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4.2.19

Ainda cá teremos a Rainha de Inglaterra!




Marcelo e a nossa diplomacia tudo farão para mais esta vitória e isto ainda acaba com um visto gold e compra de um palácio à maneira…
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19.11.18

No, Minister!



«A Grã-Bretanha sempre desconfiou da Europa e esta nunca confiou em Londres. Está tudo exemplarmente descrito num velho episódio de "Sim, Sr. Ministro".

Nele, o secretário permanente Sir Humphrey diz: "Ministro, a Grã-Bretanha tem a mesma política externa há pelo menos 500 anos: criar uma Europa desunida. Por isso lutámos com os holandeses contra os espanhóis, com os alemães contra os franceses, com os franceses e italianos contra os alemães e com os franceses contra os alemães e os italianos. Dividir e reinar. Porque é que iríamos mudar agora, se correu tão bem?" Jim Hacker fica perturbado e Humphrey continua: "Tínhamos de destruir essa coisa, a CEE, e por isso tivemos de entrar nela. Tentámos quebrá-la do exterior, mas isso não funcionou."

Mesmo não entrando para o euro e, com isso, impedindo que, com a força do petróleo do mar do Norte, a moeda europeia fosse uma alternativa global ao dólar, a Grã-Bretanha não conseguiu quebrar o sonho hegemónico europeu de Paris e Berlim. Agora depara-se com a mais temível consequência da sua estratégia: a Europa uniu-se para humilhar o Reino Unido e este entrou em clima de guerra civil. Todos estão contra todos: tories contra tories, trabalhistas contra tories, escoceses contra ingleses, londrinos contra quem não é da capital. Para dividir ainda mais as hostes, a fronteira irlandesa é uma enxaqueca sem fim.

Este já não é um dilema de Hamlet, entre ser ou não ser. É entre ser sem o parecer. As tropas do Brexit, com Jacob Rees-Mogg à frente, parecem a carga da brigada ligeira: conduzem um país essencial à Europa para o suicídio. A Europa, extasiada e incapaz de perceber as consequências catastróficas da humilhação de Londres, prepara a espada para o haraquíri. O Reino Unido era fundamental para equilibrar as tentações de liderança de Berlim e os arrufos de Paris. Agora, se Theresa May cair, é expectável o caos no Reino Unido: não há um líder alternativo para unir, apenas grupos para desintegrar o que ainda existe. Sir Humphrey há-de regressar um dia para explicar que estratégia há para a política interna britânica.»

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26.9.18

A seis meses de voltar a casa



«Se eu gostaria de um segundo referendo ao Brexit? Claro que sim! Ao menos podíamos acabar com esta loucura de uma vez por todas.

Se estou de acordo com um segundo referendo? Claro que não! O voto foi universal e democrático, livre, em consciência, mesmo se às vezes nem por isso, mas a democracia é assim mesmo e a vontade da maioria é soberana. Não, não gostámos do resultado, mas respeitamos a vontade geral.

Faltam seis meses para o Reino Unido sair da União Europeia e nada está decidido: não há acordo comercial, não se sabe quem vai entrar ou sair e como, as duas Irlandas continuam sem uma fronteira física e ainda bem, os bancos estão a dar à sola e as grandes indústrias também, o custo de vida aumenta aqui na ilha e a procissão ainda vai no adro. Já toda a gente gosta dos imigrantes e o problema real é um e um só: a economia!

Nada está garantido e os direitos dos cidadãos da União Europeia também não. De modo a evitar o êxodo massivo de quem um dia veio para terras de Sua Majestade, o governo grita que não, que não vale a pena entrar em pânico, pedir a cidadania ou o cartão de residência. Mas o governo não somos nós e quem não é britânico não tem nada a ganhar, antes pelo contrário. Se nos tiram o emprego de pouco vale ter um papel nas mãos. Deus nos acuda.

Uma coisa é certa, e esta meta já existe: depois de Março de 2019 só entra no Reino Unido quem já tiver contrato de trabalho e um ordenado base de 30 mil libras por ano. Ir à aventura, à procura de emprego como nós viemos, acabou. Sair de Portugal para o Reino Unido porque se domina a língua acabou (e se talvez me desenrasque com um comme si comme ça, o alemão nem se fala).

