Depois das considerações sobre
a capa da Atlântico, um brevíssimo comentário ao artigo de Rui Ramos (RR) «O desprezo de Che Guevara» e algumas considerações de ordem pessoal.
Globalmente, acho absolutamente inadmissível que sejam postos no mesmo plano as acções e os efeitos das mesmas, nos casos de Hitler e de Che Guevara (CG). Adiante: já muitos disseram porquê.
Mais concretamente e para focar apenas um aspecto. Diz RR a páginas tantas:
«Convém recordar a época. Depois de 1956, do XX Congresso do PCUS e da invasão da Hungria, ninguém que quisesse ser levado a sério entre os intelectuais ocidentais podia entusiasmar-se com a URSS, como acontecera no tempo de Estaline. A revolução cubana mudou tudo isto.»
De acordo: nada voltou a ser como antes. Mas é precisamente esta realidade e a sua contextualização que RR perde de vista no artigo. Viveu-se uma verdadeira «revolução cultural» (não a de Mao, mas uma outra, bem ocidental, predominantemente latina) que veio para ficar, apesar de todos os erros e de todos os fracassos. Não vale a pena tentar riscá-la da História.
Não me alongo na análise do artigo. Ele está cheio de
sound bytes, mais ou menos bombásticos, que combinam bem com a capa. Por exemplo: RR defende que Cuba não era e se tornou um país pobre porque
«o papel de Guevara, no seu novo país, foi o de Mugabe no Zimbabué».Passo agora para um plano pessoal.
Quando Fidel tomou o poder, em Janeiro de 1959, eu estava a estudar na Bélgica. Num país sem censura, segui os acontecimentos mais pormenorizadamente do que poderia tê-lo feito em Portugal. Lovaina estava longe de ter um ambiente esquerdizante, mas o que é certo que os acontecimentos na América Latina foram seguidos com grande interesse e entusiasmo, numa população estudantil especialmente cosmopolita. Faziam parte do grupo dos meus amigos mais próximos alguns dos muitos húngaros que tinham fugido do seu país e pedido asilo político depois dos acontecimentos de 1956 e que alimentaram, entusiasticamente, a esperança de que, em Cuba, iria nascer um «mundo novo», diferente daquele de que tinham sido vítimas.
Estavam também iminentes a independência do Congo Belga e do Ruanda (que vieram a acontecer em 1960), muitos dos futuros ministros estudavam então em Lovaina e conheci-os pessoalmente, com todas as suas expectativas e limitações.
Em Roma, João XXIII, recentemente eleito, convocou o Concílio Vaticano II em 25 de Janeiro de 1959.
América Latina, África e a Igreja Católica pareciam então encaminhar-nos para amanhãs em que seria possível cantar. Infelizmente, o canto foi muitas vezes de cisnes.
Em Portugal,
vivia-se no triste rescaldo das eleições em que Humberto Delgado concorreu à Presidência da República, com todas as desilusões para quem tinha acreditado no fim da ditadura.
Os anos foram passando, regressei a Lisboa e quando Che Guevara morreu, em 1967, ele e outros (Camilo Torres, por exemplo) povoavam o imaginário de muita gente. Juntavam-se a muitos outros factores, como as (últimas) esperanças quanto aos efeitos do Concílio, as mensagens dos movimentos hippies, a música (nomeadamente dos Beatles) e viriam a desaguar no nosso entusiasmo com o Maio de 68 em França. Não haveria ainda T-
shirts, mas andavam por aí alguns toscos
posters.
Influenciaram, sem qualquer espécie de dúvida, muitas das acções de resistência ao fascismo – por exemplo, nas hostes dos chamados «católicos progressistas», nas quais então me movia.
Os ecos perduraram até hoje, no consumismo que entretanto invadiu tudo, com Che perpetuado em ícone, como tem sido exaustivamente descrito. Che e tudo o resto – «Jesus Cristo, superstar»
Mas não são só ecos. Em viagem recente à Namíbia, tive como guia do grupo em que ia integrada um angolano que, tendo ficado órfão em criança durante a guerra civil, foi levado para Havana por soldados cubanos. Por lá estudou até ao fim do secundário, regressou a África há alguns anos e foi parar à Namíbia. Ainda enverga quase todos os dias T-
shirts cubanas, algumas com o Che. Interpelado por nós quanto à situação política e à falta de liberdade em Cuba, sorria, encolhia os ombros e dizia: «Foram eles que me salvaram».
Avaliza isto, de algum modo, o regime de Fidel de Castro, o que se passou e passa, as prisões, a corrupção e a prostituição para que são empurradas as populações e tudo o resto? De todo.