3.1.26

Gaza no Inverno

 


«Na Faixa de Gaza, os sobreviventes da guerra enfrentam agora o mau tempo, sem condições mínimas para se protegerem. Chuvas intensas, ventos fortes e quedas acentuadas de temperatura tornam o quotidiano de quem vive neste território palestiniano uma redobrada luta pela sobrevivência.

“A cada tempestade de inverno, o sofrimento de Gaza transforma-se num desastre humanitário a céu aberto. A chuva, que deveria ser uma bênção, tornou-se uma fonte diária de medo para milhares de famílias que vivem sem abrigo adequado”, testemunha ao Expresso Asma Mustafa, uma professora de 39 anos, que vive atualmente numa tenda na zona de Nuseirat, no centro de Gaza.»


Mia Couto

 


Venezuela

 


𝐄𝐬𝐭𝐚 𝐚𝐜çã𝐨 𝐝𝐞 𝐓𝐫𝐮𝐦𝐩 é 𝐮𝐦 𝐦𝐚𝐫𝐜𝐨 𝐜𝐮𝐣𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐧𝐞𝐦 𝐬𝐨𝐦𝐨𝐬 𝐜𝐚𝐩𝐚𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐢𝐧𝐚𝐫.

Peniche, 03.01.1960 – A Fuga

 


Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Fortaleza de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960, numa iniciativa absolutamente espectacular.

«Mesmo que, por qualquer motivo, a fuga tivesse sido abortada na sua segunda fase – o trajecto para os esconderijos na zona de Lisboa -, nem por isso deixaria de poder ser considerada um enorme sucesso político para o PCP e um momento alto contra o regime de Salazar. Poucas fugas de carácter político se lhe podem comparar, mesmo incluindo as mais célebres fugas ocorridas durante a II Guerra Mundial. Na história do movimento comunista, é um acontecimento ímpar.»
José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), volume 3, p.724.

(Desenho de Margarida Tengarrinha, onde pode ser visto o percurso da fuga.)


...

Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses

 


«Como a memória é uma coisa muito frágil — entre outras razões, porque ter ou não ter memória é uma questão central da política —, vale a pena revisitar memórias que nos ajudam muito a perceber o que se passa nos nossos dias com a questão da imigração.

O título deste artigo é deliberadamente provocatório, mas a razão por que provoca é conter uma memória incómoda, a do facto de que também os portugueses foram um povo de emigrantes durante grande parte dos últimos 150 anos. E o que acontece hoje aos imigrantes aconteceu connosco há bem pouco tempo. Não foi sempre o mesmo, nem sempre para os mesmos locais de destino, mas com vantagem dos portugueses, por serem brancos e católicos, e não “monhés” e muçulmanos. E também porque o panorama político era diferente e isso moderava de algum modo a hostilidade aos imigrantes. Havia os émulos dos negreiros alentejanos, dos polícias comprados, das redes clandestinas das duas nacionalidades, a de cá e a de lá, mas não havia Trump, nem Musk, nem AfD, nem Vox, nem Chega, com a relevância e força que têm hoje. Havia pieds-noir e retornados, mas moviam-se numa franja percebida pela opinião como radical e minoritária.

Mas muita coisa era comum, a começar pela motivação da emigração — simplesmente viver melhor, quer nos que foram, quer nos que ficaram, unidos pelo laço das remessas para Portugal. Essa é uma motivação digna, que hoje vilipendiamos por todos os meios, porque a maldade, a falta de empatia fazem parte de vários programas políticos e da conversa mesquinha de café que hoje alimenta as redes sociais.

Por isso, convém lembrarmo-nos das centenas de milhares de portugueses que de mala à cabeça atravessaram ilegalmente duas fronteiras para, no nosso exemplo escolhido, a França, chegar aos bidonvilles dos arredores de Paris e trabalhar no duro, principalmente no “batimento”, na construção civil. A inspiração para este artigo foi abrir uma mala, uma valise de carton, que pertence ao espólio de José Carlos Ferreira de Almeida que se encontra no Arquivo Ephemera, um pioneiro do estudo da emigração. Essa mala contém uma das fontes do seu trabalho, muitas centenas de recortes de jornais portugueses, do Algarve a Trás-os-Montes, sobre os anos mais duros da emigração para França, a primeira década dos anos 60.