Ao todo, três milhões de europeus vivem e trabalham no Reino Unido. Na eventualidade de um não acordo, os britânicos estarão sempre em primeiro. Tudo o resto, incluindo três milhões de europeus, passará a ser supérfluo. Vão-se os anéis e ficam os dedos, e como bons anéis que somos, quando esse dia chegar, não precisaremos que a polícia nos bata à porta. De cabeça erguida, caminharemos pela rua fora, com as malas e a vida nas mãos, para nunca mais regressar ao Reino Unido.

Ouvi agora notícias sobre a possibilidade de eleições antecipadas em Novembro. Serão bem-vindas, mas num cenário onde a maioria absoluta trabalhista é pouco provável, não se enganem, o Brexit vai mesmo para a frente, com ou sem acordo, e pelos vistos sem.»

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1.4.17

Incongruências do discurso neo-europeísta



«É tudo menos honesto querer fazer uma discussão de quem está contra e a favor da "Europa", como se para sermos "europeus" tivéssemos que amar as políticas europeias e o sistema institucional tão pouco democrático da UE (onde pesa muito mais o BCE e a Comissão do que o Parlamento, o único dos órgãos eleitos e, por isso, o que menos poderes tem). (…) A UE não foi construída para implementar diferentes políticas económicas; ela é, em si mesma, uma só política económica, ideologicamente liberal, como se comprovou de forma tão evidente ao longo destes anos de crise. (…)

É, por isso, curioso que nos últimos dias nos queiram convencer em Bruxelas que o que está em causa acima de tudo são os direitos, a liberdade de circulação e o bem estar dos cidadãos europeus que vivem na Grã-Bretanha. Curioso porque a mesma Bruxelas e os mesmos governos europeus concederam há um ano ao governo britânico o direito de passar a discriminar os cidadãos europeus que residem no país, retirando-lhes o direito a qualquer prestação social nos primeiros quatro anos de residência, incumprindo todas as normas europeias. Para o fazerem, os britânicos xenófobos não precisavam de votar o "Brexit". Preocupados com os direitos cívicos dizem-se os mesmos governos europeus que expulsam regularmente cidadãos romenos, tão europeus quanto os demais, basicamente porque são ciganos. (…)

Escandaliza-se a Europa "europeísta" com as motivações xenófobas da metade dos britânicos que votou pela saída da UE e, dessa forma, pela limitação dos direitos dos estrangeiros - todos, não só os de outro continente ou de outra religião, mas também os europeus. Brancos, cristãos, bem comportados, presume-se. Mas isto signifca que os mesmos polacos que a tudo estão disponíveis para impedir a entrada de um só refugiado sírio no seu território se indignem hoje com os ataques que na rua sofrem imigrantes polacos nos subúrbios de Londres! Ou que o mesmo governo holandês que na última campanha eleitoral criticava o racista Wilders incluísse aquele Dijsselbloem tão transparentemente racista que nos descreve como uma estouvada cigarra que gastou todo o seu dinheiro em "mulheres e copos" e depois quer pedir ajuda às formiguinhas luteranas do Norte!

Se a batalha de Bruxelas fosse pelos direitos dos cidadãos, a popularidade da UE não andaria tão rasteirinha ao chão.»

Manuel Loff

31.3.17

A guerra das rosas



«Theresa May assinou, na passada terça-feira, a carta que dá início ao Brexit. Como diria Paulo Portas, agora é irrevogável. A fotografia do momento da assinatura podia ter sido tirada em 1970. Dá a sensação que Theresa May foi roubar a roupa, os brincos e o colar à campa da Margaret Thatcher. Sinto falta da pena a assinar a carta. Aposto que a vai enviar por fax. Tudo cheira a Naftalina by Dior. (…)

A União Europeia sem o Reino Unido é como um sorriso sem um dente incisivo central superior. Perdemos o sentido de humor único dos ingleses e ficamos mais tristes nas mãos do humor alemão o que, por si só, é um oximoro. (…)

Não vai sair um divórcio amigável. A União Europeia vai exigir tudo o que puder exigir, quanto mais não seja pelo receio de perder o resto do harém. Perita em chantagens, como se viu no nosso caso, e no caso da Grécia, a UE irá fazer tudo para fazer a vida negra aos britânicos. Por outro lado, o Reino Unido está com a postura de quem diz - vou só comprar tabaco e já volto e depois nunca mais aparece.

