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11.1.26

Com dúvidas, mas vai promulgando

 


25.12.25

Mensagem de Marcelo?

 


Marcelo divulgou hoje, no JN, uma mensagem de Natal como artigo de Opinião. Estranhei o texto: rebuscado não só no conteúdo mas ainda mais no estilo.

Pode ser lido AQUI.

2.12.25

Hérnias

 


𝐎𝐬 𝐡𝐨𝐬𝐩𝐢𝐭𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐞𝐯𝐞𝐦 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐫 𝐡𝐨𝐣𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐜𝐨𝐦 𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐡é𝐫𝐧𝐢𝐚𝐬 𝐞𝐧𝐜𝐚𝐫𝐜𝐞𝐫𝐚𝐝𝐚𝐬. 𝐀𝐬 𝐓𝐕𝐬 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐦 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐦 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐢𝐬𝐬𝐨 𝐚𝐜𝐨𝐧𝐭𝐞ç𝐚.

24.11.25

Se calhar ainda vamos ter muitas saudades de Marcelo

 


«Todos os candidatos presidenciais se esforçam nesta campanha para mostrar que não são Marcelo.

Obviamente, nem todos chegam aos píncaros de André Ventura, que chamou “cobarde” ao Presidente por ter ouvido sem sair da sala o discurso de João Lourenço que falava da escravatura e colonização (coisas que nunca existiram na cabeça dos velhinhos imperialistas, que Ventura quer cooptar para o Chega).

Mas já sabemos que, para lá de Angola, Ventura também cortava relações com o Brasil (lembrem-se da figura que fez com a visita oficial de Lula a Portugal e o que diz do Presidente do Brasil sempre que pode).

Mas com Ventura ninguém precisa de se preocupar muito. O líder do Chega pode ter a esplendorosa vitória de passar à segunda volta, mas nunca será eleito Presidente da República. Na verdade, pode dizer o que quiser e espalhar todo o ódio que quiser porque nunca terá de responder pelo que diz. Ainda não é Donald Trump — gostava de ser, mas ainda não é.

Quanto aos outros candidatos, esfalfam-se a argumentar que não falariam a toda a hora — como fez Marcelo — nem dissolveriam a Assembleia em caso de chumbo do Orçamento e alguns até aceitariam, como Jorge Sampaio fez com Santana Lopes, que depois da demissão de António Costa outro socialista pudesse formar Governo.

Na verdade, Marcelo "deu" uma maioria absoluta a António Costa — imerecida, como se viu depois — ao dissolver o Parlamento depois do chumbo do Orçamento de 2022, deixando Costa e o PS a vitimizarem-se. Ajudou também à maioria absoluta a indefinição de Rui Rio sobre uma aliança com o Chega, o que fez muito voto útil de quem não queria uma aliança PSD/Chega fosse parar ao PS.

O facto de Marcelo não ter deixado outro socialista formar Governo depois da demissão de Costa é discutível. No momento em que Costa se demite, como se veio depois a provar nas eleições seguintes, os socialistas já tinham desperdiçado a maioria absoluta e já havia uma grande contestação ao Governo. É legítimo dizer-se que naquela altura o Governo já não tinha as graças do povo, como as eleições provaram.

De resto, havia o precedente Jorge Sampaio: embora em 2004 Sampaio tivesse agido de uma forma totalmente correcta e de acordo com a Constituição, foi mal compreendido dentro e fora da sua família política (e até muito incompreendido dentro do Palácio de Belém). O argumento — inconstitucional — de que “Santana Lopes não tinha ido a votos” fez carreira no espaço público, nomeadamente entre socialistas. Ferro Rodrigues, que era o líder do PS na altura, demite-se na sequência desta decisão.

Mais a mais, tinha sido o próprio Marcelo — quando deu posse ao Costa bafejado pela maioria absoluta — a afirmar que “a maioria era pessoal” e a ameaçar que se Costa abandonasse o Governo convocava eleições. Nesta altura, Marcelo quis assombrar a futura candidatura de Costa ao Conselho Europeu. Por linhas tortas que não desejou, Costa acabaria mesmo no Conselho Europeu e o país a virar inequivocamente à direita.

