Mostrar mensagens com a etiqueta populismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta populismo. Mostrar todas as mensagens

25.10.25

Autárquicas, social-democracia e populismo moderado

 


«As últimas eleições autárquicas podem resumir-se, de um modo algo simplista, da seguinte forma: o PSD ganhou, o PS perdeu, mas demonstrou que continua a ser claramente o segundo partido português com uma implantação no território incomparavelmente superior à do Chega, o Chega cresce, ainda que mais devagar do que nas eleições legislativas, o Livre, o BE e o PCP ficaram numa situação difícil, embora com diferenças entre si.

Isto significa que, no cômputo geral, as eleições autárquicas confirmaram o ciclo de crescimento da direita e da extrema-direita. Refira-se que esta última ganha força não apenas pelas (meras) três Câmaras Municipais que vence e pelo aumento do número de vereadores, mas também (e talvez sobretudo) porque muitos candidatos da direita dita tradicional (e não só) assumiram a agenda e os temas da extrema-direita. É por isso que a imigração, a segurança, a “subsidiodependência” e outros temas caros ao populismo estiveram tão presentes nas várias campanhas, muitas vezes substituindo os assuntos com ¬maior relevância local, como a habitação, a mobilidade, o urbanismo, os espaços verdes, a qualidade de vida.

Atualmente, a direita considera-se sempre moderada e o centro-esquerda é sempre apelidado de radical. Neste contexto, que se repete em quase toda a Europa, há uma tentação inevitável dentro dos partidos socialistas para assumir posições populistas, numa espécie de “populismo moderado” que é incompatível com a social-democracia. Mas esta opção revelar-se-á, a prazo, contraproducente.

Primeiro, no plano axiológico, porque os partidos de centro-esquerda devem manter-se fiéis aos princípios e valores que constituem a sua matriz para evitar um retrocesso social que põe em causa a democracia e os valores que constituem o nosso “chão comum” — igualdade, incluindo entre homens e mulheres, não discriminação, liberdade, solidariedade e respeito pelos direitos civis, políticos e sociais de todos.

Segundo, do ponto de vista estratégico, porque a sobrevivência destes partidos depende da fidelidade a essa mesma matriz, uma vez que só assim marcam a diferença e ocupam o seu espaço na sociedade. A indistinção face aos partidos populistas acabará, inelutavelmente, por beneficiar estes últimos (“entre o original e a cópia…”).

Quer isso dizer que os partidos sociais-democratas não se devem tentar adaptar a este novo ciclo e aos temas que interessam às pessoas (seja esse interesse espontâneo, seja induzido)? Claro que não. Mas fazê-lo implica não ceder à agenda imposta — como ainda agora o PSD cedeu no caso das burcas — e assumir a dianteira nos assuntos que preocupam as pessoas: rendimentos, direitos laborais, direitos sociais, qualidade e universalidade dos serviços públicos (a extrema-direita cresce onde os serviços públicos são piores).

Os partidos sociais-democratas têm de se opor à estigmatização dos sectores da população que estão ressentidos e desenvolver políticas públicas que encontrem soluções para os problemas das pessoas, tanto a nível local como nacional.»


27.9.25

Ao que nós chegámos

 


«Nestas eleições, como em geral em toda a actividade política, não há qualquer movimento ascendente em política que não seja o populismo dominado pela questão central do combate à imigração. A sua expressão política é o Chega, que domina toda a vida política, o discurso político, a agenda mediática, os debates, e as campanhas eleitorais em grande parte do país. Apesar de ser um partido bastante minoritário — teve menos de um quarto dos votos nas eleições legislativas de 2025, o que nem sempre é lembrado —, tudo o que “mexe” em Portugal acontece à volta do Chega.

Esta situação é uma enorme vitória política, que contrasta com a estagnação e a cedência aos temas do Chega por parte do PSD, com o bloqueio do crescimento da Iniciativa Liberal, com a crise profunda de identidade do PS que gera a paralisia do partido, e com a decadência acentuada do PCP e do Bloco — com a única excepção à esquerda de algum crescimento do Livre. É um panorama que, no seu conjunto, aponta para uma grave crise do sistema partidário pós-25 de Abril, crise que é estrutural e não conjuntural. Sendo assim, tudo está a mudar, sem ser no sentido de reforçar a democracia, nem a governação, nem o centro “moderado”, com um desequilíbrio no par direita-esquerda, claramente a favor da direita, criando um caos e uma errância cujos únicos efeitos previsíveis são a crise institucional e política da democracia. Este processo não é apenas português, é europeu e mundial.

Se não se partir daqui, desta análise fria e cruel, com elementos de catástrofe, não se parte da realidade, e essa é a primeira resposta aos que dizem que não basta análise, são precisas respostas. A primeira resposta é mesmo reconhecer que se está muito mal e que, tendo em conta a Lei de Murphy, vai ser tudo muito pior.

A segunda, é perceber como se chegou aqui, com um modelo de economia que favoreceu os de cima, cada vez mais ricos, deixou ficar a meio do elevador social todos os que estavam a sair da pobreza, fez descer uma parte da pequena e média burguesia e colocou numa redoma os mais pobres, deixando que dentro dessa redoma a inveja e o ressentimento social crescessem, com pobres a combaterem pobres. O combate por uma economia que incorpore um forte elemento de justiça social não é comunismo, é a doutrina social da Igreja.

Terceira, a evolução da economia capitalista associou-se a uma ecologia comunicacional que premeia a ignorância agressiva, a solidão, a desagregação de todas as relações que não passem pelas redes sociais, sem contacto humano, a não ser a competição por likes, e por frases assassinas, e insultos, e memes imbecis. Ao mesmo tempo, o deslumbramento tecnológico destruiu muito da função da escola, e diminuiu drasticamente o papel das mediações sociais, culturais, associativas, políticas e, no limite, familiares e religiosas.

A quarta resposta é o combate, sem transigência, pela democracia, combate esse que existe muito menos do que se possa pensar. Há mais moleza do que combate, e esse combate assume duas dimensões. Uma é contra as manifestações políticas do populismo, que conta nesse plano com um sistema de mentiras canalizado pelas redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais. Respondam, respondam a tudo, em todo o lado. Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam.

O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio. Outro é o exemplo do vitelo que combateu a fanfarronice toureira e nem sequer deu a Núncio, do CDS, o privilégio de lhe tocar o dorso. Isaltino e o vitelo viraram o feitiço contra o feiticeiro.

Outra resposta é mostrar a enorme contradição entre a brutalidade populista e os ensinamentos e a actuação das igrejas cristãs, que ainda são uma referência para milhões de portugueses. Denunciar a hipocrisia diante do altar, ou do padre, ou do pastor, e a falta de sentimentos cristãos face aos mais desprotegidos é eficaz, porque torna ridículo o bater no peito e o ajoelhar em pose.

Outra resposta é o combate intransigente pelos direitos humanos, cívicos, laborais dos imigrantes. Valorizando uma das coisas que este populismo de extrema-direita quer combater, o alvo de gente como Elon Musk: a empatia. E de novo a hipocrisia. Os militantes do Chega mandam vir comida pelos estafetas ou não? Não deviam, pois não? Porque isso é ajudar a imigração ilegal. Eles usam-nos nas estufas em condições de calor extremo? Não deviam, pois não? Deviam apenas contratar portugueses. E isso implica uma dura pressão sobre os governantes, cujas “autoridades” deviam multar a sério quem despreza as “condições de trabalho”, e quem viola a lei para ganhar dinheiro com os párias da imigração.

Há mais para os próximos artigos, o papel da nossa história, o patriotismo, e no fim e no princípio de tudo, a coragem. Estou mesmo a ver quem vai dizer, “mas isso é pouco, isso não é nada, isso não vai travar o Chega”. Não sei. O que sei é que não fazer nada não trava coisa nenhuma.»


