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23.3.23

André Ventura e abusos na Igreja

 



Nunca pensei escrever que André Ventura teve a posição mais correcta, que vi até agora, sobre o escândalo do dia na saga dos abusos sexuais na Igreja: um pároco de Lisboa ter anunciado que é injustamente considerado ser um dos abusadores. As outras reacções, que li, são de meninos beatos nervosos que se atiram aos OCS e à CI, sobretudo – e não por acaso – a Daniel Sampaio e a Laborinho Lúcio (CI que, note-se, não divulgou publicamente qualquer nome.)

Ventura mostrou que sabe ser um político e que, por isso mesmo, é tão perigoso.
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8.3.23

Palmas para as primeiras divergências dentro da Conferência Episcopal

 



«A arquidiocese de Évora afastou cautelarmente um padre de funções e abriu uma investigação a uma denúncia de alegados abusos de menores pelo sacerdote, na década de 1980, no Seminário Menor da cidade.»

«A diocese de Angra, nos Açores, também suspendeu de funções dois padres que estão a ser investigados por alegados casos de abuso sexual de menores.»
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Conferência Episcopal – a miséria moral que pede Estado

 


«A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de crianças na Igreja Católica Portuguesa (CI) constituiu-se após um convite dirigido a Pedro Strecht, no final de 2021, por parte de José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Sabemos que não foi fácil, sabemos que a Igreja foi empurrada para o inevitável, para aquilo que foi feito em tantos países.

A equipa é exemplar e a sua composição bem conhecida. Este grupo estava, como se viu, muito bem preparado para fazer aquilo que a Igreja nunca quis fazer, porque sabia o resultado e sabia do seu crime de encobrimento.

A CI centrou-se na vítima, usou metodologia qualitativa e quantitativa, apelou ao testemunho, cruzou dados, consultou arquivos da Igreja (quando não foi obstaculizado).

A Igreja sempre soube o método e o objetivo deste estudo seríssimo e ouviu sem emoção as conclusões que fizeram o país sangrar. O país sangrou, não por acreditarmos no milagre português que alguns pregavam, mas por vermos diante dos nossos olhos a verdade concreta dos suicídios, do silenciamento por sentimentos de vergonha e de culpa.

Soubemos do stress-pós-traumático, dos tratamentos psiquiátricos, soubemos que os abusadores no seio da Igreja são dados à repetição do comportamento, pelo que, nas palavras do relatório, “é fundamental ditar o afastamento de cargos ou atividades que impliquem contacto com crianças”. Soubemos que o próprio Direito Canónico tratou de proteger a Igreja “mantendo -se a Igreja como a principal vítima da ação do agente infrator”. Soubemos que “o debate interno por parte da Igreja Católica portuguesa relativamente às modalidades de abertura dos seus arquivos” levou ao que tem um nome: obstrução.

A maior percentagem de crianças foi abusada entre os 10 e os 14 anos de idade, sendo a média de 11,2 anos. Predominam as modalidades com manipulação de órgãos sexuais, masturbação, sexo oral e sexo anal, bem como cópula completa.

Os locais dos abusos são os seminários, a igreja sem outra especificação, o confessionário, a casa paroquial e a escola religiosa. Depois há os agrupamentos de escuteiros. Calcula-se que as 512 pessoas vítimas conheçam ou tenham estado em contacto com perto de 4300 outras vítimas.

Soubemos do poder de se ser sacerdote, da manipulação espiritual, da manipulação da vida material da vítima, soubemos da monstruosa arma da “purificação”.

Nas palavras do relatório, “os depoimentos testemunham o clima emocional de terror, de uma verdadeira atitude de “banalidade do mal”.

As vítimas querem apoio psicológico e psiquiátrico, um pedido de perdão e mudança da Igreja. Os abusos são passado e presente e serão futuro se não forem tomadas medidas sérias. Algumas daquelas pessoas abusadoras referenciadas ainda permanecem em atividade eclesiástica. A ocultação foi sistémica.

Perante isto, no dia 3 de março de 2023, a CEP foi o retrato do patriarcado instalado, gelado, sem empatia e cobarde. O mesmo José Ornelas que em 2021 dizia haver unanimidade quanto a tratar da descoberta da verdade e da ocultação, pediu desculpas sem convicção e ofendeu o trabalho da CI. Afinal, aquele relatório, que é exatamente o que tinha de ser, resultou numa “lista de nomes”.

