”, mas uma força de centro, centro-direita e centro-esquerda, mais desta última do que da primeira. De todas as tentativas ulteriores de colocar o PSD neste local, apenas uma teve sucesso parcial, a de Cavaco Silva, sendo que quer Manuela Ferreira Leite quer Rui Rio falharam.

A destruição do centro teve também como consequência a sua ocupação pelo PS, primeiro com Sócrates e depois Costa, o que fragilizou a esquerda, com excepção do período da “geringonça”. Preso nas suas ambiguidades, nem carne nem peixe, o PS não consegue travar a direita, nem na versão Chega, nem na AD 2.0.

Tudo isto resultou numa combinação de falta de vontade reformista e de bloqueamento reformista, quer pelo medo de reformas sérias dos dois grandes partidos, quer pela sua fragilização e subordinação não ao conteúdo das políticas, mas à sua mediatização. Medo de mexer alguma coisa, medo da comunicação social, medo de acreditar nalguma coisa, medo de perder estatuto e prebendas, défice de coragem política para resistir. O impasse político actual vem também da destruição do terreno central.

O país está mal porque tudo isto é o exacto oposto do que é necessário nos dias de hoje. Sem profundas mudanças nas oligarquias partidárias, PSD e PS, não se vai a lado nenhum e essas mudanças nos partidos não se dão porque não existem forças endógenas para o conseguir. Quem mais precisa dessa força é o centro político, e o partido onde ela é mais necessária é o PSD.»

12.4.24

Belas fachadas

 


Casa Josep Sabadell, Barcelona, 1914-1918.
Arquitecto: Josep Masdéu y Puigdemasa.

As várias fachadas da casa têm desenhos diferentes, com aberturas de diversas formas e com uso abundante de cerâmicas e esgrafitos.

Daqui.
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Paulo Otero



Um dos fundadores do Movimento Acção Ética, durante a sessão da recente apresentação do livro “Identidade e Família”, feita por Pedro Passos Coelho.

E em debate com Isabel Moreira:



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12.04.1933 - Montserrat Caballé

 


Monserrat Caballé chegaria hoje aos 91 e morreu com 85.

Para além de uma carreira inesquecível, teve um enorme sucesso popular em 1988, quando gravou com Freddie Mercury o álbum Barcelona. Quatro anos depois, na abertura dos jogos olímpicos naquela cidade, já sem a presença do cantor que morrera em 1991, interpretou a mítica canção, num impressionante dueto virtual que viria a ser repetido em 1999, antes da final da UEFA Champions League.

Mais informação e três vídeos AQUI.
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Não se distraiam

 


«Passos Coelho saiu mais uma vez de casa num final de tarde, desta vez para ir abençoar a direita ultramontana e a sua agenda conservadora. Toda a encenação teve traços deprimentes, com um cheiro a mofo de gente assustada pelas mudanças sociais, que sonha com o regresso da dona de casa. E, enfim, Passos tende a ser apresentado, de tempos a tempos, como reserva moral da direita portuguesa.

O país franziu o sobrolho, a direita liberal mostrou o incómodo e à esquerda os sinos tocaram a rebate. Foi salutar essa multiplicação de reações.

Mas não nos enganemos. Não é uma guerra cultural que temos pela frente no ciclo político que por agora se inicia. Primeiro porque essa tentativa de criar um conflito sobre identidades e família é, pelo menos por agora, totalmente artificial e minoritária. A vida do país foi mostrando traços de transformação nos costumes e nas identidades sociais que nasceram pela mão de lutas sociais, de gente corajosa e de mudanças legislativas. O país avançou e modernizou-se. É a própria direita que prova que essa mudança é pacífica e bem-vinda na sociedade portuguesa. Temos um político que assumiu publicamente a sua homossexualidade e que é hoje Ministro dos Negócios Estrangeiros. Outros militantes destacados do (anterior) partido mais à direita, o CDS, também o assumiram com coragem no passado. Nunca mais ninguém falou disso. E bem. As mulheres portuguesas são hoje a maioria no ensino superior, há novos modelos de famílias sem dramas, e deixámos de prender as mulheres pobres que recorriam desesperadas às salas escuras do aborto clandestino. Na verdade, os dramas das mulheres portuguesas estão na discriminação salarial; nos horários e turnos que dificultam a vida familiar; nos salários baixos; e na violência cobarde que persiste exatamente nos modelos de “família tradicional”. E os problemas das famílias com a escola pública não são os direitos humanos, discutidos nas aulas de cidadania. São a falta de professores; as escolas ainda degradadas; os apoios escolares para melhorar resultados; e a inquietação de saber se haverá residências universitárias, caso os filhos tenham de ir estudar para outra cidade.

