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28.7.17

Templos budistas e não só (6)



Angkor Wat. Siem Reap, Camboja (2009).

Angkor Wat é o maior dos templos de Angkor, primeiro hindu e depois budista, expoente máximo da arquitetura Khmer, um dos tesouros arqueológicos mais importantes do mundo.
Angkor foi capital do Império Khmer entre os séculos IX e XV e pesquisas recentes concluíram que poderá ter ocupado 3.000 km² e tido uma população de 500.000 habitantes («a maior cidade pré-industrial do mundo»). Nela foram encontradas ruínas de mais de 1.000 templos. Por lá andei uns dias e não vi mais do que uma pequeníssima parte – com um calor tórrido e húmido como nunca experimentei em mais alguma parte do mundo… 




17.4.17

17.04.1975 – No Camboja, os Khmer Vermelho tomam Phnom Penh



Foi no dia 17 de Abril de 1975 que a capital do Camboja, Phnom Penh, foi tomada pelo Khmer Vermelho. Seguiram-se quatro anos de terror, num processo brutal que tinha como objectivo a criação de uma sociedade comunista puramente agrária e do qual resultou um genocídio que eliminou 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos). Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Camboja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 65 anos, ou mais, desapareceu.

Estive lá em 2009 e, por muitos ou poucos anos que ainda viva, nunca esquecerei um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como estes, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.





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17.4.15

Camboja. Há 40 anos, o Khmer Vermelho



Foi no dia 17 de Abril de 1975 que a capital do Camboja, Phnom Penh, foi tomada pelo Khmer Vermelho . Seguiram-se quatro anos de terror, num processo brutal que tinha como objectivo a criação de uma sociedade comunista puramente agrária e do qual resultou um genocídio que eliminou 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos). Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Camboja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 65 anos, ou mais, desapareceu.

Estive lá em 2009 e, por muitos ou poucos anos que ainda viva, nunca esquecerei um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como estes, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.





A ler: um testemunho impressionante de Denise Affonço, filha de pai francês, de ascendência vagamente portuguesa, e de mãe vietnamita.

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Mas não foram só os killing Ffields que me impressionaram, como então escrevi: Do outro lado do mesmo mundo
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4.11.14

Foi você que pediu um mundo cão?



Nunca consigo ficar indiferente quando leio notícias sobre as condições de vida e de trabalho no Camboja, um dos países em que estive e que mais me impressionaram, pelo seu terrível passado político ainda bem recente e, actualmente, pela conturbada presença nos meandros da globalização.

Leio hoje que as autoridades daquele país «resgatam» as prostitutas, obrigando-as a trabalhar em fábricas. Mais concretamente, forçam-nas a escolher entre ficar presas e receber formação relacionada com a indústria têxtil, para depois trabalharem 6 dias por semana, por cerca de 60 euros por mês, em péssimas condições, em multinacionais como a H&M.

Vale a pena gastar 12 minutos para ver o vídeo.




Quem não aprecia comprar roupa decente e muito barata na H&M que levante o braço. E nem estou a sugerir com isto qualquer tipo de boicote – tentar esvaziar o mar com um dedal já deu o que tinha a dar.

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7.4.14

Turismo «poucochinho»

Abri a Revista do Expresso do passado Sábado e tive um sobressalto de esperança quando vi que a crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) era sobre «Um dia da vida no Camboja» e, ainda mais, ao perceber que ela tinha estado em Tonlé Sap: finalmente, alguém ia certamente partilhar o verdadeiro murro no estômago, que foi, para mim, passar umas horas naquele que é o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático, onde vivem milhares de pessoas numa situação de miséria quase inimaginável.

Em barracas, sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos cinquenta anos. Já descrevi várias vezes, neste blogue, que vi pessoas beberem a água poluidíssima do lago (e é com ela que se cozinha e que se toma banho), um curral flutuante amarrado a uma casa com quatro porcos lá dentro, crianças, mais ou menos esfarrapadas, que saltam de tudo o que é buraco e que, frequentemente, caem à água e se afogam. Devo dizer que estas imagens ficaram entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz e que voltei a terra com um sentimento de compaixão e de revolta indescritíveis, pelo horror que vi num país terrível, já tão castigado pela sua História, paupérrimo e quase sem velhos, já que 20 a 25% da população desapareceu em consequência da acção dos Khmers Vermelhos, em apenas quatro anos.

