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14.10.25

14.10.1964 – Nobel da Paz para Luther King

 




Excertos do discurso:

«Aceito o Prémio Nobel da Paz num momento em que 22 milhões de negros nos Estados Unidos estão envolvidos numa batalha criativa para encerrar a longa noite da injustiça racial. Aceito este prémio em nome de um movimento de direitos civis que está avançando com determinação e um majestoso desprezo pelos riscos e perigos de estabelecer um reino de liberdade e um sistema de justiça. Estou ciente de que uma pobreza debilitante e asfixiante aflige o meu povo e o acorrenta ao degrau mais baixo da escala económica. Portanto, devo perguntar porque é que este prémio está a ser concedido a um movimento que é comprometido com uma luta incessante; a um movimento que não conquistou a própria paz e fraternidade que é a essência do Prémio Nobel. Depois de pensar a esse respeito, concluí que este prémio que recebo em nome desse movimento é um reconhecimento profundo de que a não-violência é a resposta à questão moral e política crucial de nosso tempo: a necessidade do homem superar a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão (...).

Ainda creio que superaremos tudo isso. Essa fé dá-nos a coragem de enfrentar as incertezas do futuro. Dá forças aos nossos pés cansados enquanto continuamos a nossa marcha rumo à cidade da liberdade. Quando os nossos dias se tornarem lúgubres e cobertos por nuvens e as nossas noites se tornarem mais escuras que mil meias-noites, saberemos que estamos vivendo no tumulto criativo de uma civilização genuína que luta para nascer.»

12.10.25

Porque é que Trump nunca, jamais, em tempo algum, deveria ter o Nobel da Paz

 


«Embora o mundo esteja bizarro, caótico, esquisito, acreditei sempre que seria um absurdo se gente civilizada e com um módico de lucidez desse o Prémio Nobel da Paz a Donald Trump. Felizmente tal não aconteceu e eu imagino a raiva do próprio e dos seus pela recusa, depois de passar um ano a pressionar tudo e todos a renderem-se ao seu narcisismo agressivo. Trump nunca fez nada pela paz, fez tudo pelo Prémio Nobel, o que não é de todo a mesma coisa. E como há sempre um esforço dos “cientistas políticos” para encontrarem racionalidade no que ele faz, faz-se tábua rasa de que o seu único argumento é a força, a ameaça, e a pressa (para o Nobel), e isso pode aparentar resultados a curto prazo, mas nada que se sustente no tempo. Aliás, só quem não conhece o Médio Oriente pode confundir o que é um plano de rendição do Hamas com um plano de paz para a Palestina, como se verá a curto prazo.

No entanto, havia dez grandes razões para não dar a este homem violento e ameaçador o Prémio Nobel. Aqui vão:

1. Viola todas as leis, organiza a violência, deporta pessoas sem julgamento para prisões em ditaduras que suborna, cria um ambiente de guerra civil.

2. Conduz uma guerra contra aquilo a que chama o “inimigo interno”, os americanos que dele discordam e exercem os seus direitos cívicos debaixo da ameaça de despedimentos, espancamento, prisões. A classificação de “guerra” é dele.

3. Mudou o nome do Departamento de Defesa para Departamento da Guerra, introduzindo uma linguagem bélica nas forças armadas americanas muito para além das ameaças à segurança americana.

4. Conduz uma nova guerra contra a Venezuela a pretexto de combater os cartéis da droga, procedendo a execuções extrajudiciais, e criando um risco, por exemplo, para os pescadores venezuelanos que temem sair para o mar e serem tomados por barcos de drogas.

5. Nunca seria possível Israel ter feito o que fez em Gaza sem o apoio de Trump. O que ele agora diz que quer “remediar” para haver “paz” foi aquilo que ele incentivou, consentiu e a que fechou os olhos. Se há genocídio em Gaza há dois responsáveis: Trump e Netanyahu.

6. Traiu e trairá aos soluços a defesa da Ucrânia de uma invasão estrangeira, impedindo a sua defesa eficaz e estendendo o tapete a Putin, que ameaça sem nunca cumprir. A defesa da paz implica que nunca haverá vantagem para o infractor, e Trump é mais hostil ao invadido do que ao invasor.

