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8.10.21

Falta de motoristas no Reino Unido

 

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3.2.20

Brexit – primeiros sinais




«The distribution of “Brexit day” posters that warned residents of a block of flats to speak only English is being investigated as a racially aggravated incident, police have said.
The printed posters, with the title “Happy Brexit Day”, were stuck to doors on all 15 floors of Winchester Tower in Norwich on Friday morning, the day the UK formally left the European Union. (…)
Norfolk police said all the posters had been removed and were being examined for forensic evidence.»
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18.9.19

Direito a ser ouvida



«O “Brexit” pode estar a fazer com que se perceba que a discriminação e a hostilidade que sofrem os migrantes por toda a Europa pode também afetar os próprios europeus. A repulsa que se tem manifestado um pouco por toda a Europa contra a discriminação que podem vir a sofrer dentro do Reino Unido cidadãos de Estados-membros da UE faz-me lembrar o escândalo que se fazia sentir nos media quando a miséria atingiu milhões de argentinos de classe média nos anos seguintes à crise de 2001-02: parecia que ela só era chocante porque passara a atingir profissionais, licenciados, funcionários intermédios, depois de a vida toda ter atingido os pobres da cidade e do campo, os migrantes, os precários que nunca tiveram um contrato. Para aquela parte da sociedade convencida de que “sempre haverá ricos e pobres”, a perceção social da miséria, como agora da discriminação, parece despertar apenas quando afeta aqueles que se imagina que a não a merecem, como se ela fosse intrínseca a quem nasce para ser miserável...

Ana Telma Rocha, 42 anos, imigrante portuguesa no Reino Unido há 20 anos, perdeu há dias a paciência quando se apercebeu que se aproxima o prazo final do “Brexit” sem ter visto a sua situação legal resolvida enquanto cidadã de um Estado-membro da UE. Interrompeu um direto que um canal britânico fazia da manifestação contra a suspensão do Parlamento pedida pelo Governo para denunciar sentir-se discriminada no processo de tomada de decisão sobre o “Brexit”. Quando ela se pergunta se este “é um processo interno inglês?” e responde que “Não é! É um processo em que nós temos que estar todos envolvidos, porque todos trabalhamos para Inglaterra” (DN, 30.8.2019), o que ela reivindica é que os imigrantes possam participar nas decisões políticas do país em que trabalham, pagam impostos, obedecem à lei, contribuem para a vida da comunidade. É uma questão de democracia: são democráticas as sociedades em que se não reconhecem direitos políticos aos residentes estrangeiros, que, por o serem, não têm direito a participar nos processos de decisão mas estão obrigados a submeter-se a tudo quanto decidem os que o têm?

Para Ana Rocha, “porque trabalhei imenso neste país (...) não devia ser posta nesta situação” depois de “lhes [ter dado] a minha juventude!” Tem razão: trabalhar e contribuir para o bem estar de uma comunidade deveria ser sempre o critério básico para poder participar nos processos de decisão que a afetam. O que me dececiona é que ela, que definiu muito bem o critério de legitimidade de representação – “porque trabalh[o] neste país” –, estabeleça também critérios restritivos: “já chega [de] as pessoas europeias não terem voz.” Só as europeias? Mas não deveriam ter voz todos os demais imigrantes, identicamente afetados pelo “Brexit"? Além dos 2,2 milhões de imigrantes oriundos da UE (400 mil portugueses), há cinco milhões de outros que dedicaram também vidas, juventudes, sacrifícios, a um país onde não nasceram, e deveriam ter o direito a “não serem colocados nesta situação” de ilegalidade a que um imigrante pode estar sujeito. Ana Rocha, como milhões de portugueses por esse mundo fora, sabe bem o que também eles passam: em vinte anos teve “32 empregos diferentes” e sabe que muitos imigrantes “nunca descontaram” porque têm “contratos irregulares de trabalho”, mas que “sempre enviaram dinheiro para a família” (PÚBLICO, 30.8.2019).