Este divórcio vai ser uma espécie de Guerra das Rosas. Não falo da famosa Guerra das Rosas pela disputa do trono inglês entre os de York e os de Lancaster, mas do filme realizado por Danny De Vito, onde Michael Douglas e Kathleen Turner, um feliz casal de classe alta que, perante a vontade da parte da mulher de se divorciar, inicia um brutal e destrutivo conflito ao se deixar arrastar para um divórcio litigioso.

Numa sequência de cenas em crescendo e movidos por uma sede alucinante de vingança, e decisões idiotas, o casal vai acabar por destruir a sua fabula mansão e pertences com requintes de malvadez, acabando por se matarem um ao outro de forma violenta. O filme é uma parábola sobre a mesquinhez e a ganância dos seres humanos, e a fina linha que existe entre o amor e o ódio. Proponho que Theresa May e Donald Tusk, antes de começarem as negociações, assistam a esta obra genial de Danny de Vito.»

João Quadros

29.3.17

Hoje é o primeiro dia do resto da vida da UE



… qualquer que essa vida venha a ser. E nada leva a crer que seja feliz para sempre.
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O Brexit e o referendo escocês. Sonhos e pesadelos



«O Brexit vai avançar a toda a velocidade e o governo escocês, que preferia ficar na União Europeia, não acha graça. Por isso deseja convocar um novo referendo para saber se os escoceses querem sair do Reino Unido. Theresa May não achou piada às sugestões de Nicola Sturgeon e disse que a haver referendo só mais lá para finais de 2018 ou princípios de 2019, quando o processo do Brexit tiver terminado. (…)

Sobre o Brexit, William Hague, no "Daily Telegraph" argumenta: "Há quem ainda ache que o Brexit pode ser detido. Devemos mostrar que isto é a sério". E acrescenta: "Para os alemães parece ser tão inimaginável e ilógico deixar a UE que não conseguem acreditar que pessoas racionais como nós vamos nesse caminho". Bem interessante é a reflexão de Satyajit Das no "Independent": "O Brexit e Donald Trump prometeram soluções fáceis para problemas difíceis - mas o que acontecerá quando eles não as cumprirem? (…) O ingrediente político essencial de hoje não é a mudança, como muitos acreditam, mas a nostalgia. Os candidatos não tradicionais prometem restaurar uma idade de ouro da prosperidade, segurança e sociedades largamente homogéneas com valores partilhados". E acrescenta: "A Revolução Francesa não ocorreu quando as condições eram mais difíceis, mas quando a melhoria destas criaram expectativas melhores de progresso e mudança. Hoje as frágeis classes médias nos países desenvolvidos temem que o aumento dos seus níveis de vida esteja em risco".»

Fernando Sobral

2.7.16

Schäuble e as trevas no meio do caos



«Se a Floresta Negra foi o berço do nascimento do relógio de cuco, que nos trouxe as horas certas, Wolfgang Schäuble é a voz das trevas. A frase assassina sobre Portugal, sobre a eventual necessidade de um novo resgate, mostra como a miopia do que resta da Europa sem o Reino Unido permanece. (…) A dívida, já se sabe, é impagável. O défice pode ser controlado. Mas se essa é a única política da Europa (para lá da vontade de castigar quem não é da família do PPE ou não é "grande" como a França), para que serve a UE? Só para ser um mercado e ter uma moeda única? (…)

Além disso, a UE nunca teve uma política de defesa uniforme. Destruiu com isso economias, incapazes de pagar o serviço da dívida, como a Grécia ou Portugal. Criou uma legião de desempregados por toda a Europa. E foi empurrando as grandes economias do Sul (Itália e Espanha) para um beco. Agora o caos parece ser a norma. A pergunta impõe-se: vale a pena fazer parte desta Europa pouco democrática onde a única lei é a defesa do euro que interessa à Alemanha?

O problema é que este divórcio (o Brexit) nasceu da miopia de Bruxelas que fez desta Europa apenas um mundo de burocratas e de defesa do euro e de um mercado único que separa mais do que une. Onde o poder democrático de cada país foi achincalhado, como se viu continuamente na Grécia. Os líderes europeus estão convictos de que a Europa sobreviverá à saída do Reino Unido. Talvez sim. Talvez não. Mas o Brexit é o prelúdio da gradual desintegração do projecto europeu. Schäuble é apenas o incendiário de serviço à causa.»

