«As últimas eleições autárquicas podem resumir-se, de um modo algo simplista, da seguinte forma: o PSD ganhou, o PS perdeu, mas demonstrou que continua a ser claramente o segundo partido português com uma implantação no território incomparavelmente superior à do Chega, o Chega cresce, ainda que mais devagar do que nas eleições legislativas, o Livre, o BE e o PCP ficaram numa situação difícil, embora com diferenças entre si.
Isto significa que, no cômputo geral, as eleições autárquicas confirmaram o ciclo de crescimento da direita e da extrema-direita. Refira-se que esta última ganha força não apenas pelas (meras) três Câmaras Municipais que vence e pelo aumento do número de vereadores, mas também (e talvez sobretudo) porque muitos candidatos da direita dita tradicional (e não só) assumiram a agenda e os temas da extrema-direita. É por isso que a imigração, a segurança, a “subsidiodependência” e outros temas caros ao populismo estiveram tão presentes nas várias campanhas, muitas vezes substituindo os assuntos com ¬maior relevância local, como a habitação, a mobilidade, o urbanismo, os espaços verdes, a qualidade de vida.
Atualmente, a direita considera-se sempre moderada e o centro-esquerda é sempre apelidado de radical. Neste contexto, que se repete em quase toda a Europa, há uma tentação inevitável dentro dos partidos socialistas para assumir posições populistas, numa espécie de “populismo moderado” que é incompatível com a social-democracia. Mas esta opção revelar-se-á, a prazo, contraproducente.
Primeiro, no plano axiológico, porque os partidos de centro-esquerda devem manter-se fiéis aos princípios e valores que constituem a sua matriz para evitar um retrocesso social que põe em causa a democracia e os valores que constituem o nosso “chão comum” — igualdade, incluindo entre homens e mulheres, não discriminação, liberdade, solidariedade e respeito pelos direitos civis, políticos e sociais de todos.
Segundo, do ponto de vista estratégico, porque a sobrevivência destes partidos depende da fidelidade a essa mesma matriz, uma vez que só assim marcam a diferença e ocupam o seu espaço na sociedade. A indistinção face aos partidos populistas acabará, inelutavelmente, por beneficiar estes últimos (“entre o original e a cópia…”).
Quer isso dizer que os partidos sociais-democratas não se devem tentar adaptar a este novo ciclo e aos temas que interessam às pessoas (seja esse interesse espontâneo, seja induzido)? Claro que não. Mas fazê-lo implica não ceder à agenda imposta — como ainda agora o PSD cedeu no caso das burcas — e assumir a dianteira nos assuntos que preocupam as pessoas: rendimentos, direitos laborais, direitos sociais, qualidade e universalidade dos serviços públicos (a extrema-direita cresce onde os serviços públicos são piores).
Os partidos sociais-democratas têm de se opor à estigmatização dos sectores da população que estão ressentidos e desenvolver políticas públicas que encontrem soluções para os problemas das pessoas, tanto a nível local como nacional.»

0 comments:
Enviar um comentário