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13.7.22

Isto está complicado

 


… e não é só nos termómetros.
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8.1.19

20 anos de euro: um balanço desolador



«Faz agora duas décadas que o euro substituiu o escudo e várias outras moedas nacionais. Apesar da data redonda, não houve grandes festejos. Não é de estranhar. Por muito amor que se tenha à ideia de integração europeia, é difícil não concluir que a moeda única ficou muito aquém das promessas e expectativas que gerou.

A evolução dos indicadores macroeconómicos para Portugal é clara. Desde que existem dados disponíveis, não houve nenhuma sequência de 20 anos em que o crescimento médio do PIB nacional fosse tão baixo, a taxa média de desemprego tão elevada e os défices externos tão expressivos. Tendo em conta o poder aquisitivo, o rendimento médio dos portugueses está hoje mais distante da média da zona euro do que estava há 20 anos. Esta não é certamente uma história de sucesso.

Ao ler estas linhas não faltará quem se apresse a atribuir o mau desempenho da economia portuguesa neste período aos erros dos sucessivos governos nacionais. É uma conclusão apressada. O balanço desolador da moeda única não é uma especificidade portuguesa. Não é sequer uma característica peculiar dos países do Sul da Europa.

Nestes 20 anos o PIB da zona euro como um todo cresceu 20 pontos percentuais abaixo do PIB dos EUA e criou menos 1,5 milhões de empregos. O falhanço da moeda única não é apenas económico. Longe de representar um factor de coesão entre os Estados e os povos europeus, o funcionamento da zona euro tornou-se um dos principais focos de tensão e instabilidade do processo de integração europeia. A cada nova eleição nacional cresce o peso dos partidos nacionalistas e eurocépticos. Seguramente, a Europa não é hoje um continente mais unido do que era há 20 anos.

Uma visão generosa tenderá a atribuir o mau desempenho da zona euro a factores externos (como a crise financeira originada nos EUA) e a considerar que as dificuldades políticas presentes são apenas as dores de parto de um projecto com futuro assegurado. É efectivamente uma visão generosa.

Os problemas da moeda única europeia são em larga medida o resultado da sua arquitectura institucional. Era sabido à partida que submeter economias com estruturas produtivas muito diferentes à mesma política monetária era uma aposta arriscada. A taxa de juro e a taxa de câmbio mais adequadas a cada economia nacional dependem muito das características de cada país e da fase do ciclo económico em que se encontram. Restava a esperança de que a unificação das moedas contribuísse para que as estruturas económicas ficassem mais semelhantes e os ciclos económicos mais alinhados. Não foi isso que aconteceu, pelo contrário.

A criação do euro e a integração plena dos mercados financeiros traduziram-se na queda abrupta e duradoura das taxas de juro reais nos países do sul, e em fluxos de capital nunca vistos em direcção às periferias. Como acontece em qualquer parte do mundo, a abundância súbita de liquidez estimulou o crescimento explosivo da construção e do imobiliário, criando novas e boas oportunidades de investimento para os bancos dos países do centro da UE. Num primeiro momento isto trouxe mais emprego e investimento. Mas conduziu também ao inevitável aumento de preços e custos nas economias periféricas, e ao crescente endividamento de empresas e famílias. A unificação monetária criou assim condições para a emergência de uma Europa dividida entre países credores e países devedores.

Como se não bastasse, a partir de 2002 registou-se uma forte subida do câmbio do euro face a outras moedas internacionais, que produziu efeitos claramente assimétricos: em países especializados em produtos de exportação de baixo valor acrescentado, como Portugal, tornou mais difícil competir internacionalmente; em países exportadores de capital, como a Alemanha ou a Holanda, traduziu-se numa maior capacidade de investimento internacional.

Nos países periféricos, o crescimento do mercado interno e as dificuldades acrescidas de competir internacionalmente levaram, naturalmente, à canalização dos investimentos para actividades menos expostas à concorrência externa. Assim, ao mesmo tempo que as importações aumentavam, as exportações estagnaram em percentagem do PIB. Os défices externos sucessivos implicaram o recurso ainda maior ao financiamento estrangeiro. Tal como vários outros países com estruturas produtivas semelhantes, Portugal viu a sua dívida externa aumentar continuamente até à grande crise de 2008-2009. Nesse contexto, mais do que o nível das dívidas públicas (que variavam muito de país para país), foi a acumulação de dívida externa que levou os investidores internacionais a duvidar da capacidade dos países periféricos da zona euro para pagarem o que deviam.