“Os portugueses são um povo de emigrantes, que trabalham muito e devem estar orgulhosos do seu trabalho. São um povo nobre, que não merece ser tratado assim”, diz Ana Rocha (SIC Notícias, 29.8.2019). Mas o mesmo acontece com todas as comunidades de migrantes. Nobres todos. Indignados muito justamente com a possível perda de direitos, os imigrantes europeus no Reino Unido perceberam que poderão passar por um pouco daquilo que passam os imigrantes não-UE no Reino Unido – e centenas de milhões de migrantes por todo o mundo. Com umas quantas desvantagens menos: branca, com uma nacionalidade europeia, é muito mais improvável (mas não impossível) que Ana Rocha seja insultada na rua ou no autocarro, como ela receia, como seria se fosse negra e/ou usasse um véu e dessa forma pudesse ser identificada como muçulmana, por exemplo.

Até na discriminação há hierarquias. Uma vez considerada socialmente legítima, é inevitável que ela faça sempre cada vez mais vítimas.»

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17.9.19

Bansky e Brexit




«A pintura, com quatro metros de comprimento, foi exposta pela primeira vez no Museu de Bristol, cidade onde Banksy nasceu. Depois de ter sido comprada por um coleccionador anónimo, regressou este ano novamente ao Museu de Bristol a título de empréstimo, onde foi apresentada simbolicamente a 29 de Março, a primeira data prevista para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Irónico é pensar que esta obra – apresentada pela primeira vez na exposição Banksy vs Bristol Museum – foi criada há dez anos, altura em que ainda se estava muito longe de abordar o tema “Brexit”. Ganha agora uma nova actualidade à luz do caos político que se vive no Reino Unido.»
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30.8.19

“Take back control” para quem?



«Há excelentes argumentos democráticos contra o que é hoje a União Europeia. Quem não se choca ao ver não eleitos com o poder de vetar Orçamentos de Estado aprovados por deputados não acredita na democracia parlamentar. Quem não se incomoda ao ver a União destruir as suas próprias encenações pseudodemocráticas, quando promove um debate entre supostos candidatos a presidentes da Comissão Europeia sem que nenhum deles seja depois escolhido, gosta de ser tomado por tonto. As falhas democráticas da UE são tão grosseiras e nascem de equívocos tão profundos sobre a capacidade de elites vanguardistas construírem em gabinetes democracias e povos que qualquer democrata exigente tem de ser, no mínimo, eurocrítico.

Qualquer pessoa que tenha assistido ao debate sobre o Brexit, em que ao discurso do medo perante a imigração se respondeu com o discurso do medo perante as consequências da saída, sem restar nada de positivo para defender, sabe que nunca foi a questão democrática que esteve em cima da mesa. E podia ter sido. Não faltava assunto, atropelo e perigo vindo de instituições dominadas por burocratas e por políticos que fogem ao escrutínio democrático. O mote de um discurso eurocético democrático até podia ser o mesmo que foi usado pelos xenófobos: “Take back control”. Mas isso era se o objetivo fosse devolver ao povo o controlo das suas vidas, o que implica o controlo da soberania democrática, seja lá a escala em que a política se faz. As mentiras da campanha e o discurso que escolheu os imigrantes como inimigos deixaram claro que essa não era a questão. Esse não era o controlo. Essa não era a soberania.

Para quem tivesse dúvidas sobre a irrelevância de qualquer preocupação democrática de Boris Johnson, tudo ficou mais evidente esta semana. O seu primeiro gesto não foi devolver aos povos do Reino Unido o poder sobre o seu destino. Foi tirar-lhes esse controlo. A suspensão do Parlamento, como atalho para tentar tornar inevitável um Brexit sem acordo, deixa claro que Boris não queria devolver o controlo aos britânicos, queria ter ele o controlo sobre os britânicos. Toda a diatribe de Nigel Farage e do próprio Boris Johnson contra os atropelos aos valores democráticos e parlamentares, que se não saísse de bocas tão impróprias até poderia ser subscrita por verdadeiros democratas, fica agora exposta como puro cinismo.