Diz que é pouco, vai-se estudar, vejam lá que não há nomes das vítimas (?!) e já agora recorda-nos que isto também acontece nas famílias, não é? Enquanto ouvia aqueles homens pertencentes a uma Igreja que o relatório da CI demonstra não saber nada do que devia saber, pouco colaborativa e com o peso brutal de décadas e décadas de ocultação de crimes contra crianças como se o ofendido fosse “Deus” e a “Santa Igreja”, pensei nas vítimas encorajadas a falar anonimamente. Pensei na revivência monstruosa do trauma, na sensação de sacrifício inútil, na raiva, na impotência.

Será que José Ornelas acredita que não sabemos que os nomes enviados têm um contexto de análise cuidado que, precisamente, levou ao seu envio? Como é possível não afastar preventivamente (o que não é condenar) os alegados abusadores? Como é possível não avançar com o pagamento de indemnizações em nome da história secular de ocultação e promoção de crime hediondos? Não saberá a Igreja por esta hora que em cada decisão de ocultação e deslocação de um abusador promoveu novos crimes? Pensará a Igreja que as vítimas passadas e atuais sentirão confiança em comissões criadas pela Igreja ou que sentirão sequer vontade de respirar em qualquer espaço da Igreja? Manuel Clemente diz que indemnizar seria ofensivo para as vítimas. A sério? Assistimos a uma Igreja cobarde, ora citando o direito civil (vamos lá ver o que é encobrimento), ora citando o direito canónico.

É tempo de dizer basta a esta Igreja infame, perigosa e insistente numa moral sexual perversa sobre a qual já escrevi.

O primeiro passo para o fim da subserviência dos frágeis é o fim da subserviência do Estado. A Concordata tem de ser revista. As autoridades devem poder perguntar aos eclesiásticos sobre factos e coisas de que tenham tido conhecimento por motivo do seu ministério. Os direitos das crianças são direitos humanos e o Estado de Direito tem de cuidar deles, não permitindo coutadas de privilégio.

A autoridade eclesiástica define o conteúdo do ensino da religião e moral católicas, mas “em conformidade com as orientações gerais do sistema de ensino português”. Não podemos aceitar que se ensine uma moral sexual que castra, inflige dor e aliena. Tem de se acabar com a isenção de fiscalização, pelo Estado, do regime interno dos estabelecimentos de formação e cultura eclesiástica. A Igreja (e já agora a Universidade Católica) não podem continuar a beneficiar do regime fiscal paradisíaco previsto na lei. Sim, tudo isto é subordinação.

O Estado tem de intervir, tem de zelar pelo fim de espaços fechados perigosos para as crianças, tem de investigar penalmente os abusadores individuais e a Igreja coletivamente. O Estado tem de avançar com a comissão pedida pela CI e parar de permitir que a Igreja invada o seu espaço. Que é o nosso, de todos, dos crentes e dos não crentes. Fez bem a MJ em receber a CI e mostrar abertura ao alargamento do prazo de prescrição.»

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7.3.23

Sobre pedofilia: audição obrigatória

 


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O fim da Igreja Católica como referência moral

 


«Se a conferência de imprensa da Conferência Episcopal Portuguesa já tinha sido a perda de uma importante oportunidade, as recentes declarações de Manuel Clemente levam-nos para um quadro de insensibilidade moral a rasar os limites da compreensão.

Ao remeter qualquer ação concreta para o cumprimento do estrito legalismo, o patriarca de Lisboa perdeu toda a essência do seu título, o pater familias, da sua função de grande pai protetor e referência de valores.

Quando uma instituição, que se arvora como a referência moral de toda uma civilização, se esconde atrás de processos legais, então ela perdeu a sua função social e, pior, a sua essência; passou de religião a escritório de advogados.

Se à mulher de César não bastava ser séria, à Igreja Católica não cumpre apenas o cumprimento da lei. A lei moral, e não é necessário ir buscar Kant, ou é imanente ou não é. Ou é superior aos factos e, por isso, não carece de demonstração ou perdemos toda a capacidade de nos guiarmos por modelos que julgamos os corretos.

A Igreja Católica, sejamos crentes ou não, é a principal referência que alimenta a nossa forma de ver o mundo. Nestes dias, os responsáveis por essa instituição milenar deram uma machadada profunda no contrato de confiança cimentado ao longo de muitas e muitas gerações.

Não admira que se somem as vozes vociferando contra esta estrutura, bispados e patriarcado, que perdeu todo o pudor perante a moral que ela mesma fundou.

São tempos sombrios aqueles que veem uma instituição como a Igreja Católica a abdicar da coragem de agir segundo a moral. Cada vez mais órfãos dessa referência, vemos os espaços vazios e o desalento para com a tradição herdada, geração após geração, serem ocupados por novas tradições. Não digo que uma ou outra seja a correta. Mas a Igreja Católica está a esforçar-se por passar o testemunho, abdicando de si mesma.»

