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13.1.26

Irão: como se vai sair da crise que o país atravessa?

 



26.6.25

O engenheiro do caos deixou tudo mais perigoso

 


«Já nem falo da violação do direito internacional como referencial mínimo de comportamento. É dele que dependem nações mais frágeis, como o Taiwan ou a Ucrânia, pelo menos na sua defesa política contra o regresso da lei do mais forte, ao gosto de Putin, Trump e Netanyahu, primos políticos e morais. Fico-me pelos resultados práticos da intervenção de Israel contra o Irão. Na sua rápida aventura iraniana, Israel teve vitórias simbólicas e práticas relevantes.

Conseguiu levar a guerra para dentro do Irão, depois de este passar décadas a combatê-lo através do apoio a guerras por procuração fora de casa.

Terá deixado em mau estado o sistema de mísseis balísticos iraniano, mas, em troca, o seu território foi bombardeado por mais do que rockets, uma experiência rara para as populações de Telavive e Jerusalém, o que mostrou a diferença entre o Irão e os outros alvos que Israel escolheu no passado recente. Imagino que, para a decisão de não continuar a guerra, terá pesado o impacto psicológico dos bombardeamentos.

Terá conseguido decapitar parte da liderança militar iraniana.

E mostrou que a aliança do Irão com a Rússia, demasiado enterrada na Ucrânia, e com a China, pouco dada a intervencionismos militares, é menos sólida do que parecia. Não sabemos, é verdade, o que aconteceria se a guerra fosse mais longe e estivesse em causa a circulação no estreito de Ormuz ou a sobrevivência do regime. Mas, depois de neutralizar o Hamas e o Hezbollah (quem acha que foram destruídos conhece mal aquela realidade), de ver cair o regime de Assad e de só restarem os hutis, no Iémen, esta prova de fogo, no momento em que o Irão está económica e politicamente mais fragilizado, foi importante.

O NARCISO E O ENGENHEIRO DO CAOS

Benjamin Netanyahu conseguiu, por fim, arrastar os Estados Unidos para uma guerra com o Irão. Era o sonho de uma vida. Mas, aí, a vitória foi pífia. As divisões dentro da base de apoio de Trump, o risco de ver o preço do petróleo disparar (e se o regime de Teerão tivesse sido encostado à parede, cometeria o suicídio económico de encerrar o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo do mundo, afetando a China, que é o seu principal destino) e a forte possibilidade de, com uma baixa americana, o envolvimento do homem que sonha com o Nobel da Paz se tornar incontrolável na escalada dos eventos levaram Trump a picar o ponto, fazendo os mínimos para cumprir o papel de aliado de Israel, apenas no que os Estados Unidos eram indispensáveis.

Como o Irão não desejava a escalada, as suas respostas foram sempre proporcionais e, no caso dos EUA, totalmente coreografadas. Para Trump, chegou para mudar o alinhamento da Fox News, que tinham Israel como estrela, alimentando o seu narcisismo. O problema de Netanyahu é ter pouco para dar e demasiado para pedir a Trump, que pensa em tudo como pensa nos negócios.

Havia um objetivo secundário, um extra desejado, que felizmente ficou pelo caminho: fazer o regime iraniano (ou o país) colapsar através de uma intervenção externa. Até se apresentaram soluções delirantes, como a do filho de Reza Pahlavi. Não é que eu não deseje o fim de uma ditadura teocrática e brutal. Mas talvez os engenheiros do caos devessem ter aprendido com os erros passados. Iraque, Líbia e Afeganistão foram as suas extraordinárias obras. No caso do Iraque, ela levou a centenas de milhares de mortes, ao nascimento do Estado Islâmico, à guerra civil na Síria, a uma crise migratória para a Europa, ao crescimento da extrema-direita.

Para Netanyahu, é indiferente. É do caos à sua volta que se tem alimentado. Para o resto do mundo, seria uma tragédia. O regime iraniano terá de mudar por dentro. Não sendo, ao contrário do que eram o Iraque ou a Líbia, uma ditadura unipessoal; tendo uma classe média relativamente forte e instituições mais sólidas, há condições para isso acontecer. Até havia bons sinais, com a crise económica e algumas cedências do moderado Masoud Pezeshkian. Veremos se, depois desta intervenção, não foi a linha dura dos Guardas da Revolução a reforçar o seu poder. Esperemos que não.

ADIADO POR MESES

Onde o ataque conseguiu pouco foi onde dizia que tinha de conseguir tudo. Segundo a Defense Intelligence Agency (DIA), a agência de informações do Pentágono, os ataques terão apenas atrasado o programa nuclear iraniano por alguns meses – as reservas de urânio do Irão não terão sido destruídas e uma das fontes até diz que as centrifugadoras estão praticamente intactas. Num país que é autossuficiente na capacidade de o refazer.

O ataque não aconteceu porque a bomba nuclear estivesse iminente. Netanyahu diz que está iminente desde 1995. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica e os serviços de inteligência norte-americanos nunca confirmaram evidências de que tal fosse verdade. O ataque foi decidido há um ano, aliás. Aconteceu agora por causa do enfraquecimento dos aliados iranianos e das condições operacionais. O sentido de urgência foi fabricado.