A questão é que Marcelo também esteve certo em muitos momentos. Boa parte do ódio que a direita lhe guarda é provocado pelo facto de ter “ajudado” a “geringonça” a manter estabilidade política no país durante quatro anos. Sendo de uma família política distinta do PS, é obra. O PS tem ainda a agradecer-lhe a maioria absoluta que tanto quis e desperdiçou.

Marcelo soube ter sentido de Estado múltiplas vezes, num momento em que entrou num sistema um partido de extrema-direita propagandista do ódio entre cidadãos. Soube, talvez primeiro que todos, que isso ia acontecer. Teve sentido de Estado a seguir aos fogos de Pedrógão quando o Governo PS teve um momento de descolamento da realidade. Teve sentido de Estado na relação com as antigas colónias.

Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez nenhum dos seus antecessores.

O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de "paz" para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump "um activo russo". Confirma-se.»


15.11.25

Marcelo depois de Belém?

 


«Presidente da República anuncia planos para lecionar nos EUA e aproveitar para assistir aos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles.»

29.8.25

Marcelo tem razão: Trump é um agente de Putin

 


«O Presidente da República foi à Universidade de Verão do PSD e disse uma coisa diplomaticamente incorrecta mas verdadeira, "peculiar" e "complexa": "O líder máximo da maior superpotência do mundo, objectivamente, é um activo soviético ou russo".

Nem de propósito: a reacção tranquila dos Estados Unidos ao ataque desta quinta-feira a Kiev, que atingiu a missão da União Europeia, foi mais uma prova de que existe, cada vez com mais força, um eixo Estados Unidos/Rússia, e que isso é uma alteração sísmica em toda a geopolítica pós-Segunda Guerra.

Marcelo, na Universidade de Verão, lembrou como "a nova liderança norte-americana tem favorecido, estrategicamente, a Federação Russa" e criticou a impotente Europa por ter "minimizado o senhor Trump e o trumpismo", assim como "a hipótese de, de repente, haver uma nova balança de poderes".

Um novo eixo está em formação, à nossa frente. Vivemos estes tempos com alguma denegação, que é um mecanismo que costuma acontecer na sequência de traumas violentos.

Uma parte muito interessante do discurso de Marcelo em Castelo de Vide incide exactamente nesta denegação sobre o que se está a passar nos Estados Unidos da América, um país que tratamos como "aliado" e ao qual nos subjugamos – o conjunto dos europeus.

O Presidente da República criticou "a minimização de tudo o que é a separação de poderes" levada a cabo por Trump: "Se for preciso, ameaçando intervir na vida de uma empresa privada, num tribunal ou numa reserva federal".

"O actual Trump noutros tempos chocaria imenso", diz Marcelo. Não choca hoje porquê? Porque as democracias estão a morrer aos poucos. Porque se popularizaram as "democracias iliberais", uma expressão que é um contra-senso.

Trump disse esta semana que muitas pessoas "parecem querer um ditador", que dizem "talvez nós gostássemos de um ditador", mas que ele "não é um ditador". Quanto tempo faltará para começarmos a chamar a Trump "ditador" como chamamos a Putin? Na Rússia também há eleições.

Mais uma vez Marcelo: "Este é o tempo dos radicais com os quais as democracias se fazem de outra maneira, mas estamos a descobrir todos como é que se vão fazer, com que instituições e de que modo".

Isto era sobre Portugal e referia-se directamente ao PSD e à potencial aliança com o Chega: "Não é que não haja espaço em democracia para todas as formações e todos os posicionamentos políticos. Agora, é evidente que é mais fácil fazer acordos de regime, fazer consensos, encontrar soluções ao centro, se um partido de centro-direita for um partido de centro-direita e não de direita que é de direita radical".»