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6.3.23

Sim senhor cardeal, os tempos da Inquisição também foram há muitos anos

 


E nem por isso se justificam. Não tem vergonha por fazer estas afirmações?

«Segundo o cardeal-patriarca de Lisboa, "muitos dos casos em apreço" são de "há 50, 60, de há muitos anos", numa altura em que "a legislação não era nada disto, nem sequer era crime público, nem era um crime contra as pessoas, eram meros atentados ao pudor que eram tratados com boas palavras".

Daqui.
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Daniel Sampaio entrevistado

 


Muito importante, ouvir AQUI.
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5.3.23

Basta, senhores Bispos!

 


«Não há outra forma de o dizer! A Conferência Episcopal Portuguesa e o Bispo José Ornelas devem estar a brincar com os portugueses. A conferência de imprensa de sexta-feira sobre os abusos sexuais sobre menores ficará na História como um dos pontos mais baixos, miseráveis mesmo, da Igreja em Portugal. A cúpula religiosa continua convencida de que, mais uma vez, o tempo funcionará como a esponja que absorve e apaga os seus pecados, como tantas vezes aconteceu no passado. Só que estes não são já os tempos da inquisição. Agora, a informação flui e a indignação não se abafa facilmente no perdão beato e gratuito.

Diz-se na política que há duas possibilidades para enfrentar um problema grave que se tornou público: ou se quer resolver a questão e se avançam com medidas musculadas e imediatas, ou se nomeia uma comissão de estudo para que tudo fique na mesma. Esta máxima tem, contudo, uma nuance: a comissão a nomear deve ser controlada pelo incumbente.

No caso dos abusos sexuais da Igreja, a Comissão Independente liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht chegou a conclusões e destapou a dimensão quantitativa de um fenómeno que se sabia existir há muitos anos. Nada ficou na mesma, pela simples razão de que a Comissão não era controlada pela Igreja. Os portugueses devem um agradecimento enorme e sentido a este grupo de pessoas, por se terem disponibilizado para uma tarefa de grande exigência, que executaram de forma competente e corajosa, nunca sucumbindo à tentação do protagonismo mediático.

Com a divulgação dos 512 casos validados - sublinho, validados - e a estimativa dos quase cinco mil abusos perpetrados ao longo das últimas décadas, que todos intuímos serem apenas a ponta do iceberg, a Igreja apressou-se a reagir. O que prometia ser uma boa notícia resultou num ultraje. A montanha pariu um rato, confirmando a estratégia de sempre: desproteger as vítimas em nome da salvaguarda da instituição Igreja Católica Apostólica Romana.

A conferência de imprensa da Conferência Episcopal foi um exercício cínico, onde sobrou em estratégia de sobrevivência o que faltou em responsabilização perante as vítimas.

Quando se esperava ação, a Igreja anuncia a criação de uma nova comissão - interna, porque a independente já fez o seu trabalho - para fazer diluir no tempo a investigação.

Quando se esperava o afastamento imediato dos padres, ainda no ativo, sinalizados pelas vítimas, sem prejuízo do seu direito à defesa, a Igreja recusa-se a fazê-lo e relativiza o valor das denúncias.

Quando se esperava o fim do encobrimento, a Igreja anuncia que vai remeter os casos para as Dioceses, devolvendo o assunto às teias locais de cumplicidades.

Quando se esperava a assunção de indemnizações às vítimas, a Igreja oferece um Memorial, como se não pudesse vender um par de edifícios, de entre os milhares que detém isentos de impostos, para compensar os abusados e as suas famílias.

Tenho ouvido em surdina que os abusadores sinalizados terão de ser protegidos, porque, se começam a falar, vão denunciar muitos outros, nomeadamente figuras na estrutura mais alta da hierarquia da Igreja. Terá de ser provado, mas não me surpreenderia.

Perante esta tragédia, que apelidei de "Holocausto escondido" numa outra crónica neste mesmo espaço, estranho o silêncio ensurdecedor da sociedade civil. Fazem-se manifestações contra tudo, mas a Igreja parece ter um escudo protetor. Até quando?»

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4.3.23

A Igreja portuguesa continua a não saber lidar com os abusos

 


«O relatório final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa foi apresentado há quase três semanas. Os bispos sabiam, há bastante mais tempo do que isso, que o relatório não iria ser lisonjeiro para a Igreja. Não, a excepção portuguesa, pela qual alguns ansiavam, não existe. Não, os abusos de menores não são “um fenómeno fundamentalmente anglo-saxónico”, como chegou a afirmar D. Manuel Linda. São um fenómeno americano, europeu, africano, asiático, absolutamente transversal à Igreja, e potenciado por uma cultura de encobrimento que não só permitiu a continuação dos crimes, como promoveu a sua multiplicação, ao empurrar padres pedófilos de umas paróquias para as outras. Com a cumplicidade de bispos, cardeais e até de papas.