Boris Johnson não respeita mais o Parlamento britânico do que qualquer burocrata sentado em Bruxelas. Respeita menos. Num país que não tem uma Constituição escrita, o mais relevante não é se a coisa é legal ou ilegal, assim como o mais relevante nos atropelos ao espírito democrático por parte das instituições europeias não é o que está escrito nos tratados. É a política. E ficou claro o que quer Boris Johnson.

Disse, e não me arrependo, que ele é o melhor primeiro-ministro para liderar o Brexit: porque é quem o defendeu que tem o dever de o aplicar. Espero que as instituições do Reino Unido sejam suficientemente firmes para o impedir de seguir qualquer atalho. É respeitando as regras democráticas que Boris terá de percorrer o caminho que propôs aos britânicos. Sem recorrer aos mesmos estratagemas, em versão piorada, que tão violentamente criticou na Europa. Não queria devolver o controlo ao povo? Pois o povo é legitimamente representado pelo Parlamento que lhe deu a maioria para governar. Custa governar com esta contrariedade democrática? Claro. Mais do que dirigir uma campanha demagógica.»

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24.7.19

Boris Johnson



Para além de tudo o que já foi dito e escrito, as redes sociais incendiaram-se ontem quando Paulo Portas afirmou, num telejornal da TVI, que BJ seria «o PM mais culto da Europa». O costume: como é «feio, porco e mau», seria obrigatoriamente mais ou menos analfabeto para a generalidade dos comentadores… Por isso me parece útil deixar aqui este texto, publicado ontem no Facebook por alguém que conheceu bem BJ (e que eu conheço pessoalmente):

O EXTRAVAGANTE BORIS JOHNSON 

Conheço o Boris Johnson pessoalmente, fomos colegas de trabalho no início dos anos 90 quando estive colocado durante três anos na delegação da Lusa em Bruxelas. Ele era o correspondente do Daily Telegraph na capital belga. Por dever de ofício encontrávamo-nos todos os dias em serviço, incluindo nas muitas viagens ao estrangeiro que os jornalistas encarregados de cobrir a UE e a NATO em Bruxelas são obrigados a fazer para acompanhar os trabalhos das instituições.

É um tipo muito inteligente, culto, arrogante, com notável sentido de humor, extremamente ambicioso e extremamente desonesto. Mente com a maior das facilidades, torce a verdade de forma a que ela se enquadre no que lhe der jeito no momento. Inventava notícias com a maior das facilidades, sempre para pôr em causa as instituições europeias. Eram prontamente desmentidas, mas para ele isso não tinha qualquer relevância. Já tinha deitado o seu veneno contra a UE nas páginas do jornal, isso é que interessava...

Um traste, mas um traste educado em Eton e em Oxford, onde foi um dos melhores alunos. Absolutamente irresponsável e indigno de confiança. O tipo é um diabo, inteligente e culto, mas completamente amoral. Por isso mesmo muito perigoso!... Até pode ser que dê um bom PM mas ou me engano muito ou acabará por tropeçar em si próprio e espalhar-se...

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PS: Notem bem, por favor, que eu sublinho que o Boris Johnson não é desqualificado nenhum, contrariamente ao que alguns comentários que aqui vejo parecem concluir. É um tipo muito capaz, muito qualificado. É um historiador com vários livros publicados, foi um presidente (Lord Mayor) da Câmara de Londres competente. Moralmente é que não é de confiança, deixa-me as maiores dúvidas e preocupações. Já o Trump e o Bolsocoiso são completamente desqualificados. Não há comparação possível...

Zé-António Pimenta de França
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8.4.19

Poderá o Brexit ajudar-nos a compreender a Europa?