Este ataque pode ter conseguido outra coisa: uma machadada na participação do Irão no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e na sua participação séria em negociações, depois de Trump ter posto fim ao Joint Comprehensive Plan of Action, acordo que realmente susteve o plano nuclear iraniano (depois desta decisão, em 2018, o programa acelerou), e de ter bombardeado o país a meio de conversações.

A desnuclearização total do Irão, exigida por Israel, nunca acontecerá. Não é uma questão de regime, mas de Estado. O programa nuclear começou em 1954, com o Xá Reza Pahlavi e apoio de França e dos Estados Unidos. Por outro lado, o Irão está próximo de potências nucleares, como o Paquistão, a Índia, Israel e a China, sendo, com a Turquia (debaixo do guarda-chuva nuclear da NATO) e a Arábia Saudita (aliado preferencial dos EUA), a única grande potência sem instrumentos de dissuasão. Que lição tirou deste ataque? Que se tivesse a arma, não teria sido atacado.

A grande lição que o Irão pode tirar de tudo isto é que precisa de ter capacidade nuclear. Não obrigatoriamente a bomba, mas, como explicou Daniel Pinéu na entrevista que lhe fiz no Perguntar Não Ofende, uma capacidade de dissuasão latente. Na realidade, o TPN só funcionou contra eles. O caminho pode ser o de abandonar o TPN e a fátua que não lhes permite usar armamento nuclear. E fazer o mesmo que fez Israel: construir a arma em segredo, fora dos limites de qualquer tratado ou supervisão. O que leva à pergunta óbvia: ficámos mais ou menos seguros depois desta intervenção?»


23.6.25

Um louco guia um cego para tentar repetir o Iraque

 


«Antes que a memória recente se perca, foi Israel que atacou o Irão, ao que se seguiu um ataque dos Estados Unidos, por ordem do mesmo presidente que pôs fim ao acordo de supervisão do programa nuclear do país atacado. Ache-se o que se achar do regime iraniano (imaginam o que acho de um regime teocrático que desrespeita os direitos das mulheres e reprime os opositores), é ele que se está a defender, não o oposto.

Logo depois de fazer um ataque que diz ter sido um sucesso, Trump disse que o poderia continuar, assumindo o que Israel já assumira: que o risco de o Irão ter armas nucleares não passou de um pretexto. Um pretexto para Netanyahu puxar Trump para uma guerra. Em Telavive, é claro que se quer derrubar o regime de Teerão sem saber o que vem depois, porque é no caos que Netanyahu sobrevive. Em Washington, cada um insinua coisas diferentes sobre os objetivos da intervenção.

Parafraseando Lídia Jorge, que citou Shakespeare: um louco guia um cego. O primeiro sabe que busca o que Bush procurou no Iraque. O segundo talvez acredite (acreditará?) que a sua intervenção foi mesmo por causa do risco de uma bomba nuclear e confirma o monumental falhanço da sua política externa: prometeu tirar os EUA de todas as guerras, mas não conseguiu dar um passo na direção da paz na Ucrânia e envolveu os EUA num confronto direto com o Irão, sem autorização do Congresso.

Em 1995, Netanyahu disse que, daí a três ou cinco anos, o Irão teria a bomba; em 1996, disse que o tempo se estava a esgotar; em 2006, que estava muito próximo; em 2012, faltavam seis meses; em 2015, estava a semanas; em 2018, faltava mesmo muito pouco tempo; em 2025, era daqui a poucos meses. E, no entanto, não temos qualquer evidência de que o Irão estivesse próximo de uma arma nuclear.

Trump até teve, para acompanhar a narrativa israelita, de dizer, na sexta-feira, que a diretora nacional de Inteligência, Tulsi Gabbard, estava errada ao sugerir que não havia provas de que o Irão estivesse a desenvolver uma arma nuclear. E teve de ignorar o diretor-geral da AIEA, que disse, na quarta-feira, que o relatório da AIEA foi deturpado e que não há "nenhuma prova de um esforço sistemático do Irão para conseguir a bomba atómica". Ontem, reiterou que não dispunha dos elementos necessários "para demonstrar que o Irão planeava desenvolver uma arma nuclear".

Estamos, é bom recordar, a falar de um país que foi atacado por outro, que, esse sim, tem armas nucleares à margem de qualquer tratado ou supervisão internacional. O que parece ser ignorado, apesar da agressividade, desrespeito sistemático pelo direito internacional e atual participação num genocídio de Israel.

Já vimos isto tudo. A assunção, contrariando a informação dos serviços de inteligência, da ameaça iminente de uma arma de destruição em massa. O ataque preventivo que o direito internacional não permite. A tentativa de mobilizar as opiniões públicas com a natureza ditatorial e atentatória aos direitos humanos do regime do país atacado, como se o novo regime sírio, cúmplice de Israel, não fosse liderado por um carniceiro vindo da Al-Qaeda e o maior aliado dos EUA na região não fosse a Arábia Saudita, que nega direitos às mulheres e ataca direitos humanos e liberdades cívicas. A promessa de reinvenção do Médio Oriente, ignorando as consequências destas aventuras. Os delírios de mudar um regime através de uma ofensiva externa, sem fazer ideia de quem sejam os sucessores e que dinâmicas internas serão libertadas. Visto daqui, a utilização da Base das Lajes é a cereja em cima do bolo no déjà vu iraquiano.