Este é o maior escândalo da Igreja desde a Inquisição. Deve ser assumido enquanto tal. Mas não foi o que aconteceu esta sexta-feira, em Fátima. Aquilo que vimos foi de novo uma Igreja cautelosa, muito possivelmente dividida, incapaz de tomar medidas vigorosas, e, sobretudo, em claríssimo modo de contenção de danos. Passaram três semanas da terrível conferência de imprensa na Gulbenkian sobre os abusos, e a única coisa que os bispos conseguiram acordar de concreto foi a construção de um memorial às vítimas durante a Jornada Mundial da Juventude. Já se sabe: a Igreja é excelente em memoriais, vigílias e orações. Mas não é disso que as vítimas estão à espera. Tudo o resto foram promessas vagas: “acompanhamento espiritual, psicológico e psiquiátrico” (não foi explicado como, nem por quem); “tolerância zero” para com “todos os abusadores”; o envio da lista com o nome dos alegados pedófilos para as dioceses respectivas, para terem “o devido seguimento por parte dos bispos”.

Ao fim de três semanas de reflexão e suposto debate, isto é uma mão cheia de nada – ainda que D. José Ornelas tenha preferido chamar-lhe “uma mão cheia de compromissos”. Olhemos para as suas respostas às três questões mais sensíveis sobre este tema. Indemnizações das vítimas? Nem pensar: o responsável é quem comete o crime, e a Igreja nada tem a ver com isso – como se a cumplicidade no encobrimento fosse irrelevante, ou como se a diocese de Boston não tivesse ido à falência nos Estados Unidos por causa das indemnizações que teve de pagar às vítimas. Afastamento dos padres abusadores? É preciso analisar com cuidado, porque a única coisa que a comissão disponibilizou (ouvimos nós 20 vezes) foi uma lista de nomes, sem quaisquer elementos adicionais, o que vai dificultar a investigação. E quanto à ideia de afastar os bispos que encobriram casos? Silêncio absoluto e pontapé para o pinhal.

D. José Ornelas desculpou-se, claro: “foi uma reunião forçosamente limitada no tempo”; “tivemos a manhã ocupada a reunir com a comissão”; são apenas “linhas de orientação”; há “pontos concretos que têm de ser negociados”. Mas foi curto. Foi muito curto. D. José Ornelas adoptou sempre um modo defensivo; recusou que a Igreja fosse “atracção para pedófilos”; e esforçou-se para alargar o problema da pedofilia à sociedade, uma técnica habitual para evitar que a Igreja fique isolada debaixo dos holofotes.

Mas basta ouvir o Papa Francisco falar sobre o tema – não tem nada a ver com isto. Após a conferência de imprensa, Lisete Fradique, do movimento Nós Somos Igreja, disse na SIC Notícias: “Senti falta de compaixão”. Somos dois. Muito calculismo; muito pouca empatia.»

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18.2.23

A Igreja, o Demónio e o dr. Freud

 


«A Igreja e os que a desculpam ganham nestes dias o campeonato da hipocrisia em relação à pedofilia. O artigo do PÚBLICO de Susana Peralta mostra e bem que não há nesta matéria qualquer elogio a fazer-lhe, nem ontem, nem hoje. Bem pelo contrário, com Comissão ou sem ela, foi forçada a revelar o que sempre quis e quer esconder. A Igreja Católica Apostólica Romana continua enredada numa moral sexual, na qual se inclui a questão contra naturam do celibato, assim como a menorização das mulheres, que não tem legitimação em qualquer dogma de fé, nem sempre existiu, e é tão histórica como a sua sistemática violação século após século.

Há, no entanto, muito mais hipocrisia para além da que emana da poderosa instituição da Igreja, um verdadeiro poder fáctico, onde a invisibilidade da pedofilia e dos abusos sexuais – convém fazer a distinção – contava com uma rede de cumplicidades de dentro e de fora. Ou seja, a Igreja não foi apenas cúmplice no seu interior, mas contou com uma sociedade à sua volta, nas cidades, nos campos, entre os católicos praticantes e os não-praticantes, entre os incréus, porque um número tão elevado de abusos não podia existir sem muita gente saber e calar.

