2.1.26

Principais destaques do que não se destacou

 


«Enquanto todos os jornais se entretêm a fazer o balanço do que aconteceu em 2025, eu dedico-me à mais útil tarefa de fazer o balanço do que não aconteceu. Dá trabalho, porque o universo das coisas que não aconteceram é muito maior, o que talvez afaste os preguiçosos. Creio que, quando falamos do que não aconteceu este ano, teremos de destacar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Spinumviva que o Chega prometeu pedir, independentemente do que acontecesse nas eleições. Até agora não foi pedida e, tendo em conta a velha instituição portuguesa conhecida como “depois mete-se o Natal”, é improvável que possa ser pedida antes de 2026. Do mesmo modo, deve registar-se a não ocorrência da CPI potestativa aos incêndios, prometida igualmente pelo Chega. Por muito que o problema dos incêndios tenha sido em grande medida solucionado quando Ventura apagou uma labareda com um ramo de árvore, o certo é que o Chega ameaçou com a convocatória de uma CPI que não chegou a ocorrer.

Do mesmo modo, não ocorreram também as eleições presidenciais — o que é normal, visto estarem marcadas para 18 de Janeiro. Mas parecem já ter ocorrido, tal a frequência com que Ventura alega ter vencido a primeira volta. Sempre que algum adversário lhe lembra que concorre a todos os cargos com excepção da eleição para chefe de turma do 7º-B da C+S de Alcabideche, o presidente do Chega responde que, de acordo com as sondagens, está em primeiro lugar, pelo que o povo português deseja que ele concorra e seja eleito Presidente. Sucede que as mesmas sondagens indicam que, entre os candidatos capazes de atingir a segunda volta, Ventura é o único que não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República. Um fenómeno que o próprio explica da seguinte forma: “Eles vão unir-se todos contra mim.” Com a palavra “eles” Ventura refere-se a três quartos do povo português. São esses “eles” que têm declarado não votar em André Ventura seja quem for o seu adversário. Os inimigos de quem diz falar em nome do povo são três quartos do povo, coisa que talvez seja difícil de explicar.

Não tendo ainda sido realizadas as presidenciais, também não ocorreu a vitória de qualquer dos candidatos, que não puderam ainda cumprir as suas promessas. Uma das mais curiosas é de Marques Mendes, que prometeu nomear um jovem para o Conselho de Estado. Não disse qual, porque, ao que parece, não interessa. O importante é estar lá uma pessoa de determinada faixa etária. Não está em causa o que pensa o novo conselheiro, só interessa que seja um conselheiro novo. Sou a favor deste modelo que dá atenção ao que as pessoas são, e não ao que as pessoas pensam. Tenho sentido a falta de ruivos no Conselho de Estado. E de carecas também. Na qualidade de careca, não me tenho sentido representado. Talvez um jovem ruivo careca possa ser escolhido, para bem de Portugal.»


0 comments: