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31.5.25

Compreender o discurso político, um valor em si

 


«Apercebi-me, através de publicações circuladas nas redes sociais, dos resultados eleitorais recentes na freguesia de Rabo de Peixe, concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel. O grande vencedor foi o Chega, que ali obteve mais de 38% dos votos. Mesmo sabendo-se que votaram apenas 1999 eleitores, com uma abstenção superior a 74% e havendo 3% de votos brancos e nulos. Portanto, em Rabo de Peixe, votaram no Chega 769 pessoas (601 na AD, 329 no PS).

Estive pela primeira vez em Rabo de Peixe talvez há 20 anos e recordo ainda os diversos cartazes de organizações internacionais que ali desenvolviam a sua atividade de cooperação ou financiavam projetos, num cenário que é habitual em África e nalguns espaços da América Latina e do Sudeste Asiático, mas que creio que seria único à época em Portugal, vinte anos depois da adesão à União Europeia. A pobreza era, de facto, evidente, densa, marcada.

Em Rabo de Peixe, 60% dos residentes têm uma escolaridade até ao 4.º ano. E um terço da população de Rabo de Peixe recebe Rendimento Social de Inserção. As transferências sociais têm vários efeitos, como é sabido. Um deles em Portugal é fazer descer a taxa de risco de pobreza dos 40% para os 16% (2023), ou seja, colocar-nos, nesse tema, entre o Luxemburgo e Malta, no contexto da União Europeia, e não, por exemplo, entre a Roménia e a Lituânia. Outro é permitirem a narrativa do Chega sobre redistribuição e subvenções sociais, epigrafando os “subsidiodependentes” como exemplos de abuso cívico e de fraqueza pessoal, o que torna a sua expressão eleitoral em Rabo de Peixe aparentemente contraditória.»

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29.5.25

O novo caudilho e os génios do PS

 

«Confirma-se o que se antecipava. No sistema político-partidário português haverá um antes e um depois do 18 de maio de 2024. Não se trata apenas de ter terminado o bipartidarismo e passarmos a um cenário tripartido. Desde esta quarta-feira, com a contagem dos votos da emigração, o Chega, um partido da direita radical populista (a designação dos cientistas políticos) ou de extrema-direita (a definição das pessoas comuns), passa a ser o principal partido de Oposição, algo nunca visto na democracia portuguesa e que, na verdade, ninguém previa.

Recordemos que, há seis anos, valia uns escassos 68 mil votos (1,3%) e que o único deputado era André Ventura. Hoje são um milhão e quatrocentos mil os que votam num caudilho que afirma na televisão, com ar compungido, que corre o risco de ser assassinado por ciganos e que, quando sofreu o célebre refluxo esofágico, julgava ter sido envenenado. São tantos quantos os que confiaram o seu voto ao PS, um dos partidos fundadores da nossa democracia liberal, o de Mário Soares, de Jorge Sampaio ou António Guterres.»

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José Luís Carneiro

 


Esta luminária afirmou hoje isto. Como se todos os partidos não tivessem perdido votos para eleição de mais deputados. (Resultados totais: o PS teve mais 4313 votos do que o Chega…)

O PS que se cuide ao eleger este futuro(?) SG ou o trambolhão será maior ainda.


O voto na emigração e a realidade mediada – uma hipótese

 


«Comecemos por esclarecer a perplexidade de muitos: como é que emigrantes votam num partido que faz campanha agressiva contra a imigração? O espanto resulta de uma ingenuidade bondosa: a maioria vota a pensar nos seus interesses, não com base num sentimento de justiça ou reciprocidade. Os imigrantes não se identificam com os outros imigrantes, mas com o seu próprio problema. Depois arranjam critérios para se excluírem do "problema" geral: são europeus e cristãos, chegaram há mais tempo, integraram-se, trabalham. Ao contrário dos outros, claro.

A falta de empatia com quem vive o mesmo drama que viveram é natural: os imigrantes são os que se sentem mais ameaçados pela concorrência de outros imigrantes. São os que lhe estão mais próximos na escada social de um país. É, por isso, muito comum votarem em partidos que aparentemente os combatem.