Erro meu quanto ao texto de CFA. Ela diz que «nunca devia ter feito esta viagem» (a Tonlé Sap), não por ter de lá saído impressionada como eu, e como vários amigos que comigo viajavam, mas porque o motor do barco onde a levaram não pegou, porque «o rio é tão estreito que os barcos roçam uns nos outros ou marram, arrancando-se pedaços» e porque teve de «desatar aos berros» até conseguir saltar para um outro barco, onde um russo se transformou em seu salvador até que conseguisse chegar a terra firme. Tudo isto porque tinha decidido armar em esperta (digo eu...) ao fazer a viagem sem aceitar um guia ou integrar um grupo e só depois ter sabido que «há esquemas variados para turistas solitários, sem guia e sem tour oficial. Na estação seca, os turistas são escassos e a fome aumenta». E de que maneira... 

A frieza pura e dura. De uma das nossas mais reputadas cronistas, da qual eu esperava que não se limitasse a fazer este tipo de turismo – tão pequeno, tão «poucochinho». (*)



(*) O texto de CRA pode ser lido aqui.
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14.9.12

Um dia seremos todos cambojanos



Numa visita a uma fábrica de chocolates em Vila do Conde, que não foi para ele atribulada porque entrou pelas traseiras e não pela entrada principal onde o esperavam manifestantes, Passos Coelho fez hoje um discurso de cerca de meia hora. 

Entre outros temas abordados, terá afirmado que as medidas agora anunciadas são necessárias porque, segundo o Jornal de Negócios, «aqueles com quem competimos têm custos mais baixos, nomeadamente custos do trabalho». Não que seja novidade, mas fica claramente expresso que o empobrecimento do povo português é instrumental, ou seja, que não é apenas uma consequência lamentável da necessidade de reequilibrar défices, mas um desígnio desejado para nos tornar competitivos.

Quando os nossos filhos ou os nossos netos tiverem salários e horários de trabalho semelhantes aos do Cambodja (mesmo que, entretanto, estes melhorem um pouco), então, sim, Portugal estará pronto a reocupar um lugar decente no mundo. 

Não há como exemplos concretos para se perceber do que se fala e quem me conhece sabe que o Cambodja é, para mim, um terrível símbolo de miséria, desde que lá estive há três anos. A maior das «sortes» era então conseguir um lugar em fábricas, muitas delas deslocalizadas da Europa, com salários absolutamente miseráveis, sem limites de horários, durante 364 dias por ano (descanso só no dia de Ano Novo).  

Sei que houve progressos desde então, mas, em números de 2012, vejo hoje que, naquele país, o salário médio mensal na construção civil é 80 dólares, que o de um motorista é 88,4 e o de um funcionário público administrativo 118.

Vamos a caminho, um dia seremos todos cambojanos.
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27.5.12

Cambodja: exploração de crianças



Já escrevi, nem sei quantas vezes, como o Cambodja me impressionou e nunca mais me saiu da cabeça e das entranhas, desde que, in loco, tomei consciência do drama histórico deste país até quase ao fim do século passado e da pobreza em que ainda vive. 

Hoje leio que, apesar da paz dos últimos tempos e dos dois milhões turistas que por lá passam por ano, as histórias escabrosas continuam. 

Na esperança de que os filhos recebam uma educação de «estilo ocidental», muitos pais, muito pobres, entregam os filhos a orfanatos que viram a sua população mais do que duplicar na última década, apesar dos progressos da economia do país. 70% desses órfãos têm pelo menos um dos pais vivo. 

Se muitos turistas, impressionados pelo que vêem, ficam no país para ajudarem como voluntários nesses orfanatos e em escolas, descobre-se agora que algumas das organizações que enquadram esses voluntários e planificam o seu trabalho exploram as próprias crianças. A maldade humana parece não ter limites. 