Há lutas ainda por fazer, mas não há uma ferida aberta na sociedade portuguesa sobre modelos de família ou o papel das mulheres. Por isso, a nova identidade salazarenta de Passos Coelho é apenas um exercício oportunismo político. É um político em busca de um papel e de uma agenda para o seu próprio protagonismo. Passos tem procurado persistentemente colocar-se como a figura tutelar de uma eventual aliança entre o PSD e Chega, caso ela seja essencial para que a direita se mantenha no poder. Este foi apenas mais um episódio dessa novela que, receio bem, vai continuar.

Mas nos próximos tempos, a aliança entre a direita liberal e a extrema-direita não será sobre identidades e costumes. Será sobre matérias bem mais prosaicas: trabalho e políticas sociais e económicas. No novo quadro político, o que está em debate são as questões do trabalho, dos rendimentos e dos apoios à iniciativa privada.

Dados recentes do Eurostat mostram que Portugal é hoje o segundo país da União Europeia com maior número de contratos laborais precários, e sabemos que permanece há décadas no fundo da tabela europeia dos níveis salariais. É um país em que o trabalho é barato – e isso explica muitas das dificuldades da economia portuguesa e da emigração dos mais jovens. Portanto, o que interessa saber é se o PSD se vai apoiar na extrema-direita para reforçar uma legislação laboral que promove essa precariedade e manter os entraves à contratação colectiva. Saber se tenciona travar a subida do salário mínimo. E, agora que se esboça a nova teoria de que afinal o excedente orçamental deixado pelo PS é uma maldição, saber se os trabalhadores com funções públicas continuarão em perda salarial desde que a Troika aterrou no país.

E há uma segunda dimensão: saber se as alterações nas políticas sociais servem de alavanca a novas rentabilidades oferecidas ao sector privado, a serem asseguradas por contratos com o Estado. Isto é, trata-se de saber se o dinheiro dos contribuintes será encaminhado não para os serviços públicos, mas para o sector privado da saúde ou da educação. Saber se se avança com a privatização parcial da segurança social; se o IRS das famílias vai pagar as rendas galopantes dos senhorios; e se o orçamento das obras públicas – e o novo aeroporto – vão servir para assegurar lucros fáceis sem necessidade de investimento, inovação ou competitividade.

Nestas questões, o alinhamento entre PSD e Chega não titubeia, nem tropeça. Até arrisco uma hipótese: quanto maior for a contestação a essa agenda de manutenção de baixos salários e rentabilidades asseguradas, mais vozes se levantarão no campo da direita querendo fabricar guerras de costumes e identidades.

Mas o ciclo que temos pela frente é sobre desigualdade social. É uma disputa sobre a distribuição de rendimentos e da riqueza criada na economia: ou vai para aumentar os salários ou vai para assegurar rentabilidades sem risco. Não se distraiam.»

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11.4.24

Jarras

 


Jarra Arte Nova «Com Crisântemos de Tóquio».
Émile Gallé.


Daqui.
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Alfredo Cunha, 25 de Abril (16)

 


«Amigos

A partir de agora, recomeço a publicar, na medida do possível, fotografias relativas ao livro "25 de Abril de 1974, Quinta feira". Espero que gostem tanto como eu gostei de o fazer.»

Alfredo Cunha no Facebook.
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11.04.1964 – A cooperativa PRAGMA

 


Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.

Continuar a ler neste post do ano passado.
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Não votei nele, mas…

 


…. fez uma primeira intervenção boa, hoje, na AR.
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A táctica de Montenegro é uma desgraça, mas não tem alternativa

 


«Quando Pedro Nuno Santos disse, na noite eleitoral, “deixemos a táctica de fora” (numa indirecta a António Costa e a Marcelo Rebelo de Sousa, mestres da táctica política) ou não estava a ver o filme ou estava, apenas, a enunciar a frase por puro tacticismo.

A “táctica” é necessária hoje mais do que nunca: a situação política, neste momento, é um jogo de xadrez e só tem capacidade de fazer xeque-mate quem tiver “estudado” o adversário com maior rigor.

