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22.9.24

O fracasso do Estado

 


«Enquanto a floresta arde são criados novos organismos institucionais como o AGIF, a quem compete a coordenação estratégica e a avalização integrada dos fogos rurais. Lá são contratados novos quadros, pagos a peso de ouro, com onerosas ações de formação no estrangeiro, mas cuja atuação no terreno não se faz sentir. E a floresta continua a arder.

Há uma inexplicável e preocupante falta de articulação nos vários agentes institucionais encarregados de prevenir e combater os incêndios. Onde deveria haver articulação e ligação entre instituições há caos. Na habitual lógica de “cada um no seu quintal”, não existe uma articulação entre os ministérios do Ambiente e da Administração Interna. Apesar das promessas, dos anúncios, do sistemático reforço de meios, a floresta arde todos os anos. É o dinheiro dos impostos dos portugueses gasto, inutilmente, sem o resultado que se deveria conseguir. Seja na fuga de cinco perigosos delinquentes ou nas labaredas que, anualmente, marcam presença nas nossas florestas, é o Estado a fracassar nas suas funções vitais.»

20.9.24

Todos, todos, todos

 

«Todos, todos, todos os anos, esperamos pelos incêndios como por uma prima emigrante que vem passar as férias grandes»


O milagre da despolitização dos incêndios

 


«Se compararmos com os incêndios de 2017, bem diferente é o papel do Presidente. Onde antes fazia avisos no terreno, hoje presta solidariedade incondicional em Conselho de Ministros. Bem diferente é o comportamento da comunicação social. Onde antes procurava responsabilidades, hoje assiste a briefings sem perguntas. E, no entanto, há política para debater. Já não falo da repetição de erros, como falhas graves no corte inicial de estradas, que só não acabaram em tragédia por sorte. Ou da fraquíssima comunicação prévia às populações. As coisas estão melhores porque o sobressalto nacional de 2017 levou a que se tomassem medidas nos anos seguintes. Mas, mais uma vez, há debates políticos a que temos de regressar.

Já nem me refiro às alterações climáticas. Temperaturas superiores a 30 graus, humidade inferior a 30%, vento superior a 30 km/hora são a receita para o desastre. E esta combinação atingiu, em várias regiões do país, o primeiro lugar desde 2001. O verão de 2023 foi o mais quente de que há registo na Europa. A Europa aqueceu mais depressa do que qualquer região do globo — 0,5 graus por década, nos últimos 30 anos. E o maior contributo vem do Sul, onde estamos. Nós somos das principais vítimas das alterações climáticas e só as debatemos para desancar ativistas. Nestas circunstâncias, o máximo que podemos sonhar é defender vidas e bens. Até a Califórnia, com parques nacionais cuidados, perdeu quatro mil quilómetros quadrados de floresta este ano.

Mas o que está apenas nas nossas mãos é o desordenamento crónico do território. Não é que não tenhamos aprendido nada com 2017, como li por aí. É que o problema vai muito para lá de políticas sectoriais. Temos grande parte do território abandonado e envelhecido. Não há quem cuide da floresta, para que ela dê o rendimento que financia a sua preservação. Não se conseguiu que terras com donos absentistas fossem integradas numa gestão coletiva que lhe garanta recursos. Nem que a limpeza da mata compense, como já compensou. Não se pode esperar que o abandono do território não tenha como consequência a incúria. Com a floresta abandonada, só o eucalipto parece ter retorno. E se a árvore das patacas dá dinheiro, deixa-se que ela acabe com o resto. É o que fazemos com o turismo: sem conta, peso e medida.

Nisto, não aprendemos mesmo nada desde 2017. Os eucaliptais ocupam 10% do território nacional, muitíssimo mais da área florestal. Mesmo assim, 81% da área reflorestada depois de 2017 são eucaliptos. E parece não chegar. A Navigator defende um aumento da área para a plantação, deixando no ar uma crítica às tímidas alterações a uma lei liberalizadora do Governo de Passos, cujo secretário de Estado das Florestas foi para diretor-geral da associação que reúne os gigantes da celulose. Se fizermos a justaposição dos mapas dos incêndios e da área de eucaliptal, veremos uma coincidência quase absoluta. A espécie, não autóctone, tomou conta do território como uma praga. E larga, perante ventos superiores a 30 km/h, folhas incineradas que espalham o incêndio.

