17.1.26

Françoise Hardy não chegou aos 81

 


O que aconteceria faz hoje um ano, mas morreu em 11 de Junho de 2024. Confessou que mais de um cancro transformaram a sua vida num pesadelo. Custou ler isto.

Seja como for, nós, «les garçons et les filles de son âge», ficaremos para sempre a dever-lhe memórias de ternura e de inocência. Voltar a ouvi-la, nos seus primeiros tempos, devolve-nos uma ingenuidade que parece hoje irreal.

Do seu álbum «Personne d’autre» de 2018:



Do álbum de 2012:



E, inevitavelmente, o início de tudo (1962), a canção ícone que ficou para sempre, com letra e música de sua autoria:


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16.1.26

Quem for com Ventura à segunda volta será Presidente

 




Inês Bichão

 


Lá terá de ser Seguro

 


«A utilidade do voto mede-se pelo seu objetivo. E a mesma pessoa pode ter objetivos diferentes em diferentes eleições. Quer pelas circunstâncias, quer pela sua natureza — em legislativas é possível formar maiorias sem ficar em primeiro, em autárquicas tem mesmo de se vencer, nas europeias isso é irrelevante e em presidenciais não sobra nada de uma derrota, porque “the winner takes it all”. Nas segundas presidenciais de meio século de democracia em que haverá segunda volta a dinâmica do voto útil é imparável. Porque só dois dos três grandes blocos políticos lá chegarão. E a extrema-direita é que tem os eleitores mais fiéis. Normalmente, a dinâmica da campanha levaria à concentração de votos nos candidatos de cada campo político. Mas são tão fracos que o processo foi retardado até ao fim. O voto já nem é pelo mal menor. Demasiados portugueses votarão em candidatos que não respeitam. Em candidatos que sempre disseram que nunca teriam o seu voto. Mas estamos a fazer uma espécie de segunda volta na primeira. Saber quem vai a votos com Ventura, por assumirmos o risco de ele lá estar. E estamos a fazer isto às escuras, com base em tracking polls e barómetros que valem pouco e uma única sondagem.

A direita parecia ter um candidato. Um facto consumado por uma década de presença na televisão. Talvez pelo excesso de confiança de tantos anos sem debater, Marques Mendes julgou que caminharia até Belém sem ter de explicar qual foi a sua profissão na última década. Obviamente não aconteceu, e a rea¬ção ao cerco mostrou que a pouca substância política (apesar da muita experiência nos corredores do poder e dos negócios) corresponde a pouca resistência. Foi-se abaixo. E o que era uma estratégia correta — apostar no eleitorado da AD, que o pode levar à segunda volta — passou a dependência desesperada, ao ponto de defender a ministra da Saúde. Nem os eleitores da AD apreciarão um Presidente adjunto num momento de enorme concentração de poder. Foi assim que Cotrim, uma espécie de suplente mais livre e fresco, foi trepando. Só que a bebedeira da glória súbita exibiu o que qualquer pessoa atenta sabe: a IL tem pouco a ver com os seus congéneres europeus. Entre um candidato do extremo-centro que vem do “socialismo” e um candidato de extrema-direita não escolhe. Como sabe quem os acompanha nas redes ou está atento a como votam no Parlamento, os nossos “liberais” vêm, como Ventura e companheiros, da nossa direita profunda. Entre um “socialista” e um inimigo da democracia, recusam o que põe em causa o que realmente valorizam. E foi com estes tropeções que a direita dispersou o voto, permitindo ao centro-esquerda sonhar com a segunda volta.

Ainda assim, permanece o risco de uma segunda volta entre a extrema-direita e o candidato do Governo ou o candidato dos liberais radicais. O primeiro caso daria a Montenegro o poder absoluto. O segundo seria um estouro nos nossos valores constitucionais, que incluem democracia política (que o Chega põe em perigo) e democracia social (que a IL ataca). Qualquer dos cenários reforçaria uma guinada radical à direita que não deixaria de ter impacto na natureza do mandato do novo Presidente e no rumo da governação. De tal forma perigoso que é impensável a esquerda não reagir. Os candidatos mais à esquerda fizeram boas campanhas e podemos instituir que as circunstâncias tornam os seus resultados irrelevantes para qualquer análise. Valores mais altos se levantam e isto não são legislativas.

