8.5.09

Como falamos a democracia?
















Um texto de Mia Couto, a ler na íntegra.

«A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra “democracia”? Num idioma em que “Presidente” se diz “Deus”? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é “hossi”. Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa. (...)
Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulário apropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países. Eles começaram a luta e essa mesma dinâmica contaminou (mesmo com uso de termos e discursos inteiros em português) as restantes línguas locais».

(Via Lusofilia)

2 comments:

Anónimo disse...

Mia Couto é um espírito brilhante, capaz de pensar a coisa africana, tanto em termos de incomodar um certo espírito tradicionalista africano, como igualmente um certo (isto é, errado) espírito eurocêntrico.

Aí pela tribo dos caras pálidos também vão faltando palavras novas para nomear "outra coisa" diferente dessa "democracia". Ou então reservar a palavra democracia para "outra coisa", e passar a chamar a isso, por exemplo, demerdocracia.

nelson anjos

jpt disse...

Francamente. Que pobre raciocínio, que apenas o exotismo pode elevar. Não utilizamos nós, em portuguÊs, "senhor" para a divindade, para o poderoso, e até para o mero vizinho, sendo explícito para que usa o termo a sua significação contextual? Será a mentalidade dos falantes em moçambique "menos lógica" que não entendam esta diferença.
Inacreditável que o Mia tenha escrito um oitocentismo destes, surpreendente o acolhimento que o texto tem. De arrasar, não de citar