O que nos dizem esses recortes que, convém não esquecer, passaram na censura? Que há tanta coisa de parecido com tudo o que é o actual discurso anti-imigrantes, um dos mais fortes pontos programáticos do Chega para o Governo, nos últimos anos! Eu disse “parecido”, não disse igual, a começar, porque hoje a situação é pior, há atitudes idênticas, há problemas idênticos, há hostilidades idênticas, há racismo idêntico, mas sempre em pior. A intensidade da hostilidade aos “outros”, fosse aos pobres lavradores portugueses com as mãos encardidas e com os fatos coçados, seja aos jovens escuros com a mochila às costas e que nas sextas-feiras rezam na rua, é hoje, no segundo caso, muito mais forte e popular.

O que é que nos dizem os recortes? Muito de semelhante, que a exploração dos emigrantes começava em Portugal com os engajadores e prolongava-se em França com as redes de habitação e emprego organizadas por franceses. Que passavam as fronteiras “vestidos com dois pares de calças e camisas”, a roupa que se levava. Que se podia ter como habitação “uma carrinha que é quarto de dormir de 17 pessoas”, que havia uma máfia luso-francesa na exploração das barracas, que a emigração clandestina é um terreno ideal para o crime. Que a situação era pior para as mulheres, como de costume:

“Muitas dessas raparigas fogem para França. Sujeitam-se aos dramas da clandestinidade. Entregam-se aos gangster-engajadores. Estes roubam-lhes tudo: dinheiro e honra. Muitas chegam grávidas e despojadas de tudo quanto tinham”, escrevia o Comércio de Portimão, em 1966.

Que a vida na emigração era de “sofrimentos, injustiças e andanças várias”, assentes na exploração do trabalho dos portugueses que ganhavam mais em França do que em Portugal, mas muito abaixo dos franceses para o mesmo trabalho, sem regras, nem horários. Que para obterem um documento esperavam sete horas (hoje é pior), tendo de se deslocar centenas de quilómetros, com a polícia francesa à perna. E que os franceses olhavam para os portugueses como os habituais feios, porcos e maus, que, para espanto dos franceses, assavam uma sardinha em papel de jornal, escreve o Jornal do Comércio. O livro de Nuno Rocha publicado em 1965 tem um título que diz tudo: França, A Emigração Dolorosa.

Esta era a informação que chegava a Portugal, mas, à medida que começa um outro padrão da emigração, o dos exilados que fugiam à guerra, com a crescente presença de organizações da esquerda e o interesse das centrais sindicais e partidos políticos franceses, acumulou-se informação mais concreta sobre as condições de vida e trabalho dos imigrantes, que não tinha censura. Com excepção das organizações da Igreja que acompanhavam os imigrantes nas suas “missões”, as instituições da ditadura, como sempre, pouco faziam pelos emigrantes, que, em vez de irem colonizar Angola e Moçambique, fugiam ilegalmente para França. Mas gostavam das remessas dos emigrantes. É por isso que a falta deliberada de memória esconde a pior das hipocrisias.»


2.1.26

NY: tomada de posse de Zohran Mamdani

 




Catarina Martins, hoje, no Debate da Rádio

 


A Duas Voltas

 



Os autores dos cinco episódios, Paulo Pena e Ivan Nunes, não me deixavam dúvidas quanto à qualidade no que era anunciado. E esta confirmou-se.

São cinco episódios, na RTP Notícias, sempre às 22h, de 1 a 5 de Janeiro. Passa hoje o segundo (e o pimeiro já está na RTP Play).

Era o mínimo que Marcelo devia fazer

 


«O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, devolveu ao Governo três decretos aprovados em Conselho de Ministros que o Executivo queria que entrassem em vigor no início do ano. Em causa estão várias mudanças importantes no funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nomeadamente as novas regras para os tarefeiros, a criação das urgências regionais na obstetrícia e o novo sistema de gestão de listas de espera que vem substituir o tão criticado SIGIC.»

Ler notícia detalhada AQUI.

Principais destaques do que não se destacou

 


«Enquanto todos os jornais se entretêm a fazer o balanço do que aconteceu em 2025, eu dedico-me à mais útil tarefa de fazer o balanço do que não aconteceu. Dá trabalho, porque o universo das coisas que não aconteceram é muito maior, o que talvez afaste os preguiçosos. Creio que, quando falamos do que não aconteceu este ano, teremos de destacar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Spinumviva que o Chega prometeu pedir, independentemente do que acontecesse nas eleições. Até agora não foi pedida e, tendo em conta a velha instituição portuguesa conhecida como “depois mete-se o Natal”, é improvável que possa ser pedida antes de 2026. Do mesmo modo, deve registar-se a não ocorrência da CPI potestativa aos incêndios, prometida igualmente pelo Chega. Por muito que o problema dos incêndios tenha sido em grande medida solucionado quando Ventura apagou uma labareda com um ramo de árvore, o certo é que o Chega ameaçou com a convocatória de uma CPI que não chegou a ocorrer.

