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13.6.25

Não viveremos no medo que nos querem impor

 


«O dia 10 de junho não foi apenas o dia de Portugal. Não foi apenas o dia em que saboreámos as palavras desassombradas de Lídia Jorge e o alerta claro do Presidente da República. Foi também o dia em que um dos autores deste texto foi barbaramente agredido por um neonazi. Foi o dia em que o nosso concidadão David Munir foi insultado por ser líder da comunidade islâmica. Foi o dia em que um grupo impune da extrema-direita marchou afirmando o seu “orgulho heterossexual” que mais não é do que o orgulho em odiar os outros. Foi o dia em que Lídia Jorge foi chamada de todos os nomes nojentos nas redes sociais. Foi o dia em que a violência no desporto voltou a fazer notícia. Foi o dia em que o outro autor deste texto denunciou a influência da extrema-direita nos valores dos mais novos e foi insultado por o fazer. Foi o dia em que o líder do Chega se mostrou indignado porque a primeira figura do Estado afirmou a dignidade de todos os cidadãos. Foi o dia em que, nas redes sociais, várias figuras do mesmo partido e os seus seguidores celebraram não o dia de Portugal, mas sim o dia “da raça”, pondo a nu a sua profunda ignorância e o seu saudosismo salazarista.

O dia 10 de junho foi um dia de tomada de consciência de uma vertigem assustadora. Foi o dia em que nos lembramos que Alcindo Monteiro foi assassinado há exatamente 30 anos, apenas por ser negro, apenas por ser jovem, apenas por ser. Foi o dia em que vimos que o ódio cresce em escolas, à porta de teatros, na rua, no espaço virtual, que o mal se propaga por todo o lado. Foi o dia em que muitos acordaram para a rapidez do que nos está a acontecer sentindo que é difícil parar, mas que não desistiremos de travar esta onda.

O dia 10 de junho foi um dia de perguntas. Porque odeiam tanto? Porquê um ator? Porque é que ninguém os trava? Porque é que não regulamos o ódio nas redes sociais? Porque é que continuamos a relativizar e a ocultar? Porque é que o Presidente da Câmara de Lisboa fala, como se fossem iguais, extremismos à direita e outros crimes? Porque é que o relatório RASI omite os crimes de ódio, numa tentativa de os retirar do debate público? Porque é que uns continuam a construir perceções erradas sobre a imigração, quando estes crimes hediondos são praticados por cidadãos nascidos e criados em Portugal?

O dia 10 de junho chocou pelo ataque a um artista à porta de um teatro. Conversávamos sobre as razões deste ódio à arte. Mas foi sempre assim. Os regimes autoritários sempre temeram e perseguiram os que usam a palavra como fermento e abrigo da liberdade. Porque a palavra tem sempre mais força do que a brutalidade do soco. Porque a palavra traz a complexidade que perturba quem faz da mentira e da violência o seu único argumentário. Os artistas são alvo, porque mostram que o mundo pode ser diferente, porque nos fazem sonhar, porque nos fazem parar no tempo suspenso em que apreciamos a sua obra. A cultura assusta quem não quer a democracia, porque é incompatível com aquele imediatismo típico da rede social ou da fúria.

A cultura, as artes, e em particular o teatro, constituem talvez o mais profundo traço distintivo entre o ser humano e o animal. O teatro, em especial, é o espaço onde nos debruçamos sobre a fragilidade e o esplendor da condição humana — onde se revelam, com lúcida compaixão, os nossos ridículos, as nossas grandezas e as nossas contradições. É na cena que se ensaia o pensamento livre, despido de doutrinas prontas ou moralismos impositivos.

O teatro não é uma cartilha ideológica, nem uma lengalenga papagueada: é tudo e é todos. Vive da palavra, do corpo e do silêncio. Vive do conflito e da escuta. E esse tudo, esse plural vivo, vem já de muito longe: Gil Vicente, nos seus altares profanos e populares, e Camões, nos seus autos renascentistas, já compreendiam que o palco é um espelho cruel e terno da sociedade. Desde então, o teatro foi sempre o lugar da interpelação, da inquietação, da heresia necessária.

