«Para mal dos que andam na estrada a trabalhar para chegar ao lugar mais alto do serviço público em Portugal, o comentariado já decidiu: os candidatos são todos fracos e é por isso que não dá para adivinhar quem, dos cinco das sondagens, vai à segunda volta. É certo que nenhum liderou uma ação militar para impedir um golpe, como calhou de acontecer a Ramalho Eanes. Nem tinham idade para estar na oposição ao Estado Novo e na transição para a Democracia, como fez questão de estar Mário Soares. De igual forma, nem todos podem ser como Jorge Sampaio na defesa dos direitos humanos, com um trabalho notável em defesa da autodeterminação de Timor-Leste. Nem sequer, tendo aparecido com a democracia em andamento, tiveram a sorte de estar no sítio certo à hora certa, como Cavaco ilva no congresso da Figueira da Foz. E também é certo que ninguém passou de afilhado do anterior regime a político dos afetos, como Marcelo, tendo estado na Constituinte e tendo-se afirmado como o comentador-mor do atual regime.
Dito isto, temos de assumir que nada é o que era: nem os candidatos, nem os comentadores, nem os jornalistas. Dá-se o caso de até a maioria dos eleitores já não serem os mesmos. O país é como o resto do mundo e acontece-lhe andar para trás, perdendo qualidades, quando lhe parece estar a evoluir em direção ao futuro. É pouco provável que seja uma responsabilidade geracional. Afinal de contas, chegámos aqui porque as gerações mais velhas (onde me incluo) não fizeram bem o trabalho de casa.
Quero acreditar que já aí andam os grandes políticos, os grandes pensadores, os grandes ativistas que um dia nos vão ajudar a progredir até à humanidade que fomos perdendo pelo caminho. É uma questão de tempo: ainda vai ser preciso tudo ficar um bocadinho pior para que a maioria das pessoas queira ouvir os grandes homens e as grandes mulheres, desligando do enxame de influencers. E mesmo — porque não dizê-lo, como disse Francisco Pinto Balsemão — livrando-se da infestação de comentadores.
A julgar pelo que tem sido esta campanha, tudo isso está ainda muito longe de acontecer. Os oito candidatos da primeira divisão — o almirante que se fez importante e os sete dos partidos com assento parlamentar — estão transformados em comentadores da atualidade. Não há onda que bata na areia, fazendo a espuma dos dias, que não mereça comentário dos putativos presidentes. Deve ser contágio do atual inquilino do Palácio de Belém. Eu percebo a comunicação social, liderada pelos canais televisivos, que vê um maná neste modelo de campanha. A cada polémica, oito comentadores - já bem promovidos por 28 debates - disponíveis para alimentar um dia de televisão. Saltam do voto útil para o direito internacional e a Venezuela; da roupa suja de uns e de outros para os doentes que morrem à espera de ambulância; e até dão palpites sobre quem apoiaria hoje em dia um primeiro-ministro que morreu fez, no mês passado, 45 anos.
Como se tudo isso não chegasse, os candidatos vivem, eles e todos nós que fazemos profissionalmente parte desta campanha, viciados numa tracking poll que mais parece informação do jogo online para determinar as probabilidades e levar os eleitores a fazer a sua aposta. As sondagens, para lá do retrato do momento e da informação sobre as tendências, sempre tiveram algum impacto sobre a decisão do voto daqueles que esperam até ao último momento, principalmente quando há muito voto útil, mas temo que desta vez estejam já a contaminar as campanhas. A forma errática dos candidatos de cima ou é puro amadorismo ou é nervosismo com o que as pesquisas de continuidade. Tendo, por exemplo, Marques Mendes, não se pode dizer que seja falta de experiência.
E você, já escolheu que comentador quer ver a ocupar o Palácio de Belém? O que não faltam são candidatos.»

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