«O Brexit é uma versão local da conjuntura pós-liberal da Europa contemporânea. O Brexit demonstrou a desilusão com a classe política dominante, a ascensão de valores alternativos e o caos causado por uma rutura com o passado sem a apresentação de alternativas claras. Essa rutura é dramática e as suas implicações são profundas. Portanto, não é exagero dizer que estamos a viver tempos revolucionários ou contrarrevolucionários. O Brexit pode parecer um caso especial, mas a Polónia, a Holanda, a Áustria, a Dinamarca, a França e a Itália têm as suas próprias experiências turbulentas, com a Alemanha a ser lentamente contagiada com o vírus iliberal dos seus vizinhos. Um Brexit mal gerido piorará a situação, não apenas em termos económicos, mas também em termos de democracia e cultura política.

Três lições universais

Primeira, e mais óbvia, o Brexit é um caso típico de rebelião dos eleitores contra os políticos de centro-direita e de centro-esquerda que estiveram no comando dos seus governos nas últimas três décadas ou mais. Os eleitores já não estão dispostos a aceitar partidos oligárquicos e decisões tomadas por órgãos não eleitos. Eles fartaram-se de políticas migratórias e externas ineficientes a criarem inimigos e a incubarem terroristas. Eles estão cansados de estradas, hospitais e escolas que não funcionam. Cada nova eleição mostra a mesma tendência - a velha guarda está a ser castigada e os recém-chegados estão a ser recompensados. Este último grupo inclui não só os xenófobos, mas também os partidos Verdes ou várias entidades novas e não identificadas, como o Partido da Primavera na Polónia ou o Fórum para a Democracia na Holanda.

Segunda, o Brexit mostra que a contrarrevolução não é apenas uma mudança de guarda, é também uma mudança de mentalidade. A luta é sobre a noção do que é uma boa sociedade. Sob fogo estão os pilares normativos da ordem liberal: o pluralismo político e a tolerância cultural, os direitos das minorias e a sociedade multicultural, as fronteiras abertas e a soberania compartilhada. A União Europeia está sob fogo não só devido à sua rigidez e défice democrático, os críticos veem a UE como um veículo que dissemina valores "estrangeiros" que destroem as tradições nacionais e religiosas dos países. Eles argumentam que a solidariedade económica requer fortes laços culturais e que estes estão a ser diluídos pelo projeto de integração. Eles acreditam que qualquer redistribuição significativa e justa é inconcebível numa Europa com fronteiras abertas.

Terceira, o Brexit mostra que quebrar o "consenso" liberal leva ao caos, pelo menos a curto e médio prazos. Isso porque as soluções pragmáticas não são adequadas para resolver conflitos identitários e ideológicos. O liberalismo forneceu a "bíblia" abrangente sobre o que é bom ou mau numa sociedade, não apenas um manual para vencer eleições e ganhar dinheiro. Os iliberais desafiaram as verdades liberais, sugerindo uma nova interpretação do que é racional e normal. O Brexit não é apenas sobre regras comerciais, é sobre a definição do que é britânico e europeu. Os defensores radicais quer da permanência quer da saída acreditam genuinamente que estão certos, e nenhum lado quer ser condenado a passar à história política. Conflitos identitários e ideológicos fundamentais semelhantes estão a acontecer noutros países, sem soluções práticas à vista.

O histórico Conselho Europeu

Nesta quarta-feira, os políticos da Europa terão que tomar decisões com enormes implicações. Aqueles que se vão sentar no Conselho Europeu de 10 de abril devem evitar os erros cometidos pelos seus colegas britânicos. Primeiro, os membros do Conselho não devem tomar o povo como garantido. No Reino Unido, os defensores da permanência convocaram o referendo do Brexit porque achavam que a população estava do lado deles. Os partidários da saída estão a cometer o mesmo erro agora, assumindo que a população continuará a segui-los quando o Brexit começar a esvaziar-lhe os bolsos e a complicar a sua vida pessoal e profissional. As pessoas de ambos os lados do Canal da Mancha têm pouca confiança nos seus líderes e estão divididas nas grandes questões. Quando as coisas aquecerem, poucos políticos europeus poderão contar com um apoio popular esmagador. O radicalismo estará em voga.