Não admira, pois, que tantos mecenas e patrocinadores mantenham uma relação distante com o teatro. Podem até pontualmente apoiar outras artes — onde a palavra pode não ferir — mas raramente o teatro, porque nele a palavra é viva e pode incomodar. Incomodava nos tempos da censura oficial — quando os censores, entre a ignorância e o zelo, proibiam o que conseguiam entender — e continua a incomodar hoje, não pela interdição explícita, mas pelo silêncio cultivado, pelo desabituar da escuta crítica, pelo abandono da formação cidadã através da arte.

Porque pensar é perigoso. Pensar leva a uma opinião, e uma opinião arranca-nos do conforto acrítico de um rebanho domesticado. É sempre mais cómodo que apenas um pense, e os restantes executem, sigam, obedeçam. O teatro, ao convidar ao pensamento, quebra esse conforto anestesiado da obediência acrítica e obriga à consciência. Por isso incomoda. Por isso é necessário.

Se os portugueses conhecessem melhor a sua história — quem somos, de onde viemos, os fios que nos ligam ao território e às feridas do tempo — se cada um ousasse procurar os seus antecedentes, talvez muita coisa se resolvesse. Talvez a pertença deixasse de ser confundida com pureza, talvez a identidade deixasse de ser um grito de exclusão. O combate prioritário, o verdadeiro campo de batalha da nossa era, é contra a ignorância em bandeiras hasteadas. Essa ignorância vestida de opinião, de certeza e de orgulho. Essa ignorância que fala alto, marcha com pose e censura com emojis. Essa ignorância que mata, exclui, zomba e vota.

Querem-nos calados. Querem os teatros fechados. Querem programar-nos como estão a formatar os mais novos. Querem-nos com medo. Querem voltar a um Portugal amordaçado e com desconfiança do poder da palavra. Querem-nos presos. Querem-nos, sobretudo, com medo.

Somos ambos professores. Um de linguística, ciência da palavra, outro de teatro, arte do corpo – juntos ensinamos como o pensamento ganha forma e voz no mundo. Acreditamos que, em cada escola, em cada bairro, em cada lugar, nos compete desmontar a mentira e o ódio. Acreditamos que, pela educação, a esperança não morre. Acreditamos que a cidadania é componente essencial de uma escola que serve para educar e não apenas para instruir. Acreditamos que tem mais mérito o aluno que olha para o outro como igual, porque tem o conhecimento, a ciência e a cultura para rejeitar a repressão e a discriminação, do que o brilhante individualista que corre sozinho pela melhor nota.

Sentimos que Portugal precisa de se mobilizar muito fortemente para contrariar o crescimento desta violência. Cabe-nos a todos esta tarefa, na palavra, na criação, na denúncia, na rejeição, na paciente desconstrução dos múltiplos combustíveis deste ódio. O silêncio é cúmplice. Não podemos ficar calados quando à nossa frente se desprezar ou espezinhar. Cabe-nos a todos, em cada função, em cada fábrica, escola ou espaço artístico. Em cada bairro, em cada café. Políticos e não políticos, crentes e não crentes, jornalistas, trabalhadores e reformados, novos e velhos, homens e mulheres. Todos somos convocados à luta pela sã celebração da diversidade como bem maior.

Querem-nos com medo. Mas nós não temos. Não vamos viver no recato amedrontado que nos querem impor. Continuamos a sair à rua, a fazer arte, a ensinar, a celebrar a democracia e a diversidade. A rua é dos democratas, o espaço público é o da alegria e da liberdade.

É urgente agir. É urgente a coragem. É urgente não silenciar.

É urgente não ter medo de afirmar que este ódio tem autores morais. Aumenta com o crescimento da extrema-direita, que legitima tantos que até há pouco tempo não ousavam afirmar o seu racismo, a sua xenofobia, a sua homofobia, a sua misoginia. Cada deputado do Chega, cada novo partido da extrema-direita é um contributo ativo para a degradação civilizacional que testemunhamos.