A apresentação do programa deste Governo e o anúncio solene de que o executivo Montenegro, bonzinho, incluiu 60 medidas da oposição no seu programa, é um monumento à táctica. O Governo quer fingir que “dialoga”, “negoceia”, “concerta” em sede de Parlamento, mas só tem um objectivo em mente. Trata-se de arranjar o argumentário mínimo para vir a culpar a oposição, na campanha eleitoral para as próximas eleições antecipadas, pelo chumbo do Orçamento para 2025.

Nem sequer há muito de novo nisto: o Governo prepara o discurso da vitimização e tenta o que outros já tentaram antes com sucesso – obter uma maioria confortável, que não seja apenas a de dois deputados a mais do que o PS.

O programa é, evidentemente, o da AD, com uns retoques, e foi fechado sem qualquer negociação com qualquer outro partido. É tudo legítimo, menos chamar a isto “diálogo”. Se a vontade de negociar fosse genuína, autêntica e houvesse o objectivo de atingir um acordo, Montenegro falava com os líderes de outros partidos e discutia medidas. Não o fez.

A introdução ao programa é um verdadeiro mimo e basicamente repete o discurso de posse de Luís Montenegro. O Governo vai governar com o seu programa e a oposição tem a obrigação de o “deixar trabalhar”.

Vale a pena anotar a leitura que o Governo faz dos resultados eleitorais: “Os portugueses conferiram a este Governo a legitimidade para governar, cumprindo o seu programa e concretizando os seus objectivos.” Ninguém avisou a AD de que não tem maioria absoluta. Segue-se: “Contudo, o resultado eleitoral constitui uma responsabilidade para todas as forças parlamentares.” Montenegro já tinha ensaiado esta táctica: cabe ao Governo, que tem mais dois deputados do que o PS, governar com o seu programa e cabe ao PS, ao Chega e a outros aprovarem obedientemente.

Qual é o problema desta táctica? É que o Governo, ao falar em “diálogo” e “negociação” limita-se a “épater les bourgeois”. Diálogo não é meter no programa do Governo 32 medidas do PS, 13 do Chega, seis da Iniciativa Liberal, três do Bloco de Esquerda, três do Livre, duas do PAN e uma do PCP.

O problema da táctica Montenegro é querer fingir que faz o que na realidade não faz. Mas o maior bico-de-obra é que não há alternativa para o PSD. Negociar com o PS e tentar um bloco central (ou qualquer coisa informal no mesmo sentido) fará crescer o Chega nas próximas eleições e Ventura já começou a ensaiar o discurso contra “eles” e contra o “bloco central”. Nem Pedro Nuno Santos quer negociar nada de substancial com o Governo, tirando os assuntos de que falou na carta e só até ao Verão. Depois disso, chumba tudo. Nem o Governo quer nada com o PS, nem vice-versa. Nenhum dos dois partidos, PS e PSD, quer fazer favores ao Chega.

A outra hipótese do Governo era fazer um acordo com o Chega, que Ventura – também tacticamente – tem implorado desde o início. Negociar com o Chega iria pôr em causa a estratégia do “não é não” que Montenegro fixou e desacreditá-lo-ia em parte do seu eleitorado. E se o primeiro-ministro decidisse mudar de estratégia e acolher o Chega no regaço, acabaria por ficar refém do partido de Ventura que, no momento que lhe fosse mais útil, o derrubaria. E o risco de, em futuras eleições, o PSD sair prejudicado face ao PS, por causa da aliança com a direita populista radical, é grande.

A situação é tão complexa que o Governo tem que inventar que “dialoga” e “negoceia”. Entretanto, vai sobrevivendo com aquele mantra que os médicos dizem aos doentes – “um dia de cada vez”.»

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10.4.24

Bibliotecas

 


Biblioteca com 34 mil metros quadrados e mais de um milhão de livros, Tianjin Binhai, China.

Daqui, com mais fotografias impressionantes.
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Sebastião da Gama chegaria hoje aos 100

 


Meu país desgraçado!…

E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

In Cabo da Boa Esperança
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Condecorações clandestinas?

 


Isto não se inventa!

Quem nada fez na clandestinidade, quando ela era necessária, inventa-a agora. Que alguém o ajude a terminar o mandato menos ridiculamente.