Aliás, isto não espanta quem conheça a história e saiba que a história destes abusos e a sua forte condenação nos dias de hoje nem sempre foi assim. Como acontece com muito crimes que hoje consideramos hediondos, eles eram razoavelmente consentidos num passado muito próximo. Em grande parte por contiguidade com o local privilegiado da família, que era e continua a ser o terreno mais fértil para todo o tipo de abusos e de crimes. A família só é idílica na literatura cor-de-rosa e no discurso político dos reaccionários, fora disso é um sítio propício a todas as violências, desde a violência doméstica ao bullying e à pedofilia. E, acima de tudo, coberto pelo silêncio de que “entre marido e mulher não metas a colher”, nem entre pai e filha, nem entre tio e sobrinho, etc... E embora seja um regra com muitas excepções, onde há muita miséria, onde se vive amontoado, onde se agride muito porque há pobreza, onde há uma vida de todas as misérias, onde nada se tem, pode-se “servir” de quem está à mão.

Isto explica porque, lá por se passarem numa sacristia ou num seminário, estes crimes não eram vistos assim como tão “violentos” e reprováveis. Era como a mancebia dos padres, ou as suas diligentes “sobrinhas” e “afilhadas”. Milhares de páginas da literatura portuguesa falam de forma séria ou jocosa da distância entre a imposição do celibato e a realidade da sua violação. Os republicanos no seu anticlericalismo não deixaram de tratar os padres, em particular os jesuítas, como uma associação de criminosos, e denúncias de abusos sexuais faziam parte das acusações ao comportamento do clero.

É certo que a pedofilia — e insisto de novo: em muitos casos é abusivo falar de pedofilia, devendo antes falar-se de abusos sexuais de menores, que podem incluir a violação — era pouco nomeada e apenas sugerida. Mas a relação de poder entre os padres e freiras em relação aos seus discípulos/as era uma questão que estava bem presente no anticlericalismo republicano, e só foi mitigada nos anos do Estado Novo porque a Censura cortava todas as notícias que sugeriam um comportamento abusivo dos padres. Ou seja, isto não é novo.

Fechava-se os olhos e fecha-se os olhos. Espantam-se com o presente do verbo? Não se espantem. A invisibilidade da pedofilia nos espectáculos, nas artes, na literatura é bastante, mesmo em sectores que vivem da exposição pública e onde é gritante o que se passa. E ninguém se incomoda. O que é que pensam que Gide ia fazer a Marrocos? E nós também temos os nossos Gides, tão explícitos e tão públicos, naquilo que antigamente se chamava pederastia, uma palavra que se tornou maldita pela associação entre a pedofilia e a homossexualidade masculina.

Um caso que várias vezes referi, espantando-me por não provocar qualquer réstia de indignação, é o de um artista de variedades que viveu durante algum tempo às claras, com publicidade, com uma criança, seu “afilhado”, que de uma certa maneira “comprou” aos pais seus empregados. Várias revistas do jetset mostravam a criança, na piscina, em restaurantes, com um padrão comum a outros casos: homem poderoso e com fama e dinheiro que vive numa relação pelo menos ambígua com uma criança filha de uma governante ou de um jardineiro.

Somos todos culpados? Não, não somos todos culpados. Por isso, a crítica à Igreja Católica não pode ficar-se apenas pela condenação genérica, implica discutirem-se as causas dessa atracção pela pedofilia e, em muitos mais casos, pelo abuso sexual de menores, e perceber que as raízes do silêncio face ao comportamento de muitos padres estão tão dentro como fora da Igreja.

Por ambígua que seja a ideia da “miséria sexual”, que não explica a questão bem mais complexa daquilo a que chamamos perversões, onde ela existe o caminho para os abusos está aberto. A Igreja tem todo o direito de pedir aos seus padres a obrigação do celibato, mas deve estar consciente, e estou certo de que está, das “tentações” do mundo. O Demónio e o Dr. Freud sabiam muito bem disso.»

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13.10.22

Como Presidente, envergonhou os portugueses. Como cidadão, envergonhou os católicos

 


«Sobre os crimes sexuais na Igreja Católica já escrevi há poucos meses e um assunto centenário dificilmente precisa de atualização. Mais interessante do que escrevi será seguramente a conversa com António Marujo, um jornalista veterano em temas religiosos que nos explica quão profunda terá de ser a reforma da Igreja para superar as razões sistémicas destes casos. Porque a questão não são apenas ou especialmente os abusos. É a forma como a autoridade clerical protegeu a impunidade dos abusadores, por se ter habituado a ser um Estado para lá do Estado, com o poder de condenar ou absolver a casta clerical, para lá da justiça.