A intervenção no Iraque foi responsável por um número ainda indeterminado de mortos, mas que andará pelas centenas de milhares. Foi responsável por um vácuo de poder, lutas sectárias e uma desestabilização que levou ao nascimento e crescimento do Estado Islâmico, que acabaria por transbordar para a mortífera guerra da Síria que, por sua vez, levaria a mais umas centenas de milhares de mortos e estaria na origem da onda migratória que atingiu a Europa e fez crescer a extrema-direita. Na altura, não faltou quem explicasse que a queda da primeira peça do dominó faria cair as seguintes, encaminhando a região para a democracia. Encaminhou-a para o caos, como os que se opuseram à guerra previam.

Agora, um homem que foge do seu próprio destino (a prisão) acredita que pode moldar toda a região aos seus próprios interesses, prendendo a maior potência do mundo e a paz internacional à sua infinita arrogância. E o mundo parece estar disposto a permiti-lo.

Mesmo sendo esta aventura liderada por dois irresponsáveis encartados, um deles com um longo currículo de crimes de guerra e contra a humanidade, vejo os mesmos que deixaram cair uma lágrima furtiva quando viram os tanques americanos chegar a Bagdad a recuperarem a superioridade moral de quem não aprendeu nada com a história. Até estou à espera das mesmas acusações de apaziguamento e cumplicidade com tiranias que então se ouviram.

Só que o Irão não é o Iraque. É uma sociedade muito mais consolidada, uma civilização milenar, uma potência regional e um território impossível de invadir que controla o estreito de Ormuz, por onde circula 20% do abastecimento global de energia. As caricaturas de um regime que, sendo ditatorial, corresponde a uma sociedade e uma realidade política bastante mais complexas e contraditórias do que eram as do Iraque explicam a leviandade com que se está a abrir esta Caixa de Pandora.

Trágico é ver o mundo depender de os líderes da maior teocracia do mundo não retaliarem (como teriam legitimidade para fazer) e não aprenderem nada com estes dias. Se aprenderam, concluirão que, se continuarem a negociar com uma administração que não mantém a mesma palavra durante 24 horas, continuarão a ser atacados enquanto o mundo exige que se sentem na mesa de negociações de que nunca saíram, e que o melhor a fazer para a sua defesa é terem mesmo a arma nuclear. A tragédia desta ação é explicar ao Irão que o melhor para eles é o pior para todos.»


7.10.23

Culpada do “desejo de viver”

 


«1. Apesar da guerra na Europa, as heróicas mulheres do Irão não têm sido esquecidas. A imprensa ocidental não as esquece. As redes sociais também não. Os responsáveis políticos europeus e norte-americanos talvez se preocupem mais com o fornecimento de drones à Rússia pelo regime teocrático de Teerão. O júri do Prémio Nobel da Paz lembrou-se delas. Escolheu uma delas, fechada nos calabouços do regime e condenada a um somatório de 31 anos de prisão, mais a 154 chibatadas por ofensas como ter escrito uma carta ao secretário-geral da ONU – dispensam-se mais palavras para descrever a natureza do regime dos mullahs –, que fez do combate pelos direitos humanos e pela democracia a sua vida e que é hoje um dos rostos da luta das mulheres iranianas pela liberdade. Desde 16 Setembro de 2022, o dia em que Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, morreu depois de entrar em coma numa esquadra da polícia onde estava por ter o véu (hijab) mal posto, que a luta das mulheres iranianas não mais parou. Conta-se hoje em centenas de vítimas mortais e milhares de prisões.

2. É sempre difícil medir o sofrimento causado pela repressão, como é impossível medir a coragem dos que lutam contra ela. É ainda mais difícil a uma mulher europeia imaginar o que é viver sob um regime que fez da submissão das mulheres um dos seus principais instrumentos de poder. Mas tudo se torna mais fácil quando essa luta escolhe como símbolo os cabelos que as iranianas se sentem no direito de exibir livremente, num gesto que fere no seu âmago a ideologia reaccionária dos seus opressores.

A revista Time elegeu-as as “heroínas” de 2022. Na capa do número especial de Dezembro que se dedica aos protagonistas do ano que acaba, figuram três mulheres iranianas, de costas voltadas, que se abraçam, exibindo apenas os seus cabelos destapados. Zelensky foi a personalidade do ano. Elas foram as heroínas.

3. A sua luta contra o regime teocrático não começou agora. Desde 2010 que as mais corajosas se reúnem através da Internet para organizar manifestações tantas vezes solitárias contra os ayatollahs. Começaram com a “Campanha Branca das Quartas-Feiras”, que atingiu o seu clímax quando Vida Movahed, empoleirada numa caixa de cartão na Rua da Revolução, em Teerão, retirou o seu hijab branco, o colocou no extremo de uma vara e acenou com ele à multidão. Foi presa. O vídeo do seu gesto de desobediência tornou-se viral. Nos meses seguintes, foi repetido por muitas outras mulheres, que ficaram conhecidas como “as raparigas da Rua da Revolução”. Pouco tempo depois, em Setembro de 2017, a jornalista Masih Alinejad lançou a campanha “A minha câmara fotográfica é a minha arma”, com a publicação nas redes sociais de vídeos da violência que sofriam às mãos da “polícia da moralidade”, quando não usavam o véu islâmico. O movimento que eclodiu em Setembro de 2022 tem, portanto, uma história. A diferença é que se tornou imparável, mobilizou milhões em todas as cidades do Irão, ganhou lugar nos media internacionais. Nunca mais deu descanso aos ayatollahs. O Prémio Nobel da Paz é mais um alento, talvez inestimável. E uma condenação internacional do regime.