A crise da zona euro é assim, em larga medida, o resultado da arquitectura institucional da moeda única, que não só não diminuiu como aumentou a divergência nas estruturas económicas dos países membros. Quando a crise chegou, tornou-se claro que a zona euro não estava preparada para lidar com os problemas que ajudou a criar. A resposta à crise, como sabemos, consistiu numa austeridade profunda, duradoura e contraproducente, a qual acentuou ainda mais as divergências.

Se hoje se vivem tempos mais tranquilos nas economias europeias, os problemas não estão resolvidos. A zona euro continua dividida entre países credores e países devedores (hoje ainda mais do que no passado), entre economias especializadas em sectores intensivos em capital e conhecimento e economias que se baseiam em actividades de reduzido valor acrescentado. Tal como há 20 anos, a política monetária do BCE não dá nem pode dar respostas adequadas a situações tão diversas. Tal como há 20 anos, a única forma que os países têm de lidar com os seus desequilíbrios externos é desvalorizar os salários e reduzir os serviços públicos, prolongando a crise social e regredindo nos direitos sociais. Tal como há 20 anos, quaisquer mudanças substanciais na arquitectura da zona euro estão dependentes de decisões unânimes entre os Estados membros, o que é tanto mais improvável quanto mais divergentes são as suas economias e interesses dominantes.

Não é por falta de ideias que estes problemas não se resolvem: é por falta de consenso sobre as possíveis saídas da actual situação e pela impossibilidade institucional de conciliar interesses divergentes por via democrática no quadro da UE. Vinte anos depois, a crise existencial da zona euro veio para ficar. Não temos como escapar disto: o balanço é mesmo desolador.»

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29.1.18

Uma zona euro de credores e devedores?



«É interessante, e útil, olhar para algumas séries históricas de variáveis macroeconómicas que ilustram o que ocorre na zona euro. É certo que as estatísticas podem ter várias leituras e, tal como na figura abaixo, o efeito depende do ano base escolhido. No entanto, essas variáveis podem contar uma história.

Uma das maiores divergências entre países como a Alemanha e Portugal reflecte-se na posição de investimento internacional líquida, estatística macroeconómica que é uma medida lata das obrigações financeiras (ou seja, da dívida líquida) do país face ao exterior.

A figura revela que, entre 1996 e 2016, países como a Alemanha e a Holanda tornaram-se países credores do resto do mundo, em particular do resto da zona euro, e os países da periferia tornaram-se progressivamente mais devedores.

E é surpreendente por mais uma razão. Devido a um efeito do tipo histerese, que resulta dos juros e dividendos que remuneram os activos detidos por não residentes serem superiores aos auferidos por residentes sobre os activos que possuem no exterior (balança de rendimentos negativa), não obstante a melhoria do saldo da balança corrente e de capital dos países periféricos observada desde 2008, a posição de investimento internacional líquida de Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda continua muito negativa, tendo-se deteriorado no caso destes últimos dois países.

A política de austeridade, acompanhada por uma política monetária acomodatícia sem precedentes, permitiu diminuir ligeiramente os passivos externos líquidos de Portugal e Espanha. Na Grécia, a posição de investimento internacional continua a degradar-se. A Irlanda é um caso à parte porque a sua zona franca torna as suas estatísticas dificilmente interpretáveis. Mas provavelmente, dos países periféricos, é o país com maiores desequilíbrios externos.

No presente, as taxas de juro da dívida soberana dos países periféricos e a diferença de taxas de juro da dívida pública de países periféricos e de países como a Alemanha (spreads) continuam a cair, com reflexos positivos nas contas externas desses países, o que tende a contribuir para a redução dos respectivos passivos externos.

A normalização da política monetária alteraria essa situação, pois resultaria previsivelmente num aumento tanto dos spreads como das próprias taxas de juro. No longo prazo, estes dois efeitos afectariam negativamente a despesa líquida do país com juros e dividendos pagos a não residentes e, por conseguinte, a trajectória da dívida externa e da posição de investimento internacional do país.

No curto e médio prazo, como uma parte significativa da dívida externa portuguesa, em particular, a componente de dívida pública, foi contraída a taxas de juro substancialmente mais elevadas do que as que se observam no presente, a despesa líquida do país com juros e dividendos a não residentes ainda continuaria a descer.

