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30.1.25

Nuno Teotónio Pereira

 


Seriam 103, para nossa tristeza deixou-nos com 94.

A ler: 103 anos do Nuno

29.3.22

Nuno Teotónio Pereira – Uma experiência de resistência ao fascismo e à guerra colonial

 


No passado dia 27, cinquenta e dois anos depois da passagem de uma fronteira a salto de dois milicianos, perto de Marvão, organizada por Nuno Teotónio Pereira, os participantes de então reuniram-se agora no local onde em 1970 tiraram uma fotografia e «actualizaram-na».

«A evocação que hoje fizemos não foi só da passagem da fronteira em 27/3/1970, ou da memória do meu avô Nuno, foi acima de tudo uma manifestação dos valores da democracia, da liberdade e da amizade fraterna (diziam-me no final do dia, "houve tanto coração aqui!").»
Tiago Teotónio Pereira, neto de NTP, no Facebook

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30.1.22

Nuno Teotónio Pereira – 100 anos e um «site»

 

O Nuno chegaria hoje aos 100. Para assinalar o facto, a família, em conjunto com muitos dos seus amigos e companheiros, vem desde há muito a preparar um «site» que foi aberto hoje, já riquíssimo mas que continuará em actualização. O ENDEREÇO É ESTE.

Convido-vos a percorrê-lo e a partilharem-no se assim o entenderem. Nós, os seus amigos, reviveremos muitos momentos importantes das nossas vidas. Quem não o conheceu ficará a saber muito sobre uma pessoa excepcional.


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20.1.22

Nuno Teotónio Pereira – 6 anos sem ele

 


Um texto que escrevi quando chegou aos 90, com um brevíssimo resumo da sua biografia e com este vídeo com uma intervenção que fez um ano antes, numa homenagem que lhe prestámos.


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20.1.20

Quatro anos sem Nuno Teotónio Pereira


O Nuno morreu em 20 de Janeiro de 2016 - o tempo passa depressa... Retomo um texto que publiquei por ocasião dos seus 90 anos, com um brevíssimo resumo da sua biografia e um vídeo com a intervenção que fez um ano antes.

Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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2.2.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa conversa fascinante (3)



Publico hoje a terceira e última parte de um texto baseado numa conversa que tive com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP). (Parte 1 e Parte 2)

Uma esperança chamada Cuba

Quando Portugal vivia ainda no rescaldo, já desiludido, das eleições presidenciais a que Delgado concorreu em 1958, a vitória de Fidel de Castro em Cuba, em Janeiro de 1959, funcionou como uma verdadeira mola para grande parte dos antifascistas portugueses. Foi uma «grande esperança de uma revolução democrática, de rosto humano, um solução diferente da soviética, que teve um impacto enorme» para EP, uma realidade seguida com «um muito grande entusiasmo» por NTP.

Experiência especialmente importante para este último foi uma estadia em Havana, em 1962, algum tempo depois da crise dos mísseis na Baía dos Porcos. NTP participou então no primeiro congresso internacional que teve lugar em Cuba depois da revolução (e tal aconteceu porque o local tinha sido escolhido antes de 1959), integrado num grupo de arquitectos de muitas nacionalidades – com direito a um discurso de Che Guevara e a um outro de Fidel, «que nunca mais acabava» (mas, segundo um participante cubano, «o mais curto que até então tinha feito»). Depois de grande insistência, NTP conseguiu convencer os responsáveis da rádio cubana a cederem-lhe a gravação do discurso de Fidel, garantindo-lhes que era «para fazer propaganda em Portugal» – o que era rigorosamente verdade. De regresso a Lisboa, promoveu várias audições em casa, religiosamente seguidas por grupos de amigos. Recorda-se bem de uma delas, em pleno rescaldo dos acontecimentos estudantis de 1962, quando Víctor Wengorovius levou consigo, e lhe apresentou, Jorge Sampaio. Conseguiu também realizar uma sessão no Sindicato dos Arquitectos, mas, alguns anos mais tarde, e apesar de não estar identificada, a bobina despertou a curiosidade de agentes da PIDE durante uma rusga e foi levada juntamente com livros e com papéis.

A esperança depositada na revolução cubana foi, para ambos, tão grande como a desilusão com a sua concretização. Mas essa desilusão só viria mais tarde, muito mais tarde – nem conseguem situá-la exactamente no tempo. 