7. Ameaçou invadir a Gronelândia, o Canal do Panamá, e outros territórios soberanos, não de forma simbólica, mas real. Nunca afirmou que não usará a força para os subjugar.

8. A maioria das guerras com que ele diz ter “acabado” não sabe quais são, nem se existiam à data em que “acabou” com elas, ou se continuam, haja ou não haja acordo assinado na Casa Branca, apoiado por subornos e ameaças, as suas armas principais. Uma, entre o Egipto e a Etiópia, não existia; outra, entre a Sérvia e o Kosovo, está longe de acabar, embora o truque que ele usa seja chamar “guerras” a todos os conflitos, mesmo que não tenham expressão militar ou que, se a tiverem, se tratem de pouco mais do que escaramuças fronteiriças, que se repetem periodicamente e que tornarão a repetir-se.

9. Nalguns casos, como no conflito entre a Índia e o Paquistão, os responsáveis indianos literalmente gozaram com a afirmação de Trump de que tinha sido ele a “acabar” com o conflito. Na verdade, na Casa Branca devem andar a ver catálogos de conflitos pelo mundo inteiro para que o Presidente tenha mais uma “guerra” com que “acabar”.

10. Sim, acabou com uma guerra, a que disse que existia entre o Camboja e Arménia, como ele afirmou no seu discurso nas Nações Unidas. Acontece que essa guerra não existia, e seria absurda se alguém visse um mapa ou tivesse a mínima noção de geografia. Se houver algum dia uma guerra entre o Camboja e a Arménia, então merece mesmo o Prémio Nobel da Paz porque acabou com ela por antecedência.»


10.10.25

Nobel da Paz - Afinal...

 


Nobel da Paz – já está e não é «dele»

 


«O Comitê Nobel norueguês decidiu atribuir o Prêmio Nobel da Paz 2025 a Maria Corina Machado pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e pela sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia.

Como líder do movimento democracia na Venezuela, Maria Corina Machado é um dos mais extraordinários exemplos de coragem civil na América Latina nos últimos tempos.

A Sra. Machado tem sido uma figura chave e unificadora numa oposição política que outrora foi profundamente dividida - uma oposição que encontrou um terreno comum na exigência de eleições livres e de governo representativo. É precisamente isto que está no centro da democracia: a nossa vontade partilhada de defender os princípios do domínio popular, embora discordemos. Numa altura em que a democracia está ameaçada, é mais importante do que nunca defender este terreno comum.

A Venezuela evoluiu de um país relativamente democrático e próspero para um estado brutal e autoritário que agora sofre uma crise humanitária e econômica. A maioria dos venezuelanos vive em profunda pobreza, mesmo quando os poucos no topo se enriquecem. A maquinaria violenta do estado é dirigida contra os cidadãos do país. Quase 8 milhões de pessoas deixaram o país. A oposição tem sido sistematicamente suprimida através de fraude eleitoral, processo judicial e prisão.

O regime autoritário da Venezuela torna o trabalho político extremamente difícil. Como fundadora da Súmate, organização dedicada ao desenvolvimento democrático, a Sra. Machado levantou-se para eleições livres e justas há mais de 20 anos. Como ela disse: "Foi uma escolha de cédulas em vez de balas. ” No cargo político e ao serviço das organizações desde então, a Sra. Machado tem manifestado a favor da independência judicial, dos direitos humanos e da representação popular. Ela passou anos trabalhando pela liberdade do povo venezuelano.

Antes da eleição de 2024, Ms Machado era a candidata presidencial da oposição, mas o regime bloqueou a candidatura dela. Ela então apoiou o representante de um partido diferente, Edmundo Gonzalez Urrutia, na eleição. Centenas de milhares de voluntários mobilizados através de divisões políticas. Eles foram treinados como observadores eleitorais para garantir uma eleição transparente e justa. Apesar do risco de assédio, prisão e tortura, os cidadãos de todo o país mantiveram vigia das mesas de voto. Eles certificaram-se de que os contatos finais fossem documentados antes que o regime pudesse destruir as cédulas e mentir sobre o resultado.

