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29.12.25

Estados Unidos e ONU

 


«Os Estados Unidos anunciaram esta segunda-feira dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) para a ajuda humanitária da ONU — um décimo do financiamento anual que vinham a garantir nos últimos anos.

Nos últimos exercícios, o apoio humanitário norte-americano a programas das Nações Unidas atingiu cerca de 17 mil milhões de dólares anuais (14,5 mil milhões de euros), segundo dados da própria organização. Do total, entre oito e dez mil milhões correspondiam a contribuições voluntárias, a que se somam milhares de milhões pagos em quotas associadas à participação dos EUA na ONU.»


14.12.25

14.12.1962 – Portugal fortemente condenado na ONU



 

No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insistiu na condenação da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).
Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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2.12.25

E a ONU vai emagrecendo

 


«O secretário-geral da ONU, António Guterres, esteve a analisar o orçamento da organização que dirige e concluiu que vai ser necessária uma redução de 2681 postos de trabalho, ou 18,8%, em comparação com a tabela de pessoal aprovada para 2025. "Embora as reduções propostas sejam substanciais, foram cuidadosamente calibradas para preservar o equilíbrio entre os três pilares da organização: paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos", assegurou Guterres, num momento em que a ONU atravessa uma grave crise de liquidez.»


12.10.25

12.10.1960 – A sapatada de Nikit

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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14.12.24

14.12.1962 – Portugal fortemente condenado na ONU



 

No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insistiu na condenação da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).
Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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12.10.24

12.10.1960 – A sapatada de Nikita

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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28.9.24

Tristeza e vergonha

 


«Esta semana, em Nova Iorque, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de uma centena de líderes políticos, de outros tantos países, fizeram discursos sobre o futuro para o Mundo com conteúdos que nos apresentam esse mesmo Mundo a desmoronar-se debaixo dos nossos pés. Cava-se o abismo para onde podemos ser empurrados por loucuras belicistas, por crises climáticas e ambientais, por desrespeito pelo Direito Internacional, por desigualdades e injustiças profundas que historicamente espoletam e ampliam guerras, pela recusa em trabalhar agendas comuns necessárias para enfrentar os problemas globais do nosso tempo.

O futuro, em grande medida, é feito de respostas ao presente contínuo. Ora, neste conclave, a maioria dos participantes mais determinantes não apresenta propostas para tratar os problemas de hoje. Admite até que as guerras e genocídios a que estamos a assistir, em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano (António Guterres disse “o inferno está à solta no Líbano”), no Sudão, na Ucrânia se agravem, ampliando sofrimento, miséria, pobreza, eliminação de direitos humanos.»


26.9.24

As duas guerras

 


«Faz agora um ano que os líderes de quase todo o mundo “se mudaram” para Nova Iorque para, no âmbito da 78.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, sinalizarem prioridades e debaterem soluções para os problemas centrais do planeta. No topo deles estava ainda a guerra na Ucrânia. Sem Vladimir Putin e sem Xi Jinping (entre outros ausentes), os restantes líderes propunham-se reconstruir a “solidariedade global”. Foi antes de 7 de Outubro.

Em 2024, não só a solidariedade global não foi reconstruída, como a 79.ª reunião magna da ONU, que decorre por estes dias, terá de lidar com um velho conflito com novos contornos: o do Médio Oriente.

A Rússia mantém-se na Ucrânia e a pressão no Médio Oriente continua alta, mas o mundo mudou. No último ano, a Ucrânia estendeu a sua ofensiva (ou melhor, defensiva) a solo russo e teve autorização para o fazer com armas ocidentais; Israel sofreu um ataque inédito do Hamas ao qual reagiu com violência desproporcional (matanças e destruição) sobre o povo de Gaza, incluindo no seu plano de vingança os países vizinhos; e o Irão já veio dizer que o Líbano não pode ficar sozinho contra Israel.

O mundo não tem só duas guerras. Aliás, os dados mais recentes estimam que um quarto da população mundial viva em zonas afectadas por conflitos e que uma em cada cinco crianças esteja no meio de uma guerra ou tenha sido obrigada a deslocar-se por esse motivo. Mas estas duas são suficientemente importantes para que as Nações Unidas ambicionem mais de si próprias.

Se não consegue realmente mediar a paz, promover cessar-fogos ou encontrar outras formas de mitigar a impunidade dos líderes ofensores, agressores e opressores, a ONU precisa, no mínimo, de abrir o debate em torno da suspensão definitiva, por parte dos seus membros (e alguns estão entre os mais importantes), do fornecimento de armas ou da “ajuda” militar a países que invadem outros territórios.

