27.1.24

Street Art

 


Cesária Évora, Mindelo, Cabo Verde.
Vhils.
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Edmundo Pedro

 


27.01.2018 – Seis anos sem um grande homem e um grande amigo que «morreu na praia», a poucos meses de chegar aos 100.

Uso sempre esta fotografia, tirada por mim. num simpático almoço em que reuniu alguns dos seus amigos mais próximos. Porque gosto muito dela.


«Comecei a trabalhar aos doze anos numa oficina de serralharia. Daí em diante, interrompi o curso diurno da Escola Industrial Machado de Castro e passei a estudar à noite. Aos treze, entrei para o Arsenal da Marinha. Aí conheci dois vultos cimeiros do movimento operário de então, meus colegas de trabalho na oficina de máquinas do Arsenal: António Bento Gonçalves e Francisco Paula de Oliveira. Este último viria a celebrizar-se sob o pseudónimo de “Pavel”.

O primeiro era então Secretário-geral do PCP, o segundo Secretário-geral da Federação da Juventude Comunista. Ambos exerceram no meu espírito uma influência determinante.

Filiei-me na Juventude Comunista aos treze anos, pouco depois de ser admitido naquela empresa do Estado.

Fui detido pela primeira vez pela polícia política no dia 17 de Janeiro de 1934, pouco depois de ter completado os 15 anos de idade, por estar envolvido na preparação da tentativa de greve geral que deflagraria no dia seguinte. A minha primeira detenção está, pois, estreitamente ligada ao movimento de protesto contra a liquidação do sindicalismo livre. Esse movimento ficaria conhecido na história das lutas operárias como o «18 de Janeiro». Pela minha acção na preparação desse evento, fui condenado pelo Tribunal Militar Especial, acabado de criar por Salazar, à pena de um ano de prisão e à perda dos «direitos políticos» durante cinco anos…

Logo que fui libertado, retomei a oposição à ditadura como militante da Juventude Comunista. Em Abril de 1935 fui eleito, com Álvaro Cunhal, entre outros, para a direcção da Juventude Comunista.

Preso, uma vez mais, em Fevereiro de 1936, sob a acusação de ser dirigente da JC, acabaria, em Outubro desse ano, por ser deportado para Cabo Verde, onde fui estrear o tristemente célebre Campo de Concentração do Tarrafal. Ao fim de nove anos, regressei a Lisboa para ser, de novo, julgado no Tribunal Militar Especial. Depois de ter aguardado julgamento, ao todo, durante dez anos, fui condenado, por aquele tribunal de excepção, à pena de vinte e dois meses de prisão correccional, acrescida da perda dos «direitos políticos» pelo período de dez anos!

Ao longo de todo tempo que mediou entre o fim de 1945 e o 25 de Abril de 1974, conspirei sempre contra a ditadura. De forma especialmente activa, a partir da campanha para a Presidência da República do general Humberto Delgado, durante a qual comecei a preparar, com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, um movimento insurreccional que pusesse fim à ditadura.

Estive envolvido, com o grupo inspirado por Fernando Piteira Santos, no «12 de Março» de 1959. Mas, dessa vez, não fui referenciado na polícia política.

Dois anos depois, no dia 1 de Janeiro de 1962, tomei uma parte muito activa no chamado «golpe de Beja», ocorrido na madrugada daquele dia, no Quartel de Infantaria Três, aquartelado na cidade de Beja. Depois daquele movimento ter abortado, fugi para o Algarve onde fui detido, em Tavira, na manhã desse mesmo dia, junto com Manuel Serra e o então capitão Eugénio de Oliveira. Pela minha intervenção nesse movimento fui condenado, em 1964, a três anos e oito meses de prisão maior e à perda do «direitos políticos» pelo período de quinze anos. Cumpri quatro anos de cadeia. Fui libertado no fim de 1965.

Aderi ao Partido Socialista, por intermédio de Mário Soares, em Setembro de 1973. Sou, portanto, um dos fundadores daquele partido.

No primeiro congresso realizado na legalidade, em Dezembro de 1974, fui eleito para a sua Comissão Nacional e, em seguida, para a sua Comissão Política. Fui integrado no seu Secretariado Nacional em 1975. Em 25 de Abril de 1976, nas primeiras eleições legislativas, fui eleito Deputado pelo PS. Exerci esse cargo durante onze anos. Em 1977/78, fui designado Presidente da RTP. Actualmente continuo no PS, mas como militante de base.