Laborinho Lúcio, membro da Comissão Independente que está a receber denúncias, defendeu que, se houver insistência em ocultar a própria ocultação, os abusos passam a ser da Igreja: “ou a Igreja se abre completamente e os abusos são na igreja ou se fecha e os abusos passam a ser da Igreja”. Compreendo a ideia, mas vem fora de tempo. Porque o escândalo nunca foi haver casos de abuso de menores, que podem acontecer em qualquer instituição, foram décadas de encobrimento ativo até ao topo da hierarquia. E esses já aconteceram. Os abusos já são da Igreja. O máximo que pode tentar é que não continuem a ser.

Nunca é tarde para a “redenção”. Como defendeu o padre Thomas Reese, a Igreja pode e deve ser voluntariamente implacável consigo mesma, investigando tudo, punindo os culpados, indemnizando as vítimas e enviando para a justiça o que ainda pode ser julgado. É um exercício difícil, mas o único que não a deixará décadas enfiada na sua maior crise desde a reforma protestante. Há resistências. Muitas, porque é de poder que falamos. Em Portugal, a sucessivas declarações do bispo do Porto, que dá tanta importância ao tema que ignora que o abuso sexual de menores é crime público, são exemplo dessas resistências. Aliás, resiste desde o início a qualquer comissão que investigue, tratando estes casos como uma queda de um meteorito.

Outras resistências serão menos conscientes e desejam apenas enfiar a cabeça debaixo da areia. É o caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Há meses que tropeça como bêbado neste assunto. Desde declarações de confiança no presidente da Conferência Episcopal a telefonemas a quem está a ser investigado, não há disparate que já não tenha feito neste tema. Agora veio dizer isto: “Não há limite de tempo para estas queixas, há queixas que vêm de pessoas de 90 ou 80 anos e que fazem denúncias relativamente ao que sofreram há 60 ou 70 anos. Portanto, estamos perante um universo de pessoas que se relacionam com a igreja católica de milhões de jovens ou muitas centenas de milhares de jovens. Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado porque noutros países com horizontes mais pequenos houve milhares de casos.”

Marcelo saberá que estes 400 estão muitíssimo longe de corresponder ao universo de abusados num processo que vai longo noutros países e ainda só agora começou por cá. Estes são os que encontraram força para a denúncia, que deveriam merecer um especial respeito pela coragem que tiveram. Mas nem é essa a questão. Neste caso, a questão é o papel que Marcelo Rebelo de Sousa acha que tem na sociedade portuguesa. Ainda se julga, é evidente, Comentador Geral da República.

A criação da Comissão Independente corresponde a um esforço tímido, a um primeiro passo, para, na Igreja portuguesa, se fazer o que Thomas Reese defendeu à escala global. Será sempre traumático para uma instituição milenar que já teve um poder imenso. A Igreja, que tem, mesmo para quem não é católico, um lugar relevante na sociedade portuguesa, precisa de pressão, por um lado, e de apoio, por outro, para o esforço que tem de fazer. Marcelo está a cumprir o pior papel possível.

Antes de ser católico, Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente de uma república laica que inclui cidadãos de outras religiões, de outras igrejas, ou sem religião ou igreja. E não está a comentar um tema interno à Igreja, porque envolve crimes graves. Por mais que lhe custe, tem de deixar de comportar, no exercício das suas funções, como quem fala de dentro da sua Igreja. Não estamos, felizmente, no Brasil, onde um Presidente diz que Deus está acima de todos. Muito menos estarão os bispos. Foi como Presidente da República que Marcelo insultou o sofrimento das vítimas ao desvaloriza-lo com um tratamento estatístico (ainda por cima absurdo). E foi em nosso nome.

Mas mesmo como católico, Marcelo falha. Não dá o seu contributo para o esforço que a Igreja tem de fazer. Aquelas declarações são o inverso do que os membros da Comissão Independente disseram em conferência de imprensa. Como católico, e não era nessa qualidade que falava à comunicação social, Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se ao lado dos setores da Igreja que resistem ao que o Papa pede que seja feito, pondo-se numa posição defensiva quando, sendo parte da Igreja, deveria ser ainda mais exigente do que os que estão de fora.

Perante as reações indignadas e unânimes, Marcelo tentou desdizer o que tinha dito. Numa nota, os números que não eram particularmente elevados seriam afinal seguramente superiores. Para a RTP, o que nos punha melhor do que outros países afinal deveriam ser muito mais. E, por fim, para a SIC, reconhecia que tinha sido mal compreendido, mas não percebia porquê. Talvez porque o que disse depois foi o oposto do que disse antes ou, se não foi, o que disse antes não tinha pés nem cabeça, do ponto de vista lógico. Se só estava a dizer que imagina que havia muitos casos, mas houve poucas denúncias, a comparação com os outros países queria dizer exatamente o quê?