Em segundo lugar, os membros do Conselho devem estar cientes da fragilidade da nossa democracia. No Reino Unido, o referendo do Brexit não resolveu as divisões políticas, e o esforço do parlamento para definir a "vontade do povo" terminou em desordem. As decisões tomadas no Conselho Europeu têm uma legitimidade democrática duvidosa e muitos membros do Conselho terão dificuldades em vender os custos do Brexit às suas empresas e aos seus cidadãos.

Em terceiro lugar, a noção de interesses nacionais e europeus é confusa neste momento. No Reino Unido, assistimos a interpretações totalmente opostas de interesse nacional, levando a um impasse. Do outro lado do Canal, os políticos tentam fundir interesses nacionais e europeus com respostas populares diversas. Os candidatos liberais e iliberais têm não só visões diferentes desses interesses, como também visões diferentes de si mesmos.

Em quarto lugar, embora o Brexit seja de facto uma manifestação de um conflito ideológico, a assinatura do acordo de retirada nos próximos dias resolverá pouco da luta em curso sobre a noção do que é uma boa sociedade. Aqueles que vão tomar a decisão a 10 de abril devem ter em mente que estamos apenas no começo do longo e doloroso processo de redesenhar a Europa em termos institucionais, económicos e culturais. A ideia conservadora ou a esperança de que o Brexit permitirá que a Europa mantenha as coisas como estão é uma ilusão perigosa.

Duas visões duvidosas

O problema com a visão liberal da Europa não está relacionado principalmente com os seus valores. Não há nada de errado com uma Europa de fronteiras abertas, tolerância cultural e liberdades individuais. No entanto, esses valores têm sido seguidos de forma opaca nos últimos anos. A abertura, a tolerância e a liberdade beneficiaram as pessoas com dinheiro e acesso informal, deixando grandes camadas da sociedade ignoradas e desfavorecidas. As intervenções militares ilegais e o tratamento desumano dos migrantes ridicularizaram os proclamados valores liberais. Os políticos associados a tais políticas nas últimas décadas dificilmente podem afirmar ser os guardiões da decência, da civilidade e da justiça.

O problema com a visão iliberal da Europa não está relacionado principalmente com a sua legitimidade. A crítica do reinado liberal é justa e os recém-chegados à política não são responsáveis por pressões migratórias, famílias divididas ou instituições europeias disfuncionais. No entanto, as soluções oferecidas para lidar com a "confusão" herdada dos liberais não parecem adequadas. Perseguir ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo não ajudará a lidar com a migração. Atacar os direitos de género e LGBT não fortalecerão as famílias da Europa. Sair da UE não nos tornará ricos, seguros e soberanos.

A única maneira de sobreviver ao tumulto em curso é ouvir e conversar uns com os outros. Isto deve ser praticado diariamente pelos cidadãos comuns. As autoridades europeias e os políticos nacionais não vão resolver as coisas por nós. A Europa está a bater à porta das nossas casas. Chegou a hora de nos levantarmos dos nossos sofás. Esta é provavelmente a lição mais importante do Brexit.»

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4.4.19

O anúncio da morte britânica é manifestamente exagerado



«Desisto de tentar escrever sobre a atualidade do Brexit. Nessa matéria, espero que seja concedido o adiamento a Theresa May e que esta se consiga sentar com Jeremy Corbyn para os dois chegarem a um acordo. Os dois precisam, porque este processo está a erodir todo o sistema político britânico. Só quando esta fase estiver ultrapassada é que o Reino Unido poderá voltar a debater de forma mais clara o seu futuro. O que implica saber que futuro será esse. Estou convencido, mas posso estar enganado, que o Brexit é inevitável. Com acordo, sem acordo, com um mau acordo. Até estou convencido, mas posso também estar enganado, que se houvesse um novo referendo o “leave” voltaria a vencer. Os arrependidos que existiam seriam facilmente substituídos por aqueles que se sentiriam insultados com o desrespeito pelo resultado do referendo anterior. Não se impressionem muito com as manifestações em Londres. Como se percebeu no referendo, Londres não é a Inglaterra. É Londres.