Tudo explicado aqui: notícia e vídeo. 
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6.9.11

Nunca esquecer os horrores do século XX


Morreu Vann Nath, um dos sete cambojanos que sobreviveu a S21, a terrível prisão cambojana nos killing fields, em Tuol Sleng, nos arredores de Phnom Penh. E escapou à morte porque sabia pintar e Pol Pot apreciava os seus desenhos…

Há hoje notícias detalhadas sobre a sua vida em toda a imprensa mundial, mas vale a pena ouvir esta conversa que teve com Jorge Semprún, sobrevivente de um outro genocídio:



Por mais que se leia, será sempre difícil realizar o horror que aconteceu naquela antiga escola primária, hoje transformada em Museu do Genocídio, e onde estão expostas algumas das obras de Vann Nath. Estive lá há pouco mais de dois anos e não esqueci o murro no estômago daquela manhã de Abril de 2009.

O Cambodja passou a ser para mim, desde então, uma das piores realidades da nossa história recente: para além de extremamente pobre, um país que perdeu 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos), em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo. E uma terra quase sem velhos, já que a grande maioria dos que teriam actualmente mais de 60 anos desapareceu.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos.



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19.7.11

As sestas


1 - Estava eu no Cambodja, há pouco mais de dois anos, quando soube que o governo da Dinamarca ia aprovar o direito a uma sesta de vinte minutos por dia para alguns grupos de trabalhadores, como uma experiência teste a ser eventualmente alargada a todo o país. Por cá, ninguém reagiu.

Mas eu recebi a notícia como um verdadeiro murro no estômago, certamente maior do que aquele que Pedro Passos Coelho sentiu, na semana passada, já nem sei porquê. Eu tinha andado esse dia por Tonlé Sap, o maior lago de água doce do Sudoeste asiático, onde vivem, em barracas flutuantes, milhares de pessoas (e cães, gatos e até porcos…), em situações degradantes quase inimagináveis. Guardei, aliás, do Cambodja, algumas das mais marcantes imagens de miséria, que me foi dado ver. 

Escrevi então: «Será possível, viável, um mundo em que se possa dormir a sesta sem que outros (aqui) trabalhem 364 dias por ano, nem se sabe quantas horas por dia? »

2 - Em Julho de 2011, chegou a vez de uma confederação de sindicatos alemães pedir o mesmo direito à sesta. Pela blogosfera, no Facebook e em comentários dos jornais, levantou-se um clamor contra a senhora Merkel e seus súbditos. Porque, entretanto, passámos para cambojanos da Europa.

3 – Num qualquer mês de 20??, veremos os alemães indignados porque os operários da Foxconn já interrompem o fabrico de iPhones para uma pausa pós-prandial?

Impossível? Pouco provável? Ora…
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8.6.11

Nazis e Khmers Vermelhos

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Para que a memória não se apague, é importante o testemunho dos sobreviventes. Desde ontem, um destes dois calou-se.



Jorge Semprún e Vann Nath.
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2.6.11

Quando a Terra for kitsch


Estas imagens – e algumas outras que podem ser vistas aqui – são da autoria de Chris Morin, um arquitecto que se interessa por urbanismo e que é também fotógrafo e realizador de cinema.

Imaginou a Terra depois de o homem dela desaparecer, a partir de fotografias que serão então possíveis. Quando a natureza retomar os seus direitos, «delicadamente», com uma força tranquila, sem guerras nem cataclismos.

Porquê esta ideia? Pelo choque que teve ao visitar Angkor, no Cambodja.

As fotos que se seguem foram tiradas por mim, há dois anos. Há oito séculos, quando por cá se era governado por Sanchos e Afonsos, Angkor ainda era a sede do grande Império Khmer.
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1.11.10

Um testemunho impressionante


Na manhã de 17 de Abril de 1975, Denise Affonço saiu de casa normalmente para mais um dia de trabalho na embaixada francesa em Phnom Penh. Culta, com 31 anos, era filha de pai francês, de ascendência vagamente portuguesa, e de mãe vietnamita. Era casada com Seng, chinês e comunista convicto, que ansiava pela chegada à capital dos khmers vermelhos que ocupavam já uma grande parte do Cambodja.