Os esforços da oposição coletiva, tanto antes como durante as eleições, foram inovadores e corajosos, pacíficos e democráticos. A oposição recebeu apoio internacional quando os seus líderes divulgaram as contagens de votos recolhidas dos distritos eleitorais do país, mostrando que a oposição tinha vencido por uma margem clara. Mas o regime recusou-se a aceitar o resultado das eleições e agarrou-se ao poder.

A democracia é uma condição prévia para uma paz duradoura. No entanto, vivemos num mundo onde a democracia está em retirada, onde cada vez mais regimes autoritários estão a desafiar as normas e a recorrer à violência. O poder rígido do regime venezuelano e a sua repressão contra a população não são únicos no mundo. Vemos as mesmas tendências globalmente: Estado de direito abusado por aqueles que controlam, meios de comunicação livres silenciados, críticos presos e sociedades empurradas para o domínio autoritário e a militarização. Em 2024, mais eleições foram realizadas do que nunca, mas cada vez menos são livres e justas.

Em sua longa história, o Comitê Nobel norueguês homenageou mulheres e homens corajosos que enfrentaram a repressão, que carregaram a esperança da liberdade nas celas de prisões, nas ruas e em praças públicas, e que mostraram através das suas ações que a resistência pacífica pode mudar a mundo. No último ano, a Sra. Machado foi obrigada a viver escondida. Apesar das sérias ameaças contra a sua vida, ela permaneceu no país, uma escolha que inspirou milhões de pessoas.

Quando os autoritários tomam o poder, é crucial reconhecer os corajosos defensores da liberdade que se levantam e resistem. A democracia depende de pessoas que se recusam a ficar em silêncio, que se atrevem a dar um passo em frente apesar dos graves riscos, e que nos lembram que a liberdade nunca deve ser tomada como garantida, mas deve ser sempre defendida – com palavras, com coragem e determinação.

Maria Corina Machado cumpre os três critérios indicados no testamento de Alfred Nobel para a seleção de um prémio da Paz. Ela reuniu a oposição do seu país. Ela nunca vacilou em resistir à militarização da sociedade venezuelana. Ela tem sido firme no seu apoio a uma transição pacífica para a democracia.

Maria Corina Machado mostrou que as ferramentas da democracia são também as ferramentas da paz. Ela encarna a esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes são ouvidas. Neste futuro, as pessoas finalmente serão livres para viver em paz.»


8.10.22

Um Nobel para a resistência e o activismo

 


«A atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2022 condena a invasão russa da Ucrânia e distingue o activismo e a importância de uma sociedade civil no reforço da democracia, da paz e do antimilitarismo, em países onde o exercício da opinião e da crítica tem um preço muito alto.

Ales Bialiatski, um activista dos direitos humanos bielorrusso, que está detido, e as organizações de direitos humanos Memorial, da Rússia, e Center for Civil Liberties, da Ucrânia, têm tido um papel importante na protecção dos direitos fundamentais dos cidadãos dos seus países.

O Prémio Nobel da Paz de 2022 pode não ter sido atribuído contra Vladimir Putin, no dia do seu aniversário, nem a favor de Volodymr Zelensky. A justificação do Comité Nobel Norueguês tenta convencer-nos disso. Mas a decisão do comité tem uma intencionalidade política inequívoca. O comité não poderia ignorar o conflito nem os seus intervenientes na Rússia, Bielorrússia e Ucrânia.

É curioso que a escolha desses intervenientes nem tenha sido do agrado de Moscovo nem de Kiev. Não é difícil perceber o desagrado russo: o Memorial é o grupo de defesa dos direitos humanos mais antigo do país, foi criado para denunciar os atropelos da então URSS e prosseguiu com a denúncia dos crimes de guerra praticados pelos russos, sobretudo na Segunda Guerra da Tchetchénia — um tema proibido —, e foi ilegalizado, no ano passado, pelo Supremo Tribunal da Rússia. A escolha de alguém como Bialiatski, que contribuiu para denunciar práticas de tortura dos prisioneiros políticos na Bielorrússia, tem tudo para arreliar Moscovo e Minsk.

