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13.8.25

Assim vai este triste país empobrecido

 


Daqui.

13.6.25

19.10.24

Vivalma?

 

Carlos Botelho

«Portugal é um país pequeno. Os transportes melhoraram muito. A Internet mudou tudo. E é cada vez mais fácil fazer encomendas que vêm trazer a casa. Para além disso, as grandes cidades estão cada vez mais apinhadas e caras, sujas e poluídas, descaracterizadas e impessoais, destituídas de encanto e de mistério.

Cidades como Lisboa estão já a ser abandonadas pelos habitantes.

A princípio, parecem ser só os bairros tomados de assalto pelos turistas – mas qualquer coisa morre para sempre, quando os lisboetas começam a fugir dos sítios mais bonitos da cidade.»


1.9.24

O turismo como técnica de monocultivo

 


«“Mudam-se os tempos, mudam-se as cidades. E agora a Baixa está em baixo. Vem perdendo o seu brilho. Vão-se-lhe os dedos e ficam só os anéis: belos monumentos à míngua de olhos que os mirem, estátuas tristes dando o flanco desprotegido aos graffitti e às pombas, testemunhando o esvaziamento populacional, a ausência do torvelinho que fazia das Baixas lugares densos, habitados, envolventes. Enfim, a Baixa está cabisbaixa. (…) E os lugares antes densos da Baixa são agora, a partir do fim do dia, terras-de-ninguém, espaços ocos, entregues ao escoar lento da cidade noturna, despovoada e à mercê de intrusos e inquietações.”

De que cidade está ele a falar?, pergunta quem só conhece o Porto de há uma dúzia de anos para cá. As linhas anteriores pertencem a uma crónica que escrevi neste mesmo jornal em 2003. Intitulei-a “a cabisbaixa”, condensando numa palavra o cenário que então se vivia no centro do Porto. A intensa terciarização dos anos 1980 e 90 tinha tido como consequência o esvaziamento da Baixa.

A terciarização é um processo que ocorre nas cidades globais desde finais dos anos 1970, caracterizado pela perda de peso do setor industrial em favor do setor dos serviços. As cidades passam a ser centros da economia especulativa do solo e do investimento financeiro. Uma das consequências que mais atingem os habitantes é a da pressão do custo da habitação. De novo a crónica de 2003: “A excessiva terciarização é antagónica da função residencial, arrastando o esvaziamento dos espaços públicos a partir do fim da tarde e a degradação do parque habitacional que vai ficando semidevoluto.”

Que se passou daí para cá? Depois da terciarização, veio a turistificação. O turismo trouxe consigo muitas coisas boas. Mas à medida que se transformou em turismo de massas os inconvenientes começaram a surgir. António Alves Ferreira sintetiza-os magistralmente em “O turismo como insulto meritocrático”, capítulo do livro Protejam as Crianças da Meritocracia: uma questão de sobrevivência da humanidade, que acaba de ser publicado pela U. Porto Press.

O antropólogo catalão Miquel Fernández González, em Matar al Chino, analisa as consequências negativas da turistificação no Bairro Chino de Barcelona. O que diz assenta como luva no que está a passar-se no Porto ou em Lisboa e pode resumir-se assim: as cidades globais, para serem competitivas, têm de oferecer aos investidores mundiais as melhores condições para que os fluxos de capital produzam lucros substantivos. Esta competição impulsiona um segundo processo, que envolve as cidades numa corrida sem fim para construírem um espaço ideal, repleto de atrações, o que as torna parecidas a um parque temático. Para isso, utilizam a cultura como vantagem competitiva, apropriando-se de espaços de maneira física e simbólica (pensemos nos centros históricos, ou em locais-romaria como a livraria Lello ou o Majestic).

Com a tematização — alguns chamam-lhe também disneylandização, outros artistização — oculta-se o facto de que estas transformações respondem a poderosos interesses económicos privados, com a intenção de transformar em espaços de consumo os lugares de residência, participação e encontro. O resultado são quarteirões desabitados, cheios de restaurantes, bares, hotéis e lojas de luxo. Terreno propício a uma especulação imobiliária que exige preços exorbitantes para habitar e promove assédio urbanístico sobre os residentes economicamente mais frágeis. O risco, diz-nos Miquel Fernández González, é o da submissão da vida urbana a uma simplicidade representacional inspirada em lugares-comuns que apostam no turismo como técnica de monocultivo.»