Seria um bom sinal vindo de Nova Iorque, mas implicaria ultrapassar o inultrapassável: a divisão da própria Organização das Nações Unidas em dois blocos.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, que entretanto se reunirá com o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, vestiu esta semana o fato de optimista e disse que é “preciso acabar com a guerra”. Não basta dizê-lo. E, mais do que isso, com o país à beira de eleições presidenciais que podem pôr Kamala Harris ou Donald Trump no poder, não é suficiente ser Biden a dizê-lo.»


10.9.24

Os líderes mundiais devem relançar a cooperação global para hoje e amanhã

 


«Estão em curso, em Nova Iorque, as negociações finais para a Cimeira do Futuro que terá lugar este mês, durante a qual os chefes de Estado irão negociar a reforma dos alicerces da cooperação internacional.

As Nações Unidas convocaram esta Cimeira única devido a um facto evidente: os problemas mundiais estão a avançar mais rapidamente do que as instituições que foram criadas para os resolver.

Basta olhar à nossa volta. Os conflitos ferozes e a violência estão a infligir sofrimentos terríveis; as divisões geopolíticas são abundantes; as desigualdades e as injustiças estão por todo o lado, corroendo a confiança, agravando os ressentimentos e alimentando o populismo e o extremismo. Os velhos desafios relacionados com a pobreza, a fome, a discriminação, a misoginia e o racismo estão a assumir novas formas.

Entretanto, enfrentamos ameaças novas e existenciais, desde o caos climático descontrolado e a degradação ambiental até às tecnologias, como a Inteligência Artificial, que se desenvolvem num vácuo ético e jurídico.

A Cimeira do Futuro reconhece que as soluções para todos estes desafios estão nas nossas mãos, mas precisamos de uma actualização dos sistemas que só os líderes mundiais podem oferecer.

A tomada de decisões ao nível internacional está presa no tempo. Muitas instituições e ferramentas internacionais são um produto dos anos 40 – uma era anterior à globalização, anterior à descolonização, anterior ao reconhecimento generalizado dos direitos humanos universais e da igualdade de género, anterior à chegada da humanidade ao espaço – já para não falar do ciberespaço.

Os vencedores da Segunda Guerra Mundial ainda têm preeminência no Conselho de Segurança da ONU, enquanto todo o continente africano carece de um lugar permanente. A arquitectura financeira mundial pesa fortemente contra os países em desenvolvimento e não proporciona uma rede de segurança quando enfrentam dificuldades, deixando-os afogados em dívidas, o que desvia fundos que deveriam ser investidos na sua população.

E as instituições internacionais oferecem um espaço limitado para muitos dos principais actores do mundo de hoje – da sociedade civil ao setor privado. Os jovens que herdarão o futuro são quase invisíveis, enquanto os interesses das gerações futuras estão subrepresentados.

A mensagem é clara: não podemos criar um futuro adequado para os nossos netos com um sistema construído para os nossos avós. A Cimeira do Futuro será uma oportunidade para relançar uma colaboração multilateral adequada ao século XXI.

As soluções que propomos incluem uma Nova Agenda para a Paz centrada na actualização das instituições e das ferramentas internacionais para prevenir e pôr fim aos conflitos, incluindo o Conselho de Segurança da ONU. A Nova Agenda para a Paz apela a um esforço renovado para livrar o nosso mundo das armas nucleares e de outras armas de destruição maciça e alargar a definição de segurança de modo a abranger a violência baseada no género e a violência de gangues. Tem em conta as futuras ameaças à segurança, reconhecendo a natureza mutável da guerra e os riscos de armamento das novas tecnologias. Por exemplo, precisamos de um acordo internacional para proibir as chamadas Armas Letais Autónomas, que podem tomar decisões de vida ou de morte sem intervenção humana.

As instituições financeiras internacionais devem ser o reflexo do mundo de hoje e estar equipadas para liderar uma resposta mais poderosa aos desafios atuais: endividamento, desenvolvimento sustentável, acção climática. Isto significa tomar medidas concretas para fazer face ao sobreendividamento, para aumentar a capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento e para alterar o seu modelo de negócio para que os países em desenvolvimento tenham muito mais acesso a financiamento privado com taxas acessíveis.

