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17.7.17

O futuro do trabalho e desigualdade



«A ansiedade acerca dos efeitos adversos da evolução tecnológica no emprego tem uma longa tradição histórica. Em 1811 um grupo de artesãos têxteis ingleses, autodenominados de “Luditas” (derivado do nome do tecelão de Leicester, Ned Ludd, que após ser condenado a chicotadas sob alegação de não demonstrar empenho no seu trabalho de tecelagem, desfez com um martelo a máquina em que trabalhava) destruiram máquinas de tecelagem como forma de protesto. Os Luditas temiam que o tempo gasto na aprendizagem do seu ofício fosse desperdiçado porque as máquinas substituiriam o seu trabalho na indústria. Em 1930, John Maynard Keynes propôs o termo “desemprego tecnológico” para denominar as perdas de emprego associadas à mecanização da agricultura, indústria mineira e manufatureira. Mais tarde, em 1964, o presidente Johnson dos EUA nomeou uma comissão para identificar e avaliar os impactos futuros na economia e no emprego do progresso tecnológico a ocorrer na década seguinte.

Mais recentemente, o forte e rápido avanço da tecnologia, nomeadamente associado a uma progressiva digitalização dos processos produtivos e ao uso intensivo da robotização e a inteligência artificial, trouxe novamente ao debate o impacto deste progresso não só sobre o emprego, mas sobretudo sobre a desigualdade na distribuição de rendimento e riqueza. A obra de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, publicada em 2014, The second machine age, é um bom exemplo da discussão atualmente em curso.

Não há dúvida que uma parte substancial das tarefas produtivas, da indústria ou serviços, poderá vir a ser automatizada, sendo este um processo que tem avançado a um ritmo sem precedentes. Não há dúvidas que os automóveis sem condutor serão uma realidade a médio prazo, ou que teremos supermercados vazios de empregados, onde apenas encontraremos clientes. No entanto, o impacto da tecnologia no mercado de trabalho depende do tipo de tarefas que aquela irá substituir ou complementar. Na primeira revolução industrial, a tecnologia substituiu o trabalho de artesãos (qualificados), em favor do trabalho manual (não qualificados). A “revolução” em curso altera quer a execução de tarefas manuais, quer cognitivas. Em ambos os casos, espera-se um maior impacto nas tarefas que obedecem a uma rotina, tarefas cujos procedimentos possam ser codificados, passíveis de serem programados através de um computador. No caso das tarefas não rotineiras, assentes em conhecimento tácito, intuitivo e relacional, dificilmente programável, a tecnologia poderá ser um complemento útil, aumentado a produtividade dos trabalhadores. Deste processo resultam ganhos acentuados, e crescentes, para as tarefas cognitivas que incidem em componentes analíticas e interpessoais, em contraponto às perdas de emprego associado a tarefas rotineiras.


12.5.17

O futuro do trabalho. Haverá?



«O trabalho e o emprego tal como o viram gerações passadas desapareceu. Fruto da tecnologia, da globalização, das chamadas "reformas" e de conceitos ideológicos que criaram esta lógica de pretensa liberdade de escolha de cada indivíduo.

Tudo isto tem contribuído para o fim anunciado do Estado social e dos sistemas de pensões como os conhecemos desde o pós-guerra. Não há sociedades imutáveis. E deixou de haver empregos para toda a vida. As altas taxas de desemprego vão continuar ligadas a um nivelamento por baixo de rendimentos. Tudo isso também coloca em causa a sociedade de consumo como a conhecemos. Por isso resulta quase patético ver como políticos com responsabilidades vão continuando a não enfrentar este problema com seriedade. (…)

Será possível criar empregos em actividades paralelas que correspondam aos que se vão perder com a robotização de muitas profissões na área industrial e de serviços? E como se garantirá rendimentos decentes para quem não vai conseguir ter trabalho? (…)

Toda a lógica de empregos de que Donald Trump fala parece ser uma redundância. Estamos a viver tempos muito estranhos e no campo do trabalho eles parecem ainda menos transparentes. Seja como for todos temos a certeza que o valor do trabalho dissolveu-se e que hoje, sobretudo nas zonas periféricas (como Portugal), as "reformas" conduziram o contrato social que assentava numa relação estável entre empregadores e empregados a um beco com poucas saídas. E onde o Estado está carenciado de respostas e de meios para fazer face a estes novos desafios. Que merecem ser discutidos com seriedade.»