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Programa do Governo?

 


AQUI, a sair do forno.
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Será o aborto “uma arma da opressão das mulheres”?

 


«No passado dia 6 de Abril saiu à rua a Caminhada pela Vida. Organizada anualmente pela Federação pela Vida, esta manifestação dá visibilidade aos movimentos conservadores em defesa da família tradicional e contra o aborto legal e a eutanásia.

O Manifesto Vida 24 é “um manifesto político que espelha a visão da Federação pela Vida para 2024”, tendo em vista a realização de eleições legislativas e europeias. Ao contrário do discurso tradicionalmente associado aos ativistas antiaborto, o manifesto não apela a qualquer argumento religioso, nem apelida de assassina quem escolhe abortar. Ao invés, a Federação pela Vida apropria-se da linguagem do movimento feminista e dos direitos humanos, definindo o aborto “uma arma da opressão das mulheres”.

Consciente de que a opinião pública é cada vez mais favorável à liberdade de escolha das mulheres, o movimento antiaborto foi forçado a adaptar-se, tendo desenvolvido argumentos aparentemente pró-mulher na defesa da criminalização do aborto. Estes argumentos assentam frequentemente na premissa de que o aborto põe em risco a saúde das mulheres e a sua liberdade.

O aborto é representado como inerentemente traumático, comportando riscos elevados para a saúde física e mental de quem aborta, apesar de este procedimento ser menos perigoso do que levar uma gravidez até ao fim. A criminalização aparece assim como uma exigência de saúde pública, que desvaloriza o papel das mulheres enquanto decisoras e as considera incapazes de consentir de forma informada num procedimento médico.

A IVG (interrupção voluntária da gravidez) é ainda vista como uma afronta à liberdade das mulheres, que, de acordo com os ativistas antiaborto, são forçadas a abortar devido às suas condições económicas e por pressão de familiares, companheiros e até profissionais de saúde.

A Federação pela Vida denuncia o aborto como uma arma da opressão das mulheres, argumentando que a maioria aborta por viver em situação de pobreza, sem apoio familiar ou estatal. Não há nada que indique que tal seja verdade, nem a federação faz qualquer referência a dados que o comprovem. Aliás, de acordo com o relatório mais recente da Direção-Geral da Saúde, apenas 14,6% das mulheres que abortaram por opção nas primeiras dez semanas de gravidez estavam desempregadas.

Este argumento tem por base a crença sexista de que é natural para uma mulher aspirar à maternidade e, portanto, nenhuma mulher deseja realmente abortar. Apenas abortam as mulheres em situação de vulnerabilidade, que devem ser incentivadas a manter a gestação.

Os argumentos antiaborto baseados no género e na linguagem dos direitos humanos não estão apenas presentes na propaganda política de movimentos conservadores. Encontramo-los em ações de strategic litigation nos tribunais, em relatórios-sombra de ONG antiaborto às Nações Unidas e nos discursos de deputados da direita no Parlamento Europeu.

Hoje, mais do que nunca, é preciso dizê-lo: o aborto é normal, seguro e essencial para a liberdade e autodeterminação das mulheres.

Existiria alguma conotação negativa associada ao aborto, se o papel primário das mulheres não fosse o da maternidade? Teria alguma mulher sentimentos de culpa por abortar, se não fosse estigmatizante fazê-lo?

Está na hora de parar de defender o aborto como um mal necessário, que se quer legal mas raro, e passar a defendê-lo por aquilo que é: uma ferramenta para a realização dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

Nós, feministas, temos o dever do contraditório. O dever de defender a educação sexual plena, que inclua os temas da contraceção e dos métodos disponíveis para a IVG. Temos o dever de dizer que nenhuma mulher é oprimida por poder abortar e o dever de denunciar a apropriação da nossa luta, da nossa linguagem e dos nossos valores pela direita iliberal.

Nestas eleições europeias, se a Federação pela Vida pergunta aos deputados se estão “contra o alargamento dos prazos legais do aborto”, perguntemos também: estarão do nosso lado na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres?»

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Uma herança pesada

 

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9.4.24

Piscinas

 


Piscina interior Azure Blue no Castelo Hearst, coberta de azulejos e cercada por oito esculturas de mármore de deuses, deusas e heróis gregos e romanos. San Simeon, California, 1919-1947.
Arquitecta: Julia Morgan.