A esquerda vive o dilema da direita: um voto útil às cegas entre duas escolhas pobres. De um lado, um militar inexperiente, que aprenderá no cargo e está a ganhar convicções na campanha, mas dá maiores garantias de controlo do Governo, criando o atrito de que a democracia precisa. Do outro, um político tépido, que criará um quase vazio em Belém, sendo improvável que alguma vez trave Montenegro, mas que representa valores decentes, sem estar dependente do primeiro-ministro. Se votasse por convicção, votaria em Catarina Martins, que fez uma excelente campanha. Se votasse para Presidente, votaria em Gouveia e Melo, que dá mais garantias de controlo da arrogância deste Governo. Mas voto para impedir uma segunda volta apenas entre a direita, seja extrema, radical ou do Governo, que criaria um desequilíbrio perigoso para o sistema. Segundo a única sondagem digna desse nome, Seguro é, por mérito próprio ou inércia tática, o único que o pode conseguir. E, se vencer, manterá mínimos de normalidade em Belém. Por isso, apenas por isso, terá o meu voto. Porque sei que o sacrifício que não fizesse agora teria de fazer, em dobrado, em fevereiro.»


Cotrim e as mulheres

 


15.1.26

Manuel João Vieira. Merecia mais atenção nestas Presidenciais tão cinzentas

 


«Dedicou o mais intenso dia de campanha a Campo Ourique. Por amor ao bairro lisboeta onde vive há 60 anos, deixou por vezes o ‘nonsense’ e a ironia que tem pautado a sua intervenção artística e esta peculiar campanha presidencial: lamentou a gentrificação, insurgiu-se contra a construção de uma estação de Metro e o abate de árvores centenárias. A BLITZ acompanhou Vieira no (meio) dia em que o candidato-músico ‘jogou’ em casa.»


Martin Luther King Jr


 

Chegaria hoje aos 97.

Ditadura

 


“Tracking polls”: toda a campanha num gráfico

 


«”Em queda sucessiva, Marques Mendes apela aos indecisos”, “a lenta (re)conversão socialista a Seguro”, “o que Cotrim de Figueiredo está a fazer de diferente”. São apenas três artigos, mas servem para ilustrar o tom dominante da cobertura jornalística desta campanha. Tanto o acompanhamento noticioso como grande parte da opinião publicada (também a minha terá sido afetada por isso) e da que circula nas redes sociais se baseiam num único instrumento de auscultação dos eleitores até estes últimos dias de campanha: a tracking poll da Pitagórica para a TVI.

Durante grande parte da campanha, tudo aconteceu em torno destas supostas sondagens diárias. Desde o início do ano, só nos últimos dias tivemos uma sondagem propriamente dita – a da Universidade Católica. A Intercampus tem um barómetro, que também é outra coisa.

Quando, a poucos dias do apuramento dos votos, um em cada seis eleitores reconhece não saber em quem votar e metade ainda admite mudar o sentido de voto, percebe-se a importância redobrada que o voto tático terá nestas presidenciais. O problema é que a escassez de sondagens abriu espaço a uma leitura abusiva do que é, afinal, uma tracking poll. A cada dia, com base num instrumento enganador, foram-se forjando humores, reações, táticas, estratégias. E o voto dos eleitores também terá sido influenciado, funcionando estas “sondagens” como profecias autorrealizadas.

Uma tracking poll não é uma sondagem. Ao contrário do que tem sido repetido por grande parte da comunicação social, é um instrumento diferente, com objetivos distintos. As tracking polls servem para medir a evolução de tendências ao longo da campanha e são usadas há vários anos pelas direções partidárias para afinar o discurso, testar mensagens e tentar alcançar novos segmentos eleitorais. Não servem para dar um retrato do eleitorado num determinado dia.

Curiosamente, a distinção foi feita pela própria TVI quando lançou, pela primeira vez, esta forma de análise do comportamento do eleitorado em tempo real, nas legislativas de 2022. “A Tracking Poll permite monitorizar o comportamento contínuo do eleitor, cruzando informações para observar as tendências seguidas, a rejeição e a intenção de voto”, afirmava então Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica. A prudência metodológica foi rapidamente abandonada em nome do imediatismo noticioso.

A comunicação social vive da novidade e, nesse aspeto, as tracking polls são tentadoras. Garantem números todos os dias, títulos todas as manhãs, dramatização em prime time. A questão, como mostra um estudo recente de Paulo Alexandre Pereira, da Universidade do Minho, é que estamos a ler um instrumento científico com as lentes erradas. Uma tracking poll não é uma sondagem nova a cada noite, mas uma “janela móvel” em que, a cada dia, muda uma parte da amostra. Neste caso específico, a cada dia há 150 novas respostas, gerando uma nova amostra a cada quatro dias.