Fernando Sobral

27.1.17

Pior a emenda que o soneto



Depois da polémica desencadeada pelas declarações de um dos sócios da Padaria Portuguesa, as explicações que deu apenas sujaram mais o cenário.

«Nuno Carvalho defende que num modelo de maior flexibilidade os funcionários da Padaria Portuguesa levariam mais dinheiro para casa. Isto porque muitos dos colaboradores se pudessem estariam com contratos de 60 horas semanais, de modo a não ter que arranjar outros trabalhados noutras entidades.» 
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22.10.16

As máquinas que paguem as nossas reformas?



O reitor da Universidade de Coimbra considera que as máquinas devem passar a contribuir para a Segurança Social. Disse ele que «Existe uma motivação económica enorme para a substituição de uma pessoa por uma máquina. Devia, pelo menos, haver neutralidade fiscal. Pelo menos nos casos em que objetivamente a máquina substitui a pessoa», «Não sei porque é que a máquina que substituiu as pessoas na portagem da autoestrada não paga taxa social única».

A sugestão não foi bem acolhida pelo ministro da Segurança Social e com toda a razão. Cada um é livre de dar asas à imaginação, mas olho para o meu telemóvel e imagino-me a pagar TSU porque deixou de haver telefonistas a quem se pediam chamadas. Ou para a máquina de lavar roupa que dispensou as lavandeiras de Caneças. Claro que estou a exagerar, percebo que não era exactamente nisso que o magnífico reitor estaria a pensar, mas chutar para canto não ajuda a resolver as consequências dos progressos tecnológicos e da globalização.

Por exemplo, tenha-se a ousadia de onerar, em termos de contribuição para a Segurança Social, empresas muito lucrativas mas que criam um número reduzido de postos de trabalho, sem que isso tenha a ver com o facto de usarem mais ou menos máquinas. Mas deixe-se estas em paz e a cumprirem a sua missão.
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11.8.13

Trabalhe para fora cá dentro



Aconselho vivamente a leitura de dois textos de Paulo Moura, incluídos no Público de hoje, sem link para o jornal mas que alguém pôs online na íntegra: «Os call centers vão salvar a economia portuguesa?» e «Se não estás satisfeito, a porta de saída é ali».

Em resumo, explica-se como competências em línguas estrangeiras, boa infra-estrutura tecnológica, salários baixos, desempregados em desespero e boa localização geográfica tornaram Portugal mais atractivo do que a Índia ou o Norte de África para a instalação de mega call centers, uma «oportunidade extraordinária» que pode «salvar a economia portuguesa».

Vale muito a pena ler as descrições sobre as condições de trabalho e de despedimento, para portugueses e não só, em empresas com vários milhares de trabalhadores (4.000 no caso da que é descrita com mais detalhe, 24 línguas de trabalho, todas de falantes nativos).

Já está, mais depressa do que alguma vez pensámos: somos concorrentes dos indianos em trabalho bom e barato. Algo que agrada certamente aos nossos governantes porque fica demonstrado que acertaram (finalmente!) num objectvo: empobrecer a população portuguesa.

Por enquanto em terra, enquanto não se tornar mais vantajoso embarcar toda esta gente numa espécie de cruzeiro fantasma. Passo a explicar. Há cerca de oito anos, foi notícia e causou sensação a existência de um projecto concretizado num navio ancorado a algumas milhas da costa da Califórnia, com 600 programadores indianos que, durante meses sem ir a terra, e muito menos a casa, produziam software para empresas americanas, em regime de outsourcing, em troca de salários baixíssimos. Estando em águas internacionais, esses indianos estavam dispensados de autorização de emigração e de trabalho segundo as leis dos Estados Unidos e, simultaneamente, a sua localização facilitava a rápida e frequente deslocação ao navio de chefes e supervisores americanos. As polémicas não se fizeram esperar e não sei se o projecto teve ou não grande sucesso, mas, aparentemente, continua.

Foi nisso que pensei imediatamente quando li a reportagem de Paulo Moura no Público: quem sabe se, mais cedo ou mais tarde, não embarcam estes milhares de portugueses e não só numa espécie de mega «Call Centers Cruise», ancorado para lá das Berlengas ou onde for necessário, para se livrarem das enfadonhas leis de trabalho que ainda vigoram em Portugal, por mais aligeiradas que estas já sejam e ainda venham a tornar-se em breve. Impossível? Ora! Quais porcos a andar de bicicleta...
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