Não temos medo. Porque sabemos que a realidade é complexa, mas que a arte, a educação, a ciência e a cultura nos dão a força para não desistir.»


10.6.25

10 de Junho – Dia de…

 


Por mais tempo que passe, o 10 de Junho nunca deixará de ser, para mim, o tal «Dia da Raça», já que não consegui apagar da memória o que era até ao 25 de Abril.

Assinala-se hoje o dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com grande pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos AQUI e AQUI). Linguagem inequívoca: «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Entre 1975 e 1976, o Dia de Portugal foi 25 de Abril e, de 1974 a 1976, não houve comemorações do 10 de Junho. Até que um militar presidente da República as ressuscitou em 1977, primeiro como «Dia de Camões e das Comunidades» e, a partir de 1978, também como «Dia de Portugal».

Dantes, era assim:

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Por mais que me custe

 



… e com algumas reservas ao seu discurso, temo muito vir a ter saudades dele no próximo 10 de Junho.

O 10 de Junho era assim

 


@João Abel Manta

Dia de Portugal, em Lagos, em tempos de “avisos à navegação” política

 


«A história do município de Lagos diz: “Os descobrimentos começaram aqui…”. Foi esta a localidade escolhida por Marcelo Rebelo de Sousa para celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Na opção terá pesado o simbolismo histórico do mar, enquanto via de união entre povos. Porém, a imagem do rei D. Sebastião e o “sebastianismo”, que povoa o território, poderá também servir de metáfora da vida política actual. Nas últimas legislativas, o Chega venceu em Lagos e o mito do “sebastianismo” ensombra os candidatos à sucessão de Marcelo em Belém.

A Avenida dos Descobrimentos e toda a zona ribeirinha da cidade estão convertidas em palco das festividades do 10 de Junho. As comemorações decorrem desde há dez dias, com demonstração de exercícios militares, mas também concertos e outras iniciativas culturais. As atenções da população estão viradas para os carros de assalto, helicópteros, um F16, lanchas e drones — o vasto dispositivo que integra a Expo Forças Armadas, instalada junto às muralhas, na Praça Infante D. Henrique.

Porém, o brilho das fardas deixou na penumbra aspectos menos visíveis ligados à identidade cultural da terra. À frente do memorial sobre a batalha de Alcácer Quibir, da autoria de João Cutileiro, foi instalada uma tenda de recrutamento, tapando a escultura. O museólogo Rui Parreira tem uma explicação: “O soldado português ganha batalhas, não perde.” Por isso, contextualiza, uma obra que não evoca glórias do passado foi eclipsada. “Não deixa de ser interessante, do ponto de vista simbólico”, sublinha, “porque a peça, feita de peças de mármore de várias cores, representa os três momentos da batalha — a partida, campo de combate e a derrota”.

A relação cultural e afectiva da cidade com o mar vem de longe e mantém-se. No passado, foram os marinheiros das caravelas a dar “novos mundos ao mundo” — no presente, turistas de todo o mundo encontram aqui o seu porto de abrigo para passar férias. No entanto, os ventos não sopram de feição quando se recorda o que se passa na Ucrânia, Gaza e noutros pontos do globo, onde a inclusão deu lugar aos ódios e a políticas de exclusão. Ali bem perto do palco onde Marcelo Rebelo de Sousa irá discursar, encontra-se o museu de Lagos, Rota dos Escravos.

O espaço, diz Rui Parreira, mostra um capítulo da história portuguesa que divide opiniões. “Levamos dos dois lados — os nacionalistas acham que é um período que não se deve destacar. Por outro lado, os activistas acham um horror falar de lusofonia — uma língua imposta pelos colonos.” A história, sintetiza, não é uma via de sentido único. As comemorações do 10 de Junho de 2025 são presididas por Lídia Jorge, a escritora (conselheira de Estado) que, nas suas obras, lembra que o humanismo não tem pátria nem fronteiras.

O rei D. Sebastião, em 1573, elevou Lagos à categoria de cidade, e, durante séculos, o porto da cidade foi um importante entreposto comercial. Aqui chegaram as primeiras riquezas de África — ouro, prata, marfim. A riqueza do “ouro”, hoje, foi cambiada pelas areias onde se constroem hotéis e apartamentos. O bairro dos "Índios da Meia Praia" é o que resta da afirmação de uma comunidade piscatória que resiste, embora os seus habitantes já sejam de segunda e terceira geração.

António Cunha Telles, em 1976, imortalizou em filme vivências e sentimentos de afirmação do poder local. As barracas de colmo foram substituídas por construções de alvenaria, no âmbito do projecto SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local. Mais tarde, o Plano de Urbanização da Meia Praia, aprovado em 2007, veio a permitir a construção do golfe dos Palmares e de hotéis em cima de dunas. O bairro ficou de fora — não teve direito a requalificação — porque os terrenos pertencem ao domínio público marítimo.

Apesar do crescimento urbanístico, à semelhança do que se verifica noutras zonas do litoral, existe falta de habitação a preços acessíveis para quem vive e trabalha no concelho. Durante a última campanha eleitoral o tema fez parte das agendas políticas, e já começa a agitar a campanha para as autárquicas que se aproximam. O partido de André Ventura tem vindo a explorar esse filão, na vertente populista, e a maioria socialista no executivo autárquico pode estar tremida.

Marcelo Rebelo de Sousa, amanhã, na sua última celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas — como já fez noutras ocasiões — não deixará de fazer avisos à “navegação” para os candidatos ao Palácio de Belém. Por coincidência, na praça Gil Eanes, a poucas centenas de metros de distância do lugar da tenda onde vão decorrer as cerimónias oficiais, encontra-se a estátua de D. Sebastião. Não evoca glórias, mas sim as intrigas palacianas nas tomadas de grandes decisões. Na opinião de Rui Parreira, a representação artística lembra “um boneco articulado que simboliza o derrotismo [Alcácer-Quibir] e a manipulação do poder político por parte da aristocracia”, que empurrou o rei para uma aventura.»


10.6.24

10 de Junho de 1974




O primeiro 10 de Junho depois da Revolução de 1974 foi «comemorado» assim: um grupo de quarenta e oito artistas plásticos pintou no Mercado do Povo, em Lisboa, um mural que viria a desaparecer num incêndio em 1981. Entre os pintores, muitas caras conhecidas: Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, etc., etc.

O filme é um documento precioso, da autoria de Manuel Costa e Silva e foi-me disponibilizado, já há uns anos, por Fernando Matos Silva.
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Memórias do 10 de Junho

 

@João Abel Manta


10.6.23

10 de Junho: vidas e sombras

 


A ler: este texto de Miguel Cardina.
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10 de Junho – Dia de…

 


Por mais tempo que passe, o 10 de Junho nunca deixará de ser, para mim, o tal «Dia da Raça», já que não consegui apagar da memória o que era até ao 25 de Abril.

Assinala-se hoje o dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com grande pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos AQUI e AQUI). Linguagem inequívoca: «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Entre 1975 e 1976, o Dia de Portugal foi 25 de Abril e, de 1974 a 1976, não houve comemorações do 10 de Junho. Até que um militar presidente da República as ressuscitou em 1977, primeiro como «Dia de Camões e das Comunidades» e, a partir de 1978, também como «Dia de Portugal».

Dantes, era assim:

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13.6.22

A condecoração do enfermeiro Luís

 


«Nada contra o enfermeiro Luís, tudo a favor. Todas as declarações que leio e que lhe são atribuídas parecem de extrema sensatez.

Vejamos: manifestou contentamento pelas palavras de apreço de Boris Johnson a seguir ao seu internamento por infeção com covid-19. É normal e é razoável. Foram elogios ao seu trabalho. As palavras do primeiro-ministro inglês materializam que recebeu um tratamento excepcional.