Mas os desequilíbrios são demasiado elevados, mesmo com o programa de expansão quantitativa. Não é, por isso, expectável que os países devedores consigam algum dia reduzir os respectivos passivos externos para níveis sustentáveis. A reestruturação de dívida continua na ordem do dia.

O risco para a zona euro é este: tornar-se, de forma permanente, num clube de credores e de devedores, onde os credores “mandam” nos devedores.»

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6.12.17

Será possível curar o euro?



«Com a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo as perguntas e inquietações relevantes multiplicam-se. Tanto Centeno como Costa têm sido claros na necessidade de impulsionar uma reforma do euro que permita conciliar disciplina nas finanças públicas com a criação de uma economia que não condene o Estado social à míngua e a juventude à precariedade e ao desemprego. Ao contrário do seu antecessor, Dijsselbloem, para quem a atual ordem do euro era sagrada e inamovível, tudo indica que Centeno percebe que o euro só se mantém a flutuar porque o BCE resolveu colocar entre parêntesis o artigo 127 do Tratado de Funcionamento da União Europeia (que limita a ação do BCE ao combate à inflação) começando a fingir que é um banco central a sério, imitando as políticas de financiamento monetário da economia da Reserva Federal dos EUA. Não tenho quaisquer dúvidas sobre as competências teóricas de Centeno, nem sobre a sua capacidade de argumentar serenamente com os seus colegas (muitos deles ansiosos por alguém que não tenha medo da verdade) sobre novos caminhos a trilhar. O principal problema da saúde do euro não reside na teoria económica, mas naquilo a que Lutero chamava o lenho retorcido da condição humana. A ortodoxia da austeridade, de que o governo alemão tem sido o campeão, alimenta-se de um profundo elemento de irracionalidade. Fazendo uma analogia: alguém acredita que será possível convencer Trump da seriedade das alterações climáticas com um bom manual de física básica? Do mesmo modo, tenho dúvidas de que o cartel da austeridade que está a sangrar os europeus seja demovido da sua funesta ideologia através de argumentos inteligentes. O carácter patológico da ideologia reside na sua total blindagem tanto à razão como às provas empíricas. Isso vale para Trump, em relação ao clima, como para Schäuble em relação à austeridade, como para os saudosistas da URSS, que continuam amarrados a um mito que nunca existiu.

Os donos da atual ortodoxia do euro precisariam de ser tratados com técnicas terapêuticas típicas da psicanálise. Teriam de ser levados, suavemente, ao momento traumático da discussão franco--alemã entre 1990 e 1997, onde se desenhou e consolidou o absurdo edifício de uma moeda que viola todas as regras da sã doutrina económica e toda a experiência histórica das uniões monetárias bem--sucedidas. Esses anos, entre o Tratado de Maastricht (1992) e o Pacto de Estabilidade e Crescimento (1997), marcam o recalcamento da verdade objetiva. Empurrada pela França para o euro, Berlim resolveu - entre o trauma da sua população pela perda do marco e a gestão de novas oportunidades para as suas elites - rasgar tudo o que se sabia sobre as reformas estruturais que permitem passar de moedas nacionais para uma moeda comum. Nesses anos, foram esquecidos os ensinamentos de Robert Mundell (1961), as lições do fracassado Plano Werner (1970), os sábios conselhos do Relatório MacDougall (1977) que considerava como requisito mínimo para uma maior integração europeia um orçamento comunitário entre 5% e 7% do PIB europeu (hoje o orçamento europeu corresponde ainda a um magro 1% do PIB agregado da UE). Nem o célebre Manifesto dos 62 economistas alemães (1992), acusando corretamente Maastricht de estar a construir a casa pelo telhando (a moeda antes da união política), foi poupado. O euro tornou-se a mais bizarra experiência histórica de uma união monetária de baixo custo: um condomínio onde se vive sem confiança, com escassa justiça, e onde o futuro é tema tabu. Boa sorte, Mário Centeno!»