Mas a verdade é que os ucranianos também não ficaram muito contentes com o anúncio. Um assessor de Zelensky reagiu com o argumento de que nem as organizações russas nem bielorrussas foram capazes de organizar uma resistência à guerra, desvalorizando a coragem e atrevimento de quem tudo arrisca pelo combate pela liberdade, e porque os “representantes de dois países que atacaram um terceiro recebem, juntos, o Nobel da Paz.”

Os activistas russos e bielorrussos distinguidos, juntamente com a Center for Civil Liberties, organização ucraniana criada para promover os direitos humanos e a democracia, não representam nem o regime de Putin nem de Aleksandr Lukashenko. E, já agora, nem o de Zelensky.

Representam quem combate com coragem e dignidade por uma sociedade civil livre. A defesa da democracia, dos direitos humanos e da coexistência pacífica são o denominador comum entre os distinguidos. Não é de somenos. Não há gesto mais político do que o de premiar o activismo e a resistência.»

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13.10.19

Finalmente o Nobel para quem fez a paz



«Abiy Ahmed venceu o Nobel da Paz e, no entanto, o seu rosto era o mais difícil de reconhecer entre os quatro que muitos jornais, incluindo o DN, publicaram nos dias como fazendo parte dos favoritos ao prémio da Academia norueguesa. Tanto Greta Thunberg como Jacinda Arden e Donald Trump têm tido mais destaque mediático do que o primeiro-ministro da Etiópia, e sobretudo a jovem ecologista sueca parecia bem lançada para bater a paquistanesa Malala Yousafzai como a mais jovem galardoada de sempre.

Mas para premiar quem fez a paz então dificilmente se encontrará outro tão justo nos últimos anos. Chegado ao poder em 2018, Ahmed pôs fim à guerra intermitente com a Eritreia, que se separou da Etiópia em 1993 de forma pacífica mas cinco anos depois se envolveu num conflito com o vizinho. Não só se evitou assim o acumular de milhares e milhares de mortos em combate, como se libertaram verbas que vão salvar muitas mais vidas em ambos os países se bem aplicadas, por exemplo, no sistema de saúde. A mortalidade infantil na Etiópia é 51 por mil, na Eritreia 46 por mil. E em termos desenvolvimento humano estas duas nações do Corno de África andam perto dos últimos lugares (173.º e 179.º).

Ahmed merece também o prémio porque neste ano e meio como presidente tem mudado a sua Etiópia para melhor. O único país de África que nunca foi colonizado - apesar das duas tentativas italianas - é um colosso de 105 milhões de habitantes repartidos em múltiplas etnias, e cada vez mais dividido entre cristãos e muçulmanos, com um potencial enorme de desenvolvimento, inclusive na agricultura.

Nós, portugueses, cedo estabelecemos relações com os etíopes e ajudámos mesmo os imperadores a salvar o país da conquista por exércitos muçulmanos. Pêro da Covilhã lá viveu grande parte da vida a representar os reis de Portugal e um filho de Vasco da Gama, Cristóvão, morreu no século XVI na defesa do que se dizia ser o reino do mítico de Prestes João. Dessa relação privilegiada restam vestígios arquitetónicos, desde palácios a fortalezas e pontes ainda hoje reconhecidos como portugueses.

Mas se as elites pertencem ainda em boa medida à igreja copta, o facto de um terço da população seguir hoje o islão obriga os governantes a ter um pensamento integrador, tanto étnico como religioso. E, nesse campo, a própria biografia de Ahmed faz dele o homem certo no cargo certo no momento certo, pois o pai era um muçulmano da etnia oromo e a mãe uma cristã ahmara. Falar três das línguas principais do país também facilita a sua afirmação como líder unificador do país que, pelo seu peso histórico, alberga a sede da União Africana.