Sem este financiamento, os países em desenvolvimento não serão capazes de enfrentar a nossa maior ameaça futura: a crise climática. Precisam urgentemente de recursos para transitarem dos combustíveis fósseis, que destroem o planeta, para as energias limpas e renováveis.

E, tal como sublinharam os líderes no ano passado, a reforma da arquictetura financeira mundial é também fundamental para impulsionar o tão necessário progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A Cimeira irá também focar-se nas novas tecnologias com impacto mundial, procurando formas de eliminar a exclusão digital e de estabelecer princípios comuns para um futuro digital aberto, livre e seguro para todos.

A Inteligência Artificial (IA) é uma tecnologia revolucionária com aplicações e riscos que só agora começamos a compreender. Apresentámos propostas específicas para que os governos, juntamente com as empresas tecnológicas, o meio académico e a sociedade civil, trabalhem em quadros de gestão de riscos para a IA e na monitorização e mitigação dos seus danos, bem como na partilha dos seus benefícios. A governação da IA não pode ser deixada aos ricos: exige que todos os países participem e a ONU está pronta a tornar-se uma plataforma de união.

Os direitos humanos e a igualdade de género são um fio condutor que liga todas estas propostas. A tomada de decisões a nível mundial não pode ser repensada sem o respeito por todos os direitos humanos e pela diversidade cultural, garantindo a plena participação e liderança das mulheres e das raparigas. Exigimos esforços renovados para remover as barreiras históricas – legais, sociais e económicas – que excluem as mulheres do poder.

Os construtores da paz dos anos 40 criaram instituições que ajudaram a prevenir a Terceira Guerra Mundial e conduziram muitos países da colonização à independência. No entanto, não reconheceriam o mundo de hoje.

A Cimeira do Futuro constitui uma oportunidade para construir instituições e ferramentas mais eficazes e inclusivas para a cooperação internacional, em sintonia com o século XXI e com o nosso mundo multipolar.

Apelo aos decisores que não deixem escapar esta oportunidade.»


14.12.23

14.12.1962 – Portugal fortemente condenado na ONU



 

No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insistiu na condenação da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).
Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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27.10.23

O ataque inaceitável contra Guterres desvia-nos das questões essenciais

 


«Na crónica de 13 de outubro lembrei a posição das Nações Unidas sobre o terrorismo. Em resumo, escrevi que o terrorismo e todas as ações criminosas desse tipo, destinadas a provocar vítimas, destruição e o pânico geral, não podem ser justificadas ou minimizadas por considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica ou religiosa. Devem ser sempre condenadas de modo inequívoco. Acrescentaria agora, depois da comunicação que António Guterres fez ao Conselho de Segurança da ONU, que a análise objetiva e fatual do contexto em que esses atos ocorrem não pode ser vista como uma tentativa de desvalorização dos crimes praticados. Reagir como Israel o fez é um abuso inaceitável e uma distração política. Essa análise é imprescindível para que se possa encontrar as vias de solução do problema.

Nessa crónica, e em várias intervenções televisivas, também recordei que a resposta dos Estados, mesmo quando se trate de uma crise de grandes proporções, deve ser adequada e balizada por razões políticas e morais, e igualmente pelo respeito pelas convenções internacionais, os direitos humanos e a lei e princípios humanitários. Tudo isso tem impacto sobre a imagem dos dirigentes do país e sobre a legitimidade das medidas tomadas. Tem igualmente uma forte dimensão humana: hoje não se pode aceitar que à violência sanguinária de alguns se responda com uma violência institucional sem limites. Uma reação desmesurada levará sempre a que saia o tiro pela culatra. O Presidente Macron acaba de reconhecer esse risco, após a sua visita à região. O Presidente Biden, quando em Israel, disse-o de uma maneira oblíqua, mas para bom entendedor, meias-palavras bastam. É preciso, no entanto, que se esteja pronto para ouvir a voz da prudência.

O terrorismo combate-se derrotando os seus agentes, mas não só. Os militares e os polícias, por mais enérgicos e equipados que estejam, não constituem uma solução suficiente. É preciso atacar as causas profundas, denunciar e isolar os Estados que apoiam ou promovem o terror, reforçar a segurança interna e a cooperação entre os diferentes serviços de informação dos países aliados.

Este último ponto parece evidente. Mas há pouco mais de uma semana um tunisino matou dois cidadãos suecos em Bruxelas, num ato obviamente terrorista. Andava à solta na Bélgica, apesar da polícia tunisina ter informado a sua congénere belga sobre a sua perigosidade e pedido a sua captura e extradição.