Ana Sá Lopes
Newsletter do Público (Excerto)

15.8.25

Marcelo: PSD está a “cheguizar-se” por pragmatismo



 

«Aos olhos de Marcelo, sabe o Expresso, o longo jejum de poder e as frágeis minorias governativas deste ano e meio fizeram avultar no PSD uma certa “insensibilidade”.»


16.6.25

Marcelo, versão inicial

 


O primeiro mandato do PR foi mesmo diferente e muito mais divertido.


(Fotografia de 2022, Lusa)

11.6.25

Marcelo: agarrado ao pescoço da Nação

 

Imagem de André Ruivo

«Depois do discurso de Lídia Jorge, talvez demasiado denso para o momento, mas com a coragem de, sem omissões, usar as contradições da nossa história para refletir no espelho uma identidade bem diferente daquela que a extrema-direita quer para nós, Marcelo Rebelo de Sousa limitou-se a picar o ponto, reafirmando o que se tinha ouvido. Lamento a sua despedida quase burocrática, porque ele próprio merecia deixar uma marca que apagasse o último episódio em que o vimos e que, infelizmente, é sintomático.

Não gosto dos pequenos escândalos que alimentam polémicas estéreis, quando as redes sociais escolhem, como em "Hated in the Nation", episódio de Black Mirror, a sua vítima do dia. Fiquei, no entanto, a pensar na cena de Marcelo Rebelo de Sousa com a trabalhadora da Feira do Livro que, aproveitando a presença do Presidente com uma comitiva de jornalistas no local, resolveu fazer um apelo à participação no protesto contra a matança em Gaza, um genocídio que o Estado português ignora.

Como era evidente, a cidadã não esperava que Marcelo tivesse a clareza que lhe faltou até hoje. Líderes políticos que deixaram as coisas chegar ao ponto a que chegaram em Gaza sem fazerem um corte radical com o governo criminoso de Netanyahu não se vão comover com uma folha de papel A4 na mão de uma mulher. Era um protesto, não pretendia ser um diálogo.

Quando Marcelo disse para ela o ouvir, a resposta foi honesta: tem todo o tempo do mundo para falar. Era aos jornalistas que se dirigia. Mas fez tudo com uma correção inatacável, sem nunca deixar de tratar Marcelo por “Senhor Presidente” ou levantar a voz, enquanto era interrompida e segurada pelo chefe do Estado.

Quando Marcelo quis falar, vendo que a cidadã se preparava para seguir a sua vida, fez o impensável, segurando-a pelo pescoço. E, mesmo ouvindo a frase impensável – "não me agarre o pescoço, senhor Presidente" –, ainda insistiu um pouco. Toda a cena provocou um misto de vergonha alheia e perplexidade. E toda ela ajuda a explicar porque corremos o risco de eleger um militar sem qualquer experiência política ou cívica para Belém.

Não preciso de outro exercício: se a senhora tivesse feito o mesmo seria, com toda a justiça, agarrada por seguranças e identificada pela polícia. Se assim é, estamos perante um abuso vindo de alguém que se esqueceu de que o seu poder resulta de um cargo transitório que ocupa, não é realmente seu. É ele que se tem de adaptar ao fato, não o oposto.

Nada disto é novo. Aconteceu com comentários impensáveis ao decote de uma rapariga ou ao peso de uma senhora, acontece nos passou-bens que se transformam em puxões intimidatórios ao estilo de Trump, sinal de desrespeito pelo corpo do outro. Mas este caso torna-se mais grave por ter sido com alguém que não só não deu qualquer sinal de simpatia ou proximidade, como até o estava a contestar.

Defendi e defendo que a proximidade física de Marcelo foi, em diversos momentos, uma vantagem. Como o corpo fala, e também fala na política, essa proximidade falou quando o Estado falhou ou esteve ausente, como aconteceu em Pedrógão. Essa proximidade falou quando se instalou a ideia da casta e Marcelo estava na praia, no supermercado, na rua. E falou quando se fez fotografar junto da população do Bairro da Jamaica. Não esqueci nada disso. A arma de Marcelo contra o populismo sempre foi a popularidade.