No plano interno, este antigo guerrilheiro - juntou-se ainda adolescente à rebelião contra o ditador Mengistu - libertou presos políticos, autorizou o regresso de dissidentes exilados, criticou os abusos anteriores do regime, apesar de praticados pela mesma Frente Popular Revolucionária Democrática da Etiópia que o promoveu a primeiro-ministro. Ahmed mostrou-se também ousado ao criar um governo com metade dos membros a serem mulheres, sendo que entretanto o Parlamento de Adis Abeba elegeu para chefe do Estado também uma mulher, Sahle-Work Zewde.

Que Ahmed sirva de inspiração na Etiópia, no resto de África, no mundo em geral. Não só há muitas guerras por parar como nenhuma paz está garantida só por causa de um Nobel a ter reconhecido, basta pensar na tensão na Colômbia, apesar do diálogo entre governo e guerrilha das FARC que levou o comité norueguês a premiar o presidente Juan Manuel Santos há três anos.»

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20.11.17

Nobel da Paz, para que te queremos?



Um possível belo enterro para o Prémio Nobel da Paz, já tão chamuscado.


«Tudo isto surge depois de o Partido do Progresso (PP) norueguês ter revelado, na semana passada, que o seu antigo líder de 73 anos – conhecido pelas suas opiniões polémicas sobre muçulmanos, homossexuais, mães solteiras e anti-imigração – iria ocupar um dos lugares do Comité Nobel da Paz, por merecer o lugar e por ter vários anos de experiência.»
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17.11.17

17.11.2013 – O dia em que Doris Lessing morreu



Morreu há quatro anos com 94. Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura e escreveu então um belíssimo discurso de que recordo como se o tivesse lido hoje. Intitulou-o: «Como não ganhar o prémio Nobel».

Falou de livros, do sonho de saber nos países pobres, da falta de interesse da juventude no mundo dos ricos. Falou sobretudo de África, do Zimbabwe que ela tão bem conheceu, recordou uma «aldeia onde a população não comia há três dias, mas onde se falava de livros e dos meios para conseguir obtê-los»; um autor negro, seu amigo, que «aprendeu a ler sozinho, nas etiquetas dos frascos de compota e das latas de conservas de frutos»; uma localidade perdida no mapa, onde dois jovens resolveram escrever romances na língua nativa (tonga); um jovem de dezoito anos que, ao receber uma caixa com livros oferecidos por um americano, os embrulhou cuidadosamente num plástico, com receio de que se estragassem e sabendo que dificilmente poderia voltar a receber outros.

O discurso é longo, pode ser liso em inglês ou em francês, mas deixo aqui os últimos parágrafos em português.

«Há sempre um contador de histórias no fundo de cada um de nós, o “fazedor de histórias” esconde-se em nós. Suponhamos que o nosso mundo era destruído pela guerra, pelos horrores que todos podemos facilmente imaginar. Suponhamos que inundações submergiam as nossas cidades, que o nível dos mares subia… O narrador estaria sempre lá, pois é o nosso imaginário que nos modela, que nos faz viver, que nos cria, para o bem ou para o mal. São as nossas histórias que nos recriam quando estamos despedaçados, moribundos, ou mesmo destruídos. É o narrador, o fazedor de sonhos, o construtor de mitos, que é nossa fênix, aquilo que somos no melhor de nós mesmos, da nossa criatividade.

Cremos ser melhores do que a pobre mulher africana que caminha na poeira sonhando com a educação dos seus filhos – nós, empanturrados de comida, com os nossos armários repletos de roupas, nós que sufocamos sob o peso do supérfluo?

Estou totalmente convencida de que é aquela mulher africana e todas as outras mulheres que me falaram de livros e de educação, embora não tivessem comido nada desde há três dias, que ainda nos podem definir no momento presente.»
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7.10.16

Meio Nobel da Paz



O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, ganhou o Nobel da Paz. Com a maior das justiças, na minha opinião, e o facto de não ter conseguido uma vitória no referendo não é decisivo e esperemos que seja ultrapassado.

Já figurava na lista dos possíveis laureados, não sozinho, mas sim em conjunto com Timoleón Jiménez, líder das FARC.