Quando o espaço público se entusiasma com variações de um ou dois pontos percentuais, está a tratar ruído estatístico como se fosse uma viragem decisiva, efeito de um debate ou de uma mudança estrutural do eleitorado. Como diz o mesmo professor do Departamento de Matemática da Universidade do Minho, “uma diferença pequena num dia isolado não autoriza conclusões fortes; o que importa é saber se o movimento se repete e persiste”.

Estas leituras geram expectativas artificiais, dinâmicas de campanha induzidas, mobilizações e desmobilizações fabricadas. Esgotados que estão os comícios e as grandes mobilizações de rua, ainda para mais numa campanha no pico do inverno, a ideia de que temos uma sondagem todos os dias mobiliza e desmobiliza campanhas e eleitores. É mais um passo na desmaterialização das campanhas, que dependem cada vez menos da rua e do empenho militante.

Como já é a terceira vez que a TVI recorre a este método, sempre com a mesma empresa, podemos aferir melhor as suas potencialidades e limites.

Em 2022, quando António Costa alcançou uma maioria absoluta, o último resultado da tracking poll da Pitagórica indicava que “PS e PSD estão separados por 3,7 pontos, em empate técnico”. A aproximação do PSD ao PS, chegando mesmo a ultrapassá-lo a meio da campanha, foi a tónica deste estudo ao longo de duas semanas.

Nas legislativas do ano passado, o último resultado da Pitagórica dava 33% à AD, 25% ao PS e 19% ao Chega. Se acertou na vitória confortável da AD, a diferença de seis pontos entre o PS e o partido de André Ventura esteve a léguas do que aconteceu — com o Chega a tornar-se a segunda força mais votada, como sabemos.

Mas se olharmos para a evolução dos resultados da tracking poll ao longo da campanha das últimas legislativas, a tendência estava certa: PS sempre a descer e Chega sempre a subir. É aqui que reside a sua utilidade e é assim que deve ser analisada, não como um oráculo capaz de antecipar com precisão o resultado do próximo domingo. Ou seja: sabemos que Mendes caiu e Seguro e Cotrim subiram. Só isso.

Não serei o único a notar, à sua volta, uma dificuldade quase inédita na decisão do sentido de voto. Reflete, por um lado, o friso de candidatos mais fraco de que há memória e, por outro, a crescente desafetação entre o eleitorado e os partidos centrais do sistema. Mesmo com o apoio quase unânime das principais figuras do PS, a sondagem da Universidade Católica indica que Seguro parece garantir apenas metade do eleitorado socialista. Marques Mendes, ainda pior, vê João Cotrim de Figueiredo assegurar quase tanto a intenção de voto entre eleitores do PSD.

Num cenário de grande indecisão e voto tático, seriam desejáveis mais estudos e menos extrapolações abusivas a partir de um único instrumento. Como sempre, no fim serão os eleitores a decidir. A diferença é que decidem condicionados por uma campanha mediada por gráficos diários que dizem menos do que parece e mais do que deviam.»


14.1.26

Cotrim: mais um tiro no pé

 


«João Cotrim de Figueiredo pede a Luís Montenegro o apoio do PSD na corrida presidencial, o que significaria que o partido retirava o apoio a Marques Mendes. A iniciativa surge no dia seguinte à divulgação da sondagem da Universidade Católica para o Público e a RTP, em que André Ventura e António José Seguro aparecem na frente, com Cotrim a cinco pontos do líder do Chega e a quatro do ex-secretário-geral do PS.

“Sem querer menorizar a candidatura apoiada pelo partido liderado por V. Exa., assim como pelo CDS-PP, venho hoje apelar ao voto do PSD na minha candidatura”. (…)

Cotrim vê a sua candidatura com a "única capaz de impedir" um cenário com os candidatos apoiados por PS e do Chega a discutir a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa.»


Mal-entendidos

 


José Régio

 


Os “inimigos figadais” apoiam Seguro

 


«Gouveia e Melo estava desalentado em Alcobaça – era um homem quase traído – quando afirmou não perceber como é que muitos socialistas que não apoiaram inicialmente Seguro (ou eram mesmo “inimigos figadais”, como disse) estão agora a defender o voto no antigo secretário-geral do PS.

Ainda não sabia, quando acusou todas essas personalidades do PS de serem “cínicas”, de que Carlos César, o presidente do PS, iria anunciar o seu apoio pessoal a António José Seguro.