Fernando Sobral

1.7.16

Perdidos na transição



«O Reino Unido votou e decidiu sair da União Europeia (UE), ao contrário do que eu tinha previsto na crónica da semana passada. (…)

Aquela gente não faz a menor ideia de onde está ou do que lá vem. No fundo, o Reino Unido está "Lost in Translation". O Reino Unido é o actor Bob Harris deambulando num universo desconhecido, com o seu velho estilo, de copo na mão, tentando fazer o que sempre fez, mas numa situação em que ninguém compreende o que diz e em que não consegue compreender nada. Está naquele semiestado de sonho de quem saiu de uma anestesia, mas sem a miúda gira para compensar. Estão perdidos na transição.

Não quero ser fatalista, mas bastou saírem da UE e já nem são a melhor ilha a jogar à bola. Eu até pensei que, no final do jogo com a Islândia, ia acontecer como com as selecções cubanas e metade dos jogadores ingleses desertavam e pediam asilo. E com a xenofobia que anda lá pela ilha aposto que ainda vão tirar a Björk do Madame Tussauds.

A decisão está tomada, deve ser respeitada. Não sei quem passou mandato a Junker para fazer piadas e ameaças à decisão livre de um povo europeu. Foi confrangedor. O principal rosto do sim ao Brexit, Nigel Farage, respondeu a Junker, dizendo: "Vocês, enquanto projecto político, estão em negação. Até a vossa moeda é um falhanço." Nigel Farage é o puto irritante, racista, xenófobo, asqueroso que gosta de fazer bullying mas, infelizmente, faz também o papel do miúdo que diz que o rei vai nu. Não há moral da história que aguente.»

João Quadros

29.6.16

Brexit: velhos porcos e maus



Daniel Oliveira no Expresso diário de 29.06.2016:


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Os donos da UE



«No fim-de-semana reuniram-se, em Berlim, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países fundadores da União Europeia (UE) para analisar o Brexit. (…) Angela Merkel, François Hollande e Matteo Renzi encontraram-se para concertar uma resposta ao Reino Unido. Diz-se, em defesa desta estratégia, que a UE precisa de ter uma voz de comando forte.

Acontece que o problema da UE não tem sido a falta de voz de comando. Antes pelo contrário. Todos sabem que o general que comanda as tropas é Angela Merkel, e que François Hollande e Matteo Renzi só fazem a vez de militares graduados por força do mercado interno dos respectivos países e do seu peso histórico. (…)

Ironicamente, tanto Hollande como Renzi ascenderam à liderança dos respectivos países, com promessas mais ou menos veladas de baterem o pé ao poder de Berlim sobre a UE. Desistiram dessa ideia, por causa das fragilidades económicas dos respectivos países e submeteram-se à visão dominante da Alemanha, a qual tem escrito a história política e económica da UE desde a crise financeira de 2008.

Estes encontros, por isso, mais não servem do que para institucionalizar a ideia de que existe uma UE a duas ou três velocidades, em que uns mandam e outros obedecem. A resposta ao Brexit, materializada nestes encontros dos que mandam, perpetua a concepção da UE que nos conduziu até aqui. Mais. Alimenta os discursos nacionalistas e fomenta em muitos países o crescimento da opinião de que é preferível um corte do cordão umbilical com Bruxelas, seguindo o caminho agora escolhido pelo Reino Unido.

Agora que a Europa precisava de dar sinais evidentes de mais solidariedade e maior coesão, reforçando o conceito de partilha de decisões e de concordância de objectivos, há líderes europeus, Merkel, Hollande e Renzi, que fazem precisamente o inverso, com uma pesporrência que não cessa de causar perplexidade.

A UE, depois da saída do Reino Unido, precisava de falar a uma só voz. Afinal, constata-se que fala a três e os outros 24 são apenas caixas de ressonância que amplificam a voz dos líderes, os quais devem estar ungidos de um poder que emana desse estatuto de fundadores. E não se diga que se trata apenas de encontros preparatórios para afinar pontos de vista, porque ao olhar da opinião pública são os generais a decidir unilateralmente para onde mandar os seus soldados. Precisamos de mais Europa, não desta Europa.»