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25.7.16

Euro, o Titanic do bloco central



«O actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem feito repetidamente uma proclamação antidemocrática inaceitável, ao afirmar que nunca autorizará qualquer referendo que questione a União Europeia. A explicação para esta obsessão é simples. Para quem não se lembre ou não saiba, convirá recordar que os grandes responsáveis pela adesão e integração desastrosa de Portugal na Zona Euro foram, precisamente, Marcelo Rebelo de Sousa (então presidente do PPD/PSD) e António Guterres (então primeiro-ministro e secretário-geral do PS), além do então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio (ex-secretário-geral do PS), todos na esteira do então ex-primeiro-ministro e “grande timoneiro” Aníbal Cavaco Silva (ex-presidente do PPD/PSD). Não espanta, por isso, que todos eles tenham fugido, por exemplo, da possibilidade de referendar o sinistro Tratado de Maastricht, que instituiu a União Europeia em 1992, e continuem a fugir, como o diabo da cruz, de qualquer referendo que questione a nossa presença no “colete-de-forças” da Zona Euro - ou questione esse tratado intergovernamental mais conhecido como “Pacto Orçamental”, que é um autêntico pacto de austeridade perpétua contra a democracia. (…)

O muito controverso Milton Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, escreveu em 1999: “O que mais me perturba é que os membros do euro tenham atirado fora as suas chaves. Assim que o euro substituir fisicamente as moedas nacionais, como é que se sai desse mundo? Será uma crise imensa”. E avisava: “Os defeitos do euro levarão algum tempo a aparecer. Nada surge rapidamente nessa área. (…) O sistema político dificilmente reagirá com rapidez bastante (a uma recessão) para acabar com o euro. Por isso, julgo que seria muito conveniente pensar seriamente na elaboração de uma forma de sair da camisa-de-forças do euro depois de 2002”. Ninguém pensou. E “o euro devia ser abandonado antes de 1 de Janeiro de 2002”. Não foi. (…)

Em conclusão: Portugal nunca deveria ter aderido ao euro, mas aderiu, e hoje está metido na tal “camisa-de-forças” de que falava Milton Friedman (ao menos desta vez cito-o por concordar com ele). E o que é dramático é que as consequências seriam sempre as que estamos a sofrer agora, mesmo que a meia dúzia de governos que entretanto se sucederam no poder não tivesse cometido quaisquer erros. Porque o nosso destino já estava traçado pelo euro.»

Alfredo Barroso
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2.11.15

O euro e a desigualdade



«São muitos os relatórios publicados recentemente sobre a distribuição do rendimento e da riqueza mas, em todos os casos, de uma forma ou de outra, a conclusão é a mesma: desigualdade. Tanto no âmbito mundial como no nacional, apresentam-se valores arrepiantes e um pouco obscenos e as diferenças têm aumentado com a globalização e, nos últimos anos, com a crise. Há poucos dias, o Crédit Suisse divulgou o seu relatório sobre a riqueza global correspondente a 2015, do qual se depreende que o 1% mais rico da população tem 50 % da riqueza global, ou seja, a mesma percentagem que 99%; e que 71% dos mais pobres – 3.386 milhões de pessoas – possuem apenas 3% da riqueza do planeta. (...)

Os dados confirmam algumas coisas que já sabíamos. Em primeiro lugar, que não entrar na União Monetária foi benéfico para alguns países – pelo menos para as suas classes mais baixas – e que outros, como a Espanha, fizeram um mau negócio adoptando a moeda única. Em segundo lugar, que a política de austeridade e a chamada depreciação interna, que a partir de Berlim e de Frankfurt foram impostas a algumas economias, castigam de forma muito desigual os cidadãos, em comparação com a depreciação monetária, a qual, embora empobrecendo os nacionais face ao resto do mundo, não altera a distribuição do rendimento e da riqueza interna.

Este é um dos principais problemas criados por uma união monetária sem integração fiscal, que aumenta as desigualdades, tanto entre os Estados e como entre os cidadãos de cada um dos países, e este é o futuro que nos espera enquanto existir o euro. O anúncio de qualquer recuperação económica soa a falso para milhões de espanhóis que viram piorar gravemente a sua situação económica e que não vislumbram a possibilidade de um retorno ao ponto de partida, mas que antevêem que a ameaça de mais ajustes e cortes permanece dentro da moeda única.»

Na íntegra aqui.
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9.2.15

O euro, a Alemanha e o resto



«Num dos mais memoráveis diálogos do filme "Casablanca", o capitão Renaud pergunta a Rick: "Porque é que veio para Casablanca?" Diz Rick: "Vim para Casablanca por causa das águas." Renaud: "Quais águas? Estamos no meio do deserto." Rick: "Informaram-me mal."

É tudo uma questão de má informação, de ilusão ou mesmo de alucinação que assistimos hoje na Europa. Quando se tornou o euro um deus a quem se sacrifica tudo e todos, o resultado trágico era previsível. Não há água para nadar e descobrir outras paragens. Há deserto para todos perecerem de sede. (...)