Entre os vários erros que Gouveia e Melo cometeu nesta campanha, um deles foi achar que, com a sua indefinição política, (“nem de esquerda nem de direita”) iria tornar-se no “candidato do campo político do PS”, como chegou a dizer no debate com Seguro.

No PS há “inimigos figadais”, sim. E muitos não queriam Seguro candidato, que foi pintado com as cores do inferno. Aconteceu o mesmo com Jorge Sampaio. Seguro avançou sozinho e ninguém mais quis avançar.

A sondagem do PÚBLICO/RTP/Católica mostra que Gouveia e Melo não está a conseguir captar o eleitorado que votou PS, tal como disse que iria fazer. Jorge Sampaio estava cheio de “inimigos figads” no PS e por isso avançou sozinho. O PS é, nestas coisas, diferente do PSD, que apaga os “inimigos figadais” das listas de deputados, consoante o líder de turno. O “inimigo figadal” de Seguro, António Costa, incluiu seguristas nos seus governos. Alguém não explicou bem ao almirante como funciona o PS.»


13.1.26

Vinícius

 


Catarina

 


Irão: como se vai sair da crise que o país atravessa?

 



E você, já escolheu que comentador quer ver em Belém?

 


«Para mal dos que andam na estrada a trabalhar para chegar ao lugar mais alto do serviço público em Portugal, o comentariado já decidiu: os candidatos são todos fracos e é por isso que não dá para adivinhar quem, dos cinco das sondagens, vai à segunda volta. É certo que nenhum liderou uma ação militar para impedir um golpe, como calhou de acontecer a Ramalho Eanes. Nem tinham idade para estar na oposição ao Estado Novo e na transição para a Democracia, como fez questão de estar Mário Soares. De igual forma, nem todos podem ser como Jorge Sampaio na defesa dos direitos humanos, com um trabalho notável em defesa da autodeterminação de Timor-Leste. Nem sequer, tendo aparecido com a democracia em andamento, tiveram a sorte de estar no sítio certo à hora certa, como Cavaco ilva no congresso da Figueira da Foz. E também é certo que ninguém passou de afilhado do anterior regime a político dos afetos, como Marcelo, tendo estado na Constituinte e tendo-se afirmado como o comentador-mor do atual regime.

Dito isto, temos de assumir que nada é o que era: nem os candidatos, nem os comentadores, nem os jornalistas. Dá-se o caso de até a maioria dos eleitores já não serem os mesmos. O país é como o resto do mundo e acontece-lhe andar para trás, perdendo qualidades, quando lhe parece estar a evoluir em direção ao futuro. É pouco provável que seja uma responsabilidade geracional. Afinal de contas, chegámos aqui porque as gerações mais velhas (onde me incluo) não fizeram bem o trabalho de casa.

Quero acreditar que já aí andam os grandes políticos, os grandes pensadores, os grandes ativistas que um dia nos vão ajudar a progredir até à humanidade que fomos perdendo pelo caminho. É uma questão de tempo: ainda vai ser preciso tudo ficar um bocadinho pior para que a maioria das pessoas queira ouvir os grandes homens e as grandes mulheres, desligando do enxame de influencers. E mesmo — porque não dizê-lo, como disse Francisco Pinto Balsemão — livrando-se da infestação de comentadores.

A julgar pelo que tem sido esta campanha, tudo isso está ainda muito longe de acontecer. Os oito candidatos da primeira divisão — o almirante que se fez importante e os sete dos partidos com assento parlamentar — estão transformados em comentadores da atualidade. Não há onda que bata na areia, fazendo a espuma dos dias, que não mereça comentário dos putativos presidentes. Deve ser contágio do atual inquilino do Palácio de Belém. Eu percebo a comunicação social, liderada pelos canais televisivos, que vê um maná neste modelo de campanha. A cada polémica, oito comentadores - já bem promovidos por 28 debates - disponíveis para alimentar um dia de televisão. Saltam do voto útil para o direito internacional e a Venezuela; da roupa suja de uns e de outros para os doentes que morrem à espera de ambulância; e até dão palpites sobre quem apoiaria hoje em dia um primeiro-ministro que morreu fez, no mês passado, 45 anos.