20.6.25

Fim dos brandos costumes

 

«Como povo, não estávamos imunes. Apenas dormentes, silenciosos e no armário, prestes a entrar no jogo de ajustes que os recalcamentos convocam já tarde, depois das horas macias em que fermentou o ódio que julgávamos impossível. A estupidez venceu, para já, o confronto. Perante a desinformação, o populismo fez o seu trabalho para cultivar o medo e o ressentimento e, nos últimos anos, Portugal tem escrito páginas inteiras sobre azedume e vinagre, depois de décadas em que se silenciou pela falta de boleia prestada aos pequenos demagogos.

Culpar o povo quando as elites não fizeram o seu trabalho, desprezando boa parte dos anseios de reconhecimento das pessoas nos seus representantes, baixando a expectativa ao ponto de ser indiferente a mentira ou a verosimilhança, é absurdo. As redes sociais ajudaram a criar o pântano, sobretudo a partir do momento em que o poder de quem as detém está ao serviço dos piores escroques. Mas factos são factos e os episódios sucedem-se, agora que não são só os muitos heróis virtuais do teclado a odiar do sofá e o sentimento de impunidade cresce nas ruas.»

Continuar a ler AQUI.

24.5.25

A desesperança, a solidão e a ignorância que alimentam o Chega

 


«Há muito tempo que falo do papel do ressentimento na vida política actual, sem grande sucesso. Agora parece que as coisas estão a mudar. Não era uma categoria muito referida, em particular quando coloco o ressentimento como tendo substituído a “luta de classes” ou, se se quiser, o conflito social. Parece que agora mesmo Ventura usa essa classificação para se referir aos seus resultados eleitorais.
 
O ressentimento é uma atitude vista como negativa, em particular quando falamos das suas manifestações individuais. Mas o ressentimento é também uma atitude social, presente em todos os movimentos de protesto, à esquerda e à direita, e traduz a sensação de perda, de desesperança, de impotência, de que ninguém nos ouve, de revolta perante casos reais ou imaginários de malfeitorias dos “outros”, começando no vizinho e acabando no Presidente, ou de exclusão e desigualdade e injustiça. É um poderoso sentimento que no passado sempre existiu, mas que encontrava expressão na luta social, em manifestações, protestos, sindicatos, grupos e partidos que funcionavam como mediadores e, nesse sentido, se integravam nos mecanismos de funcionamento das democracias.

O mapa eleitoral do Chega é muito parecido em várias partes do país com o do PCP, e há uma coisa em comum que facilita esta semelhança. Trata-se de zonas onde antes o ressentimento dava votos ao PCP, e agora a mesma raiva face à vida dá votos ao Chega.

A maioria das pessoas não tem a vida que desejaria ter. A esperança torna-se rapidamente desesperança. Não é de agora, pode-se quase dizer que é de sempre, mas agora há vários mecanismos de massa que dão densidade a essa desesperança e que facilitam que ela tenha uma expressão política no populismo. O predomínio do Pathos, face ao Logos e ao Ethos, cria um mundo impregnado de emoção, muitas vezes superficial, mas muito eficaz face ao fracasso do ensino, em permitir um vocabulário que não seja gutural, e a uma ignorância cada vez mais institucionalizada numa forma agressiva. Eu não li esse livro, nem vi esse filme, mas li um post que fala dele e, por isso, posso também dar a minha opinião, que tem o mesmo valor da desses “intelectuais” da “bolha”, ou de gente que passou a vida toda a estudar esse assunto.
 
Todo o mundo televisivo transformado em reality shows e a imprensa tablóide desaguam nas chamadas redes sociais, que são um grande polarizador deste sentimento de esperanças traídas, de uma forma que as radicaliza e as torna um espelho de antagonismos.

É um dos mecanismos que maior erosão traz às democracias porque é interior, não vem do confronto entre a tirania e a democracia, dissolve os mecanismos de intermediação e representação, cria um pseudo-igualitarismo e permite que se veja, se leia, se entenda apenas aquilo que funciona como um espelho das nossas opiniões e sensações. É um muito eficaz mecanismo de polarização e radicalização, gera o confronto entre “nós” e “eles” e dá à companheira da desesperança, a solidão, uma impressão de força.

Este é o terreno ideal para a manipulação das massas. Todos os serviços de informação dos regimes totalitários sabem isso, sabem como manipular as pessoas, sabem como condicionar eleições, como atacar um político ou um partido e promover outro. Há também empresas que o sabem fazer e fazem-no para os seus clientes, para acabar com o restaurante que compete com o “meu”, para arrasar um hotel, para colocar na moda um produto ou tirar da moda outro. Esta densificação da desesperança, da solidão diante de um ecrã, da falsa sensação de companhia e de que, como escrevo no Facebook ou no X, ou faço um meme numa rede social, a minha voz passou a ter um valor que eu não tenho ao meu lado, no emprego, no namoro, no café. E é fácil encontrar no “outro” a culpa do meu insucesso.

Esta densificação do ressentimento acaba por ser um processo que acompanha vários movimentos de democratização, traduzidos no consumo de massas, no acesso ao ensino, numa vida de facto melhor do ponto de vista material, tudo factores muito positivos que tiveram o papel de aumentar as expectativas e as exigências. Mas os efeitos perversos desses processos criaram sociedades com novas formas de solidão, um individualismo triste, um psicologismo “mental”, acompanhado de uma incapacidade de acção colectiva, e mais ignorante. A ignorância das “gerações mais bem preparadas” é também nova face à antiga ignorância, que sabia que precisava de saber mais. A de hoje acha que meia dúzia de memes chega para conhecer tudo, opinar sobre tudo e que não é preciso ler livros.

Orwell, no 1984, sabia como isto funcionava e dependia da cultura no sentido lato, e mostrava como o Big Brother reduzia todos os anos o número de palavras circulantes, porque quem não tem capacidade expressiva não fala bem e é incapaz de traduzir raciocínios complexos, vive imerso num psicologismo superficial e é mais fácil de mandar.

Desesperança, solidão e ignorância são a chave.

(Para outra altura fica a análise de como a esquerda não percebeu nada do que se estava a passar, e se deixou distrair pelas chamadas “causas fracturantes”, numa guerra cultural que perdeu e alimentou o adversário, num elitismo radical chic em que abandonou os “seus”.)»

8.2.25

O ar tóxico que excita o populismo

 


«Esta semana foi exemplar quanto à toxicidade do ambiente político, em que pessoas individuais, grupos, partidos e instituições, como o Ministério Público, todos actuaram contra a democracia, todos ajudaram a corroer os fundamentos da vida em liberdade, em representatividade, e no primado da lei e dos bons costumes sociais e políticos. Não é que tudo o que se passou seja da mesma natureza e gravidade, mas tudo conflui no mesmo resultado de acentuar a crise da democracia, o bem político mais precioso nos nossos dias.

Os casos do Chega, o homem da mala e o Pró-Toiros que frequentava sexualmente meninos menores, são graves, mas são conjunturais. O único aspecto estrutural tem a ver com a falta de escrutínio dos candidatos e, depois, com a indiferença perante as suas idiossincrasias e comportamentos, que é impossível serem desconhecidos de quem os propõe e os escolhe. Isto não é específico do Chega, só que o dano destes casos é sempre maior, pela retórica moralista. Nesse sentido, o caso do Bloco de Esquerda tem os mesmos efeitos. Bloco de Esquerda e Chega sofrem do mesmo modo.

O caso Tutti-Frutti é bastante diferente, não é conjuntural, mas estrutural em dois aspectos muito perigosos para a democracia: a degradação interior dos partidos de poder e o papel do Ministério Público. Nenhum me surpreende particularmente, porque conheço bem como os partidos funcionam por dentro, e se vou dar exemplos do PSD, isso não significa que no PS não seja exactamente na mesma. Insisto, exactamente na mesma, como se verifica no homem que sendo técnico de um município fazia marquises para o concelho do lado, e o mesmo homem cujo CV na Assembleia da República é o único que não existe no original mas em fotocópia e o único rasurado. Fora o resto.