Do mesmo modo, não ocorreram também as eleições presidenciais — o que é normal, visto estarem marcadas para 18 de Janeiro. Mas parecem já ter ocorrido, tal a frequência com que Ventura alega ter vencido a primeira volta. Sempre que algum adversário lhe lembra que concorre a todos os cargos com excepção da eleição para chefe de turma do 7º-B da C+S de Alcabideche, o presidente do Chega responde que, de acordo com as sondagens, está em primeiro lugar, pelo que o povo português deseja que ele concorra e seja eleito Presidente. Sucede que as mesmas sondagens indicam que, entre os candidatos capazes de atingir a segunda volta, Ventura é o único que não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República. Um fenómeno que o próprio explica da seguinte forma: “Eles vão unir-se todos contra mim.” Com a palavra “eles” Ventura refere-se a três quartos do povo português. São esses “eles” que têm declarado não votar em André Ventura seja quem for o seu adversário. Os inimigos de quem diz falar em nome do povo são três quartos do povo, coisa que talvez seja difícil de explicar.

Não tendo ainda sido realizadas as presidenciais, também não ocorreu a vitória de qualquer dos candidatos, que não puderam ainda cumprir as suas promessas. Uma das mais curiosas é de Marques Mendes, que prometeu nomear um jovem para o Conselho de Estado. Não disse qual, porque, ao que parece, não interessa. O importante é estar lá uma pessoa de determinada faixa etária. Não está em causa o que pensa o novo conselheiro, só interessa que seja um conselheiro novo. Sou a favor deste modelo que dá atenção ao que as pessoas são, e não ao que as pessoas pensam. Tenho sentido a falta de ruivos no Conselho de Estado. E de carecas também. Na qualidade de careca, não me tenho sentido representado. Talvez um jovem ruivo careca possa ser escolhido, para bem de Portugal.»


1.1.26

Chico

 



E o horror continua

 


«Trinta e sete organizações não-governamentais (ONG), incluindo os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Oxfam, não cumpriram os novos requisitos legais para manter as suas atividades humanitárias nos territórios palestinianos ocupados, informou hoje o Governo israelita. (…)

Sem este registo, as ONG não podem incluir funcionários internacionais com conhecimentos técnicos, por exemplo, nas áreas da saúde, água ou saneamento, nem transportar bens essenciais de ajuda humanitária através das fronteiras controladas por Israel para a Faixa de Gaza ou Cisjordânia.»


Sempre nesta data

 


No primeiro dia do ano, era por volta do meio dia que abríamos o rádio para não perdermos a pérola do ano que 𝐀𝐦é𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐓𝐨𝐦á𝐬 nos oferecia. Há mais, mas fica aqui esta.

Outra: «Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.» (01.01.1966)


Bom Dia

 


31.12.25

E todos os anos até lá!

 


Futuro

 


Marques Mendes, o imparcial

 


31.12.1968 – Uma vigília contra a Guerra Colonial

 

(Cabeçalho da convocatória para a Vigília)


Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva de católicos contra a Guerra Colonial, numa actividade formalmente «disciplinada». Com efeito, o papa Paulo VI decretara, em 8 de Dezembro, que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como Dia Mundial pela Paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva. 

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do numeroso grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília: 

«1º – Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um “dia da paz” desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África. 
2º – Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.
3º – Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.» 

Entregaram-lhe também um longo comunicado que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa». 

Apesar de algumas objecções, o cardeal não se opôs a que permanecessem na igreja, ressalvando «a necessidade de uma atitude de aceitação da pluralidade de posições». Pluralidade não houve nenhuma: até às 5:30, foram discutidos todos os temas previstos e conhecidos vários testemunhos, orais ou escritos, sobre situações de guerra na Guiné, Angola e Moçambique. 

Hoje tudo isto parece trivial, mas estava então bem longe de o ser. Aliás, seguiu-se uma guerra de comunicados entre Cerejeira e os participantes na vigília, que seria fastidioso analisar aqui. Mas vale a pena referir que, com data de 8 de Janeiro, uma nota do Patriarcado denunciou «o carácter tendencioso da reunião», terminando com um parágrafo suficientemente esclarecedor para dispensar comentários: 

«Manifestações como esta que acabam por causar grave prejuízo à causa da Igreja e da verdadeira Paz, pelo clima de confusão, indisciplina e revolta que alimentam, são condenáveis; e é de lamentar que apareçam comprometidos com elas alguns membros do clero que, por vocação e missão deveriam ser, não os contestadores da palavra dos seus Bispos, mas os seus leais transmissores». 