18.8.24

Lisboa prostituída

 


«Há muito que evito ir à Baixa de Lisboa, mas, neste dia, resolvi arriscar. E inevitavelmente encontrei o que receava: na Rua das Portas de Santo Antão, uma multidão de turistas segue um guia que debita para um microfone com alto-falante as suas sábias curiosidades sobre o local. Apenas metade do seu rebanho o ouve, mas todos os outros transeuntes, incluindo os que estão nas esplanadas, são obrigados a suportar o assédio sonoro. No meio da confusão, passam bicicletas de serviços de entrega de comida e trotinetas ziguezagueiam na zona pedonal. Numa esquina, vários “vendedores ambulantes” oferecem abertamente marijuana a quem passa.

Nas outras ruas do famoso Centro Pombalino, nem sombra de lojas com tradição; em vez disso, três lojas de bugigangas, um kebab, um expresso-lab, estúdios de tatuagens e de unhas, bistrôs, lojas de fast-food, barbearias, hotéis, algumas lojas vazias, cadeias de marcas internacionais e, ao longe, no cais, um cruzeiro monstruoso, erguendo-se sobre todos os edifícios.

Atravessar as ruas é impossível, o trânsito insuportável com filas permanentes em que cada segundo carro é um TVDE e, pelo meio, dezenas de tuk-tuks, mais o toque insistente do eléctrico porque os outros veículos estão a bloquear os carris. Afinal, a célebre Lisboa é isto? Sim, infelizmente, actualmente é.

Em cidades como Amesterdão, Veneza, Barcelona ou Dubrovnik há muito se reconheceu que, embora este tipo de turismo de massas e de baixo custo possa aumentar o PIB, ele tem um impacto negativo, tanto no quotidiano dos habitantes locais e na qualidade dos serviços dessas cidades quanto na sua cultura e no seu carácter genuíno.

Já em Lisboa, os decisores políticos, independentemente da sua orientação, continuam a apostar incondicionalmente em “mais turismo”. Por exemplo, a câmara municipal acaba de aprovar mais dois novos hotéis. A nível nacional, o secretário de Estado do Turismo declarou que o Governo espera que, em 2033, o turismo represente 20% do PIB e gere 56 milhões de euros de receitas e 1,2 milhões de empregos. O que nunca é mencionado nestes cálculos milionários são os custos directos e as externalidades dessas receitas, nem quem beneficia dos seus lucros, nem quantos dos empregos são sazonais e precários, dependendo, em muitos casos, de mão-de-obra imigrante.

É incompreensível que a política de turismo em Portugal continue a ser determinada por pessoas de vistas curtas e gananciosas, indiferentes às consequências negativas já bem identificadas e que estão a ser combatidas em várias outras cidades, como Amesterdão e Paris. Até organizações reconhecidas, como a OCDE, já alertaram para os efeitos negativos da sobrecarga turística. Segundo o economista e professor do ISCTE Ricardo Paes Mamede, “alguns dos problemas decorrentes de um crescimento excessivo do turismo são evidentes e bem conhecidos de toda a população. A OCDE alerta para aspectos como as pressões sobre os preços do alojamento (...), sobre as infra-estruturas e os serviços colectivos (traduzindo-se, por exemplo, na sobrelotação dos transportes públicos ou na acumulação de lixo nas zonas mais frequentadas) e sobre o ambiente (aumentando a poluição e pondo em causa a sustentabilidade dos ecossistemas e a biodiversidade)".

Mas voltemos à descaracterização de Lisboa e à sua transformação em Disneylândia. A proliferação das lojas de bugigangas, com 1-2 vendedores asiáticos mas desertas de clientes, é outra chaga aberta no coração da cidade. Que, por trás destas lojas de fachada, existe um negócio totalmente diferente, é óbvio. Só às autoridades competentes, desde a AIMA, à Autoridade de Inspeção do Trabalho (ACT), à Segurança Social (SS) e à AT, é que tudo parece normal. Lojas com localização privilegiada e rendas elevadíssimas, com vários empregados ao balcão, e que não geram receitas significativas são realmente a coisa mais natural do mundo, certo? Porque haveriam as entidades de levar a cabo uma fiscalização concertada?

E que dizer dos produtos dessas “lojas”? Alguns nem sequer têm a indicação obrigatória de origem e, quando têm, são, na maioria dos casos, fabricados na China (ou PRC). Ou seja, artesanato supostamente português, “recordações de Portugal”, feitas por mão-de-obra barata na Ásia, para ser vendido como quinquilharia barata, apesar dos custos de transporte.

Com a uniformização do centro histórico, tudo se torna cada vez mais parecido com o que existe nos países de origem dos turistas, até que estes se comecem a perguntar, afinal, porque vir a Lisboa?