No caso do Tutti-Frutti nada me surpreende, visto que na minha experiência política mais falhada, a de presidente da Distrital de Lisboa do PSD, foi também aquela em que mais aprendi sobre como funcionava a “coisa”. Desde casos caricatos de uma vez abrir a porta de uma sala onde decorria uma reunião da distrital e cair um “jota” na sala visto que estava a ouvir colado à porta, até casos mais graves, como falsificações de delegações de voto para uma assembleia. Uma militante que trabalhava com a distrital resolveu um dia confirmar as delegações de voto e receber como resposta de uma mãe “mas o meu filho já está há mais de um ano na Austrália”… Ou a um autarca que era empreiteiro num concelho e que, após uma proposta que fiz e foi aprovada com dificuldade, de que não podiam fazer parte das listas pessoas com interesses profissionais na construção, urbanismo ou imobiliário, deixou de pagar quotas, de um valor superior ao habitual. Ou uma reunião com os financiadores da distrital, que resolvi fazer numa sala de hotel que tinha fama de ser universalmente escutada, desde serviços estrangeiros à PJ, e perceber que a sua principal preocupação, a que correspondia abrirem a bolsa (na altura isso era legal) era afastar alguns autarcas, mais do que financiar outros.

Na verdade, quando se colocaram regras dizendo que o financiamento devia ser para todos os candidatos, com o objectivo de apoiar os de concelhos com menos recursos, disseram que não e na semana seguinte estavam a encontrar-se com candidato a candidato para canalizarem os financiamentos para os concelhos que lhes interessavam, Sintra, Amadora, etc. Ou os que criticavam severamente o “desperdício” de dinheiro quando, pela primeira vez na história partidária, a distrital decidiu apresentar contas revistas por um revisor oficial de contas.

E há muitos mais casos com dois aspectos em comum: o de todos eles, apesar de serem públicas as suas malfeitorias, terem continuado a ter carreira no PSD, a ascenderem nas estruturas até aos dias de hoje; e o de que a comunicação social preferia os incidentes e era indiferente às tentativas de moralização.

Por fim, há o papel miserável, esta é a melhor palavra, do Ministério Público que demorou nove anos a decidir quem ia a tribunal e quem era inocentado das próprias suspeitas dos procuradores, com a agravante de fazerem uma pura vingança nos seus textos sobre Fernando Medina, sabendo que o atingido não tem nenhum meio para se defender das calúnias do Ministério Público. Se isto não é abuso de poder, como retaliação por um mau perder, sou venusiano, especialista em atmosferas tóxicas.»


31.3.24

A ação e o programa

 


«Os populismos de direita são, por definição, anti-intelectuais: tanto Trump como Bolsonaro se orgulham de não ler livros e desprezam toda a produção académica, que identificam como sede principal do feminismo, das políticas identitárias, do igualitarismo e do wokismo.

A extrema-direita, pelo contrário, tornou-se marcadamente teórica, tendo alguns dos seus ideólogos escrito obras que sintetizam os seus pontos de vista, recorrendo estilisticamente à forma académica. Durante os últimos 40 anos — nos quais os valores progressistas foram dominantes no Ocidente — a extrema-direita teve de se limitar a ter ideias, já que a ação era inviável. Os seus intelectuais, com tempo e demora, dedicaram-se a identificar as raízes profundas do mal-estar e a lançar uma série de eixos teóricos em torno dos quais agir.

Joakim Andersen, autor sueco, militante da extrema-direita, publicou em 2017 Ressurgir das Ruínas: A Direita do Século XXI, em si mesmo um título sugestivo, em que clarifica a relação da extrema-direita com o populismo: "Vivemos anos agitados, marcados por vitórias populistas e derrotas globalistas. Esta tendência deverá manter-se nos próximos anos. A direita populista e nacionalista — a verdadeira direita — continuará a obter vitórias políticas e os globalistas liberais sofrerão novas derrotas nos próximos anos. É evidente que entrámos num novo paradigma".

Evidente é, também, que os populismos são o braço armado do quadro teórico da direita radical. Andersen incita à luta: “Em termos de metapolítica, teremos de continuar a esmagar os últimos vestígios do politicamente correto e continuar a construir as nossas próprias plataformas de notícias, debate, política e socialização. Vamos intensificar os nossos esforços e tornar-nos ainda mais profissionais." É importante ler estes autores porque permite dar nome ao que os partidos populistas estão realmente a fazer: a sabotagem à democracia é atividade metapolítica; e ao desejo de participar no sistema que condenam chamam-lhe profissionalização.

Entretanto, transversal a todo o livro está a ideia da desvirilização: "Os homens europeus não estão propriamente a tornar-se cada vez mais masculinos, mas, pelo contrário, estão a ser sucessivamente despojados das qualidades necessárias para proteger as suas sociedades, as suas mulheres e os seus filhos". Para o autor, a cultura ocidental está esfrangalhada, basta ligar a rádio para “ouvir vozes de rapazes efeminados e gritos de mulheres passivo-agressivas”. Mas, não vá o leitor despistar-se, o autor esclarece que “em caso algum a noção de ‘virilidade’ deve ser confundida com ‘machismo’ ou com a estúpida ideia de ‘privilégio social masculino’. A virilidade de um povo é uma condição para a sua manutenção na história. (...) Na luta pela sobrevivência, o sentimento de se ser superior e de ter razão é indispensável para agir e ter sucesso”. Credo, que antigo.

Guillaume Faye, teórico político francês e membro destacado da Nova Direita francesa, publica em 2011 Por que Lutamos: Manifesto da Resistência Europeia, em que resume bem a questão central: "Os europeus foram poderosos enquanto se mantiveram ingenuamente etnocêntricos. Quando começaram a interrogar-se sobre 'o valor do Outro', o declínio instalou-se." (...) Lembrem-se que os nossos adversários já perderam. Só ainda não pararam de respirar." A ver vamos.

Seja como for, o futuro próximo não vai ser bonito. Teremos de agir com a mesma determinação unida que derrotou a onda fascista que emergiu nos anos 30. Uma nova Frente Popular, que una todas as forças que valorizam o Outro.»

.

8.2.24

De que se alimentam os populismos?

 


«Os populismos alimentam-se, entre outras coisas, da extrema desigualdade e do crescente sentimento de privação relativa, mesmo em países onde as remunerações são mais elevadas do que em Portugal.

O trabalho recente de Pedro Magalhães, “Bases sociais das intenções de voto em 2023”, mostra que a probabilidade de intenção de voto em partidos antissistema é mais elevada entre os jovens, os homens e os eleitores com níveis de qualificação média ou superior. Trata-se, aparentemente, de um segmento da população que, tendo beneficiado de recursos educacionais, cuidados de saúde e acesso a bens culturais, tem expectativas de mobilidade social e económica cuja possibilidade de concretização não vislumbra. São segmentos que alimentam sentimentos de frustração e de privação relativa. Comparam a sua situação com a das elites e não encontram caminho ou lugar, nem propostas políticas de esperança.

Falta muitas vezes às elites sensibilidade e compreensão destes sentimentos, manifesta em declarações públicas com impacto. Como, em tempos da austeridade, as de Fernando Ulrich, “Ai aguentam, aguentam!”, e de Luís Montenegro: “A vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”. Ou, recentemente, em tempos de inflação e juros altos, a tirada do governador do Banco de Portugal: “Nós exageramos muito as dificuldades em que nos encontramos hoje. Emprego, salários e consumo nunca foram tão altos como agora”.