Daqui e não só.
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Com dedicatória a um ex-PM

 


… que foi além da troika e que está na estrada para eliminar a «sovietização do ensino».
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09.04.1974 – Uma acção importante pouco antes da democracia



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.
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Imagem dos tempos que correm

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O declínio do liberalismo e o 25 de abril

 


«Depois da queda do comunismo e do socialismo, depois da euforia liberal que lhe sucedeu, a partir da década de oitenta do século passado, eis que estamos para muitos, neste início do século XXI, perante o declínio das ideias liberais.

O que vem aí, ainda não conhecemos. Porém, vários estudos empíricos evidenciam um paulatino retorno do conservadorismo, com o seu apego à ordem, à autoridade, à tradição, nas suas diversas matizes. Muitas são também as obras que têm sido publicadas destacando essa nova circunstância no mapa político mundial, quer por parte dos seus inimigos de sempre, quer, cada vez mais, por todos os que o criticam o liberalismo na tentativa de o salvar. Afinal de contas, de um modo ou de outro, somos todos politicamente liberais desde o início da modernidade.

Ora também entre nós, quando estamos à beira de comemorar os cinquenta anos do 25 de abril, em nome precisamente da liberdade contra a ordem autoritária, convém lembrar que Portugal nunca foi um país liberal. Foi quase sempre, isso sim e ao invés, um país profundamente conservador.

Recorde-se que já nos anos quarenta do século passado, aquando do último grande retrocesso liberal, Karl Popper escrevia sobre a sociedade aberta e os seus inimigos, acentuado a necessidade de salvaguardar o núcleo das ideias liberais, como a liberdade, o pluralismo, a tolerância, contra os diversos monismos autoritários.

A história repete-se agora com o regresso do discurso antiliberal, pois assistimos ao fim da festa da liberdade que infelizmente, foi levada por muitos para lá dos seus limites razoáveis, sobretudo na variante do progressismo sociocultural, cujo avatar mais recente é o wokismo, nas suas diversas declinações.

Ou seja, o novo o discurso antiliberal, que assenta sobretudo no aproveitamento político da vitimização, na alegada defesa de todos “os oprimidos da terra”, aliado ao elitismo globalista dos ganhadores da nova revolução tecnológica, tem acentuado o declínio do liberalismo. Aliás, é esta versão pós-moderna do liberalismo que paradoxalmente, também tem levado ao crescimento do extremismo conservador de pendor autoritário que agora parece alastrar por todo o lado.

Sabemos que sem ordem só existe o caos e o medo. Sabemos que sem segurança não existe liberdade. Mas a ordem que importa defender para garantir a segurança necessária à fruição plena da liberdade, do pluralismo e da tolerância, é a ordem legitimada democraticamente, não o retorno a qualquer a ordem mais ou menos autoritária. Esse será também o caminho para salvar o liberalismo do seu anunciado declínio face à nova vaga conservadora.

Trata-se, no fundo, de harmonizar o valor da ordem com o valor da liberdade, garantir o equilíbrio entre a emoção e a razão, entre a força e o direito. Terminando com as palavras sábias de um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, Thomas Jefferson, a rivalidade entre o liberalismo e o conservadorismo sempre se baseou no confronto entre “os homens tímidos que preferem a calma do despotismo ao mar tempestuoso da liberdade”

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8.4.24

Uma bela capa

 


Libération, 07.04.2024
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Jacques Brel nasceu num 8 de Abril



 

Brel chegaria hoje aos 95. É um ritual a que regresso quase todos os anos: recordar que seria hoje um velho se não tivesse adormecido demasiado cedo: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps» – disse ele.



Um dos meus monstros sagrados, com um registo especial: tive a sorte de o ver e ouvir, em pessoa, era ele jovem e eu muito mais ainda. Em Lovaina, na Bélgica, num espectáculo extraordinário a que se seguiu, já na rua, uma cena de pancadaria entre valões e flamengos, com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada. Tudo porque Brel, em terra de flamengos, insistiu em cantar um dos seus êxitos – Les Flamandes – onde uma parte das suas compatriotas não é muito bem tratada. Ele era assim.