A PIDE esteve presente (há disso notícia em processo na Torre do Tombo), mas não houve qualquer intervenção policial. Alguns jornais (Capital e Diário Popular) noticiaram o evento, mas sem se referirem ao tema da Guerra Colonial – terão provavelmente tentado sem que a censura deixasse passar… A imprensa estrangeira, nomeadamente algumas revistas e jornais franceses, deram grande relevo ao acontecimento. E foi forte a repercussão nos meios católicos. 

Para quem esteve presente em S. Domingos, como foi o meu caso, essa noite ficará para sempre ligada à Cantata da Paz, hoje tão conhecida, mas que poucos identificam com a sua origem. Com versos propositadamente escritos para essa noite por Sophia de Mello Breyner, e com música de Francisco Fernandes, foi então estreada por Francisco Fanhais. (Quantas vezes a terá cantado depois disso, nem ele certamente o saberá…) 



P.S. – Quatro anos mais tarde realizou-se uma outra vigília pela paz na Capela do Rato, com consequências bem mais gravosas porque envolveu uma greve de fome, prisões e despedimentos da função pública.
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Conselho de Estado: quando a arrogância do governo esbarra com a irrelevância do Presidente

 


«Apesar de terem passado meses desde o início dos trabalhos parlamentares, a Assembleia da República ainda não elegeu os cinco conselheiros que lhe competem nesta legislatura. E é neste quadro de inércia que o Presidente, cansado de esperar, marcou a reunião de um Conselho de Estado desatualizado para 9 de janeiro.

Em plena campanha presidencial, com duas pessoas na dupla condição de conselheiros e candidatos presidenciais, o que deveria ser um órgão de consulta transforma-se em palco de campanha. A solução é óbvia: Marques Mendes e Ventura devem pedir escusa de participar. Ao dizer que são apenas três horas de intervalo na campanha, o candidato do governo reforça a incapacidade em perceber as fronteiras institucionais. A mesma que o leva a acreditar que ter sido lobista durante mais de uma década é politicamente irrelevante para o cargo que pretende ocupar.

Mais grave do que a sobreposição com a campanha, este Conselho de Estado é a última colisão entre a arrogância de quem governa como se não tivesse de prestar contas e a irrelevância a que o Presidente se deixou conduzir ao longo do mandato.

Mesmo informalmente, o governo tem vindo, através de declarações públicas, a assumir compromissos políticos, financeiros e até militares com a Ucrânia – contribuições diretas, participação em programas conjuntos de apoio militar e industrial no âmbito da UE e da NATO, disponibilidade para integrar missões de paz – que terão impacto futuro. A importância, o âmbito e a longevidade destes compromissos justificam um debate sério, que não existiu. Nem no Parlamento, nem com o Presidente da República, que a Constituição não coloca como figurante em matérias de política externa e de defesa.

É um padrão. O Parlamento serve para aprovar autorizações legislativas, o Presidente é um guichet para promulgações com quem não tem de existir qualquer coordenação, mesmo quando há partilha de poderes. Se isto é assim agora, imagine-se Montenegro com uma maioria parlamentar.

Marcelo acorda tarde. Depois de anos a confundir proximidade com autoridade e comentário com intervenção, tenta recuperar num gesto concentrado aquilo que foi esbanjando em recados e declarações de circunstância. Só que o poder presidencial não se reclama por decreto nem por convocatória tardia. Quando o Presidente se transforma em ruído de fundo, o governo aprende a ignorá-lo.

O resultado é um curto-circuito institucional. De um lado, um executivo que galopa sobre competências alheias, seguro de que ninguém o travará. Do outro, um presidente que descobre, no fim do mandato, que a função de árbitro não se exerce na convocatória, no pior momento possível, de um Conselho de Estado.

Este episódio também é um aviso aos eleitores. Num contexto em que a direita concentra o governo, dois terços do Parlamento, a maioria das câmaras, as regiões autónomas, e ainda se prepara para pôr juízes do Chega no Tribunal Constitucional, o maior risco não é a arrogância de quem governa, é a eleição de um sucessor sem autonomia para ser mais do que um delegado do governo em Belém. A Ucrânia é o tema. Mas o que está em jogo é outra coisa: se os portugueses decidirem, com todos estes indícios, eleger um presidente-adjunto, tudo isto se agravará.»