É extremamente triste assistir à alienação das cidades e dos seus centros históricos por governos e autarquias, sem a preocupação de garantirem que as cidades se mantêm habitáveis, primeiro para os seus habitantes e depois para os visitantes.

É verdade que tem razão quem pergunta: mas sabe como era a Baixa de Lisboa há 20 anos? Sem dúvida, ninguém quer voltar a esse tempo de prédios fantasmagoricamente degradados. Mas dar rédea solta a esta evolução, com base no lema “o mercado resolve tudo”, está a tornar as cidades num cenário oco e a desprovê-las de alma, ao expulsar os seus habitantes para as periferias.

Há que aprender com os bons exemplos, e eles existem. É o caso de Viena, onde o desenvolvimento da cidade é feito no interesse dos seus habitantes, com uma visão de longo prazo. Cerca de metade da população vive em habitações sociais ou noutras formas de habitação subsidiadas e não faltam investidores privados que queiram construir estes apartamentos. Não é por acaso que Viena é regularmente classificada como uma das cidades mais habitáveis do mundo. E nem por isso a capital austríaca deixou de ser uma das cidades mais atractivas para turistas.

Basta haver vontade e visão. Infelizmente, as últimas medidas anunciadas pelo Governo apontam para o contrário.»


29.7.24

Quando vamos assumir que o turismo se tornou um problema?

 


«“O turismo pode desempenhar um papel fundamental na promoção do desenvolvimento económico, mas os seus impactos são muitas vezes económica, social e ambientalmente desequilibrados, e os benefícios nem sempre revertem a favor das comunidades locais.”

Este aviso vem no último relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre o turismo mundial e Portugal tem motivos de sobra para o levar a sério. Em 2023, recebemos quase 20 milhões de turistas, um crescimento de 12,1% face a 2019, o que constitui o terceiro maior aumento entre os 38 Estados-membros daquela organização. No ano anterior, o sector representou 8,9% do PIB português, o valor mais elevado (e mais do dobro da média) dos países da OCDE para os quais existem dados disponíveis.

Os indicadores mais recentes sugerem que o turismo em Portugal continua a crescer. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de dormidas em estabelecimentos turísticos aumentou 7,4% no 1.º trimestre de 2024, face ao mesmo período do ano anterior, enquanto as receitas correspondentes cresceram 15,3%. A redução da inflação, a retoma da economia europeia e a persistência de um baixo valor do euro face ao dólar fazem prever que a tendência irá continuar nos próximos tempos.

Os responsáveis políticos recebem estas notícias com entusiasmo e percebe-se porquê. No imediato, o aumento do turismo traz mais actividade económica, mais emprego e mais receitas fiscais e contributivas. Para quem governa, não há nada melhor do que anunciar estatísticas que dão uma imagem favorável da situação do país e mais margem orçamental. Assim se percebe a resistência que os governantes têm em questionar o peso crescente do turismo na economia nacional. Na verdade, a tendência dos decisores políticos é promovê-lo ainda mais.

Das 60 medidas que constam do programa Acelerar a Economia, anunciado há poucas semanas pelo executivo de Montenegro, 17 visam impulsionar este sector em específico (nenhum outro sector de actividade merece sequer metade da atenção naquele programa). Mas a fixação dos políticos com a promoção do turismo não é de agora, nem deste Governo: em 2016, o então presidente da Câmara de Lisboa (e, mais tarde, ministro das Finanças socialista), Fernando Medina, dizia não saber “o que é ter turistas a mais”, acrescentando que “esse conceito não existe, não tem sentido”.

Mas não é isso que nos diz a OCDE, nem outras instituições internacionais, nem algumas abordagens económicas mais atentas ao desenvolvimento estrutural das economias.

Alguns dos problemas decorrentes de um crescimento excessivo do turismo são evidentes e bem conhecidos de toda a população. A OCDE alerta para aspectos como as pressões sobre os preços do alojamento (que dificultam o acesso à habitação dos residentes e também dos trabalhadores sazonais), sobre as infra-estruturas e os serviços colectivos (traduzindo-se, por exemplo, na sobrelotação dos transportes públicos ou na acumulação de lixo nas zonas mais frequentadas) e sobre o ambiente (aumentando a poluição e pondo em causa a sustentabilidade dos ecossistemas e a biodiversidade). Os crescentes protestos populares em zonas de grande intensidade turística – como Barcelona ou Málaga, para dar dois exemplos recentes – são um sinal de que o excesso de turismo existe de facto e que está a tornar-se um problema político sério em diferentes partes do mundo.