Convém recordar que a receptividade em relação aos que viriam a ser responsáveis por um dos maiores genocídios dos nossos tempos se ficou a dever, em grade parte, ao facto de terem surgido na sequência da reacção a um outro terrível crime contra a humanidade de que pouco se fala: o lançamento de 540.000 toneladas de bombas, ordenado por Nixon e Kissinger, entre 1969 e 1973, com o pretexto de atacar estradas e enclaves do Vietname do Norte em terras cambojanas.

Na embaixada francesa, já tinham tentado convencer Denise a sair do país com os dois filhos, mas ela foi ficando, em parte pelo entusiasmo e influência do marido. Até que, na tal manhã de Abril, os disparos fizeram com que regressasse a casa, não sem antes ter avistado os primeiros soldados «libertadores»: muito jovens, quase crianças de catorze ou quinze anos, vestidos de negro e com lenços branco e vermelho ao pescoço, sandálias feitas de restos de pneus.

Convencidos de que nem a revolução soviética nem a chinesa tinham sido suficientemente radicais, de um dia para o outro, Pol Pot e os seus seguidores aboliram dinheiro, transacções comerciais, documentos de identificação, encerraram escolas e universidades, eliminaram livros sem conteúdo revolucionário, proibiram línguas estrangeiras, expulsaram as pessoas de suas casas, etc., etc., etc.

O resto da história é conhecido: em menos de quatro anos, entre 1975 e 1979, o mundo assistiu, mais ou menos indiferente, ao maior genocídio do século XX, em termos percentuais - cerca de 25% da população cambojana foi pura e simplesmente eliminada. Quando alguns fugitivos contavam as suas histórias, as esquerdas consideravam-nos ao serviço do imperialismo e os Estados Unidos e seus aliados calavam-se porque a China, que sempre apoiou os khmers vermelhos, funcionava como contrapeso à URSS, em tempos de guerra fria.

Denise Affonço sobreviveu quatro anos, viu morrer a filha, alimentou-se de raízes, de formigas, roubou aos cães os restos de comida dos senhores da guerra. Diz que a sua maior surpresa não foi sobreviver, mas perceber que ninguém queria ouvir o que tinha para contar. Por isso o relatou em livro, publicado em Portugal em 2009, que eu tinha em casa mas que só agora li: No Inferno dos Khmer Vermelhos. Testemunho de uma sobrevivente, 2009, Pedra da Lua, 182 p.

(Foi um texto de Antonio Muñoz Molina, no Babelia do último Sábado, que me fez recordar a existência desta obra que eu tinha algures numa prateleira mais ou menos anárquica.)

Em 2009, Denise Affonço esteve em Lisboa e deu à Antena 1 esta entrevista que merece ser ouvida:


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31.7.10

Não é ficção


Não fui eu que tirei esta fotografia que encontrei hoje por acaso na net, mas podia ter sido. A Oriente, é assim.

Para ser totalmente honesta, o máximo que vi foi sete pessoas em cima de uma motoreta – no Cambodja, depois de um pôr-do-sol em frente do Angkor Wat. Quatro ou cinco? Vulgar de Lineu em qualquer grande cidade do Vietname, do Laos ou do Cambodja. Por vezes, vai também uma gaiola com pássaros ou mesmo uma porta ou o vidro para uma janela. Ou porcos, ou galinhas.

Nas grandes famílias (grandes porque há sempre muitos filhos…), a moto é o sinal exterior de riqueza mais generalizado.
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26.7.10

A condenação de Douch


Foi conhecida hoje a sentença do julgamento de Kaing Guek Eav, mais conhecido por «Douch», director de um dos principais killing fields dos Khmers Vermelhos no Cambodja - Tuol Sleng, nos arredores de Phnom Pehn. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas mais de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças. Hoje essa antiga prisão é um Museu do Genocídio, onde estive há pouco mais de um ano - muito simples, impressionantemente pobre, mas terrível. Um murro no estômago.