No caso dos resultados dos círculos da emigração, que deram uma vitória ao Chega nos dois círculos (com empate em número de deputados com a AD), o voto é, no entanto, para o parlamento do país de origem.

Fui, há um ano, a convite do maior sindicato suíço, falar com emigrantes (portugueses e não só) sobre o 25 de Abril (a conversa foi a 26), poucos dias depois das eleições que revelaram o Chega como maior partido português no círculo da Europa. A Suíça foi determinante para esse resultado. Tudo o que me explicaram foi por interpostas pessoas, porque estes sindicalizados não eram eleitores do Chega. E não ficaram claras as razões do resultado especialmente impressionante naquele país. Da influência de um empregador a queixas muito específicas, tudo me chegou ao ouvido. Apesar de esperar estudos mais aprofundados, nada me pareceu verosímil para uma tendência que parecia transversal na emigração portuguesa, na Europa e fora dela.

Se é verdade que o voto da emigração mais recente pode ser determinado pela situação no país (precisaria de saber o seu peso relativo no voto), cuja leitura pode ser mais severa por parte dos que se viram obrigados a partir, isso não acontece com as comunidades instaladas, que, mantendo uma relação com a realidade portuguesa, não sofrem boa parte dos problemas que temos dado como justificação para o crescimento do Chega.

Os emigrantes na Suíça ou no Brasil não vivem a falta de habitação, não têm contacto com o crescimento da imigração e não se confrontam com os efeitos da pressão sobre serviços públicos em território nacional.

Tirando a parte que emigrou há menos tempo, nada disto os afeta diretamente. E, no entanto, o seu voto de protesto foi ainda mais significativo do que no território nacional. O contacto mediado com esta realidade parece ter, portanto, ainda mais impacto do que o direto.

Só que esse contacto há de ser ainda menos mediado pela comunicação social do que no país. Apesar de muitos verem televisões nacionais ou consultarem sites de notícias, arrisco-me a dizer que a utilização das redes como forma preferencial de informação será ainda mais intensa. E a distância pode tornar essa experiência ainda mais imersiva do que a de quem, apesar de tudo, tem contacto direto e permanente com o que se passa no país. Quando houve tumultos em Lisboa, os meus vizinhos alentejanos perguntavam-me se não tinha receio de ir à cidade, imaginando toda a capital em chamas. Os mitos que se espalham, entre os emigrantes, sobre os benefícios dos imigrantes que chegam a Portugal, têm um efeito ainda mais poderoso junto de quem teve de partir.

Não estou a diminuir as dezenas de razões que ouvi na Suíça, há um ano, de quem conhece a realidade da emigração. Estou a sublinhar, como hipótese plausível, que a forma como nos informamos, debatemos e nos organizamos é determinante para o voto. Que não basta perguntar de que se queixam as pessoas. Precisamos de saber como lhes surge a realidade. Não é por acaso que o crescimento da extrema-direita tem coincidido com a preponderância desta forma de nos informarmos.

Soa mal dar esta explicação, porque todos se esforçam para procurar uma forma de identificação empática com este voto, tentando recuperá-lo para a democracia. Mas, assumindo que há muitas razões para chegarmos a este ponto, seria bom não ignorarmos, para ficarmos bem no retrato, um dos fatores mais distintivos deste tempo. Para não continuarmos a bater em portas erradas. E para não continuarmos a adiar a regulação das redes sociais, pressionados pelos mesmos que, chegados ao poder, esmagam a liberdade de expressão dos outros.»


25.5.25

“Estou farto!”

 


«A SIC fez um vox populi em Sintra para perceber como o Chega venceu o segundo concelho mais populoso do país. A resposta de quase todos os inquiridos foi: “Estou farto!” Depois desfiavam queixas que, tirando a imigração e a habitação, são de sempre e poderiam levar ao voto em qualquer outro partido. Sabemos que este é o tempo da deceção. Nunca se prometeu tanto para esperar tão pouco. E nunca os instrumentos de revolta foram tão atomizados. As pessoas têm a sensação justificada de não ter poder na mudança. Por isso usei, há uns meses, a imagem de abanar uma árvore que se sabe que não cairá. Ainda assim, foi mais gente às urnas só para votar num partido que sabem (as pessoas não são parvas) ser ausente de proposta.