A Organização Internacional do Trabalho, por sua vez, tem alertado para as más condições laborais no sector, marcado pela prevalência do trabalho ocasional e informal, horários de trabalho variáveis e longos, salários baixos e fraca protecção social (decorrente da informalidade, da sazonalidade e dos rendimentos reduzidos dos trabalhadores).

Para além dos impactos mais directos e evidentes, o turismo tem implicações estruturais para o desenvolvimento das economias a prazo. Há três aspectos que vale a pena ter em consideração a este respeito.

O primeiro tem que ver com a relação entre turismo e imobiliário. A expansão rápida da actividade turística num determinado território está frequentemente associada a um aumento do investimento imobiliário em hotéis e alojamento local, mas também em estabelecimentos comerciais e de restauração. O crescimento dos preços desses activos pode dar origem a fenómenos especulativos, que põem em causa a estabilidade financeira do país.

Segundo, o aumento dos preços do imobiliário representa um acréscimo de custos para a generalidade das actividades produtivas (não apenas as que estão directamente associadas ao turismo). Para além disso, o grande afluxo de turistas – que, em geral, têm um poder de compra superior à média dos residentes – traduz-se num aumento geral dos preços dos bens e serviços, reduzindo assim o rendimento disponível da população local e aumentando ainda mais os custos para as empresas de todos os sectores.

Estes fenómenos inflacionistas, a par da disputa de recursos humanos, financeiros e materiais, originam um fenómeno conhecido por “doença holandesa”, ou seja, o crescimento do turismo provoca uma perda de competitividade em outros sectores de actividade mais expostos à concorrência internacional, em particular as indústrias transformadoras. Isto tem efeitos nefastos a nível estrutural: embora o turismo estimule a actividade económica e o emprego no curto prazo, em geral não tem o mesmo potencial de desenvolvimento tecnológico e de aumento da produtividade que o sector industrial. Ao favorecer a desindustrialização das economias locais, a sobre-especialização no turismo põe assim em causa o desenvolvimento da economia a prazo.

Por fim, a actividade turística é particularmente vulnerável à ocorrência de fenómenos extremos – como pandemias, desastres naturais, alterações climáticas, ataques terroristas, conflitos armados, entre outros – tornando ainda mais arriscada a sobreespecialização económica neste sector.

É por estes e outros motivos que as organizações internacionais têm vindo a alertar para a necessidade da adopção de planos de turismo sustentável por parte das autoridades nacionais e locais. É possível e desejável fazer do turismo uma parte relevante da estratégia de desenvolvimento económico, social e ambiental do país. Isto faz-se gerindo fluxos, diversificando ofertas, reforçando o investimento em infra-estruturas públicas e serviços colectivos, limitando o seu efeito predatório sobre a habitação nas grandes cidades (e não só), regulando e fiscalizando as condições de trabalho no sector. O primeiro passo, no entanto, é pararmos de olhar para o turismo como a galinha dos ovos de ouro da economia nacional.»


19.7.23

Loucura e não é mansa

 


É o novo Hard Rock Hotel Algarve, cujo parto está previsto para 2026 junto à praia do Vau. Ainda não percebi se a guitarra é só para enfeitar, se sai de lá música ou se dorme lá gente.

Mário Soares e Maria Barroso dariam certamente alguns gritos de aflição se pudessem vê-lo da «sua» magnífica praia. E eu não dou porque já quase nada me espanta, mesmo quando se trata de uma afronta de vários pontos de vista. O problema do Algarve é o AL? Tenham juízo!

A ler.
N.B. - Isto NÃO é a maquete do futuro hotel no Algarve, mas a fotografia de um já existente nos EUA.
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1.12.22

A falta de excedente

 


«Temos um aeroporto em Lisboa onde aterram os turistas que vêm visitar-nos. Será que não chegam os turistas que já temos?

Pelos vistos, não, não chegam. Os turistas que chegam a Lisboa podem parecer muitos a quem teima andar pela Baixa, pelas zonas históricas e pelo centro da cidade. Mas, na verdade, são poucos.

Não chegam, por exemplo, para ocupar as zonas da cidade onde ainda persiste uma maioria de lisboetas que ainda não foram beneficiados pelo turismo. Também não chegam para cidades maravilhosas como Vila Franca de Xira, que são prejudicadas pela falta de excedente de turistas.

A falta de excedente é das piores aflições que uma cidade pode conhecer. Infelizmente, os turistas são monomaníacos e querem, a toda a força, ficar no centro de Lisboa, onde estão todos os outros turistas, servidos atenciosamente por alguns locais (ou locals) escolhidos que fazem de vizinhos e recomendam o melhor pastel de nata do bairro.