Como se tudo isso não chegasse, os candidatos vivem, eles e todos nós que fazemos profissionalmente parte desta campanha, viciados numa tracking poll que mais parece informação do jogo online para determinar as probabilidades e levar os eleitores a fazer a sua aposta. As sondagens, para lá do retrato do momento e da informação sobre as tendências, sempre tiveram algum impacto sobre a decisão do voto daqueles que esperam até ao último momento, principalmente quando há muito voto útil, mas temo que desta vez estejam já a contaminar as campanhas. A forma errática dos candidatos de cima ou é puro amadorismo ou é nervosismo com o que as pesquisas de continuidade. Tendo, por exemplo, Marques Mendes, não se pode dizer que seja falta de experiência.

E você, já escolheu que comentador quer ver a ocupar o Palácio de Belém? O que não faltam são candidatos.»


12.1.26

Nisto, somos Ronaldos

 


«A comparação com outros países europeus mostra que Portugal era o país da Europa com o maior excesso de mortalidade. De acordo com dados da rede EuroMOMO, na semana 52 de 2025, a última do ano, registava-se um excesso de mortalidade “muito elevado” quando nos restantes países já nem sequer se verifica uma situação de excesso de óbitos. (…)

Para Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, este ciclo longo de excesso de mortalidade acaba por não ser surpreendente, dadas as condições reunidas — baixas temperaturas, a estirpe gripal em circulação e uma população envelhecida, num país onde persistem carências habitacionais e pobreza energética, que intensificam o risco durante períodos de frio intenso e circulação de vírus respiratórios.»


Votómetro do Expresso – Divirtam-se

 


Está AQUI.

Caixadòclos

 




Marques Mendes: revelação, desespero e... queda?

 


«Foi a fraqueza dos principais candidatos que determinou esta fragmentação nos votos e uma quase total imprevisibilidade nos resultados. Houvesse, à esquerda e à direita, candidatos agregadores, e estaríamos a caminhar, nesta campanha, para uma concentração de votos em quem, em cada campo político, tivesse capacidade de chegar a uma segunda volta que, com o espaço ocupado por André Ventura e a extrema-direita, seria sempre inevitável.

À direita, aconteceu exatamente o oposto. O espaço político e mediático da direita liberal achou que Marques Mendes repetiria o fenómeno Marcelo. O palco televisivo foi fundamental para o atual Presidente, mas Marcelo era popular porque era Marcelo. As televisões não inventam presidentes. Marques Mendes nunca teve o estatuto intelectual, o magnetismo pessoal, a excentricidade emocional e a densidade política de Rebelo de Sousa, Presidente de que fui e sou crítico e que até considero, em parte, responsável pelo momento que estamos a viver. Mendes é uma personagem plana, que durante uma década se dedicou a um comentário pedagogicamente eficaz, mas com pouquíssimo rasgo. Houve, como acontece frequentemente, uma confusão entre notoriedade e popularidade. Não é o último e não será o primeiro político a esbarrar com os limites do poder da televisão.

Estando, apesar de tudo, consciente dos limites da sua popularidade, Marques Mendes tomou a decisão certa – concentrar-se no eleitorado da AD, suficiente para o levar à segunda volta, para só depois trabalhar no voto útil. Só que Gouveia e Melo estragou-lhe os planos. O ataque que lhe fez, que costuma vir de candidatos sem ambições maiores, teve um efeito mais poderoso do que eu próprio supunha. Porque revelou um Marques Mendes que o mundo mediático e político conhece e, por isso, já enquadrou e relativizou, mas que era absolutamente desconhecido do eleitorado – o lobista.

Para a generalidade dos eleitores, Marques Mendes era um ex-lider do PSD, advogado e comentador. Fora isso, nada sabiam sobre ele. Porque, verdade seja dita, as pessoas não querem saber mais do que as opiniões de quem opina. Quando quem opina quer ser eleito (e estas foram as primeiras eleições a que Marques Mendes concorreu), as coisas mudam. E o problema de ser um lobista não é legal ou ético. É político. É verdade que os portugueses relevaram a Spinumviva (um caso com contornos éticos realmente graves) a Montenegro. Mas Montenegro já era primeiro-ministro e uma maior severidade teria um preço político. Marques Mendes só é candidato. Há outros para escolher.

Atarantado com o ataque, incapaz de reescrever o seu próprio currículo, Marques Mendes agarrou-se ainda mais a Montenegro. E o que era a medida certa de proximidade passou a descarada subserviência. Até a ministra da Saúde, que se mantém no cargo para não queimar mais ninguém numa pasta em que o Governo não tem soluções, teve direito à sua proteção, responsabilizando pelo que acontece no SNS um diretor executivo que ela escolheu depois de afastar gente competente. Como disse a demissionária chefe de enfermagem da ULS Amadora-Sintra, uma ministra que resolve todos os problemas demitindo pessoas fica no lugar porque não é demitindo ministros que os problemas se resolvem.