Da desigualdade à precariedade e assustadora rapidez de tudo, há muitas razões para explicar um fenómeno global que acelerou depois de uma crise financeira paga pelos de baixo e cresceu com a pandemia. E há, claro, o contexto nacional, em que o debate doméstico se tem concentrado e onde destaco a substituição da saudável polarização programática pelo confronto de personalidades, que só poderia favorecer o rei do espetáculo. Mas, no crescimento da extrema-direita, na consolidação de três blocos políticos e na derrocada do centro-esquerda, apenas chegámos com atraso a uma Europa onde só seis países (em 27) têm a direita abaixo dos 50%.

É verdade que a imigração teve nestas eleições, como em muitas na Europa, um peso extraordinário. Ao lhe dar centralidade política, o Governo contribuiu para a sua centralidade eleitoral, mas é muito mais do que isso. Esta é a transformação demográfica mais significativa desde a vinda dos “retornados”, culturalmente mais próximos e em menor número. Por isso temos de o discutir. Só que o debate está armadilhado. Independentemente do falhanço do SEF, da AIMA ou da manifestação de interesses, a circulação aumentou exponencialmente em todo o mundo e políticas mais ou menos restritivas não têm conseguido controlar mais do que a taxa de regularização. Os imigrantes entram na mesma. A não ser, claro, que aceitemos viver num Estado policial. A esquerda varia entre o discurso dos direitos humanos, moralmente correto mas politicamente inútil, e o utilitarista, que, apesar de ser indiscutível que a economia colapsava sem imigrantes, se confunde com a lógica neoliberal. O debate necessário, sobre o reforço da coesão social para conseguir enfrentar um fenómeno imparável, é demasiado complexo e pouco mobilizador. Usando uma frase citada por Paul Mason em “How to Stop Fascism”: “A extrema-direita fala com as entranhas, a esquerda com o Excel.” O imigrante ou o cigano são reconhecíveis enquanto o patrão já não está na fábrica, está numa offshore e não tem rosto. E o rico que o Bloco quer taxar é invisível, parece-se com alguém próximo que não é assim tão rico ou podíamos ser nós se o “sistema” deixasse.

Parece a conversa da “culpa é do TikTok” e até ajuda a desculpabilizar uma comunicação so¬cial que passou dois dias atrás de um político com azia e talento para o drama, mas não devemos desprezar o poder imersivo das redes sociais. Há uns dias, um vizinho e amigo que vive parte do tempo numa zona com muita imigração do subcontinente indiano falava-me da “invasão”. Quis saber do que se queixava. Teve problemas com algum? Nunca. São concorrência no seu emprego, baseado na agricultura assalariada e em biscates? Sobra trabalho para falta de mão de obra. A dada altura da conversa falou-me de casas e direitos que recebiam e faltavam aos portugueses socorrendo-se de um vídeo que viu. Alguém que vive ao lado de imigrantes foi mais impactado pelas redes do que pela experiência pessoal, que se fica por ter assistido a alguns conflitos. Estou a dizer que não há problemas? Há e a tendência será para haver mais, porque a circulação vai aumentar. Aquele vídeo teria um impacto menor numa zona sem imigrantes. O que as redes determinam é o estado de espírito com que as pessoas olham para problemas reais. Uma pessoa que fez campanha disse-me que passou dias a desmentir, nos mercados, falsos recibos da Segurança Social que lhe mostravam no telemóvel. A produção de desinformação tem uma escala que a democracia nunca conheceu.

Isto não serve para ignorar as razões para o desconforto do “estou farto” que se expressa no voto. Serve para sabermos dos limites da eficácia das nossas respostas. O crescimento da extrema-direita não vem das redes. A dificuldade em combater as doenças de que ela é sintoma sim. Há uma solução? O regresso à política de proximidade, local, de contacto físico e empático. Mas essa revolução, que acredito que acontecerá, ainda vem longe.»


22.5.25

E a cerca sanitária?