Felizmente, para nós portugueses, é fácil descobrir qual é: é aquele que se vende numa loja chamada O Melhor Pastel de Nata do Bairro. Não precisamos de ajuda. Mas eles sim.

Só havendo excedente de turistas e falta de camas é que eles serão forçados a gramar os encantos dos arrabaldes alfacinhas, tão castiços e autênticos, onde o abacate é servido em pão saloio e há sempre uma avozinha com bigode a ajudar na cozinha que “no spika da inglish”.

Um novo aeroporto é a única maneira de enfiar mais uns milhões de turistas nas malhas do nosso tão pouco anafado tecido urbano. A TAP já pediu que não houvesse limitações de horário, como há desgraçadamente na Portela, para fazer frente às exigências dos dorminhocos.

Mas há esperança. Um dia há-de vir em que se compreenderá que é muito violento pedir a um estrangeiro que se meta num avião para vir visitar o nosso país.

Finalmente, poderão construir-se passadeiras rolantes de alta velocidade que liguem as grandes cidades europeias a Lisboa e ao Porto. Gratuitas, obviamente.»

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13.7.22

Partilha ou selvajaria?

 


«Quando começou, parecia promissor. Conceitos como "consumo colaborativo" ou "economia de partilha" eram revolucionários nos anos da crise financeira de 2007/2008 (em Portugal, a fatura mais pesada chegou em 2011, com a crise da dívida pública e a troika).

Parecia possível aceder a bens e serviços de uma forma mais racional, poupando dinheiro e até aproveitando para ganhar algum. Adivinhava-se um tempo em que cada um de nós poderia alugar diretamente um carro ou uma casa em qualquer ponto do planeta, a um preço razoável. Ou, na outra face da moeda, alugar o nosso carro e a nossa casa e assim compor o orçamento familiar, sempre demasiado estreito. Sem barreiras, porque uma plataforma digital não era bem um intermediário. Também queriam ganhar dinheiro, bem entendido, mas estavam ali sobretudo para pôr em contacto direto cidadãos do Mundo que acreditassem no consumo colaborativo. Melhor ainda, estavam ali também para dar dinheiro a ganhar a quem quisesse aproveitar a economia de partilha. A globalização com um cheiro a liberdade individual. Assim andámos cerca de uma década. Até se perceber que afinal já não estávamos a poupar. Que não íamos usar o carro de outro cidadão, antes uma viatura de uma frota de uma qualquer empresa. Conduzido por alguém que tem condições laborais piores que o antigo motorista de táxi. Até se perceber que não havia partilha de casas. O que tínhamos era gente a entrar e a sair do apartamento onde já não havia vizinhos, expulsos pela subida absurda no valor das rendas. As plataformas eram, afinal, multinacionais que seguiam a máxima de sempre: esmagar a concorrência e conseguir o máximo de lucro. Pior, como agora vemos nos "Uber Leaks": sem escrúpulos a corromper políticos (chamam-lhe lóbi) e garantir que não há regulação. Nem resistência de trabalhadores organizados em sindicatos. Privatizar os lucros, socializar os riscos. É a síntese desta economia de partilha digital. Capitalismo selvagem no seu melhor.»

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22.6.22

Que mundo!

 


Aeroporto de Heathrow, em Londres, durante o último fim de semana, devido a um problema técnico. Foi necessário cortar 10% no número de voos no dia 20 de Junho para tentar restabelecer a normalidade.
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13.6.22

Um cartaz é de 1949

 


Isto do turismo como salvação nacional já vem de longe.
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9.10.21

Expulsar os eleitores da cidade mata os votos

 


«Não há mistério no facto de a zona de Lisboa e Vale do Tejo ser onde se regista a maior concentração de pessoas sem médico de família. Faltam em todo o país cerca de 600 especialistas nesta área, que responderiam por um milhão de utentes, e é portanto um problema geral; mas na zona da capital está metade dessa população, há algo mais grave que se passa nessa região. Diz-se que é difícil conseguir a deslocação de outras profissões para fora da capital, e aqui temos o paradoxal caso contrário: não se conseguem atrair médicos para virem trabalhar para Lisboa. Um dos elementos de explicação é que as casas são demasiado caras: um aluguer, a acumular com o pagamento da hipoteca na cidade de origem, torna-se incomportável; comprar uma segunda casa, igualmente difícil; só para os médicos que se mudam de armas e bagagens com a família, deixando tudo para trás, é que a opção parecerá aceitável, mesmo sofrendo um imobiliário mais caro. Acho que se deve levar a sério o alerta que esta dificuldade revela. Explica uma das razões, talvez a principal, para a surpreendente derrota do PS na capital.