Celso Filipe

28.6.16

Juncker anda zangado

As pessoas gostam de se orgulhar das suas escolhas



«Ainda as urnas não arrefeceram e a discórdia e o azedume já se instalaram no RU e fora do RU, entre a esquerda e a direita, na esquerda e na direita, entre os tories e os labourites, entre os tories e entre os labourites, entre Bruxelas e Londres, em Cardiff e em Edimburgo, em Dublin e em Belfast, entre os leaves e os remains, entre os leaves que queriam sair e os que afinal não queriam, entre os remains que queriam ficar mas que sempre disseram que era melhor sair, entre os jovens e os velhos, os educados e os mal-educados, os citadinos e os camponeses, os londrinos e os outros todos, entre uns e outros e entre todos e os outros.

Era de esperar que, se se verificasse uma vitória do Brexit no referendo britânico, contra a expectativa da maioria dos peritos, o efeito fosse o de um terramoto de grau 8. Foi o que aconteceu. Só que, aparentemente, ninguém esperava que o Brexit ganhasse mesmo, a começar por muitos dos seus próprios apoiantes. (...)

E britânicos seriíssimos, formados em boas escolas, nascidos do pai e da mãe da democracia, dizem que o voto deles devia contar mais e que é uma injustiça que não conte porque são mais novos e têm mais educação e vivem em cidades e há uma quantidade de velhos com mais de 50 anos e com menos estudos e que até vivem no campo que votaram pelo Brexit e o voto deles conta a mesma coisa e já se viu tamanha injustiça? (…)

Há inúmeras lições a retirar deste referendo e existem para todos os gostos. Uma coisa a notar é o facto de uma maioria de cidadãos britânicos ter decidido votar num sentido contrário ao apontado pelas elites do país e pelas elites do resto do mundo. Chama-se democracia e é algo que pode ser extremamente irritante. (…)

Partindo do princípio de que as pessoas não são todas parvas e que sabem que as promessas não são todas sérias, parece mais plausível considerar a possibilidade de muitos britânicos não terem apreciado o tom de chantagem a que foram submetidos pelas suas elites, pelos patrões, pelos eurocratas, pelos banqueiros e até por Obama. É curioso ler depoimentos de votantes do Brexit e constatar que são raros os que esperam maravilhas. Pelo contrário, sabem que os esperam anos difíceis, mas esperam ter o benefício de controlar os seus destinos. Há aqui soberanismo xenófobo? Em certos casos sim. E em muitos outros há um desejo de democracia que a UE não consegue satisfazer nem consegue perceber. (…)

Penso que, se Juncker tivesse sido despedido pelo Parlamento Europeu em 2014, na sequência do LuxLeaks, isso teria mostrado que havia algum sentido de decência em Bruxelas e poderia ter dado um argumento ao Remain e alguma alma à UE. Mas até o Parlamento Europeu, que gosta de se considerar a “consciência democrática” da UE, preferiu chumbar o voto de censura contra Juncker apesar dos seus esquemas “controversos” de evasão fiscal, como que para provar que dali não viria a salvação.

Juncker já prometeu que o divórcio UE-RU não seria amigável. Há sede de vingança na UE. Juncker parece empenhado em mostrar que a UE é dirigida por pessoas pouco recomendáveis. Será assim tão estranho que tantos tenham escolhido sair?»

Talvez fosse melhor passar directamente para o russo ou para o mandarim

27.6.16

Sim, só a Inglaterra


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«Many Thanks to the English Working Class»



N.B. – O facto de divulgar este texto de João Rodrigues não significa que assine por baixo tudo o que escreve. Mas, ao contrário da maioria esmagadora dos meus amigos, tenho mais dúvidas do que certezas a propósito do tema Brexit e julgo que pensar no que gente sensata escreve nunca causou danos colaterais.

«Peço desculpa ao leitor pelo título em inglês. Sei bem que o inglês e os anglicismos são uma praga evitável. Trata-se apenas de uma singela homenagem à maioria do povo britânico, que teve a coragem de votar pela mudança no referendo à União Europeia (UE).

Uma homenagem aos mais velhos, aos mais pobres, às classes trabalhadoras, aos de baixo. É que não é preciso ser instruído para dar uma lição. E que lição esta, a que foi dada às elites políticas, económico-financeiras, aos de cima, numa sociedade causticada pela polarização social e regional, feita de vencedores e de vencidos da globalização neoliberal, o outro nome da UE realmente existente neste continente. Não creio que aprendam alguma coisa, no entanto, a avaliar por tantas reacções arrogantes.