Tenho dúvidas de que mesmo o eleitorado da AD queira um Presidente adjunto, incapaz de fazer pressão sobre um governo que domina as autarquias e os governos regionais e tem conseguido amansar a imprensa pública e privada, mostrado crescentes sinais de autossuficiência e arrogância. Não sendo absoluta (teve uma excepção com Jorge Sampaio, em 1996, depois de uma década de poder total do cavaquismo), a teoria dos ovos distribuídos por cestos continua a ser válida. Os portugueses tendem a apreciar esta ligeira dispersão de poder, que cria atrito sem bloquear. Muita coisa mudou. Veremos se isto também.

O aparente crescimento de Cotrim e de Seguro parece resultar do esvaziar do espaço de Marques Mendes. Não sei se será suficiente para tirar o candidato da AD da corrida. Não sei, no caso do candidato liberal, se é sequer tão significativo como surge em sondagens cuja metodologia impõe algum desvio social e etário. Sei que Marques Mendes não se preparou para justificar a forma como fez render a sua existência política. E isso diz alguma coisa sobre a sua própria fragilidade. Veremos se saltar para o colo do Governo chega para compensar. No passado, com governos bem mais populares (com maioria absoluta), não chegou. Os eleitores de direita podem preferir um Presidente colaborante, mas autónomo.

A questão é se, numa segunda volta, o radicalismo doutrinário de Cotrim não deixa este espaço num canto político. O centro prefere Seguro a Cotrim e não sei se toda a esquerda escolhe Cotrim contra Ventura. Seja como for, a divisão do eleitorado da AD deu uma inesperada esperança à esquerda.»


Uma imagem

 


11.1.26

Um pouco de humor em tarde de chumbo

 


Catarina

 


«"Amanhã e no próximo domingo esqueçam os candidatos do costume. Votem pela esperança de quem trabalha, votem por quem faz este país", afirmou a candidata apoiada pelo BE num discurso durante um almoço na cantina do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.

Perante cerca de 400 pessoas, no maior evento da campanha até ao momento, Catarina Martins definiu-se como a candidata que levará a força a Belém e que mostrará ao país "as lutas que os candidatos do costume querem esconder". "É esse o futuro que eu quero representar", disse, deixando críticas aos candidatos da direita.»


Irão

 



Ventura, a aliança Governo/Chega e a 2.ª volta

 


«O Governo não quis arranjar um parceiro oficial para alianças parlamentares mas, se o PS serviu para viabilizar o Orçamento, o Chega tem sustentado o Governo em matérias fundamentais como nas leis de estrangeiros e da nacionalidade.

Foi interessante ver, neste sábado, André Ventura desafiar Montenegro a dar o apoio do PSD ao candidato do Chega, se passar à segunda volta com António José Seguro. A frase serve tanto para memória presente como futura: se por acaso o PSD de Montenegro viesse a fazer indicação de voto em António José Seguro, seria um acto “completamente contrário ao trabalho que tem sido feito no Parlamento e ao caminho que temos [PSD e Chega] feito, que é de neutralizar o Partido Socialista”.

É um facto que o Governo e o Chega têm um historial de colaboração e Ventura usou esse chão comum: “Seria interessante saber o que é que um primeiro-ministro e um líder do PSD fará perante um socialista e alguém com quem fez acordos na área da imigração, na área da nacionalidade, na área da descida de imposto, ainda ontem [sexta-feira] todas as medidas de habitação que o Governo queria aprovar, aprovou por causa do Chega.”

Este abraço de urso a Montenegro já há muito que está a ser preparado, como toda a gente sabe. Se “neutralizar” o PS parece estar a ser o primeiro objectivo, a vítima seguinte do líder do Chega será sempre o PSD. Aliás, neste sábado, em Portalegre, Ventura foi muito clarinho ao anunciar o seu grande objectivo: espremer os laranjinhas.

Junto a uma banca de fruta, comprou tangerinas para “mostrar como as laranjas vão ficar pequenas no dia 18”. A passagem de Ventura à segunda volta derrotando Marques Mendes ou António José Seguro é obviamente um cataclismo para qualquer dos dois partidos que construíram a democracia. Quanto a Montenegro, caso viesse a dar indicação de voto em André Ventura, estaria a escrever o bilhete de suicídio do seu partido. O mais provável é que não dê indicação de voto nenhuma


Com dúvidas, mas vai promulgando