Foram necessários doze anos de negociações e de procedimentos judiciários, desde a morte de Pol Pot, em 1988, para se chegar ao fim do primeiro julgamento (outros se seguirão) de um dos principais responsáveis pelo genocídio que tirou do mapa um quarto da população do país – cerca de dois milhões de pessoas – em apenas quatro anos, de 1975 a 1979. O Cambodja é hoje um país quase sem velhos, já que a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu, pura e simplesmente. Douch foi condenado a 35 anos de prisão mas, porque já passou onze legalmente preso e mais alguns que o tribunal considerou que terão sido cumpridos indevidamente, restam-lhe 19 para cumprir – pelos 86, poderá voltar a gozar em liberdade os que lhe sobrarem. Pouco provável num país em que a esperança de vida ronda os 60 anos, mas nunca se sabe: pode ser que o remorso seja bom agente de longevidade.

Desde esta manhã que não me sai da cabeça uma fantasia perfeitamente irrealizável: os 19 anos de pena que Douch tem a cumprir deviam ser passados em Tuol Sleng, numa das celas como a que se vê na foto. Com todas as condições de dignidade e, obviamente, sem exposição ao público. Mas os filhos, os netos e os irmãos das suas vítimas deveriam ter o «direito» de saber que era ali que ele estava e que acabaria, muito provavelmente, os últimos anos da sua vida. Porque é também com símbolos que se faz a história e se vinga a memória.




Fonte, entre outras
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20.5.10

Enquanto a Europa dormiu a sesta


Exactamente há um ano, em Maio de 2009, eu estava no Cambodja e foi lá que li um post que Rui Bebiano então publicou em «A Terceira Noite», sobre o direito à sesta, em vias de reconhecimento no reino da Dinamarca. Falava-se também de um dia de baixa por morte de um animal doméstico. Em jeito de adenda, o Rui publicou a minha reacção que lhe enviei por mail: «Será possível, viável, um mundo em que se possa dormir a sesta sem que outros (aqui) trabalhem 364 dias por ano, nem se sabe quantas horas por dia? E em que os primeiros ainda se queixam se as empresas são deslocalizadas para dar de comer aos segundos?». Lembrei-me disto ao ler hoje este outro texto, também do Rui.

Nesse dia eu tinha andado por Tonlé Sap, o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático, onde vivem milhares de pessoas numa situação quase inimaginável. Em barracas, sobre estacas ou flutuantes, acumulavam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos cinquenta anos. Como então escrevi, «vi pessoas beberem a água do lago (e é com ela que se cozinha e que se toma banho), (…) e um pequeno curral flutuante com quatro porcos, amarrado a um dos lados de uma casa. Saltavam crianças, mais ou menos esfarrapadas, de tudo o que era buraco. Devo dizer que estas imagens ficarão entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz. (…) Do Cambodja, vim com a sensação de que a revolta nascerá naquele lago.»

Naquele lago e não só. O Cambodja é um país terrível, paupérrimo e quase sem velhos, já que 20 a 25% da população desapareceu em consequência da acção dos Khmers Vermelhos, em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.

Se falo deste caso, é porque ele é quase um extremo. Mas a Birmânia, o Laos e até o Vietname, mesmo a Índia que não é dos ricos, não ficam muito atrás: multidões e multidões, com taxas de crescimento de população elevadíssimas, milhões e milhões de crianças e jovens que, até há pouco, olhavam para Oeste com um El Dorado a ser imitado, ou que um dia viriam a alcançar - mesmo se, nalguns casos, através do enviesado modelo do grande vizinho chinês.

Mas, nos últimos doze meses, tudo se alterou no mundo, muito mais do que alguma vez poderíamos ter imaginado. Há um ano, claro que já havia «a crise», mas ainda nos entretínhamos a discutir o cumprimento da lei do fumo e as características dos galheteiros, regulamentados pelo camarada Barroso and friends. Hoje, já nem da ASAE se ouve falar – só da dita crise e dos seus protagonistas.

Mudou tudo, mas infelizmente no pior sentido. Não porque pense que vamos todos acabar em enormes lagos Tonlé Sap deste lado do planeta, nem porque já ninguém ouse, sequer, reivindicar sestas ou feriados adicionais pela morte de um gato. Mas porque a pobreza aí está, nua e crua, onde e quando menos se esperava. Não acreditámos que o capitalismo selvagem nos venceria com o seu falhanço, mas foi o que aconteceu. Vivamos então em estado de alerta porque o mundo não acaba aqui. Mas precisa, mais do que nunca, daqueles que procuram outros modelos e razões para novas esperanças.