30.12.25

2026?

 


Presidenciais em ponto morto e não só

 



E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites, não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira


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Superioridade moral

 


«Rana Taslim Uddim foi taxativo: "Não vale a pena estar a correr atrás de extremistas. Se nós fizéssemos uma queixa, eles teriam mais oportunidades para espalhar ódios e xenofobia. Foi por essa razão que decidimos não colocar qualquer ação cível contra o Chega. Não vamos fazer uma luta contra eles. Deixamos assim como está." No entanto, salienta: "Nós não gostamos disto, destas frases de ódio contra nós. É uma vergonha. Mas há muitas pessoas que falam a favor da nossa comunidade, como políticos, intelectuais, escritores, etc."»


Ventura e a arte de dividir para reinar

 


«Para que 2026 seja um sucesso, basta-lhe passar à segunda volta das presidenciais, dentro de três semanas. Terá deixado para trás pelo menos um dos candidatos dos partidos do sistema, senão mesmo os dois, caso o almirante consiga sair do escorrega onde se meteu. Há quem pense que a aura se acaba depois de fevereiro, quando já não houver eleições para disputar, como se fosse verdade que ele precisa mais disso do que da vida a correr mal a quem detém o poder. Precisa de tempo para que vingue a ideia de que também este governo não será capaz de cumprir as expectativas que criou.

Ventura é um líder populista, eficaz na comunicação e melhor ainda a mobilizar as emoções dos desavindos. E são tantos. Sendo de extrema-direita e sem base programática, nem sequer um conjunto de ideias minimamente coerente, o Chega cresce na polarização da sociedade porque Ventura aparece como o verdadeiro líder dos que acham que o problema está nos imigrantes, nas minorias, no assistencialismo, nos sindicatos, nos excessos da esquerda. E são cada vez mais a pensar assim. Este fim de semana, no Expresso, Gorka Castillo dava conta de que “um em cada sete espanhóis cortou relações por desavenças políticas” É o resultado da polarização, que leva também a que três em cada cinco evitem falar de política com a família e amigos. Desconheço se existe algum estudo similar em Portugal, mas não me parece que se concluíssem coisas muito diferentes, se fosse feito.

As redes sociais são a sementeira, mas há uma relação de dependência entre os media e André Ventura que ajuda a explicar o sucesso do político, tanto quanto ajuda a explicar a degradação do debate nas democracias. As sucessivas entrevistas do líder do Chega nos canais de notícias acontecem porque ele dá audiências, confirmadas pelos três debates mais vistos, com Ventura a fazer o pleno, mas as audiências existem porque o artista transforma tudo num combate de wrestling. É comum ver Ventura procurar transformar entrevistas em debates com o jornalista, para depois se vitimizar e acusar o entrevistador e o canal televisivo de o tratarem mal e discriminarem o Chega — acontece sempre que o jornalista tem de o desmentir. É comum vê-lo ignorar olimpicamente as perguntas que lhe são feitas para debitar apenas o que lhe interessa. Na linha dos longos diretos a que nos habituámos a assistir sempre que Ventura ou o partido dele estão envolvidos numa polémica.

Ventura, que aparece aos olhos dos seus eleitores como o único que diz as verdades que têm de ser ditas, mente com demasiada facilidade, manipula sem peso nenhum na consciência, defende a liberdade de expressão apenas para si próprio. Tudo junto, significa que André Ventura é um político que, se um dia tiver o poder, vai perseguir implacavelmente os seus opositores. Venci recentemente no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa uma acção colocada pelo Chega e André Ventura por ofensas ao bom nome, a propósito de dois artigos de opinião (DN e Expresso), em que alego que os discursos políticos sobre os imigrantes e as minorias têm consequências. O político que rasga as vestes para falar de liberdade de expressão não aceita sequer ser criticado pelo que diz. Avoco esta sentença para poder retirar de um desses artigos a parte em que fazia uma crítica também ao modo como a comunicação social sempre se relacionou com Ventura:

“O papel da comunicação social não pode […] assentar numa ambiguidade. O respeito pelas regras da profissão, designadamente o dever de não contribuir para a normalização do discurso de ódio, não concorre com a ambição das melhores audiências. Não há jornalismo sem regras, nem jornalismo com boas audiências sem ser bom jornalismo […] Em nome da necessidade inquestionável de pluralismo e isenção, o discurso político do Chega deve ter espaço na comunicação social, mas isso não pode nunca significar que o discurso de ódio contra determinadas nacionalidades, etnias ou raças passe incólume.”