Falemos então do futuro. É impressionante como as ideias mais absurdas se conseguem instalar como evidências indiscutíveis. E a que está instalada é esta: o Reino Unido irá entrar, depois do Brexit, num buraco negro. Já aqui caricaturei: será uma nova Coreia do Norte, fechada ao mundo; as noites de Londres serão tão tristes e perigosas como as de Caracas, os fluxos comerciais irão aproximar-se dos de Cuba. Retirem o exagero a isto mas não a histeria.

É estranho que esta saída do Reino Unido da órbita terrestre não se tenha começado a sentir de forma aguda na iminência de um desenlace que parece cada vez mais inevitável. Ao contrário do que seria normal em vésperas de uma catástrofe anunciada, a economia não veio por aí abaixo depois do referendo. E o saldo migratório, tendo caído para cidadãos comunitários (mas continua a ser positivo, mostrando que o Reino Unido ainda é mais atrativo para os europeus do que a Europa é atrativa para os britânicos), até melhorou para os cidadãos extracomunitários. O mundo que vive fora da Europa parece continuar a acreditar que há futuro para os britânicos.

O equívoco resulta de haver muita gente que acredita que a União Europeia subsistui os seus estados membros e que a atratividade de cada um deles depende exclusivamente da sua integração neste espaço. Esta convicção pode ser verdadeira para estados pobres (e mesmo isso mereceria um debate cuidadoso), não o é seguramente para países como o Reino Unido. Custará a acreditar em Bruxelas, mas a história dos europeus não começou com a assinatura do Tratado de Maastricht. Mesmo antes do Tratado de Roma havia Europa.

O Reino Unido tem um antigo império. E isso conta muito. Será difícil para um alemão percebê-lo, mas nós compreendemos bem. Somos um país irrelevante e conseguimos, apesar de tudo, manter relações comerciais relevantes com as ex-colónias. Incluindo ex-colónias com muitos recursos, como Angola. Imaginem um país como o Reino Unido, com os laços políticos, económicos, culturais e estratégicos que foi mantendo. Depois há a língua. Que continuará a ser tão relevante que até se manterá inevitavelmente como a língua franca na União depois deles saírem de lá. Com a desculpa que um país de menos de cinco milhões (a Irlanda) a fala. A centralidade de Londres, que não resulta apenas do poder de Londres, é de tal forma evidente e duradoura que se estranha que alguém acredite que desaparecerá de um dia para o outro.

Houve um tempo em que se falava da transferência da City para Frankfurt, Paris ou Luxemburgo. Mesmo que haja uma quebra inicial, ainda alguém acredita nisso? Alguém acha que para o poder financeiro russo ou asiático isso é, pelo menos em muito tempo, uma possibilidade? E acham que os Estados Unidos vão dispensar acordos comerciais com o seu aliado de sempre? Acreditam que manter uma relação próxima com Londres será um capricho de Donald Trump e que os seus sucessores vão ignorar os ingleses para não melindrar os alemães ou franceses? E os 53 países da Commonwealth vão cortar as relações preferenciais que mantêm com os britânicos? E o inglês vai deixar de ser a língua mundial? Acham que vamos passar a ver séries francesas, a ouvir música alemã e a rir-nos com o humor holandês? Acham que Londres deixará de ser, só porque o país abandonou o mercado único, uma das principais capitais culturais e financeiras do mundo? Em que mundo de fantasia vive esta Europa para julgar que a tábua rasa que tentou fazer da História, sem sucesso, acontecerá com a Inglaterra.