Marcelo Rebelo de Sousa percebeu que fez asneira? Ótimo. Só falta perceber que, sobre este tema, não tem feito outra coisa. E desajudado muito, com isso.»

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12.10.22

Marcelo pôs-se a jeito

 


@Vieira Resurrected no Facebook

Esta vai custar-lhe cara, pelo menos durante uns dias.

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4.10.22

A igreja é corrupta mas o papa é santo?

 

«Se o próprio Vaticano admite que o sancionou em relação com denúncias de abuso sexual, onde está o reconhecimento das vítimas? Onde está a sua compensação? Onde está - ao menos - um pedido de perdão? Por outro lado, se o Vaticano considera que Ximenes Belo não pode voltar a Timor nem contactar com menores, quem é que sabe disso? Como é que o podem garantir se é suposto ser segredo?

E alguém pode acreditar que um caso com esta gravidade e alto perfil - o de um clérigo Nobel da Paz -, não chegou aos ouvidos do atual papa? Como se justifica que tenha sido preciso um artigo jornalístico denunciar as acusações para que se fale delas? É essa a atenção e justiça que Francisco tem para oferecer às vítimas?»

Ler na íntegra AQUI.
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12.10.21

Antes de responder perante Deus, um padre abusador responde perante a lei. E a Igreja cúmplice também



 

«Mais de 200 mil menores que estiveram sob a responsabilidade da Igreja francesa foram, entre 1950 e 2020, abusados sexualmente por dois mil padres e outros membros da hierarquia católica. No total, incluindo abusos cometidos por membros do clero e por leigos, são 330 mil vítimas e 2900 a 3200 abusadores. Não estamos a falar de casos isolados, excecionais, mas de uma violação em massa de menores. De uma cultura instalada. Se não uma cultura de abuso, uma cultura de silêncio e cumplicidade. Como escreveram os autores do relatório da comissão independente que investigou, durante três anos, denúncias de maus-tratos e violações na Igreja Católica francesa, falamos de “uma indiferença profunda, total e até mesmo cruel” por parte da igreja francesa.

A minha primeira reação a estes números é a de qualquer português: o que tem a Igreja católica portuguesa de extraordinário para que não se conheçam casos por cá? Tomou as medidas necessárias para que tal não sucedesse ou as medidas necessárias para que tal continuasse escondido? Ou vivemos numa sociedade demasiado temerosa para fazer investigar, fazer perguntas e tirar os nossos bispos da paz podre em que ainda se mantêm, longe de todas as mudanças a que assistimos no mundo ocidental? Neste momento, o que tenho a fazer é um elogio à coragem que existe em França e falta por cá.

Há, do meu ponto de vista, razões profundas para que isto aconteça com tanta intensidade na Igreja Católica. A relação dos padres com a sua própria vida sexual, a repressão violenta desse instinto humano, ajudará a explicar alguns comportamentos desviantes. Para o saber, seria preciso que a própria Igreja estivesse disposta a abrir um debate interno sobre a castidade celibatária, os seus efeitos psicológicos e as suas justificações religiosas. Nem o Papa Francisco, um exemplo raro de coragem no Vaticano, está em condições de iniciar essa mudança.

Mas o essencial é mesmo a cultura de segredo e de casta, que faz a Igreja acreditar que se regula a si mesma independentemente das leis dos homens. Foi isto que alimentou a impunidade e o crime continuado. E é por causa dela que a culpa perante todas as vítimas não é apenas dos abusadores, mas de toda a instituição. Nenhuma organização é responsável pelos crimes dos que dela fazem parte, todas são responsáveis pela proteção que dão a criminosos, oferecendo-lhes a impunidade que serve de exemplo.

Não vou entrar no debate começado por esta comissão sobre uma revisão do segredo da confissão, que levou o presidente da Conferência Episcopal francesa, Eric de Moulins-Beaufort, a defender que o segredo da confissão “é mais forte do que as leis” e o porta-voz do governo, Gabriel Attal, a responder que “nada é mais forte que as leis da República”. Todo o debate sobre o sigilo é complexo, envolve outras atividades – médicos, advogados ou jornalistas – e não deve ser aligeirado ao sabor de cada indignação, por mais forte e justificada que ela seja.