Partidos – adesões e desilusões

Pouco dizem sobre a década de 60 – avançam para o 25 de Abril, ou quase. E, no entanto, foram anos muito importantes nos seus percursos: de intensa actividade nos meios dos católicos progressistas para NTP, cheios de peripécias para EP, começando pela preparação – e falhanço – do golpe de Beja, no dia 1 de Janeiro de 1962 (tema que está precisamente a abordar neste momento, na preparação do segundo volume das suas Memórias).

EP conta como aderiu ao PS. Nos primeiros dias de Setembro de 1973, cruzou-se por acaso com Mário Soares no aeroporto de Madrid, numa escala que este fazia, vindo da América do Sul e de regresso a Paris, onde estava então exilado. EP recorda a preocupação de Mário Soares relativamente a uma conversa tida dias antes com Salvador Allende e à situação que encontrara no Chile (que viria a acabar muito mal, como é sabido, alguns dias depois, a 11 de Setembro). Foi nesse encontro no aeroporto de Madrid que EP foi convidado a aderir ao PS, o que aceitou imediatamente.

Diferente foi o percurso de NTP, hoje também membro do PS: só aderiu em 2002, depois da derrota de Ferro Rodrigues nas eleições legislativas. Antes, pertenceu ao MES, desde a sua fundação, em 1974, até à extinção. Esteve depois ligado à fundação do BE, foi candidato por Portalegre nas primeiras eleições a que aquela organização concorreu, mas viria a afastar-se.

Tanto EP como NTP comentam largamente o papel do MES – o que teve e, sobretudo, o que, segundo eles, poderia ter tido como «braço político» de uma parte do MFA» (expressão de NTP), sua «consciência política», (diz EP). NTP considera mesmo que a cisão ocorrida no MES, em Dezembro de 1974, em razão da qual «saíram os melhores quadros», «foi uma verdadeira tragédia». Sem ela, talvez não tivesse ocorrido «a deriva esquerdista do MFA, que foi fatal».

Hoje são ambos militantes de base do PS, mas muito, muito críticos em relação à actuação do partido a que pertencem. Nas últimas eleições presidenciais, não estiveram juntos: EP apoiou Manuel Alegre, NTP esteve ao lado de Mário Soares. 


O país, a Europa e o mundo

Pergunto-lhes como vêem a actualidade. Transcrevo uma parte do que foram dizendo.
EP – «A coesão social, de que tanto se fala, implica solidariedade entre aqueles que têm muito e os que não têm nada. Em muitos países mais avançados, os muito ricos têm a preocupação de uma certa justiça. Não em Portugal: o nosso capitalismo é mais selvagem do que a maior parte dos outros.»
NTP – «Completamente de acordo.»
Quanto ao futuro, EP afirma que é optimista por natureza, mas que sente angústia com o que se passa no mundo:
EP – «Esta globalização selvagem não anuncia nada de bom. É preciso criar, a nível europeu, um grande movimento de contestação para interpretar esta mudança. Não para acabar com os capitalistas, porque está provado que não é fácil. O que é necessário é criar uma situação de partilha, de interesse comum no desenvolvimento entre empresários e trabalhadores».
NTP – «O capitalismo precisa de ser regulado, a crise actual é uma demonstração da falência do sistema.»
EP – «As rupturas revolucionárias só trouxeram desgraças: a russa acabou, a cubana está num impasse e a chinesa também.»
NTP – «A chinesa traiu os seus próprios ideais e conservou só sistema policial.»
«Uma via reformista ousada», insiste EP. «Completamente de acordo», conclui NTP.

A conversa continuou ainda, com outras memórias e com outras histórias. Já quase a terminar, perguntei a NTP se ainda se considera católico.
«Não, não, sou agnóstico.»
«É uma evolução curiosa, é uma evolução curiosa!», conclui EP.
Para quem me acompanhou nesta conversa, desde o início, não haverá expressão mais adequada: «evolução curiosa». Estes dois homens, nascidos e criados na mesma cidade mas em extremos opostos, social e culturalmente, no plano político e no plano religioso, foram convergindo. São hoje ainda idealistas mas cada vez mais pragmáticos, talvez menos radicais do que muitos esperariam e estão sintonizados em tudo – ou em quase tudo. 
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26.1.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa fascinante conversa (2)



Como tinha anunciado, retomo o relato de uma conversa que tive, em 27 de Maio de 2008, com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP) e que já foi objecto de um primeiro texto publicado neste blogue, por ocasião da morte de NTP. Falaram então sobretudo do início da guerra Civil de Espanha, em Julho de 1936.