A informalidade humaniza o cargo. Mas a informalidade em excesso torna esse cargo pessoal e idiossincrático, abrindo a porta para a arbitrariedade e para confusão entre o poder institucional e pessoal. Aquilo que Marcelo diz querer combater. O excesso de proximidade cria a ilusão de intimidade que pode alimentar o abuso de poder.

A informalidade de Marcelo tem criado, desde que parece ter perdido os filtros, imensos problemas. Até crises políticas e instabilidade. Aquela imagem confrangedora tem, como o bolo na boca de Cavaco para não responder a jornalistas, o poder simbólico de um fim de ciclo. O sinal de que se foi longe demais e de que está na altura de voltar a mudar de registo. Infelizmente, é costume o exagero na correção.

Esperemos que ao excesso de informalidade não suceda a rigidez da parada. E não me refiro à que, com a autoridade moral do seu papel político na instauração da democracia, foi ontem condecorada por Marcelo, mas da que brilha no fogacho mediático que constrói políticos sem passado.»


8.1.25

Marcelo pergunta aos conselheiros se precisa de conselhos

 


«Depois de tomar conta das televisões, continuando a ter mais tempo de antena do que o verdadeiro líder da oposição; das redes sociais, onde os algoritmos de Musk e companhia favorecem a extrema-direita; e do Parlamento, onde Aguiar-Branco deixa que mande quem grita mais alto, André Ventura decidiu passar à conquista da Presidência da República.

Não, não estou a falar das suas candidaturas a tudo a que se possa concorrer, porque lidera um partido onde só ele está autorizado a pensar porque, em abono da verdade, é dos poucos que o consegue fazer. Estou a falar da tentativa de ser ele a marcar reuniões do Conselho de Estado. Sobre segurança, claro. Seria só mais um número de Ventura se o Presidente da Repúblicas não tivesse contribuído, de forma inédita, para que o circo continuasse para lá do dia em que a coisa foi proposta.

É sintomático do desnorte perante os jogos de Ventura que Marcelo Rebelo de Sousa não tivesse fechado o tema no próprio dia, respondendo que ele é ele que, fora das exigências constitucionais, decide quando se convoca o Conselho de Estado. Como o conselheiro de Estado Marques Mendes defendeu, aliás.

Devia ter fechado, porque nenhum dado estatístico justificaria uma reunião do Conselho de Estado sobre este tema. Nunca houve um Conselho de Estado sobre a habitação, provavelmente o problema mais grave que o país atravessa. Nunca houve um Conselho de Estado sobre violência doméstica, o problema mais grave de segurança em Portugal. Porque havia de haver um Conselho de Estado sobre segurança? Porque há um partido que tem um produto para vender (o medo que garante o voto irracional), precisa de criar mercado para esse produto e procura transformar todo o espaço público numa montra para o seu comércio? Tem conseguido. Há um mês que falamos de segurança e imigração, que nunca foram os assuntos que mais preocuparam os portugueses.

Devia ter fechado, porque se o Presidente da República não marca debates de emergência na Assembleia da República, os deputados não marcam reuniões do Conselho de Estado, mesmo que sejam conselheiros. Se André Ventura acha que esta é uma boa ideia, tem um lugar onde a propor, já que é conselheiro: no próximo Conselho de Estado. O próximo é já no dia 17, por causa da Madeira. E aí propunha e aí teria a opinião dos conselheiros e a resposta do Presidente.

Mas isto é se vivêssemos tempos normais. Não vivemos e, por isso, o Presidente da República inverteu a ordem dos poderes e decidiu consultar os conselheiros para saber se querem reunir para o aconselhar – é mesmo essa a função do órgão. Porque não se limitou a responder, por decisão sua, como era seu dever? Tem medo de assumir a sua posição? Tem medo, como sempre teve, da impopularidade? De se comprometer?