Ninguém na minha família escapou à repressão salazarista. O meu pai estreou comigo o Campo de Concentração do Tarrafal. Esteve ali, tal como eu, cerca de nove anos. Foi, reconhecidamente, o mais perseguido de todos os presos daquele presídio de má memória. É considerado o mártir do Tarrafal. Morreu no exílio, em França, dois anos antes do 25 de Abril. A minha mãe esteve detida durante longo tempo por ser militante do PCP. A minha irmã Gabriela, que fugira de Portugal para evitar ser detida pela sua actividade no âmbito do movimento estudantil, morreu em Paris, aos vinte anos, na emigração política. Um irmão meu, o João Ervedoso, foi assassinado no âmbito de uma manifestação estudantil, por um provocador ao serviço da polícia política, quando tinha acabado de completar catorze anos. O meu irmão Germano, o mais novo dos três, entretanto falecido, esteve detido durante três anos por envolvimento na preparação da tentativa insurreccional de Beja. A minha própria mulher, para não fugir à sina da família, também experimentou os cárceres da polícia política.»
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27.01.1945 – A Libertação de Auschwitz

 


Hoje é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e celebra-se o 79º aniversário da libertação de cerca de 7.000 sobreviventes que ainda permaneciam no campo, criado em 1940 e onde terá sido exterminado mais de um milhão de pessoas.

Para ajudar a não esquecer, ver e ouvir:






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Mitos e mentiras sobre os imigrantes em Portugal

 


«Diz-se que 2024 é um “ano supereleitoral” porque metade dos adultos do planeta — 4,2 mil milhões de pessoas — vão votar, em 65 países.

Em muitas dessas eleições, há um medo comum: o crescimento da extrema-direita.

Antes de avançar, um parêntesis. Se está a pensar “a extrema-esquerda é igual”, é útil repetir as diferenças abissais que separam os dois extremos. Cinco são extremas em 2024:

— A extrema-esquerda não recusa resultados eleitorais em democracias com tradição de rigor eleitoral;

— A extrema-esquerda não faz cercos às sedes dos partidos de que não gosta;

— A extrema-esquerda não marcha nas ruas contra os imigrantes;

— A extrema-esquerda não achincalha a vida parlamentar;

— A extrema-esquerda não inunda as redes sociais com pontos de vista odiosos sobre as mulheres, os muçulmanos, os negros e os homossexuais (com o truque do humor e do “isto era só uma piada”), notícias falsas, teorias da conspiração, trolling e shitposting.

Fazer estas cinco coisas seria 1) criar desconfiança infundada nas instituições; 2) fomentar um ambiente de hostilidade e agressividade física; 3) alimentar o ódio, a xenofobia e o racismo; 4) fragilizar as instituições democráticas; 5) minar o conhecimento dos outros e impedir um debate produtivo.

A extrema-esquerda não faz isto e, infelizmente, é isso que a extrema-direita faz todos os dias.

Sim, no passado, Mao matou milhões de chineses, Estaline matou milhões de russos, Pol Pot matou milhões de cambojanos.

E, sim, no presente renasceram grupos radicais de extrema-esquerda na Europa, que sobretudo partem montras, mas já fizeram mortos. O relatório da União Europeia Contemporary Violent Leftwing and Anarchist Extremism in the EU tem dados pormenorizados e recentes. Mas isso são acções terroristas, que a UE e a Europol acompanham — como acompanham as acções terroristas da extrema-direita (ver Contemporary manifestations of violent right-wing extremism in the EU).

Este parêntesis não é sobre isso, serve apenas para dizer que os dois extremos, esquerda e direita, não são equivalentes. Fecha parêntesis.

Já agora: os líderes do Chega dizem todos os dias que não têm nada contra os imigrantes, mas não fazem outra coisa senão falar dos imigrantes como uma coisa má, que prejudica o país.

Um amigo que vê muitas coisas diz-me que está a notar uma mudança no discurso sobre os imigrantes. A imigração é uma das coisas que explicam o crescimento do populismo. Os esquecidos da globalização — que ajudaram a eleger Trump, Bolsonaro e a tirar o Reino Unido da União Europeia — estavam pobres, aflitos e frustrados e foi fácil aumentar a sua raiva falando contra os imigrantes. Mas agora o discurso está a ficar menos centrado no imigrante económico e mais no imigrante identitário. “É simplesmente dizer ‘não gostamos’, ‘não queremos pessoas diferentes’.”

Falo dos imigrantes porque se há tema em que a extrema-direita se dedica a impedir um debate produtivo é este.

Argumenta-se que em 2022 os imigrantes em Portugal foram responsáveis por um saldo positivo de 1604,2 milhões de euros da Segurança Social (pagam impostos como os portugueses, mas recorrem menos aos serviços públicos). Ignoram. Argumenta-se que sem os imigrantes alguns sectores económicos entrariam em colapso. Ignoram. Argumenta-se que a tendência é de os estrangeiros terem maior capacidade contributiva do que os nacionais para a Segurança Social. Ignoram. Argumenta-se que a imigração em Portugal é essencialmente laboral e activa. Ignoram. Argumenta-se que os imigrantes fazem trabalhos que os portugueses não querem, precários, mal pagos e arriscados. Ignoram. Está tudo nos relatórios do Observatório das Migrações.

Não estamos a conseguir um debate produtivo — insisto na expressão, que os especialistas usam, porque descreve bem o que está a passar-se. Vai ser um “ano supereleitoral” e não se vêem soluções para o problema da polarização extrema a que chegámos. António Damásio pede há anos uma “vacina contra a raiva”. É fácil pedir. Como para o cancro, difícil é descobri-la.»