O euro tornou-se um garrote: vai asfixiando devagar as suas vítimas, em nome do combate à dívida e à estabilidade da moeda. A única libertação para quem está já sem pinga de oxigénio é a expulsão do euro. Que é o que Draghi e os seus compadres estão a fazer à Grécia, mesmo com paliativos temporais. Nada se resolverá, nem mesmo com as ameaças das vitórias do Podemos em Espanha ou da extrema-direita no Norte da Europa ou em França, enquanto a Alemanha não se sentir ameaçada nos seus interesses.

É óbvio que é necessário um pacto geral na Zona Euro sobre as dívidas públicas. Se ele não se fizer, o aquecimento global político acabará por tornar a Europa do Iluminismo num imenso deserto. Diferente da terra das águas livres que teriam prometido a Rick antes de ir para Casablanca.»

Fernando Sobral
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13.8.13

O Mascarilha



«Enquanto em Portugal, PSD e PS discutem de forma inflamada quem é que tem "swaps" debaixo da cama, evitando assim discorrer sobre como vamos pagar a enorme dívida portuguesa, a Europa parece uma estátua de gelo. Espera que Ângela Merkel seja reeleita. A seguir virá o novo resgate à Grécia. A seguir olhar-se-á para as contas de Portugal.

A UE colocará, então, a máscara negra na cara e transformar-se-á em "O Mascarilha", o justiceiro das pradarias do sul da Europa. A seu lado surgirá o índio Tonto, papel desempenhado pelo comissário Olli Rehn, que tem como modelo económico a Letónia. (...)

A estratégia de criação de soberanias de ficção, como dizia há dias o filósofo Jurgen Habermas no "Der Spiegel", continua a avançar a todo o vapor, perante a perplexidade dos cidadãos e o silêncio dos líderes políticos entretidos a discutir a bondade dos seus "swaps". Mascarilha e Tonto apontam a direcção. Juntos seguirão o trote do cavalo Silver rumo ao horizonte desconhecido na Letónia criado pela austeridade, com Mascarilha a gritar: "Hi-yo Silver, away"!»

Fernando Sobral no Negócios de hoje (sem link)
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25.7.13

Ide e lede




«O facto de a saída da zona euro ser economicamente exequível e até vantajosa não significa nada, visto um país poder escolher ficar na zona euro por questões políticas ou de segurança. Mas quando a saída passa a ser economicamente viável a história muda de figura. Não é o caso da Grécia nem de outros países em crise - por enquanto. Mas perante uma escolha real, o resultado vai ser mais difícil de prever.» 
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3.5.13

Euros novinhos em folha?



Não é Coimbra mas sim a novíssima nota de 5 euros que tem mais encanto na hora da (possível) despedida. Foi a primeira coisa em que pensei quando vi aquele senhor que manda no Banco de Portugal exibi-la, feliz e contente (porquê?). Notas de euros dão arrepios a qualquer português, ou por sentirem a sua falta ou por não saberem por quanto tempo as usarão, para o bem ou para o mal.
Hoje, encontrei no Jornal de Negócios um texto com alguma graça, de João Quadros, a glosar – e gozar – o tema (*).

«Digam, olá, à menina nota. Digo menina, porque a marca de água, e o holograma, desta nova nota de cinco euros, incluem um retrato da figura mitológica grega, Europa. Que bonito. Que pena a maioria dos gregos só usar moedas; eles iam gostar de ver isto. (...)

"Toque humano" tinha a nossa antiga nota de vinte escudos, com o Santo António. Era uma nota a que se podia rezar em caso de desespero. Era dinheiro a que se podia fazer promessas para arranjar casamento. Acho muito estranho este conceito de escolher figuras mitológicas gregas para dar um toque humano. Que tal pôr um Minotauro nas notas de vinte para assustar as velhinhas que vão receber a pensão. (...)

Segundo o BdP, as restantes notas desta nova série vão ser lançadas anualmente por ordem crescente de valor. Fazendo as contas, a nota de quinhentos euros vai entrar em circulação em 2019…Noto aqui algum optimismo. Se, depois de tudo o que o que nos espera, em 2019 ainda houver um lançamento de uma nova nota de quinhentos euros, essa nota, em vez de um retrato de uma figura mitológica, devia ter um smile.»

Sorria, sim, porque talvez esteja a ser filmado.

(*) O link pode só funcionar mais tarde. 
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11.3.13

Austeridade ou fim do euro?