4. No dia 8 de Setembro, para assinalar um ano desde a morte trágica de Mahsa Amini, o Le Monde publicou as cartas de cinco mulheres que estiveram ou estão ainda na prisão de Evin, a norte de Teerão, entre elas, Narges Mohammadi. “No Irão, cada indivíduo, em cada momento da sua vida e em cada lugar, é culpado do desejo de viver. Incorre, por este crime, nas piores sanções.” A carta começa assim: “O meu propósito é dar um rosto aos seres humanos que, um pouco por todo o mundo, estão encerrados numa prisão, quer estejam rodeados por muros de aço ou pelos muros da opressão, mas que, contra tudo e contra todos, aspiram a derrubar esses ‘muros’: os da ignorância, da exploração, da pobreza, da privação e do isolamento.”

Narges Mohammadi, 51 anos, mãe de família, é vice-presidente do Centro dos Defensores dos Direitos Humanos, dirigido pela advogada Shirin Ebadi, que recebeu, também ela, o Prémio Nobel da Paz, em 2003 – a primeira mulher do mundo islâmico a recebê-lo. Foi uma das primeiras juízas iranianas, demitida depois da tomada de poder pelos ayatollahs, em 1979. Abriu um escritório privado para defender presos políticos. O júri do Prémio justiçou a sua escolha com o desejo de reduzir a tensão entre o mundo islâmico e os Estados Unidos, na sequência do 11 de Setembro. Na altura, havia ainda a esperança numa evolução reformista do regime. Vinte anos depois, essa esperança deixou de existir.»

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9.3.23

Pelo crime de ser mulher e imigrante afegã, não pude terminar os estudos

 


«"Eu também trabalhava em saúde. Era enfermeira no serviço de urgência de medicina num hospital do meu país. Adorava o meu trabalho", disse-me, de olhos a brilhar. Mas depois, os olhos mudaram, como se se tivesse perdido, e acrescentou: "Mas agora sou apenas refugiada e estou metida neste campo."

Aquilo tocou-me fundo enquanto exercia medicina ali. A palavra "refugiada", dita daquela forma, tocou num ponto sensível, mas actual. Muitas vezes os refugiados são vistos como menos do que são e reduzidos a um rótulo que não é suficiente para serem livres. Muito também por culpa dos Estados europeus, que não cumprem com as suas obrigações para com as pessoas que nos chegam a fugir da opressão. É importante lembrar que são pessoas como nós, com histórias, sonhos, e que foram forçadas a fugir da violência do seu país. E nós, enquanto sociedade, podemos mudar a conotação com que é dita.

Podemos começar por conhecer as histórias de mulheres como ela, e questionar os nossos preconceitos, para que, enquanto sociedade, exijamos o tratamento digno e justo, de modo a que possam reconstruir as suas vidas. Deixo-vos a história de uma mulher extraordinária que conheci, sempre de sorriso no rosto, e uma palavra amiga. É a Masoumeh, que assina também este texto, e que hoje tem a coragem de partilhar a sua história abaixo, na primeira pessoa. Fica aqui o testemunho.

"Sou do Afeganistão, mas nasci no Irão. Pelo crime de ser mulher e imigrante afegã, não pude terminar os estudos, e fui sempre tratada como insignificante e discriminada. Ainda assim, tentei estudar e aprender inglês. Queria ter feito muitas coisas, mas não pude, pois era rapariga. Um dia, não pude ficar mais no Irão. Era inseguro, politicamente e religiosamente. Não podia estudar, trabalhar, escolher a roupa que queria vestir. Eu tinha um sonho, queria ser livre como os outros. Então, há quatro anos, comecei a jornada pela minha liberdade.

Cruzei fronteiras, enfrentei perigos. Fui a pé do Irão à Turquia, e de lá para a Grécia, num barco com 40 pessoas, durante nove horas. Demorei dois meses para chegar: fui assediada pela polícia turca, dormi à beira do rio, vivi na floresta. Cheguei a beber só meio copo de água por dia e comer um pedacinho de pão. Fiquei doente. Lesionei o meu joelho e tornozelo na travessia. Comigo havia tanta gente. Tinha de ser forte, continuar. Quando cheguei à Grécia, pensei que agora era livre, mas não. A polícia grega brutalizou-me.

Vivi quatro anos num campo-prisão, sem direitos. Tornei-me deprimida e solitária. Mas, apesar de todos os abusos, decidi reerguer-me.