Com esta consulta estapafúrdia, é o Presidente da República a diminuir, mais uma vez, o cargo que ocupa. O preço deste pecado recorrente tem sido pago pela incapacidade de usar o poder que tem. De pouco vale pedir respeito do governo quando não se dá ele próprio ao respeito.

O problema é que Marcelo Rebelo de Sousa transformou as reuniões do Conselho de Estado em tertúlias, onde os conselheiros vão ouvir convidados em vez do Presidente ir ouvir os conselheiros. Ou numa oportunidade para criar factos políticos sem qualquer consequência. É um problema mais geral desta Presidência: a informalidade de tudo. Ela tem vantagens, como uma maior proximidade do Presidente aos cidadãos, especialmente importante quando sentem a política e o Estado como coisas distantes. E desvantagens, como a desinstitucionalização da política no preciso momento em que a extrema-direita tenta fragilizar as instituições. Nisto, o legado de Marcelo será trágico.»


6.12.24

Marcelo era "feliz e não sabia" e pode-se queixar de si próprio

 


«A frase que Marcelo dedicou a António Costa na quarta-feira, na conferência do PÚBLICO na Escola, é uma referência política emocional e uma declaração de derrota.

A frase "éramos felizes e não sabíamos" é usada por toda a gente em momentos de nostalgia e de beatificação de passados em contraposição a presentes sombrios.

Para Marcelo, o presente é sombrio: tem 50 deputados do Chega sentados na Assembleia da República e vai deixar, tudo indica, a Presidência da República entregue a um militar, uma coisa que abjura. Sim, com António Costa, Marcelo foi feliz – "comparado com o que vinha aí".

Vamos à frase emocional do Presidente: "Dizia muitas vezes a um governante com o qual partilhei quase oito anos e meio de experiência inesquecível: um dia reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos. Era tudo relativo, era uma felicidade relativa, mas comparado com o que vinha por aí, era uma felicidade".

Sim, o Presidente não está a conviver nada bem com este novo ciclo: "A realidade não está racional, está emocional. As novas lideranças são emocionais, as novas formas de comunicação são emocionais, os novos poderes são emocionais, não são racionais".

É tudo verdade, mas a realidade sempre foi emocional e pouco racional. Já o era antes, quando Marcelo foi eleito. O Presidente dos "afectos" usou e abusou das emoções. Um dos seus maiores trunfos era a sua incrível capacidade de atracção. Isto é racional? Não.

Podemos dizer que a eleição de Marcelo colocava menos riscos para o regime tal como o conhecemos do que um almirante que ainda esta quinta-feira foi fazer campanha fardado e apela sempre que pode às emoções dos portugueses sedentos de ordem e autoridade.

É um facto que Marcelo já tinha dado um mergulho no Tejo e guiado um táxi (campanha para as autárquicas de Lisboa de 1989). Comentou tudo aos domingos à noite durante décadas. E quando popularizou o seu peito nu em frente às câmaras – em si um acto emocional, em busca da dita proximidade – os portugueses já o conheciam.

O drama do grito de alma de Marcelo é ele ser co-responsável pela ascensão do Chega e do almirante. Não foi agora que a política começou a ser emocional – António Campos recorda na entrevista ao PÚBLICO como Mário Soares tinha perfeita noção da "falta de cultura democrática" do povo português, que tinha "reacções emocionais e não racionais".

O problema é que Marcelo também vê a política de forma emocional. Se tivesse sido racional, saberia que, depois da demissão de António Costa por causa do famoso parágrafo da antiga PGR – que acabaria sempre por acontecer depois de terem sido encontrados maços de notas na sala do chefe de gabinete –, não devia ter convocado eleições. Uma vez disse no nosso podcast Soundbite que Marcelo "não iria querer ter como legado a eleição de uma grande bancada do Chega na Assembleia da República".