 


«Agora é que isto vai aquecer. Ainda bem que o Chega é um partido de direita, porque, agora, a mesma direita (designada não radical), sempre tão condescendente e indecisa em sancionar os extremismos e manifestos neofascistas actuais, por receio de perda de eleitorado, e refém de si mesma e dos seus fantasmas, terá de conviver (o que implica a família política alargada – conservadores, sociais-democratas, democratas-cristãos, neoconservadores, neoliberais) com um partido que é, em si mesmo, uma ameaça à democracia, à seriedade e à lisura políticas.

Agora, sim, eles não vão ter medo. O estilo caceteiro, boçal e populista do Chega inundará o Parlamento e o país (“Portugal é nosso”, cantam) de indecência política e terá todo o terreno livre para a provocação e desumanidade: “Chora, Pedro”, gritam, ainda a quente. “Eles ainda não viram nada”, asseverou Ventura. Os comentadores chamam a isto direita radical. Outros, extrema-direita. Continuamos a usar pinças nas palavras.

“O Chega derrotou o PS de Mário Soares, matou o PCP de Álvaro Cunhal, varreu do mapa o BE”, declara a jactância de Ventura. Não se poupará em palavras e novas ameaças: a História corre a seu favor.

Numa altura destas, a vitória de Montenegro soa a presente envenenado. Com questões judiciais em curso a envolvê-lo pessoalmente, resta saber em que é que isso não será uma fragilidade que permita ao Chega (e a outros) abrir uma nova crise política ou torná-la um espectro.

“Esta vitória é do povo português”, disse ainda o mesmo Ventura. Vamos lá a ver: é a vitória deles, dos que votaram Chega. O povo é muito mais do que esta gente e está em mais lados. Mas é a derrota de toda a outra direita que se pôs a jeito. E a derrota da esquerda, adormecida entre querelas sobre NATO, Ucrânia, direitos individuais e questões das minorias, quando deveria procurar uma ampla frente que distinga, de uma vez por todas, esquerda de direita, o que assenta na justiça social, na igualdade, na defesa dos sistemas públicos e na defesa de uma expressão sensata das ideias. Elementar.

Sem cairmos na falácia irresponsável de rotular o eleitorado do Chega como gente não recomendável (não é possível, perante números desta dimensão), fica a certeza de que um dos “D” de Abril, "Desenvolver", não foi logrado: não se tratava apenas de betão, estradas, pontes, parques das nações. Era necessário edificar uma massa humana dotada de valores humanistas, conhecedora, informada, educada. Isso falhou. Vemo-lo até nas escolas, em que alunos, de herança económico-social precária, em especial dos cursos profissionais e sem cultura política e qualquer atitude crítica, tecem loas ao partido de Ventura, sem saber porquê. Convém também compreender como o voto, a Sul, migrou do PCP para o PS e daí para o Chega.

Agora, sim, a direita terá de se confrontar consigo mesma e com a tibieza (ideológica) de ter claudicado em forjar uma cerca sanitária conjunta para fazer face ao Chega. Teve imenso tempo para o fazer e pode dizer-se que colaborou com esta força política. Apostada em usar esse partido como trunfo para esvaziar a esquerda, incluindo o PS, não percebeu que o cancro alastra a todo o corpo.

E numa situação em que uns reclamam a sua parte no assalto ao poder e outros a sua exclusividade e sobrevivência, a gestão do caso Spinumviva pode engendrar compromissos insidiosos (como acontece entre forças que se repudiam, mas respeitam) e, num caso assim, é a Constituição (e, portanto, o Estado social) que estará em risco, como, aliás, em tom rapace, avançou já Cotrim de Figueiredo na noite eleitoral. Parece que já vimos este filme em algum lado. É de ficarmos preocupados?»


21.5.25

As eleições à luz da experiência europeia

 

«As eleições de domingo representam uma mudança estrutural do nosso sistema político-partidário – e não apenas um acidente de percurso –, sobretudo se olharmos para os seus resultados à luz da experiência dos nossos parceiros europeus. A maioria ampla que os dois grandes partidos democráticos garantiram desde as primeiras eleições livres desapareceu. O partido fundador da democracia e o primeiro responsável pela nossa inquestionável opção europeia perde o seu lugar central. Com quase total certeza, o partido nacionalista e populista que nasceu há menos de seis anos ganha o estatuto de líder da oposição no Parlamento. (…)

O que Ventura defende é "trumpismo" puro e duro, à moda portuguesa – ao lado do "povo" contra as elites; contra os imigrantes que são o novo inimigo "externo"; contra a chamada cultura "woke", por uma revolução ultraconservadora quanto baste. É uma espécie de etnonacionalismo cristão, à moda de Victor Orbán, que combate o alegado declínio moral da Europa laica, liberal e aberta ao mundo.»