O debate político não tem de se resumir a encontrar bodes expiatórios. Mas Montenegro soube precaver-se. O seu briefing sem perguntas concentrou-se no fogo posto. Também poderia ser o tema de 2017, quando o crime também “sobrevoava” a calamidade. Mas nessa altura os criminosos foram, para o PSD, ministros e primeiro-ministro. Sempre houve fogo posto. Mas temos um quarto das ignições que já tivemos. O mesmo que Inglaterra. E só 1% delas são responsáveis por 90% da área ardida. Há centenas de incêndios que não chegam a ser problema. A questão é por que progridem até serem incontroláveis. Mas não é por acaso que o primeiro-ministro abordou o tema do fogo posto da forma mais populista possível, falando de interesses não concretizados (sem que lhe pudesse ser perguntado a que se referia) e prometendo perseguir os criminosos. Com um discurso popular sobre crime, afastava, preventivamente, o foco das políticas públicas.

Montenegro conseguiu que tudo o que é político, do ordenamento do território à invasão do país pelo eucalipto, da economia da floresta às falhas iniciais destes incêndios, desaparecesse. Sem perguntas, com o Presidente como escudo e a ministra da Administração Interna fechada numa cave durante os dias mais críticos, fez do fogo posto o tema central, lançando suspeitas vagas e prometendo substituir-se à polícia. Assim, o Governo passou de ator político a vítima do crime, desviando as atenções para o que enoja todos. Em comparação com 2017, demonstra génio na comunicação política. Mas isso chega?»


19.9.24

Queimar espantalhos

 




Um pedido às televisões: parem de ser incendiárias!

 


«O título é uma figura de estilo, claro; as televisões não são incendiárias, mas o que se passa na informação televisiva, cada vez que há grandes incêndios, é de uma grave irresponsabilidade social: há estudos que mostram o efeito mimético que tem, junto de algumas pessoas perturbadas, o ver chamas na televisão. Por isso, as televisões deveriam voltar atrás, ao que já aconteceu, quando se puseram de acordo para evitar a exibição de imagens dos incêndios.

Ou será que sonhei? Procuro o rasto noticioso desse acordo entre RTP, SIC e TVI (ainda não existia CMTV) e não o encontro; falo com outros jornalistas e já poucas memórias há; mas vários camaradas me confirmam que sim, que ele existiu. Progressivamente, nos últimos anos, as chamas voltaram à informação televisiva. E em força.

Não tenho o documento, mas uma busca rápida permite encontrar declarações, por exemplo, de Cristina Soeiro, psicóloga da Polícia Judiciária, que em 15 de Setembro de 2017 dizia à Lusa que havia um efeito de banalização provocado pelas imagens de chamas nas televisões. E era bem concreta sobre a importância de evitar desde expressões como “época de incêndios” até aos longos minutos na televisão com imagens de floresta a arder que são excessivos e podem amplificar a situação.

Em 18 de Agosto do ano passado, a TSF ouviu o presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), Tiago Oliveira, que dizia, entre outras coisas relevantes, que se sabe “que as imagens de chamas provocam comportamentos miméticos”. E a provedora da RTP, Ana Sousa Dias, referia queixas de telespectadores e sublinhava que “há um entendimento de que é perigoso insistir nas imagens de fogos florestais”.

Trata-se, por isso, de uma questão de (ir)responsabilidade social. Como jornalistas, o nosso dever é informar. Mas informar bem, com rigor e contenção, sem exacerbar emoções nem apelar a instintos básicos. Não precisamos de directos infindáveis, a descrever o mesmo, dezenas de vezes, em todo o lado: cenário dantesco, inferno, tudo a arder, pessoas aflitas e a chorar, mangueiras, “falta de meios”... Ou a queixa (disparatada, mas compreensivelmente desesperada) de que “não se vê um bombeiro”, como se fosse possível ter bombeiros em cada esquina de um perímetro de 100 quilómetros de incêndio.

O que precisamos não é de uma informação monotemática: agora é a pandemia, a seguir uma tragédia, depois o futebol, outra tragédia, mais futebol, no Verão chegam os incêndios, depois os abusos sexuais (que ainda são tema, mas parece terem desaparecido da agenda mediática), depois o futebol, depois os incêndios. Não, não queremos. Queremos um noticiário televisivo rigoroso, diversificado, aprofundado, sucinto (e já agora, que não tem de durar hora e meia).

Claro: há coisas muito mais graves na questão dos incêndios. A emergência climática, a incapacidade de fazer prevenção e boa gestão política, o ordenamento do território e das florestas, a ineficácia de muitas operações de combate (como se viu no recente incêndio na Madeira), a falta de civismo e cultura; e um longo etc.