No dia 18 de Outubro desse mesmo ano, EP partiu para o Tarrafal, onde ficou até Agosto de 1945. Foi de lá que acompanhou a Segunda Guerra Mundial.
Em Lisboa, NTP começou uma longa evolução pessoal: ao lado do pai, profundamente anglófilo, tomou sempre partido pelos Aliados. «Quando a guerra acabou, era já um democrata», comenta. Para tal mudança terá contribuído, também, a influência da doutrina social da Igreja. Mas quer deixar bem claro que repudiava todas as formas de totalitarismo, «tudo o que fosse fascismo ou que "cheirasse" a comunismo» - em nome das suas convicções religiosas e, também, porque lia os relatos dos crimes do estalinismo. «Em que nós não acreditávamos», comenta EP que era então militante do PCP.

Fala-se depois da campanha de Humberto Delgado, em 1958
Esse ano foi decisivo para uma viragem definitiva na vida e nas convicções de NTP. Por causa da campanha presidencial, certamente, mas muito mais pela influência directa de Francisco Lino Neto. Um documento que este escreveu, em Junho de 1958, foi importantíssimo para NTP e foi um marco incontornável na história da oposição dos católicos (1). Recorde-se que a célebre carta do bispo do Porto a Salazar, datada de 13 de Julho de 1958, é erradamente considerada como o primeiro passo da referida oposição, quando, de facto, foi já uma consequência da iniciativa de Lino Neto. A um outro nível, a vida de NTP foi também fortemente influenciada por Natália, sua mulher: com formação e antecedentes políticos radicalmente diferentes, a presença de Natália - que nem sequer era católica - viria a ser decisiva.
Entretanto, EP, juntamente com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, tentou preparar uma insurreição armada que tirasse partido das condições excepcionais criadas pela campanha de Delgado. Mas falharam todas as hipóteses para conjugar esforços e reunir um mínimo de condições indispensáveis.

Volta-se um pouco atrás, a 1956 e à importância da invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, especialmente traumatizante para EP:
«Foi o ano das minhas primeiras dúvidas. Um choque brutal, demolidor. Mas a crença no projecto soviético era tão firme que não abanava à primeira. Comecei no entanto a reflectir, sobretudo pelo facto de os operários das fábricas dos arredores de Budapeste resistirem contra o que era suposto ser o seu próprio governo!»

Dá-se depois um salto: doze anos mais tarde, 1968 e a invasão da Checoslováquia. Aqui, vou deixá-los falar, transcrevendo quase ipsis verbis o que disseram.
NTP - «Então e em relação à Primavera de Praga?»
EP - «Isso aí foi quando percebi tudo, claramente. E rompi completamente [com o PCP].»
NTP - «O que se passou com a Primavera de Praga foi terrível. Se tivesse conseguido vencer, tinha provocado grandes transformações no mundo. Tinha-se propagado a outros países e tinha inaugurado uma época fantástica. Assim, o capitalismo fortaleceu-se e o socialismo afundou-se.»
EP - «Tenho muitas dúvidas, porque a União Soviética estava no auge da sua força, tão grande que era capaz de abalar tudo. E aquela intervenção era indispensável para a consolidação do império soviético.»
E, em jeito de conclusão:
«Acompanhei aquilo tudo com uma paixão enorme, com uma grande ilusão. Uma revolução democrática com rosto humano, como a que, uns anos antes, tinha sido anunciada por Fidel de Castro em Cuba.»

De Cuba, da década de 60 em geral e de tudo o que se seguiu, falarei - falarão eles - dentro de alguns dias. Porque a conversa foi longa e ainda faltam umas tantas histórias.

(1) «Considerações dum católico sobre o período eleitoral», Junho de 1958. Documento publicado em José da Felicidade Alves (edição e coordenação), Católicos e Política. De Humberto Delgado a Marcelo Caetano, (s.d.), 288 p., pp. 17-30. 
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22.1.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa fascinante conversa




Há pouco mais de sete anos, em 2008, juntei Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa conversa de mais de duas horas, que guardo religiosamente gravada e a partir da qual elaborei três posts publicados então nos «Caminhos da Memória» e também, em parte, neste blogue. Quando NTP nos deixou agora, julgo adequado disponibilizá-los para uma leitura absolutamente fascinante, no meu entender. Aqui fica hoje o primeiro.