Teresa de Sousa
Newsletter do Público, 20.05.2025

Todos, todos, todos? Montenegro não é o Papa, que escolha!

 


«Todos os putativos candidatos à liderança do PS, em circunstâncias muitíssimo difíceis para o partido, defendem um acordo de viabilização do governo de Montenegro e do seu segundo orçamento. Independentemente da opinião que eu tenha sobre isto, Montenegro não tem, desta vez, de que se queixar. Assim, o Presidente da República deveria usar o pouco poder que de influência que lhe resta para impedir que, havendo condições políticas para uma solução estável, ela seja recusada por quem tem o dever de a apresentar.

Isto quer dizer que Marcelo não deve aceitar, sem uma reação ativa, o que foi anunciado pelas principais figuras da AD: que não negoceia com ninguém, apenas o fará medida a medida. Como já se percebeu, esta estratégia tem como objetivo vir a penalizar o Partido Socialista, mantendo-o fora do círculo de poder sem o deixar fazer oposição. Em vez de um interlocutor estável, que resulta de uma negociação clara, tem um refém, sujeito à sua arbitrariedade. E aproveita a ausência de liderança socialista para continuar a brincar com o fogo. Uma brincadeira que nos ofereceu o começo da destruição do nosso sistema partidário democrático.

Deste ponto de vista, e se o PS acha inevitável apoiar este governo, faz mais sentido a linha de Fernando Medina, que impõe condições para isso – não integração da IL no governo; o interlocutor ser, de forma permanente, o PS; e um compromisso de combate à progressão do Chega –, do que a disponibilidade incondicional de José Luís Carneiro. A escolha é o PS fazer-se de morto ou assinar já a certidão de óbito. Mas isso é com o PS.

Deixo para amanhã o preço que será pago pelos socialistas se se transformarem em base de apoio, mesmo que informal, deste governo. Será um erro histórico (a direita tem maioria e está na altura de assumi-la), mas o PS parece estar disposto a pagar esse preço e talvez não tenha espaço para outra coisa. Seja como for, se há dois partidos disponíveis para negociar, deve ser forçada a negociação. A AD tem de fazer escolhas. Se não escolher, o Presidente, que tem pouco poder para forçar seja o que for, deve prolongar a negociação até que fique claro, para memória futura, quem deseja manter as condições para a instabilidade. Mas os sinais que dá são, como há um ano, de uma enorme pressa para atamancar uma solução instável.

A AD não pode ter dois cordões sanitários, em que fala com dois mas não se compromete com nenhum. Ou fala com o Chega, ou fala com o PS. Montenegro não é o Papa, que recebe todos, todos, todos. É um primeiro-ministro com o dever de governar no quadro eleitoral que lhe foi dado pelos eleitores, pela segunda vez num ano. Porque não é o PS que fica refém. É o País. Por isso, o Presidente não se deve manter passivo se a AD, aproveitando um vazio de poder no PS, quiser manter o pântano, para ver se destrói todos os concorrentes neste processo. Já basta o que Costa fez ao resto da esquerda.

Com a vitória eleitoral, o óbvio parece ter sido esquecido: Luís Montenegro usou as suspeitas sobre o seu comportamento ético (que os votos não apagaram, nem apagarão) para criar uma crise e tentar conquistar uma maioria com a IL. Apesar do crescimento, ficou a léguas disso. O seu reforço “muito significativo” corresponde ao pior resultado de sempre numa reeleição de um primeiro-ministro.

Montenegro deve assumir a vitória, respeitando, na sua plenitude, a vontade dos portugueses. E os portugueses decidiram, pela segunda vez, não lhe dar maioria para governar sem precisar de outros. Respeitar os resultados é respeitar os eleitores que votaram no PS e no Chega, quase 1,4 milhões em cada um.

