Seriam 103, para nossa tristeza deixou-nos com 94.
A ler: 103 anos do Nuno
EP – «A coesão social, de que tanto se fala, implica solidariedade entre aqueles que têm muito e os que não têm nada. Em muitos países mais avançados, os muito ricos têm a preocupação de uma certa justiça. Não em Portugal: o nosso capitalismo é mais selvagem do que a maior parte dos outros.»
NTP – «Completamente de acordo.»
EP – «Esta globalização selvagem não anuncia nada de bom. É preciso criar, a nível europeu, um grande movimento de contestação para interpretar esta mudança. Não para acabar com os capitalistas, porque está provado que não é fácil. O que é necessário é criar uma situação de partilha, de interesse comum no desenvolvimento entre empresários e trabalhadores».
NTP – «O capitalismo precisa de ser regulado, a crise actual é uma demonstração da falência do sistema.»
EP – «As rupturas revolucionárias só trouxeram desgraças: a russa acabou, a cubana está num impasse e a chinesa também.»
NTP – «A chinesa traiu os seus próprios ideais e conservou só sistema policial.»
«Não, não, sou agnóstico.»
«É uma evolução curiosa, é uma evolução curiosa!», conclui EP.
«Foi o ano das minhas primeiras dúvidas. Um choque brutal, demolidor. Mas a crença no projecto soviético era tão firme que não abanava à primeira. Comecei no entanto a reflectir, sobretudo pelo facto de os operários das fábricas dos arredores de Budapeste resistirem contra o que era suposto ser o seu próprio governo!»
NTP - «Então e em relação à Primavera de Praga?»
EP - «Isso aí foi quando percebi tudo, claramente. E rompi completamente [com o PCP].»
NTP - «O que se passou com a Primavera de Praga foi terrível. Se tivesse conseguido vencer, tinha provocado grandes transformações no mundo. Tinha-se propagado a outros países e tinha inaugurado uma época fantástica. Assim, o capitalismo fortaleceu-se e o socialismo afundou-se.»
EP - «Tenho muitas dúvidas, porque a União Soviética estava no auge da sua força, tão grande que era capaz de abalar tudo. E aquela intervenção era indispensável para a consolidação do império soviético.»
E, em jeito de conclusão:
«Acompanhei aquilo tudo com uma paixão enorme, com uma grande ilusão. Uma revolução democrática com rosto humano, como a que, uns anos antes, tinha sido anunciada por Fidel de Castro em Cuba.»
«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista». Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.
«Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas na direcção de Madrid».
«Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».