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Edmundo Pedro tem neste momento oitenta e nove anos, Nuno Teotónio Pereira oitenta e seis. O primeiro nasceu três dias antes do fim da Primeira Guerra Mundial, o segundo no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano.

Conhecem-se bem, são amigos, participam em múltiplas actividade de carácter cívico. Continuam imparáveis, grandes resistentes durante a ditadura, militantes persistentes em tempos de democracia. Têm hoje, sobre o mundo e sobre a vida, posições muito semelhantes.

Juntei-os, no passado dia 27 de Maio, numa conversa da qual tenho quase duas horas de gravação. Utilizarei hoje apenas uma pequeníssima parte de tudo o que ouvi e guardei – nem chegarei sequer à idade adulta destas pessoas que nasceram ambas em Lisboa, mas em contextos que dificilmente poderiam ter sido mais diferentes.

Edmundo Pedro (EP) vem do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica, mas nem por isso alheada de preocupações sociais.

Curiosamente, a vida viria a reuni-los, durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que agora tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «O meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Comecei por ler excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

Em Fevereiro, EP, então com dezassete anos, foi preso pela terceira vez. Passou algum tempo numa esquadra em Benfica, foi transferido depois para o Aljube e mais tarde para Peniche. NTP continuava no Liceu Pedro Nunes e, em Maio desse mesmo ano, viveu intensamente a criação da Mocidade Portuguesa:

«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista». Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.

Escreve NTP:
«Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas na direcção de Madrid».

Escreve EP, então preso em Peniche:
«Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».

Riem-se ambos quando lhes leio estes textos. Quase nem querem acreditar e repetem, várias vezes: «É curioso, muito curioso!»

EP faz notar que teria certamente combatido em Espanha se não tivesse sido preso pouco antes da data em que deveria partir para a União Soviética, para uma estadia planeada pelo PCP. Como tantos outros, teria vindo combater ao lado dos republicanos, «onde se julgava estar a decidir-se o percurso e o destino da revolução mundial».

Em Lisboa, NTP envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as tropas franquistas.

Estranhos paralelismos.

Passaram-se, entretanto, mais de setenta anos e está quase tudo por contar: como viveram o desenrolar dos acontecimentos durante a Segunda Guerra Mundial (EP no Tarrafal, NTP já anglófilo), a campanha de Humberto Delgado em 1958 (quando NTP inicia a tua caminhada em direcção à esquerda e uma longa actividade de resistente católico), as invasões da Hungria e da Checoslováquia – e por aí fora.

Outros textos virão.

Deixei o Edmundo sentado ao computador, quase no fim do segundo volume das Memórias, que quer lançar em Novembro por ocasião do seu 90º aniversário. Atravessei a cidade para levar o Nuno a uma sessão sobre Lisboa, que iria prolongar-se pela noite dentro.

Incansáveis, preocupados com a situação actual do país e do mundo, transmitem força e determinação a todos os que os rodeiam – com uma simplicidade desconcertante, corações do tamanho do mundo e cabeças cheias de projectos. 
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No adeus a Nuno Teotónio Pereira



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20.1.16

Nuno Teotónio Pereira



A quem possa interessar:

Velório amanhã, 5ªf, a partir das 16h30, na igreja do Sagrado Coração de Jesus (entrada pela rua de Santa Marta). Funeral na 6ªf, com saída às 13:30, para o cemitério do Lumiar.
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Morreu Nuno Teotónio Pereira


Repubico este «post» escrito por ocasião dos seus 90 anos.

Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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16.9.15

Nuno Teotónio Pereira – mais um prémio



A Universidade de Lisboa atribuiu ao Nuno Teotónio Pereira o seu Prémio deste ano de 2015.

A cerimónia de entrega ocorrerá na Aula Magna, Reitoria da Universidade, Cidade Universitária, Alameda da Universidade, no dia 15 de Outubro, quinta-feira, pelas 17h00, com entrada livre.


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19.7.12

Mais um prémio para Nuno Teotónio Pereira



Nuno Teotónio Pereira, 90 anos, recebeu no passado dia 11, o «Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes», atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Igreja Católica.

Fica o registo:


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