Mas o que se passa no jornalismo televisivo também é importante. Estou com isto a criticar opções de (várias) pessoas que respeito. Por isso mesmo é que me sinto ainda mais obrigado, enquanto jornalista, a insistir contra várias das derivas que a profissão tem vindo a sofrer (por exemplo, também na amplificação que faz da extrema-direita e do discurso racista e xenófobo, em vez de os reduzir à sua expressão). Neste caso, precisamos, sim, de questionar os poderes públicos fora da “época dos incêndios”, ser inoportunos quando as decisões tardam, ouvir os especialistas que tantas coisas importantes têm a dizer. O que não precisamos mesmo é de ver chamas. Nem de dias inteiros de noticiários monotemáticos. Caso contrário, estaremos, com isso, enquanto jornalistas, a ajudar a incendiar o país.»


18.9.24

Incêndios: o país é o mesmo enquanto o clima piora

 


«A tragédia não foi maior porque estamos, no que toca ao combate aos fogos, melhores do que em 2017, quando houve um sobressalto nacional que permitiu que algumas medidas, muito menos do que as necessárias, avançassem. Apesar do que melhorou nos últimos anos, continuamos a ver falhas inaceitáveis, bem evidentes em tantos vídeos de pessoas a atravessar o fogo em estadas fundamentais e autoestradas. Não se repetiram algumas desgraças de 2017 por milagre. A comunicação preventiva à população também foi muito fraca, apesar dos avisos prévios, com dias, do IPMA e da Proteção Civil.

Estes fogos não chegaram a ser um tema propriamente político. De tal forma, que o governo se deu ao luxo de fazer um briefing do Conselho de Ministros sem direito a perguntas – um estilo que parece agradar a uma comunicação social anestesiada por um dever de “estado de graça” – e a ministra da Administração Interna desapareceu. Ao contrário do que vimos em 2017, a cobertura do Presidente foi total, ao ponto de ter presidido a um Conselho de Ministros, coisa que costuma ser reservada a momentos meramente simbólicos.

Talvez a ausência de aproveitamento político, no meio dos fogos, deva ser o normal. Mas ela só não se repete porque o ambiente político é muito diferente do dos quatro anos da “geringonça”, em que tivemos uma oposição de uma agressividade poucas vezes vista na nossa democracia constitucional. Que contrasta, aliás, com as exigências de moderação e sensatez que os seus principais atores fazem ao Partido Socialista.

Do abandono ao eucalipto

Voltando ao que interessa, o que ficou por fazer nestes anos é o essencial: a gestão florestal. Somos um país com grande parte do território abandonado e envelhecido, onde não é possível cuidar da floresta, dar-lhe rendimento e garantir a prevenção. Onde pessoas que detêm pequenas parcelas de terra vivem no local e outras não, sabem que as têm e outras não. Onde o Estado quase não tem floresta e a que tem é mal gerida. Onde não há ordenamento território e, portanto, não há ordenamento florestal. E a floresta, como é hoje gerida, não garante financiamento à sua preservação e à gestão de combustíveis finos.

Para alem do minifúndio e da ausência de gestão florestal, sobra o eucalipto por todo o lado. Uma árvore que não fazia parte da nossa tradição e clima é hoje a prevalecente. A área plantada de eucalipto é superior à de todos os outros países europeus juntos. 81% da área reflorestada depois de 2017, ano em que se disse que iríamos ter de aprender com os erros, são desta espécie. Se fizermos a justaposição dos mapas dos incêndios destes dois dias e da área de eucaliptal veremos uma coincidência quase absoluta.

É verdade que os eucaliptos são dos produtos economicamente mais sustentáveis na nossa floresta. Mas também são dos piores para incêndios. Com ventos 30 quilómetros hora, as folhas incineradas desta árvore são autênticas bolas de fogo que atravessam autoestradas e causam novas ignições e novas frentes.

Aparentemente, ainda não chega. O CEO da Navigator, António Redondo, defendeu, há muito pouco tempo, o aumento da área para a plantação de eucalipto em Portugal, de forma a garantir a sustentabilidade da empresa. Tratou-se de uma crítica às alterações à lei que tinha liberalizado a plantação de eucaliptos. Lei que fora da autoria do ex-secretário de Estado das Florestas, Francisco Gomes da Silva, que posteriormente se tornou diretor-geral da CELPA, que reúne os gigantes das celuloses em Portugal.

As alterações climáticas são agora

Nos cursos mediáticos intensivos destes períodos – e sobre fogos temos tido, infelizmente, muitas oportunidades para os frequentar –, aprendemos a regra dos três 30: temperatura superior a 30º, humidade inferior a 30% e vento superior a 30km/hora, a que podemos acrescentar 30 dias sem chover, é receita para o desastre. E a verdade é que esta combinação atingiu, em várias regiões do país, o primeiro lugar desde 2001. Não é preciso muito para verificar os efeitos das alterações climáticas. Um relatório conjunto da Organização Meteorológica Mundial e do Serviço de Alterações Climáticas da União Europeia concluiu que o verão de 2023 foi o mais quente de que há registo na Europa. O centro da Europa está a viver das cheias mais brutais deste século. Uma semana antes, tivemos cheias dignas das monções no deserto do Sahara.