Não tenho dúvidas que as coisas serão bastante difíceis para os ingleses. Também tenho poucas dúvidas, apesar do discurso autossuficiente com um boa dose de ressentimento que se ouve na Europa, que as coisas também serão difíceis na União. Até porque o peso relativo da Alemanha vai aumentar e com ele a sua tentação imperial. Mas parece-me que o mais provável é o Reino Unido sobreviver a isto melhor do que por aí se escreve. E isto não quer dizer que eu ache que o passo que os ingleses estão a dar seja o mais certo. Quer apenas dizer que o anúncio do colapso inglês parece-me manifestamente exagerado.

A ideia de que o Reino Unido iniciou uma inexorável caminhada para o abismo que determinará o fim da sua centralidade resulta de cegueira europeia sobre o que está a acontecer no mundo. A decadência do Reino Unido, a acontecer, corresponderá à decadência de toda a Europa. Não começou com o Brexit. Sempre que alguém vem de uma viagem à China explica onde está a origem dessa decadência e como ainda estamos no começo.

Podemos dizer que o Reino Unido ficará menos preparado para este embate fora da União do que estaria dentro dela. Não tenho suficiente confiança em quem dirige os destinos da UE para achar que isso seja verdade. Sei que ao sair da UE o Reino Unido não se enfiou num buraco escuro longe do mundo. Porque nem a sua centralidade financeira, política e cultural se devia à UE, nem é provável que alguma vez se viesse a dever. Não sei, suspeito que ninguém sabe ao certo, o que acontecerá ao Reino Unido fora da União Europeia. Sei que o discurso apocalíptico que domina a inteligência das capitais europeias é revelador do estado de negação em que vivemos sobre a real relevância que ainda temos.»

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28.3.19

Cristas confunde política com geografia



A Irlanda vai desaparecer do mapa e o Reino Unido emigra para o Pacífico.
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26.3.19

Quando o mundo acabar, eu vou estar em Portugal



«Mais uma semana decisiva, mais uma rejeição no Parlamento, ou nem isso em caso de derrota certa, e o adiamento do fim do mundo, desta é que é, para 12 de Abril, e o mundo já não acaba a 29 de Março apesar das mil promessas a pés juntos de Theresa May, primeira-ministra por enquanto e enquanto deixarem.

Não fosse o diabo tecê-las, e porque dia 29 vamos ao teatro, os bilhetes foram comprados com seguro em caso de cancelamento. Sim, eu sei, se o mundo chegar ao fim, as seguradoras acabam também, eu incluído e no além o dinheiro não vale nada. Mas é sempre bom sentirmos um conforto, um pouco de segurança, no coração, e por isso lá comprei os bilhetes com seguro.

Entretanto, já enviámos dinheiro para Portugal, os bilhetes de avião para as férias da Páscoa estão comprados (com seguro) e dia 12, quando o mundo acabar, estaremos em Portugal, no conforto do lar e das nossas famílias, à beira-mar a assistir ao último pôr do Sol, não para nós, mas para os britânicos, entregues a si mesmo numa jangada de pedra, não à deriva, mas a caminho de uma qualquer planície abissal no fundo dos oceanos.

De facto, e no meio desta confusão toda, a única boa notícia é podermos sair desta terra de doidos enquanto 12 de Abril não chega.

Porque de pouco importa se o Reino Unido sai a 29 de Março ou a 12 de Abril quando a saída sem acordo continua a ser a única possível. E sim, se a União Europeia não receasse o não acordo, não teria havido lugar a qualquer prolongamento do prazo de saída. As duas partes precisam tanto uma da outra! E no entanto...

E no entanto ninguém se resolve, a Europa exige eleições, a Europa exige um novo referendo, a Europa manda e a Europa decide, mas os britânicos não querem e os britânicos não podem com outras vontades que não as suas e por isso dizem não, não e não e mil vezes não sem nunca se decidirem sobre aquilo que querem. Estão no seu direito, é o seu país.