Vivemos hoje melhor do que no passado. Quando se compara o país atual com o de há 50 anos, o progresso é extraordinário. Porém, a memória disso vai ficando com os mais velhos, mas mais rarefeita, e diz pouco aos jovens que já nasceram em liberdade. Estes comparam-se mais com os de outros países, hoje, e menos com os do Portugal do passado. Aspiram, por isso, a mais oportunidades, a percursos de mobilidade social. Muito se tem escrito sobre a avaria do elevador social movido pelo aumento dos níveis educacionais. Mas a avaria, se existe, só pode ser reparada com políticas de desenvolvimento económico e de diminuição da desigualdade.

Os líderes populistas continuarão a explorar a frustração social. Incendeiam-na. Arregimentam protestos e insatisfações e instigam o ódio às elites e aos que definem como outros. Cultivam uma irreverência mal-educada, colocam em causa os direitos das mulheres, a proteção social dos mais desfavorecidos, a igualdade social. Desvalorizam os aspetos positivos da vida e generalizam a partir de casos selecionados, pintando um quadro de caos, de “bandalheira”, de corrupção. E, perante tudo isto, propõem soluções na aparência simples, independentemente da sua bondade ou possibilidade de concretização.»

.

24.11.23

Uma distopia argentina

 


«Esta semana circulou nas redes sociais uma imagem da inesquecível “Mafalda”, a personagem de banda desenhada criada por Quino, uma menina contestatária com um profundo sentido de justiça, de ombros caídos, derrotada, a chorar. Vem isto a propósito da vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais argentinas do passado dia 19 de novembro. Apesar de Sergio Massa, um “peronista de esquerda” ter vencido na primeira volta, Milei ganhou a segunda volta com 55% dos votos, beneficiando do apoio da candidata de direita, Patricia Bullrich.

O resultado não surpreende totalmente, uma vez que a Argentina está em recessão há vários anos, tem uma inflação de 143% ao ano, 40% da população na pobreza e as taxas de juro estão em 133% ao ano. E Massa era o ministro da Economia do Governo anterior...

Ainda assim, tem de merecer profunda reflexão e preocupação a escolha democrática pelo povo argentino de um candidato ultrapopulista, ultraliberal, anarcocapitalista, com discurso e comportamento delirantes. Milei afirma falar com Deus, apresentou-se em público com uma motosserra para “exterminar a casta política” e comporta-se sistematicamente de forma totalitária e errática.

Como já antes escrevi nestas páginas, a propósito do crescimento dos fenómenos populistas de extrema-direita, pessoas desesperadas procuram soluções radicais. Quando as pessoas se sentem deixadas para trás pelo poder político e pela sociedade, tendem a aderir a discursos simplistas e a medidas drásticas, por vezes até absurdas. Foi isto que aconteceu na Argentina.

Milei promete privatizar todos os serviços públicos, incluindo a saúde, a educação e a segurança social (imagine-se o que isso vai significar para os 40% de pobres!), bem como os recursos naturais; nega as alterações climáticas (que considera uma “agenda do marxismo cultural”); defende a “dolarização” e a extinção do Banco Central da Argentina. Promete uma profunda reforma da Administração Pública, que passará, desde logo, pela extinção dos ministérios da Saúde, da Educação, da Segurança Social e do Ambiente — que serão inúteis na sociedade ultraliberal, capitalista e desigualitária que preconiza.

No plano dos direitos e das liberdades, Milei quer proibir a interrupção voluntária da gravidez, permitir a venda de órgãos humanos entre pessoas vivas e liberalizar o porte de arma. Os direitos das mulheres e das minorias serão restringidos, assim como os direitos sociais. E já disse que não hesitará em chamar as forças armadas para reprimir protestos.

O seu discurso põe em causa o consenso existente na sociedade argentina sobre os genocídios cometidos na ditadura, patente no facto de pretender rever o pagamento de indemnizações às vítimas da ditadura militar de 1976-82.

Apesar de todo este cenário de pesadelo, após a eleição de Milei as empresas argentinas subiram em bolsa — o que demonstra bem como o capitalismo funciona.

As consequências internas e externas deste resultado eleitoral são imprevisíveis. Existe hoje na Argentina o risco efetivo de uma deriva totalitária num país que é uma democracia apenas há 40 anos depois de uma ditadura militar sanguinária. Mas o povo desesperado parece preferir este risco à ausência de resposta aos seus problemas por parte do poder político democrático. Foi o que aconteceu na Alemanha na República de Weimar e conduziu à ascensão dos nazis ao poder...»

.

28.5.23

Populismo é... Cinco cromos

 


«Podíamos fazer uma colecção de cromos cujo título na capa da caderneta fosse “Populismo é...”. Se os políticos parecem baralhados sobre o que é o populismo, imaginem os nossos filhos.

Aqui vai uma modesta contribuição.

1. Populismo é dizer que os imigrantes entram em Portugal “de qualquer maneira” para usar “os nossos bens públicos”, como ouvi há dias no Parlamento.

Há 660 mil estrangeiros legais em Portugal que contribuem para o sistema da Segurança Social (SS).

Esta semana, foi revelado que a SS tem um excedente de 4000 milhões de euros, o maior em mais de uma década. Das receitas da SS, 13% são pagas por trabalhadores estrangeiros.

Em 2021, os trabalhadores estrangeiros contribuíram com 1200 milhões de euros para a SS, na altura um recorde.

Em 2022, os trabalhadores estrangeiros contribuíram com 1500 milhões de euros para a SS, um novo recorde — mais 19%.

O Observatório das Migrações já mostrou que os imigrantes dão muito mais do que aquilo que recebem do Estado português.

Estas contribuições são pagas por muitos dos 95.122 cidadãos dos Países de Língua Oficial Portuguesa que trabalham em Portugal (eram 100.928 em 2010) e os 21.015 nepaleses (eram 797 em 2010) e os 9916 bangladeshianos (eram 1007 em 2010) e os 6381 paquistaneses (eram 2604 em 2010).

Mas também pelos 16.981 espanhóis (eram 8918 em 2010) e os 28.629 ucranianos (eram 49.505 em 2010) e os 46.239 britânicos (eram 17.202 em 2010).

Sim, há ilegais, há tráfico humano e há até — imagine-se — um esquema de venda de cartas de condução falsas a motoristas estrangeiros de TVDE, como ainda ontem ouvi no Parlamento. Mas são a excepção.

Desde 2015, o peso das contribuições dos trabalhadores estrangeiros no sistema português aumentou de 3% para 13% — são mais 400 mil trabalhadores a contribuir em oito anos.

Entre o que os estrangeiros pagaram ao Estado e o que receberam do Estado, o saldo foi de 968 milhões de euros — 968 milhões de lucro para o país. Não é menos, é mais.

Legenda para pôr na caderneta dos cromos: os imigrantes estrangeiros usam “os nossos bens públicos”, é verdade, mas pagam por eles e dão lucro a Portugal. Pagam mais ao Estado do que ganham em benefícios do Estado.

2. Populismo é dizer que os portugueses emigram para “fugir do socialismo”.

Se fosse verdade, o que dizer dos milhares de cidadãos que decidem mudar-se para cá e deixam os seus países governados por partidos de direita?

Exemplos de doidos varridos que escolheram um “país socialista” vindos de paraísos governados por políticos conservadores:

— 946 húngaros (eram 428 em 2010);

— 3061 polacos (eram 1195 em 2010);

— 10.392 holandeses (eram 4725);

— 1372 austríacos (eram 494);

— 16.041 alemães (eram 8967);

— 28.159 italianos (eram 5067);

— 46.239 britânicos (eram 17.202).

Ah, são reformados que vêm gozar o nosso sol, tranquilidade e preços baixos.

Mas todos?

Claro que não. Há 50 mil estrangeiros reformados em Portugal e os três grandes grupos são os britânicos (11.610), os brasileiros (5600) e os franceses (2969).