Escrevo isto a pensar na reação às palavras de Guterres por parte do ministro dos Negócios Estrangeiros e de outros diplomatas israelitas. Repito que considero essa reação inadmissível. O Secretário-Geral expressou um repúdio completo pelos massacres cometidos pelo Hamas, como aliás já o havia feito de forma inequívoca e reiterada. Por outro lado, exerceu o seu dever político e moral, que lhe é reconhecido pelo Artigo 99 da Carta das Nações Unidas, ao chamar a atenção do Conselho de Segurança para as distintas dimensões do problema, incluindo o que considera ser violações da lei internacional. Mostrou independência e equilíbrio perante uma crise extraordinariamente complexa. É isso que se espera das Nações Unidas, é a sua mais-valia, como tive várias vezes que lembrar aos Estados membros, incluindo no Conselho de Segurança.

Voltando à Carta, o Artigo 100 requer que os Estados respeitem o Secretário-Geral e os funcionários das Nações Unidas. Dizer que se "vai dar uma lição" à ONU é uma declaração estrambólica e intemperada, única na história da organização. Também não é admissível, de acordo com a Convenção sobre os Privilégios e as Imunidades da ONU, recusar vistos de entrada aos funcionários, quando a deslocação for de natureza oficial. Por isso, o passaporte dos funcionários tem a designação de Laissez-passer. A única exceção para negar um visto diz respeito à segurança nacional. Nesse caso, o país tem a obrigação de informar o Secretário-Geral, invocando essa razão.

No meio disto tudo, o importante é não perder de vista que a situação naquela parte do Médio Oriente está numa espiral muito perigosa. Cabe a todos os protagonistas compreender a gravidade da situação, os riscos inerentes e procurar as soluções que respondam às preocupações dos dois povos, israelitas e palestinianos. É aí que a atenção do Conselho de Segurança se deve focar. Mas o Conselho, e não o Secretário-Geral, está num impasse muito intrincado.»

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
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25.10.23

Declaração de António Guterres na ONU, 24.10.2023

 


«A situação no Oriente Médio está a ficar mais terrível a cada hora.

A guerra em Gaza está a assolar-se e corre o risco de espiral em toda a região.

Divisões são sociedades fragmentadas. Tensões ameaçam ferver.

Num momento crucial como este, é vital que fique claro sobre os princípios — a começar pelo princípio fundamental de respeitar e proteger os civis.

Condenei inequivocamente os horrorosos e sem precedentes actos de terror do Hamas em Israel de 7 de Outubro.

Nada pode justificar o assassinato deliberado, ferimentos e sequestros de civis - ou o lançamento de foguetes contra alvos civis.

Todos os reféns devem ser tratados humanamente e libertados imediatamente e sem condições. Noto respeitosamente a presença entre nós de membros das suas famílias.

É importante também reconhecer que os ataques do Hamas não aconteceram no vácuo.

O povo palestino foi submetido a 56 anos de ocupação sufocante.

Eles viram as suas terras constantemente devoradas por colonatos e atormentadas pela violência; a sua economia sufocada; o seu povo deslocado e as suas casas demolidas. As suas esperanças de uma solução política para a sua situação têm desaparecido.

Mas as queixas do povo palestiniano não podem justificar os terríveis ataques do Hamas. E esses ataques terríveis não podem justificar o castigo colectivo do povo palestiniano.

Até a guerra tem regras.

Temos de exigir que todas as partes cumpram e respeitem as suas obrigações ao abrigo do direito humanitário internacional; tenham cuidado constante na condução de operações militares para poupar civis; e respeitem e protejam os hospitais e respeitem a inviolabilidade das instalações da ONU que hoje abrigam mais de 600.000 palestinianos.

O bombardeamento implacável de Gaza pelas forças israelitas, o nível de vítimas civis e a destruição por grosso de bairros continuam a aumentar e são profundamente alarmantes.

Choro e honro as dezenas de colegas da ONU que trabalharam para a UNRWA — infelizmente, pelo menos 35 e a contar — mortos no bombardeamento de Gaza nas últimas duas semanas.

Devo às suas famílias a minha condenação destes e muitos outros assassinatos semelhantes.

A proteção de civis é primordial em qualquer conflito armado.

Proteger civis nunca significa usá-los como escudos humanos.