A população que se vai embora

Ainda por cima, as pessoas não chegam mas partem: numa década, segundo os dados provisórios do Censo 2021, Lisboa terá perdido 1,4% da população (menos 7849 habitantes). Dado enganador, porque perdeu muito mais, pois também recebeu estrangeiros que vieram para comprar ou alugar casa e viver. A mudança da população é portanto muito maior do que esses magros 1,4% sugerem. A população estrangeira no concelho cresceu 305%, nesta década, passando a ser, segundo os dados de 2020, cerca de um quinto do total, mais de 107 mil. Não conheço dados que permitam distinguir a sua tipologia social; muita gente será imigrante económica, mas alguns, cada vez mais, serão pessoas que investem no imobiliário, para habitar ou para especular, ou que chegam para beneficiar do regime fiscal de favorecimento aos pensionistas estrangeiros. E, se estes se instalam, e são bastantes, mais habitantes da cidade saíram, pois o saldo final é negativo. Um décimo da população de Lisboa pode ter abandonado a cidade ao longo de uma década, foi um terramoto populacional. O PS expulsou os seus eleitores da cidade.

Expulsar eleitores conta no dia do voto

Uns saíram por vontade ou escolha profissional, as razões serão variadas. Outros terão sido as vítimas da gentrificação através da sua mecânica implacável, que vai da lei Cristas sobre os arrendamentos, facilitando o fim dos contratos e o aumento das rendas (era uma ideia antiga: na apresentação do famigerado PEC4 anunciava-se o princípio da “expulsão” dos inquilinos), até ao incentivo mais poderoso, a multiplicação do Alojamento Local. A lei Cristas permanece, nunca o Governo atual aceitou modificá-la para além do adiamento de prazos, e cresceu assim a pressão de mercado para usar apartamentos para aluguer de curta duração, sobretudo em zonas históricas.

O sucesso da operação é indesmentível. Em 2015 havia 3213 alojamentos locais em Lisboa, cresceram 600% até abril de 2021 (para 19.292, com capacidade para 111 mil pessoas). No Porto cresceu percentualmente ainda mais (693%), embora a partir de densidade menor. Com este salto, Lisboa tem mais alojamentos locais que Barcelona, com mais do dobro das pessoas, ou mesmo que Madrid, com quase seis vezes a população da capital portuguesa. Numa freguesia, Santa Maria Maior, esta taxa de ocupação anda pelos 40%. O centro de Lisboa é hoje uma montra para turistas.

O aviso estava na porta

O efeito foi uma persistente subida de preços. A capital já é uma cidade acessível à famosa classe média, tornou-se um espaço para ricos ou sobreviventes, que vai continuando a afastar a sua gente. Por isso, as sondagens não se enganavam: a habitação foi considerada pelos eleitores como o principal problema, o que alguns partidos perceberam, mas muitos ignoraram a amargura pelo afastamento de familiares ou pela impossibilidade de acesso. A fronteira de Lisboa, que é o preço, tornou-se a questão política determinante das eleições.

Ao longo de uma década, fascinado pelo sucesso das receitas turísticas e pelo frenesim de construção de hotéis, o PS festejou esta economia de Disneylândia. Quando se deu conta do problema, em 2019, foi decidida uma “contenção”, que limitou novas autorizações de alojamento local, com resultado negligenciável: o número de apartamentos reduziu-se só em 0,7%. Nem com a paralisação do negócio em pandemia houve qualquer alteração, dado que os proprietários não são pequenos investidores que tivessem de alugar as suas casas, mas fundos imobiliários que podem esperar. O carrossel dos preços recomeçou, no segundo trimestre de 2021 a subida do índice da habitação foi 6,6%.

Noutras cidades, a resposta a esta razia populacional provocada pelo mercado imobiliário tem sido diferente. Em Barcelona há um limite ao alojamento local por prédio, em Amesterdão as casas só podem ser alugadas 60 dias por ano, em Londres 90. Berlim baniu o Airbnb e, no final de setembro, 56% dos berlinenses determinaram em referendo a expropriação municipal dos grandes fundos imobiliários com mais de 3000 fogos, para colocar 240 mil habitações no mercado do arrendamento a preços controlados. Mesmo que a direita e o SPD recusem acatar o referendo e os Verdes estejam divididos, a cidade falou. Em Lisboa, o PS não a quis ouvir.»

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6.6.21

O Governo e os britânicos


 

«Quando tudo corre bem, o mérito é do trabalho de casa bem feito pelo Governo. Quando corre mal, a culpa é das avaliações "intempestivas" e com "falta de lógica absoluta" do Executivo de Boris Johnson, ficando por explicar a incapacidade de negociação e diálogo prévio sobre decisões que apanham o país de surpresa.