A Europa aqueceu mais rapidamente do que qualquer outra região nos últimos 30 anos. O relatório mostra que as temperaturas aumentaram, no continente, mais do dobro da média global nos últimos 30 anos – a um ritmo de cerca de 0,5 graus celsius por década. Pior: o que está a conduzir essa subida é o sul, como se percebe pela falta de água que se pode tornar comum no Algarve ou o anunciado fim da pastorícia na Sicília.

Como já escrevi várias vezes, nada disto é uma herança que deixaremos aos nossos netos. Já está a acontecer. São campos agrícolas destruídos, populações perdem casas e haveres, migrações forçadas, mortes prematuras, sistemas de saúde sobrecarregados.

Podemos reduzir risco da perda de vidas e de bens materiais, em condições cada vez piores. Não há como preparar territórios e forças de combate para este novo tempo. Algumas das florestas mais bem cuidadas do mundo, nos parques nacionais da Califórnia, já perderam, este ano, 4046 quilómetros quadrados em consequência dos fogos florestais. É isto todos os anos, nos EUA ou Austrália, com fogos que ficam ativos semanas a fio.

O crime não explica

De tantos temas, o que o primeiro-ministro preferiu tratar, por saber que é o mais popular e desvia do governo qualquer responsabilidade, foi o do crime de fogo posto. E fê-lo da forma mais populista possível, falando de interesses que sobrevoam o crime, com insinuações não concretizadas, impensáveis em quem lidera o governo. E dizendo que ia perseguir os criminosos, tarefa que cabe às forças policiais e à justiça. Confirma-se: Montenegro está sempre em campanha.

Claro que há fogo posto. Sempre houve. Mas Portugal reduziu em três quartos o número de ignições (temos um número de ignições semelhantes ao de Inglaterra). Apenas 1% das ignições são responsáveis por 90% da área ardida. Como disse o arquiteto paisagista Henrique Pereira dos Santos, na SIC Notícias, “o problema não é como o incêndio começa, é porque é que ele não para”.

O que é desesperante nestes debates é o empenho de tanta gente em desligar a causa da consequência. Lembro-me de, em 2017, ser trucidado por falar de alterações climáticas, como se fosse uma desculpabilização do governo. Se não falamos delas quando sentimos de forma mais dramática os seus efeitos, falamos quando? São, aliás, os mesmos que recusam a causa a serem mais vocais na responsabilização política pelas consequências.

Acontece o mesmo nos debates sobre a imigração: ela irá aumentar por causa das alterações climáticas e os que maior partido político tiram deste fenómeno são os que negam uma das suas causas. A razão para resistência é simples: é mais fácil responsabilizar os poderes públicos por não estarem preparados para as consequências do que participar numa mobilização geral para reduzir a pressão das causas.»


17.9.24

Dúvida genuína

 

Qual é a vantagem – e para quem – de as estações TV de notícias estarem permanentemente (quantas horas, há quantos dias?) a «tagarelar» sobre o drama dos incêndios?

As mangueiras de sempre

 


Continuamos a ser um país frágil

 


«Passámos o Verão receosos de que um dia como o de ontem pudesse chegar. E foi logo pela manhã, na primeira reunião de redacção, que, por vários sinais, percebemos que esta segunda-feira iria contrariar o registo que fazia com que, até 31 de Agosto, este fosse o ano com menor área ardida da última década. Infelizmente, como sublinhava ontem António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, “as contas fazem-se no fim”. E o fim ainda não foi ontem.

Calor, vento, casas a arder, diferentes frentes de incêndio, numa região onde habitação e floresta se misturam, eram sinais mais do que óbvios para ficarmos em alerta e enviarmos para o terreno os meios que nos permitissem uma cobertura aproximada do que estava a acontecer. O céu alaranjado no Porto, as cinzas que começavam a cair longe do epicentro dos acontecimentos, era a confirmação do dia de angústia que se seguiria, com um país cortado ao meio pela dimensão dos incêndios que, na hora em que se escreve este editorial, estão longe de estar terminados.

Como continuarão muito longe os dias em que poderemos passar um Verão sem sobressaltos, porque este é um país frágil, sempre que a questão é ir ao âmago dos problemas. É isso que explica no nosso podcast P24 o ex-secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural Miguel João de Freitas, que entre 2016 e 2017 co-assinou um conjunto de diplomas que ficaram a ser conhecidos como a Reforma da Floresta. Desde aí, afirma, foi feito muito trabalho em matéria de meios de combate ao fogo, foi feito muito trabalho na prevenção, mas “ficou por cumprir aquilo que era essencial, a gestão florestal”. E sublinha: “Se não tivermos um território que esteja gerido, a qualquer altura podemos voltar a ter fogos da dimensão dos de 2017.”