Algumas das minhas preferidas:







E a inevitável:


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Gente triste que se dedica a «conservar» passados

 

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A polémica sobre o logótipo nunca foi sobre o logótipo

 


«O governo decidiu começar o seu trabalho com uma decisão estritamente simbólica. Devemos levar essa opção a sério, porque ela, como todas as guerras simbólicas, nos quer comunicar alguma coisa. Por isso, só faz sentido avaliar essa decisão pelo seu simbolismo político. O que há no debate sobre o logótipo do governo para lá do logótipo do governo? O que nos quis dizer Luís Montenegro?

Já aqui escrevi, ainda antes das eleições, que estamos perante uma polémica artificial, criada nas redes pela direita radical e alimentada pelos seus vizinhos próximos. Não lhe falta nada para o seu uso costumeiro: da aposta na ignorância sobre custos e competências técnicas necessários para um determinado trabalho à manipulação do nacionalismo superficial, passando pela simplificação simbólica do conflito político.

O novo símbolo do governo nasceu em junho do ano passado e foi amplamente utilizado nas mediáticas Jornadas Mundiais da Juventude sem qualquer revolta popular. Ninguém quis saber. Só depois de marcadas as eleições legislativas é que a polémica absurda – pela enésima vez, aquilo não é a bandeira, é um logótipo administrativo inspirado nos símbolos nacionais, como podemos encontrar em França, Bélgica, Reino Unido, Brasil, Estados Unidos e um pouco por todo o mundo – foi instalada e alimentada pela máquina de propaganda radical.

Assim sendo, a primeira conclusão que podemos tirar do facto de esta ter sido a primeira decisão que Luís Montenegro escolheu para dar o mote à sua governação é que ele será sensível à pressão das redes sociais e que as usará como manobra de diversão política para nos distrair dos temas mais substanciais – onde as suas opções sejam mais impopulares –, como é típico de governos populistas ou que estão em permanente campanha eleitoral.

Luís Montenegro disse aos jornalistas, no sábado, como resposta a perguntas sobre este tema: “aqueles que porventura possam pensar que nos incomodamos com as notícias que fazem sobre nós desenganem-se porque vão ter de perder muito tempo". O desprezo pela comunicação social – outra lição que recebeu de Cavaco – e a hipersensibilidade ao burburinho de campanhas plantadas nas redes sociais é uma forma de fazer política. Habituem-se.

~ Assim, o primeiro sinal desta medida simbólica é que, sendo um governo ultraminoritário, liderado por uma coligação que teve a mais curta vitória da história da nossa democracia – a arrogância de Montenegro apenas tenta disfarçar a sua fragilidade –, ele será sensível de todos a campanhas virais vindas do seu campo político ou à sua direita. E não deixará de as usar.

Enquanto Montenegro diz “não é não” ao Chega, é permeável à sua agenda, porque é daí que sente o risco. Nesse terreno, teremos o primeiro governo a dar centralidade às guerras culturais. Ou por achar, como parte da esquerda, que é ela que divide hoje as águas, ou por perceber, com razão, que são uma excelente forma de distrair o povo das suas escolhas económicas e sociais. Elas são uma forma de polarização política e cultural com que se pretende ganhar simpatia dos setores mais radicais da direita, alimentando a divisão simbólica, muito mais fácil de manipular do que as velhas divisões ideológicas.

Nas redes sociais, já é possível ver muita gente a usar como imagens de perfil o novo e o anterior logótipo, separando o país entre “patriotas” e “modernos”, como aconteceu no Brasil e nos EUA, facilitando a identificação dos “nossos” e o dos “outros”.

Assim, o segundo sinal desta medida simbólica é que ela se afasta de qualquer vontade de construir pontes entre moderados para travar o radicalismo. Pelo contrário, ela pretende cavar a divisão cultural de que os radicais se alimentam.

Este logótipo, que correspondeu à corriqueira estilização de símbolos nacionais para uso administrativo em animações e novas plataformas, que exigem simplicidade, nasce de um aturado trabalho técnico, com um exaustivo manual para a sua utilização. A acusação de que é simples e de que qualquer criança de quatro anos o faria no “Paint” é a mais habitual confissão de ignorância sobre a arte e o design, que desconhece que a simplicidade exige mais saber e arte. Quantas vezes Picasso ouviu e leu a mesma altivez da boca e pena de ignorantes? Que autodidatas atrevidos o repitam nas redes, é natural. Preocupante é que um conjunto de 17 ministros, reunidos à volta de uma mesa, tenham sentido o mesmo à vontade para tomar uma decisão técnica, sem qualquer estudo ou trabalho especialista. Só porque movimentos nada espontâneos alimentados nas redes sociais em véspera de eleições para isso o pressionaram.