Com a ajuda de um grande amigo, conheci a fotografia, que me deu forças para transformar tudo o que vi em imagens. Consegui expressar a dor das mulheres de quem ninguém quis ouvir a voz. A fotografia transformou-me. Já não sou a Masoumeh cansada e decepcionada, aquela que foi quebrada, que aceitou ser uma refugiada fraca que deveria viver toda a vida num contentor num campo de refugiados. A fotografia tirou-me da escuridão. Trouxe-me paz e poder para lutar contra os meus medos, ensinando-me que sou um ser humano cheio de capacidades. A fotografia tornou-se numa arma para transformar a minha dor e felicidade em imagens. Ajudou-me a mostrar os factos e permitiu-me comunicar com as pessoas sem ser por palavras. E, por isso, apesar de tudo o que vivi, quero dizer a todas as mulheres para se erguerem e lutarem pelos seus direitos. Não importa quão difícil seja o caminho. Devemos respeitar-nos e valorizar-nos, acreditar que conseguimos."»

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18.1.23

Da crise brasileira ao perigo global iraniano

 


«A gravidade do que aconteceu a 8 de janeiro em Brasília é indiscutível. Convém, no entanto, ter presente que se tratou, simultaneamente, de atos de violência criminosa e de um enorme desafio político. As instituições judiciárias ocupar-se-ão da parte criminal e o Presidente Lula da Silva deverá responder à questão política, que passa sobretudo pelo fortalecimento da unidade nacional. Quero acreditar que o conseguirá, tendo em conta a força das instituições democráticas do país e a sua experiência política pessoal.

Das imagens chocantes, que os brasileiros puderam ver em direto, parece ter resultado uma nova atmosfera política mais moderada. E também a compreensão que os comportamentos antidemocráticos são inadmissíveis, em toda a parte e sobretudo num país que tem a pretensão de poder exercer algum tipo de liderança na cena internacional. Penso, por isso, que não existem motivos para preocupação quanto ao futuro democrático do Brasil. Lula deve, no entanto, compreender que a prioridade é unir na medida do possível os cidadãos no combate aos problemas que de facto contam, a começar pela luta contra a pobreza e as desigualdades sociais, pelo reforço da segurança das pessoas e pela proteção do Amazonas e dos outros ecossistemas que fazem a riqueza e universalidade do país.

Para nós, no exterior, é altura de virar esta página e continuar o foco na procura de soluções para os problemas que realmente ameaçam a paz internacional.

Neste início de ano, é fundamental reconhecer que a comunidade das nações se encontra numa encruzilhada extremamente perigosa, no que respeita à convivência pacífica entre os Estados. O caso da Rússia contra a Ucrânia é certamente o mais grave. Mas o que se passa no Irão é igualmente preocupante. Requer medidas muito sérias. O regime do Irão é uma ameaça aterradora para os direitos humanos do seu povo e uma das piores aberrações políticas na cena internacional. É um perigo para os vizinhos, um fornecedor de drones que aumentam o potencial mortífero dos agressores russos e é um potencial patrocinador de atentados terroristas, incluindo no espaço europeu. Está, além disso, à beira de dispor de meios bélicos de base atómica. Ou seja, reúne um número suficiente de condições para ser considerado um Estado pária, inaceitável como membro da comunidade internacional.

Por outro lado, há que reconhecer a coragem do povo iraniano, que desde setembro tem estado nas ruas para exigir o fim da ditadura dos aiatolas. Apesar da repressão já ter matado para cima de 500 pessoas, e de já haver 17 condenados à morte, quatro dos quais já foram executados, sob a acusação absurda de "terem declarado guerra contra Deus", as manifestações continuam. Ao mesmo tempo, um trabalhador humanitário belga, com uma história profissional perfeitamente reconhecida, foi esta semana condenado a 40 anos de prisão e a 74 chicotadas, sob a falsa acusação de espionagem. Este é um procedimento já seguido contra outros estrangeiros, sendo o caso mais famoso o de Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma anglo-iraniana que esteve detida durante seis anos por razões de chantagem política sobre o Reino Unido, e que foi libertada há cerca de um ano. Mas há mais. A França tem sete cidadãos seus encarcerados no Irão. Há mais de vinte ocidentais na mesma situação. A acusação é sempre a mesma: espionagem e incitação à agitação social. Tudo inventado.

O Irão não pode continuar a ser uma ameaça impune. Porém, a grande questão é saber como deve a comunidade internacional resolver situações deste tipo. Do lado europeu, existem sanções, mas isso não chega. Além do apoio russo, o Irão conta com um acordo de cooperação com a China, assinado em março de 2021 e válido por 25 anos. Este acordo é particularmente importante para a manutenção no poder dos retrógrados religiosos.

Se a China quiser ser levada a sério quando fala na promoção de uma nova ordem internacional, deverá começar por recusar tratados deste género. É isso que nós europeus devemos sublinhar quando os chineses nos propõem um sistema multilateral menos ocidentalizado e mais representativo das realidades globais. Essas normas globais são muito fáceis de definir: devem ter como ponto de partida os direitos fundamentais das pessoas e a exclusão dos regimes políticos que não respeitam esses direitos elementares.»

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27.12.22

Glória ao Irão insurrecto

 


«Todos os fins de ano nas redações - suponho que seja assim em todas - pedem aos jornalistas que nomeiem os acontecimentos e personalidades nacionais e internacionais que mais marcaram os 365 dias anteriores. Este ano havia, no plano internacional, dois acontecimentos (a meu ver) rivais em importância: a invasão da Ucrânia e a revolta feminista no Irão. Decidi pelo primeiro, sentindo-me porém a trair aquele que é um dos mais deslumbrantes movimentos de massas a que assisti em vida, de uma coragem e espírito de sacrifício - martírio é a palavra certa - inigualáveis.