Depois da tragédia de Pedrógão, estávamos obrigados a fazer melhor, mas estamos ainda muito longe de resolver um problema que o aquecimento global só veio agravar. Enquanto não conseguirmos que a gestão do território seja um desígnio nacional, vamos estar sempre aquém do que é necessário para que não aconteçam dias como o 16 de Setembro de 2024.

Que pelo menos este dia, marcado já pelos enormes prejuízos materiais e pela perda de vidas humanas, sirva como impulso para olhar para os programas que já existem e que precisam é de força política e de dinheiro para serem realidade no terreno. Sem isso, sem um Governo que assuma a centralidade desta prioridade, continuamos a ser um país frágil, à mercê de uma rabanada de vento que desperte novamente o inferno.


15.7.22

Fogos florestais enlouquecem os canais de TV em Portugal

 


Zé-António Pimenta de França, um jornalista meu amigo, publicou ontem este texto importante no Facebook:

«Eu deixo pura e simplesmente de ver notícias na TV quando chegam os fogos florestais. Faz-me mal ver a excitação irresponsavelmente criminosa que reina nas redacções de TV pelo país fora. São horas e horas seguidas de directos ininterruptos sem qualquer racionalidade, dignidade ou mais-valia informativa sobre os incêndios.

Ressalvando o caso da RTP, que neste aspecto se tem portado uns furos acima dos canais privados (embora ainda com alguma cedência excessiva ao espectáculo), as direcções de informação dos canais nacionais não estão interessadas em informar de forma digna e racional sobre nada de nada. Estão interessadas é em dar espectáculo e em atrair audiências através de sensacionalismo histérico, veiculado através de directos constantes, mesmo quando não há razão nenhuma para directos. Não fazem informação, fazem entretenimento e captação de audiências utilizando como base material noticioso. A triste coisa que se chama, em linguagem técnica 'infotainment'.

Para isso, despacham equipas de reportagem pelo país fora, atrás dos incêndios, as quais, em regra, para agradar às suas chefias, não hesitam em atrapalhar bombeiros e equipas de socorro em prol do espectáculo voyeurista.

Ainda ontem à noite me ligou, escandalizado, o meu irmão Miguel (que é professor, nada tem a ver com jornalismo) contando-me algo que acabava de presenciar: uma repórter de TV entrevistava um comandante de bombeiros numa frente de fogo, perseguindo-o com perguntas e perguntas sem parar até que o senhor, depois de se ter escusado várias vezes delicadamente a continuar a conversa porque tinha trabalho urgente, sem resultado, acabou pura e simplesmente por virar costas com um grito "Deixe-me em paz! Não vê que estou a trabalhar?"...

Agora mesmo, acabo de encontrar um post do Rui Elias Maltez (o post não está partilhável, por isso optei por copiá-lo para aqui, junto com a ilustração que o acompanhava), narrando uma situação incrível, na qual o repórter Amílcar Matos (TVI/CNN) afirmava, numa intervenção em directo, o seguinte:

"48º, é o n° que se quer atingir, hoje, aqui em Coruche. Se esse número [de graus] for atingido temos record batido e Coruche faz a festa"... enquanto no insersor, uma legenda 'informa' a audiência que "Coruche pode bater hoje recorde europeu"!...

Ou seja, 48 graus de temperatura, um inferno, será uma festa para os coruchenses, diz, todo contente, o Sr. Amílcar! Pasmo total!!!

Esta frase é uma clara demonstração da tortuosa perversidade reinante na 'cultura' das redacções de televisão em Portugal (uma perversidade que já há muito contaminou todo o sistema de comunicação social nacional, sublinho).

Não há aqui nada mais que o aproveitamento mais desalmado e egoísta da desgraça dos incêndios. Zero objectividade, zero empatia, zero preocupação com o drama das populações. Há apenas oportunismo perverso e cruel da desgraça alheia. Faz-me lembrar o caso dos ladrões que aparecem nos grandes acidentes de avião ou comboio, para espoliar os feridos e mortos dos seus pertences. Paralelamente, estes "repórteres" pilham nas emoções das vítimas dos incêndios, mostrando como se afligem e choram ao ver as chamas a devorar as suas casas, colheitas ou animais, as suas vidas a esvair-se em fumo. Fazem deste drama um espectáculo. E insistem e voltam a insistir, sem qualquer espécie de pudor, perguntando uma e outra vez "Onde estava? O que sentiu? E agora que vai fazer?"...