De uma penada, atiraram para o lixo o trabalho de um dos mais premiados designers portugueses (Eduardo Aires), experiente em “rebranding” institucional (o do “Porto.”, por exemplo, que provavelmente qualquer um conseguiria fazer no programa de texto), que teve custos e voltará a ter, por tudo ter de ser reimpresso.

Assim, o terceiro sinal desta medida simbólica é o desprezo pelo saber e pela competência técnicas. A comunicação é uma questão política, como todas as decisões que o governo toma, mas também é, apesar de parecer muito acessível aos leigos, técnica. Só não o é se a decisão está apenas ao serviço de uma campanha eleitoral.

Não deve ser desprezado o facto da primeira medida ser uma reversão simbólica contra um adversário claro. Contra um símbolo do legado. É legitimo, mas inconsequente com o discurso que, verdade seja dita, Montenegro nunca fez, mas é repetido pelos seus ajudantes mediáticos: que os socialistas têm o dever de suportar um governo de entendimento ao centro. Na realidade, Montenegro tem exposto, ele próprio, a contradição: queremos mudar o que o PS fez e, para isso, contamos com o apoio do PS. O PSD exige mais do que autoanulação do PS, exige um ato de contrição.

Assim, o quarto sinal desta medida simbólica é a política de tábua rasa em relação a todo o legado recebido, que tem sido evidente nas escolhas do elenco governativo e nos poucos discursos políticos de Montenegro.

A escolha de uma polémica simbólica para agitar o fervor nacionalista, a tentativa de dividir o país em torno de uma guerra cultural para afirmar o seu próprio poder e a relação ostensivamente hostil, até na simbologia, com o legado do governo anterior, levam à última evidência da escolha desta medida para marcar o regresso da direita ao poder: o adversário é o PS, o eleitorado a agradar é o do Chega. Enquanto se governa para os eleitores do Chega, para lhe tirar votos, exige-se o apoio do PS, para o neutralizar. É uma espécie de tenaz ao contrário.

Se o governo quis transformar isto na sua apresentação, está apresentado: os apelos à moderação e aos entendimentos ao centro e os supostos cordões sanitários não passam de táticas a pensar nas próximas eleições. Isso ficou claro quando PSD firmou um compromisso preferencial com o Chega para a eleição do Presidente da Assembleia da República e, depois de salvo da traição pelo PS, não só elegeu Pacheco de Amorim como usou a boa-vontade dos socialistas para dizer, pela boca de Hugo Soares, que isso os obrigaria a garantir uma legislatura. Voltou a ficar claro no discurso de chantagem e vitimização da tomada de posse de Luís Montenegro. Fica novamente claro com a escolha de uma pessoa com o perfil de Carlos Abreu Amorim para secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. E volta a ser confirmado com a segunda medida anunciada: a abertura de um concurso de demagogia em torno da corrupção, abrindo o único processo negocial até agora anunciado ao Chega, num tipo de assunto que, por envolver o Estado de Direito Democrático, ele deveria estar de fora.

Montenegro diz-nos a cada momento ao que vem. Mas parece que ninguém o quer ouvir. Nem quando faz um desenho.»

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Homens e elefantes

 

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7.4.24

Chá das 5

 


Conjunto de chá Art Deco, 1930.
Clarice Cliff.


Daqui.
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07.04.1893 - Almada Negreiros

 


Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893. Na minha última viagem a.c. (antes Corona…), visitei e almocei na casa onde nasceu, na Roça Saudade, a 1.500 metros de altitude, da qual o pai era administrador. Com dois anos, Almada Negreiros veio para Cascais e passou a viver com a família da mãe que ficou em S. Tomé e morreu pouco depois.

Ficam aqui imagens, duas delas com algumas das muitas citações de Almada, pintadas na casa hoje transformada em restaurante-museu e um vídeo com um excerto da entrevista que Almada Negreiros concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969 (ano anterior ao da sua morte).



  




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O que querem o Chega e Ventura?