No que toca ao turismo e à oportunidade que acaba de ser perdida por Portugal, é difícil ao Governo explicar o óbvio: como quer puxar dos galões quando entramos na lista verde do Reino Unido, mas evita assumir responsabilidades sempre que acontece o inverso.

Politicamente, a decisão de manter a matriz de risco foi ajustada ao objetivo de colocar pressão sobre o controlo dos números, transmitindo uma mensagem externa de rigor e segurança. Mas imagens como as que circularam da final da Champions não enganam. Aglomerados descontrolados de adeptos sem máscara não suscitaram apenas críticas internas, sendo difícil calibrar um discurso exigente perante tantas oscilações.

Os números e factos não chegam para se fazer caminho. Desde logo porque é cada vez mais difícil reunir consensos numa altura em que tantos reclamam uma alteração dos critérios para desconfinamento. E sobretudo porque as perceções contam quase sempre mais do que a realidade em si mesma. As mensagens contraditórias sobre a Champions ou sobre os santos populares dificultam a tarefa de conseguir que os portugueses entendam os objetivos e se mantenham unidos em torno deles.

Sete países europeus têm já em funcionamento o certificado digital covid. Garantido que está o princípio de não discriminação de não vacinados, com as regras clarificadas e concertadas ao nível da União Europeia, é preciso assegurar com urgência a concretização deste processo em Portugal. Essa será a única forma de não ficar dependente de negociações parcelares, ou de mercados restritos, normalizando gradualmente o turismo. Dependemos muito dos turistas britânicos, claro. Mas não podemos apostar todas as fichas num tabuleiro. Muito menos quando não temos capacidade negocial para provar que somos capazes de manter as portas abertas.»

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4.6.21

We speak english, pá!

 


«Primeiro vendemos a autonomia financeira do Estado, depois vendemos os bancos e as grandes empresas, a seguir vendemos as dívidas falidas a fundos-abutre por 10%, vendemos a cobrança de impostos a reformados europeus e vendemos-lhes os prédios nas avenidas das cidades, as casas na praia e as quintas no campo, agora vendemos a vergonha e as regras nacionais em troca de barris de cerveja e pires de amendoins, come to Portugal, aqui é very nice, por umas libras é all you can eat com bebidas à parte, abrimos as portas, abrimos os braços e até abrimos as penas, toste o pão e toste ao sol, os nossos baixos salários são o seu paradise, isto sai baratinho, faça o que lhe aprouver, leve o que quiser, deixe like no TripAdvisor — e até à próxima, má frend!

Quero lá saber da Cham¬pions, não dou para o peditório da semana, mais a marquise do Ronaldo, mais fazer de Eduardo Cabrita a pinhata da nação e o embaraço de ouvir o dono da Ryanair mandar o Governo bater a bola baixinho porque traz mais turistas líquidos a Portugal do que a TAP. Eles até estavam todos testados, a julgar pelas notícias houve até mais ingleses assaltados do que infetados no Porto. A questão não é essa, interessa-me mais o que está por detrás do que o que nos põem à frente. E o que está por detrás é um país aflito a governar-se supondo-se governado.

Mais vale dizer a verdade, servimos sardinhadas porque estamos tesos como carapaus, e não se trata de xenofobia invertida, em que tratamos os estrangeiros melhor do que os portugueses, mas de carência-urgência. E por isso os ingleses estão acima das regras sanitárias, os suecos e os finlandeses abaixo da tributação de IRS, a TAP engole três mil milhões porque precisamos dos brasileiros e dos americanos, queremos 27 milhões de turistas daqui a meia dúzia de anos porque isso é o nosso ganha-pão.

São todos bem-vindos, sem ponta de ironia, turistas e capitalistas. Mas assuma-se o modelo. E assuma-se que o modelo é uma economia descapitalizada e sobre-endividada, uma economia desinvestida, uma economia de baixos salários, baixos preços e trabalhos precários, em que o imobiliário é para ricos, em que o interior se esvazia, em que os miúdos têm de rachar a renda da casa primeiro com os colegas de universidade e depois com os colegas de trabalho, em que não somos esquisitos com a origem do capital, em que o PRR é uma galinha já esfolada antes de sair do ovo de ouro, em que o país está de tanga há 20 anos e engolir conversa da tanga há 20 anos, não há plano B, estamos dispostos à barganha, aos vistos gold, aos benefícios fiscais, às negociações discretas, à venda ao melhor preço.