E cuidam sempre de sublinhar a falta de bombeiros, de meios aéreos, para culpar alguém (como se fosse possível algum país ter bombeiros ou meios suficientes para responder a uma catástrofe destas!). Preocupação legítima? Não, apenas a segunda fase do aproveitamento da desgraça, introduzindo o espectáculo de oportunismo político que se segue, invariavelmente. Uma vez as chamas extintas, prossegue o 'infotainment' dos fogos, desta vez na arena política, com acusações e inquéritos, etc...

Lembra-me a amiga Joana Lopes (obrigado!) de algo que era para incluir aqui neste texto e me passou: acresce que a exibição contínua de imagens de incêndios é contraproducente porque encoraja os pirómanos a passar à acção... Isto está estudado e comprovado. Este espectáculo dantesco em exibição permanente nos noticiários só poderá levar mais gente a atear fogos, na esperança de terem o seu momento de glória e de verem os aviões e os bombeiros em acção.

A exibição destas imagens devia ter um tempo máximo permitido (curto, o suficiente para dar a notícia e mais nada) por dia. Desta forma os noticiários ver-se-iam obrigados a dar só o essencial.

Compete aos órgãos profissionais dos jornalistas impor regras e disciplina nesta selva...

Mas os senhores directores de informação das televisões não querem saber disto para nada. Querem é encher os bolsos dos donos dos canais com conquista fácil de audiências voyeuristas que os incêndios garantem...

Esta gente não tem nada a ver com o jornalismo, profissão que pratiquei toda a vida, durante quase quatro décadas. Só nos envergonham a todos! São desprezíveis!!!...

PS: Cada vez mais me convenço mais que o directo é o maior inimigo do jornalismo, na medida em que, ao eliminar ou reduzir drasticamente o papel do mediador (a função central do jornalismo) elimina também a reflexão racional sobre a realidade, que constitui a sua missão essencial. O directo é o princípio da morte do jornalismo porque privilegia a emoção, a qual usurpa o lugar da reflexão e o trabalho de confirmação e contextualização da realidade, essenciais à sua compreensão...»

Fica este inacreditável vídeo:


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Este país não é para verão

 


«Ainda nos lembramos de Pedrógão? Sim. Ainda nos lembramos. Morreram 66 pessoas. 253 ficaram feridas. Mais de 250 casas foram atingidas pela tragédia. É difícil esquecer. Mas, anteontem, a memória ficou ainda mais viva, quando o repórter da TSF Rui Tukayana foi apanhado de surpresa pelas chamas enquanto circulava na A1.

"Espero que ninguém pare", disse quando circulava na via com chamas nas bermas e fumo negro a bloquear a visibilidade. E se alguém parava? Felizmente, ninguém interrompeu a marcha.

O comandante da Proteção Civil André Fernandes explica. Diz que "há sempre um tempo de resposta desde que é dada a indicação à GNR para fazer o corte, e quer a GNR quer a Brisa, que é a concessionária da autoestrada, fizeram o corte no tempo que é normal para estas situações". A dúvida ficará entre todos aqueles que viram as imagens. Parece evidente que a A1 já deveria ter sido cortada ao trânsito.

São estes cenários de horror que estamos a ver e a viver diariamente, ano após ano. Que resultam de uma má gestão da floresta, de falta de meios, da falta de recursos humanos, da falta de limpeza de terrenos e até da burocracia para identificar propriedades. Um país que em menos de 42 horas corta três autoestradas (A1, A25, A28) e uma série de itinerários complementares não é um país seguro.

E as alterações climáticas não explicam tudo. Se são as próprias autoridades a afirmar que a maioria dos incêndios é de origem criminosa ou resulta de negligência, compete-lhes minimizar os problemas e não fazer cair a toda a hora a responsabilidade em cada um de nós.

Tem razão o primeiro-ministro quando diz que "as respostas não são mais meios, mas mais cuidado". Mas sobretudo mais cuidado com a segurança que o Estado tem de garantir a todos os seus cidadãos.»


Fica aqui o vídeo da tsf, referido no texto:


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14.7.22

Relato da resignação

 


«Os incêndios são o mais velho conto de verão. Fazem parte dos dias quentes, das férias. Banalizam-se. Até ao momento em que nos entram pela casa dentro, e nos revelam toda a sua tragédia, castigando um país assimétrico, litoralizado, enfeudado na resignação.

Todos os anos se fala em prevenção. Todos os anos se anunciam medidas. Todos os anos, todos, falhamos. Pedrógão marcou e moldou de tal modo as consciências que se acreditou. Tinha de ser. Somaram-se polémicas: com o SIRESP, com as limpezas das matas e as multas, com a falta de meios, com a falta de culpados e de políticas.