Ah, são os que compraram um “visto dourado” — já agora uma política que é zero socialista. Alguns, sim, mas a minoria. Os “vistos gold” foram sobretudo atribuídos a pessoas que vieram de países comunistas como a China (5281), países capitalistas como os EUA (579) e países que tiveram governos consecutivos dos extremos opostos como o Brasil (1187).

Além disso, há duas décadas que os portugueses saem para trabalhar no estrangeiro em fluxos mais ou menos estáveis, sobretudo para os países mais ricos do que nós e que estão “à mão”, como a Suíça, o Reino Unido, a Espanha e a Alemanha. Em 2021, terão emigrado 60 mil portugueses, menos 20 mil do que em 2019.

Legenda para pôr na caderneta dos cromos: de entre os portugueses que emigram, há com certeza muitos que detestam o Partido Socialista. Mas à excepção dos anos da troika, em que emigraram mais, nos anos em que o PSD esteve no governo os portugueses emigraram mais ou menos em números iguais. Estavam a fugir do PSD?

3. Populismo é dizer que os imigrantes “roubam os nossos postos de trabalho”.

Mais de 50% dos estrangeiros que trabalham em Portugal fazem trabalhos pouco qualificados (por oposição a 38% dos portugueses), trabalhos que muitos portugueses, mesmo estando desempregados, não querem ou não conseguem fazer.

Não sou eu que o digo, é o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Dos 295 mil desempregados que temos hoje, 27% são “trabalhadores não qualificados”, 20% são “trabalhadores dos serviços pessoais, de protecção e vendedores” e 12% são “pessoal administrativo”, ou seja, 60% dos desempregados.

Além disso, o desemprego recuou: os 295 mil de Abril são menos do que em Março e menos do que em Abril do ano passado. Não são mais desempregados, são menos. Mesmo com os imigrantes a aumentar de ano para ano.

4. Populismo é dizer que mais imigração faz aumentar o crime.

Basta ver as estatísticas do crime e o número de estrangeiros presos em Portugal para ver que isso é falso.

— Em 2021, tínhamos o número recorde de estrangeiros a viver em Portugal, os tais 660 mil.

— Em 2013, havia 2600 reclusos estrangeiros em Portugal e em 2021 havia 1600. Não é mais, é menos.

— Em 2013, houve 20.147 “crimes violentos e graves” e em 2022 houve 13.281. Não é mais, é menos.

Vi notícias que diziam que o crime violento e grave aumentou 14% em 2022. Mas isso é daquelas coisas que são verdade e mentira ao mesmo tempo. É verdade, porque quando se compara com 2021. Mas em 2021 tinha diminuído 14%, porque estávamos ainda muito fechados em casa por causa da pandemia. Se compararmos com 2019, o ano pré-pandemia, vemos que a criminalidade geral aumentou — 2,5% — e que a criminalidade violenta diminui 8%. Não é mais, é menos.

5. Populismo é dizer que é preciso debater “o problema da segurança” no Parlamento, quando Portugal é um dos países mais seguros do mundo — é o sexto no ranking mundial, a seguir à Islândia, Nova Zelândia, Irlanda, Dinamarca e Áustria. O Brasil está na posição 130.ª.

As legendas omissas são todas tão óbvias que nem vale a pena fazê-las.»

.

2.5.23

Hipocrisia ou a beleza de alimentar fascistas (*)

 


«É impossível evitar o nascimento de populistas. São tão antigos como as sociedades políticas. Em todas as comunidades há sempre um stock suficiente de oportunistas amorais prontos a defender tudo e o seu contrário. Em todas as sociedades há sempre candidatos a governantes, sem quaisquer escrúpulos, disponíveis para explorar o medo, o ressentimento, a frustração. Em todas as sociedades há sempre quem acredite que a luta política se pode e deve fazer sem regras, sem urbanidade, sem decoro e sobretudo dispensando, de forma ignara, pensamento ou ideias.

Como os últimos tempos têm provado, é também muito difícil encontrar uma fórmula eficaz para lidar com populistas. Não há, infelizmente, receitas perfeitas. Ignorá-los não é uma opção realista. Da mesma maneira que o presidente da Assembleia da República não podia fingir não ver a deplorável figura que a bancada do Chega entendeu fazer na receção a Lula da Silva, é evidentemente pouco sério sugerir que caberia à comunicação social higienizar a cobertura dos incidentes. O problema é que, não sendo o simples assobiar para o lado uma opção realista, a estratégia da confrontação permanente ou de tratamento condescendente e paternalista (de que também muito gosta o presidente da Assembleia da República) não parece ser mais eficaz. Não há nada de que um populista mais goste do que um bom confronto (se possível, em registo histriónico) ou de uma oportunidade para vitimização. George Bernard Shaw já tinha, aliás, chegado a essa conclusão quando, lapidar, declarou: “Nunca lutes com um porco; ficas todo sujo e ainda por cima o porco gosta.”

Mas se é impossível evitar o aparecimento de populistas, se é muito difícil lidar com populistas, é relativamente simples cortar-lhes a ração.

Ora, de que se alimenta um populista? Convenhamos que é possível, com razoável facilidade, enumerar alguns ingredientes principais. O primeiro, e porventura o mais importante para a sua dieta, é um país sem esperança. Um cidadão sem real possibilidade para singrar e subir na vida, amputado de futuro para si próprio e, mais angustiante, para os seus descendentes, e, portanto, com muito pouco a perder, está obviamente mais disponível para embarcar num aventureirismo sem rumo nem destino do que um eleitor de uma sociedade capaz de gerar crescimento e oportunidades. Infelizmente, somos hoje, com o nosso crescimento anémico, com a dívida que hipoteca o futuro dos nossos filhos, com os nossos bloqueios institucionais e económicos, com a decadência acelerada do nosso Estado, com uma parte crescente dos nossos compatriotas obrigados a sobreviver de apoios sociais, um prado fértil de desesperança. E é de desesperança que, antes de qualquer outra coisa, se alimentam populistas.

O segundo ingrediente é a degradação do exercício do poder. Os populistas, sempre disponíveis para vincar o fosso entre o “nós” e o “eles”, implacáveis e particularmente eficazes quando se trata de disparar contra as “elites”, ganham evidentemente vigor e pujança quando estas lhes servem, de mão beijada, motivos eloquentes para que defendam a ideia de que estão todas, completa e irremediavelmente, corrompidas. Ora, o cortejo de profundas indignidades no exercício do poder a que temos assistido em Portugal desde que tomou posse o novo Governo de maioria absoluta é, também ele, evidentemente, um pasto irresistível para populistas.

Falta falar do ingrediente mais pérfido: a deliberada instrumentalização dos populistas para, da sua existência e ação, tirar dividendos na luta política. Como já aqui escrevi, como ficou claro nas últimas eleições legislativas, como desde então se tem tornado progressivamente evidente, como já não se dá ao trabalho de esconder, o PS sabe exatamente o que faz e que objetivos prossegue ao comprar toda e qualquer disputa, ao rasgar as vestes a propósito de todo e qualquer incidente, ao usar e abusar de um paternalismo militante e de uma retórica beligerante, em suma, ao amplificar, deliberadamente, a voz dos mesmíssimos populistas que diz querer combater. A tudo isto se chama hipocrisia. E de tudo isto, mais uma vez, se alimenta com prazer e crescente proveito o nosso populismo caseiro.

Todos, na esquerda e na direita democráticas, serão poucos para travar este combate existencial para as nossas democracias. Se queremos ganhá-lo, está na altura de travá-lo com um mínimo de inteligência e de honestidade intelectual.

(*) Na sua obra Autos-de-fé, a Arte de Destruir Livros, o filósofo e escritor francês Michel Onfray distingue, com ironia, o fascismo histórico do fascismo histérico. Utilizo aqui o termo nesta sua segunda aceção

.