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26.1.24

Land Art

 


Mandala de gelo. 
[Uma mandala é uma configuração geométrica de símbolos.]
Bernegger Alain.

Daqui.
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Uma resposta a outra resposta

 


«Um único artigo de Ana Sá Lopes, no “Público”, deu origem a uma resposta do primeiro-ministro, outra do ministro das Finanças — e agora a este texto, em que eu faço a contabilidade dos outros textos. Temos falado muito na crise da imprensa mas ainda ninguém disse que Ana Sá Lopes, sozinha, pode resolvê-la. Os jornais têm redacções cada vez menores, mas se cada texto der origem a outros três, a redução do número de jornalistas não se nota tanto. Além disso, António Costa e Fernando Medina receberam, pela publicação dos seus textos, exactamente a mesma remuneração de um estagiário, ou seja, zero euros. É muito vantajoso para os jornais.»

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A música da semana

 


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O carma é lixado

 


«Luís Montenegro lançou, na quarta-feira, um cartaz contra a “corrupção e falta de ética”, seguido de “já não dá para continuar”, que não passa de um sinónimo envergonhado de “chega”. Azar dos Távoras, estava o outdoor a ser montado em Lisboa e o presidente da Câmara do Funchal a ser detido e a casa de Miguel Albuquerque a ser revirada pela polícia, na Madeira. O imprudente oportunismo do PSD nem teve tempo para envelhecer mal. Merecido castigo a quem teima em não perceber quem ganha com o timing eleitoral de uma Justiça com espetáculo a mais e condenações a menos.

Pela minha origem, sempre denunciei a promiscuidade entre a política e os negócios na Madeira e até fui processado por isso — quem se queixa de oito anos de um partido à frente do país deve imaginar o que são 50 anos numa ilha. Não há como Montenegro se pôr ao largo, depois da colagem descarada e trapalhona à vitória do PSD na Madeira. Só que a política não pode ser reduzida a um jogo de espelhos onde todos perdem. Incomoda-me o de sempre: a comunicação social continental foi convocada, na véspera, a deslocar-se à Madeira e a acompanhar o espetáculo judicial para o qual foram mobilizados 270 inspetores e magistrados, transportados num avião militar, no que parece uma desproporção de meios. A convicção é que, se não passa na televisão, a justiça não se faz. Sobretudo a eleitoral. É ver como as buscas da Operação Tutti-Frutti regressam sazonalmente, sempre coladas a eleições. Se isto se traduzisse em condenações, ainda se tolerava. Assim, serve para desgastar a democracia.

Desde José Sócrates que a direita, para não se concentrar nas suas propostas antipopulares, adotou a superioridade ética face ao PS como o principal substrato do seu discurso. Foi nessa cultura que se formaram, dentro do PSD e do CDS, os dois spin-offs “regeneradores”, Chega e IL. E há uma década que a direita se alimenta do exibicionismo da Justiça. Uma coisa é a Justiça investigar crimes, como deve acontecer no Estado de Direito, outra é o aproveitamento partidário, sem esperar por provas ou condenações, de operações mediaticamente preparadas num tempo sempre politicamente oportuno.

Apesar de nunca ter hesitado em aproveitar a recorrente coincidência do calendário da Justiça com o eleitoral e a espetacularização mediática de momentos da investigação, o PSD tornou-se, subitamente, amante da presunção de inocência. Miguel Albuquerque explicou, em novembro, que era impossível António Costa continuar a governar. Sobre si mesmo fez a devida “pedagogia democrática” e explicou: “Ninguém, num Estado de Direito, pode ser suspeito. Pode ser inquirido, e para ser inquirido precisa de ter o estatuto do arguido.” Poucas horas depois foi constituído arguido. Demitiu-se? Também não. Se Costa ter arguidos no Governo e haver buscas era “muito mau” para a “credibilidade das instituições democráticas”, ele próprio ser arguido “não diminui” em nada os seus direitos políticos.

Luís Montenegro, que mandou pôr cartazes na rua para cavalgar o ambiente criado pela investigação que levou à queda do Governo, mantinha, até à hora a que escrevo, a confiança política em Albuquerque. Tratou este episódio como uma mera “perturbação na atenção política dos portugueses”. Quando, este mês, o Expresso lhe perguntou se se demitia caso viesse a ser arguido, deu uma resposta absurda para quem acredite na presunção de inocência, o que implica que até o mais honesto pode ser arguido: “Não vai acontecer.” Ao não retirar a confiança em Albuquerque, ficamos a saber que, no lugar de Costa, que nem arguido é, não se teria demitido. Em novembro disse que o Governo não tinha “nenhuma condição para continuar”. Que estava “na hora de penalizar e responsabilizar sem apelo nem agravo a reincidência de uma organização partidária que dá mostras muito facilmente de ceder a esquemas de compadrio político”. Agora diz que “as diferenças são mais que muitas” nas duas histórias. São duas: Costa não é arguido e Albuquerque é do PSD. É verdade que, por agora, Montenegro aplica a Albuquerque as regras que decidiu para os seus deputados. O problema é não as ter aplicado aos governantes do PS. Sendo que, do líder socialista, ouvimos, em plena campanha, a ponderação que faltou a Montenegro no dia 7 de novembro.