Aqui chegados, devo dizer que, se continuarmos viciados nas polémicas criadas por Ventura, não tenho grandes dúvidas de que, em 2026, vamos ter como político do ano o mesmo que tivemos em 2025. E com uma capacidade ainda maior de dividir a sociedade portuguesa e influenciar a agenda do governo.»


29.12.25

Se não fora não querer

 


Lavagem à medida da nossa sujidade

 

«As alegrias nas nossas vidas podem nem sempre estar ligadas a grandes conquistas, nossas ou de quem nos é querido, a paixões assolapadas, aos golos da nossa equipa ou, sejamos honestos, aos golos sofridos pelos nossos adversários, mesmo face a clubes que não o nosso. Podemos exultar com sucessos profissionais, deleitar-nos com uma peça musical, maravilhar-nos com uma deslumbrante paisagem, mas também é natural que coisas prosaicas nos encham de júbilo. Neste momento, estou feliz por, ao cabo de quatro dias, já tirar pleno partido da máquina de lavar e secar roupa que me vi forçado a adquirir, por via do falecimento da sua esforçada antecessora, essa apenas lavadeira. (…)

Ora, vejamos onde nos coloca a transição de 2025 para 2026. Estamos exatamente entre o festival de insanidade do presidente dos Estados Unidos, que não é preocupante apenas para os cidadãos daquele país, e a reta final para eleger um novo presidente da República Portuguesa, que só aos portugueses poderá interessar. É nesse contexto que, embora despido dos poderes mediúnicos de Zandinga e sem força para mudar o Mundo, deixo o meu singelo contributo de resoluções para o Ano Novo, baseadas na experiência enunciada a abrir esta crónica. Usar a máquina de lavar, comprovadamente eficaz, não na sociedade em geral, que se quer diversa e participada, mas entre os atores políticos, levando na enxurrada das águas residuais toda a retórica fascizante e alimentadora de ódios que nos impede de viver numa terra feliz. E dar uso ao corta-unhas, aparando as garras dos gatinhos remelentos que se fazem passar por leões da lusitanidade.»

Texto na íntegra AQUI.

Estados Unidos e ONU

 


«Os Estados Unidos anunciaram esta segunda-feira dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) para a ajuda humanitária da ONU — um décimo do financiamento anual que vinham a garantir nos últimos anos.

Nos últimos exercícios, o apoio humanitário norte-americano a programas das Nações Unidas atingiu cerca de 17 mil milhões de dólares anuais (14,5 mil milhões de euros), segundo dados da própria organização. Do total, entre oito e dez mil milhões correspondiam a contribuições voluntárias, a que se somam milhares de milhões pagos em quotas associadas à participação dos EUA na ONU.»


O acordo nada secreto entre Moedas e Ventura

 


«Entre as luzes do Natal e o ruído do final de ano, confirmou-se uma evidência: há um acordo de governação entre o PSD e o Chega na Câmara de Lisboa. O “não é não” de Luís Montenegro, se fosse um dique, já teria inundado o país inteiro. Mas o primeiro a abrir deliberadamente as comportas foi Carlos Moedas, que se apresentava como obstáculo ao triunfo do extremismo político em Lisboa.

Desconfiei do que aí vinha quando foi anunciada a escolha de uma figura secundaríssima do partido para concorrer à capital e se soube de uma reunião entre André Ventura e Carlos Moedas, numa sala do Palácio de Belém, depois de um Conselho de Estado. Na altura, disse-se que entendimentos com o Chega, para viabilizar uma maioria, eram improváveis, por evidente incompatibilidade. Otimismo de quem acha que Moedas é um homem de princípios firmes. Raramente alguém com a relação que ele tem com a verdade é movido por valores. Porque há uma relação entre as duas coisas. A mitomania torna, aliás, Moedas e Ventura absolutamente compatíveis.

Em apenas dois meses, já tivemos nomeações de candidatos do Chega para a direção dos serviços sociais da Câmara de Lisboa e de empresas municipais, um regimento que limita os poderes da oposição aprovado pelo Chega, um orçamento para 2026 negociado com a extrema-direita e a integração de propostas abertamente inconstitucionais nas Grandes Opções do Plano. Enquanto Moedas se remete a um silêncio frio e calculado, à espera de que a época natalícia consuma a atenção dos lisboetas, é o vereador do Chega que vai relatando as conquistas do partido.