14.1.23

A fábrica do populismo

 


Mas existem fornecedores do alimento populista, cuja vida é facilitada pelo Governo, mas que mesmo assim ajudam a fermentar a podridão de que se alimenta o populismo. E sabem muito bem o que fazem, e estão a fazê-lo com muito mais profissionalismo do que os spin doctors governamentais. E estão a ganhar a guerra todos os dias, uma guerra inorgânica, sem regras, política até ao tutano, com objectivos e interesses definidos, e que é muito mais eficaz do que os partidos da oposição. É uma guerra que não faz eleitores para o PSD, mas para o Chega e, com esses eleitores do Chega, pretendem pôr ordem no PSD. O objectivo não é colocar o Chega no poder, ou a governar sozinho, é mesmo pôr um PSD fragilizado no poder, eventualmente aliado à IL ou mesmo ao Chega, um PSD capturado para a sua agenda de direita radical, e aos interesses que servem. Aproveitam-se da crise do partido, das ambiguidades em que se tem enterrado, dando-lhe aquilo que lhe falta, eficácia numa oposição radical, que nada tem de social-democrata.»

José Pacheco Pereira
.

30.1.20

Nigel Farage, André Ventura e os "homens reais"



«Imagine uma fábrica de burocratas com uma linha de montagem que tem todas as peças necessárias. Pega-se no tronco, encaixam-se as pernas, depois os braços e, por fim, a cabeça. A cor do cabelo pode variar. Temos duas opções à escolha: moreno ou louro. Pente três a toda a volta, grande em cima, para dar aquele aspeto ondulado que está na moda. Temos gordinhos, mas o modelo com mais saída é o magro. Daqueles que correm todos os dias às seis da manhã, faça chuva ou faça sol, antes do banho e antes de vestirem o fato azul escuro. Ao final da tarde, vão todos beber um copo ao pub mais perto do trabalho, antes de irem para casa.

QI? Muito elevado. Fazem contas como ninguém, são autênticas enciclopédias ambulantes e, quando falam, quase nunca fogem do guião. Normalmente não têm solução para nada, mas são óptimos a problematizar, fazem relatórios ao pequeno almoço, escrevem estudos ao almoço e são incríveis a organizar conferências e a fazer apresentações. Quase sempre para plateias que já estão evangelizadas, mas isso agora não interessa nada. Só não são perfeitos porque, se fossem, não eram humanos.

A caricatura - exagerada como são quase todas - dos burocratas que tomam conta das principais instituições políticas contrasta com uma outra caricatura - mais falsa que exagerada - dos chamados "homens reais". Não são políticos como os outros. Não. Nada disso. Eles são homens do povo, falam a sua linguagem e dizem "as verdades". Essa é que essa. Há quem lhes chame populistas, mas são só calúnias. Eles não são populistas, são homens com H grande, daqueles que adormecem e acordam a pensar em pessoas. Pessoas - não é cá ciganos, nem pretos e muito menos gays. São "homens reais", muito corajosos, que vão lá para a televisão e para o parlamento e dizem a verdade toda àquela cambada de burocratas.

Esta semana, enquanto andava pelos corredores do Parlamento Europeu, cruzei-me com estas duas caricaturas políticas: os burocratas - eles são mesmo todos iguais - e os "homens reais" (alguns bastante surreais, por sinal). Naquele dia, Nigel Farage, o político britânico que mais lutou pela saída do Reino Unido da União Europeia, fazia a sua última conferência de imprensa e a sua última intervenção no plenário como eurodeputado. Egocêntrico, como qualquer populista que se preze, cheio de frases feitas e soundbytes que não significam nada, com muitas mentiras à mistura, Farage não fez nada que não tivéssemos já visto, nos últimos anos, vezes sem conta. Só que, desta vez, com uma enorme diferença: ele falava na condição de vencedor. O "homem real" venceu o burocrata.

Ao mesmo tempo que Nigel Farage anunciava a festa do Brexit - continuando a não explicar aos britânicos o que os espera -, de Lisboa chegavam notícias, várias, sobre esta forma que os "homens reais" têm de fazer política. André Ventura, que já tinha o ego a dar horas, decidiu comentar uma ideia ridícula de Joacine Katar Moreira - continua em alta, a deputada - com todo o seu racismo. Se alguém ainda tinha dúvidas, Ventura arrumou com o assunto de vez: é racista e com muito orgulho. Francisco Rodrigues dos Santos, o novo líder do CDS, também já começou a dar um ar da sua graça e decidiu fazer uma piada de mau gosto com a deputada do Livre.

Tudo alta política. E, sobretudo, política daquela que interessa às pessoas. Ainda ninguém ouviu de André Ventura ou de Francisco Rodrigues dos Santos uma única ideia sobre o Serviço Nacional de Saúde, a crise demográfica ou as alterações climáticas. Mas ao nível do insulto, das piadas e do discurso populista, a competição à direita promete ficar renhida.

E eis o que me preocupa. Que os burocratas não percebam que estes "homens reais" estão a chegar às pessoas de uma forma muito mais eficaz. Que mentir, inventar, insultar dá muito menos trabalho do que explicar uma lei, uma decisão ou uma política que teve de ser estudada e pensada. O que me preocupa é ter de reconhecer o profissionalismo político destes "homens reais", que sabem exatamente para quem estão a falar e como as pessoas precisam de se identificar com alguém, de terem uma referência, de encontrarem um salvador - enquanto os burocratas continuam a comunicar entre eles, a admirarem-se entre eles e só olham para o eleitorado em período de eleições.

O que me preocupa é que os chamados "homens reais" estão a vencer. No Reino Unido, em Itália, no Brasil, em Espanha e em Portugal. Enquanto os burocratas continuam, business as usual, como se nada estivesse a acontecer. O que me preocupa é que os democratas, sejam eles mais ou menos burocratas, em Bruxelas, em Portugal e um pouco por todo o mundo, não compreendam que combater os populismos com as mesmas armas não significa responder aos populistas, mas às pessoas.»

.

12.12.19

Os extremos tocam-se? (II)



«A tese de que os “populismos” engordam graças ao apoio daqueles que Hilary Clinton chamava os “deploráveis”, que, de tão culturalmente incapazes, perderam a batalha da globalização e, na sua raiva, votavam antes numa esquerda demagógica e populista e agora votam na direita populista, é de um simplismo preguiçoso e demagógico. Este gasto discurso de que “os extremos se tocam” (António Barreto repete-o todas as semanas nas páginas deste jornal), de que comunistas e fascistas são iguais e que, por o serem, dividem entre si o apoio dos politicamente “incompetentes”, é parte do (ainda mais velho) discurso liberal elitista de que a cidadania é, não um exercício efetivador de direitos, mas um processo de inculcação, no final do qual a maioria da sociedade (as classes populares, isto é, os que trabalham mas que não devem sequer decidir sobre o trabalho que fazem) adotam os valores e a mundivisão das elites, reconhecendo-lhes o direito ao governo da sociedade; isto é, os pobres aprendem a acreditar no que os ricos deles pensam, reconhecendo a inferioridade inerente à sua “incompetência”.

Antes de mais, o erro de crer que o mapa do voto da extrema-direita reproduz o do voto comunista e/ou da esquerda radical decorre de uma perceção irrealista de que os operários vota(va)m quase todos à esquerda, como se todos fizessem efetivamente uma opção política de classe, como se não houvesse voto de direita no mundo operário e, sobretudo, no eleitorado popular do mundo rural. Os estudos de sociologia eleitoral da extrema-direita que não se limitam a procurar nos dados da realidade confirmação para o preconceito elitista de que os trabalhadores pouco escolarizados passaram de um extremo ao outro, têm mostrado como a extrema-direita se enraiza sempre nos setores da pequena burguesia ameaçados de perda de estatuto socioeconómico (pequenos proprietários, assalariados pessimistas), atraindo numa segunda fase o voto punitivo de segmentos do mundo suburbano desindustrializado, sobretudo entre os precários sem enquadramento sindical e que recusam a identidade política construída à esquerda pelas gerações operárias mais velhas. Em França, o mais estudado dos casos de país com extrema-direita e PC fortes, é evidente a não coincidência dos territórios de implantação de um e outro setores, com a antiga Frente Nacional a disputar o voto tradicional da direita em regiões ricas (Leste, Côte d’Azur) e deprimidas (resto da Provença, mundo rural) e a fracassar onde o PCF era mais forte (região parisiense, Maciço Central e Limousin, salvo no Norte desindustrializado).