Proteger civis não significa ordenar que mais de um milhão de pessoas evacuem para o sul, onde não há abrigo, nem comida, nem água, nem remédios e nem combustível, e depois continuar a bombardear o próprio sul. Estou profundamente preocupado com as claras violações do direito humanitário internacional a que estamos a assistir em Gaza.

Deixe-me ser claro: nenhuma parte num conflito armado está acima do direito humanitário internacional. Felizmente, alguma ajuda humanitária está finalmente a entrar em Gaza.

Mas é uma gota de ajuda num oceano de necessidade. Além disso, os nossos abastecimentos de combustível da ONU em Gaza esgotarão numa questão de dias. Isso seria outro desastre.

Sem combustível, a ajuda não pode ser entregue, os hospitais não terão energia, e a água potável não pode ser purificada ou mesmo bombeada.

O povo de Gaza precisa de uma prestação contínua de ajuda a um nível que corresponda às enormes necessidades. Essa ajuda deve ser prestada sem restrições.

Saúdo os nossos colegas da ONU e parceiros humanitários em Gaza a trabalhar em condições perigosas e a arriscar as suas vidas para prestar ajuda àqueles que precisam. Eles são uma inspiração.

Para aliviar o sofrimento épico, tornar a entrega da ajuda mais fácil e mais segura e facilitar a libertação de reféns, reitero o meu apelo a um cessar-fogo humanitário imediato.

Mesmo neste momento de perigo grave e imediato, não podemos perder de vista a única base realista para uma verdadeira paz e estabilidade: uma solução de dois Estados.

Os Israelitas devem ver as suas necessidades legítimas de segurança materializadas, e os Palestinianos devem ver as suas aspirações legítimas para um Estado independente realizadas, em consonância com as resoluções das Nações Unidas, o direito internacional e os acordos anteriores. Finalmente, temos de ser claros quanto ao princípio da defesa da dignidade humana.

Polarização e desumanização estão sendo alimentadas por um tsunami de desinformação.

Temos de enfrentar as forças do anti-semitismo, fanatismo anti-muçulmano e todas as formas de ódio. Hoje é o Dia das Nações Unidas, completando 78 anos desde que a Carta da ONU entrou em vigor.

Essa Carta reflecte o nosso compromisso comum de promover a paz, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos.

Neste Dia da ONU, nesta hora crítica, apelo a todos para que se retirem da beira antes que a violência ceife ainda mais vidas e se espalhe ainda mais.

Muito obrigado»

(Tradução publicada por Alexandra Lucas Coelho no Facebook. Texto em inglês AQUI.
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18.10.23

Veto dos EUA no Conselho de Segurança

 



«O texto condenava toda a violência e hostilidades contra civis e todos os atos de terrorismo e apelava à libertação imediata e incondicional de todos os reféns. A resolução proposta pelo Brasil pedia ainda pausas no conflito que permitissem o acesso de ajuda humanitária à Faixa de Gaza, região onde a guerra está concentrada.»

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12.10.23

12.10.1960 – A sapatada de Nikita

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Continuar a ler e ver um vídeo AQUI.
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20.9.23

"Não tenho poder nenhum", diz António Guterres



 

«Quando Amanpour lhe perguntou de que poder dispõe para fazer o que tem de ser feito, respondeu simplesmente: "Não tenho poder nenhum". "Nem sobre as decisões, nem sobre o financiamento. Tenho apenas o poder da palavra." (…)

Hoje, as divisões entre as grandes potências atingem um grau "a que nunca assistimos antes". As potências a que se refere Guterres são, em primeiro lugar, os membros permanentes do Conselho de Segurança, os únicos que têm o direito de veto. Estas "profundas divisões geopolíticas" paralisam quase todas as iniciativas da ONU para tentar minorar os males do mundo, apontados nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, mas também para poder intermediar a favor da paz. "Nem no tempo da Guerra Fria?", perguntou Amanpour. Nessa altura, respondeu-lhe o seu interlocutor, quando imperava o confronto planetário entre os EUA e a União Soviética, "era difícil, mas sabia-se com que contar. A previsibilidade era maior, hoje há muito maior incerteza".»

Teresa de Sousa
Newsletter do Público, 19.09.2023
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14.12.22

14.12.1962 – Forte condenação de Portugal na ONU

 


No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insistiu na condenação da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).
 
Qual o seu âmbito? Ver as medidas que Portugal deveria adoptar, AQUI.
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12.10.22

12.10.1960 – A sapatada de Nikita

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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