Fui ingénua. Marcelo tinha amarrado Costa ao cargo, numa interpretação abusiva do significado das eleições legislativas, transformando-as em eleição unipessoal como é a do Presidente da República, para tentar torpedear a chegada de Costa ao Conselho Europeu.

Era possível, no nosso regime, o partido mais votado (o PS, com maioria absoluta, na época) ter indicado um outro primeiro-ministro. Marcelo deve ter hesitado e a prova é que Mário Centeno foi contar ao Financial Times que tinha sido convidado (depois foi obrigado a recuar).

Só que Marcelo tinha-se comprometido com a dissolução de que tantas vezes falara, muitas vezes a total despropósito. Na verdade, o Governo da maioria absoluta vivia no iminente risco de uma dissolução tantas vezes "ameaçada" pelo Presidente. Havia alguém que tivesse dúvidas de que nas eleições haveria lugar a uma enchente do Chega? Aparentemente, só o maior analista político da República não percebeu.

Sim, Marcelo foi feliz, não sabia e não voltará a felicidades passadas. Uma grande parte dos seus ziguezagues enquanto Presidente, das suas mudanças de humor e opinião, das suas "marcelices" abriu caminho a um futuro Presidente com o perfil do almirante. Gouveia e Melo voltou a usar esta quinta-feira o cargo de Chefe de Estado-Maior da Armada com vista às presidenciais e não tem feito outra coisa desde que chegou ao posto.

Foi o almirante que ainda esta quinta-feira disse: "Nós, militares, temos essa coisa. Temos cara de mau e quando estamos fardados temos galões, às vezes, isso ajuda. Essa autoridade lateral que nos vem da farda ajuda".

Resta saber como é que a "cara de mau" funciona com outra roupa. É que em 2025 Gouveia e Melo não andará vestido à militar e vamos ver se o sucesso emocional será o mesmo estando despido (de farda).»

Ana Sá Lopes
Newsletter do Público

23.9.24

O cerco marcelista ao PS

 


«A informalidade de Marcelo foi útil quando o Estado falhou aos cidadãos, como nos incêndios de 2017. Conseguiu, pela forma, vencer o conteúdo dos populistas. Mas teve custos. A incapacidade de manter sobriedade institucional e de ficar no perímetro das suas competências foi origem de instabilidade política. Não é incontinência verbal. Quando lhe deu jeito, soube gerir silêncios.

Em queda desde que o caso da gémeas manchou a sua imagem, tornou-se facilmente manipulável. Carente de palco, até é usado como escudo para possíveis problemas para o governo, como aconteceu no último Conselho de Ministros.

Andemos para trás na “fita do tempo”. Tinha Costa uma maioria absoluta que conquistara há pouco mais de dois anos, por via de outra dissolução, e já se instalara uma sensação de crise alimentada por pequenos episódios diários, como a crise das urgências ou falta de professores. Tudo regressa num governo acabadinho de estrear, mas o estado de graça permite relevar. Vivia-se o desgaste natural de oito anos que, em democracias maduras, não leva a crises políticas. Mas Marcelo alimentou-a, com conversas estapafúrdias sobre uma possível dissolução, noticias plantadas, pequenos factos políticos.

Quando a PGR fez de António Costa um suspeito sem suspeitas, o clima político estava em ponto caramelo. E Marcelo foi o primeiro Presidente a dissolver o parlamento sem haver o mínimo indício de vir a existir uma alternativa viável. Para Costa, que apoiou a sua reeleição, tudo acabou bem. O país é que ficou ingovernável.

Depois das eleições, com dois partidos quase empatados e uma situação de ingovernabilidade à vista, não houve, da parte do Presidente, qualquer sinal de exigência. Viciado no frenesim, queria posse rápida. Mesmo com os jornais a darem a conhecer, através de fontes da AD, que a estratégia era repetir 1987, indo para eleições o mais depressa possível, Marcelo não pôs qualquer condição e deixou que esta ideia se instalasse, retirando qualquer pressão sobre o governo.