A precariedade, o medo permanente do desemprego, da deslocalização, da desqualificação, instalou-se no mundo do trabalho ao mesmo tempo que se procurou impor a ideia da irreversibilidade das grandes escolhas económicas que aceleraram o crescimento da desigualdade e da pobreza. O resultado lógico foi a abstenção de velhos e jovens trabalhadores (sobretudo destes), agravada pelas crises das esquerdas – a de grande parte dos partidos comunistas, que já começara antes da implosão dos regimes do socialismo real mas que se agravou com esta; e a da social-democracia, velozmente a caminho do mesmo neoliberalismo que a expulsou do poder nos anos 80 e que levaria à sua bancarrota política nos anos 2010. A crise dos sistemas de representação tem obrigado a que voltemos a estudar a desigualdade social como fator decisivo no comportamento político. O caso britânico é dos mais reveladores: depois de o foco ter sido colocado durante muitos anos na quebra da participação eleitoral, os estudos dos últimos anos verificaram que “as desigualdades de classe relativamente à participação eleitoral cresceram significativamente”, a tal ponto que se tornaram mais visíveis no campo da participação que no da opção política (Heath, 2016). Neste sentido, “a mudança principal [no comportamento eleitoral das classes trabalhadoras] não é tanto a reemergência do voto de classe mas do não-voto de classe” (Evans&Tilley, 2017), isto é, da abstenção de classe. Para só falar de duas cidades, compare-se os 32% de abstenção nas últimas eleições na freguesia lisboeta com mais alto rendimento médio (Belém) com os 50% em Camarate, Unhos e Apelação (Loures); ou os 31% em Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e os 44% em Campanhã (Porto).

Afinal, o problema não é de extremos: é de desigualdade. É de fazer com que quem se sente injustiçado desista de procurar justiça.»

.

6.7.19

Maneiras de reconhecer um populista português moderno



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«1. Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. Ou melhor, a sua acção comunica mais facilmente com partidos, organizações, homens de direita. Na Europa, nos dias de hoje, os movimentos e governantes populistas, seja no Brexit, seja na Alemanha, Polónia, Hungria, Itália e França, estão todos à direita do espectro político. Podem ficar muito incomodados com esta afirmação, mas é assim. Não foi sempre assim, nem será sempre assim, mas hoje é assim.

2. O paralelo entre o populismo de direita e um inventado “populismo de esquerda” é uma das características do populismo moderno, que precisa de companhia para mostrar que vai mais longe do que a direita. É vulgar ver em artigos de opinião essa comparação, mas é descuidada e falsa. As posições do PCP, do BE podem ser demagógicas, insustentáveis, irrealistas, mas não são populistas. Querer acabar com a propriedade privada, querer aumentos de salários, querer mais regalias para os sindicatos, atacar patrões e grandes empresas, defender causas “fracturantes”, são posições político-ideológicas muito distintas do populismo. No entanto, se tomadas em abstracto, estas podem emigrar para o discurso de direita. Alguns dos grandes populistas americanos como o Padre Coughlin e Huey Long na Luisiana fizeram alguns dos mais radicais discursos anticapitalistas.

3. A demagogia é uma componente importante do discurso populista, mas demagogia e populismo não são a mesma coisa. A demagogia está presente em todo o espectro político da direita à esquerda e, por si só, não caracteriza o discurso populista. Este caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos).

4. Em Portugal, o populismo entrou pela primeira vez numa campanha eleitoral nas últimas eleições europeias. Os cartazes do Chega/Basta, que se encontram ainda colocados, são os primeiros a chegar ao espaço público com palavras de ordem claramente populistas. Foi só começo.

5. O terreno português do populismo é dominantemente o das redes sociais e do tipo de interacção que elas propiciam. Mas já passou daí para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. O populismo ainda não passou nem para o voto, nem para a rua, embora seja uma questão de tempo.

6. O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso.

7. No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam.

8. O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar.

9. Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão.

10. O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”.

11. Os populistas votam mais facilmente em determinado tipo de corruptos conhecidos ou até condenados, cuja política lhes parece próxima, do que “neles”. Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade.

12. Os populistas estão sempre zangados, vivem num estado de excitação patológica, porque eles são sérios e o resto do mundo é desonesto, ladrão e corrupto. Quanto mais afastados do poder, - por exemplo quando a conjuntura política favorece os “corruptos” no seu entender, - maior é a zanga. Existe uma forte sensação de impotência na zanga.

13. Quando os populistas, os políticos que eles gostam, os partidos que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo.

14. Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve. É uma lista absurda, mas é a dos “privilegiados”. Embora na elite se incluam os banqueiros caídos em desgraça, quase nunca são referidos os principais grupos económicos, as famílias ricas e poderosas, os escritórios de advogados, os consultores financeiros, os dirigentes desportivos e os jogadores de futebol. No quadro de valores de um populista, fugir ao fisco por parte de um político, merece prisão perpétua, mas é uma mera infracção num jogador de futebol.

15. Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias. Há um micro-Bolsonaro dentro deles, mesmo quando juram não quererem nada com ele.»
.

13.4.19

“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)



«As discussões sobre a existência de populismo em Portugal resultam quase sempre na resposta de que este não existe. Os partidos populistas, como o Chega, nunca foram às urnas e não há movimentos populistas capazes de chegar à “rua” com mais do que dezenas de pessoas, como foi o caso recente da tentativa de fazer uns “coletes amarelos” portugueses, mesmo contando com um núcleo duro que incluía os lesados do BES e o PNR. Mas a resposta é errada: o populismo em Portugal está a crescer e, mesmo que ainda não tenha “rua”, domina as “redes sociais”, que são, para muita gente, a única informação que consomem e o único sítio onde “debatem”. Domina também cada vez mais a discussão pública, impregna o discurso político do Presidente da República e dos partidos parlamentares, e está cada vez mais estabelecido na comunicação social, a começar pelas televisões e a acabar na imprensa, mesmo na intitulada de referência.

O populismo define os temas, marca o tempo dos temas muito para além da habitual febre de “novidade” comunicacional, condiciona o seu tratamento e apresenta as suas soluções de que cada vez mais políticos e jornalistas têm dificuldade em se afastar, até porque muitas vezes concordam com elas. A tendência adversarial do jornalismo junta-se a muita cobardia política, de gente acossada e que sabe que não tem moral para falar alto contra a maré populista. O resultado é um debate público inquinado, dominado pelo pathos, quase sem logos, até porque há pouco ethos circulante.

A génese do populismo dos dias de hoje, em democracia, está nesta dicotomia: o povo é intrinsecamente bom, altruísta, honesto, trabalhador, desprovido de más intenções, verdadeiro, deseja o bem para todos, e os “políticos” são o exacto oposto, maus, egoístas, desonestos, preguiçosos, mal-intencionados, mentirosos e desprovidos do sentido de solidariedade, só de interesse próprio. Esta dicotomia não é verdadeira, e acima de tudo é antidemocrática.