Passados cinco anos, estamos igual. Com populações ameaçadas, casas ardidas, a iminência de tragédias maiores. Estas condições adversas extremas são anormais, mas ainda assim esperadas face às transformações climáticas.

O que falta? Tudo, desde sempre. Não há organização ou ordenamento florestal que resistam face a dias sucessivos com temperaturas avassaladoras, vento, número elevado de fogos em simultâneo, mãos criminosas, falta de cuidado de todos.

Mas é exatamente por isso que é preciso cada vez mais investimento em segurança das populações, evitando que programas como o Aldeia Segura fiquem a meio do caminho, sem meios, sem técnicos, encravados na inoperância.

Os números e os factos, apenas deste exemplo. Três anos e meio após a criação do programa "Aldeia Segura, Pessoas Seguras", escreveu há bem pouco tempo o JN, 2233 aglomerados rurais estavam envolvidos em medidas de proteção contra o fogo, mas só 858 possuíam planos de evacuação e muitas áreas prioritárias estavam fora.

Não há ordem para arregaçar as mangas que vença a inércia. E no final do verão sobram as cinzas, sempre as cinzas. E a dor.»

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14.8.18

Comissões há muitas!



«Como Portugal não descobriu os Gremlins, inventou as comissões. Estas não se multiplicam com a água. Florescem como soja geneticamente modificada. São viçosas. Há, como nos supermercados, para todos os gostos e preços: de inquérito, de análise, de prevenção, de estudo. Há quem diga que já foram propostas entidades como a Comissão para a Tributação do Tremoço e a Comissão Consultiva da Comissão Eventual para a Criação de uma Unidade de Missão para as Missões a Criar. Algumas até têm nomes divertidos como a CADA (Comissão de Acesso aos Dados Administrativos), que funciona junto do Parlamento. Umas aparentam ser úteis. Outras são claramente inúteis. Todos, em Portugal, querem ter uma comissão. Não se entende porque este desiderato não está na Constituição da República. A maior parte das comissões são criadas por uma única razão: porque é necessário criar algo para ofuscar a incompetência de tudo o que tinha sido feito. Assim investiga-se e arquiva-se. E todos dormem descansados.

Agora Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu a criação de uma comissão independente que ajude o Governo a analisar se as formas de prevenção e respostas resultaram no combate aos incêndios. Há já um Observatório Técnico Independente, que aparentemente serve para a mesma coisa. O absurdo é que o país está farto de comissões sobre incêndios. E estes não acabam. Em 1990, foi criada a Comissão Eventual para a Análise e Reflexão da Problemática dos Incêndios em Portugal, a que se seguiu em 2003 a Comissão Eventual para as Incêndios Florestais e publicado o Livro Branco dos Incêndios Florestais. Em 2005, foi anunciada a Comissão Eventual de Acompanhamento e Avaliação das Medidas para a Prevenção, Vigilância e Combate aos Fogos Florestais e de Reestruturação do Ordenamento Florestal e em 2007 mais uma: a Comissão de Acompanhamento e Avaliação da Política Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios. E em 2013 foi constituído o Grupo de Trabalho para Análise da Problemática dos Incêndios Florestais. Comissões há muitas. Serviram para quê?»

Fernando Sobral
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24.7.18

E quanto à Grécia




«“Portugal não é a Grécia”, repetíamos desesperados em 2010 e 2011, com medo “dos mercados”. É verdade, não éramos. Mas hoje, neste preciso dia, somos. Somos países que ardem, onde se morre nas chamas em casa e a fugir delas nos carros. Somos países a fingir estratégias nacionais e irrelevantes na Europa, que nos quer para postal. Lá chegaremos, a esse debate, sem procurar culpas nem encontrar desculpas, esperando que nessa hora se entenda que isto não são casos nem acasos. É um planeta mais quente, é uma União Europeia mais fria, são Estados fracos e enfraquecidos pelos seus próprios sistemas políticos, administrativos e orçamentais»
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13.8.17

Televisões pirómanas



A ERC (ou outra qualquer instituição) nada tem a dizer, com urgência, sobre o estímulo para pirómanos, que as TVs estão a fornecer ao exibirem belíssimas imagens de incêndios durante dezenas de horas diárias??? 
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19.8.16

Fogo que arde e se vê



«Chegou tarde, mas chegou em força, a temporada de incêndios. Como sempre, nesta altura, há especialistas em incêndios nos sete canais.