Conheço a Madeira e sei o que a casa gasta. Até por isso me espanta a pontaria de, em meio século de uso do Estado para proveito privado e condicionamento da comunicação social, esta investigação cair em vésperas de eleições. Quem procura a condenação em tribunais investiga. Quem procura o caos político, porque acredita que a sua “justiça” prevalecerá ao que se decida em tribunais, organiza excursões de jornalistas para apreciar o espetáculo judicial em vésperas de eleições. Há culpas dos partidos. Quando não afastam, independentemente de burocráticos códigos de ética, quem sabem que tem de ser afastado. E quando não resistem a surfar as ondas do justicialismo. Como se viu, a fatura acaba sempre por chegar. Quem julgava que o alvo era o PS enganou-se. A cultura que substitui os tribunais pelas câmaras de televisão vai muito além desses cálculos.»

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25.1.24

Mais uma porta

 


Porta de entrada do «Edifici Mas de Miquel», Barcelona, 1929.
Arquitecto: Doménec Sugranyes.

Daqui.
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Manifestação anti-imigrantes em Lisboa deve ser proibida

 


«A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados (CDHOA) considera que uma manifestação que incite a xenofobia e o discurso de ódio racial deve ser proibida pelas autoridades, porque viola a legislação. (…)

Em causa está a convocatória de uma manifestação para o dia 3 de fevereiro em Lisboa sob o tema "Contra a Islamização da Europa", feita por grupos 'online' de extrema-direita em Portugal.

Em paralelo, organizações antirracismo estão a promover uma carta aberta, denominada "Contra o racismo e a xenofobia, recusamos o silêncio", onde pedem ao Presidente da República, ao Ministério Público e às autoridades policiais para "travar a saída desta manifestação", por violar a lei.»

Na íntegra AQUI.
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Contra o racismo e a xenofobia, recusamos o silêncio

 


A carta referida por Luísa Semedo, no texto que hoje publiquei, encontra-se AQUI e pode ser subscrita.
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Portugal, terra de islão

 


«Quando se vive em França, num dos países com maiores comunidades muçulmanas da UE, conhece-se bem o que é a islamofobia nas suas mais diversas expressões, desde as microagressões às agressões mais violentas, do discurso descomplexado do comentariado televisivo até a políticas governativas, passando pela violência e controlo policial com base étnico-racial. São vítimas de islamofobia não somente as pessoas efetivamente muçulmanas, mas também as que pareçam muçulmanas, árabes, magrebinas, na qual me incluem muitas vezes porque não sou imediatamente identificável como “luso-cabo-verdiana”.

Muitos portugueses em França também vivem esta experiência de por vezes serem racializados como árabes e, portanto, como muçulmanos, visto existir em França uma verdadeira dificuldade em separar duas realidades que podem, evidentemente, ser distintas. Não é só em França que os portugueses podem ser vistos como não-brancos ou como “brancos honorários” – para tomar emprestada a expressão da socióloga Margot Delon, no seu artigo “Des 'Blancs honoraires'?” –, nos EUA isso também acontece e os neonazis do Norte da Europa costumam gozar com a “aparência magrebina” dos nossos neonazis nacionais. A racialização é uma construção fluida que pode variar “conforme a hora e o local onde estiverem”.

Em Portugal, vive-se uma relação ambígua com todas estas complexidades: por um lado, gostamos de nos dizer cosmopolitas, os reis da miscigenação por esse mundo fora; e por outro, existe a busca, dentro de fronteiras, de uma caricata brancura pura inexistente. Esta relação é problemática quando se trata de pessoas negras, mas também em relação a pessoas de origem árabe e muçulmana. Existe uma espécie de “apagão”, como se séculos de presença e a persistência de tantos vestígios e influências ainda tão visíveis, inclusive a nível cultural e linguístico, nunca tivessem existido. No contexto da guerra genocida contra a Palestina, assistimos, por exemplo, à identificação de portugueses com Israel através da sua redução a um país branco ocidental, fazendo parte do “eixo da civilização”, resistente face a palestinianos, árabes e muçulmanos que pertencem ao “eixo do mal”, tão longe de quem somos, esquecendo não somente a história do judaísmo, mas também da história árabe e muçulmana em Portugal.

Esta semana, o canal francês público France 2 difundiu uma reportagem que deveria ser mostrada nas escolas em Portugal, justamente sobre esta realidade, intitulada “Portugal, terra de islão”, com a intervenção essencial, entre outras, de Marc Terrisse, especialista em história árabe e muçulmana em Portugal, autor dos livros Lisbonne, dans la ville musulmane e – a sua obra mais recente, apresentada na Gulbenkian em Paris – Variations sur le Portugal, que será apresentado no Instituto Francês em Lisboa na próxima semana, a 1 de fevereiro.