 



«André Ventura recebeu os resultados eleitorais das legislativas de 2022 com euforia, dizendo na própria noite que o Chega era a terceira força política e que tinha vindo para ficar. Tinha razão. Dois anos depois, o Chega transformou o mapa político português. Vítor Matos, jornalista do Expresso, editou recentemente um livro, “Na Cabeça de Ventura”, e Miguel Carvalho, jornalista freelancer que tem estudado exaustivamente o Chega são os convidados desta edição do podcast Perguntar Não Ofende.»

Daqui.
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Montenegro, Cavaco, Governo de 1985: nada duas vezes

 

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

«É um fascínio assistir à recuperação de uma certa mitologia cavaquista pelo primeiro-ministro. Há boas razões para isso: Cavaco Silva foi o político de direita mais bem-sucedido da democracia, com um governo minoritário que sobreviveu a uma moção de confiança e conseguiu obter duas maiorias absolutas. A segunda razão é que focar-se em Cavaco ajuda a esconder a sempiterna sombra de Passos Coelho, de quem Luís Montenegro foi líder parlamentar e cuja herança – em parte – o novo chefe do Governo renega.

Ao reabilitar, no discurso de posse, o famoso “deixem-me trabalhar” e a admitir que o PS, à partida, possa vir a ser “oposição de bloqueio”, Montenegro assume as palavras do “mestre”, mas não exactamente as lições. Perante a consciência de que tinha um governo minoritário, em 1985, Cavaco Silva (com 29,8%, como Montenegro) falou com o PS (20,7%) e até admitiu integrar no Governo o PRD (17,9%), caso este quisesse. Montenegro não fez nada disto. Cavaco apresentou o programa do Governo aos partidos antes de ser submetido à Assembleia da República. À hora a que escrevo, não estão anunciadas reuniões do PSD com os partidos parlamentares para explicar o programa do Governo. Está apenas anunciado que o texto é entregue na quarta-feira e discutido na quinta e sexta-feira.

Cavaco tinha noção plena de que tinha um governo minoritário. Luís Montenegro, a avaliar pelo tom de desafio do discurso de posse, quase parece não ter. Como é impossível que não tenha, pode-se concluir que, mais do que Cavaco em 1985, tenta aproveitar todas as ocasiões para poder vitimizar-se, crente de que, no caso de convocação de eleições a médio prazo, os portugueses tenderão a dar-lhe uma maioria mais robusta do que a que agora existe – em que a AD só tem mais dois deputados do que o PS.

Uma curiosidade é que as duas célebres expressões cavaquistas, agora recuperadas por Montenegro, não pertencem ao início do mandato de Cavaco, mas ao seu estertor. O “deixem-nos trabalhar” é de 28 de Julho de 1993, numa apresentação de candidatos autárquicos da Área Metropolitana de Lisboa. O alvo era o Presidente da República Mário Soares, que, por essa altura, já estava muitíssimo empenhado em desgastar o cavaquismo (Pacheco Pereira, que tinha apoiado Soares em 1986, foi o grande porta-voz do PSD contra o Presidente da República, nesses tempos).

A outra famosa frase, a das forças de bloqueio, é num congresso do PSD em Novembro de 1992, um ano depois da segunda maioria absoluta. Além de Soares, Cavaco contestava todos os outros fiscalizadores do Governo, como o Tribunal de Contas e o Tribunal Constitucional – ao contrário do que acontece agora com Luís Montenegro, a Assembleia da República com uma farta maioria PSD não bloqueava nada. Vale a pena recordar a frase: eram "forças de bloqueio” “todos aqueles sectores ou políticos que, frontal ou encapotadamente, querem impedir a legislação reformadora e querem bloquear a modernização do país. Fazem discursos sobre reformas, mas depois tentam impedir o Governo de as concretizar”.

Nada é igual a 1985, o Chega não é o PRD, Montenegro não é Cavaco Silva e o Cavaco das “forças de bloqueio” e do “deixem-nos trabalhar” era um homem em fim de ciclo, com maioria absoluta. Montenegro está em arranque de ciclo, com mais dois deputados do que o PS na Assembleia.

A forma como várias figuras do PSD falam do Governo de 1985 como sinal de esperança relativamente à situação actual não tem mais adesão à realidade do que os “desejos de melhoras” que fazemos aos enfermos. É um mero consolo. E como nos ensinou a poetisa polaca Wislawa Szymborska (e muito antes dela Heráclito) “nada acontece duas vezes/nem acontecerá. Eis a nossa sina/nascemos sem prática/e morreremos sem rotina”. A ver vamos.»

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