Manifestou também a sua surpresa porque, logo a seguir ao discurso de agradecimento de Boris Johnson, recebeu um telefonema de Marcelo Rebelo de Sousa. Na verdade essa surpresa só pode ser explicada por viver fora do seu país. Não aconteceu nada de novo. O nosso presidente gosta de marcar presença, é afectuoso e extremamente rápido a fazer o que lhe passa pela cabeça.

Agora, pelo 10 de junho, o enfermeiro Luís Pitarma foi condecorado com a Ordem de Mérito com o grau de Oficial. A primeira pergunta que ocorre fazer é perguntar se a condecoração tem a ver com os cuidados prestados ao primeiro-ministro inglês naquela semana, se tem a ver com o agradecimento que o próprio lhe dirigiu publicamente ou se tem a ver com alguma façanha que desconheçamos.

Vamos a direito. O enfermeiro Luís, de Portugal, recebeu uma distinção em razão dos cuidados prestados ao Boris e, claro, do reconhecimento público que teve a esse propósito.

E aqui, e para portugueses menos experientes nisto de se ser português, começa um enorme constrangimento, mas que nunca deverá ser extensível ao próprio enfermeiro Luís. Mas ser português significa estar habituado a estas coisas. Pois se há uma alta figura de Estado, e sobretudo de um país que lá no fundo consideramos estar acima do nosso, que elogia um português, ficamos inchados pelo orgulho que nos toma.

Não vale a pena fazer de conta. Foi evidente o delírio nacional com os agradecimentos de Boris a um dos nossos. Pode tratar-se de uma caraterística normal para um país pequeno e pobre, e com grandes tradições de subserviência perante países europeus mais ricos. Normal não quer dizer que não seja extremamente pindérico. Somos pindéricos nestas coisas.

Partir deste contentamento, e transformá-lo em condecoração, foi surreal. Certo. Mas também pode ser encarado como o assumir daquilo que somos. Perdemos a vergonha. Condecorámos um homem por ter feito o seu trabalho ao prestar cuidados de saúde a Boris Johnson e por este ter ficado agradado. Podíamos estar cheios de orgulho do enfermeiro Luís e disfarçar. Mas não; sem complexos mostrámos qual era a dimensão da coisa.

Trata-se de um primeiro-ministro que, ele próprio, não merece qualquer distinção. Um homem que fez festas quando os ingleses assistiam aos funerais de familiares próximos por Zoom. Um inconsciente para não entrar no domínio da ética ou da moral. Se isto diminui o mérito do nosso enfermeiro? Não. Mas faz um belo conjunto.

Condecorámos Luís Pitarma porque continuamos a fazer o culto dos feitos dos portugueses lá fora. Ainda por cima, lá fora foi o Reino Unido. Um país de gente finíssima e sofisticada que nos deu atenção.

Mas vamos supor que o enfermeiro Luís tinha prestado os seus cuidados de saúde a um operário inglês. Nada feito. Não haveria condecoração. E se os tivesse prestado ao primeiro-ministro de um pequeno país africano? Estamos a entrar em matéria muito embaraçosa, mas diria que não; também não haveria condecoração nenhuma.

Também se recordarão da algazarra quando Obama escolheu um cão de raça portuguesa. Ou da festa a propósito da iluminação natalícia, em algumas ruas de Londres, da autoria dos irmãos Castros. Enfim. Não basta sermos pobres, também tínhamos de ser parvos.

A condecoração em causa “destina-se a galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da colectividade.” Certamente o exercício da profissão por parte deste enfermeiro, como de tantos outros, é digno de reconhecimento. E é certo que, como milhares de outros enfermeiros, está no Reino Unido porque Portugal não oferecia as condições remuneratórias e de progressão na carreira, a que teriam o direito de aspirar. Isto é triste.

Em Portugal é mais fácil ser condecorado no 10 de junho do que conseguir uma vida justa. Uma das piores críticas que se pode fazer a um português é dizer-lhe que é mesmo português e usando a palavra como adjetivo. O mesmo para o “à portuguesa”. Quando se ouve que alguma coisa foi feita à portuguesa já se sabe que não foi bem-feita.