Este “apagão” reforça a arabofobia e a islamofobia, em particular neste momento contra imigrantes de origem sul-asiática, que cresceram de forma preocupante em Portugal, nomeadamente em Lisboa, como, por exemplo, no bairro histórico da Mouraria. Grupos de neonazis publicitaram a intenção de organizar uma manifestação extremista para esse local e vários coletivos antirracistas já apelaram – através de uma carta aberta assinada por, até ao momento, cerca de duas mil pessoas, na quais me incluo – à sua anulação, dirigindo-se ao Presidente da República, ao Governo e a outras instâncias do Estado.

O Estado tem a obrigação de proteger os residentes no seu território, sejam estrangeiros ou nacionais. Relembro, o que deveria ser óbvio, que existem também portugueses muçulmanos e o Estado não pode deixá-los desprotegidos, é para isso que existem leis antidiscriminação e de proibição de incitamento ao ódio e à violência. O racismo, em todas as suas formas, tem incidência não somente em quem está em Portugal, mas também na vida dos portugueses no estrangeiro. Tomando emprestada e "remixando", desta vez, a expressão de Fanon: "Quando ouvires falar mal do muçulmano, presta atenção, estão a falar de ti."»

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24.1.24

Street Art

 


Toronto, Canadá.
Por Fauxreel.


Daqui.
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Deve alguém ser quem não é?

 


(Expresso, 24.01.2024)
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Publicidade à maneira

 


Não, não é fake.
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O exemplo alemão

 


«Ninguém terá ficado indiferente perante as imagens das manifestações gigantescas nas ruas das principais cidades alemãs, no fim-de-semana passado, em protesto contra um partido de extrema-direita que cada vez mais mostra a sua verdadeira face – racista, violenta, nacionalista.

O chanceler Scholz e alguns dos seus ministros encabeçaram a manifestação de Berlim. Estiveram presentes representações religiosas, treinadores da Bundesliga, gente das mais diversas proveniências.

O partido em causa, a AfD (Alternativa para a Alemanha), tem uma significativa representação parlamentar – 78 lugares em 736. Ficou em quinto lugar nas últimas eleições. As sondagens colocam-na agora em segundo lugar (com 22%) a nível nacional, abaixo da CDU/CSU, mas acima dos três partidos da coligação governamental liderada pelo SPD de Olaf Scholz, que inclui os Verdes e os liberais do FDP. Há eleições neste ano em três Lander do lado oriental do país – Turíngia, Brandeburgo e Saxónia – e a AfD pode vencer em todos.

Como já devem ter lido aqui no PÚBLICO, houve uma reunião da AfD com um grupo onde proliferam neonazis e onde foi debatido um plano apresentado por um conhecido extremista austríaco, Martin Sellner, que visava a deportação em massa de estrangeiros e de alemães "não integrados".

O passado da Alemanha não está esquecido, embora alguns dirigentes da AfD digam que já chega de estar sempre a falar do Holocausto. A ministra do Interior, Nancy Faeser, não permitiu o esquecimento, lembrando que esta reunião teve lugar em Potsdam, não muito longe da "horrível conferência de Wannsee", onde os nazis planificaram a "solução final" para o extermínio de todos os judeus na Alemanha e na Europa.

Um grito de alerta

A divulgação deste encontro foi um grito de alerta. Há hoje na Alemanha um debate sobre se este partido deve ou não ser ilegalizado. A maioria das opiniões inclina-se para que não – seria vitimizá-lo, quando o que há a fazer é combatê-lo politicamente.

A AfD cresce, sobretudo, nos Lander de Leste, aproveitando algum ressentimento que ainda existe entre os cidadãos da antiga RDA em relação aos privilégios e à maneira de ser e de viver dos alemães ocidentais.

Trinta anos depois da reunificação, as diferenças ainda persistem, talvez mais nas mentalidades, mas também nos níveis de vida. Escreve o Monde que tem crescido nos últimos meses "um sentimento de insatisfação que resulta de uma nova vaga de imigrantes, mas também das permanentes querelas entre os três partidos da coligação de Governo, tendo uma recessão económica e uma inflação elevada como pano de fundo". As razões económicas ajudam, mas não explicam tudo.

A imigração é hoje o problema que mais preocupa os alemães, conforme revelam quase todas as sondagens.

"Dexit"?

Entretanto, a radicalização dos dirigentes da AfD tem sido evidente também na questão europeia. Alice Weidel, a líder do partido, disse numa entrevista ao Financial Times que vai fazer campanha a favor de um referendo idêntico ao que levou ao "Brexit", considerando a saída do Reino Unido da União Europeia um exemplo: "É um modelo para a Alemanha que seja possível tomar uma decisão soberana" como a que os britânicos tomaram. Na mesma entrevista, realizada já durante os protestos em massa, Weidel negou a interpretação dada à reunião, dizendo que o seu partido só pretende aplicar a lei de repatriamento das pessoas a quem foi negado o direito de ficar na Alemanha.

É certamente porque a AfD se sente cada vez mais forte que não hesita em defender um "Dexit". A organização nasceu em 2013, na sequência da crise financeira e da crise do euro, precisamente para condenar a moeda única europeia.