É que se entra pelos olhos adentro (mesmo se há quem esteja voluntariamente cego) que os ucranianos estão a demonstrar uma coragem e uma resiliência que parecem sobre-humanas, de certa forma pode-se dizer que a isso foram obrigados pela agressão da Rússia e pela ameaça de anulação como nação e povo que esta, declaradamente, significa; pararem de lutar é aceitarem não existir. E nas lutas pela sobrevivência os povos, como as pessoas, podem descobrir forças onde nem sabiam que as tinham.

Acresce que os ucranianos estão a receber muito apoio e ajuda, não apenas em discurso mas em coisas que fazem realmente diferença - armas, dinheiro, sanções contra a Rússia. Têm parte do mundo com eles, e a pôr o dinheiro onde está a boca, como se diz em inglês.

Em contraste, quem no Irão sai à rua desarmado para enfrentar os torcionários do regime e as suas balas reais (e imaginar a coragem necessária para isso?) mais a probabilidade de detenção, tortura e condenação à morte não tem, apesar do que pretende a propaganda da teocracia, sempre obcecada com teorias de conspiração, a ajuda material de ninguém.

Ninguém arma, ninguém financia aquelas pessoas que arriscam tudo para gritar pelos direitos das mulheres e exigir liberdade e democracia. Se já foram anunciadas, pela Comissão Europeia, sanções contra o Irão especificamente relacionadas com a brutal repressão dos protestos, não é crível que tenham grande expressão e portanto efeito - até porque o país já está sob sanções, devido ao seu programa nuclear, há muito.

E na verdade, como bem escreveu Bárbara Reis no Público a 24 de dezembro (É sobre o Irão, pode ler, sff), as bravas e bravos iranianos nem sequer têm a seu favor a atenção, o interesse, a emoção e o carinho que a luta da Ucrânia vem merecendo - por exemplo a quem consome jornalismo.

Como a Bárbara, reparei que os textos de opinião que escrevo sobre o Irão movimentam muito poucos leitores - inclusive no Twitter, se o Twitter pode servir como barómetro, parecem ser dos menos comentados e partilhados. Pensei que seria por falta de capacidade da minha parte, mas perante a evidência de que foram os menos lidos de entre os que a minha camarada do Público escreveu em todo o 2022, há que admitir que nem as portuguesas nem os portugueses acham aquela luta, e a brutal repressão que ela suscita, coisa que lhes diga respeito.

Não veem ali - como pelos vistos tantos reconhecem na Ucrânia, a crer nas sondagens - uma luta fundamental por valores "seus", a defesa de uma visão do mundo e de uma forma de viver que é, como tanto se repete, a "ocidental". Não veem ali o heroísmo de quem afronta a morte para erguer o estandarte das democracias contra as tiranias.

No entanto é exatamente disso que se trata - aquelas pessoas estão a lutar apenas e só por aquilo a que costumamos, com a nossa proverbial arrogância, apelidar de "valores ocidentais": direitos das mulheres, e portanto direitos humanos; liberdade para decidir viver como querem e não como a teocracia lhes impõe; um regime laico, que resulte de eleições livres, não uma ditadura de clérigos.

E estão a fazê-lo de livre e espontânea vontade. Não havia uma ameaça direta à sua sobrevivência - podiam ficar em casa nas suas vidas como antes; podiam continuar a conformar-se com aquilo que há décadas, e no caso dos mais jovens, desde sempre, as e os deixam fazer e com aquilo que não as e os deixam fazer. Podiam calar-se. Em vez disso, resolveram tratar a repressão do regime como uma invasão estrangeira, tão ilegítima e tão visceralmente insuportável e anuladora das suas identidades como a da Rússia é para a Ucrânia.

Estão a fazê-lo há 100 dias, contando apenas uns com os outros. Estão a fazê-lo sem lideranças, sem um rosto e uma voz que como os de Zelensky simbolizem a sua coragem e resistência, e corram o mundo a exigir solidariedade. Estão a fazê-lo cercados por todos os lados, contra uma muralha de armas e terror. Estão a fazê-lo prometendo antes morrer que desistir.

Aliás o rosto desta rebelião, desta revolução, desta insurreição é o rosto de uma morta, Mahsa Amini. Não sabemos sequer se ela, que morreu detida, crê-se que por ter sido espancada pela "polícia da moral", era uma rebelde. Não sabemos se, não tivesse sido ela a morrer, sairia à rua com os que protestam. Dela só se sabe que tinha alegadamente o hijab, o lenço com que a lei obriga as mulheres no Irão a cobrir o cabelo, "mal posto". Foi esse o seu crime: mostrar demasiado cabelo. E foi pelo insuportável de isso ser um crime a merecer a violência dos esbirros do regime que as mulheres iranianas, e depois os homens iranianos, se ergueram.

Pela determinação de que não voltasse a acontecer - mesmo que, paradoxalmente, para não voltar a acontecer muito mais mansas, e os seus irmãos em luta, tenham de morrer. Se ofereçam à morte.