A propósito de um livro recente de Juan Francisco Martín Seco, o Público.es publica hoje uma entrevista com o autor. Muito pessimista sobre a situação actual da Europa, JFMS pergunta-se se «vale a pena continuar na via da austeridade ou se devemos procurar romper com a moeda única»

Não é o primeiro, nem será certamente o último, a formular uma alternativa que começa a ser recorrente. Vale a pena ler o texto:

Alguns excertos:

 «Creo que no se debería haber hecho la unión monetaria porque es una ratonera de la que es muy difícil salir. Aquí hay dos opciones: tirar hacia adelante o volver hacia atrás. (...)
La salida hacia atrás sería volver a las antiguas monedas, romper la unión monetaria. Que eso tiene costes graves nadie lo duda, pero es posible que los costes de seguir en el euro sean incluso mayores. (...) En esa tesitura, los escenarios son múltiples: no es lo mismo que salga un solo país o que se rompa el euro y salgan todos, lo que sería mucho menos costoso. (...)
Los que dicen que el euro no se puede romper, que va a permanecer, argumentan que el coste sería altísimo, lo explican diciendo que si se rompiera el euro, las monedas de los países del sur se devaluarían muchísimo y las monedas del norte se revaluarían muchísimo. Pero al decir eso están aceptando que los tipos de cambio que tenemos ahora no son reales. (...)

Yo no sé por dónde va a explotar esto, si va a explotar por Grecia y luego habrá una reacción en cadena, pero yo creo que va a explotar. (...)

Esa es la cuestión: ¿merece la pena seguir por la vía de la austeridad o debemos intentar que se rompa el euro? Porque quizá sea mejor, con todo el coste que debemos asumir, intentar que se rompa el euro. Eso no significa que España se tenga que salir mañana mismo del euro; significa que todo el mundo acepte que la unión monetaria ha sido un gran fracaso y que no se debería haber hecho. Implica un cambio de mentalidad, el de decir 'vamos a minimizar costes y vamos a ver cómo se puede hacer un desmontaje de la unión monetaria igual que se hizo el montaje' y en eso deben confluir España, Portugal, Grecia, Italia e incluso Francia.» 

Na íntegra aqui.
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26.2.13

Itália: será que é desta que a Europa acorda?



Ainda a quente, e mais ou menos em estado de choque pelos resultados das eleições italianas, sem dúvida preocupantes, multiplicam-se as reacções.
Conforme a proveniência, elas acentuam a necessidade de aquele país manter a política de reformas para cumprir o seu «papel central para solucionar com êxito a crise europeia da dívida» (Berlim), lembram aos italianos que «A Itália não é a Grécia!» (também Berlim) ou, pelo contrário, vêem no que se passou a prova de que os europeus não concordam com «a política de cortes unilaterais, [com] o argumento político de que se deve cortar, e assim criar a confiança dos investidores e depois o crescimento económico imediato» (presidente do Parlamento Europeu).

Para além da especificidade do caso italiano, trata-se apenas de mais um país que, nos ú,ltimos anos, veio afirmar inequivocamente, nas urnas, que recusa a austeridade como ela está a ser imposta, sem fim á vista e com sacrifícios sem resultados credíveis. Monti, o senhor tecnocrata perfeito, delfim de Merkel, de Bruxelas e dos mercados foi varrido para um envergonhado quarto lugar e, em princípio, poderá regressar ao encanto e ao recolhimento do puro Excel.

Será que o abanão italiano pode ajudar a que se operem mudanças significativas ou vamos continuar mergulhados nesta crise dramática e autofágica da Europa? Para não alterar o que deve ser alterado, pretende-se mudar de povos? A realidade está a mostrar que se trata de uma tentativa sem grandes possibilidades de sucesso. 
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28.12.11

Salvar o euro?


Assino por baixo:

«Mas a Europa vive um dilema: salvar o euro sem mudar a sua arquitectura e sem democratizar a União terá o mesmíssimo efeito que deixá-lo. Se alimentarmos a ilusão que podemos salvar a moeda destruindo a economia e as democracias nacionais o fim será o mesmo, mas ainda mais destrutivo. Quem julga que pode sacrificar tudo em nome do euro não percebe o que tem de salvar ao salvar o euro. Só uma reconstrução das instituições europeias e da política económica e monetária da União poderá salvar a Europa do buraco em que se enfiou.»

Daniel Oliveira, hoje, no Expresso online.
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