A Alemanha atravessa uma crise complexa, que se reflecte na sua economia, mas que reflecte também as profundas transformações internacionais a que assistimos, incluindo na Europa, com a invasão russa da Ucrânia. Descobriu que as suas relações com o mundo não se limitam à economia. Com a Rússia, aprendeu da pior maneira. Com a China, está a aprender agora. A sua poderosa indústria exportadora contava com a energia barata russa e com o mercado chinês, incluindo para a importação de bens intermédios, que alimentavam as suas fábricas. A transição energética obriga a sua poderosa indústria automóvel a adaptar-se muito rapidamente aos veículos eléctricos. É um dos países mais atrasados da Europa na transformação digital. Do ponto de vista europeu, também podemos dizer que o seu mais potente motor económico ainda não está gripado, mas esta com sérios problemas de manutenção.

E nós?

Caro leitor, cara leitora, esta breve reflexão sobre a Alemanha faz-me pensar também no nosso país.

É certo que passámos ao lado da II Guerra, com uma "neutralidade" sui generis, que permitiu ao regime fascista fornecer bens indispensáveis para o esforço militar nazi e, ao mesmo tempo, não ter outro remédio se não ceder as Lajes aos Aliados. É certo que vivemos quase 50 anos num regime opressor que deixou uma herança cultural e mental mais profunda do que, por vezes, queremos admitir, de apatia e de um certo "adormecimento" ou resignação. Para já não falar do gigantesco défice de educação.

Seríamos capazes – seremos capazes – de encher as ruas das nossas cidades em protesto contra algumas das propostas do Chega em domínios que são, para nós, atentados aos valores civilizacionais indiscutíveis que defendemos? Não sei. Mas o que sei é que o combate ao Chega não se faz apenas discutindo até à saciedade se o PSD ou, agora, a AD vai contar com os deputados do Chega para formar Governo depois das eleições, caso as vençam ou haja uma maioria de direita, incluindo a extrema. Também se combate na rua, no Parlamento, nas autarquias, nas associações de estudantes, nas universidades. Debatendo e protestando. Lembrando aos mais jovens a História europeia da primeira metade do século XX e impedindo que se crie a ideia, profundamente errada, de que o longo período fascista em Portugal já não interessa nada.

Temos eleições nacionais e europeias em Março e em Junho. Não podemos render-nos à evidência de que o Chega vai crescer. Temos, como cidadãos, de o combater.»

Teresa de Sousa
Newsletter do Público, 23.01.2024 (excerto)
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23.1.24

23.01.1928 – Jeanne Moreau

 


Jeanne Moreau chegaria hoje aos 96 e morreu em Julho de 2017, depois de uma carreira muito longa de actriz, realizadora e cantora, iniciada em 1950, e uma filmografia impressionante com cerca de 130 títulos. Trabalhou com uma lista notável de realizadores, entre os quais Luis Buñuel, Wim Wenders, Michelangelo Antonioni, Orson Welles, François Truffaut, Louis Malle, também Manoel de Oliveira e não só.

A recordar a sua participação em Gebo et l’Ombre, de Manoel de Oliveira (2012), onde faz o papel de Candidinha.



Momentos inesquecíveis? Entre outros, Le Tourbillon, em Jules et Jim de François Truffaut:



Aqui, num belíssimo duo com Maria Bethania:


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Desumanização normalizada

 


«São homens portugueses, sobretudo, solteiros. A idade oscila entre 45 e 64 anos. O rendimento social de inserção é o principal meio de subsistência, frequentaram o Ensino Básico, apresentam problemas de dependência de álcool ou substancias psicoativas. Era este o retrato dos sem-abrigo, em linhas gerais, feito em dezembro de 2020, no âmbito da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo. Três anos depois, o retrato sociológico deverá ter sofrido alterações, sendo notória a presença nas ruas de imigrantes sem teto. Mas há um dado novo preocupante: o número não cessa de aumentar.

Uma realidade que tentamos ignorar. Como se nos cruzássemos na rua com espetros, levam a vida acondicionada num saco de supermercado. Por vezes, interrogamo-nos: o que terá acontecido para chegar ali. E logo essa imagem desoladora é substituída pelas preocupações do nosso dia a dia. Tais imagens, no entanto, permanecem, como aquela que vi, há dias, a descer para o metro da Gare do Oriente, em Lisboa. As laterais de um átrio gigante ocupadas por camas improvisadas, sem uma réstia de espaço em branco, aqui e ali uma cabeça. Outras sem ninguém, esses voltariam à noite ao seu frio e duro leito improvisado. E a vida corria, pessoas apressadas, como eu, à procura da entrada do metro, rumo à baixa.

A normalização do desumano. Dizem-me que é assim há anos. Fui confirmar. À procura no arquivo, encontrei a mesma imagem que me chocou: “17 de dezembro de 2011. Reportagem com os sem-abrigo em Lisboa - Gare do Oriente”, informa o registo do arquivo. Terá algum deles conseguido voltar a viver com dignidade? Que vida deixaram para trás, uma família, um emprego, a casa a que regressavam todos os dias.