Vem, no caso português, de uma longa tradição de demonização da política, dos partidos e da democracia, que encontrou na nossa história sempre mais duros críticos da democracia do que da ditadura, numa tradição intelectual que vem da Grécia antiga. São discípulos de Platão e dos críticos gregos da democracia ateniense, e que, como muitos intelectuais no século XIX e XX, salvo raras excepções, a maioria das quais americanas e europeias de Leste, namoraram sempre mais ideias e regimes como fascismo e o comunismo, do que a “porca” da democracia, demasiado vulgar para lhes dar o papel de “conselheiros” que eles sempre pretenderam. Em Portugal, isso sempre fragilizou a tradição liberal e democrática, na monarquia e na República, e páginas de Ramalho e caricaturas de Bordalo foram usadas pela propaganda do Estado Novo. À ideia da “porca da política”, a que se contrapunha a obsessão do “consenso” e da “unidade orgânica de todos os portugueses”, para além dos partidos e do voto, foi dada consistência propagandística pela Censura durante 48 anos, e ela está mais metida dentro das nossas cabeças do que se imagina.

O que há de novo sobre esta péssima tradição é que a conversação democrática é duramente atingida pela crise das mediações, em particular do debate a partir de factos e não de boatos, maledicências e falsidades, muitos deles colocados deliberadamente por profissionais da desinformação, beneficiando da crise da comunicação social e do ascenso de uma nova ignorância agressiva que serve o populismo como o pão para a fome de comer. Não estamos perante um renascer do fascismo, como alguns dizem, mas de um fenómeno novo que acompanha outras transformações sociais num conjunto complexo, impulsionado por interesses, por manipuladores da democracia, como alguns serviços secretos, pela ganância de algumas empresas tecnológicas e pela apatia e mesmo medo colectivo em lhe fazer frente.

Substituir a democracia pela demagogia é mais fácil do que travar este processo. Políticos em democracia, fragilizados pela corrupção, pela ignorância, pela partidocracia e pela cobardia de ceder às ondas na moda são os últimos a servir de barreira. E o resultado é que as pressões populistas dão origem a soluções erradas, ou porque punitivas, ou porque ilegais, ou porque ineficazes, ou porque perversas, gerando novos problemas, piores dos que os que se desejam combater.

Já estou a ouvir o sussurro e os berros – e então “os políticos” não têm culpa (uma palavra fundamental do discurso populista) de nada? Têm, têm todas as culpas que os populistas lhes apontam, só que não são “todos”, nem são “os políticos”, como se fossem uma classe à parte. E só no contexto da democracia, dos partidos, das escolhas, do voto, isto se pode melhorar.

Só que estas afirmações não servem apenas para adornar e “moderar” o discurso – devem ser tomadas a sério e na sua substância, ou seja, devem ser um elemento fundamental e estrutural da narrativa sobre a política em democracia. Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”.»

José Pacheco Pereira
(Sem link, recebido por mail.)
 .

3.4.19

O perigo do populismo que vem da direita



«Parece haver uma espécie de consenso nacional de que o populismo, por cá, não vingou. Tirando alguns pequenos epifenómenos, como o de Marinho e Pinto há cinco anos - que implodiu rapidamente -, nenhum dos chamados partidos populistas teve, até hoje, expressão eleitoral, ao contrário do que aconteceu noutros países europeus, e isso descansa-nos. Mas é um erro pensar assim.

Se o populismo não vingou, até agora, em Portugal, isso deve-se sobretudo a dois grandes fatores: à inversão do ciclo económico e à solução governativa da geringonça que, se tivesse corrido mal, corria mesmo muito mal. Mas tendo corrido bem - na medida em que aguentou uma legislatura -, acabou por dar alguma sustentação aos chamados partidos do regime, sobretudo ao PS. Entre a reposição de rendimentos, uma economia a crescer, o desemprego a cair, o diabo do populismo não teve grandes hipóteses de furar. O que não significa que ele não esteja aí... à espreita.

Há várias evidências de que esta ameaça se mantém viva. Bastaria estar atento às redes sociais - o ecossistema favorito deste tipo de movimentos populistas - para perceber a rapidez com que eles se multiplicam e a linguagem cada vez mais irascível que usam. É o ódio que lhes alimenta os likes e as partilhas. Mas é a cobardia que melhor os define.

Há, no entanto, outros riscos, que são exatamente os mesmos que existiam há quatro anos, quando António Costa virou o tabuleiro político em Portugal e se fez primeiro-ministro, com a ajuda do PCP e do Bloco. Ao trazer, pela primeira vez, estes dois partidos para "dentro do sistema", Costa conseguiu evitar fenómenos populistas vindos, sobretudo, da extrema-esquerda - sim, que o populismo está longe de ser um exclusivo da direita. Não por acaso, o Bloco perdeu recentemente 25 militantes, em desacordo com a linha que o partido tem vindo a seguir. E as dificuldades internas que Jerónimo de Sousa tem enfrentado, por ter dado a mão ao Partido Socialista, também não serão por acaso.

A verdade é que a geringonça, mesmo tendo cumprido e ultrapassado as primeiras expectativas, parece não ter conseguido recuperar a confiança do eleitorado nos chamados partidos do sistema. Basta olhar para as sondagens e perceber que, apesar de todo o dinheiro que foi devolvido às famílias, dos empregos criados, dos números do défice, a maioria absoluta do PS parece cada vez mais difícil. Basta olhar para a base eleitoral do BE, do PCP, do PS, do PSD e do CDS, e constatar que ela é praticamente a mesma de há quatro anos. Basta olhar para a abstenção e confirmar que, se não perderem eleitorado, os partidos do regime terão muitas dificuldades em conquistar novos votos.

Uma das ameaças tem que ver, precisamente, com o xadrez político que sair das próximas eleições. Se levarmos a sério as declarações de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa, de que a geringonça, neste modelo, é irrepetível, um PS a governar em minoria - e a ter de negociar à esquerda e à direita - aumenta o potencial de risco de instabilidade política. E essa pode ser uma primeira brecha para o populismo.

O outro risco - que, associado ao anterior, pode tornar-se desastroso - tem que ver com uma eventual inversão do ciclo económico. Que ninguém sabe quando acontecerá, mas toda a gente sabe que virá. Uma nova crise económica, mesmo que vinda de fora, num país onde a dívida ainda é assustadoramente grande, onde tantas reformas ainda estão por fazer e onde o número de grandes empresas é cada vez menor, pode ter efeitos políticos devastadores.

Por fim, o terceiro grande risco vem do centro-direita. Podemos começar por lembrar que foi o PSD de Passos Coelho que criou André Ventura. E agora que a criatura quer comer o criador é também com ele que o partido vai ter de não só disputar o eleitorado abstencionista, mas tentar, ao mesmo tempo, não perder votos.

A implosão do PSD, enquanto partido agregador deste espectro político, tem múltiplas razões, quase todas elas já abundantemente analisadas. Do discurso do diabo que não veio à total ausência de discurso, foi um tiro. Daí às convulsões internas, divisões, deserções, sejam elas de dentro para fora ou feitas internamente, o PSD tem vindo, progressivamente, a perder a mão de um espaço político que era seu e não se tem revelado capaz de travar esta tendência, quanto mais de a evitar.

Talvez essa seja uma das grandes missões de Rui Rio. Será também essa, porventura, a ambição de Pedro Santana Lopes, com o Aliança. E é, seguramente, esse o objetivo enunciado pelos vários movimentos que têm nascido como cogumelos dentro do próprio PSD, mesmo que alguns deles não estejam a conta-nosr tudo.

A verdade, porém, é que, no centro-direita, continua a falhar o essencial: uma estratégia para o país, um discurso e um líder suficientemente carismático para recuperar a confiança do eleitorado.

A continuar assim, há uma porta que fica cada vez mais escancarada aos populistas. Abutres que se alimentam dos fracos, dos famintos, dos descontentes e dos revoltados. E se é verdade que o populismo pode vir de qualquer lado - ou de lugar nenhum, como se viu no Brasil -, não é menos verdade que, em Portugal, o risco, neste momento, é muito maior no centro-direita.»

.