Afinal, parece que se abateriam os tectos do mundo se esse terrível ex-guerrilheiro fosse também ao belo salão de Oslo receber o prémio… Assim vamos: como se a paz na Colômbia pudesse ter sido atingida unilateralmente. 
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17.11.13

Doris Lessing, na primeira pessoa



Morreu hoje, com 94 anos. Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura e escreveu então um belíssimo discurso de que recordo como se o tivesse lido hoje. Intitulou-o: «Como não ganhar o prémio Nobel».

Falou de livros, do sonho de saber nos países pobres, da falta de interesse da juventude no mundo dos ricos. Falou sobretudo de África, do Zimbabwe que ela tão bem conheceu, recordou uma «aldeia onde a população não comia há três dias, mas onde se falava de livros e dos meios para conseguir obtê-los»; um autor negro, seu amigo, que «aprendeu a ler sozinho, nas etiquetas dos frascos de compota e das latas de conservas de frutos»; uma localidade perdida no mapa, onde dois jovens resolveram escrever romances na língua nativa (tonga); um jovem de dezoito anos que, ao receber uma caixa com livros oferecidos por um americano, os embrulhou cuidadosamente num plástico, com receio de que se estragassem e sabendo que dificilmente poderia voltar a receber outros.

O discurso é longo, pode ser liso em inglês ou em francês, mas deixo aqui os últimos parágrafos em português.

«Há sempre um contador de histórias no fundo de cada um de nós, o “fazedor de histórias” esconde-se em nós. Suponhamos que o nosso mundo era destruído pela guerra, pelos horrores que todos podemos facilmente imaginar. Suponhamos que inundações submergiam as nossas cidades, que o nível dos mares subia… O narrador estaria sempre lá, pois é o nosso imaginário que nos modela, que nos faz viver, que nos cria, para o bem ou para o mal. São as nossas histórias que nos recriam quando estamos despedaçados, moribundos, ou mesmo destruídos. É o narrador, o fazedor de sonhos, o construtor de mitos, que é nossa fênix, aquilo que somos no melhor de nós mesmos, da nossa criatividade.

Cremos ser melhores do que a pobre mulher africana que caminha na poeira sonhando com a educação dos seus filhos – nós, empanturrados de comida, com os nossos armários repletos de roupas, nós que sufocamos sob o peso do supérfluo?

Estou totalmente convencida de que é aquela mulher africana e todas as outras mulheres que me falaram de livros e de educação, embora não tivessem comido nada desde há três dias, que ainda nos podem definir no momento presente.»
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31.12.12

Se é para escolher factos de 2012, aqui vão os meus dois



Farta, fartíssima dos mil balanços domésticos de 2012, dei por mim a identificar os meus ícones do ano. Dois locais onde já estive e que representam para mim, à sua maneira, o melhor e o pior dos últimos 366 dias: Rangum e Oslo.

Em Rangum, renasceu a esperança, num dos países mais fechados (e mais belos) do mundo, e as multidões exultaram de felicidade com a eleição de Aung San Suu Kyi para o Pyithu Hluttaw, a câmara baixa do parlamento. Foi pouco, foi quase simbólico, foi táctico? Pouco interessa: um passo de gigante, e de certo modo surpreendente, num país «parado e sem esperança», como o descrevi quando lá estive há cerca de três anos.

Sim, gostava de voltar a Myanmar, para rever Bagan do alto de um balão, para passar uns dias no Lago Inle e, sobretudo, para passar pela rua que dá acesso à casa de Aung sem esbarar na proibiçã0 policial.



Bem pelo contrário, por mais anos que viva, nunca mais porei os pés na sala onde se realiza a entrega do Prémio Nobel da Paz, em Oslo. Guardo o espectáculo a que este ano assistimos com um terrível sabor amargo, uma afronta, por mais desculpas e justificações esfarrapadas que tenham sido dadas por aqueles que estão sempre dispostos a justificar o injustificável e a ver «o lado positivo» mesmo onde ele é totalmente inexistente.

Ver aquela gente incompetente, e que tão mal está a tratar esta pobre Europa, ufana, a receber um troféu que já teve um significado importante ao longo de décadas, provocou em mim uma revolta incontida.

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Pronto. 2012 já está. Que venha 2013 e arregacemos as mangas porque vai ser muito, muito duro. Cá estaremos.
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