A evidência do acordo viu-se na estranhíssima primeira reunião do executivo. É nessa reunião que se delibera que matérias são decididas nas reuniões de vereação e quais são da competência exclusiva do presidente. A votação do Chega foi favorável a uma concentração inédita de poderes nas mãos de Carlos Moedas e à mudança de regimento, que retirou espaço à oposição. É invulgar um partido votar para ter menos poder, abdicando de competências que outras vereações sempre reclamaram. A menos, claro, que os vereadores do Chega soubessem que participariam nas decisões essenciais.

TRÊS VITÓRIAS PARA O CHEGA

A forma como Moedas apresentou o orçamento confirmou o caminho escolhido. Não houve tentativa de negociação com o PS e fizeram-se cortes em áreas que sempre foram linhas vermelhas para os socialistas. Em contrapartida, cedeu mais ao Chega em semanas do que ao PS nos últimos quatro anos.

A aproximação é programática. Numa cidade estrangulada pelo preço da habitação, e quando a própria Comissão Europeia estabelece uma relação direta entre o Alojamento Local e o crescimento do preço das casas, PSD e Chega uniram-se para travar as já tímidas medidas de regulação do Alojamento Local. Quem acompanhe a investigação jornalística sobre o financiamento do Chega feita por Miguel Carvalho sabe da importância destes setores no financiamento do partido.

A outra exigência do Chega, já tornada pública, é limitar às crianças portuguesas o apoio municipal a todas as famílias que não consigam vaga numa creche financiada pelo Estado. A proposta é flagrantemente inconstitucional, como toda a oposição fez notar, na medida em que viola de forma grosseira o princípio da igualdade. Portugueses e estrangeiros pagam os mesmos impostos e taxas municipais. Para deveres iguais, direitos iguais. Para a Câmara, o critério relevante é simples: viver na cidade, num dos poucos órgãos nacionais em que os imigrantes até têm direito a voto. Para a constituição é a igualdade perante a lei.

A terceira e a mais relevante cedência é acompanhar o programa eleitoral do Chega, que trabalha para os seus financiadores imobiliários, ao vender até metade das cerca de 21 mil casas geridas pela Gebalis. No contexto da maior crise habitacional desde os anos 80, e quando Lisboa apresenta a pior relação entre rendimentos e preços da habitação de todas as principais cidades europeias, a solução de Moedas e do Chega é delapidar o já escasso parque público. Não podemos elogiar os exemplos de Viena ou Amesterdão, onde a habitação pública representa 40% ou 30% do total da oferta, e repetir o erro da EPUL, vendendo a habitação pública em vez de construir para arrendar.

O aluguer permite fazer a rotação dos destinatários do investimento público, para garantir oportunidades aos jovens e ter uma cidade que não expulsa as suas classes médias e profissionais essenciais, como professores, polícias ou enfermeiros. O último empreendimento construído pela EPUL, no Martim Moniz, está entregue ao Alojamento Local. De que serve construir novas habitações acessíveis se, ao mesmo tempo, se perde stock público que podia servir as gerações de futuros jovens? É verdade que Costa e Medina também alienaram património. Mal, mas o contexto era diferente. Não vivíamos uma crise de habitação com esta violência e nunca foi feito nesta escala.

COMEÇOU A MAMA

Depois vieram as nomeações. A primeira foi para a direção dos serviços sociais da CML, com a escolha de uma candidata do Chega em Lisboa, “influencer” conhecida pelas suas posições xenófobas e provocatórias. Foi apresentada por Bruno Mascarenhas como prova de que “já não há linhas vermelhas” para o partido na autarquia.

A segunda, ainda mais significativa, também anunciada por Mascarenhas e nunca desmentida por Moedas, é a entrada de um representante do Chega para administrar a empresa que gere os bairros municipais em Lisboa.

Bruno Mascarenhas garante que não estão a negociar “tachos”, acusação que faria em décimos de segundo se estivesse a falar de outros partidos. Apenas não confia em terceiros para aplicar as suas políticas. Mas, mais do que programa, o Chega tem um exército de desempregados políticos, que encontraram num novo e promissor partido o seu centro de emprego, e esperam que lhes seja oferecida a generosa mama do Estado.»


28.12.25

Morcegos?

 


Vaso Morcego, Art Nouveau/Art Deco, MAD Paris. Cerca de 1909.
Henri Husson.

Daqui.