Os limites da liberdade religiosa são, eles próprios difíceis – só quando envolvem religiões minoritárias costumam ser simplificados, porque a maioria não se sente afetada. Não é porque este debate não seja relevante que me furto por agora a ele. É porque estamos a pôr o carro à frente dos bois. O problema não foi o segredo da confissão, foi a sua utilização por parte da hierarquia para ter uma razão formal para fingir que não sabia o que sabia. As informações que tinha nunca impediram a Igreja de mudar um padre de paróquia, quando a coisa se tornava mais evidente. Nunca impediram que lhe chegassem queixas de fiéis e vítimas. Só a impediu de entregar os criminosos às autoridades. O segredo só existia para fora da Igreja. Para proteger a própria Igreja.

Não é que o segredo da confissão esteja em cima da lei, é a própria Igreja que se julga acima da lei. Acha que a sua lei substitui a lei do Estado. Que é ela que a aplica perante crimes comuns. Que o clero continua a ser uma casta à parte, em sociedades laicas. E que os fieis lhe pertencem. Um padre abusador pode responder perante Deus e perante a sua Igreja. Esse é um assunto da sua consciência da estrutura onde se integra. Mas, perante as vítimas e a sociedade, é à justiça do Estado que responde. Porque aqueles de quem abusaram não abdicaram (nem podem abdicar) dos direitos de cidadania no dia em que entraram numa Igreja.

A sociedade não tem de esperar por reformas da Igreja para que os abusadores que ela protege sejam punidos. E é por isso que, para além dos abusadores, todos os que sabem dos abusos e protegem os abusadores são cúmplices do crime. Como isto se coaduna com o segredo da confissão? Isso é uma questão que a própria Igreja terá de resolver. O que o segredo da confissão não pode ser é um alibi para uma proteção institucional, estrutural e sistemática de abusos em massa. Porque isso nada tem a ver com liberdade religiosa. A sincera vergonha do Papa Francisco não chega. É preciso que ela se transforme em redenção, através de uma mudança radical de cultura e procedimentos.»

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8.10.21

O inexplicável silêncio da Igreja portuguesa



 

«As ondas de choque causadas pelas denúncias de abusos sexuais de menores na Igreja Católica abalaram diversos países, mas essa vaga que gerou indignação e protesto e, ao mesmo tempo, estimulou a necessidade de justiça continua ausente de Portugal. Bem pode o Papa Francisco exigir transparência, denúncia e acção para que a Igreja seja capaz de espantar os seus fantasmas, assumir os seus pecados e seguir em frente; bem podem vários bispos reclamar mecanismos eficientes para escutar as vítimas, identificar criminosos, fazer justiça ou restaurar os valores dos evangelhos; bem podem políticos, jornais, magistrados ou crentes recordar que a verdade é virtuosa e a mentira um atentado moral: nada disto serve para que a Igreja portuguesa ou a vizinha espanhola, onde reina um conservadorismo corporativo ainda mais arreigado, se movam em busca da verdade e da justiça.

Agora que o mundo se espanta ainda mais com a dimensão dos abusos praticados pelos clérigos franceses nos últimos 70 anos, é previsível que os mais empenhados e progressistas bispos portugueses pressionem de novo a hierarquia católica a agir. De resto, a Igreja portuguesa só consegue agir sob pressão. E, mesmo assim, age com o ar de quem assobia para as árvores: as comissões diocesanas de protecção de menores não passaram de expedientes oficiosos para coligir o que se sabe e esquecer o que se desconhece. Em França, houve, pelo menos, 216 mil vítimas e, em países onde a Igreja assumiu com coragem a sua responsabilidade pelos abusos, o número de casos atingiu vários milhares, mas a Igreja portuguesa é um mar onde reina a inocência, onde querer procurar crimes é como dissertar sobre a queda de meteoritos (foi o bispo do Porto, Manuel Linda, quem o sugeriu), onde o medo de assumir a verdade instiga a hipocrisia de querer silenciar.

Numa comunidade de humanos enquadrada por uma hierarquia e regida por valores, é normal haver quem queira apenas esquecer o passado. Mas a prevalência desta opinião na Igreja Católica é errada, porque corrói um activo essencial da sua relação com os crentes: o exemplo. Sem um compromisso com a verdade, sem um esforço honesto para a encontrar, sem declarar vergonha pela incapacidade de a revelar, como diz o Papa Francisco, a Igreja degrada-se no seu próprio pântano. Acreditar que a mentira piedosa ou o esquecimento conveniente são geríveis na era da comunicação digital, é uma utopia. No interesse da sociedade, do país e no próprio interesse dos seus membros, a Igreja tem de assumir que tem um problema grave entre mãos. O silêncio, a tergiversação e a hipocrisia só servem para o agravar.»

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