Foi assim que tratámos o enfermeiro Luís “de Portugal”.»

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10.6.21

10 de Junho, ainda



 

O João Abel Manta é que eternizou bem a realidade neste desenho.
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10 de Junho de 1974

 



O primeiro 10 de Junho depois da Revolução de 1974 foi «comemorado» assim: um grupo de quarenta e oito artistas plásticos pintou no Mercado do Povo, em Lisboa, um mural que viria a desaparecer num incêndio em 1981. Entre os pintores, muitas caras conhecidas: Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, etc., etc.

O filme é um documento precioso, da autoria de Manuel Costa e Silva e foi-me disponibilizado, já há uns anos, por Fernando Matos Silva.
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10 de Junho

 


Este post regressa quase todos os anos. Por mais tempo que passe, nunca deixará de ser, para mim, o tal «Dia da Raça», já que não consegui apagar da memória o que era até ao 25 de Abril. 

Assinala-se hoje o dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com grande pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui). Linguagem inequívoca: «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Entre 1975 e 1977, o Dia de Portugal foi 25 de Abril e, de 1974 a 1976, não houve comemorações do 10 de Junho. Até que um militar presidente da República as ressuscitou em 1977, primeiro como «Dia de Camões e das Comunidades» e, a partir de 1978, também como «Dia de Portugal». Mas continua-se a distribuir condecorações – outras, por motivos diferentes e eventualmente louváveis. No mínimo, talvez fosse possível escolher outra data para o efeito, já que, pelo menos no que me diz respeito, sou incapaz de não associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço, em tempo da guerra colonial.

Porque era assim:


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10.6.20

Marisa Matias - 10 de Junho




«Perante a ameaça da doença e da desumanizacao da resposta, o povo português não se deixou derrotar nem por uma nem por outra. A pandemia ensinou-nos que os bens essenciais do país são o trabalho e os serviços públicos.

Quanto à intervenção do Senhor Presidente, registamos a referência ao Serviço Nacional de Saúde e ao heroísmo dos seus profissionais. É verdade que este é o momento para as alterações estruturais e não para os remendos. Começámos a fazê-lo com a aprovação da Lei de Bases da Saúde, uma aprovação feita pela esquerda parlamentar apesar da oposição do próprio Presidente da República.»
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10.6.19

Um 10 de Junho diferente – o de 1974




No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos pintou, em Lisboa, um mural que viria a desaparecer num incêndio, em 1981. Entre os pintores, muitas caras conhecidas : Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, etc., etc.

O filme é um documento precioso, muito pouco conhecido. É da autoria de Manuel Costa e Silva e foi-me disponibilizado, já há uns anos, por Fernando Matos Silva. Foi hoje posto no Youtube por alguém que me consultou antecipadamente e que atribuiu os créditos a quem de direito. Aconselho a que passem 14 minutos a vê-lo.
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10 de Junho



Este post regressa todos os anos, já que tenho um ódio de estimação à data de hoje. Por mais anos que passem, nunca deixará de ser, para mim, o tal «Dia da Raça», já que não consegui apagar da memória o que era até ao 25 de Abril. Mas ela existe e entra-nos pela casa dentro, agora com roupagens mais modernaças e viagens intercontinentais.

Assinala-se hoje o dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos vinte do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com grande pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui). Linguagem inequívoca: «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

De 1974 a 1976 não houve comemorações. Até que, um militar presidente da República as ressuscitou em 1977, primeiro como «Dia de Camões e das Comunidades» e, a partir de 1978, também como «Dia de Portugal». Mas continua-se a distribuir condecorações – outras, por motivos diferentes e eventualmente louváveis, mas que parecem cada vez mais anacrónicos e sem sentido. E, no mínimo, talvez fosse possível escolher outro data para o efeito, já que, pelo menos no que me diz respeito, sou incapaz de não associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço, em tempo da guerra colonial.

Porque era assim:


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11.6.18

Make Portugal Great Again



O Presidente da República a ensinar uma menina açoriana a utilizar uma arma de ataque nas comemorações do 10 de Junho.
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