Mas neste jogo da corda em que ninguém perde e ninguém cede a saída continua a ser a mesma de sempre, sem acordo, sem regresso, boa sorte e até qualquer dia.

12 de Abril calha a uma sexta-feira. Às 23h, o Reino Unido sairá oficialmente da União Europeia. Está bem pensado, para evitar uma desvalorização acentuada da libra e os mercados só abrem na segunda-feira. No entanto, o exército já há muito que se prepara para sair à rua. Sem acordo, é provável a queda do governo. Ainda ninguém sabe o que vai ser dos aeroportos e das fronteiras e se a coisa correr mal talvez esteja tudo fechado enquanto os britânicos atiram as mãos ao ar e fazem contas à vida. Mas o mundo não acaba e o país, afinal, não irá ao fundo apesar de há muito meter água.

Uma semana depois, e depois das férias, estaremos de volta e a casa, os empregos e a vida que Portugal não nos pôde dar estarão no mesmo lugar à nossa espera. Sim, a vida vai ficar mais cara e vai haver menos trabalho, mas isso é para os mesmos de sempre, os que votaram para sair, os que não vivem em Londres.

A esses, peço por favor que apertem os cintos de segurança e se agarrem ao lugar, vem aí uma tempestade. Ou se calhar ainda é a mesma tempestade de sempre e de há muito, a das suas vidas, agora mais violenta.»

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4.2.19

Ainda cá teremos a Rainha de Inglaterra!




Marcelo e a nossa diplomacia tudo farão para mais esta vitória e isto ainda acaba com um visto gold e compra de um palácio à maneira…
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19.11.18

No, Minister!



«A Grã-Bretanha sempre desconfiou da Europa e esta nunca confiou em Londres. Está tudo exemplarmente descrito num velho episódio de "Sim, Sr. Ministro".

Nele, o secretário permanente Sir Humphrey diz: "Ministro, a Grã-Bretanha tem a mesma política externa há pelo menos 500 anos: criar uma Europa desunida. Por isso lutámos com os holandeses contra os espanhóis, com os alemães contra os franceses, com os franceses e italianos contra os alemães e com os franceses contra os alemães e os italianos. Dividir e reinar. Porque é que iríamos mudar agora, se correu tão bem?" Jim Hacker fica perturbado e Humphrey continua: "Tínhamos de destruir essa coisa, a CEE, e por isso tivemos de entrar nela. Tentámos quebrá-la do exterior, mas isso não funcionou."

Mesmo não entrando para o euro e, com isso, impedindo que, com a força do petróleo do mar do Norte, a moeda europeia fosse uma alternativa global ao dólar, a Grã-Bretanha não conseguiu quebrar o sonho hegemónico europeu de Paris e Berlim. Agora depara-se com a mais temível consequência da sua estratégia: a Europa uniu-se para humilhar o Reino Unido e este entrou em clima de guerra civil. Todos estão contra todos: tories contra tories, trabalhistas contra tories, escoceses contra ingleses, londrinos contra quem não é da capital. Para dividir ainda mais as hostes, a fronteira irlandesa é uma enxaqueca sem fim.

Este já não é um dilema de Hamlet, entre ser ou não ser. É entre ser sem o parecer. As tropas do Brexit, com Jacob Rees-Mogg à frente, parecem a carga da brigada ligeira: conduzem um país essencial à Europa para o suicídio. A Europa, extasiada e incapaz de perceber as consequências catastróficas da humilhação de Londres, prepara a espada para o haraquíri. O Reino Unido era fundamental para equilibrar as tentações de liderança de Berlim e os arrufos de Paris. Agora, se Theresa May cair, é expectável o caos no Reino Unido: não há um líder alternativo para unir, apenas grupos para desintegrar o que ainda existe. Sir Humphrey há-de regressar um dia para explicar que estratégia há para a política interna britânica.»

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