Começada a novela da negociação do Orçamento, a pressão de Marcelo concentrou-se sobre o PS, recordando que ele próprio viabilizou orçamentos de Guterres. Esqueceu-se de dizer três coisas: que o PS tinha quase a maioria absoluta, não quase um empate; que não foi empurrado para negociações prévias e formais; e que ele próprio não chegou às eleições seguintes.

A pressão prévia a qualquer negociação não serve para facilitar o diálogo. Tira ao PS o pouquíssimo poder negocial que ainda tinha, quando todos sabem que não quer ir a votos. Se se alimentar a ideia da intransigência do PS – o número de ontem, em torno da marcação frustrada de reuniões, entusiasmará os jornalistas com o “diz que disse” e só serve para isto – é ainda mais tentador para Montenegro ir a eleições, com essa narrativa. Assim sendo, as suas cedências serão aparentes, para consumo mediático e eleitoral. A pressão sobre o PS, neste momento, é um incentivo para o governo apresentar um Orçamento ainda mais marcado. Funciona contra a moderação e o diálogo.

O Presidente sabe que a AD é a única força que não se importa de ir a eleições. Sabe que, a ser precisa alguma pressão, é sobre Montenegro. A marcação de dois conselhos de Estado para logo antes e logo depois da apresentação do OE é mais um momento de pressão sobre quem já está entalado. Com a atual composição, inclinada à direita, é cinismo vir dizer que Pedro Nuno Santos vai poder “falar à vontade” sem haver “pressão”. É mais um episódio do cerco presidencial ao PS, para que este viabilize qualquer Orçamento, anulando-se e deixando a AD solta para governar sem negociar e o Chega solto para fazer oposição sem assumir compromissos.

O outro foi plantar nos jornais que sem OE aprovado dissolve o parlamento (pela terceira vez, na sua presidência). É música para os ouvidos de Montenegro, cujos círculos próximos já têm falado de demissão, caso o PS não lhes dê a mão. Negociar, para quê? Devo recordar que Portugal esteve, durante meses, em 2022, em duodécimos. Sem drama. E é falso que o PPR não possa ser acomodado. Ao fazer saber que se não houver Orçamento de Estado haverá eleições, o Presidente diz a quem deseja esse desfecho para negociar. Ou seja, diz ao governo para não ceder. Mesmo que não seja esse o seu objetivo. É que Marcelo tem demonstrado que o seu génio analítico já teve melhores dias.

A AD até tem a vida facilitada. Pedro Nuno Santos definiu, como linhas vermelhas, o IRS Jovem e o IRC. Mesmo que faça outras exigências, o PS fica numa situação muito difícil se o governo deixar cair pelo menos o que tem maior impacto orçamental e é politicamente mais indefensável: um esforço de mil milhões de euros anuais em grande parte canalizado para os jovens mais privilegiados, violando a progressividade do sistema e mínimos de igualdade perante a lei. Uma proposta injusta, ineficaz nos objetivos a que se propõe, provavelmente inconstitucional e que o Conselho de Finanças Públicas já explicou que levaria a um défice em 2026, ainda por cima. Não se trata de ficar a meio caminho desta proposta. Isso não é aceitar uma linha vermelha. Trata-se de perceber que um governo com 29% dos votos não faz uma revolução fiscal sem ter maioria para isso.

Na realidade, o governo até tem maioria que precisa: a IL e o Chega. Se o IRS Jovem é fundamental, Montenegro negoceia com quem concorda com ele, se não quer negociar com o Chega, prescinde do IRS Jovem. O dilema é simples de resolver, mas Montenegro quer o melhor dos mundos: não faz qualquer cordão sanitário ao Chega, com quem até negoceia; não paga o preço de ter o voto da extrema-direita; mas aprova o que o Chega defende com os votos do PS, anulando o maior partido da oposição. Com o apoio diligente do Presidente, que, no seu vício pela intriga, nos deixou como herança um país partido em três e estruturalmente ingovernável.»