E nós entramos no metro, rumo à baixa, num sábado à tarde cheio de sol, como se os cobertores do infortúnio da Gare do Oriente fossem uma instalação artística da modernidade.»

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Programa Eleitoral do Bloco de Esquerda

 


AQUI.
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Foi só há 5 anos

 


… que o Chega entregou no Tribunal Constitucional o processo de formalização enquanto partido.

Saiu hoje uma nova sondagem em que se encontra apenas a quatro pontos da AD (e a dez do PS).

Em vários países, há manifestações gigantescas contra a extrema-direita, por vezes com apoio dos partidos democráticos e sindicatos. Nós por cá? Todos bem, boa terça-feira.

(A imagem é um recorte deste blogue.)
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22.1.24

Land Art

 


Circumflexus, 2022
Criado para o Llano Earth Art Fest , Texas, por Jon Foreman:
 
«Este é o trabalho mais intenso que criei e levei quatro dias para o acabar! Inicialmente comecei com as pedras maiores que formam a parte de trás do círculo, à medida que fui usando mais pequenas comecei a perceber o tempo que estaria envolvido. Adoraria saber quantas pedras estão realmente aqui!»

Daqui.
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22.01.1961 – O assalto ao Santa Maria

 


Há 63 anos, algures no mar das Caraíbas, doze portugueses e onze espanhóis, comandados por Henrique Galvão, assaltaram um navio em que viajavam cerca de 1.000 pessoas, entre passageiros e tripulantes, e protagonizaram aquela que foi uma das mais espectaculares acções contra a ditadura de Salazar.

Mesmo sem atingirem os objectivos definidos – chegar a Luanda, dominar Angola e aí instalar um governo provisório que acabasse por derrubar as ditaduras na península ibérica – conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro que noticiou, com estrondo, a primeira captura de um navio por razões políticas, no século XX. (Em Portugal, julgo que as primeiras notícias só foram publicadas no dia 24!)

Continuar a ler AQUI.
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É tempo de cancelar a “política de cancelamento”?

 


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2023: o ano zero da nossa xenofobia?

 


«Para os convertidos à teoria da grande substituição, obcecados em reconquistar um país prestes a cair nas mãos destes novos mouros, apelar aos factos costuma não servir de muito.

Quem passou um fim de semana chuvoso em frente da televisão a fazer zapping, viu um André Ventura ir ao Minho e voltar de lá aclamado pelo partido como o nosso querido e grande líder. Também pode ter ficado com a sensação de que os tradicionais ciganos com um Mercedes à porta andam a perder terreno no concurso do subsidiodependente de serviço. Agora, a moda é os nascidos no Indostão que, aparentemente, se transferiram em massa para o Martim Moniz.

Nos manuais escolares, o Indostão é o subcontinente indiano — o que deve ser visto por quem anda a fotografar todos os turbantes que aterram na Portela como uma manobra do politicamente correto para nos enganar. O que está a acontecer, para quem não se deixa enganar pela propaganda socialista e dos seus acólitos sociais-democratas, é uma invasão de maltrapilhos, que recebem dinheiro líquido mal entram em território luso. Ainda entopem o Sistema Nacional de Saúde, onde têm ninhadas de filhos, que vão acabar depositados nas nossas escolas a atrapalhar os nossos meninos.

O discurso contra a invasão de imigrantes não é novidade por esta Europa fora. Não parecia era mobilizar o povo português. Entre 2002 e 2022, os dados recolhidos pelo European Social Survey mostram um país tranquilo ou entusiasmado com os estrangeiros que escolhiam Portugal como destino de vida, vindos de onde viessem. Só que, a crer uma sondagem do ICS/ISCTE divulgada no X pelo Pedro Magalhães, 2023 pode ser o ano em que virámos xenófobos. A proverbial tolerância portuguesa para com os estrangeiros parece ter acabado com a chegada de cada vez mais gente, muita vinda de paragens demasiado exóticas e que não fala sequer a nossa língua. Os 62% de portugueses que aceitavam sem grande problema receber estrangeiros mais pobres vindos de fora da Europa, passaram a ser só 37%. Temos agora 61% de lusitanos que, no máximo, deixam entrar uma dúzia de Samires e Abdules — chega perfeitamente para os pedidos da UberEats e, como temos medo, já voltámos a andar de táxi.

O mesmo Ventura que, desde o seu doutoramento, é especialista em capitalizar os nossos medos, não ia deixar passar esta onda sem a cavalgar. Prometeu acabar com todos os observatórios, mas ainda deve ter lido o Relatório de 2022 do Observatório das Migrações. Sobretudo a parte que explica a diferença entre os factos e as nossas perceções em matéria de imigração. Portugal é o país onde mais gente sobreavalia a proporção de imigrantes nascidos fora da União Europeia que aqui vivem — só 20% conseguem fazer uma estimativa próxima da realidade; 40% dizem logo não fazer a menor ideia. Ventura pode assim descrever uma cidade de Braga a albergar 30% de estrangeiros, quando, em 2022, estavam por lá uns 3,6% — estima-se que possam ter, entretanto, chegado a uns 7,9%. É verdade que a população imigrante cresceu em Braga, vinda sobretudo do Brasil. Mas, mesmo conhecida como Braguil, ou talvez por causa disso, também é uma das nossas zonas mais dinâmicas.