Como é que isto não (co)move o mundo? Como não interessa às portuguesas, aos portugueses?

A Bárbara conta os quilómetros que separam Portugal do Irão - 6500 - e o baixo número de iranianos que aqui vivem como fatores explicativos desta distância emocional e intelectual. Não sei se é por aí: quando nos EUA um negro foi morto pela polícia os portugueses solidarizaram-se e saíram à rua em protesto (e em plena pandemia) como, diga-se, nunca saíram quando negros foram brutalizados pela polícia portuguesa. Há fenómenos assim, importações de sentimentos que na verdade não sentimos.

E depois há essa verdade que como mulher sei sobre este país: os direitos das mulheres não movem Portugal. Nem os das portuguesas, quanto mais os das iranianas. Aliás, os direitos humanos em geral também nem por isso.

Nem tão-pouco a ideia de liberdade - essa ideia que levou um dos dois jovens executados pela sua participação nos protestos a, já vendado e a caminho da forca, escolher como últimas palavras "não quero que rezem na minha campa, quero que dancem e oiçam música."

Chamava-se Majidreza Rahnavard, tinha 23 anos. Glória a ele, glória aos que como ele lutam contra a teocracia que invadiu o seu país. Glória aos mártires da democracia e da liberdade, no Irão como em qualquer outro lugar.

Mulher, vida, liberdade. Sempre.»

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24.12.22

É sobre o Irão, pode ler, s.f.f.

 


«Hoje é sábado, 24 de Dezembro, e amanhã é Natal. Sei que o Irão não vos interessa. É a 6500 quilómetros daqui e, em Portugal, vivem menos de dois mil iranianos — a relação é ténue e o tema pouco sexy.

Digo isto porque acabo de ver que, de tudo o que escrevi em 2022, os dois últimos Coffee breaks, que eram sobre o Irão, bateram os recordes dos textos menos lidos. Não esperava ter 100 mil leitores, como já aconteceu, mas 315 almas?

Lamento insistir, para mais no Natal. Mas vai ter de ser. Penso no Irão todos os dias, mal acordo.

O Pedro Adão, um querido amigo que foi diplomata em Teerão, falava farsi sem pronúncia. Chegou ao novo posto e dedicou-se a aprender a língua. A embaixada fechava e ele ia para casa estudar farsi com uma professora improvisada, que se tornou sua amiga. Nos primeiros seis meses, passou noites a falar farsi com ela e, do bê-á-bá, passou à conversação fluente. Ele queria perceber o que se passava à sua volta. Quando o visitei, estava ele em Teerão há três anos, conheci vários dos seus novos amigos. Eram todos iranianos. Actores, escritores, músicos, economistas, empresários. O que será feito deles e dos seus filhos?

Aqui vai, como primeira mensagem de Natal: há muitos funcionários públicos, diplomatas e outros, que servem Portugal de uma forma tão dedicada que comove.

E a segunda: veja o que se está a passar no Irão. Não veja em geral. Veja todos os dias.

Se for ao Twitter, verá as parvoíces de Donald Trump e Elon Musk. Mas também lerá coisas como isto: “O seu nome é Aida Rostami, uma médica que ajudou a tratar os manifestantes feridos nos protestos no Irão. A 12 de Dezembro, saiu do hospital e nunca mais voltou. No dia seguinte, a polícia disse à família que ela tinha tido um acidente. Ninguém acredita nas mentiras do regime.”

Ou isto: “Aida Rostami, uma médica presa por tratar manifestantes feridos nas suas casas, foi dada como morta pelo regime do Irão. O seu corpo apresentava sinais de tortura, com um dos olhos arrancado e metade do rosto esmagado. O regime diz que ela morreu num desastre de carro.”

A revolução que as mulheres iranianas começaram a fazer e fazem há três meses sem pausa é a coisa mais comovente que vi em anos e anos de coisas comoventes que se passam no mundo.

Vi hoje que o regime não enforcou mais nenhum preso político. Há 11 à espera. Alguns foram presos há menos de um mês. Todos tiveram julgamentos sumários, que violam as mais elementares leis internacionais. Poderão ser mortos a qualquer momento. Se calhar, amanhã acordamos com essa notícia.

Desde Setembro, o regime prendeu mais de 14 mil pessoas. Muitos são rapazes e raparigas. Há estudantes universitários e empregados de mesa, médicos e operários. Estão na rua a protestar contra o regime e não querem que a morte de Mahsa Amini, de 22 anos, seja em vão. Amini é a rapariga curda detida por “uso incorrecto” do hijab e que morreu sob custódia da “polícia da moralidade”. Foi de tal forma espancada, que entrou em coma e morreu.

Hoje também vi que a actriz Taraneh Alidoosti continua presa. Publicou uma frase no Instagram — “O nome dele era Mohsen Shekari. Todas as organizações internacionais que estão a assistir a este banho de sangue e que não estão a tomar medidas são uma desgraça para a humanidade” — e sete dias depois foi presa. A IRNA, agência noticiosa oficial, disse que Alidoosti “não apresentou provas em linha com as suas denúncias”.