Todos os cenários, seja o acordo com o Chega ou com o PS, são péssimos. Repetir o anterior é impensável. Sobretudo quando há interlocutores para assim não ser. Luís Montenegro não pode continuar a querer ficar com o bolo enquanto o come.»


20.5.25

O Chega está no país real? E os outros partidos?

 

«Em 2024 o Chega foi o partido sensação das legislativas, ao passar de 12 para 50 deputados na Assembleia da República. Ano após ano desde 2019, quando entrou no Parlamento apenas com André Ventura como único deputado, a voragem do partido que mais ostracizado e atacado tem sido na História da democracia - independentemente de ser com razão ou não - triunfou de novo, ao conseguir subir outra vez a sua votação, para 58 deputados, e com a possibilidade de eleger ainda mais um, pelo menos, pelo Círculo da Emigração. Acresce que, pela primeira vez, outro partido que não o PS ou o PSD, se pode tornar a segunda força política do país.

No ano em que se comemoram o cinquentenário das primeiras eleições livres será de subscrever as palavras de Pedro Pinto, o líder parlamentar do Chega, quando afirma que “o sistema já tremeu e foi graças a nós que tremeu”?

O que aconteceu nestes seis anos, ou melhor, o que não aconteceu, foi que o Chega, tal como todos os partidos populistas de extrema-direita, encontrou o bode expiatório para os problemas que boa parte da população sente no seu dia a dia e que, embora alguns não concordem e procurem os reais responsáveis, houve desta vez quase um milhão e 400 mil que acreditaram.»

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Depois do Silêncio

 


«Durante décadas, a política portuguesa foi um compasso previsível: um partido sai, outro entra, o essencial mantém-se. O centro era poder e o poder fingia bastar-se no centro. No domingo, o tabuleiro deu de si.

Ainda sem os votos da emigração, o expectável é que o PS ceda o segundo lugar ao Chega. A AD venceu sem glória, por falta de concorrência. E o velho equilíbrio — dois partidos grandes, outros tantos acessórios — perdeu o eixo. A geometria do regime inclinou-se.

O discurso de Ventura é rudimentar. Mas não precisa de ser sofisticado quando o terreno está seco. Não tem soluções. Tem alvos. Aponta para a insegurança, para a imigração, para os “comentadadeiros”, para o “jornalixo”, para o “sistema”. E, sobretudo, preenche o vazio que os outros deixaram.

E houve muito vazio.

A oposição foi feita de sombras, de temas reciclados, de indignações episódicas. Pedro Nuno Santos tinha à sua frente um Governo minoritário (de apenas um ano, é certo), uma economia a acender sinais de alerta, um SNS que começou a recusar grávidas sem chamada prévia, uma erosão de confiança num Primeiro-Ministro ausente. E, ainda assim, não conseguiu explicar em que é que o seu projecto político se diferenciava.

A AD, entretanto, completava o seu recentramento performativo: falava com os pensionistas, negociava com os sindicatos da função pública, prometia estabilidade. O PSD ocupava, sem pudor, o espaço que o PS esvaziou. Revalorizava as carreiras dos professores com o excedente orçamental que Fernando Medina tinha deixado em cofre. Para o eleitorado, o contraste foi penoso: à frente, um reflexo diluído; atrás, oito anos de governação que foram ficando indistintos do seu próprio sucedâneo.

A resposta do eleitorado foi clara. Não por entusiasmo. Por subtração.

Alegremente se dizia que o Chega tinha deixado cair a bandeira da imigração. Não deixou. Só a afixou mais alto. Capitalizou a ausência de todos. O discurso de Ventura não tem densidade. Tem volume. Não tem soluções. Tem alvo. Aponta para a insegurança, para a imigração, para a “bandalheira”, para o “jornalixo”, para os “comentadeiros”, para o “sistema”. E ninguém contrapôs. Nem com dados. Nem com presença. Nem com coragem.

Bastava ter dito o básico: que a criminalidade não aumentou. Que a perceção de insegurança é manipulável. Que há uma diferença entre o que se sente e o que é. Mas ninguém quis complicar o discurso com factos.