Para os convertidos à teoria da grande substituição, obcecados em reconquistar um país prestes a cair nas mãos destes novos mouros, apelar aos factos costuma não servir de muito. Mas tenho dificuldade em crer que, depois de conviver de forma pacífica com sucessivas vagas de imigrantes, uma parte tão significativa dos meus conterrâneos tenha, uma bela manhã de novembro, acordado na pele de um nativista radical. Temos é de arregaçar as mangas e contar a realidade a quem pode sentir-se mais inseguro perante esta nova vaga — sem paninhos quentes ou medo de articular todos os desafios que ela nos coloca como país.»

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21.1.24

Hotéis

 


Hotel 1908, Largo do Intendente Pina Manique 6, Lisboa, 1908.
Arquitecto: Adães Bermudes.

Daqui.
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Temos um esplêndido passado pela frente?

 

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Exactamente

 

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Não é aceitável que 30% dos jovens estejam fora do país

 


«“As nossas possibilidades económicas são modestas, como modesto é o nosso lugar no concerto dos povos”, escreveu Eduardo Lourenço no livro Labirinto da saudade, sobre a jornada de Portugal entre a consolidação da democracia no pós-revolução e a afirmação enquanto país europeu. A janela da Europa ressignificou o país, arejando-o económica, social e politicamente. Mas também o deixou com vulnerabilidades expostas.

Para desencanto de alguns, antes mesmo de saltar, o país tropeçou. Era 2011, o ano do pedido de ajuda externa, que, fruto das circunstâncias, mergulhou o país em políticas de austeridade.

Com os anos austeros chegaram também ao mercado de trabalho os millennials. Preparados, estudados e convencidos de que após anos a apostar na sua educação, teriam um futuro próspero, ainda sem entender que o manual de instruções que traziam debaixo do braço pertencia a uma máquina que já não existia.

Confrontados com a falta de oportunidades, graduados e munidos de uma mobilidade Schengen, lançaram-se à Europa e ao mundo, extravasando assim o status-quo da emigração portuguesa dos anos 1960 e 1970.

Para surpresa da Europa central a diáspora tinha-se sofisticado. Tinha ido à universidade, trazia uma estética renovada e falava várias línguas. Olhavam agora de igual para igual para os povos que os recebiam, deixando de ser apenas um factor de produção e assumindo o seu papel enquanto agente social e político.

Esta diáspora contemporânea afirmou Portugal como hub exportador de talento qualificado. Assim sendo, durante anos, as nossas universidades abasteceram o Reino Unido de enfermeiros, a Alemanha de engenheiros e a França de fisioterapeutas. O sistema era simples: Portugal formava os jovens e os outros países alocavam-nos à produção de valor. Tínhamos formado a geração mais qualificada de sempre, mas não conseguíamos tirar partido dela.

Os anos passaram, a troika foi-se embora, outras pautas se impuseram e apesar de o êxodo juvenil não ter parado, o assunto foi saindo do debate público. Mesmo que adormecido por uns tempos, foi inevitável o soar dos alarmes por parte de organismos que estudam demografia, como a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que lançou estatísticas e a reabertura dessa discussão necessária. A partir daí, seguiu-se um período caricato onde demógrafos e fundações privadas estavam mais preocupados com políticas para fixar os jovens do que o próprio Governo, que se barricava em programas de regresso de emigrantes, frequentemente usados de uma forma propagandística. Estes programas foram um fiasco, mais um nesta matéria.

Até que pusemos a desgraça na ponta do lápis, fizemos contas e chegamos ao marco de 30% de jovens emigrados, de acordo com os números do Observatório da Emigração. Espero que ninguém nos tente convencer de que o país não falhou. Que ninguém nos venha dizer que não é uma afronta ver o Governo bater recordes de arrecadação fiscal, enquanto o salário dos jovens não dá para o básico. Que ninguém nos venha com uma narrativa que terceirize a culpa de tudo isto.

Apesar de catastrófico, o êxodo juvenil não tem grandes consequências políticas. Estes 30% de uma geração serão, nestas legislativas, cingidos aos círculos eleitorais Europa e fora da Europa que, juntos, elegem quatro deputados num universo de 230. Com certeza, a razão para tanta inércia na resolução deste problema não andará muito longe desta sub-representação política.

Assim sendo, Portugal está a dissolver-se – nos estágios não remunerados, nos baixos salários, nos sonhos adiados, mas também numa cultura que paga mais pelo produto do que pelo serviço transversal a praticamente todos nós. Dissolve-se em olhares e nos comentários discretos de alguns boomers que acreditam que a culpa reside numa nova geração preguiçosa que não compra casa porque gasta dinheiro em viagens e jantaradas.»

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