(Publicado também aqui)
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21.10.09

O turismo também serve para isto

















Há mais do que um motivo para ser impossível esquecer o Cambodja, onde estive há cerca de seis meses: os magníficos templos de Angkor, a miséria extrema em que vive uma parte da população (*) e as pegadas deixadas pelos inqualificáveis crimes dos Khmers Vermelhos.

Um texto que Rui Bebiano publicou ontem fez-me «regressar» porque não há família no Cambodja que não tenha uma história semelhante à que é contada no livro que é referido. A do guia turístico que acompanhou o grupo em que integrava não era muito diferente (tinha 13 anos em 1975), o que é inevitável num país que perdeu 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos), em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.

Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Cambodja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu - pura e simplesmente.

Mas o que nunca sairá da memória de quem por lá passou é a «fotografia» de um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como este, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.




(*) Escrevi, in loco, um pequeno texto sobre as terríveis condições em que vivem muitos cambojanos.

28.4.09

Do outro lado do mesmo mundo
















Durante a minha recente estadia no Cambodja, escrevi, a propósito de uma viagem de barco no lago Tonle Sap:
À beira de uma estrada e de um canal, e sobretudo num extensíssimo lago, muitos milhares de pessoas vivem numa situação absolutamente inimaginável. Em barracas sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene.
Deixo hoje aqui algumas fotos que estão longe de poder dar uma pálida ideia da realidade, talvez melhor apreendida através deste pequeno vídeo.



Vi pessoas beberem a água do lago e é com ela que se cozinha e que se toma banho. Não consegui fotografar, mas também vi, um pequeno curral flutuante com quatro porcos, amarrado à um dos lados de uma casa. Saltavam crianças mais ou menos esfarrapadas de tudo o que era buraco.
Devo dizer que estas imagens ficarão entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz, apenas suplantadas pelo horror que a recordação do Ganges, em Varanasi, me inspira ainda, já a alguns anos de distância. Nesse caso, horror aliado a um sentimento de revolta pelo carácter religioso do que se passa – não fosse eu já ateia quando lá estive e teria certamente vivido o meu último dia de respeito por religiosidades obscurantistas e maléficas. Do Cambodja, vim com a sensação de que a revolta nascerá naquele lago e de que os que sobreviverem acabarão um dia por ter uma vida normal e decente, humanos que são como nós.

18.4.09

Um outro Cambodja

Três dias entre templos e uma rua com hotéis para turistas mantiveram-me provisoriamente afastada do pais paupérrimo que vi a poucos quilómetros. 'A beira de uma estrada e de um canal, e sobretudo num extensissimo lago, muitos milhares de pessoas vivem numa situação absolutamente inimaginável. Em barracas sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos 50 anos e onde as crianças que morrem todos os dias são pura e simplesmente atiradas ao lago.

A percepção da pobreza extrema continua em Phnom Penh que viu a sua população aumentar para dois milhões de habitantes desde que duzentas fábricas de têxteis aqui se instalaram, muitas como resultado de deslocalizações dos nossos países. Maná caído do céu, mesmo quando se trabalha 364 dias por ano, com condições e salários que não é difícil imaginar.
As belas teorias sobre o que não devia acontecer continuam de pé, mas a realidade, bem mais dura e bem mais crua, faz-me rebobinar o filme da globalização e não me deixa muito optimista. Novidade? Nenhuma, mas uma coisa é saber e outra, bem diferente, é VER.
Enquanto nós continuamos a tentar (em vão?) manter os nossos privilégios de ricos que ainda somos, os muitos Cambodjas deste mundo procuram apenas sobreviver - no sentido mais estrito da palavra.

Amanhã, antes de apanhar o avião de regresso, verei os killing fields dos khmers vermelhos e o Museu do Genocídio - será a cereja em cima do bolo.
Nunca me esquecerei deste país.