«O Presidente da República foi à Universidade de Verão do PSD e disse uma coisa diplomaticamente incorrecta mas verdadeira, "peculiar" e "complexa": "O líder máximo da maior superpotência do mundo, objectivamente, é um activo soviético ou russo".
Nem de propósito: a reacção tranquila dos Estados Unidos ao ataque desta quinta-feira a Kiev, que atingiu a missão da União Europeia, foi mais uma prova de que existe, cada vez com mais força, um eixo Estados Unidos/Rússia, e que isso é uma alteração sísmica em toda a geopolítica pós-Segunda Guerra.
Marcelo, na Universidade de Verão, lembrou como "a nova liderança norte-americana tem favorecido, estrategicamente, a Federação Russa" e criticou a impotente Europa por ter "minimizado o senhor Trump e o trumpismo", assim como "a hipótese de, de repente, haver uma nova balança de poderes".
Um novo eixo está em formação, à nossa frente. Vivemos estes tempos com alguma denegação, que é um mecanismo que costuma acontecer na sequência de traumas violentos.
Uma parte muito interessante do discurso de Marcelo em Castelo de Vide incide exactamente nesta denegação sobre o que se está a passar nos Estados Unidos da América, um país que tratamos como "aliado" e ao qual nos subjugamos – o conjunto dos europeus.
O Presidente da República criticou "a minimização de tudo o que é a separação de poderes" levada a cabo por Trump: "Se for preciso, ameaçando intervir na vida de uma empresa privada, num tribunal ou numa reserva federal".
"O actual Trump noutros tempos chocaria imenso", diz Marcelo. Não choca hoje porquê? Porque as democracias estão a morrer aos poucos. Porque se popularizaram as "democracias iliberais", uma expressão que é um contra-senso.
Trump disse esta semana que muitas pessoas "parecem querer um ditador", que dizem "talvez nós gostássemos de um ditador", mas que ele "não é um ditador". Quanto tempo faltará para começarmos a chamar a Trump "ditador" como chamamos a Putin? Na Rússia também há eleições.
Mais uma vez Marcelo: "Este é o tempo dos radicais com os quais as democracias se fazem de outra maneira, mas estamos a descobrir todos como é que se vão fazer, com que instituições e de que modo".
Isto era sobre Portugal e referia-se directamente ao PSD e à potencial aliança com o Chega: "Não é que não haja espaço em democracia para todas as formações e todos os posicionamentos políticos. Agora, é evidente que é mais fácil fazer acordos de regime, fazer consensos, encontrar soluções ao centro, se um partido de centro-direita for um partido de centro-direita e não de direita que é de direita radical".»
Ana Sá Lopes
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