Porque, no fundo, é isso que está em causa: não a realidade, mas a forma como ela é apresentada. A criminalidade não aumentou. O que aumentou foi a exposição a um enredo. Como num filme de terror: os sons da casa não mudam, mas, depois dos créditos, cada barulho em casa parece ameaça. O medo não vem dos factos. Vem da predisposição. E o Chega soube escrevê-la.

Ninguém desmontou essa predisposição. Nem com números. Nem com política. Nem com presença. E foi nesse vácuo que a percepção se consolidou como verdade.

A Iniciativa Liberal colou-se ao poder. Pagou o preço. O Bloco implodiu. O PCP ficou à margem do seu tempo. Livre avançou — mas só até à linha urbana. E Montenegro, que não apresentou ruptura nem brilho, venceu por ser o último que parecia de pé. Não foi esperança. Foi contenção. O Chega incendiou o mapa. Montenegro segurou os cantos. Os restantes deixaram cair o papel.

O populismo cresce onde há raiva. Não (só) por afinidade ideológica, mas por identificação emocional. Vidas demasiado longas para salários demasiado curtos, e uma indignação que nenhuma campanha conseguiu absorver. A esquerda, que há décadas reclama o monopólio da justiça social, foi incapaz de a traduzir.

O problema não é apenas o grito. É tudo o que o antecedeu. O silêncio. A ausência. A ideia perigosa de que bastava estar certo para continuar a ser ouvido.

É fácil, e sobretudo cómodo, rotular todos os eleitores do Chega como racistas ou extremistas. Há quem o seja. Mas há também quem esteja apenas à procura de uma linguagem que os reconheça. Gente que já não vê futuro. Que não sente que a política fale a partir do mesmo lugar. Que não acredita em quem, nos debates, promete mundos sem nunca desce ao deles.

Nada disto exige branquear o Chega. Portugal continua a ser um país mal resolvido com o seu passado colonial, tentado por fantasias de autoridade. O Chega cavalga esse desconforto, e empurra-o para o extremo. Abre uma porta perigosa. E essa porta não se fecha sozinha.

O erro foi pensar que bastava denunciá-la. Que bastava gritar “perigo” do lado de fora, sem nunca entrar para disputar o espaço. O erro foi acreditar que a indignação chegava, quando o que faltava era resposta.

Não basta indignação. É preciso dar resposta à pergunta que nenhum cartaz responde: “e eu, onde fico no meio disto tudo?”. Enquanto isso, o Chega continuará a crescer.

Não por ser forte, mas porque os outros estão a falar sozinhos.»


19.5.25

19.05.2025 -18h

 

Chego a casa e ligo a TV (o que ainda não tinha feito hoje), para ouvir alguns rescaldos das eleições.

O que há em TODOS os canais de notícias? Câmaras atrás de um autocarro verde.

Isto vai, camaradas, o povo é sereno!


Sim, também foi isto

 


Dedicatória a todos os que não votaram em partidos à esquerda do PS, como sempre tinham feito, porque acreditaram que iam estar entre os vencedores discípulos do voto útil (no dito PS, claro). Tiveram medo, muito medo? E estão felizes com o resultado?

A caminhada do Chega para o poder

 


«Ainda não vieram os resultados da emigração, que não permitem perceber se o PS se manterá em segundo lugar. Mas, com 58 deputados cada um, é praticamente impossível não ficar atrás no número de deputados, já que o Chega deverá eleger dois em quatro.

A política portuguesa mudou. A AD venceu, conseguindo que a queda do seu governo, provocada por ele próprio, o beneficiasse. Mas não é essa a mudança. Já aconteceu no passado e, bem vistas as coisas, a subida não lhe permite construir uma maioria para governar com a IL. Foi pífia. O que mudou tudo é, obviamente, o Chega.

O que muda é o Chega ser, a partir de hoje, candidato ao poder. Nem sequer é claro que não venha a ser o líder da oposição. O cenário pode ser bom para Ventura. Se vier uma crise económica, com a imigração colocada no centro do debate político pela AD (que não conquistou um voto ao Chega com essa estratégia) e, mal as coisas fiquem mais feias, os casos de Montenegro prontos a regressar (o eleitorado liga à ética quando falta o dinheiro), tudo jogará a seu favor, agora que é visto como candidato ao poder.