Alidoosti, de 38 anos, é uma das actrizes mais famosas do Irão — entrou no filme O Vendedor, de Ashgar Farhadi, vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 2016, e n’Os Irmãos de Leila, de Saeed Roustayi, em exibição nas salas portuguesas. Estará a ser torturada na prisão?

E o cineasta Jafar Panahi, preso em Julho e a cumprir uma pena de seis anos de prisão por ter apoiado protestos em 2010? Está a ser torturado? O seu filme No Bears — feito às escondidas — acaba de se estrear em Nova Iorque. E Mohammad Rasoulof, outro cineasta preso no Verão, está a ser torturado?

E Mahsa Peyravi, de 25 anos, presa em Outubro por ter tirado o lenço da cabeça e tê-lo rodado no ar, que acaba de ser condenada a dez anos de prisão por “incentivo à corrupção, depravação” e “imoralidade”, está a ser torturada?

No próximo Natal, vou tentar escrever um postal mais interessante. Este ano, só consegui isto.»

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29.11.22

O Irão não desiste

 


Imagens impressionantes da greve dos motoristas de estrada no Oeste do Irão. Num país onde os sindicatos não existem de maneira adequada, a organização deste tipo de acção é extremamente complicada e corajosa. #MahsaAmini

Farid Vahid no Twitter
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26.11.22

Entretanto no Irão



 

Farid Vahid no Twitter: Admiração e respeito pela juventude do Irão que, apesar da repressão sangrenta, das prisões, das agressões e das lutas, continua o combate pela liberdade. 
Imagens impressionantes da universidade de Ispahan, 26 de Novembro. #MahsaAmini
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30.10.22

Mulheres, vida, liberdade

 


«Nika Shakarami, Sarina Esmail¬zadeh, Ashra Panahi. Jovens iranianas de 16 anos. Corajosas. Mártires. Espancadas até à morte pelas forças de segurança durante os protestos que eclodiram no Irão na sequência da morte de Mahsa Amini, em setembro, três dias depois de ter sido detida pela polícia dos costumes em Teerão por usar incorretamente o hijab.

Jovens, quase ainda crianças, só pretendiam ter uma vida normal. Ousaram lutar pelo elementar direito de serem tratadas como cidadãs plenas e iguais, sem imposições desumanas e intoleráveis limitações à sua liberdade apenas por serem mulheres. Tornaram-se símbolos da luta contra o regime teocrático dos ayatollahs, luta que estoicamente se mantém há mais de um mês nas escolas, nas faculdades, nas ruas das cidades iranianas.

Mais de 200 pessoas já morreram, entre as quais pelo menos 23 crianças, e mais de mil pessoas foram detidas desde que começaram os protestos. Mulheres de todas as idades tiram os véus e cortam o cabelo em sinal de protesto, na rua, em locais públicos e nas redes sociais. Exemplos inspiradores de coragem, altruísmo, força moral e firmeza de caráter.

No Afeganistão, os talibãs dizimaram os direitos das mulheres desde que, em agosto de 2021, retomaram o controlo do país — o mundo viu esse momento com emoção, mas depressa se esqueceu das mulheres afegãs. Mulheres privadas do direito à educação, ao trabalho, à liberdade, sujeitas a violências indizíveis, a detenções, tortura e morte, como reporta o “Relatório” da Amnistia Internacional publicado em julho 2022.

Nestes, como noutros países, no Médio Oriente como em África, mas também no Paquistão, na Índia, no Bangladesh, as mulheres são discriminadas, impedidas de estudar e de trabalhar, privadas de liberdade, forçadas a casar em meninas, a engravidar e a abortar, humilhadas, assediadas, vendidas, trocadas, abusadas sexualmente, violadas, lapidadas, torturadas, mortas.

Também em países ocidentais, como a Polónia, as mulheres são condenadas à morte quando lhes é negado um aborto, mesmo em caso de perigo para a sua própria vida, como aconteceu em janeiro deste ano a Agnieszka T, de 37 anos, a quem foi negado um aborto depois da morte de um dos fetos numa gravidez gemelar.

E o que fazemos? Indignamo-nos, solidarizamo-nos, manifestamo-nos, mimetizamos gestos em sinal de apoio (como a eurodeputada sueca que cortou o cabelo quando discursava no Parlamento Europeu). A União Europeia aprovou algumas sanções a individualidades e organizações do Irão. É pouco. Muito pouco.

É preciso impor sanções diplomáticas, económicas, comerciais e desportivas aos Estados que violam frontal e sistematicamente direitos humanos, boicotar o acesso dos seus líderes e grupos económicos a centros de decisão política e de comércio internacional e apoiar as organizações que ajudam as vítimas, fazendo chegar ajuda humanitária ao terreno. Gostaria de ver Portugal erguer mais a sua voz nesse sentido.

É preciso cumprir e fazer cumprir a Declaração Universal dos Direitos Humanos e tirar a ONU da paralisia em que se encontra, nesta como noutras matérias. A comunidade internacional não pode continuar a tratar a violação sistemática dos direitos das mulheres como um assunto interno dos Estados.

E, já agora: boicotar o Mundial do Catar. Pelos direitos das mulheres, dos homossexuais, dos trabalhadores forçados reduzidos à escravatura… Mas isso é assunto para um próximo artigo.»

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