O menos mau? Assim vamos…

 


«Augusto Santos Silva considera que nenhuma das candidaturas às eleições presidenciais cumpre plenamente os requisitos necessários para exercer o cargo de Presidente da República, mas admite que António José Seguro é o nome que mais se aproxima desse perfil. O antigo presidente da Assembleia da República recusa, ainda assim, declarar apoio formal a qualquer candidato, por considerar que fazê-lo seria incoerente com posições assumidas no passado.»


A utilização dos “interesses” dos jovens como propaganda ideológica

 


«É comum, no todo do espetro político, uma instrumentalização dos “interesses da juventude”, para fazer passar uma corrente ideológica. Ora, isto não é nada de novo, desde sempre que tanto a esquerda como a direita focam o seu debate e a sua campanha nas condições dos jovens portugueses, pegando em questões como o ensino, a habitação, e a emigração. O tema dos jovens sempre foi e será utilizado para fins de propaganda, muitas vezes mal fundamentados e algo sensacionalistas, como a mítica e secular frase: “A juventude já não quer trabalhar”.

Existem dois grandes problemas no tema da juventude.

O primeiro refere-se ao suposto silêncio da atividade política da juventude. Parece haver uma evasão, por parte dos noticiários, à presença dos jovens em atividades políticas, nomeadamente àquelas que se enquadram no espetro da esquerda. Exemplo disso foi a recente luta pelo fim à propina no passado dia 28 de outubro, que reuniu milhares de jovens de todo o país e que se manifestaram em frente da AR durante um tenebroso temporal. Esta teve, no geral, pouca atenção mediática, que parece ter sido desviada, como de costume, para a conduta do Chega no parlamento, ou neste caso, na discussão do OE. Outro exemplo foi a passada greve geral, no dia 11 de dezembro, que reuniu um vasto número de jovens, tanto na manifestação em si, como nos piquetes de greve. A sua participação foi, no entanto, reduzida pelos meios de comunicação aos protestos do final da tarde em frente à AR.

Este silêncio contribui para fomentar a ideia de que os jovens estão alienados do mundo da política, reforçada por análises constantes, nem sempre fundamentadas, de que a juventude está a virar à direita e que muitos jovens preferem, nos dias de hoje, conformar-se à política das redes sociais e de entretenimento, dominada pelo debate sensacionalista e, no contexto português, pelo Chega. Isto é, na sua essência, uma falsidade. Os jovens continuam a ter uma grande capacidade de mobilização e de ativismo em várias frentes, isso apenas não nos é mostrado.

Ora, sendo os jovens, ao longo da história contemporânea, uma das grandes entidades mobilizadoras das lutas sociais, a partir do momento em que é construída a noção de que estes desmobilizaram em favor da atividade, mais ou menos passiva, na esfera digital, cria-se, intencionalmente, a ideia de que a luta social morreu e que esta não só acontece apenas no campo digital, como é liderada pela direita radical.

Tudo isto traz duas consequências: o crescimento da direita radical, na medida em que esta prevalece nas redes sociais; e o facto de que o silenciamento dos jovens é benéfico para a “outra direita”, simplesmente pela sua voz, tal como as suas manifestações, não lhes serem convenientes.

O segundo problema tem que ver com a campanha dos comentadores que dominam o espaço público e que agravam o problema do silenciamento dos jovens através do ato de sobreposição. Há uma obstinação do comentário político falar em nome dos mesmos, para além de inúmeras tentativas de evocar o que são os interesses dos jovens. Este ponto, ao contrário do anterior, não é exclusivo à direita, mas sim inerente a todo o espetro político, excetuando alguns que dão genuína voz aos jovens.

Para estes, é mais importante falar-se do que se acha que os jovens querem do que destacar os seus problemas e ouvir as suas reivindicações, para não falar dos disparates de que os jovens já não querem estabilidade e trabalhar num determinado sítio a vida inteira, ou de que os jovens estão a desviar-se do ensino superior para fazer dinheiro e dedicarem-se ao empreendedorismo.

Talvez fosse mais vantajoso que os comentadores se dedicassem à análise do porquê destes problemas, ao invés de apenas comentarem sem fundamento absolutamente algum.

Os jovens demonstram todos os dias e de diversas formas quais são, exatamente, as suas verdadeiras adversidades e reivindicações.

Por isso, é importante que a política não gire em torno de uma retórica fácil e repetida vezes sem conta. Se os jovens gritam não será melhor ouvi-los e tentar compreendê-los em vez de querer impor ideias feitas e destituídas de realidade?»


António Guterres