Todos têm teorias sobre o que já devia ter sido feito, o que não se fez e o que não deviam ter desfeito. Chegando o fresco Setembro, já nunca mais ninguém pensa nisto. Depois, passam uns meses e vêm os especialistas nas cheias em Albufeira e Santarém, e o ano termina com a falta de limpa-neves na serra da Estrela (que tem a única estância de esqui do mundo que, quando neva, fecha). Já todos sabemos que, depois, fica tudo na mesma. A única medida para ajudar na prevenção dos incêndios em 2017 era aumentar o tamanho dos baldes das esfregonas, porque acaba sempre por ser o popular com o balde a lutar com o incêndio. (…)

Na verdade, Portugal acabou a ser ajudado pelos russos e pelos marroquinos, nossos parceiros na União Europeia. Não sejamos injustos, há uma explicação. A UE justificou a ajuda limitada a Portugal com falta de disponibilidade de meios devido aos incêndios registados em vários Estados-membros, e ao gato do Schäuble, que não queria descer de uma árvore.

Pior do que a prevenção de incêndios, só a cobertura jornalística dos mesmos. O jornalista está convencido de que é melhor jornalista quanto mais perto estiver do fogo. Se estiver com dificuldades em respirar, melhor ainda. Mas não ajuda no combate, isso, nem pensar. Entrevista um senhor que está a lutar pela vida, com um ramo contra uma labareda, mas não intervém. Limita-se a perguntar - vocês correm o risco de ficar sem nada? - Sim, se o senhor não se chegar para o lado ou não for buscar um balde.

Depois, há os senhores jornalistas que, perante pessoas em choro e desespero, a quem tudo ardeu, perguntam sempre o mesmo: "É uma situação que nunca tinha vivido?"
- A minha casa ardeu, fiquei sem nada, não sei do meu filho...
- É uma situação que nunca tinha vivido?
- Não, ainda na semana passada lutei com uma lula gigante.

Evitem. É só estúpido.»

13.8.16

Incêndios: e se os políticos não fizessem promessas?


«Será que os políticos não podem fazer um voto de silêncio até ao fim da época de incêndios, no que diz respeito a promessas? Acima de tudo, não nos tratem como crianças. Nós sabemos que este é o país do eucalipto, do abandono do interior e da decadência da agricultura. Nós vivemos no país onde a floresta entra pelas povoações dentro e os proprietários não limpam terrenos, e já por cá andávamos quando foi aprovado, em 2006, o Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios. E, sim, nós também sabemos, mesmo que façamos de conta que não, que temos um quadro legal duro para com os incendiários e que, mais do que com mangueira, os incêndios se têm de combater de enxada e machado.»

David Pontes

12.8.16

Os portugueses são estúpidos?



«Todos os anos temos a mesma lengalenga. O país cobre-se de incêndios de norte a sul passando pelas ilhas.

Às televisões, invadidas pelas labaredas e por uma histeria maior do que a habitual, acorrem especialistas enumerando as causas dos sinistros, propondo as mesmas soluções de sempre, misturados com o natural desespero dos populares que tentam apagar fogos com baldes e mangueiras precárias. Já os jornalistas nunca resistem a falar dos cenários dantescos revelando que nunca leram "A Divina Comédia" de Dante. De resto, os políticos expressam solidariedade com as populações, o que é à borla e fica sempre bem, enquanto o Governo promete mais meios, coisa que diga-se em abono da verdade, têm cumprido ao longo dos anos. Nunca houve tanto bombeiro, tanto carro, avião e helicóptero. E, no entanto, o país continua a arder. (…)

O problema dos fogos é também esse. Instalou-se em Portugal um poderoso lóbi, que há quem, menos comedido, chame uma verdadeira máfia, que canaliza todas as verbas disponíveis para o combate ao fogo. A gestão da floresta e a prevenção ficam com as migalhas. Portugal não precisa de mais bombeiros. Precisa de mais engenheiros florestais. (…)

Infelizmente, aquilo que se ganhou em ligeiro progresso económico não se conquistou em inteligência. Ter habitações no meio de matos ressequidos não é uma boa ideia. A preguiça em prevenir o fogo, limpando as matas, faz com que este consuma as casas, outro património e vidas. É assim tão difícil de perceber?

A dificuldade em encontrar os proprietários, em obrigá-los a fazer a limpeza ou a inércia das entidades responsáveis também não servem de justificação. O Estado, como todos sabemos, é eficiente sempre que quer. Há quem diga que isto não vai lá com multas. A realidade diz o contrário: vai, vai. Não há outra maneira. Infelizmente a maioria das pessoas só muda à força. Não o faz por informação, persuasão e raciocínio.

Arrume-se a floresta, modernize-se a sua gestão, aplique-se a lei e multe-se pesadamente quem não a limpa. Quem não tem capacidade para o fazer venda. A propriedade não é um bem absoluto. Inútil, abandonada, é um risco para todos.

Em suma: passe-se da estupidez para a inteligência.»

Leonel Moura