Quem faz esta homenagem vive, como o leitor, na Europa do Sul, neste rectângulo castigado pela austeridade imposta por Bruxelas, numa moeda única que nunca nos serviu, comandada por Frankfurt; vive numa economia estagnada há quase duas décadas, e endividada externamente em montantes recorde, uma combinação sem precedentes históricos. Tudo isto acontece também porque as elites portuguesas aderiram acriticamente à ideia do pelotão da frente, abdicando de instrumentos de política económica num processo nunca referendado. As elites portuguesas dominantes tiveram um papel crucial em transformar Portugal num indicador avançado da chamada estagnação secular, fenómeno que marca o capitalismo nas suas fases mais desiguais e financeirizadas.

Repare o leitor que durante a campanha do referendo britânico, a Europa do Sul, com o seu desemprego de massas, foi invocada por alguns defensores da saída, pelos que tinham boas razões para tal, como o melhor exemplo do que é a UE: uma ordem pós-democrática, que esvaziou a soberania dos parlamentos e que não a substituiu por nada que fosse competente e decente. Os britânicos levam a sério este problema. Chamam-lhe democracia e quiseram recuperá-la de forma mais integral, quiseram ter um maior controlo sobre a sua vida colectiva.

Não se esqueça o leitor que tiveram e têm de enfrentar o chamado projecto medo, comandado por economistas, os mesmos que garantiam antes da crise financeira, iniciada em 2007-2008, que vivíamos na grande moderação, que os mercados financeiros liberalizados eram o alfa e ómega do progresso e que o euro era a boa moeda para a UE (dois terços dos economistas britânicos inquiridos defenderam tal posição em 1999). Este referendo assinalou o merecido descrédito público da economia convencional. Garantiram e garantem que seria o caos. Esqueceram-se que, para os de baixo, o caos é há muito o outro nome das suas vidas.

O leitor sabe que agora é "ai", que as agências vão descer a notação; "ui", que a Grã-Bretanha vai ficar mais pobre por causa da desvalorização da libra. As agências de notação são irrelevantes para Estados monetariamente soberanos e que estão endividados na sua própria moeda. As taxas de juro relevantes são determinadas pelo Banco Central e nunca, repito, nunca, há problemas de insolvência para Estados deste tipo. Os que operam nos mercados no fundo sabem isso.

Quanto à desvalorização da libra, desde que esta seja controlada, e sê-lo-á, também pela acção das forças de mercado, enquadradas pela natural cooperação entre bancos centrais, pode ser um estímulo para a economia britânica, como foi durante a crise, ajudando-a num ajustamento há muito visto como necessário: desfinanceirizar, reduzindo o peso da City, e promover sectores mais produtivos. Para isso, ajudará a maior margem de manobra, por exemplo em termos de política industrial, obtida, a prazo, graças à saída da UE. Mas isso não é o mais importante: mais liberal ou menos liberal, será ainda mais o parlamento a decidir formalmente. O leitor sabe que isso se chama democracia e ainda se lembra como foi por cá, num breve período, antes de as regras do mercado interno fazerem sentir todos os seus efeitos, e sobretudo antes do euro. Pelo menos nessa altura convergíamos com as economias europeias.

E agora o leitor pergunta: e nós? Nós precisamos de aprender com o nosso mais velho aliado. O quê? Que o pelotão da frente não nos serve: precisamos de sair do euro de forma negociada, idealmente, e, entre outras, obter excepções às regras do mercado interno. Em suma, recuperar instrumentos de política industrial, comercial, cambial ou orçamental. Tudo numa UE de geometria variável, de menu, com menos poder de Bruxelas e mais poder dos Estados. Caso contrário, o nosso futuro será mais do mesmo: declínio das forças produtivas da nação, da energia vital de um país esvaziado. O leitor não quer isso, eu sei. Tem, temos, é de ter a coragem de querer o que tanta falta faz.»

João Rodrigues

26.6.16

Donos Disto Tudo?



Mau começo para o pós-Brexit: os fundadores, não da União Europeia como dizem, mas sim da CEE, afirmam que «nunca deixarão que lhes tirem a sua Europa»

«Sua» Europa? É preciso descaramento. 
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