É isto que vemos na Ribeira do Porto, nos jardins de Lisboa ou nas ruas de Albufeira, exceções consentidas à regra porque, dizia Molero, “os camones são uns naifistas do caneco”, têm dinheiro e nós não, e isso justifica uma lei paralela para abrir as portas e fechar os olhos.

Pergunta-se pelo futuro e respondem PRR, questiona-se a dívida e falam de BCE e do adiamento das regras do Pacto Orçamental. Se Costa fosse Durão, pirava-se a tempo para a Europa, como Centeno já se mudou para a filial portuguesa do BCE, e deixava isto ao próximo gestor de falências, que lá engrenará no círculo vicioso do sistema viciado. Assim como assim, nós ficaremos cá, mais abanados que abonados, à espera de um futuro diferente do de sermos a marquise da Europa.»

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18.5.21

Monocultura do turismo – nada se aprendeu

 

«Ontem, pela primeira vez no último ano e meio, provei realmente o sabor do dito regresso à normalidade. Num curto espaço de tempo Portugal passou de pior país na sua relação com a pandemia, para um dos melhores, naquele tipo de avaliações que parecem feitas para agradar a crianças em idade pré-escolar. Na zona onde (ainda) habito grupos de turistas estão de regresso em força, movendo-se em grupo, procurando o entretenimento instantâneo, para compreensível entusiasmo dos espaços preparados para os receber, e para os empregos que do turismo dependem. Mas há uma atmosfera estranha no ar. Não diria que é hostilidade dos restantes habitantes ou transeuntes do bairro, é apenas uma espécie de melancolia, uma resignação por se perceber que o reavaliar do modelo económico, ou como durante anos se chamava, de ‘desenvolvimento’, é apenas uma miragem. A cidade vai fragmentar-se ainda mais entre os que vão sendo expulsos dela, das mais diversas formas, e quem a pode desfrutar. No meio, os que encolhem os ombros, vivendo na ilusão da monocultura do turismo, dependentes das oscilações globais, até à próxima pandemia, ou outro acontecimento qualquer.»

Vitor Belanciano no Facebook
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Ser o oásis turístico da Europa é um perigo

 


«No dia em que milhares de turistas britânicos aterravam no aeroporto de Faro, o director da Região de Turismo do Algarve deixava no ar uma constatação que tanto serve de regozijo, como assusta. “Toda a Europa está a falar na vantagem de Portugal”, dizia João Fernandes. Depois de longos meses de isolamento que levaram o sector do turismo ao limite e causaram danos irreparáveis na economia, verificar que a Europa olha para o controlo da pandemia como uma “vantagem” para as suas férias é animador. Depois de nove meses de estados de emergência e de situações de calamidade até que o esforço dos cidadãos foi capaz de vergar o número de infecções para uma dimensão invejável à escala europeia, o assalto de estrangeiros a praias, hotéis ou restaurantes é uma preocupação.

É caso para se recordar que não podemos ter o sol na eira e a chuva no nabal, como é caso para dizer que Portugal está a beneficiar do seu sucesso e pode tornar-se vítima dele. Ser o primeiro país da Europa do Sul com a pandemia controlada torna o país um oásis; estar nessa condição torna-o um refúgio.

Não se trata de ser pessimista ou de recusar a oportunidade de recuperar a um sector crucial da economia. Trata-se apenas de perguntar se o desconfinamento não está a ser rápido de mais. Se o Governo não está a confundir a calmaria, que existe, com o fim da tempestade, que não aconteceu; se depois da desobediência patrocinada pelo laxismo dos poderes públicos na festa do Sporting não haverá uma tendência geral para o facilitismo; se a abertura de portas a turistas da forma descontrolada (deixando de fora na Europa apenas dois países importantes, a Holanda e a Suécia) não será um daqueles casos em que a ânsia se sobrepõe à prudência e a necessidade económica à protecção dos cidadãos.

Ter a situação controlada exigiu um preço elevadíssimo. É esse preço que justifica a discussão sobre se abrir as fronteiras sem outras exigências senão um teste a turistas vindos de países ainda em sobressalto, onde as taxas de vacinação continuam baixas e nos quais a disseminação de variantes como a indiana gera ainda aflição foi ou não uma boa escolha. Estamos, obviamente, a insistir numa discussão especulativa por incapacidade de prever o que vai acontecer. Há bons argumentos para defender a escolha feita. O que não podemos negar na realidade actual é que, com esta abertura escancarada de fronteiras, o nível de risco da pandemia no país aumentou. Oxalá em Julho, no auge da temporada turística, haja razões para dizer que a “vantagem” de hoje foi bem aproveitada.»

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