Mas este resultado também traz um problema ao Chega: se é candidato ao poder, se desta vez já não lhes chega a abstenção para barrar ou aprovar qualquer coisa, a neutralidade já não é uma hipótese. E isso obriga o Chega a repensar a sua tática. Não é a moderar-se. Não é a tornar-se mais propositivo, já que nem tem capacidade para isso. É preparar uma caminhada em que o voto para “abanar o sistema” não chega. A caminhada para o poder.

A pressão para um PS enterrado nos escombros da hecatombe da noite de ontem será para viabilizar o próximo governo. E não apenas a tomada de posse. Talvez José Luís Carneiro venha a ser escolhido para fazer de morto, o que até faria sentido. Nunca um líder que se prestou a isto – Marcelo e Mendes – chegou a votos. Problema? É que quando este governo falhar, ou quando as pessoas perceberem que falhou, dependendo do ponto de vista, não é o PS que se apresentará como alternativa. É o Chega.

Certo, é que o ambiente político vai mudar muito. Não apenas nas instituições, mas no espaço público. O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior já teve um gostinho dessa mudança. Isso, que talvez seja o mais importante nos próximos tempos, deixo para depois.


18.5.25

Já reflecti, acabem com isso!

 


Chega nas TVs

 


Sem areia na cabeça

 


«Amanhã o país regressa ao mundo real. Durante 15 dias, entre promessas inatingíveis e críticas catastrofistas, ergueu-se uma bolha de arruadas e comícios, de abraços e discursos, de bandeiras e balões, que quase eclipsaram o resto do mundo. Foi tempo de campanha eleitoral, hoje é dia de votar, amanhã faremos as contas com a realidade.

Lá fora, o mundo não parou de afundar-se. Continua a miséria moral de Israel e o sofrimento dos 2,2 milhões de palestinianos, que os israelitas querem expulsar de Gaza à força da fome e da limpeza étnica. Nas contas que nos dizem respeito, a União Europeia continua, como grande parte da comunidade internacional, a ser cúmplice, por inacção e silêncio, de um genocídio.

O que a UE não faz em nome da Humanidade, pelo menos vai fazendo em nome do interesse próprio, mantendo viva a solidariedade com os ucranianos invadidos pela Rússia, que continuam privados de uma vida normal em paz. Nada que importe a Vladimir Putin, que vai alimentando negociações “de fachada”, enquanto no terreno as tropas continuam a semear a morte por vontade de um ditador.

O país que poderia dar o maior contributo para resolver qualquer uma destas crises está entregue aos devaneios de um Presidente que prometeu resolver estas guerras em semanas, se não mesmo em dias e que, como era óbvio, ainda nada fez.

“O Ocidente, enquanto actor geopolítico, já não existe”, defendeu recentemente Timothy Garton Ash, e Donald Trump vai garantindo que isso seja, talvez para sempre, a verdade de um mundo novo, em que os aliados de ontem são os inimigos de hoje e os amigos de agora serão quem estiver disponível para pagar ou para se submeter. Pelo caminho, o seu próprio país vai ficando mais pequeno em vez de trilhar a grandeza prometida, mas, para já, isso não parece ter força suficiente para inverter o caos.

A disrupção de Trump ainda está no início, mas as ondas de choque já estão a atingir o mundo inteiro. O choque entre países vai ficar mais agreste, a economia mais incerta, tudo mais perigoso. Não vale, como avisou o Presidente da República, “meter a cabeça na areia. Ficar indiferente à gravidade do instante vivido. Fazer de ausente". Votar pode parecer pouco perante a dimensão dos problemas que enfrentamos, mas é a nossa assinatura de cidadania, é o momento de escolher que mundo queremos.

Há 51 anos, um grupo de capitães um pouco indisciplinados, mas com o coração no local certo, abriu-nos na Primavera a porta deste jardim que temos a obrigação de cuidar. Hoje é dia de semear.»


Música para Dia de Reflexão (3)